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domingo, 25 de janeiro de 2009

(Israel) Do lado errado (da História)

Poema visual de Al Chaer: Jogo da Velha Faixa de Gaza

Do lado errado*

Uri Avnery, 24/1/2009

De todas as belas frases do discurso de posse de Barack Obama, as palavras que me ficaram na cabeça foram: "Vocês estão do lado errado da história."

Falava dos regimes tirânicos do mundo. Mas os israelenses também devem pensar sobre essas palavras.

Nos últimos dias, tenho ouvido muitas declarações de Ehud Barak, Tzipi Livni, Binyamin Netanyahu e Ehud Olmert. E, cada vez que as ouço, voltam-me à cabeça, para me assustar, aquelas palavras: "Vocês estão do lado errado da história."

Obama falou como homem do século 21. Em Israel, os líderes falam língua do século 19. São como os dinossauros, que tanto medo espalharam à sua volta e nem perceberam que seu tempo havia acabado.

DURANTE a emocionante cerimônia de posse, várias vezes falou-se do quadro multicolorido que é a família do novo presidente.

Todos os 43 presidentes, antes de Obama, foram brancos e protestantes, exceto John Kennedy, branco e católico. 38 deles são descendentes de imigrados das ilhas britânicas. Dos outros cinco, três são descendentes de holandeses (Theodor e Franklin D. Roosevelt e Martin van Buren) e dois, de alemães (Herbert Hoover e Dwight Eisenhower.)

A face da família Obama é muito diferente. Na família estendida há brancos e descendentes de escravos negros, africanos do Quênia, indonésios, chineses do Canadá, cristãos, muçulmanos e até um judeu (afro-norte-americano e judeu convertido). Os dois primeiros nomes do presidente, Barack Hussein, são árabes.

Essa é a face da nova nação norte-americana – uma mistura de raças, religiões, países de origem e cores de pele, uma sociedade aberta e diversa, de cujos cidadãos espera-se que sejam iguais e que se identifiquem com os "pais fundadores". O americano Barack Hussein Obama, filho de pai nascido numa vila do Quênia, pode falar com orgulho de "George Washington, pai de nossa nação", da "Revolução Americana" (a guerra de independência contra os ingleses) e lembrar o exemplo dos "nossos ancestrais" – os pioneiros brancos e os escravos negros que “suportaram o golpe do chicote". Essa é a percepção de uma nação moderna, multicultural e multirracial: todos os cidadãos norte-americanos são herdeiros de toda essa história.

Israel é produto do nacionalismo estreito do século 19, um nacionalismo fechado e excludente, baseado na origem étnica e racial, em sangue e terra. Israel é um "Estado judeu" e só é judeu quem nasça judeu ou converta-se conforme a lei judaica (Halakha). Como o Paquistão e a Arábia Saudita, Israel é um Estado cujo mundo mental é, em larga medida, limitado pela religião, pela raça e pela origem étnica.

Quando Ehud Barak fala sobre o futuro, fala a língua do passado, em termos de força bruta e ameaças brutais, com os exércitos como solução para todos os problemas. Essa foi também a língua do George W. Bush que semana passada desapareceu de Washington, língua que ainda soa nos ouvidos ocidentais, como eco de um passado velho.

As palavras do novo presidente vibram no ar: “Nosso poder, só ele, não pode proteger-nos, nem nos autoriza a fazer como queiramos.” As palavras-chave foram “humildade e moderação”.

Em Israel, os líderes vociferam sobre o que fizeram na guerra de Gaza, na qual Israel usou força sem qualquer moderação, intencionalmente, contra população civil, homens, mulheres e crianças, com o objetivo declarado de "manifestar poder de contenção". Na era que começou 3ª-feira passada, essas expressões só geram desmoderação.

ENTRE Israel e os EUA abriu-se uma ravina essa semana, ainda estreita, quase invisível – mas que pode alargar-se e converter-se em abismo.

Os primeiros sinais ainda são fracos. No discurso de posse, Obama disse que "Somos uma nação de cristãos, muçulmanos, judeus e indus – e de não-crentes."

Desde quanto? Desde quando os muçulmanos aparecem antes dos judeus? O que aconteceu com a "herança judaico-cristã"? (Expressão completamente falsa, para começar, porque o judaísmo é muito mais aparentado com o islamismo do que com o cristianismo. Por exemplo: judaísmo e islamismo não pregam a separação entre religião e Estado.)

Na manhã seguinte, Obama telefonou para vários líderes do Oriente Médio. Decidiu fazer um gesto inusitado: o primeiro telefonema foi para Máhmude Abbas, só depois telefonou a Olmert. A mídia israelense não consegue digerir isso. O Haaretz, por exemplo, ativamente falsificou a notícia e escreveu – não só uma, mas duas vezes na mesma edição – que Obama telefonou a “Olmert, Abbas, Mubarak e ao rei Abdallah” (nessa ordem).

Em vez do grupo de judeus norte-americanos que sempre foram encarregados do conflito Israel-Palestina durante os dois últimos governos, de Clinton e de Bush, Obama, logo no primeiro dia de governo, nomeou um árabe-norte-americano, George Mitchell, filho de mãe libanesa que chegou aos EUA com 18 anos; e o próprio Mitchell, órfão de pai irlandês, foi criado por uma família de cristãos maronitas libaneses.

Nenhuma dessas é boa notícias para os líderes israelenses. Nos últimos 42 anos, mantiveram uma política expansionista, de ocupação, e construíram colônias em estreita cooperação com Washington. Confiaram no apoio ilimitado dos EUA, do massivo aporte de dinheiro e de armas ao veto no Conselho de Segurança da ONU. Esse apoio sempre foi essencial para a política israelense. Esse apoio pode estar chegando ao limite.

Claro que as coisas acontecerão gradualmente. O lobby pró-Israel em Washington continuará a impor o medo de Deus, no Congresso. Um navio imenso, como os EUA, só muito lentamente pode alterar o próprio rumo, tem de fazer curvas suaves. Mas os procedimentos para manobrar o navio começaram logo no primeiro dia do governo Obama.

Nada disso aconteceria se os EUA, eles mesmos, não tivessem mudado. Não se trata apenas da mudança política. Há mudança na visão de mundo, no arranjo mental, nos valores. Um certo mito americano, muito semelhante ao mito sionista, foi substituído por outro mito americano. Não por acaso, Obama devotou parte tão grande do discurso a esse tema (mas o discurso, vale lembrar, não inclui uma única palavra sobre o extermínio dos nativos americanos).

A guerra de Gaza, quando dezenas de milhões de norte-americanos assistiram à horrível carnificina na Faixa de Gaza (apesar de a rigorosa autocensura só ter mostrado uma parte ínfima do que realmente houve), acelerou o processo da separação. Israel, a valente irmãzinha, aliada leal na "Guerra ao Terror" de Bush, foi mostrada como a Israel violenta, ensandecida, mostro sem compaixão, assassina de mulheres, crianças, feridos e doentes. E quando sopram esses ventos, o lobby perde peso.

Os líderes israelenses da Israel oficial nada perceberam. Não sentem que Obama implanta novo contexto, não sentem que "o chão deslizou sob seus pés". Pensam que seja questão política momentânea, à qual darão jeito com a ajuda do lobby e dos congressistas servis.

Os líderes israelenses ainda estão intoxicados pela guerra, embriagados de violência. Reescreveram a frase famosa do general prussiano, Carl von Clausewitz. Para eles: “A guerra é a continuação de uma campanha eleitoral, por outros meios.” Competem entre eles com empenho de se autovangloriar, cada um por seu quinhão de "crédito".

Tzipi Livni, que não pode disputar com os homens a coroa de senhor-da-guerra, tenta superar os homens em dureza, secura, belicosidade, fúria, impiedade.

De todos, o mais brutal é Ehud Barak. Uma vez, eu o chamei de "criminoso de paz", porque levou ao fracasso a conferência de Camp David em 2000 e destroçou o campo da paz israelense. Agora, devo chamá-lo de "criminoso de guerra", porque foi quem planejou a guerra de Gaza sabendo que assassinaria civis em massa.

Aos olhos dele e aos olhos de muitos, na opinião pública em Israel, a guerra foi operação militar digna de elogios. Os conselheiros de Barak também apostaram em que a guerra o elegeria. O partido Labor, que durante décadas foi o maior partido no Parlamento israelense, chegara nas pesquisas a 12, até a 9 cadeiras, de 120. Com a ajuda das atrocidades em Gaza, subiu agora para 16 cadeiras, ou próximo disso. Não é grande sucesso e nada garante que não volte a afundar.

Qual foi o erro de Barak? Simples: as guerras sempre ajudam a direita. A guerra, por sua própria natureza, desperta na população as emoções mais primitivas – ódio e medo, medo e ódio. A direita cavalga sobre essas emoções há séculos. Mesmo que alguma "esquerda" inicie uma guerra, ainda assim a direita sempre ganha mais. Em estado de guerra, a população vota antes em qualquer direita 'audaz' do que em alguma 'esquerda' cenográfica.

Essa, aliás, é a segunda vez que Barak comete o mesmo erro. Quando, em 2000, disseminou a cantilena do "Revirei cada pedra, no caminho da paz, / Ofereci aos palestinos o que jamais alguém lhes oferecera. / Rejeitaram tudo. / Não temos parceiro para construir a paz" –, Barak conseguiu não só reduzir a esquerda a frangalhos como, também abriu o caminho para a ascensão de Ariel Sharon nas eleições de 2001. Agora, está pavimentando a estrada para Binyamin Netanyahu (com a esperança bem evidente de ser seu ministro da Defesa).

E Barak não pavimenta a estrada apenas para Binyamin Netanyahu. O verdadeiro vencedor nessa guerra é um homem que nem participou dela: Avigdor Liberman.

O partido de Liberman, que em qualquer país normal seria identificado como partido fascista, cresce nas pesquisas eleitorais. Por quê? Porque Liberman fala como Mussolini, oferece a imagem de um Mussolini israelense, odeia árabes, é capaz de todas as brutalidades. Comparado a Liberman, Netanyahu é um doce. Grande parte dos mais jovens, criados ao longo de anos de ocupação, matança e destruição, depois de duas guerras atrozes, vê em Netanyahu o seu líder.

AO MESMO TEMPO em que os EUA dão passo de gigante na direção da esquerda, Israel está à beira de afundar-se na direita.

Quem tenha visto os milhões que acorreram para assistir à posse de Obama em Washington sabe que Obama não fala só em seu nome. Ali, manifestavam-se aspirações de um povo, outra visão de mundo.

Entre o mundo mental de Obama e o mundo mental de Liberman e Netanyahu não há ponte possível. Entre Obama, e Barak e Livni, também, há um abismo. A Israel pós-eleitoral talvez acorde para descobrir que entrou em rota de colisão com os EUA pós-eleitorais.

Onde estão os judeus norte-americanos? A grande maioria deles votou em Obama. Estarão entre a espada e a caldeirinha – entre a natural adesão a Israel e seu governo. É razoável supor que daí virá alguma pressão de baixo para cima, sobre os 'líderes' dos judeus-norte-americanos os quais, vale também anotar, jamais foram eleitos, e sobre organizações como o AIPAC. O porrete com o qual os líderes israelenses estão habituados a contar nas horas de aperto pode estar reduzido a cabo-de-vassoura quebrado.

A Europa tampouco permanece intocada pelos novos ventos. É verdade, sim, que ao final da guerra, vimos os líderes europeus – Sarkozy, Merkel, Browne e Zapatero – sentados como meninos de escola, ouvindo respeitosamente a escandalosa arrogância de Ehud Olmert, citando-se e recitando-se. Pareciam aprovar as atrocidades da guerra, falando em Qassams e apagando a ocupação, o bloqueio e a construção de colônias. Não porão na parede de seus gabinetes presidenciais aquela foto.

Mas durante a guerra de Gaza, as ruas européias encheram-se de manifestantes, que gritavam contra aqueles horrores. As mesmas multidões saudaram a posse de Obama.

É um novo mundo. Em Israel, os líderes políticos devem estar sonhando com um novo slogan: "Parem o mundo, que eu quero descer!" Não há outro mundo.

SIM, Israel está do lado errado da história.

Felizmente, há também outra Israel. Não aparece na ribalta e sua voz só pode ser ouvida por quem a procure. É uma Israel racional, sadia, que olha o futuro, que quer progresso e paz. Nas eleições de fevereiro, mal se ouvirá sua voz, porque os velhos partidos lá estão, com os pés pregados no mundo velho.

Mas o que houve nos EUA influenciará profundamente o que aconteça em Israel. A enorme maioria dos israelenses sabe que Israel não sobrevive sem laços estreitos com os EUA. Obama é agora o líder do mundo e todos vivemos no mesmo mundo. Se Obama promete trabalhar "agressivamente" pela paz entre israelenses e palestinos, essa é a palavra de ordem, para Israel.

Israel quer estar do lado certo da história. Levará meses, talvez anos, mas tenho certeza de que conseguirá. A hora de pôr-se a andar é hoje.

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* Uri Avnery, 24/1/2009, "On The Wrong Side", em Gush Shalon [Grupo da Paz]. Tradução de Caia Fittipaldi. Tradução autorizada pelo autor.

2 comentários:

claudia cardoso disse...

Desejo que os professores do ensino fundamental e médio se apropriem estes textos para discussão em sala de aula. Trata-se de um paradoxo: as atrocidades em Gaza permitiram um olhar geopolítico distinto dos últimos 60 anos, em que os palestinos foram calados pela imprensa pró-estado sionista de Israel.
Abraço!

AL-Chaer disse...

Frô,

Obrigado pelo destaque a minha poesia visuAL, ALqui em tão boa companhia com este texto que enriquece a nossa compreensão e a nossa leitura.

AL-Braços
AL-Chaer

em tempo: o título do poema é "Jogo da Velha Faixa de Gaza"...corrige lá, por favor.