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sábado, 10 de julho de 2010

Momentos decisivos: Israel cede sob pressão da flotilha

Por: Phyllis Bennis, Nova York, no Opera Mundi

07/07/2010

Em toda campanha pelos direitos humanos e pela igualdade existem os famosos momentos da virada. Há alguns em que, antes mesmo da certeza da vitória, o efeito em campo é sentido imediatamente ou não, o discurso, as hipóteses, os termos de referência - não tanto para os defensores e oponentes quanto para aqueles que até então eram apenas observadores - são todos abalados. Esses momentos de virada, muito frequentes envolvem uma significativa escalada de violência, seja individual ou generalizada.

Mais do que mudar a realidade do movimento pró-direitos civis nos EUA, o assassinato de Emmett Till, o assassinato de três ativistas no Mississípi, e o atentado a bomba contra a Igreja Batista da Rua 16 em Atlanta transformaram a percepção pública e oficial do processo. O Massacre de Sharpeville e, sete anos mais tarde, o levante de Soweto tiveram globalmente o mesmo impacto sobre a luta dos sul-africanos contra o apartheid. A ofensiva do Tet no Vietnã e o assassinato do arcebispo Óscar Romero em El Salvador também tiveram efeitos transformadores.

A luta contra o apartheid israelense teve vários desses momentos, nos quais a percepção pública foi transformada. Talvez o mais importante tenha sido a intifada, na qual a imagem de crianças palestinas armadas, apenas com pedras, desafiando os tanques israelenses, reverteu muitas falsas suposições do Ocidente em relação a Israel: o Estado judeu deixou de ser o heroico Davi sob ataque de um Golias árabe. A ofensiva de 2008-09 contra Gaza aprofundou ainda mais essa nova compreensão.

A recente polêmica da flotilha, com muito menos impacto direto sobre os palestinos, pode ser um daqueles momentos em que a percepção pública, desta vez em âmbito internacional, é transformada. A crise mostrou que a sociedade civil é decisiva na luta contra a ocupação e o apartheid israelense e que a Turquia teve sucesso ao forçar Israel a recuar, enquanto as polidas solicitações de Washington fracassaram claramente. E ainda provou que os direitos humanos, e a lei internacional, continua sendo o começo para uma vitória.

O fato de tantos não-palestinos terem sido mortos pelos comandos israelenses, embora o foco normalmente intenso sobre qualquer norte-americano morto tenha sido amenizado porque Furkan Dogan possuía dupla cidadania, norte-americana e turca, sublinhou a disposição dos ativistas globais de correrem riscos em nome de direitos humanos que os governos e a ONU não queriam defender. Foi uma imagem poderosa de uma sociedade civil cada vez mais participativa com a capacidade de transformar os eventos diretamente. Apesar de nem todos os passageiros da flotilha aderissem princípios de não-violência, ficou claro que esta era, de longe, a característica dominante da mobilização. E isso reflete o crescente reconhecimento popular - certamente entre muitos palestinos, mas neste caso crucialmente entre seus simpatizantes - de que o uso da violência deixa Israel em seu melhor cenário, enquanto a resistência estratégica pacífica põe em questão a legitimidade das políticas de ocupação e apartheid de Israel - a batalha da legitimidade onde Israel está em sua posição mais fraca.

Repercussão

O episódio ofereceu uma imagem poderosa da distância entre o fracasso do presidente Obama na tentativa de deter a expansão das colônias israelenses na Jerusalém Oriental ocupada e o sucesso da Turquia ao desafiar o cerco e o bloqueio de Gaza por Israel apoiando a flotilha, o que foi especialmente importante à luz do sucesso da iniciativa turco-brasileira para o Irã, contrariando os EUA. Como observou Tony Karon na edição online da revista Time:

"A iniciativa marca o reconhecimento por parte de Israel de que sua estratégia em Gaza não atingiu o objetivo, e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu repudiou o bloqueio na segunda-feira (31/05), afirmando em declarações ao parlamento que se tratava de uma política herdada de seus antecessores. O fato de o bloqueio ter desmoronado sob pressão também é embaraçoso para o governo Obama, pois a objeção mais vigorosa da Turquia será vista em toda a região como uma atitude que forçou uma mudança de comportamento israelense, algo que as educadas súplicas de Obama não conseguiram fazer.

De fato, a série de respostas assertivas de Ancara ao ataque israelense contra o barco Mavi Marmara - incluindo a convocação de seu embaixador em Tel-Aviv, o cancelamento de exercícios militares com Israel , a forte linguagem não-diplomática de seus dirigentes e a insistência bem-sucedida na devolução de todos os ativistas capturados ou mortos no navio - ofereceu um exemplo de como potências de tamanho e nível médios podem desafiar Israel, resistir à pressão dos EUA e sair não só ilesas, mas com um enorme ganho de capital político tanto doméstica quanto internacionalmente.

Além disso, quem participou da flotilha e quem a defendeu ao redor do mundo o fez com base na lei internacional. Israel não foi condenado porque seus comandos agiram de modo vil e brutal, e sim porque o ataque ao Mavi Marmara, um barco civil que transportava bens comprovadamente humanitários em águas internacionais, foi uma violação da lei internacional. O ponto principal é que a flotilha pôs o próprio bloqueio de Gaza sob a luz da lei internacional - e mostrou sua irregularidade, forçando assim o governo de Israel a anunciar a intenção de "amezinar" o cerco.

Amenizando o bloqueio

Mas o que esse anúncio realmente significa? Como de costume, o alcance da decisão israelense varia, dependendo não só de sua implementação, mas também do ponto de vista de nossas análises.

Pelos meus cálculos, existem quatro níveis diferentes de significado. Do ponto de vista do poder crescente da pressão internacional, Israel cedeu. É algo extraordinário. Os tímidos pedidos de Obama a Israel em relação aos assentamentos, uma solução de dois Estados etc, tudo isso falhou - o que não surpreende, dado que os pedidos eram acompanhados pela continuação incólume da colaboração militar norte-americana com Israel, da proteção diplomática na ONU e em outros lugares e, crucialmente, das remessas da ajuda militar de 30 bilhões de dólares que o governo Obama concedeu ao Estado judeu.

Assim, em termos do impacto potencial sobre o discurso e a percepção, Israel cedeu. Ponto para a sociedade civil global e a Turquia, zero para Obama.

No entanto, do ponto de vista do real alívio da catástrofe humana diante dos 1,5 milhão de habitantes que permanecem confinados na prisão a céu aberto que é Gaza, a decisão israelense significa, na melhor das hipóteses, uma melhora mínima nas condições diárias de sobrevivência. Israel não tem a intenção de suspender o bloqueio - Gaza continuará sitiada, com Israel no controle das fronteiras, de todas as pessoas e bens que entram e saem (ou não), de todo o espaço aéreo, de todo o litoral e mais.

Ainda não está claro se será permitida a entrada de quantidades significativas de material de construção. Israel indicou que pode classificar o cimento e as barras de aço como itens de "duplo uso", potencialmente militar, e proibir sua entrada (se fizer isso, seguirá um poderoso legado deixado pelas sanções dos EUA contra o Iraque, nas quais lápis eram considerados de duplo uso por causa do grafite e equipamentos de tratamento de água e esterilização em hospitais eram banidos, entre outras coisas). Ou seja, víveres provavelmente poderão entrar, mas moradores de Gaza como Fida Qishta estão dizendo ao mundo: "Não precisamos de comida ou roupas. Não queremos dinheiro. Precisamos de liberdade para ir e vir. Precisamos sentir que somos humanos. As pessoas em Gaza não são de outro planeta."

Do ponto de vista das violações da lei internacional por parte de Israel, a decisão não muda nada. "Amenizar" um bloqueio ilegal não o torna legal. Enquanto não suspender o bloqueio, Israel continuará infringindo a lei. O Artigo 33 da Convenção de Genebra proíbe uma potência ocupante de usar a punição coletiva, sem exceções. E de acordo com o Manual de San Remo sobre Direito Internacional Aplicado a Conflitos Armados no Mar:

"A declaração ou o estabelecimento de um bloqueio são proibidos se: a) o único objetivo for deixar a população civil faminta ou negar-lhe outros bens essenciais para sua sobrevivência; ou b) os danos à população civil, conhecidos ou prováveis, forem excessivos em relação à vantagem militar concreta e direta prevista com o bloqueio."

Aumentar o número de itens alimentícios cuja entrada é permitida em Gaza, ou mesmo trocar uma lista do que é "permitido" por outra menos restritiva, do que é "proibido", não faz com que Israel pare de violar a lei.

Finalmente, pode-se dizer que, do ponto de vista, a longo prazo, do fim da ocupação israelense, o impacto da decisão de "amenizar" o bloqueio é pior do que nada. Se, por exemplo, Tony Blair, ex-primeiro-ministro britânico e hoje enviado ao Oriente Médio do chamado "Quarteto", continuar exercendo o papel de adulador e porta-voz do governo israelense, parte de seu plano será celebrar a decisão como um passo qualitativo em direção a uma solução de dois Estados. Israel merecerá tal apoio por ter dado um passo tão grande - e os palestinos, certamente, terão de retribuir esta "concessão" israelense, provavelmente com o retorno à mesa de negociação. Isso porque, como já vimos antes, para o governo Obama, quando se trata de Israel, as negociações - quaisquer negociações, por mais inúteis que sejam - são o substituto preferido à verdadeira responsabilidade.

Guerra da legitimidade

Os palestinos em Gaza provavelmente não verão uma mudança qualitativa imediata como uma consequência da crise da flotilha.

No entanto, em um prazo apenas ligeiramente mais longo, as mudanças deverão ser poderosas e duradouras. Mais governos perceberam que é possível desafiar as políticas de Israel, enfrentar seus protetores dos EUA e sair ileso e talvez mais popular que nunca. A Turquia está consolidando seu papel crescente de potência regional do Oriente Médio por mérito próprio, preocupando-se muito menos (tanto no nível governamental quanto no nível popular) em obter apoio para ingressar na União Europeia.

E a sociedade civil global venceu uma enorme batalha naquilo que Richard Falk, relator especial da ONU para os Direitos Humanos no Território Palestino Ocupado, chama de "guerra da legitimidade". O sucesso político - apesar do alto custo em vidas humanas - obtido pela flotilha do Movimento Gaza Livre fortalece não só o movimento internacional para romper o cerco a Gaza, mas também a campanha de BDS (boicote, desinvestimento e sanções) que, liderada pelos palestinos, espalha-se pelo mundo.

Como Falk escreveu no jornal Le Monde Diplomatique depois do ataque israelense a Gaza no ano passado:

"No fim das contas, a grande questão é saber se os temores de crimes de guerra motivados pelo comportamento de Israel em Gaza importam e, em caso positivo, como. Acredito que eles têm grande importância no que pode ser chamado de "segunda guerra" - a guerra de legitimidade que frequentemente acaba por determinar o desfecho político mais do que os resultados no campo de batalha. Os EUA venceram todas as batalhas no Vietnã e perderam a guerra; o mesmo aconteceu com a França na Indochina e na Argélia e com a União Soviética no Afeganistão. O xá do Irã caiu, assim como o regime do apartheid na África do Sul, por causa das derrotas na guerra da legitimidade. A meu ver, o surgimento de acusações criminais contra Israel durante e depois de seus ataques a Gaza resultaram em ganhos importantes para os palestinos na linha de frente da legitimidade. As percepções populares generalizadas da criminalidade de Israel, especialmente a impressão de uma guerra lançada contra uma população indefesa com armamentos modernos, levaram as pessoas ao redor do mundo a propor boicotes, desinvestimentos e sanções. Esta mobilização exerce pressão sobre governos e corporações para que abram mão de suas relações com Israel e lembra a campanha mundial antiapartheid, que fez muito para alterar o cenário político na África do Sul. A vitória na guerra da legitimidade não garante que a autodeterminação palestina será conquistada nos próximos anos. Mas muda a equação política."

A interação de governos com os ativistas da flotilha - não só Turquia e Irlanda, como também Malásia e outros países ofereceram apoio - significa que talvez vejamos outras nações na Assembleia Geral da ONU seguindo seus passos na defesa da lei internacional e dos direitos humanos. Talvez alguns lembrem os colegas de que a própria ONU apoiou campanhas de BDS no passado e algumas resoluções permanecem nos registros. Especificamente, em 1982 e 1983, durante a invasão e a ocupação do Líbano por Israel, a Assembleia aprovou duas resoluções pedindo que os membros:

"Abstenham-se de fornecer a Israel quaisquer armas e equipamentos relacionados e suspendam qualquer assistência militar que Israel receba deles; abstenham-se de adquirir quaisquer armas ou equipamentos militares de Israel; suspendam a assistência e a cooperação econômica, financeira e tecnológica com Israel; rompam as relações diplomáticas, comerciais e culturais com Israel."

Com a sociedade civil à frente e a Turquia servindo de exemplo, tal ação por parte dos Estados membros da ONU não parece tão impossível.


*Phyllis Bennis é membro do Instituto Transnacional (TNI) e do Instituto de Estudos de Política (IPS) em Washington, onde dirige o Projeto do Novo Internacionalismo. É especialista em política externa dos EUA, particularmente em relação ao Oriente Médio e à ONU. Artigo orignalmente publicado pelo The Huffington Post. Tradução: Alexandre Moschella.

domingo, 6 de junho de 2010

Robert Fisk: A verdade por trás da propaganda israelense

Publicado originalmente em 5/6/2010, The Independent, UK

Traduzido por: Caia Fittipladi

Eu também, claro, horrorizei-me ao ver homens armados abordando navios em águas internacionais, matando passageiros a bordo que tentavam resistir e em seguida sequestrando o barco e atracá-lo em porto nacional dos piratas sequestradores. Falo, claro, dos piratas somalis que agem em águas ocidentais no Oceano Índico. Como se atrevem, esses terroristas, a tocar em nossos barcos desarmados em alto mar? Temos todo o direito de enviar nossos navios de guerra, para impedir a ação desses terroristas.

Mas... ufa! Sorte, que os israelenses não cobraram resgate! Só querem que os jornalistas vençam, em nome deles, a guerra da propaganda.

A semana mal raiara, e “comandos” de Israel atacaram um barco turco que levava ajuda humanitária para Gaza e mataram nove passageiros. No final da semana, os que protestaram contra esse assalto já estavam convertidos em “ativistas pacifistas armados”, antissemitas pervertidos, que “professam o pacifismo, mas destilam ódio, atacando outros seres humanos com porretes de metal”. Gostei da parte ficcional. A evidência de que os seres humanos que se defenderam com barras de metal estavam recebendo tiros à queima-roupa foi varrida dessa estranha versão dos fatos.

Declaração de uma família turca, de que seus filhos haviam dito que queriam ser mártires – coisa que muitos membros de muitas famílias turcas diriam, se seus parentes fossem assassinados à queima-roupa por israelenses – foram convertidas em prova de que o barco turco conduzia jihadis.

“Naquele barco”, escreveu-me alguém nascido no Sri Lanka, “estavam minha sobrinha, meu sobrinho e a esposa. Infelizmente, Ahmed (meu sobrinho, 20 anos) foi ferido à bala na perna e está hospitalizado, sob custódia militar. Havendo notícias, escrevo.” E escreveu. Poucas horas depois, a imprensa cercou a casa da família na Austrália, perguntando se Ahmed seria jihadi – ou, talvez, potencial suicida-bomba. A propaganda funciona, vejam só.

Não vimos um bit de filme dos protestos, em todo o mundo, porque os israelenses confiscaram tudo. Ninguém explicou por que – se o barco turco conduzia gente tão perigosa – o terrível complô para ajudar os “terroristas” de Gaza não foi descoberto durante a longa viagem desde a Turquia, sequer quando o barco atracou noutros portos. Pois o professor Gil Troy da Universidade McGill em Montreal – em matéria publicada no raivoso e fanático Canadian National Post, é claro – ainda repetia esse lixo sobre “ativistas pacifistas armados”, na 5ª-feira.

Pessoalmente, a matança no barco turco não me surpreendeu. No Líbano, vi esses esquadrões da morte, simulacros de exército, em ação – simulacros de exército, como são também os esquadrões da morte (“grupos de elite”) dos exércitos árabes –, matando civis. Vi-os também, assistindo sem intervir ao massacre de palestinos em Sabra e Shatila na manhã de 18 de setembro (último dia da matança); naquela ação, foram substituídos pelos aliados viciosos das milícias libanesas, mais do mesmo. Eu os vi, em Qana, no primeiro massacre de palestinos por pistoleiros israelenses, em 1996; um dos pistoleiros, na imprensa israelense, chamou os 106 civis mortos de “Arabushim” (termo racista e ofensivo para “árabes”). Mais da metade dos mortos eram crianças. Pouco depois , o governo israelense de Shimon Peres (Prêmio Nobel da Paz!), disse que havia terroristas entre os civis. Mentira, mas... quem liga? E depois, veio o segundo massacre de Qana em 2006 e depois a matança de 1.300 palestinos no ataque de Israel a Gaza em 2008-09, e depois...

Ora, depois veio o Relatório Goldstone, que descobriu que o exército de Israel (e o Hamás) cometeram crimes de guerra em Gaza. Mas todos foram declarados antissemitas – o pobre respeitável juiz Goldstone, ele próprio judeu, além de renomado jurista sul-africano, massacrado também, e declarado “homem do mal” pelo abominável Al Dershowitz de Harvard. – E o relatório foi decretado “controverso” pelo bravo governo Obama. “Controverso”, em inglês, significa “fuck you”. Há dúvidas sobre o relatório. Negócio barra pesada.

Mas voltemos à nossa cronologia. Depois, houve o assassinado, pelo Mossad, de um dirigente do Hamás, em Dubai. Os israelenses usaram pelo menos 19 passaportes britânicos e de outros países, roubados e adulterados. Qual foi a patética reação do então secretário de Relações Exteriores da Grã-Bretanha, David Miliband? Disse que fora “um incidente”. Não o assassinato em Dubai, vejam só, mas a adulteração dos passaportes, assunto super “controverso”, claro. E depois... Aí está. Agora, nove pessoas foram assassinadas a tiros, no mar, por mais dúzia e meia de heróis de Israel.

O engraçado é que tantos jornalistas ocidentais – e incluo aqui a acovardada cobertura da BBC, do ataque aos barcos de ajuda humanitária – estão escrevendo exatamente como a maioria dos jornalistas israelenses. Ao mesmo tempo, muitos jornalistas israelenses escrevem, em Israel, com a coragem que se deveria esperar da ‘mídia’ ‘livre’. E escrevem lá, contra o exército israelense.

Vejam Amos Harel, no Haaretz[1], em matéria na qual analisa a formação do corpo de oficiais do exército de Israel. No passado, muitos saíam dos kibbutz de tradição socialista, de Telavive ou das planícies costeiras de Sharon. Em 1990, só 2% dos cadetes do exército eram judeus ortodoxos religiosos. Hoje, essa proporção já chega a 30%. Seis, dos sete tenentes-coroneis da Brigada Golani, são religiosos. Mais de 50% dos comandantes locais são religiosos “nacionais”, em algumas brigadas de infantaria.

Nada de mal, em alguém ser religioso. Mas – e embora Harel não destaque esse aspecto, apenas registre – muitos dos judeus ortodoxos apoiam a colonização da Cisjordânia e opõem-se à criação de um Estado palestino.

E os colonos ortodoxos são os que mais odeiam os palestinos, e querem tanto detonar qualquer chance de haver Estado palestino, quanto alguns oficiais do Hamás gostariam de detonar o Estado de Israel. Por ironia, foram os antigos oficiais do “velho” exército israelense, que estimularam os “terroristas” do Hamás a construir mesquitas em Gaza. Pretendiam contrabalançar, com mesquitas, o crescimento do “terrorista” Yasser Arafat, em Beirute. E fui testemunha de uma de suas reuniões. Mas a coisa continuará como sempre, a velha história, até que o mundo acorde. “Nunca vi exército mais democrático que o exército de Israel”, disse o infeliz filósofo francês Bernard-Henri Lévy, horas antes do morticínio.

É, o exército de Israel não tem rival, é a elite, é humanitário, heroico. Esperem só até os piratas somalis saberem disso!


[1] Ver “Has the IDF become an army of settlers?” [O exército de Israel converteu-se em exército de colonos religiosos fundamentalistas?], 6/6/2010, em HAARETZ.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Financial Times: Israel está perdida no mar

1 de junho de 2010

Israel is lost at sea

Editorial do jornal britânico Financial Times

Com o ato claro de pirataria de ontem, Israel deu um golpe na legitimidade de sua própria luta. A morte de ativistas a bordo dos navios capturados fez a forma como Israel defende sua segurança, que já deveria ter retornado aos limites das leis internacionais, ser jogada no território dos sem-lei.

Israel alega que os ativistas tinham ligações com grupos extremistas e que alguns atacaram soldados israelenses com facas e paus (e de acordo com alguns testemunhos com armas leves). Mesmo se for verdade, isso não justificaria a captura de navios civis carregando ajuda humanitária em águas internacionais, menos ainda o uso de força mortífera.

Ultrajante o comportamento, o verdadeiro ultraje é o bloqueio ilegal de Gaza [mantido por Israel]. Desde a guerra de janeiro de 2009 em Gaza, que expôs a determinação de Israel de destruir as capacidades do Hamas sem considerar os custos para palestinos inocentes, Israel e o Egito se juntaram para evitar a reconstrução do enclave. De acordo com as Nações Unidas, três-quartos da destruição não foram reparados e 60% das casas não tem alimentos suficientes.

O objetivo ostensivo é enfraquecer o Hamas, a vertente da Irmandade Muçulmana que governa Gaza (e cuja encarnação egípcia é a verdadeira oposição a Hosni Mubarak). Mas o bloqueio cujo objetivo é destruir [o Hamas], além de ser punição coletiva ilegal, apenas faz aumentar o apoio ao Hamas. Se Israel e o Egito pretendiam transformar Gaza em um pequeno estado governado pela máfia, teriam feito o que fizeram: acabar com as alternativas à rede de contrabando do Hamas, deixando a população ainda mais à mercê do movimento.

O Hamas engaja em terrorismo e ocasionalmente atira foguetes contra Israel, mas é um exemplo daquela espécie rara no Oriente Médio: um governo popularmente eleito. Também assinou a proposta de paz de 2002 da Liga Árabe e da Organização da Conferência Islâmica. Se for um blefe, é um blefe que Israel deve pagar para ver. É isso o que está em jogo. O governo de Israel tem pretendido que está pronto para negociar a paz, mas que não há ninguém para negociar do outro lado. O ataque aos violadores-do-bloqueio demonstra que o país caiu no desrespeito pela lei internacional, na intolerância com a dissidência e na sabotagem aberta de uma representação viável para os palestinos.

Israel sempre soube da importância de sua conduta ser julgada legal pelos principais poderes do mundo. Esses poderes — que tomam corpo no Quarteto e no Conselho de Segurança das Nações Unidas — devem deixar claro que Israel foi muito além.
Tradução do Viomundo

Uri Avnery: Israel: Um governo de piromaníacos põe fogo no Oriente Médio

Israel: Um governo de piromaníacos põe fogo no Oriente Médio

Por Uri Avnery, Gush Shalom [Bloco da Paz] Telavive (Press-release)
31/6/2010


“Só um governo que já tenha perdido toda a capacidade de se autoconter e toda a conexão com a realidade comete tal crime. Atirar contra ativistas pacifistas, agentes de obra de auxílio humanitário, de várias nacionalidades, tomá-los como inimigos e enviar força militar massiva, em águas internacionais, atirar para matar e matar, é inconcebível!”

“Ninguém no mundo acreditará nas desculpas e mentiras do governo de Israel e dos porta-vozes do Exército” – disse o ex-deputado Uri Avnery, do movimento “Bloco da Paz”. Os ativistas do “Bloco da Paz”, com vários outros grupos, reuniram-se hoje em Ashdod, Tel-Aviv, Haifa e Jerusalem.

Hoje é dia de desgraça para o Estado de Israel. Dia de ansiedade, em que os israelenses descobrimos que nosso futuro está entregue a um bando de alucinados, todos de armas engatilhadas, atirando sem qualquer senso de responsabilidade. Hoje é dia de desgraça e loucura e estupidez sem limites. Dia em que o governo de Israel enlameou o nome do país ante todo o mundo, juntou mais provas, a comprovar que a imagem de uma Israel brutal, agressiva, não é invenção de propaganda. Hoje Israel dá um passo gigantesco afastando-se dos poucos amigos que nos restam no mundo.

Sim, houve ato de provocação no litoral de Gaza. Mas os provocadores não foram os ativistas pacifistas convidados a vir à Palestina e que tentavam chegar. Provocação houve, isso sim, praticada pelos comandos armados e encapuzados dos barcos de guerra, a mando do governo de Israel, que, para bloquear o avanço dos barcos dos pacifistas, não vacilou em atirar para matar, e matar!

É hora de levantar o sítio que sufoca a Faixa de Gaza e que tanto sofrimento causa aos palestinos. Hoje, o governo de Israel arrancou a máscara da face – com as próprias mãos – e mostrou a verdade: Israel jamais “desengajou-se” de Gaza. Nenhum desengajamento há, se Israel bloqueia o acesso à área ou manda soldados com ordem para matar e ferir quem tente chegar a Gaza.

Pelos Acordos de Oslo, há 17 anos, o Estado de Israel comprometeu-se a permitir e estimular a construção de um porto de águas profundas em Gaza, pelo qual os palestinos pudessem importar e exportar livremente seus produtos e o que necessitassem comprar, para desenvolver livremente sua economia. É hora de cumprir o acordado e abrir o Porto de Gaza. Só depois que o porto de Gaza estiver aberto, para livre movimentação, como acontece nos portos de Ashdod e Haifa, então sim, Israel ter-se-á “desengajado” da Faixa de Gaza. Até lá, o mundo continuará – com razão – a considerar a Faixa de Gaza como território ocupado por Israel; e Israel, responsável pelo destino dos seres humanos que vivem lá.

Tradução: Viomundo

sábado, 22 de maio de 2010

Israel está apagando os palestinos do mapa

Se Israel apóia a solução dos dois estados, pode começar pelo redesenho dos mapas oficiais que ignoram as fronteiras internacionalmente reconhecidas e a maioria das cidades palestinas. Uma olhada no mais recente material de divulgação do Ministério de Turismo de Israel dá uma resposta forte. O material do governo em 2009 elimina qualquer presença palestina. O ministro do Turismo, Stas Misezhnikov, é um quadro da direita radical do partido Yisrael Beiteinu, liderado pelo ministro de relações exteriores Avigdor Leiberman. O ministério apagou completamente a Cisjordânia e as áreas palestinas de seus materiais de divulgação. O artigo é de Daoud Kuttab.

Agora que as negociações entre israelenses e palestinos recomeçam, os palestinos estão determinados a começar enfrentando a questão das fronteiras, antes de recuar para discutir o estabelecimento sobre um estado palestino. Uma vez alcançado um acordo sobre as fronteiras, tudo leva a crer que ficará mais claro quem tem o direito de decidir se a construção dos assentamentos continua ou não.

Naturalmente, toda essa conversa tem um ponto central. Enquanto fronteiras exatas forem objeto de negociação, fica difícil começar a conversar, à medida que um dos lados insiste em antecipar uma solução fixa. E, pior, a maioria dos mapas mais recentes publicados unilateralmente pelo governo anexa a Palestina a Israel enquanto ignora a existência de várias comunidades palestinas.

É muito difícil aceitar o argumento de Israel, de que se trata de uma questão meramente simbólica. Símbolos importam e, no impedimento da realização de um estado palestino, Israel tem lhes dado plena atenção.

Durante anos foram os palestinos que se confrontaram com suas próprias questões simbólicas, seja no estatuto da Autoridade Nacional Palestina ou nos mapas dos livros escolares palestinos. Israel e seus propagandistas usam os mapas palestinos para questionar o reconhecimento palestino de Israel. Os palestinos são questionados por que em alguns mapas palestinos falta a demarcação da Cisjordânia e por que cidades israelenses como Tel Aviv desapareceram desses mapas enquanto a vizinha Jaffa é mencionada.

No passado, os palestinos respondiam frequentemente com o questionamento das fronteiras de Israel. Elas incluiriam ou não Jerusalém? Os israelenses de fato aceitam o estado palestino vizinho ao mesmo tempo em que exigem o reconhecimento pelos palestinos do estado de Israel?

Ainda assim, a despeito da retórica, eles silenciosamente mudaram bastante e seguiram os conselhos de seus amigos internacionais de fazer mudanças nos mapas e em especial nos livros escolares.

Desde 1994 a Autoridade Nacional Palestina revisou os antigos textos didáticos, levando Nathan Brown, professor de Ciência Política na George Washington University a publicar um autêntico estudo livrando a Autoridade Palestina das acusações de que representava a geografia regional de maneira errada.

“Os novos livros contam a história de um ponto de vista palestino, mas não visam a apagar Israel, deslegitimá-lo ou substituí-lo por um 'estado Palestino'”, escreveu Brown.

“Cada livro contém um prólogo descrevendo a Cisjordânia e Gaza como 'duas partes da terra natal'; os mapas mostram algum embaraço mas às vezes indicam a linha de 1967 e algumas outras medidas que permitem indicar fronteiras; a esse respeito eles realmente estão mais avançados do que os mapas israelenses. Os livros evitam tratar Israel detalhadamente mas de fato o mencionam pelo seu nome”.

A despeito dessas mudanças, a questão continua a assombrar os palestinos internacionalmente. De acordo com Brown, quase todas as acusações recentes estão vinculadas a uma única organização, o Centro de Monitoramento do Impacto da Paz, uma ONG pró-israelense. O grupo, diz Brown, se fundamenta “na desinformação e nos relatórios tendenciosos que apóiam seus chamados de incitação”. Há alguns anos o Congresso dos Estados Unidos também fez um estudo e chegou a uma conclusão similar.

Essas investigações conclusivas deveriam pôr um fim às acusações, mas poucos têm questionado o óbvio. Qual a posição israelense sobre os palestinos e como os mapas israelenses demarcam o território palestino?

Uma olhada no mais recente material de divulgação do ministério do turismo israelense dá uma resposta forte. O material do governo em 2009 elimina qualquer presença palestina.

O ministro do turismo, Stas Misezhnikov, é um quadro da direita radical do partido Yisrael Beiteinu, liderado pelo ministro de relações exteriores Avigdor Leiberman. Sob essa liderança extremista, o ministério apagou completamente a Cisjordânia e as áreas palestinas de seus materiais de divulgação. A região dos palestinos é retratada sem quaisquer fronteiras ou demarcações. Todos os mapas usados na campanha publicitária (disponível online em http://www.goisrael.com) omitem as áreas e as cidades palestinas.

Agora que as negociações começam, será que chegou o momento de Israel substituir a conversa vazia pela ação? E será que chegou a hora de a comunidade internacional fazer a simples exigência de que Israel pare de ignorar os palestinos e a Palestina, ao menos nos seus mapas oficiais?

Daoud Kuttab é um jornalista palestino premiado e ex-professor da cátedra Ferris de Jornalismo na Universidade Princeton. Ele vive entre Jerusalém e Aman.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: Carta Maior

sábado, 15 de agosto de 2009

Israel matou civis que acenavam com "bandeira branca", diz a HRW

por Adriana Carranca

Durante ofensiva de Israel em Gaza, em dezembro, soldados israelenses atiraram contra civis palestinos que acenavam com bandeiras brancas, matando onze deles, disse, ontem, a organização internacional Human Rights Watch (HRW). O relatório de acusação, com 63 páginas, tem base em investigações e entrevistas conduzidas em sete localidades de Gaza e inclui evidências como laudos médicos que sugerem como as vítimas foram mortas e depoimentos de testemunhas.

As Forças de Defesa de Israel não responderam aos pedidos da HRW por uma reunião para discutir as mortes.

Durante toda a ofensiva, foram mortos 1.100 palestinos. O governo de Israel diz que eles eram usados como escudos humanos por combatentes do Hamas. Em seu relatório, a HRW revela "não ter encontrado qualquer evidência de que estes civis teriam sido usados como escudos humanos ou atingidos no fogo cruzado entre os soldados israelenses e as forças de oposição". A organização afirma que as áreas onde ocorreram as 11 mortes não eram de combate.

Um dos casos do relatório traz a história de duas mulheres e três crianças que estavam na frente de casa, no leste de Jabalya, quando um soldado israelense abriu fogo contra eles, matando duas meninas, de 2 e 7 anos.

A morte deliberada de civis é crime de guerra.

Leia mais no site da HRW (em inglês).

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Governo israelense prossegue com sua prática de terror

Desta vez, as táticas de humilhação ao povo palestino foram empregadas na região de Jerusalém Oriental, para onde se dirigiram colonos israelenses que foram retirados de Gaza. Agora eles constroem casa em Jerusalém Oriental, desrespeitando acordos internacionais. Para que isso ocorra a prefeitura de Israel destrói oliveiras centenárias dos palestinos, asim como suas casas.

Israel é o principal obstáculo ao processo de paz na região por desenvolver, manter e ampliar sua política sionista, desrespeitosa aos direitos do povo palestino.
Veja a seguir texto e vídeo extraído hoje da BBC-Brasil





Centenas de Palestinos tiveram suas casas destruídas por escavadeiras israelenses em Jerusalém Oriental nos últimos anos.
Segundo autoridades israelenses, essas casas têm sido demolidas por que foram construídas ilegalmente.
Mas moradores palestinos afirmam que é praticamente impossível para eles conseguir permissão para construir em Jerusalém Oriental.
Segundo ONGs israelenses, até 2 mil pessoas poderão perder suas casas nos próximos meses.
Palestinos dizem que é possível que a situação em Jerusalém Oriental possa gerar violência.
Jerusalém é uma cidade dividida. A cidade está no centro da disputa entre israelenses e palestinos. Ambos os lados reivindicam o direito de estabelecer ali sua capital.
O status de Jerusalém continua indefinido para a ONU e a comunidade internacional.
Fonte: BBC-Brasil 24/04/2009

quinta-feira, 19 de março de 2009

Só agora a Folha descobriu: Isarael cometeu CRIME DE GUERRA

Durante todo o período da ocupação denominada cinicamente por Israel de “soldadinho de chumbo” (Cast Lead) publiquei neste blog uma série de artigos de jornalistas, ativistas pela paz e estudiosos sobre a ocupação sionista na Palestina, mais conhecido como Estado de Israel.

Se você acabou de chegar por aqui, faça uma busca com palavras chaves como: ocupação palestina, sionismo, Israel, crime de guerra, crime contra a humanidade, genocídio e termos correlatos vc encontrará textos, fotografias, charges que problematizam historicamente a ocupação na Palestina, além de textos contundentes que denunciavam a barbárie levada a cabo nos quase 30 dias de ataques israelenses ao povo palestino de Gaza, sob olhar condenscendente dos líderes mundiais (com raras exceções como Hugo Chavez e Evo Morales que condenaram o massacre).

Hoje a Folha de São Paulo descobriu o Haaretz, jornal em que escreve Gideon Levy, autor que você encontrará por aqui.
Na matéria abaixo, membros do exército israelense relatam que asssasinaram civis, famílias inteiras ’só porque podiam’ fazer isso.


Israel já sofreu duas condenações internacionais. Espero que os chefes do Estado, Forças Armadas e todos envolvidos neste genocídio do povo palestino sejam punidos e que os líderes mundiais façam Israel cumprir os acordos assinados e desocupem a Palestina, ponham fim ao famigerado bloqueio à Gaza e que os palestinos da Cisjordânia, de Gaza e Israel Leste possam viver em paz e com autonomia.

Crédito das imagens

da Folha Online 19/03/2009 - 10h50 Atualizado às 11h31.

Soldados de Israel relatam assassinatos de crianças e vandalismo em Gaza


Os soldados israelenses que lutaram durante os 22 dias da recente ofensiva contra o movimento islâmico radical Hamas, na faixa de Gaza, admitiram que mataram civis [ao menos 900, segundo números do ministério palestino] que não representavam ameaça às tropas e destruíram intencionalmente suas propriedades, "simplesmente porque podiam". As declarações foram divulgadas em reportagem publicada nesta quinta-feira pelo jornal israelense "Haaretz".

As confissões chocam pela franqueza. "A atmosfera em geral, não sei como descrever. As vidas de palestinos, digamos que são menos importantes que as de nossos soldados", diz um dos trechos da declaração de um chefe de pelotão que atuou em Gaza, ao justificar a morte de uma palestina e seus dois filhos, mortos por um atirador de elite israelense. "Porque, depois de tudo, fez seu trabalho segundo as ordens que lhe foram dadas. [...] Assim, se eles estão preocupados, podem justificar desta forma", completa.

O jornal publicou trechos de declarações de militares que lutaram durante a operação em Gaza realizada entre 27 de dezembro e 18 de janeiro deste ano e que deixou ao menos 1.300 mortos, entre eles ao menos 900 civis, além de destruir milhares de casas e a infraestrutura do território palestino.
Os militares, entre eles pilotos de combate e soldados de infantaria, fazem as revelações em relatório do curso preparatório para soldados de Yitzhak Rabin. Seus testemunhos contradizem declaração oficial do Exército israelense sobre o rígido comportamento moral de suas forças durante a operação e confirmam em parte as acusações de organizações internacionais de direitos humanos que criticaram o excesso de violência na operação.

Falha de comunicação

Os testemunhos incluem a descrição de um líder de um pelotão de infantaria sobre um incidente no qual um atirador de elite disparou por engano contra uma mulher palestina e seus dois filhos. Segundo o militar, o comandante de outro pelotão deixou que a família saísse de um edifício no qual tinha ficado retida por soldados sob seu comando, para evitar que fosse confundida com militantes do Hamas.

"Disseram para que fossem pela direita. Uma mãe e os dois filhos não entenderam [o comandante] e foram à esquerda, mas esqueceram de dizer ao atirador de elite no telhado que deixasse eles irem, que tudo estava normal e que não devia atirar. E ele fez o que achava que devia fazer, cumpria ordens", disse.

Segundo o militar, "o atirador viu a mulher e os dois filhos se aproximando dele além das linhas que ninguém devia atravessar". "Atirou. Em qualquer caso, o que aconteceu é que os matou", resume.

O chefe de pelotão disse ainda não acreditar que o atirador se "sentisse mal a respeito", afinal, fazia apenas seu trabalho.

Não há lógica

Segundo o jornal, o chefe do pelotão conta ainda que foi conversar com seu comandante sobre as regras da operação que permitiam que os militares "checassem" as casas à procura de militantes palestinos com armas na mão e atirando sem nem ao menos avisar os moradores com antecedência.

Depois que as regras foram mudadas, afirma o jornal, o líder do pelotão reclamou que eles "deveriam matar todo mundo em Gaza". "Todo mundo é terrorista", explicou.

"Você não tem a impressão dos comandantes de que há qualquer lógica nisso, mas eles não dizem nada. Nós escrevíamos "morte aos árabes" nas paredes, pegávamos as fotos de família deles e cuspíamos nelas, apenas porque podíamos", conta o chefe do pelotão.

"Eu acho que este é o principal: Entender o quanto as Forças Armadas israelenses caíram no âmbito de ética. Isso é o que eu mais me lembrarei", disse o soldado.

O chefe do serviço jurídico do Exército israelense, Avichai Mendelblit, ordenou a abertura de uma investigação sobre as circunstâncias dos fatos relatados pelos soldados, que considera "errôneos" e "inaceitáveis" para as Forças Armadas de Israel.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O sionismo autoriza todos os atos de violência?

Gideon Levy, Haaretz, 12/2/2009, 13:45

A esquerda israelense morreu em 2000. Desde então, o cadáver andou por aí, insepulto, até que, dia 10/2, veio o certificado de óbito, selado e assinado. O carrasco de 2000 foi o coveiro de 2009: Ehud Barak, ministro da Defesa. O homem que inventou e espalhou a mentira de que não haveria parceiros para a paz colheu agora o fruto, na eleição de anteontem. O funeral aconteceu há dois dias.

A esquerda israelense está morta. Ao longo dos últimos nove anos, pronunciou em vão o nome do campo da paz. Os partidos Labor, Meretz e Kadima aspiraram a falar em nome da esquerda, mas foi só mentira e fingimento. Os partidos Labor e Kadima fizeram duas guerras e jamais pararam de construir colônias de judeus na Cisjordânia; o Meretz apoiou as duas guerras. A paz ficou órfã.

Os eleitores israelenses, já enganados e induzidos a pensar que não haveria parceiros para fazer a paz e que a única solução seria sempre a violência – guerras, "assassinatos seletivos" e colonização – pronunciaram-se claramente na eleição: liquidação de queima de estoque, para fechar, dos partidos Labor e Meretz. Os poucos votos que esses dois partidos obtiveram só chegaram por inércia.

Não haveria por que ser diferente. Muitos longos anos sem praticamente qualquer protesto de esquerda, e a praça calou-se, a mesma praça que ardeu de indignação depois de Sabra e Chatila, calada. O nenhum protesto refletiu-se nas urnas.

Nem o Líbano, nem Gaza, nem as crianças mortas, nem as bombas de fragmentação, nem as bombas de fósforo nem todas as atrocidades da ocupação – nada arrastou para as ruas a esquerda israelense, covarde e indiferente. Várias vezes a esquerda encontrou eco no centro e, vez ou outra, até na direita, todos, do ex-primeiro-ministro Ariel Sharon ao atual primeiro-ministro Ehud Olmert, falaram língua que, antigamente, se considerou radical. A voz era de esquerda, mas as mãos eram mãos de direita.

Na fímbria desse baile de máscaras houve outra esquerda, a esquerda marginal – determinada e corajosa, mas minúscula e pouco representativa. O fosso entre essa esquerda marginal e a esquerda foi supostamente o sionismo. Os grupos Hadash, Gush Shalom e outros estão fora do campo da política em Israel. Por quê? Porque esses grupos são "não sionistas".

E o que é o sionismo hoje? Um conceito datado, velho, nascido de outro mundo e de outra realidade, conceito vago e enganador, para marcar a diferença entre o autorizado e o proscrito. Sionismo significa colonizar territórios ocupados? Significa ocupação? O sionismo autoriza todas as violências, todas as injustiças? E a esquerda empacou.

Qualquer crítica que se fizesse contra o sionismo, ainda que contra o sionismo da ocupação, passou a ser aceito como tabu que a esquerda não se atreveu a quebrar. A direita fez do sionismo monopólio seu. E a esquerda emudeceu.

Um Estado judeu e democrático? A esquerda sionista disse sim automaticamente, apagando as diferenças e sem coragem para demarcar qualquer prioridade. Legitimar e autorizar qualquer guerra e todas as guerras? Outra vez, a esquerda sionista empacou – sim, no começo; e não, logo depois, ou alguma coisa assim. Resolver o problema dos refugiados e o direito de os refugiados voltarem? Denunciar os erros de 1948? O impronunciável. Agora, como era de esperar, a esquerda chegou ao fim dessa estrada.

Quem ainda queira uma esquerda significativa deve, antes, tirar o sionismo do porão e pô-lo para tomar sol. Antes de que nasça dos grupos hegemônicos algum movimento que tenha coragem para redefinir o sionismo, não haverá esquerda em Israel.

Ninguém pode ser, ao mesmo tempo, de esquerda e sionista, se o sionismo é definido pela direita. Quem resolveu que as colônias são sionistas e legítimas, e que não seria nem sionista nem legítimo lutar contra as colônias? É preciso romper esse tabu.

É permitido não ser sionista nos termos em que o sionismo continua definido em Israel. É permitido crer que os judeus têm direito a um Estado e, mesmo assim, ser contra o sionismo que gera a ocupação. É permitido crer que todos devem saber a verdade sobre 1948, pedir perdão pela injustiça e reabilitar as vítimas. É permitido opor-se a todas as guerras desnecessárias desde o primeiro momento. É permitido crer que os árabes israelenses devem ter os mesmos direitos – culturalmente, socialmente e nacionalmente – que os judeus. É permitido levantar todas as questões, até as mais terríveis, sobre a imagem do exército israelense como exército de ocupação. É permitido, até, desejar conversar com o Hamás.

Conforme o que cada um prefira, isso é sionismo ou isso é anti-sionismo. Seja o que for, é legítimo e é essencial para os que não queiram ver Israel destruída pelas insanidades da direita por mais muitos anos. Quem queira que haja esquerda em Israel, tem de dizer "Basta!" ao sionismo – sionismo sobre o qual a direita já assumiu completo controle.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

60 mil palestinos, em Jerusalém, perderam direitos de cidadania



Maisa Abu Ghazaleh, Palestine News Network, 10/2/2009, 10h44


Como parte da operação em curso para fazer de Jerusalém cidade israelense (muro incluído), além das colônias e do confisco de terras, estão implantados agora o confisco dos documentos de identidade dos residentes em Al Ram e o fechamento da passagem de fronteira em Beit Hanina.

Beit Hanina é o único ponto pelo qual os palestinenses residentes no bairro-subúrbio de Al Ram podem ter acesso às suas casas. Esses cidadãos recebem um documento de identidade, emitido pela administração israelense, "azul" para os que vivem em Jerusalém e "verde" para os que vivem na Cisjordânia.

Slaima Sarhan, presidente do conselho local de Al Ram, informou hoje que o governo israelense converteu em "zona militar" toda a área próxima do muro, no bairro, decisão vigente desde o início de fevereiro. Essa decisão vem depois de a passagem ter sido bloqueada – o que implica dizer que não há via de acesso entre as áreas de Jerusalém norte e Jerusalém sul.

Sarhan alertou para os efeitos dessa decisão unilateral de Israel, de impor, mais uma vez, um fato consumado. "Agora, o único acesso possível para entrar e sair de Al Ram e dos bairros do setor norte de Jerusalém são os postos militares de Qalandiya ou Hizma. Na prática, significa que os moradores estão cercados, isolados do resto da cidade, com acesso muito limitado a estabelecimentos comerciais, escolas, médicos etc."

O posto de fronteira militarizado de Qalandiya fica na parte sul de Ramállah, na Cisjordânia, e a passagem só é autorizada para portadores do documento verde de identidade. Se a situação persistir, o principal subúrbio de Jerusalém ficará completamente isolado do resto da cidade. O muro, ali, foi construído há anos – construção condenada pela Corte Internacional de Justiça –, impedindo o trânsito pela principal avenida da cidade. Muitos imaginaram que a passagem de Al Ram permaneceria aberta, depois da sentença da Corte Internacional.

Com o fechamento dessa única passagem, cerca de 5 mil estudantes terão de andar muito mais para alcançar os pontos de controle. A decisão de Israel implica fechamento de fronteiras, que deixa Jerusalém ainda mais completamente isolada. A viagem muito mais longa implica custos com os quais muitas famílias não poderão arcar, além de mais estresse para os estudantes. Há estudantes que diariamente enfrentam essas dificuldades para chegar às escolas em Jerusalém; mas muitos não têm como arcar com os custos extra de transporte.

"São decisões que dão andamento ao processo de limpeza étnica" – disse Sarhan ontem, a Palestinian News Network . – "Com o fechamento da passagem e o Muro, eliminam-se laços familiais e sociais."

Em Jerusalém norte, um funcionário acrescentou: "O fechamento da passagem é, antes de tudo, movimento político. Os que vivem fora das que agora se definem como 'novas fronteiras' de Jerusalém perdem a própria identidade. A campanha visa aos portadores do documento azul. São 60 mil pessoas às quais Israel confisca a identidade, para esvaziar Jerusalém dos moradores tradicionais e dar um passo na direção do sonho de Israel, de inventar uma Jerusalém judia."

Sarhan acrescentou também que as pessoas que hoje residem em Al Ram são, na maioria, os grupos já deslocados da Cidade Antiga, de Silwan e de Ras Al Amud, obrigados a mudar-se por pressão das políticas israelenses contra eles; Israel destruiu-lhes as casas e, depois, negou-lhes a autorização para construir. "Os habitantes tradicionais de Jerusalém foram arrancados, primeiro, do centro da cidade, e deslocados para a parte norte, para o bairro-subúrbio de Al Ram. Agora, estão sendo completamente cercados num gueto, impedidos de se locomover" – disse.

"É cada vez mais necessário resistir às políticas israelenses que visam a expulsar os palestinos. Todos vêem os planos de Israel de ir-se aos poucos se impondo como única presença em Jerusalém. Mas não temos programa nacional integrado que organize a resistência popular. Agora, estamos exigindo um programa de emergência, que dê apoio aos palestinos de Jerusalém, que lhes dê um mínimo de apoio contra a política israelense de expulsá-los todos de Jerusalém."

Depois de o muro ter sido erguido ao longo da linha amarela pelo meio da principal rua de Al Ram, muitas lojas fecharam e os moradores têm grande dificuldade de acesso a centros de saúde, hospitais e às escolas.

Sarhan informou que na área de Monte Samoud, vivem 300 famílias que, de fato, estão cercadas, obrigadas a usar cartões magnéticos controlados, para entrar em casa.

Artigo original, em inglês, "aqui"

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Israel contra Gaza: guerra injusta. 'Autodefesa' contra a paz.

MICHAEL MANDEL, Counterpunch, 5/2/2009



A autodefesa justifica a guerra de Israel contra Gaza?

Levantaram-se objeções a essa alegação, baseadas na necessidade e na proporcionalidade. Matar mais de 1.000 palestinos em três semanas, centenas dos quais crianças, e ferir outros milhares, sob o objetivo alegado de conter a ameaça dos foguetes Qassams que não mataram nem feriram ninguém em Israel durante os seis meses da trégua declarada pelos dois lados, nem antes de Israel ter atacado Gaza dia 27/12, é desproporcional e intolerável em qualquer sistema ético que reconheça que a vida dos palestinos vale o mesmo que a vida dos israelenses.


É tão desproporcional, que não se pode crer que a defesa contra aqueles foguetes tenha sido o verdadeiro motivo da guerra. Ignorar as muitas vias diplomáticas possíveis para deter os mesmos foguetes, por pequena ameaça que sejam – por exemplo: levantar o bloqueio que sufocou Gaza por 18 meses – sugere a mesma interpretação.


Mas há objeção mais fundamental: o princípio auto-evidente, princípio legal e moral, de que o agressor não pode alegar autodefesa para justificar violência contra a resistência provocada pelo seu próprio ato de agredir. Esse princípio está bem claramente manifesto nas sentenças dos tribunais de Nuremberg.

Por exemplo, no que escreveu um dos juízes, em Nuremberg:

"Um dos fenômenos mais espantosos desse caso, ao qual não faltam traços espantosos, é o modo como a guerra de agressão que a Alemanha fez à Rússia foi tratada pela defesa como se tudo tivesse acontecido ao contrário do que aconteceu. (...) Se se assumir que algumas das unidades da resistência russa ou membros da população cometeram atos que são ilegais face as leis de guerra, ainda faltaria demonstrar que esses atos não foram atos de legítima defesa contra ataques lançados contra eles pelo exército invasor. Nos termos da Lei Internacional, como nos termos da lei comum, não há revide ao revide. O agressor agredido por sua vítima não a pode chacinar e, em seguida, alegar legítima defesa" ("Julgamento de Otto Ohlendorf & outros", Tribunal Militar, II-A, 8/4/1948).


Então, quem agrediu quem?

Já não haveria qualquer dúvida sobre quem foi o agressor, tampouco, se o ataque tivesse acontecido antes da retirada de Israel da Faixa de Gaza em 2005. Até ali, Israel já praticava agressão continuada contra Gaza por 38 anos, em ocupação violenta e ilegal, também de outras áreas do território palestino, inclusive de Jerusalém Leste, desde 1967.


Em 2005, a ocupação israelense já havia sido condenada – declarada ilegal –, pelos mais altos órgãos jurisdicionais da lei internacional, especificadamente pela Corte Internacional de Justiça, em sentença de 2004, sobre o muro de separação. Já havia sentença de ilegalidade da ocupação e das colônias de israelenses, as quais violam a lei contra a colonização, e que são elementos-chave na ocupação. Os 15 juízes da Corte Internacional foram unânimes na opinião de que as colônias eram então ilegais; e 13 dos 15 consideraram ilegal também o muro, sob o argumento de que o muro protege as colônias, não a própria Israel, e, portanto, são se qualifica como instrumento de autodefesa.


Os foguetes começaram, de Gaza, em 2001; a primeira vítima israelense é de 2004. Desde então, houve 14 vítimas israelenses, antes da atual guerra. Trágico, sim, mas evidentemente sem importância alguma, se comparadas aos 1.700 palestinos mortos em Gaza no mesmo período. Uma morte é uma tragédia, mas muitas mortes não são só "uma estatística", como pensava Stalin; são a tragédia multiplicada muitas vezes.


Considerada a ocupação por Israel, agressiva e violenta, antes da retirada de 2005, os foguetes de Gaza têm de ser considerados, esses sim, como autodefesa proporcional e necessária ou como revide à agressão pelos israelenses.


A retirada de Israel, de Gaza, em 2005, altera a situação?

Argumentou-se por boa razão, que o bloqueio de 18 meses contra Gaza, principal razão pela qual o Hamás recusou-se a renovar a trégua, é, ele mesmo, o ato de agressão que gerou o direito de autodefesa dos palestinos.


Mas ainda mais importante, embora quase sempre esquecida, é a ocupação continuada, ilegal e agressiva, por Israel, da Cisjordânia e de Jerusalém Leste, e que continuou depois da retirada de Gaza, em 2005. De fato, a retirada de Gaza foi feita com o objetivo de fortalecer a posição israelense nos outros territórios e foi acompanhada de aumento no número de colonos, nas outras áreas, em relação aos que foram removidos de Gaza.


A ocupação da Cisjordânia e de Jerusalém Leste também foi condenada, como a ocupação de Gaza, nas sentenças da Corte Internacional e nas resoluções do Conselho de Segurança. Além disso, pelos Acordos de Oslo, Israel e Palestina acordaram que "as duas partes consideram que a Cisjordânia e a Faixa de Gaza compõem uma única unidade territorial, cujos integridade e status serão preservados no período intermédio."


De fato, quando o Hamás venceu as eleições em 2006, eleições declaradas impecavelmente claras e legais e perfeitas por todos os observadores internacionais, o Hamás ganhou poder legítimo sobre toda a Autoridade Palestina, incluída, é claro, a Cisjordânia (e foi impedido, por Israel, de fazer campanha eleitoral em Jerusalém Leste). Há vários advogados e juristas da Cisjordânia filiados ao Hamás, hoje, presos em prisões israelenses.


O fato básico é que os palestinos da Cisjordânia e de Gaza são um único corpo eleitoral, embora separados por muros, cercas e pontos de controle de fronteira. A retirada unilateral de Israel de uma parte desse único território não torna agressores os habitantes dessa parte do território quando resistam contra a ocupação ilegal do restante do território.


A autodefesa não justifica o ataque nem o bloqueio-sítio que o precedeu. Por que justificaria? Porque o Hamás seria "organização terrorista"? Mas o terrorismo define-se por matar deliberadamente civis para objetivos políticos ilegais e, nessa empreitada, Israel pratica terrorismo muitas vezes mais claro e comprovável, que o Hamás. Porque o Hamás não reconhece a Israel "o direito de existir"? Mas o Hamás ofereceu muitas vezes trégua de longo prazo a Israel, nos termos das fronteiras legais internacionalmente reconhecidas –, que são fronteiras de direito, e é direito do Hamás defender o próprio direito.


Israel diz que isso não basta; que, antes, o Hamás teria de reconhecer a legitimidade de Israel; em outras palavras, que teria de conceder a legitimidade do Estado judeu e tudo o que isso significou para os palestinos. Em outras palavras, como disse, com ironia, um jornalista israelense: Israel insiste em que o Hamás abrace o sionismo, como condição para iniciar conversações de paz.


Nada justifica a violência, nessa ou em qualquer escala. A verdade é que a razão mais plausível pela qual Israel combate o Hamás (e, antes, combateu a OLP) é: autodefesa, até, pode-se dizer que seja; mas não contra foguetes Qassams e, sim, contra o dever de Israel de fazer a paz com os palestinos, nos limites das fronteiras de antes de 1967 – exatamente como exige a lei internacional.


Michael Mandel é Professor na Faculdade de Direito Osgoode Hall da Universidade de York, em Toronto, onde leciona Direito de Guerra. É autor de How America Gets Away with Murder.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

mapeamentos dos assentamentos ilegais israelenses no google

Extraído do ANIMOT

Os assentamentos de colonos israelenses em terras palestinas foram mapeados com o Google.

"O governo israelense tem apoiado e expandido o projeto de colonização dos territórios ocupados durante todo o tempo, e agora isso está documentado", diz Adam Horowitz.

Veja também: Opinionator e o Blog do Mello

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Apoio a ação em Gaza indica endurecimento de israelenses

Guila Flint

De Tel Aviv para a BBC Brasil

03 de fevereiro, 2009 - 14h13 GMT (12h13 Brasília)


A falta de oposição significativa em Israel à sua recente operação militar na Faixa de Gaza indica um processo de endurecimento da sociedade israelense, na opinião de analistas ouvidos pela BBC Brasil.


Tal processo pode, de acordo com os especialistas, se refletir nas eleições gerais, marcadas para o dia 10 de fevereiro. Os beneficiados, nesse caso, seriam partidos mais conservadores, que defendem maior rigidez nas relações com os palestinos.

"Essa guerra marcou uma mudança dramática na sociedade israelense", avalia o historiador Arie Arnon, da Universidade Ben Gurion. "Dessa vez, quase não houve oposição."

Nos primeiros dias da ofensiva à Faixa de Gaza, chamada pelas autoridades israelenses de "Operação Chumbo Fundido", as pesquisas de opinião indicavam um apoio de cerca de 80% da população ao bombardeio intenso do territorio palestino.

"Exceto por alguns milhares de humanistas e pacifistas, que foram contra os ataques desde o inicio, a população apoiou o governo, e os canais de televisão colaboraram quase que totalmente com o Exército, filtrando as imagens da terrivel destruição causada em Gaza", afirma Arnon.

"Os canais de TV locais mostraram muito pouco das imagens que o mundo todo viu."

Segundo uma pesquisa encomendada pelo canal 2 da TV israelense, 84% do publico apoiou a cobertura da mídia israelense do que ocorreu na Faixa de Gaza. Apenas 15% reclamaram de falta de informações.

Justificativa

O governo israelense justificou a ofensiva dizendo que não tinha outra alternativa para lidar com o grupo Hamas, que tomou o controle da Faixa de Gaza em 2007 e vinha lançando mísseis de fabricação caseira contra o território israelense.

"Depois de oito anos de ataques constantes com foguetes contra civis israelenses, Israel não tinha outra alternativa exceto implementar seu direito legitimo de auto defesa", afirmou o governo na época.

Tal justificativa convenceu muitos dos que, em conflitos anteriores, costumavam criticar as operações militares de Israel contra grupos palestinos.

O escritor A. B. Yehoshua, considerado um dos mais importantes intelectuais da esquerda israelense, foi um deles. Em artigo publicado no jornal Haaretz, o escritor apoiou a ofensiva contra Gaza.

"O que estamos tentando fazer é levar os lideres (palestinos) a parar a agressão (contra civis israelenses)", escreveu Yehoshua. "Infelizmente, crianças também estão morrendo apenas por causa da mistura trágica e deliberada entre combatentes do Hamas e a população civil."

Cerca de 34 mil pessoas assinaram um abaixo-assinado contra a âncora do canal 2, Yonit Levi, por ela ter demonstrado empatia com o sofrimento dos "inimigos".

Durante as três semanas da ofensiva, pelo menos 1,3 mil palestinos morreram - quase um terço delas crianças - e 5,5 mil ficaram feridos durante o conflito, de acordo com médicos em Gaza. Treze israelenses morreram - três deles civis.

Poucos protestos

Apesar das poucas críticas, há quem acredite que o forte apoio ao governo seja um problema.

"A reação do publico à ofensiva em Gaza demonstrou uma grave deterioração moral da sociedade israelense", disse o professor de Sociologia Politica e diretor do Instituto Humphrey de Pesquisas Sociais, Lev Grinberg, à BBC Brasil.

"Em 1982, quando falangistas libaneses cometeram o massacre de Sabra e Chatila, com a ajuda indireta do Exército israelense, 400 mil manifestantes sairam às ruas para protestar", afirmou, para depois lembrar que "apenas alguns milhares" protestaram contra a ação em Gaza, em atos pouco registrados pela imprensa.

O sociólogo diz acreditar que, ao longo desta década, a esperança em uma solução pacífica para o conflito na região tenha diminuído em Israel.

"Desde o inicio da (segunda) Intifada, em 2000, a sociedade israelense abandonou a esperança em uma solução politica para o conflito com os palestinos e passou a apoiar mais e mais o uso da força, a linguagem do ódio está prevalecendo e isso explica o crescimento de (Avigdor) Liberman nas pesquisas de opinião", afirma Grinberg.

Liberman, líder do partido de extrema direita Israel Beiteinu ("Israel é nosso lar"), defende o cancelamento da cidadania de árabes que não demonstrarem "fidelidade" ao Estado.

Ele também é a favor da expulsão dos deputados árabes, os quais considera "infiéis", do Parlamento e sugere uma "troca de populações e territórios", em que as aldeias árabes de Israel seriam transferidas para um futuro Estado Palestino e os assentamentos israelenses na Cisjordania seriam anexados a Israel.

Pesquisas recentes de opinião indicam que, nas proximas eleições, o partido de Liberman poderá obter um aumento de quase 50% no número de cadeiras que ocupa no Parlamento, das 11 atuais para 16, o que faria dele o terceiro maior partido de Israel, depois do conservador Likud, líder nas pesquisas, e do partido governista Kadima, de centro.

Fonte: BBC- Brasil


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

"Sob a bandeira preta da ilegalidade"


Uri Avnery, 1/2/2009



UM JUIZ ESPANHOL iniciou inquérito judicial em que acusa vários políticos, militares e personalidades israelenses por prática de crime de guerra e de crime contra a humanidade. Fato gerador: a bomba de uma tonelada lançada em 2002 sobre a casa de Salah Shehade, líder do Hamás. Além da vítima visada no atentado, foram mortas outras 14 pessoas, a maioria das quais, crianças.


Para os que tenham esquecido: o então comandante da Força Aérea de Israel, Dan Halutz, foi entrevistado, à época, sobre o que sentia quando bombardeava um prédio residencial. A resposta dele, inesquecível: "Uma leve trepidação na asa." Quando nós, do Gush Shalom [Movimento da Paz] o acusamos por crime de guerra, exigiu que fôssemos julgados, nós, acusados de traição. Com ele estava o primeiro-ministro, Ariel Sharon, que nos acusou de desejar "entregar os oficiais do exército de Israel ao inimigo". Fomos oficialmente notificados pelo Procurador Geral de que o Estado de Israel não investigaria o ataque à bomba.


Eu deveria estar feliz, portanto, que, depois de tanto tempo, alguém tenha decidido dar andamento àquele processo (por mais que pareça motivado por pressão política). Mas lamento que tenha acontecido na Espanha, não em Israel.


Os telespectadores em Israel têm sido brindados com imagens bizarras: os oficiais do exército mascarados, como criminosos comuns, porque a lei passou a proibir que sejam identificados. Como os pedófilos e os estupradores.


As ordens dos censores militares aplicam-se a todos os oficiais, de comandantes de batalhão para baixo e que tenham participado na guerra de Gaza. Dado que já se conhecem todas as caras dos comandantes de brigada para cima, o mascaramento obrigatório não os inclui.


Imediatamente depois do cessar-fogo, o ministro da Defesa, Ehud Barak, assinou lei especial que dá apoio e cobertura especiais do Estado a todos os soldados e oficiais que participaram da guerra de Gaza e que possam ser acusados, em qualquer lugar do mundo, por prática de crime de guerra. O que parece confirmar um ditado hebraico: "Em cabeça de ladrão, chapéu pega fogo."


NADA TENHO a objetar a esses processos fora de Israel. O que interessa é que os criminosos de guerra, como os piratas, sejam julgados. Não importa muito onde sejam presos. (Essa foi a regra aplicada pelo Estado de Israel quando sequestrou Adolf Eichmann na Argentina e o enforcou em Israel por crimes cometidos fora do território de Israel e, de fato, antes de Israel existir.)


Mas sou israelense e patriota e preferiria que israelenses suspeitos de crime de guerra fossem julgados em Israel. Porque é necessário, por respeito aos oficiais e soldados decentes do exército de Israel e para educar as futuras gerações de cidadãos e de soldados.


Não é preciso recorrer só às leis internacionais. O Estado de Israel tem leis contra crimes de guerra. Basta lembrar a sentença imortal cunhada por Binyamin Halevy, em função de juiz militar, no julgamento que condenou os policiais israelenses de fronteira, responsáveis, em 1956, pelo massacre em Kafr Kassem, quando dúzias de crianças, homens e mulheres foram assassinados por violar um toque de recolher que nem sabiam que houvesse sido implantado.


O juiz declarou que mesmo em tempos de guerra há ordens que carregam a "bandeira preta da ilegalidade". São ordens "manifestamente" ilegais – isso é, ordem que qualquer pessoa normal sabe que são ilegais, sem precisar consultar advogados.


Criminosos de guerra envergonham o exército cujo uniforme vistam – sejam generais ou soldados rasos. Como soldado combatente que eu era, no dia em que as Forças de Defesa de Israel, o exército de Israel, foi oficialmente criado, envergonho-me dos criminosos de guerra e exijo que sejam expulsos do exército e julgados em Israel.


Minha lista de suspeitos inclui políticos, soldados, rabinos e advogados.

NÃO HÁ nem sombra de dúvida de que, na guerra de Gaza, cometeram-se crimes de guerra. Falta determinar quem os cometeu e a extensão dos crimes.

Exemplo: soldados gritaram para os moradores de uma casa, que saíssem. Uma mulher e quatro crianças saíram, usando lenços como bandeiras de rendição. É absolutamente claro que não eram combatentes armados. Um soldado de um tanque próximo levantou-se, mirou e matou-os a queima-roupa. Segundo testemunhas das quais nada autoriza a duvidar, aconteceu mais de uma vez.


Outro exemplo: o bombardeamento da escola da ONU, repleta de refugiados, de onde não saiu um único tiro – o que até o exército já admitiu, depois de desmascaradas as desculpas iniciais.

Esses são casos "simples". Mas o espectro de casos é muito mais amplo. Uma investigação judicial criteriosa teria de começar por cima: pelos políticos e oficiais superiores que decidiram iniciar a guerra e autorizaram os planos; todos esses têm de ser investigados a partir das decisões que tomaram. Em Nuremberg fixou-se para sempre o entendimento de que é crime iniciar guerra de agressão.


Investigação objetiva tem de determinar se se justifica a decisão de iniciar a guerra de Gaza, ou se haveria outros meios para deter o lançamento de foguetes contra o território de Israel. Claro que país algum aceitaria que suas cidades e vilas fossem bombardeadas. Mas não haveria meio de evitar que fossem, no caso de Israel, mediante contato com as autoridades em Gaza? A verdadeira causa da guerra de Gaza foi a decisão, pelo governo de Israel, de boicotar o Hamás, vencedor de eleiçõs democráticas na Palestina? O bloqueio imposto a 1,5 milhão de habitante da Faixa de Gaza contribuiu para que começassem os ataques com Qassams? Em resumo: antes de decidir iniciar uma guerra brutal, o governo de Israel considerou devidamente todas as alternativas?


O plano de guerra incluiu ataque massivo contra a população civil na Faixa de Gaza. O real objetivo da guerra pode ser inferido, menos das declarações oficiais dos que a iniciaram e mais de suas ações. Se nessa guerra foram mortos cerca de 1.300 homens, mulheres e crianças, a maioria dos quais não eram combatentes; se cerca de 5.000 pessoas foram feridas, a maioria das quais, crianças; se mais de 2.500 residências foram destruídas total ou parcialmente; se a estrutura básica de vida foi totalmente demolida em Gaza – é evidente que nada disso aconteceria acidentalmente. Tudo isso tem, necessariamente, de ter sido parte do plano de guerra.


O que políticos e oficiais do exército de Israel declararam durante a guerra deixa claro que o plano de guerra visava a pelo menos dois objetivos; e ambos configuram crime de guerra:


(1) causar morte e destruição em larga escala, para "fixar um preço", "para marcar a fogo a consciência [do inimigo]", "para reforçar o poder de contenção" e, sobretudo – para levar a população a levantar-se contra o Hamás e derrubar o governo. Evidente que, em todos esses objetivos, o alvo sempre foi a população civil. E


(2) evitar baixas no exército de Israel a (literalmente) qualquer preço, destruindo tudo, prédios e vidas humanas nas áreas nas quais o exército de Israel se movesse, destruindo também casas habitadas e impedindo o socorro aos feridos, matando gente indiscriminadamente. Em alguns casos, os habitantes foram avisados de que fugissem, mas foi gesto para, apenas, contruir algum álibi: não havia para onde fugir e os fugitivos também foram fuzilados durante a fuga.


Uma corte independente terá de decidir se tal plano de guerra respeita a legislação nacional e internacional, ou se, desde o início, configura crime de guerra e crime contra a humanidade.

Foi guerra entre um exército regular com grande capacidade de ataque contra uma força de guerrilha. Mas nem em guerras assim tudo é permitido. Argumentos como "os terroristas do Hamás escondiam-se entre os civis" e "usaram a população como escudos humanos" servem talvez para propaganda, mas nada mudam, de substancial: é sempre assim em guerra de guerrilhas. E o grande risco de atingir civis tem de ser considerado na decisão de iniciar uma guerra sob essas condições.


Em Estado democrático, os militares são subordinados aos dirigentes políticos. OK. Mas isso não inclui obedecer ordens "manifestamente" ilegais, sobre as quais paire "a bandeira preta da ilegalidade". Desde os julgamentos de Nuremberg, já não se aceitam desculpas de "obedecer ordens".


É indispensável, portanto, examinar a responsabilidade pessoal de todos os envolvidos – do Chefe de Estado, do Comandante Militar, do Comandante de Operações e dos Comandantes de Divisão até o último soldado. Pode-se deduzir das declarações dos soldados que muitos acreditavam que o serviço era "matar a maior quantidade possível de árabes". Isso só significa uma coisa: não distinguir entre combatentes e não-combatentes. Essa ordem é completamente ilegal, seja explícita seja implícita numa piscadela ou num cutucão. Os soldados entenderam que esse era "o espírito do comandante".


DENTRE os suspeitos de crimes de guerra, os rabinos têm lugar de honra.

Todos os que incitaram a prática de crimes de guerra e conclamaram os soldados, direta ou indiretamente, a cometer crimes de guerra devem também ser julgados por crime de guerra.

Quando se fala de "rabinos", pensa-se em homens velhos, de longas barbas brancas e grandes chapéus, que dão voz a saberes veneráveis. Os rabinos que acompanharam os soldados de Israel são de espécie muito diferente.


Nas últimas décadas, a educação religiosa financiada pelo Estado, em Israel, tem formado "rabinos" que mais parecem padres católicos medievais do que os velhos sábios judeus poloneses ou marroquinos. Esse sistema de doutrinação massiva converte os jovens a uma espécie de culto tribal violento, totalmente etnocêntrico, que vê a história universal como uma história sem fim dos judeus vítimas eternas. É uma religião do Povo Eleito, indiferente a outros povos, uma religião sem compaixão por quem não seja judeu, que glorifica o genocídio decretado por Deus narrado na Bíblia, no Livro de Josué.


Os "rabinos" professores de educação religiosa dos mais jovens são os que resultam desse tipo de educação religiosa. Por influência deles, está em andamento um movimento para converter "por dentro" o exército de Israel. Oficiais que usam kippa substituíram os oficiais educados nos Kibbuts e que, até há pouco tempo, eram maioria no exército. Muitos dos oficiais das patentes médias e mais baixas do exército de Israel pertencem a esse grupo.


O exemplo mais destacado é o "Rabino Comandante", coronel Avichai Ronsky, que declarou que sua missão é reforçar "o espírito de combate" dos soldados. É homem de extrema direita, próximo do espírito do falecido rabino Meir Kahane, cujo partido foi tornado ilegal em Israel, por militância de ideologia fascista. Os soldados receberam brochuras patrocinadas pelo rabinato do exército, com artigos desses "rabinos" de extrema direita.


Esse material inclui incitamento político, a idéia de que a religião judaica proíbe "ceder um milímetro que seja da 'Grande Israel'"; que os palestinos, como os filistinos (nome étnico do qual deriva a palavra Palestina), são povo estrangeiro que invadiu Israel; e que ceder aos árabes (como se lê também no programa oficial do governo de Israel) seria pecado mortal. Desnecessário dizer que, evidentemente, a distribuição de propaganda política aos soldados viola, é claro, as leis militares.


Os rabinos pregaram aos soldados, abertamente, que fossem cruéis, impiedosos contra todos os árabes. Tratá-los com piedade seria – disseram eles –, "terrível, horrenda imoralidade". Esse material foi entregue aos soldados religiosos que partiam para combate. E isso ajuda a entender por que as coisas aconteceram como aconteceram.


QUEM PLANEJOU essa guerra sabia que a sombra dos crimes de guerra pairava sobre toda a operação que estava sendo planejada. Prova: o Procurador Geral (cujo título oficial é "Conselheiro Legal do Governo" [Legal Advisor to the Government] trabalhou no planejamento da guerra). Essa semana, o Advogado Geral do Exército, Coronel Avichai Mandelblut, revelou que seus funcionários trabalharam alocados em todos os comandos, durante toda a guerra, do Gabinete do Comandante do Estado-maior Geral do Exército, até os comandos de divisão.


Tudo isso leva à conclusão inescapável de que também os conselheiros para temas legais no governo de Israel são diretamente responsáveis pelas decisões tomadas, pelas ordens distribuídas e pelas ações executadas, do massacre dos formandos de uma escola de Polícia, assassinados durante a cerimônia de formatura, até o bombardeio de instalações da ONU. Todos os advogados que participaram das deliberações antes de as ordens serem expedidas são responsáveis pelas conseqüências das ordens, a menos que provem que apresentaram objeção formal.


O Advogado Geral do Exército, a quem cabe dar aconselhamento técnico, profissional e objetivo ao Exército de Israel, fala de um "inimigo monstruoso" e tem tentado justificar as ações do exército, dizendo que o exército de Israel enfrentava "inimigo sem freios, que declarara que 'ama a morte' e esconde-se atrás de mulheres e crianças". Essa linguagem, perdoável talvez nos discursos de algum soldado bêbado de violência e morte, como o chefe de batalhão que ordenou que seus soldados se suicidassem, se houvesse risco de serem capturados, é totalmente inadmissível no discurso do principal advogado-oficial conselheiro do Exército de Israel.


TEMOS DE SEGUIR os trâmites legais, todos eles, em Israel, e exigir investigação independente e lutar até que sejam indiciados todos os criminosos que cometeram crime de guerra, na guerra de Gaza. Temos de exigir que se cumpram esses imperativos de lei, ainda que as chances de que se venha a cumprir sejam, de fato, mínimas.


Se nossos esforços falharem, ninguém terá o que objetar se Israel for julgado em tribunais no exterior, seja em corte internacional seja em cortes nacionais de países que respeitam os direitos humanos e a lei internacional.


Até lá, Israel vive sob a bandeira preta da ilegalidade.


* URI AVNERY, 31/1/2009, "Black Flag", Gush Shalom [Grupo da Paz]: Tradução de Caia Fittipaldi, autorizada pelo autor.