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terça-feira, 6 de janeiro de 2009

O povo judeu é uma invenção?

 "Não sou um escritor, sou historiador. E este não é simplesmente um livro de história, mas um livro que desconstrói a história. Tinha medo de publicar, mas sei que vivo numa sociedade muito liberal e pluralista. Na verdade, a maior parte das evidências e provas no livro já é conhecida. Eu não descobri nada novo, só organizei de forma diferente o conhecimento já produzido sobre as origens de Israel."

Entrevista: Shlomo Sand
Historiador da Universidade de Tel Aviv. Nascido na Áustria, filho de judeus poloneses sobreviventes do Holocausto, é doutor em ciência política e especialista em teorias do nacionalismo

Por: Glória Paiva
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Para historiador de Tel Aviv, reinos de Davi e Salomão não existiram e origem étnica é diversa

Há 20 semanas, um livro de história supera romances e obras de auto-ajuda, figurando entre os mais vendidos nas livrarias israelenses. Seu autor, Shlomo Sand, não esperava tamanho sucesso e tampouco a tradução de seu trabalho para seis línguas. "When and how was the Jewish People Invented?" (Como e quando o povo de Israel foi inventado?, ainda sem tradução para o português) trouxe uma brisa de ar fresco aos empoeirados tratados sobre a história de Israel, além de uma boa dose de polêmica.


A obra de Sand reúne evidências arqueológicas, notas geográficas e históricas e os mais diversos registros para embasar sua teoria: de que a história de Israel como a conhecemos é uma invenção do século XIX. Para Sand, não existe um povo judeu com origens, língua e passado em comum, mas uma profusão, em diferentes épocas e países, de conversões ao judaísmo e migrações proselitistas.


O autor nega a existência dos dois exílios judaicos (no século V a.C. e em 70 d.C.), atestando que os romanos jamais exilaram um povo, e alega que não há provas sobre os reinos de Davi e Salomão. "O sionismo mudou a idéia de Jerusalém. Antes, os lugares sagrados só serviam para serem adorados, e não para viver neles. Por 2.000 anos, os judeus ficaram longe de Jerusalém não porque os romanos os impediam, mas porque sua religião proibia isso até a vinda do messias."


Sand também critica a ausência de menções, na historiografia judaica, ao reino dos cazares, povo turcomano que ocupou a atual Rússia entre os séculos VII e X e se converteu massivamente ao judaísmo. O historiador explica que esta foi a gênese de uma grande população judaica falante de iídiche da Europa central e oriental. A controvérsia se completa quando Sand atesta que os palestinos da atual Cisjordânia são descendentes diretos dos judeus daquela região, convertidos ao islamismo na ocupação muçulmana. Abaixo, confira aa entrevista concedida por Sand ao jornal O TEMPO.

O TEMPO - Você se surpreendeu que seu livro esteve por 19 semanas entre os best-sellers de Israel?


Shlomo Sand - Na França o livro também virou best-seller. Foram vendidos 8.000 exemplares. Em Israel, fiquei surpreso sim, porque sei que não se trata de um livro fácil. Infelizmente não sou um escritor, mas um historiador. E este não é simplesmente um livro de história, mas um livro que desconstrói a história, em sua estrutura e em seu tema. Tinha medo de publicar, para ser sincero, porque em Israel nunca vimos um livro assim. Mas sei que vivo numa sociedade que possui uma cultura muito liberal, tolerante e pluralista - apesar de não ser uma democracia. Digo isso porque - e é justamente o cerne do meu livro - o nacionalismo de Israel não é religioso, como muitos pensam, mas etnocêntrico. Acho que as pessoas que constru­ram o Estado de Israel estavam muito distantes da religião. A religião foi instrumentalizada para que as fronteiras e a nação em si fossem criadas. Depois, não conseguiram se libertar das definições religiosas. Uma democracia não pode ser construí­da dessa maneira.



Quem você acredita serem seus leitores?

Acho que os jovens estão bem interessados no meu trabalho. Israel é composto de muitos grupos. Jerusalém é completamente diferente de Tel Aviv. Acho que a maior parte dos meus leitores está em Tel Aviv, que é um lugar menos etnocêntrico, mais aberto ao futuro.



Você se sente solitário em sua tese? Foi o primeiro ou único a defendê-la?

Não gosto da palavra complicado, mas sei que o livro não é fácil, como já disse. Mas a maior parte das evidências e provas no livro já é conhecida e os historiadores profissionais sabem disso. Eu não descobri nada novo, só organizei de forma diferente o conhecimento que já foi produzido até aqui, sobre as origens de Israel. Acho que foi uma evolução, porém, organizar essas provas históricas de uma nova maneira. Eu coloquei isso na capa. Em nosso pa­ís, a educação histórica da sociedade é usada pelo poder, para criar o conceito de nação de Israel. A organização do conhecimento é uma ferramenta.



Como foi seu trabalho de pesquisa?

Eu peguei evidências de 15 anos de pesquisas. É um novo livro, mas uma história antiga. Em alguns pontos, joguei uma nova luz. Como historiador, fui muito solitário, porque antes de mim apenas cientistas pol­ticos trataram o tema da origem de Israel dessa maneira, não historiadores. Os historiadores são muito conservadores por aqui. Utilizei obras de geógrafos, cientistas pol­ticos, arqueólogos. Eles estão mais abertos a essa teoria. Para você ter uma idéia, nas universidades de Israel temos um departamento de história e um departamento de história judaica. Eles dividiram essas áreas, e eu pertenço ao departamento generalista. Isso está errado, você percebe? Na sociologia, por exemplo, não existe essa divisão.



Onde você achou provas para a sua teoria?

Em livros de história antiga, no Talmude, livros latinos, historiadores árabes. Em muita coisa do século XI. Também busquei estudos de acadêmicos da área de sociologia e ciência pol­tica, e eles me ajudaram em muitos pontos. Na arqueologia encontrei algumas novidades, todas descobertas dos últimos 20 anos. Tirei delas muitas conclusões e, sem elas, não teria coragem de escrever o livro.



Você diz que a interpretação da história judaica conhecida atualmente vem de historiadores do século XIX. Existiu um processo de criação dessa história?

Na segunda metade do século XIX, eles começaram a pensar em Israel como nação. Na primeira metade, não se pensava nisso ainda. Foi uma invenção, sim. E eles - os antigos historiadores - tiveram êxito em criar uma história para a nação. Eles foram obrigados a criar um passado comum que unisse o povo judeu. Processos semelhantes acontecem em todo o mundo, no Brasil, inclusive. Uma das condições ao se criar uma nação é inventar uma história linear. É uma forma de ser coerente, porque geralmente a origem de um povo é plural. A idéia de nacionalismo implica criar algo coerente para as pessoas pensarem que têm a mesma origem. Mas ninguém queria tocar na questão judaica. As pessoas têm medo, mas é meu dever dizer o que considero verdade. Eu mesmo sou israelense e quero saber dessa verdade.



Como o sr. disse, o processo de criação na história é comum em muitas nações. O que houve de peculiar no caso de Israel?

A peculiaridade é que precisávamos crer que estávamos lá há muito mais tempo que os palestinos. Os ideais nacionalistas de Israel precisavam criar uma idéia de que lá era um refúgio, um lugar para onde os judeus pudessem voltar. A visão do passado histórico judeu precisava se conectar com a história bí­blica. O passado era importante para justificar a colonização dessa terra. Foi preciso brigar para colonizar a Palestina. Mais que em outros pa­íses, talvez.



Você acha que houve um esforço coletivo para encobrir a história judaica verdadeira?

Vamos colocar dessa maneira: o judaí­smo é uma religião. Essa presença da religião foi importante, mas isso não significa que o povo judeu existe como um povo, que descende do mesmo etnos. Existiu, no passado. Uma nação é uma nação quando tem em comum a lí­ngua, o passado, os hábitos culturais. Os judeus não têm isso. A única coisa em comum é a religião. Por isso me pergunto porquê o nosso povo se chama de nação. A origem de um grupo judeu que veio da Ucrânia é completamente diferente de uma famí­lia judaica que tem origem no Marrocos. Isso é tão claro. Muitos judeus querem acreditar que são especiais, mas não são. O conceito de nacionalismo aqui está errado: Israel é tido como um Estado de judeus, e não de israelenses. E eu ainda acho que essa definição vai destruir Israel. Um Estado que se baseia no etnos, e não no demos, tende a desaparecer. Israel não pode continuar sendo um Estado de refugiados judeus que sofrem por serem judeus. Tenho alunos judeus e palestinos que falam hebraico melhor que eu. Assim deveria ser pensado o Estado de Israel.



Você defende a tese de que o povo judeu não viveu os dois êxodos e não tem a mesma origem étnica. Isso é uma teoria nova?

A maioria dos historiadores aqui, mesmo os sionistas em sua visão de mundo, sabe disso - que os dois ex­lios não existiram. Não há livros sobre o êxodo. Nenhum. Mas há uma tese, dos anos 1920, de Yitzhak Ben Zvi, que seria presidente de Israel, que diz que os camponeses palestinos de hoje são descendentes dos antigos judeus que habitavam a região chamada Judáia. Por isso lhe digo: o livro não é simples. Mas posso te garantir uma coisa: ele é contra o anti-semitismo e contra o racismo.



Você defende a solução dos dois Estados para o conflito da região?

Sim. Eu não sou contra a existência de Israel. Sou contra a existência de um Israel etnocêntrico. Temos que ter dois Estados: um dos israelenses e outro dos palestinos. Não de judeus e muçulmanos. Eu me defino, politicamente, como um liberal.



Como você sentiu a reação ao seu livro, entre colegas israelenses?

Acredito que muitos ficaram chocados. Porque quebrei todos os limites da história judaica contada até hoje. Fui atacado por alguns historiadores, mas não me lembro de ter visto uma oposição verdadeira, com argumentos, à minha tese. As pessoas adoraram e odiaram, recebi milhares de cartas.

Bizarrice

"Não há nada de novo", afirma crítico de Sand

O mais impressionante, sobre o fenômeno de vendas literárias Shlomo Sand, foi o silêncio sepulcral sobre a sua obra - com exceção de um único historiador israelense, Israel Bartal, PhD e autor de vários livros sobre o tema, da Universidade Hebraica de Jerusalém.


"Não vi, no livro de Sand, nada de novo. Minha resposta a Sand é que nenhum historiador judaico jamais acreditou que a origem dos judeus é étnica e biologicamente pura. Ele nega a existência de posições centrais entre os historiadores judeus", ataca.

Segundo o crítico, nenhum especialista em história judaica "tentou esconder o impacto das conversões ao judaísmo no período antigo e no início da Idade Média." "Apesar de o mito do exílio existir na cultura popular, discussões sérias entre os historiadores não o levam em conta", observa.

De acordo com Bartal, os argumentos de Sand sobre a lacuna, na historiografia oficial, de informações acerca do reino dos cazares, são infundados. "O desejo de Sand de que Israel se torne um Estado que represente todos os cidadãos é válido, mas a maneira pela qual ele tenta conectar a plataforma política atual com a história do povo de Israel é bizarra e incoerente." (GP)

Publicado originalmente em: O tempo
A formatação é da Tita, de onde reproduzi o post

3 comentários:

AL-Chaer disse...

Frô,

Sem fazer juízo de valor, até porque ambas as partes (Judeus e Muçulmanos) já estão longe do que significa a palavra "juízo", gostei muito desta "versão" do Historiador Sholomo Sand, porque - no mínimo - provoca-nos uma nova reflexão...quando ele fala de que deveriam existir dois estados, o dos israelenses e dos palestinos, ao invés de estado judeu e estado muçulmano, achei que ele tocou no ponto...

...e parece simples, né?

Obrigado pela oportunidade desta leitura.

AL-Braços
AL-Chaer

pêésse: corajoso esse Sholomo Sand!

Naurelita Maia disse...

Caros amigos. Fui agraciada com o singelo e honroso Prêmio Dardos. Como manda o figurino, compartilho este prêmio com este blog magnífico, que tem minha apreciação especial.
Passa lá no meu cantinho para pegar o presente, tá?
Sucesso e paz!

Dialógico disse...

A oportunidade de estudarmos a história da ocupação da Palestina por Israel é ímpar!
Pena que numa situação tão horripilante!!!
Abraço, ao blog, fiz duas referências no Dialógico.

Claudia.