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domingo, 6 de junho de 2010

Robert Fisk: A verdade por trás da propaganda israelense

Publicado originalmente em 5/6/2010, The Independent, UK

Traduzido por: Caia Fittipladi

Eu também, claro, horrorizei-me ao ver homens armados abordando navios em águas internacionais, matando passageiros a bordo que tentavam resistir e em seguida sequestrando o barco e atracá-lo em porto nacional dos piratas sequestradores. Falo, claro, dos piratas somalis que agem em águas ocidentais no Oceano Índico. Como se atrevem, esses terroristas, a tocar em nossos barcos desarmados em alto mar? Temos todo o direito de enviar nossos navios de guerra, para impedir a ação desses terroristas.

Mas... ufa! Sorte, que os israelenses não cobraram resgate! Só querem que os jornalistas vençam, em nome deles, a guerra da propaganda.

A semana mal raiara, e “comandos” de Israel atacaram um barco turco que levava ajuda humanitária para Gaza e mataram nove passageiros. No final da semana, os que protestaram contra esse assalto já estavam convertidos em “ativistas pacifistas armados”, antissemitas pervertidos, que “professam o pacifismo, mas destilam ódio, atacando outros seres humanos com porretes de metal”. Gostei da parte ficcional. A evidência de que os seres humanos que se defenderam com barras de metal estavam recebendo tiros à queima-roupa foi varrida dessa estranha versão dos fatos.

Declaração de uma família turca, de que seus filhos haviam dito que queriam ser mártires – coisa que muitos membros de muitas famílias turcas diriam, se seus parentes fossem assassinados à queima-roupa por israelenses – foram convertidas em prova de que o barco turco conduzia jihadis.

“Naquele barco”, escreveu-me alguém nascido no Sri Lanka, “estavam minha sobrinha, meu sobrinho e a esposa. Infelizmente, Ahmed (meu sobrinho, 20 anos) foi ferido à bala na perna e está hospitalizado, sob custódia militar. Havendo notícias, escrevo.” E escreveu. Poucas horas depois, a imprensa cercou a casa da família na Austrália, perguntando se Ahmed seria jihadi – ou, talvez, potencial suicida-bomba. A propaganda funciona, vejam só.

Não vimos um bit de filme dos protestos, em todo o mundo, porque os israelenses confiscaram tudo. Ninguém explicou por que – se o barco turco conduzia gente tão perigosa – o terrível complô para ajudar os “terroristas” de Gaza não foi descoberto durante a longa viagem desde a Turquia, sequer quando o barco atracou noutros portos. Pois o professor Gil Troy da Universidade McGill em Montreal – em matéria publicada no raivoso e fanático Canadian National Post, é claro – ainda repetia esse lixo sobre “ativistas pacifistas armados”, na 5ª-feira.

Pessoalmente, a matança no barco turco não me surpreendeu. No Líbano, vi esses esquadrões da morte, simulacros de exército, em ação – simulacros de exército, como são também os esquadrões da morte (“grupos de elite”) dos exércitos árabes –, matando civis. Vi-os também, assistindo sem intervir ao massacre de palestinos em Sabra e Shatila na manhã de 18 de setembro (último dia da matança); naquela ação, foram substituídos pelos aliados viciosos das milícias libanesas, mais do mesmo. Eu os vi, em Qana, no primeiro massacre de palestinos por pistoleiros israelenses, em 1996; um dos pistoleiros, na imprensa israelense, chamou os 106 civis mortos de “Arabushim” (termo racista e ofensivo para “árabes”). Mais da metade dos mortos eram crianças. Pouco depois , o governo israelense de Shimon Peres (Prêmio Nobel da Paz!), disse que havia terroristas entre os civis. Mentira, mas... quem liga? E depois, veio o segundo massacre de Qana em 2006 e depois a matança de 1.300 palestinos no ataque de Israel a Gaza em 2008-09, e depois...

Ora, depois veio o Relatório Goldstone, que descobriu que o exército de Israel (e o Hamás) cometeram crimes de guerra em Gaza. Mas todos foram declarados antissemitas – o pobre respeitável juiz Goldstone, ele próprio judeu, além de renomado jurista sul-africano, massacrado também, e declarado “homem do mal” pelo abominável Al Dershowitz de Harvard. – E o relatório foi decretado “controverso” pelo bravo governo Obama. “Controverso”, em inglês, significa “fuck you”. Há dúvidas sobre o relatório. Negócio barra pesada.

Mas voltemos à nossa cronologia. Depois, houve o assassinado, pelo Mossad, de um dirigente do Hamás, em Dubai. Os israelenses usaram pelo menos 19 passaportes britânicos e de outros países, roubados e adulterados. Qual foi a patética reação do então secretário de Relações Exteriores da Grã-Bretanha, David Miliband? Disse que fora “um incidente”. Não o assassinato em Dubai, vejam só, mas a adulteração dos passaportes, assunto super “controverso”, claro. E depois... Aí está. Agora, nove pessoas foram assassinadas a tiros, no mar, por mais dúzia e meia de heróis de Israel.

O engraçado é que tantos jornalistas ocidentais – e incluo aqui a acovardada cobertura da BBC, do ataque aos barcos de ajuda humanitária – estão escrevendo exatamente como a maioria dos jornalistas israelenses. Ao mesmo tempo, muitos jornalistas israelenses escrevem, em Israel, com a coragem que se deveria esperar da ‘mídia’ ‘livre’. E escrevem lá, contra o exército israelense.

Vejam Amos Harel, no Haaretz[1], em matéria na qual analisa a formação do corpo de oficiais do exército de Israel. No passado, muitos saíam dos kibbutz de tradição socialista, de Telavive ou das planícies costeiras de Sharon. Em 1990, só 2% dos cadetes do exército eram judeus ortodoxos religiosos. Hoje, essa proporção já chega a 30%. Seis, dos sete tenentes-coroneis da Brigada Golani, são religiosos. Mais de 50% dos comandantes locais são religiosos “nacionais”, em algumas brigadas de infantaria.

Nada de mal, em alguém ser religioso. Mas – e embora Harel não destaque esse aspecto, apenas registre – muitos dos judeus ortodoxos apoiam a colonização da Cisjordânia e opõem-se à criação de um Estado palestino.

E os colonos ortodoxos são os que mais odeiam os palestinos, e querem tanto detonar qualquer chance de haver Estado palestino, quanto alguns oficiais do Hamás gostariam de detonar o Estado de Israel. Por ironia, foram os antigos oficiais do “velho” exército israelense, que estimularam os “terroristas” do Hamás a construir mesquitas em Gaza. Pretendiam contrabalançar, com mesquitas, o crescimento do “terrorista” Yasser Arafat, em Beirute. E fui testemunha de uma de suas reuniões. Mas a coisa continuará como sempre, a velha história, até que o mundo acorde. “Nunca vi exército mais democrático que o exército de Israel”, disse o infeliz filósofo francês Bernard-Henri Lévy, horas antes do morticínio.

É, o exército de Israel não tem rival, é a elite, é humanitário, heroico. Esperem só até os piratas somalis saberem disso!


[1] Ver “Has the IDF become an army of settlers?” [O exército de Israel converteu-se em exército de colonos religiosos fundamentalistas?], 6/6/2010, em HAARETZ.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Gaza: o espelho quebrado

Como Israel se apresentará ao mundo, depois disso?

Gaza: o espelho quebrado

M. Shahid Alam*, 16/1/2009, The Daily Star, Daca, Bangladesh


No momento em que todos os palestinenses, homens, mulheres e crianças, encurralados no gueto de Gaza desde 1948, estão sendo bombardeados, diariamente, sem parar, por terra, mar e ar, é instrutivo e esclarecedor voltar os olhos para os pais fundadores do sionismo, e perguntar o que pensariam dessa obscena consequência de sua visão messiânica.

Nos escritos daqueles pais fundadores, só raramente os palestinenses ganham qualquer referência. Pode-se ler e reler uma das primeiras manifestações do credo sionista – "Roma e Jerusalém" , de Moses Hess (1812-1875) – e não se encontra nenhuma referência a 'muçulmanos' ou a 'árabes'. [Hess, 1862. Pode ser lido, na internet, em http://www.zionismontheweb.org/Moses_Hess_Rome_and_Jerusalem.htm -- atenção: tirem as crianças da sala]

Em Hess, a palavra "palestinense" aparece duas vezes: a primeira, relacionada à necessidade de treinar os judeus jovens para viver como "um agricultor palestinense"; a segunda, refere-se ao "Talmud Sanhedrin da Palestina". A Palestina sempre teria existido, inscrita em tábuas divinas, e pertenceria a Israel; mas não havia palestinenses na Palestina.

Se se pesquisa em "O Estado Judeu" (1896), de Theodore Herzl os resultados são igualmente minguados. Não há referência nem a muçulmanos, nem a árabes nem a palestinenses: não se fala, sequer, de beduínos. [Herzl, 1896, pode ser lido em http://www.zionismontheweb.org/Moses_Hess_Rome_and_Jerusalem.htm -- atenção, tirem as crianças da sala],

Por incrível que pareça, também não há a palavra "palestinenses", nem uma vez, em todo o livro de Arthur Hertzberg, "A Idéia Sionista" – uma antologia de textos de várias gerações de ideólogos do sionismo. Muçulmanos, árabes ou palestinenses não foram previstos nos planos para criar um Estado judeu. ["The sionist idea" está à venda hoje, pela Amazon Books, em http://www.amazon.com/s?ie=UTF8&search-type=ss&index=books&field-author=Arthur%20Hertzberg&page=1. Não se pode recomendar a leitura desse tipo de literatura, tanto quanto não se pode recomendar a leitura de "Mein Kampf", porque, sim, são livros, teorias e hipóteses assustadoramente idênticas. Mas é preciso saber de onde brotou a monstruosidade que, hoje, está aí, repetida em televisões e jornais, como se fosse algum "direito de defesa" de Israel.]

Para usar um termo de Lawrence Davidson, houve aí "uma despopulação perceptual" extrema: foi como se a Palestina não tivesse habitantes, quando foi ocupada.

Desde os primeiros momentos, os sionistas só pensaram em manifestar poder. A Palestina era objeto que se compra; o que não estivesse à venda, seria tomado à força.

Por duas vezes, Rabbi Kalischer exigiu que o patriarca da família Rothschild e Moses Montefiore comprassem a Palestina – ou, pelo menos, que comprassem Jerusalém – do sultão otomano. Mais de uma vez, Theodore Herzl ofereceu-se, ele mesmo, para comprar a Palestina, do sultão otomano. Ouviu, como resposta, que a Palestina não estava à venda.

Nada disso deteria o projeto sionista; poderiam convencer um ou mais Estados europeus a tomar a Palestina, para os judeus, pela força. Em 1818, Mordecai Noah, um dos primeiros sionistas norte-americanos, propôs que os judeus criassem seu próprio exército e eles mesmos tomassem a Palestina. Os demais sionistas pensaram mais pragmaticamente: resolveram deixar que os europeus tomassem a Palestina, para eles.

Nas palavras de Theodore Herzl, o plano para criar um Estado judeu foi simples: “Dêem aos judeus plena soberania sobre um pedaço do globo terrestre, suficientemente grande para satisfazer os direitos legítimos de uma nação; do resto, nós nos encarregaremos." Ocultada aí nesse simples "o resto" estava toda a população que habitava a Palestina. Bastariam duas organizações para levar a cabo o projeto: "The Society of Jews" e "The Jewish Company".

No plano arquitetado por Herzl, a "The Society of Jews tratará diretamente com os atuais proprietários da terra [os otomanos], colocando-se sob a proteção dos poderes europeus". Herzl acrescenta que "a criação do Estado Judeu beneficiará os Estados vizinhos (...)". Sobre os habitantes da Palestina, nem uma palavra.

Contudo, Herzl dedica cuidadosa atenção às questões que considera importantes, como "meios para livrar-se das bestas selvagens", na terra da qual os sionistas se apropriariam. Os métodos usados para colonizar a Palestina (ou a Argentina) teriam de ser modernos, usando a mais avançada tecnologia. “É tolice" – explica ele –, "voltar a estados ultrapassados da civilização, como alguns judeus gostariam de fazer."

Os sionistas deveriam trabalhar, Herzl explicou, como se "estivessem obrigados a limpar um país povoado por bestas selvagens"; "não podemos usar espada e lança" – enfatizou –, "e sair, desarmados, para caçar ursos; temos de organizar uma completa expedição de caça, reunir os animais num ponto só, e jogar sobre eles, ali, uma bomba de melinita [ing. melinite bomb. Herzl 1988: 93-4].”

É pouco provável que Herzl falasse – mesmo subconscientemente, garanto! – dos habitantes da Palestina, quando ensina os colonos judeus o melhor modo para limpar a nova colônia e livrá-la de "bestas selvagens", como, por exemplo, "ursos".

Seja como for, é quase impossível não ver paralelos espantosos entre os métodos que Herzl propôs, para livrar-se das "bestas feras" e "ursos", e a estratégia e as táticas que os colonos judeus têm adotado, desde 1948, para limpar a Palestina, dizimando a população autóctone.

Já nos anos 30s, o Yishuv[1] organizou "uma completa expedição de caça”, que recebeu o nome de Haganah[2] e que cresceria muito, depois de 1948, até converter-se numa das mais poderosas máquinas militares do planeta.

Em 1948, essa "completa expedição de caça" lançaria seu primeiro ataque massivo para "limpar" a Palestina de todas as "bestas selvagens" palestinenses. A "expedição de caça" tem operado, desde então, para garantir que as "bestas feras" palestinenses refugiadas jamais voltassem às próprias casas e às suas terras. E cada vez que as "bestas selvagens" palestinenses atreveram-se a usar seus recursos de refugiagos para tentar voltar ou exigir o direito de propriedade sobre suas casas e terras, a "completa expedição de caça" lá estava, a postos, para lançar "uma bomba de melinita" sobre suas cabeças.

Um segundo ataque, com o objetivo de limpar a área das "bestas selvagens" que por ali houvesse, na Palestina, foi lançado em 1967, quando uma "completa expedição de caça", já então muito ampliada, ocupou toda a Palestina.

Depois de 1967, a "completa expedição de caça" dos israelenses começou a implantar novo plano de limpeza étnica de toda a Cisjordânia e da Faixa de Gaza, sempre contra os "ursos" palestinenses. Dedicada a abrir espaço para mais colonos judeus, a "completa expedição de caça" passou a "reunir os animais num ponto só", reunir "as bestas selvagens" palestinenses em enclaves cada vez menores, dentro dos territórios então recentemente ocupados.

Em Gaza, os planos do governo israelenses começaram a encontrar dificuldades a partir da II Intifada, em 2000. O Hamás islâmico já se implantara e ganhava força nas áreas miseráveis e superpopulosas nas quais os palestinenses vinham sendo confinados desde 1948. Preparando-se para uma escalada nos planos de limpar a região de todas as "bestas selvagens", Israel então, em 2005, retirou a "expedição de caça" e os colonos judeus, os pôs em segurança, fora da linha de tiro, e imediatamente fechou o cerco sobre Gaza. Essa era condição 'de campo' indispensável para poder "jogar uma bomba de melinita" sobre a população cercada.

A monstruosa culminação dessa nova estratégia estamos vendo hoje, em Gaza, já há várias semanas.

Israel é o ápice da modernidade dos tempos correntes: é manifestação viva do incansável, racional, eficiente, crudelíssimo, 'científico' intento colonial de implantar-se como poder dominante sobre uma população autóctone; como sobre uma tribo autóctone de índios americanos ou de negros africanos.

O sucesso da empreitada colonial, como já aconteceu no passado, é pressuposto 'consequência' 'natural' do uso massivo de "bobas de melinita" contra populações comparativamente desarmadas, definidas como "bestas selvagens".

Outra vez, sempre nas palavras de Herzl, Israel está tentando, hoje, completar seu assalto colonial no Oriente Médio "em estilo mais definitivo, mais claro do que jamais foi tentado antes, porque [Israel] possui, hoje, meios de ataque que nenhum homem possuiu antes" (Theodore Herzl, "The Jewsish Question", 1897, em http://www.ismi.emory.edu/Articles/HerzlJewishQuestion.pdf).

Sim. Por mais de cem anos, desde o macabro nascimento do projeto sionista, os palestinenses (tratados como "bestas selvagens") jamais se deixaram derrotar. Por mais de 30 anos enfrentaram "a cortina de ferro das baionetas ingleses". E desde 1948 enfrentam, valentemente, a cada dia mais espessa "cortina de ferro das baionetas israelenses".

Os palestinenses sempre tiveram uma força que os sionistas nunca tiveram: a justiça sempre lutou pelos palestinenses e contra os sionistas.

Sim, nem sempre a justiça prevalece, onde tenha de enfrentar a força bruta. Há milhões de nativos mortos nos EUA, que o testemunham. Os israelenses ainda são arrastados pela convicção perversa de que possuem "meios de ataque que nenhum homem possuiu antes".

Talvez a consciência do mundo acorde ainda a tempo de convencer os sionistas de que não, não, nada pode ser vencido por esses meios sionistas. Talvez isso aconteça antes de que seja tarde demais, antes de que a maré da história vire decisivamente contra Israel.

Israel só se sustentou até hoje porque obteve repetidas vitórias militares contra populações árabes desarmadas – operações rápidas, vitórias arrasadoras, como em 1948, 1956, 1967 e 1982.

Isso, precisamente, começou a mudar, desde que Israel foi obrigada a retirar-se do Líbano, em 2000. Ali, pela primeira vez, fracassou a tentativa de massacre. Ali, Israel encontrou a resistência do Hizbóllah, em 2006. Agora, em Gaza, Israel encontrou a resistência do Hamás – dessa vez, já, um governo democraticamente eleito, embora, ao mesmo tempo, exército menos mortífero que o do Hizbóllah. Mas resistência de um governo eleito.

Como Israel se mostrará ao mundo, depois disso? Persistirão os atuais governantes de Israel, na tentativa de destruir os palestinenses, com novas gerações de "bombas de melinita" importadas dos EUA?

Ou, quem sabe, alternativa que ainda pode salvar Israel, as mães israelenses conseguirão educar filhos empenhados em conviver em paz com os palestinenses, numa sociedade – afinal! – não racista?

Esperemos, pelo menos, que os eleitores israelenses – eles, talvez, quem sabe, afinal?! – façam melhores escolhas.

[1] O termo designa, em hebraico, o conjunto dos judeus que vivem na Palestina. Sobre isso, ver http://en.wikipedia.org/wiki/Yishuv

[2] Palavra, em hebraico, para "defesa". Sobre o movimento que recebeu o nome de Hagana, ver http://en.wikipedia.org/wiki/Haganah


Texto reproduzido em Counterpunch, NY, EUA

*M. Shahid Alam é professor de economia na Northeastern University. É autor de Challenging the New Orientalism (2007).

Comentários para alqalam02760@yahoo.com .

Tradução Caia Fittipaldi

A invasão de Israel e os campos de gás no offshore de Gaza

Guerra e gás natural

A invasão militar da Faixa de Gaza pelas forças israelenses prende-se directamente com o controlo e propriedade das reservas estratégicas de gás natural na sua plataforma marítima.


Esta é uma guerra de conquista. Descobertas em 2000, são extensas as reservas de gás presentes ao longo do offshore de Gaza.


À Britsh Gas(BG Group) e ao seu parceiro Consolidated Contractors Company (CCC) com sede em Atenas, propriedade das famílias libanesas Sabbagh e Koury, foram dados os direitos de exploração de petróleo e gás num acordo de 25 anos assinado em Novembro de 1999 com a Autoridade Palestina.


Os direitos de exploração costeira das jazidas de gás são, respectivamente, da British Gas (60%); Consolidated Contractors (CCC) (30%); e o Fundo de Investimento da Autoridade Palestina (10%). ( Haaretz, 21/Outubro/2007).


O tratado AP-BG-CCC inclui o desenvolvimento da jazida e a construção de um gasoduto. ( Middle East Economic Digest, 05/Janeiro/2001).

A licença da BG cobre toda a zona marítima costeira de Gaza, que é contígua a várias instalações de gás marítimas de Israel (ver mapa abaixo). De ressalvar que 60 por cento das reservas de gás ao longo do litoral Gaza-Israel pertencem à Palestina.

O BG Group abriu dois furos em 2000: Gaza Marine-1 e Gaza Marine-2 . As reservas, segundo estimativa da British Gas, são da ordem dos 40 mil milhões de metros cúbicos [1,4 x 10 12 pés cúbicos], avaliados em aproximadamente 4 mil milhões de dólares. Estes são os números anunciados pela British Gas. A dimensão das reservas de gás da Palestina pode ser bastante maior.

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QUEM POSSUI OS CAMPOS DE GÁS
O tema da soberania sobre os campos de gás de Gaza é crucial. Do ponto de vista legal, as reservas pertencem à Palestina.

A morte de Yasser Arafat, a eleição do governo do Hamas e a ruína da Autoridade Palestiniana permitiram a Israel estabelecer um controlo de facto sobre as reservas de gás costeiras de Gaza.

A British Gas (BG Group) tem estado a negociar com o governo de Tel Aviv. Por sua vez, o governo do Hamas foi ignorado no que se refere à exploração e direitos de desenvolvimento das jazidas de gás.

A eleição do primeiro-ministro Ariel Sharon em 2001 foi um ponto de viragem. A soberania da Palestina sobre as reservas costeiras de gás foi desafiada no Supremo Tribunal de Israel. Sharon afirmou inequivocamente que "Israel nunca compraria gás à Palestina", insinuando ainda que as reservas costeiras de Gaza pertenciam a Israel.
Em 2003 Ariel Sharon vetou um acordo inicial que permitiria à British Gas fornecer a Israel gás natural vindo dos furos costeiros de Gaza. ( The Independent, 19/Agosto/2003)

A vitória do Hamas nas eleições de 2006 conduziu ao fim da Autoridade Palestiniana, que ficou confinada à Cisjordânia, sob o regime fantoche de Mahmoud Abbas.

Em 2006, a British Gas "esteve próxima de assinar um acordo para enviar o gás para o Egipto." ( Times, 23/Maio/2007). De acordo com o relatado, o primeiro-ministro britânico Tony Blair interveio em nome de Israel com o propósito de bloquear o acordo com o Egipto.

No ano seguinte, em Maio de 2007, o governo israelense aprovou a proposta do primeiro-ministro Ehud Olmert "para comprar gás à Autoridade Palestiniana". O contrato proposto foi de 4 mil milhões de dólares, com lucros na ordem dos 2 mil milhões de dólares, dos quais mil milhões iriam para os palestinianos.

Tel Aviv, no entanto, não tinha qualquer interesse em dividir os seus ganhos com a Palestina. Uma equipa de negociadores de Israel foi encarregada pelo governo de refazer o acordo com a BG Group, sem intervenção do governo do Hamas e da Autoridade Palestiniana:

"As autoridades militares israelenses querem que os palestinianos sejam pagos em bens e serviços e insistem que não haja qualquer dinheiro a ser entregue ao governo controlado pelo Hamas". (Ibid, ênfase acrescentada)
O objectivo era essencialmente anular o contrato assinado em 1999 entre o BG Group e a Autoridade Palestina sob Yasser Arafat.

Segundo o acordo proposto em 2007 à BG, o gás palestiniano dos poços costeiros de Gaza seria canalizado por um gasoduto marítimo para o porto israelense de Ashkelon, transferindo portanto o controlo da venda do gás natural para Israel.

O negócio falhou. As negociações foram suspensas:
"O chefe da Mossad, Meir Dagan, opôs-se à transacção por motivos de segurança, afirmando que o dinheiro serviria para financiar o terrorismo". (Gilad Erdan, deputado do Knesset, dirigiu-se à câmara, acerca da "Intenção do primeiro-ministro adjunto Ehud Olmert de comprar gás aos palestinianos quando o pagamento servirá o Hamas", 01/Março/2006, citado pelo general na reserva Moshe Yaalon em
Does the Prospective Purchase of British Gas from Gaza 's Coastal Waters Threaten Israel's National Security? Jerusalem Center for Public Affairs, Outubro 2007)
A intenção de Israel era impedir a possibilidade de o dinheiro ser recebido pelos palestinos. Em Dezembro de 2007 o BG Group retirou-se das negociações e em Janeiro de 2008 encerrou os seus escritórios em Israel. (sítio web da BG).

PLANO DE INVASÃO NA MESA DE PROJECTOS
O plano de invasão da Faixa de Gaza sob a "Operação Chumbo Fundido" foi iniciado em Junho de 2008, segundo fontes militares israelenses:

"Fontes militares afirmam que o ministro da Defesa Ehud Barak deu instruções às forças de defesa de Israel (IDF) para prepararem a operação há mais de seis meses (Junho ou antes de Junho), mesmo antes de Israel começar a negociar o acordo de cessar-fogo com o Hamas". (Barak Ravid, Operation "Cast Lead": Israeli Air Force strike followed months of planning [Operação "Chumbo Fundido": Ataque da Força Aérea Israelense após meses de planeamento), Haaretz, 27 de Dezembro de 2008)

Nesse mesmo mês as autoridades de Israel contactaram a British Gas, com vista a retomarem as negociações cruciais para recomeçar a compra do gás natural de Gaza:

"Tanto o director-geral do ministério das Finanças Yarom Ariav como o director-geral do ministério das Infraestruturas Nacionais Hezi Kugler concordaram em informar a BG do desejo de Israel em retomar as conversações.

As fontes informam ainda que a BG não respondeu oficialmente ao pedido de Israel, mas que executivos da empresa provavelmente virão ao país em poucas semanas para conversar com membros do governo." (Globes online- Israel's Business Arena, 23 de Junho, 2008)

A decisão de acelerar as negociações com a British Gas (BG Group) coincidiu cronologicamente com o planeamento da invasão de Gaza, iniciado em Junho. Parecia que Israel estava ansiosa para chegar a acordo com o BG Group antes da invasão, que estava já numa fase avançada do planeamento.

Mais ainda, as negociações com a British Gas foram conduzidas pelo governo de Ehud Olmert com o conhecimento de que a invasão militar estava na mesa de projectos e que um novo acordo politico-territorial para a Faixa de Gaza estava a ser contemplado por Israel.

De facto, as negociações entre a British Gas e os representantes israelenses ainda estavam a decorrer em Outubro de 2008, dois a três meses antes do início dos bombardeamentos a 27 de Dezembro.

Em Novembro de 2008, os ministérios israelenses das Finanças e das Infraestruturas Nacionais deram indicações à IEC (Israel Electric Corporation) para começar a compra de gás natural à concessão da BG em Gaza. (Globes, 13/Novembro/2008)

"O director-geral do ministério das Finanças, Yarom Ariav e o director-geral do ministério das Infraestruturas Nacionais, Hezi Kugler, escreveram recentemente ao presidente da IEC, Amos Lasker, informando-o da decisão do governo de permitir que negociações começassem, em consonância com o quadro de referência aprovado este ano.

A direcção da IEC, liderada pelo presidente Moti Friedman, aprovou os princípios da proposta do quadro de referência há poucas semanas. As conversações com o BG Group começarão assim que a direcção aprove a isenção de uma licitação". (Globes, 13 de Novembro, 2008)


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GAZA E GEOPOLÍTICA ENERGÉTICA

A ocupação militar de Gaza tem o objectivo de transferir a soberania dos campos de gás para Israel, em violação das leis internacionais.

O que se pode esperar em consequência da invasão?

Qual é a intenção de Israel em relação às reservas de gás natural da Palestina?

Um novo acordo territorial, com a instalação de Israel e/ou tropas de "manutenção da paz"?

A militarização de todo o litoral de Gaza, que é estratégico para Israel?

O confisco puro e simples dos campos de gás palestinos e a declaração unilateral da soberania israelense sobre as áreas marítimas de Gaza?

Se isto ocorresse, as jazidas de gás de Gaza seriam integradas nas instalações costeiras de Israel, que são contíguas às da Faixa de Gaza. (Ver Mapa 1 acima).

Estas várias instalações costeiras estão ligadas ao corredor de transporte energético que se estende do porto de Eilat, um terminal de oleodutos no Mar Vermelho para transporte marítimo, até ao terminal de Ashkelon e na direcção norte para Haifa, eventualmente ligando-se através de um projectado gasoduto israelo-turco com o porto turco de Ceyhan.

Ceyhan é o terminal das condutas Trans-Caspianas: Baku, Tblisi, Ceyhan (BTC). "O que está planeado é ligar as condutas BTC às condutas Trans-Israel Eilat-Ashkelon, também conhecida como a Tipline de Israel." (Ver MIchel Chossudovsky, The War on Lebanon and the Battle for Oil (A Guerra com o Líbano e a batalha pelo petróleo), Global Research, 23/Julho/2006)

Michel Chossudovsky

Global Research

Traduzido por João Camargo, publicado no Resistir Info.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Quase quatrocentos mortos e mais de mil feridos, 1,5 milhão expostos à fome e às condições submanas

Perdoem-me os leitores dos meus dois blogs por repetir alguns artigos, mas o genocídio empreendido pelos sionistas israelenses estão mobilizando-me e creio que é necessário divulgar o máximo possível, já que a imprensa tradicional é "cachorrinho de madame" como diria o grande judeu Uri Avnery.

Quem vai parar Israel?


O ano está termiando mas o terrorismo de estado segue vivo e forte. É o que se pode ver nos ataques de Israel aos palestinos da Faixa de Gaza. Com a mesma velha e já não mais crível história de combater o terror, Israel vai ampliando suas fronteira sob o fogo dos canhões. [www.iela.ufsc.br]




GAZA

por José Saramago

A sigla ONU, toda a gente o sabe, significa Organização das Nações Unidas, isto é, à luz da realidade, nada ou muito pouco. Que o digam os palestinos de Gaza a quem se lhes estão esgotando os alimentos, ou que se esgotaram já, porque assim o impôs o bloqueio israelita, decidido, pelos vistos, a condenar à fome as 750 mil pessoas ali registadas como refugiados. Nem pão têm já, a farinha acabou, e o azeite, as lentilhas e o açúcar vão pelo mesmo caminho.

Desde o dia 9 de Dezembro os camiões da agência das Nações Unidas, carregados de alimentos, aguardam que o exército israelita lhes permita a entrada na faixa de Gaza, uma autorização uma vez mais negada ou que será retardada até ao último desespero e à última exasperação dos palestinos famintos. Nações Unidas? Unidas? Contando com a cumplicidade ou a cobardia internacional, Israel ri-se de recomendações, decisões e protestos, faz o que entende, quando o entende e como o entende.

Vai ao ponto de impedir a entrada de livros e instrumentos musicais como se se tratasse de produtos que iriam pôr em risco a segurança de Israel. Se o ridículo matasse não restaria de pé um único político ou um único soldado israelita, esses especialistas em crueldade, esses doutorados em desprezo que olham o mundo do alto da insolência que é a base da sua educação. Compreendemos melhor o deus bíblico quando conhecemos os seus seguidores. Jeová, ou Javé, ou como se lhe chame, é um deus rancoroso e feroz que os israelitas mantêm permanentemente actualizado.

Cinco crianças da mesma família mortas pelo ataque israelense à Gaza nesta última semana. Fonte Vi o mundo.


Por que Israel bombardeia uma universidade?

Dr. Akram Habeeb, da Faixa de Gaza ocupada, da Palestina, 29/12/2008


Sou bolsista da Fundação Fulbright e professor de literatura norte-americana na Universidade Islâmica de Gaza. Nessa condição, sempre preferi manter-me afastado do conflito Israel-Palestina. Sempre entendi que meu dever é ensinar os valores da paz e da convivência pacífica.

Mas o ataque massivo de Israel contra a Faixa de Gaza obriga-me a manifestar-me.

Ontem à noite, durante a segunda noite de ataques de Israel a Gaza, os mais violentos de que há notícia por aqui, fui acordado pelo ruído ensurdecedor de bombardeio continuado, cerrado. Quando me dei conta de que Israel bombardeava a minha universidade, com F-16s fabricados nos EUA, vi que os "ataques seletivos" já nada tinham de seletivos.

Políticos e generais israelenses têm dito que a Universidade Islâmica de Gaza seria 'aparelho' do Hamás e que forma terroristas. É mentira.

Como professor independente, não filiado a partido político, afirmo que a Universidade Islâmica de Gaza – como as Universidades Católicas e as Universidades Pontifícias, que há no Brasil e em todo o mundo – é instituição acadêmica que abarca um larguíssimo espectro de tendências políticas. Conheço-a bem, como universidade de prestígio em todo o mundo, que estimula o liberalismo e a livre exposição e circulação de idéias.

Se meu depoimento parecer excessivamente pessoal e comprometido, convido todos a visitarem a página da UIG, na Internet (em inglês Islamic University of Gaza website), e pesquisarem sua história, seus departamentos, os estudos que se desenvolvem ali.

Lá se informarão sobre a participação da Universidade Islâmica de Gaza em inúmeras instituições acadêmicas em todo o mundo, o trabalho de pesquisa de seus professores, prêmios e bolsas de estudo e pesquisa que recebem de instituições de todo o mundo.

Por que Israel bombardearia uma universidade? Não sei.

Mas Israel ontem não bombardeou apenas minha universidade: bombardeou mesquitas, farmácias e casas de família. No campo de refugiados em Jabaliya, o bombardeio matou quatro meninas pequenas, todas da família Balousha. Em Rafah, mataram três irmãos, de 6, 12 e 14 anos. Também mataram mãe e filho, um menino de um ano, da família Kishko, na cidade de Gaza.

São atos que nada justifica, em nenhum caso. Penso no que Deus ordenou ao Povo Eleito: Não matarás. Não invadirás a casa de teu vizinho. Deus não elegeria seu povo, nem povo algum, para matar os vizinhos e roubar a terra em que todos plantam o que todos comem. As escolhas que Israel está fazendo são escolhas do governo de Israel. O governo de Israel escolheu matar palestinenses. Pratica aqui genocídio semelhante ao que outros impérios invasores e ocupantes praticaram em outras partes do mundo, contra populações autóctones. Nenhum genocídio é admissível.

O Dr. Akram Habeeb é professor assistente de Literatura Norte-americana na Universidade Islâmica em Gaza.

Carta aberta de Uri Avnery a Barack Obama sobre a paz no Oriente Médio

Reproduzo do blog do professor Idelber Avelar a carta aberta de Uri Avnery militante judeu pela paz.

terça-feira, 30 de dezembro 2008

Carta aberta de Uri Avnery a Barack Obama

avnery-arafat.jpg As humildes sugestões que se seguem são baseadas nos meus 70 anos de experiência como combatente de trincheiras, soldado das forças especiais na guerra de 1948, editor-em-chefe de uma revista de notícias, membro do parlamento israelense e um dos fundadores do movimento pela paz:

1)No que se refere à paz israelense-árabe, o Sr. deve agir a partir do primeiro dia.

2)As eleições em Israel acontecerão em fevereiro de 2009. O Sr. pode ter um impacto indireto, mas importante e construtivo já no começo, anunciando sua determinação inequívoca de conseguir paz israelo-palestina, israelo-síria e israelo-pan-árabe em 2009.

3)Infelizmente, todos os seus predecessores desde 1967 jogaram duplamente. Apesar de que falaram sobre paz da boca para fora, e às vezes realizaram gestos de algum esforço pela paz, na prática eles apoiavam nosso governo em seu movimento contrário a esse esforço.

Particularmente, deram aprovação tácita à construção e ao crescimento dos assentamentos colonizadores de Israel nos territórios ocupados da Palestina e da Síria, cada um dos quais é uma mina subterrânea na estrada da paz.

4)Todos os assentamentos colonizadores são ilegais segundo a lei internacional. A distinção, às vezes feita, entre postos “ilegais” e os outros assentamentos colonizadores é pura propaganda feita para mascarar essa simples verdade.

5)Todos os assentamentos colonizadores desde 1967 foram construídos com o objetivo expresso de tornar um estado palestino – e portanto a paz – impossível, ao picotar em faixas o possível projetado Estado Palestino. Praticamente todos os departamentos de governo e o exército têm ajudado, aberta ou secretamente, a construir, consolidar e aumentar os assentamentos, como confirma o relatório preparado para o governo pela advogada Talia Sasson.

6)A estas alturas, o número de colonos na Cisjordânia já chegou a uns 250.000 (além dos 200.000 colonos da Grande Jerusalém, cujo estatuto é um pouco diferente). Eles estão politicamente isolados e são às vezes detestados pela maioria do público israelense, mas desfrutam de apoio significativo nos ministérios de governo e no exército.

7)Nenhum governo israelense ousaria confrontar a força material e política concentrada dos colonos. Esse confronto exigiria uma liderança muito forte e o apoio generoso do Presidente dos Estados Unidos para que tivesse qualquer chance de sucesso.

8)Na ausência de tudo isso, todas as “negociações de paz” são uma farsa. O governo israelense e seus apoiadores nos Estados Unidos já fizeram tudo o que é possível para impedir que as negociações com os palestinos ou com os sírios cheguem a qualquer conclusão, por causa do medo de enfrentar os colonos e seus apoiadores. As atuais negociações de “Annapolis” são tão vazias como as precedentes, com cada lado mantendo o fingimento por interesses politicos próprios.

9)A administração Clinton, e ainda mais a administração Bush, permitiram que o governo israelense mantivesse o fingimento. É, portanto, imperativo que se impeça que os membros dessas administrações desviem a política que terá o Sr. para o Oriente Médio na direção dos velhos canais.

10)É importante que o Sr. comece de novo e diga-o publicamente. Idéias desacreditadas e iniciativas falidas – como a “visão” de Bush, o “mapa do caminho”, Anápolis e coisas do tipo – devem ser lançadas à lata de lixo da história.

11)Para começar de novo, o alvo da política americana deve ser dito clara e sucintamente: atingir uma paz baseada numa solução biestatal dentro de um prazo de tempo (digamos, o fim de 2009).

12)Deve-se assinalar que este objetivo se baseia numa reavaliação do interesse nacional americano, de remover o veneno das relações muçulmano-americanas e árabe-americanas, fortalecer os regimes dedicados à paz, derrotar o terrorismo da Al-Qaeda, terminar as guerras do Iraque e do Afeganistão e atingir uma acomodação viável com o Irã.

13)Os termos da paz israelo-palestina são claros. Já foram cristalizados em milhares de horas de negociações, colóquios, encontros e conversas. São eles:

a) estabelecer-se-á um Estado da Palestina soberano e viável lado a lado com o Estado de Israel.
b) A fronteira entre os dois estados se baseará na linha de armistício de 1967 (a “Linha verde”). Alterações não substanciais poderão ser feitas por concordância mútua numa troca de territórios em base 1: 1.
c) Jerusalém Oriental, incluindo-se o Haram-al-Sharif (o “Monte do Templo”) e todos os bairros árabes servirão como Capital da Palestina. Jerusalém Ocidental, incluindo-se o Muro Ocidental e todos os bairros judeus, servirão como Capital de Israel. Uma autoridade municipal conjunta, baseada na igualdade, poderia se estabelecer por aceitação mútua, para administrar a cidade como uma unidade territorial.
d) Todos os assentamentos colonizadores de Israel – exceto aqueles que possam ser anexados no marco de uma troca consensual – serão esvaziados (veja-se o 15 abaixo)
e) Israel reconhecerá o princípio do direito de retorno dos refugiados. Uma Comissão Conjunta de Verdade e Reconciliação, composta por palestinos, israelesnses e historiadores internacionais estudará os fatos de 1948 e 1967 e determinará quem foi responsável por cada coisa. O refugiado, individualmente, terá a escolha de 1) repatriação para o Estado da Palestina; 2) permanência onde estiver agora, com compensação generosa; 3) retorno e reassentamento em Israel; 4) migração a outro país, com compensação generosa. O número de refugiados que retornarão ao território de Israel será fixado por acordo mútuo, entendendo-se que não se fará nada para materialmente alterar a composição demográfica da população de Israel. As polpuldas verbas necessárias para a implementação desta solução devem ser fornecidas pela comunidade internacional, no interesse da paz planetária. Isto economizaria muito do dinheiro gasto hoje militarmente e a partir de presentes dos EUA.
f) A Cisjordânia, Jerusalém Oriental e a Faixa de Gaza constituirão uma unidade nacional. Um vínculo extra-territorial (estrada, trilho, túnel ou ponte) ligará a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.
g) Israel e Síria assinarão um acordo de paz. Israel recuará até a linha de 1967 e todos os assentamentos colonizadores das Colinas de Golã serão desmantelados. A Síria interromperá todas as atividades anti-Israel, conduzidas direta ou vicariamente. Os dois lados estabelecerão relações normais.
h) De acordo com a Iniciativa Saudita de Paz, todos os membros da Liga Árabe reconhecerão Israel, e terão com Israel relações normais. Poder-se-á considerar conversações sobre uma futura União do Oriente Médio, no modelo da União Européia, possivelmente incluindo a Turquia e o Irã.

14)A unidade palestina é essencial. A paz feita só com um naco da população de nada vale. Os Estados Unidos facilitarão a reconciliação palestina e a unificação das estruturas palestinas. Para isso, os EUA terminarão com o seu boicote ao Hamas (que ganhou as últimas eleições), começarão um diálogo político com o movimento e sugerirão que Israel faça o mesmo. Os EUA respeitarão quaisquer resultados de eleições palestinas.

15)O governo dos EUA ajudará o governo de Israel a enfrentar-se com o problema dos assentamentos colonizadores. A partir de agora, os colonos terão um ano para deixar os territórios ocupados e voluntariamente voltar em troca de compensação que lhes permitirá construir seus lares dentro de Israel. Depois disso, todos os assentamentos serão esvaziados, exceto aqueles em quaisquer áreas anexadas a Israel sob o acordo de paz.

16)Eu sugiro ao Sr., como Presidente dos Estados Unidos, que venha a Israel e se dirija ao povo israelense pessoalmente, não só no pódio do parlamento, mas também num comício de massas na Praça Rabin em Tel-Aviv. O Presidente Anwar Sadat, do Egito, veio a Israel em 1977 e, ao se dirigir ao povo de Israel diretamente, mudou em tudo a atitude deles em relação à paz com o Egito. No momento, a maioria dos israelenses se sente insegura, incerta e temerosa de qualquer iniciativa ousada de paz, em parte graças a uma desconfiança de qualquer coisa que venha do lado árabe. A intervenção do Sr., neste momento crítico, poderia, literalmente, fazer milagres, ao criar a base psicológica para a paz.


(esta é uma carta aberta escrita por Uri Avnery, 85 anos, ex-deputado do Knesset, soldado que ajudou a fundar Israel em 1948 e que há décadas milita pela paz. A tradução ao português é de Idelber Avelar. O obrigado pelo envio do link vai ao Daniel do Amálgama. O pedido de divulgação vai a todos os que desejam uma paz duradoura, nos termos já reconhecidos pela comunidade internacional).

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Apelo da sociedade civil palestina: boicote à política sionista do governo israelense

Resultado da política sionista:

  • 282 mortos e 900 feridos pelos F-16 de Israel
  • 100 toneladas de bombas sobre uma população civil indefesa
  • cumplicidade da União Europeia no crime
  • Apelo da sociedade civil palestina: "Cessar o massacre de Gaza – Boicotar Israel já!"

    por BNC [*]

    Hoje, 27/Dezembro/2008,o exército israelense de ocupação cometeu um novo massacre em Gaza, matando e ferindo centenas de civis palestinos, inclusive um número ainda não estabelecido de escolares que retornavam da escala quando começaram os primeiros ataques israelenses. Este último banho de sangue, se bem que mais implacável que os anteriores, não é o primeiro perpetrado perpetrado pelo Estado sionista. Ele coroa meses de um sítio israelense contra Gaza que deveria ser amplamente condenado e sancionado como um acto de genocídio contra 1,5 milhão de palestinos que vivem naquela faixa costeira.

    Gaza, 27 décembre 2008 (palestine-info.cc)

    Israel parece querer marcar o seu 60º ano de existência da mesma maneira como se instalou – a perpetrar massacres contra o povo palestino. Em 1948, a maioria da população palestina autóctone sofreu uma limpeza étnica sendo expulsa dos seus lares e das suas terras, em parte por massacres como o de Deir Yassin. Hoje, os palestinos de Gaza, cuja maior parte é constituída por refugiados, não tem mesmo a opção de procurar refúgio em outro lado. Aprisionados por trás dos muros de um gueto e acuados à beira da fome pelo sítio, eles são os alvos fáceis dos bombardeamentos cegos de Israel.

    O professor Richard Falk, relator especial do Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas para os Territórios Palestinos Ocupados e professor emérito de direito internacional na Universidade de Princeton, descreveu nestes termos o cerca israelense de Gaza no ano passado, quando este ainda não era comparável em gravidade à situação actual:

    "Será um exagero irresponsável associar o tratamento dos palestinos às práticas de atrocidades colectivas dos nazis? Não creio. Os recentes desenvolvimentos em Gaza são particularmente inquietantes porque exprimem de modo evidente uma intenção deliberada da parte de Israel e dos seus aliados de submeter toda uma comunidade humana a condições da maior crueldade que põem em perigo a sua vida. A sugestão de que este esquema de conduta é um holocausto em vias de ser feito representa um apelo bastante desesperado aos governos do mundo e à opinião pública internacional para que ajam com urgência a fim de impedir que estas tendências actuais ao genocídio não conduzam a uma tragédia colectiva".

    O episódio mais brutal desta "tragédia colectiva" é o que vemos hoje

    Os crimes de guerra de Israel e outras graves violações do direito internacional em Gaza, assim como no resto dos territórios palestinos ocupados, inclusive Jerusalém, não teriam podido ser cometidos sem a cumplicidade directa ou indirecta dos governos do mundo, em particular dos Estados Unidos, da União Europeia, do Egipto e de outros regimes árabes.

    Enquanto o governo dos Estados Unidos sempre apadrinhou, financiou e protegeu da censura internacional as políticas do apartheid e coloniais de Israel contra a população autóctone da Palestina, a União Europeia mostrou-se incapaz no passado de apresentar uma cara de respeito pelo direito internacional e pelos direitos humanos universais. Esta distinção terminou efectivamente a 9 de Dezembro último, quando o Conselho da União Europeia decidiu por unanimidade recompensar o desprezo criminoso de Israel pelo direito internacional com a revalorização do Acordo de associado entre a UE e Israel. Este deduziu claramente, a partir desta decisão, que a UE tolera as suas acções contra os palestinos submetidos à sua ocupação. A sociedade civil palestina recebeu igualmente a mensagem: os governos europeus tornaram-se tão cúmplices dos crimes de guerra de Israel quanto o governo dos EUA.

    A grande maioria dos governos do mundo, particularmente no Sul, têm igualmente uma parte da responsabilidade. Continuando como de costume a fazer negócios com Israel, por acordos comerciais, compras de armas, ligações universitárias e culturais, aberturas diplomáticas, ele forneceram a base necessária para a cumplicidade das potências mundiais e, em consequência, à impunidade de Israel. Além disso, a sua inacção na ONU é indesculpável.

    O padre Miguel D'Escoto Brockman, presidente da Assembleia Geral da ONU, preconizou num discurso recente diante da Assembleia o único caminho moral a seguir pelas nações do mundo nas suas relações com Israel:

    "Há mais de 20 anos, nós, as Nações Unidas, havíamos seguido a via da sociedade civil quando havíamos acordado que eram necessárias sanções para proporcionar meios de pressão não violentos contra a África do Sul a fim de que ela ponha fim às suas violências. Hoje deveríamos considerar seguir a via de uma nova geração da sociedade civil, que apela a uma campanha não violenta semelhante de boicote, de desinvestimento e de sanções para fazer pressão sobre Israel a fim de que ponha um fim às suas violações".

    Agora, mais do que nunca, o Comité Nacional Palestino para o Boicote, o Desinvestimento e as Sanções (BNC) apela à sociedade civil internacional a que não se limite a protestar e condenar de diversas maneiras o massacre perpetrado por Israel em Gaza, mas a igualmente associar-se à campanha internacional de Boicote, Desinvestimento e Sanções contra Israel para por fim à sua impunidade e fazê-lo responsável por suas violações sistemáticas do direito internacional e dos direitos dos palestinos. Sem uma pressão sustentada e eficaz exercida pelas pessoas de consciência do mundo inteiro, Israel continuará a perpetrar gradualmente seus actos de genocídio contra os palestinos, enterrando toda perspectiva de uma paz justa no sangue e sob as ruínas de Gaza, Nablus e Jerusalém.

    Comité Nacional Palestino para o Boicote, o Desinvestimento e as Sanções (BNC)
    [Palestinian Boycott, Divestment and Sanctions National Committee, (BNC)]
    Ramalá ocupada, Palestina
    27 de Dezembro de 2008.


    [*] O Comité Nacional Palestino para o Boicote, o Desinvestimento e as Sanções (BNC) inclui as seguintesorganizações:
    Council of National and Islamic Forces in Palestine;
    General Union of Palestinian Workers;
    Palestinian General Federation of Trade Unions;
    Palestinian Non-Governmental Organizations' Network (PNGO);
    Federation of Independent Trade Unions;
    Union of Palestinian Charitable Organizations;
    Global Palestine Right of Return Coalition;
    Occupied Palestine and Golan Heights Advocacy Initiative (OPGAI);
    General Union of Palestinian Women;
    Palestinian Farmers Union (PFU);
    Grassroots Palestinian Anti-Apartheid Wall Campaign (STW);
    Palestinian Campaign for the Academic and Cultural Boycott of Israel (PACBI);
    National Committee to Commemorate the Nakba;
    Civic Coalition for the Defense of Palestinian Rights in Jerusalem (CCDPRJ);
    Coalition for Jerusalem ; and Palestinian Economic Monitor.


    Ver também: Uruk net
    Texto original em inglês: BDS Palestine
    Texto em francês: Silvia Catorri
    Versão em português: Resistir info.


    Se Gaza cair...*

    Sara Roy**

    O sítio de Gaza, por Israel, começou dia 5/11/2008, um dia depois de Israel ter atacado a Faixa, ataque feito – sem possibilidade de dúvida – para pôr fim à trégua estabelecida em junho entre Israel e o Hamás. Embora os dois lados tenham violado antes o acordo, nunca antes acontecera qualquer violação em tão grande escala. O Hamás respondeu com foguetes, e desde então a violência não recrudesceu.

    Com o sítio, Israel visa a dois principais objetivos. Um, reforçar a idéia de que os palestinos são problema exclusivamente humanitário, como pedintes, mendigos sem qualquer identidade política e, portanto, sem reivindicações políticas. Segundo, impingir a questão de Gaza, ao Egito.

    Por isso, os israelenses toleram as centenas de túneis que há entre Gaza e o Egito, pelos quais começou a formar-se um setor comercial informal, embora cada vez mais regulado. A muito grande maioria dos habitantes da Faixa de Gaza vive em condições de miséria, com 49,1%, estatísticas oficiais, de desempregados. De fato, os habitantes de Gaza já sabem que está desaparecendo rapidamente, para todos, qualquer possibilidade real de emprego.

    Dia 5/11, o governo de Israel fechou todas as vias de entrada e saída de Gaza. Comida, remédios, combustível, peças de reposição para as redes de energia, água e esgoto, adubo, embalagens, telefones, papel, cola, calçados e até copos e xícaras não entram nos territórios ocupados em quantidade suficiente, ou absolutamente não há.

    Conforme relatórios da Oxfam, apenas 137 caminhões com alimentos entraram em Gaza no mês de novembro de 2008. Em média, 4,6 caminhões/dia; em outubro de 2008, entraram em média 123; em dezembro de 2005, 564. As duas principais organizações que levam comida a Gaza são a UNRWA, Agência de Ajuda Humanitária da ONU para os Refugiados Palestinos e o Oriente Médio; e a WFP, "Programa Alimento para o Mundo". A UNRWA alimenta aproximadamente 750 mil palestinos em Gaza (cerca de 15 caminhões/dia de alimentos). Entre 5/11 e 30/11, só chegaram 23 caminhões, cerca de 6% do mínimo indispensável; na semana de 30/11, chegaram 12 caminhões, 11% do mínimo indispensável. Durante três dias, em novembro, a UNRWA esteve totalmente desabastecida – e 20 mil pessoas não receberam a única comida com que contam para matar a fome. Nas palavras de John Ging, diretor da UNRWA em Gaza, praticamente todos os atendidos pela organização dependem completamente do que recebem, seu único alimento. Dia 18/12, a UNRWA suspendeu completamente a distribuição de alimento, dos programas regulares e dos programas de emergência, por causa do bloqueio israelense.

    A WFP enfrenta problemas semelhantes; conseguiu enviar apenas 35 caminhões, dos 190 previstos para atender as necessidades da Faixa de Gaza até o início de fevereiro de 2009 (mais seis caminhões conseguiram chegar a Gaza, entre 30/11 e 6/12). E não é só: a WFP é obrigada a pagar pelo armazenamento dos alimentos que não podem ser enviados a Gaza. Só em novembro, pagou 215 mil dólares. Se Israel mantiver o sítio a Gaza, a WFP terá de pagar mais 150 mil dólares pelo armazenamento dos alimentos, no mês de dezembro, dinheiro que deveria ser usado para auxiliar os palestinos, mas está entrando nos cofres de empresas israelenses de armazenamento.

    A maioria das padarias comerciais em Gaza (30, de 47) foram obrigadas a fechar as portas por falta de gás de cozinha. As famílias estão usando qualquer tipo de combustível que encontrem, para cozinhar. Como a FAO/ONU já informou, o gás é indispensável para manter aquecidos os criadouros de aves. A falta de gás e de rações, já levou à morte milhares de galinhas e frangos. Em abril, conforme a FAO, já praticamente não haverá galinhas e frangos em Gaza – e para 70% dos palestinos, carne e ovos de galinha são a única fonte de proteína.

    Bancos, impedidos por Israel de operar nos territórios ocupados, fecharam as portas dia 4/12. Num deles há um aviso, em que se lê: "Por decisão da Autoridade das Finanças na Palestina, o banco permanecerá fechado hoje, 4/12/2008, 5ª-feira, por falta de numerário. O banco só reabrirá quando voltar a receber moeda."

    O Banco Mundial já antecipara que o sistema bancário em Gaza entraria em colapso se as restrições continuassem. Todo o fluxo de dinheiro para os programas foi suspenso, e a UNRWA suspendeu a assistência financeira a outros subprogramas, para os mais necessitados, dia 19/11. Também está paralisada a produção de livros didáticos e cadernos, porque não há papel, tinta de impressão e cola, em Gaza. Com isso, 200 mil estudantes serão afetados, ano que vem, no início das aulas.

    Dia 11/12, o ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, enviou 25 milhões de dólares para o sistema bancário na Palestina, depois de um apelo do primeiro-ministro palestinense, Salaam Fayad; foi a primeira remessa, desde outubro. Não bastará nem para pagar o mês de salários atrasados dos 77 mil funcionários públicos de Gaza.

    Dia 13/11, foi suspensa a operação da única estação de energia elétrica que opera em Gaza; as turbinas foram desligadas por absoluta falta de diesel industrial. As duas turbinas movidas a bateria 'caíram' e não voltaram a funcionar dez dias depois, quando chegou um único carregamento de combustível. Cerca de 100 peças de reposição, encomendadas para as turbinas, estão há oito meses no porto de Ashdod, em Israel, a espera de que as autoridades da alfândega israelense as liberem. Agora, Israel começou a leiloar as peças não liberadas, porque permanecem há mais de 45 dias no porto. Tudo feito conforme a legislação de Israel.

    Durante a semana de 30/11, 394 mil litros de diesel industrial foram liberados para a estação de produção de energia: aproximadamente 18% do mínimo que Israel está legalmente obrigado a fornecer. Foi suficiente apenas para fazer funcionar uma turbina, por dois dias, antes de a estação ser novamente fechada. A Gaza Electricity Distribution Company informou que praticamente toda a Faixa de Gaza ficará sem eletricidade por períodos que variarão entre 4 e 12 horas/dia. Em vários momentos, haverá mais de 65 mil pessoas sem eletricidade.

    Nem mais uma gota de óleo diesel (para geradores e para transporte) foi entregue essa semana (como já acontece desde o início de novembro); nem de gás de cozinha. Os hospitais em Gaza estão operando, ao que parece, com diesel e gás recebido do Egito, pelos túneis; ao que se diz, são produtos administrados e taxados pelo Hamás. Mesmo assim, dois hospitais em Gaza estão sem gás de cozinha desde 23/11.

    Além dos problemas diretamente causados pelo sítio israelense, há os problemas criados pelas divisões políticas entre a Autoridade Palestina na Cisjordânia e a Autoridade do Hamás, em Gaza. Por exemplo, a CMWU, que fornece água para a região costeira de Gaza, que não é controlada pelo Hamás, é financiada pelo Banco Mundial via a Autoridade Palestina para a Água (PWA) em Ramállah; o financiamento destina-se a pagar o combustível para as bombas do sistema de esgotos de Gaza. Desde junho, a PWA tem-se recusado a liberar o dinheiro, aparentemente porque entende que o funcionamento dos esgotos beneficiaria o Hamás. Não sei se o Banco Mundial tentou alguma intervenção nesse processo, mas, por hora, a UNRWA está fornecendo o combustível necessário, embora não tenha orçamento para essa finalidade. A CMWU também pediu autorização a Israel para importar 200 toneladas de cloro; até o final de novembro recebeu apenas 18 toneladas – suficiente para o consumo de uma semana de água clorada. Em meados de dezembro, a cidade de Gaza e o norte da Faixa só tinha água por seis horas, a cada três dias.

    Segundo a Organização Mundial de Saúde, as divisões políticas entre Gaza e a Cisjordânia também têm tido sério impacto sobre o abastecimento de remédios em Gaza. O ministério da Saúde da Cisjordânia (MOH) é responsável por comprar e distribuir quase todos os produtos farmacêuticos e cirúrgico-hospitalares usados em Gaza. E todos os estoques estão perigosamente baixos. No mês de novembro, várias vezes o ministério devolveu carregamentos recebidos por via marítima, por não haver espaço para armazenamento; apesar disso, nada tem sido entregue em Gaza, em quantidades suficientes. Na semana de 30/11, chegou a Gaza um caminhão com remédios e suprimentos médios, enviado pelo MOH em Ramállah; foi o primeiro, desde o início de setembro.

    Está acontecendo aí, ante nossos olhos, a destruição de toda uma sociedade – e nenhum clamor se ouve, além dos avisos da ONU, que são ignorados pela comunidade internacional.

    A União Européia anunciou recentemente que deseja estreitar relações com Israel, pouco depois de as autoridades israelenses terem declarado abertamente que preparam a invasão, em larga escala, da Faixa de Gaza e de terem apertado ainda mais o bloqueio econômico, com o apoio, já nada tácito, da Autoridade Palestina em Ramállah. Essa, vê-se, está colaborando com Israel, em várias medidas. Dia 19/12, o Hamás deu oficialmente por encerrada a trégua (que Israel declarou que estaria interessado em renovar), porque Israel não suspendeu (nem diminuiu) o bloqueio.

    Por quê, como, em que sentido, negar alimento e remédios à população de Gaza ajudaria a proteger os israelenses?

    Por quê, como, em que sentido, o sofrimento das crianças de Gaza – mais de 50% da população são crianças! – beneficiaria alguém?

    A lei internacional – e a decência humana – exigem que essas crianças sejam protegidas. Se Gaza cair, cairá depois, a Cisjordânia.


    * "If Gaza falls...", Sara Roy, London Review of Books, 1/1/2009, em http://www.lrb.co.uk/v31/n01/roy_01_.html © LRB. Tradução de Caia Fittipaldi, sem valor comercial, para finalidades didáticas.

    ** Professora do Harvard’s Center for Middle Eastern Studies. Autora de Failing Peace: Gaza and the Palestinian-Israeli Conflict.

    As fotos da morte e destruição em Gaza foram extraídas de: Guardian

    Dois discursos dissonantes sobre os ataques israelentes aos palestinos na Faixa de Gaza

    URI AVNERY, 85: o homem da Paz*

    "A imprensa já não é cão-de-guarda. A imprensa, hoje, é cachorrinho-de-madame, que procura a coleira e a traz nos dentes, para entregá-la à patroa."
    (Uri Avnery, dez. 2008)


    Quem tenha a sorte de chegar aos 85 anos com boa saúde e boa cabeça, muitas vezes prefere olhar para trás, seja com tristeza seja com satisfação, e fazer algum balanço dos anos que viveu. Uri Avnery, afiadíssimo, definitivamente prefere olhar à frente, otimista e confiante. "É meu otimismo genético", diz ele. Não passa nem sombra de sorriso em seu rosto, quando lhe perguntam sobre o país em que estará vivendo daqui a dez anos. Sua mãe chegou aos 95 anos, e ele está decidido a bater o recorde de uma família que chegou à Alemanha, ele conta, com Júlio César. O decano dos combatentes pela paz em Israel não tem dúvidas de que estará presente, na festa que celebrará a paz entre israelenses e palestinenses.

    "Ao longo da vida vi acontecer as coisas mais inesperadas; vi Hitler subir ao poder e vi o amargo fim de Rommel em El Alamein," diz um dos mais conhecidos judeus-alemãos da história de Israel. "Mas se se vive de cabeça baixa, olhando os próprios pés, morre-se de tristeza. Então, sempre ergo a cabeça e olho à frente. "

    Esse otimismo, Avnery o arranca de tanto observar o longo caminho que os israelenses já percorreram, desde quando apoiavam a idéia de uma "grade pátria de Israel", até hoje, quando a opinião pública em Israel já não admite a presença de colonos judeus nos territórios palestinos; também, diz ele, de ver o longo caminho que os norte-americanos andaram, do presidente Bush, branco e conservador, até o presidente eleito Barack Obama, negro e liberal.

    Quando tantos, aos 85 anos, brincam com os bisnetos, Avnery lidera seus companheiros do Grupo da Paz, Gush Shalom, em manifestações contra o muro da separação em Bilin, faz conferências no exterior e, sobretudo, jamais pára de escrever. O artigo que publica semanalmente é traduzido para várias línguas, entre as quais o árabe e o português, e é distribuído pela internet a dezenas de milhares de leitores, em todo o mundo.

    A esposa, Rachel, sempre ao seu lado, diz que não se arrependem de terem decidido não ter filhos. Para o simpósio em homenagem a Avnery, que se realiza essa semana, passou-lhe pela cabeça a idéia de que teria sido lindo ter uma neta que entregasse um ramo de flores a Uri. Mas se tivessem tido filhos, teria sido muito mais difícil para ele esconder-se entre as rodas dos jipes militares, ou viajar para Beirute, no calor da hora, durante a primeira guerra do Líbano.

    Vê-se, em Uri Avnery, bem pouco de ceticismo, essa preciosa qualidade. Diz Rachel: "tenho um punhado de 'quases' que salpico nos 'absolutos' dele." Avnery não tem qualquer dúvida (nem Rachel) de que a Israel do primeiro-ministro Ariel Sharon assassinou seu bom amigo Yasser Arafat. Quando Uri e Rachel encontraram-se com o líder palestino, poucas semanas antes de ele morrer, Arafat parecia estar muito bem. Até hoje, ainda não há qualquer explicação oficial sobre a misteriosa doença que o teria matado. Avnery não tem qualquer dúvida sobre quem tinha o motivo, os meios e a oportunidade para livrar-se de Arafat sem deixar pistas – pelo mesmo método que os espiões do Mossad usaram para tentar assassinar Khaled Meshal, líder do Hamás, e que os russos parecem ter usado para livrar-se do espião Alexander Litvinenko.

    Jamais ocorreu a Avnery que Arafat possa ter-lhe ocultado suas reais intenções e que talvez o tenha seduzido e cooptado. Não. O ativista pela paz tem certeza de que conheceu Arafat melhor do que o próprio Arafat se conhecia ele-mesmo, e não duvida de que, se os dois, o líder palestino e Yitzhak Rabin, não tivessem sido assassinados, teriam conseguido fazer dos acordos de Oslo um verdadeiro acordo de paz.

    Rachel Avnery exibe com orgulho uma grande fotografia em que Avnery e Arafat aparecem lado a lado, de mãos dadas, erguidas. Não há foto de Avnery com Máhmude Abbas (Abu Mazen), presidente da Autoridade Palestina. Avnery foi considerado "homem de Arafat" e, portanto, desde a alegada tentativa de envenenamento, as portas da Muqata, em Ramállah, têm estado fechadas para ele. Para Avnery, Abu Mazen tem mais traços de diretor de escola, que de líder carismático.

    Avnery está convencido de que é possível chegar a um acordo de paz com o Hamás. Há anos, os manifestos que o Grupo da Paz publica na imprensa israelense insistem sobre a necessidade de Israel criar condições de conversação com Ismail Haniyeh, líder do Hamás em Gaza. Para Avnery, Haniyeh não precisa reconhecer o Estado judeu. Dependesse de Avnery, abrir-se-iam já canais de conversação também com o presidente do Iran, Máhmude Ahmadinejad – e ele não duvida de que essas conversações acontecerão, mais dia, menos dia. Quem algum dia supôs que o império russo ruiria e que o Muro de Berlim viria abaixo?

    Ehud Barak é imperdoável

    A janela da pequena sala de trabalho de Avnery em Telavive abre para o prédio quadrado que abriga o ministério da Defesa e o ministro da Defesa, Ehud Barak, que Avnery chama de "criminoso anti-paz". O homem que dedicou toda sua vida política e de jornalista para conscientizar os israelenses sobre as possibilidades de viver em paz com os palestinos ("Mudar a mentalidade", diz ele, "é 80% da história"), não perdoa Ehud Barak pelo pecado de ter dito aos israelenses que os árabes jamais seriam "parceiros" e que, portanto, Israel "não tem parceiros para a paz".

    Algumas das características de Avnery, de fato, são como o contraponto da alienação que Barak irradia. "A esquerda admira idéias e a direita só admira o poder", diz. "Poder sem idéias nada vale, mas idéias sem poder tampouco valem grande coisa." A paz será quase inalcançável, se não se conseguir persuadir as pessoas a enfrentarem os sacrifícios necessários para que tenhamos paz. A paz é valiosa e, portanto, exige sacrifícios. A noção de que os árabes não seriam "parceiros" de Israel, na luta de todos pela paz – idéia que Barak introduziu na opinião pública – tornou ainda mais difícil a luta pela paz.

    Para Avnery, a esquerda ainda confia demais na lógica, e carece de inteligência emocional. Ele orgulha-se de ter dito que, em política, é irracional ignorar a irracionalidade; muitas vezes, a irracionalidade domina qualquer racionalidade. O fracasso da esquerda, sugere, deriva da incapacidade da esquerda para romper o código do apoio irracional que a direita encontra entre os mais pobres em Israel, por exemplo, dos Mizrahim[1] e dos russos migrados da ex-URSS, que apóiam os partidos da direita.

    "É impossível introduzir a idéia de paz em Israel, se não falarmos a todos os israelenses", diz. O homem de quem se diz que seria "narcísico e insensível", acrescenta: "A mensagem tem de ser emocional." E continua, falando com seu conhecido sotaque de judeu-alemão: "Achamos que nós podemos cozinhar melhor o frango e servi-lo mais bem servido. É hora de substituir a arrogância elitista dos asquenazes por linguagem e conceitos que toquem todos os israelenses e lhes digam alguma coisa." Diz que a esquerda precisa encontrar um líder Mizrahi[2]. (Amir Peretz? "Cheguei a pensar que sim, mas antes do verdadeiro profeta, sempre aparecem falsos profetas.")

    "A cultura dos judeus é tecido misto, entretecido com a cultura islâmica, desde o Rambam[3] e Judah Halevi[4]", continua Avnery, "e a mensagem da paz é acolhida com muita naturalidade por judeus que tenham vivido em sociedades muçulmanas."

    Garotas e biquinis

    Um dos resultados da recente convenção do partido Meretz é que o jornalista Nitzan Horowitz aparece em terceiro lugar na lista eleitoral para as eleições do Parlamento. Com todo o respeito ao talentoso repórter de TV, Avnery não acredita que a salvação da esquerda virá de duas ou três "estrelas de televisão" que ganhem ou não ganhem algumas cadeiras. "A esquerda de Israel tem de chegar ao poder. É a única via possível para implementarmos nossas idéias. Depois de Obama ter sido eleito, pode-se falar, assim, mais claramente, sem parecer otimista iludido."

    Avnery não entende que tantos surpreendam-se tanto com jornalistas buscarem assento no Parlamento. Ha'olam Hazeh – revista semanal que Avnery editou, que já não existe e que teve o mesmo nome do partido também fundado por ele – foram, na opinião dele, dois instrumentos para um único e mesmo objetivo: pôr fim ao conflito entre israelenses e palestinenses. Para Avnery, sempre foi natural discursar no Parlamento pela manhã e escrever editoriais à tarde. Quanto a isso, diz ele, não há nem jamais houve qualquer problema.

    A revista Ha'olam Hazeh foi "a mãe" do jornalismo "alternativo" em Israel. A capa negra com garotas de biquini serviu, diz ele, como instrumento legítimo para atrair os jovens, oferecendo-lhes artigos com melhor análise política e boas matérias investigativas sobre corrupção e corruptos.

    "Sempre gostamos da idéia de quebrar, um depois do outro, os principais tabus da sociedade israelense", Avnery sorri. "Naquele momento, não havia jornal nem revista no mundo que desafiasse praticamente todas as instituições do 'consenso' e que, ao mesmo tempo, fosse lido em todos os salões de beleza e salas de espera de dentista."

    A idéia de os políticos deverem ser tratados com cuidado (como "limão judeu"[5] – referência à presumida tendência de alguns jornalistas de se encherem de cuidados ao criticar os políticos, atentos sempre a não os apertar 'demais', como se recomenda que se faça com o limão judeu, nas festividades do Sucot) jamais passou pela porta da redação da revista de Avnery. Ele diz que ainda lembra vagamente de nada ter publicado sobre uma conta em dólares de Yitzhak Rabin, em 1977 (matéria que, depois, foi publicada no Haaretz), exclusivamente porque não vê que importância tenha o fato de um ex-embaixador esquecer de encerrar uma conta em banco no exterior. Dan Margalit, o repórter que lhe levou aquela matéria, como vários outros hoje destacados profissionais do jornalismo israelense, iniciou sua carreira na revista Ha'olam Hazeh.

    Avnery lembra a cor do biquini de crochê da bela moça que saiu da água, há 30 anos, e subiu ao barco em que ele velejava no Mar Vermelho, dizendo que queria escrever uma coluna regular na Ha'olam Hazeh. Chamava-se Odetta – Odetta Danin – e escreveu, por muitos anos, uma coluna de dicas úteis e de conselhos em geral. Odetta, hoje, é jornalista de uma revista de grande circulação, a Maariv.

    Avnery também lembra do encontro com o primeiro-ministro Yitzhak Rabin, quando Rabin reclamou muito de ele estar espantando as pombas do partido no poder (os escândalos Yadlin, Ofer e Levinson, em meados dos anos 70, que antecederam a queda do "Alinhamento", antecessor do Partido Labor de hoje). Ainda que estivesse convencido de que o primeiro-ministro Ehud Olmert estivesse pronto para assinar um acordo de paz com os países árabes, ainda assim Avnery insistiria em que fosse processado e julgado por seus crimes. Para ele, "a imprensa já não é cão-de-guarda. A imprensa hoje é cachorrinho-de-madame, que procura a coleira e a traz nos dentes, para entregá-la à patroa."


    * "Peace warrior", no aniversário de 85 anos de Uri Avnery. Por Akiva Eldar.
    © 2008, Haaretz, Telavive, 25/12/2008, em http://haaretz.com/hasen/spages/1050153.html . Tradução de Caia Fittipaldi, sem valor comercial, para finalidades didáticas.

    [1] Judeus descendentes de árabes do Oriente Médio. A palavra, aí, é usada do plural. NT.

    [2] Judeu descendente de árabes do Oriente Médio. A palavra aí é usada no singular. NT.

    [3] Rabino Moshê ben Maimon, também chamado Maimônides e Ramban, nasceu em 1135, em Córdoba. É autor de comentários aos dois Talmud, o de Jerusalém e o da Babilônia. Para saber mais, ver http://www.jewishvirtuallibrary.org NT.

    [4] Nascido em Toledo, em 1086, é reverenciado como o maior poeta hebreu de seu tempo. Para saber mais, ver http://www.jewishvirtuallibrary.org NT.

    [5] No orig. etrog (heb.), espécie de fruto cítrico usado nas festas do Sucot. Essa espécie de fruto tem formato de coração e um pedúnculo numa das extremidades, que tem de ser mantido intacto até o final das cerimônias. Daí o que diz o texto, sobre "manusear com cuidado o limão". Para saber mais, ver http://www.morasha.com.br/conteudo/ed38/etrog.htm NT.



    Israel monta campanha de mídia, para culpar o Hamás pela destruição de Gaza

    (In Guardian, UK, 28/12/2008, 15.45 GMT, em http://www.guardian.co.uk/world/2008/dec/28/israel-gaza-hamas)

    Israel montou ampla campanha de mídia [que ingleses e norte-americanos chamam de "public relations (PR) campaign"] para convencer corações & mentes em todo o planeta, de que o Hamás é culpado pela morte e destruição que o mundo está assistindo pelos noticiários de televisão.

    Para evitar que se repetisse a onda de crítica, em todo o mundo, que atingiu Israel no início de 2008, quando Israel invadiu Gaza para prender militantes que lançavam foguetes de quintal – brincadeira de criança, comparada ao brutal ataque hoje em curso –, Israel decidiu precaver-se.

    "No passado, nosso primeiro-ministro recebia telefonemas de funcionários e políticos. Quando dizíamos a eles "Vocês entendem nossa reação, não é? Não podemos admitir aqueles foguetes que..." eles respondiam "Que foguetes?!" Não tinham qualquer informação sobre nossos problemas", disse o porta-voz do governo israelense, Yigal Palmor.

    Então, enquanto os chefes-da-guerra armavam seus aviões-bombardeiros, o ministério do Exterior preparava ampla campanha de divulgação, para conter as críticas contra o assalto à Palestina, que viria no sábado.

    Todos os diplomatas israelenses tiveram o fim-de-semana suspenso e foram chamados às embaixadas. E foi montado em Sderot, junto à fronteira norte de Gaza, um centro de imprensa, multilíngue, para o qual foram convocados jornalistas do mundo inteiro.

    Em Telavive, a ministra do Exterior, telefonou a David Miliband, secretário de Relações Exteriores da Inglaterra; a Condoleezza Rice, secretária-de-Estado dos EUA; a Ban-ki-Moon, secretário-geral da ONU; a Javier Solana, chefe de política internacional da União Européia, e aos ministros do Exterior da Rússia, da China, França e Alemanha.

    Ontem, no centro de imprensa de Sderot, Tzipi Livni falou a 80 representantes de países e a altos funcionários de suas embaixadas.

    "Concluímos que é essencial divulgar o contexto no qual estamos tomando as necessárias decisões em Israel, e que os acontecimentos seguem uma sequência lógica" – disse Palmor.

    Para Israel, a "sequência lógica que levou ao brutal bombardeio da Faixa de Gaza não começa pela ocupação de território palestinense, em 1967 – única sequência lógica que os palestinenses bombardeados conhecem.

    Para Israel, a "sequência lógica" começa há três anos, com a decisão de retirar os acampamentos militares e as colônias de civis da área da Faixa de Gaza.

    "Poderíamos começar por 1948 [ano em que a Palestina foi dividida, para criar Israel] mas queremos concentrar-nos na situação atual. Comecemos, então, pela retirada, em 2005" – prosseguiu o porta-voz. – "Palestinos militantes chegaram a dizer que a evacuação seria vitória sua, resultado dos ataques de foguetes e fogo continuado, sobre cidades do sul de Israel."

    Depois de cercar Gaza – o chamado "Muro da Vergonha", na Palestina – antes de retirar-se da Faixa, Israel passou a impor um bloqueio cada vez mais forte, que impedia, no final de 2005, que quem trabalhasse em Gaza entrasse em território israelense; em 2006, foi bloqueado todo o tráfego de caminhões e o abastecimento; finalmente, em meados de 2007, foram bloqueados até os caminhões de ajuda humanitária.

    Perguntado sobre se a campanha de propaganda internacional estaria dando resultado, o porta-voz respondeu que ainda é cedo para avaliar.

    Seja como for, os ataques começaram no sábado, no mesmo momento em que matérias que repetiam a fala ouvida no centro de imprensa de Sderot passavam a ser repetidas, sem alteração, em todo o mundo.

    Condoleezza Rice culpou o Hamás "por quebrar o pacto de cessar-fogo e pelo reinício da violência". Máhmude Abbas, presidente da Autoridade Palestina, disse que os bombardeios poderiam ter sido evitados.

    "Sabíamos que havia esse perigo e que teríamos de evitar qualquer pretexto que Israel pudesse usar", disse Abbas ontem, enquanto posseguia o bombardeio sobre Gaza.



    (Ambos textos reproduzidos do site Viomundo