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sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Imprensa, análise de discursos e o olhar crítico da História

Publicada em 29/02/2008; Atualizado em 01/03/2008 e 14/03/2008
Postagens relacionadas:
Pontos de Vista
Imprensa e manchetes


Nos últimos posts publicamos um artigo muito interessante do escritor Eduardo Galeano e dois do jornalista L. C. Azenha. Também comentamos sobre a publicação do relatório da ONU e os direitos humanos no Brasil, como não havia expressivas diferenças entre as abordagens dos jornais O Estado e Folha de São Paulo.

O professor Daniel Trevisan mandou-nos o seguinte projeto e pediu-nos sugestão:

Projeto: A Mídia em sala de aula

professor: Daniel Trevisan


Justificativa:

Ao longo do tempo, a mídia adquiriu grande importância dentro de nossa sociedade. Em diversos momentos de nossa história contemporânea, o papel exercido por ela foi de grande destaque, seja pelas denúncias trazidas à tona por jornalistas comprometidos com a ética e a seriedade, seja pela manipulação de fatos, visando beneficiar determinados grupos em detrimento de qualquer comprometimento com os verdadeiros valores do jornalismo.

Atualmente o papel exercido pela grande mídia torna-se preocupante. Notícias vinculadas sem prova alguma, sem nada que corrobore sua autenticidade, são tomadas como verdade apenas por terem sido publicadas por determinado veículo de informação. Ao ser publicado em algum meio jornalístico, o fato adquire credibilidade e veracidade, sendo tomado posteriormente como prova de um ato ou um delito. Boa parte da população não faz uma leitura crítica das notícias, acreditando estarem sendo bem informadas ao lerem um determinado jornal ou revista, ou simplesmente assistindo a um telejornal no conforto de sua casa. Não se afirma aqui, todavia, que tudo aquilo que sai na mídia seja inverossímil, ou que todas as notícias sejam manipuladas, num jogo de interesses maniqueísta. O que se pretende afirmar, é que a mídia jamais é imparcial, como ela própria gosta de se intitular.

Como empresa jornalística e de propriedade de grupos ou mesmo famílias, esses veículos colocam sempre suas opiniões a respeito de determinado assunto. A mídia seria uma forma de elevar há uma alta potência os interesses de seus proprietários. Dessa forma fica claro o caráter parcial da mídia, que se posiciona, segundo seus interesses, a respeito dos fatos, principalmente os de caráter social e político. Assim, a mídia pode exercer grande influência no meio social, tornando públicas suas opiniões, quando não muito, publicando falsas notícias.


Objetivo Geral:

O que se pretende com esse projeto, é tornar os alunos mais críticos quanto a atuação da mídia, demonstrando-lhes o caráter parcial e subjetivo de muitos veículos de informação, principalmente aqueles que são tomados na atualidade como a grande mídia, que se apresentam como neutros. Porém, impõe um modelo para se perceber a realidade. Outro ponto que deve ser destacado, é a existência de uma mídia independente, não ligada aos grandes grupos financeiros e que nos mostra um outro lado do jornalismo. Essa mídia independente, através de revistas, jornais e principalmente “blogs” na internet, tem exposto as contradições dos tradicionais veículos de informação, demonstrando que a grande mídia não visa apenas trazer a notícia como ela realmente aconteceu, mas muitas vezes distorcer os fatos segundo seus interesses.

A utilização da mídia em sala de aula pode tornar os alunos mais críticos a respeitos dos problemas da sociedade, bem como a não receberem as notícias como verdade apenas por terem sido publicadas em determinado veículo de comunicação.

Além de tornarem-se cidadãos com conhecimento da realidade, tal projeto destina-se também a incentivar à leitura, deixada de lado muitas vezes, demonstrando a sua importância para uma melhor escrita, para a interpretação de textos e para a argumentação.

Objetivos específicos:

Incentivar a leitura e comparação de diversos veículos de informação.

Proporcionar o contato com os fatos da realidade, vistos por diferentes pontos de vista;

Incentivar a leitura em sala de aula e em casa.

Colaborar para o aperfeiçoamento da escrita e interpretação de textos.

Propiciar um melhor entendimento da realidade que cerca os jovens.

Incentivar os alunos a cidadania no meio social.

Buscar conhecer a história dos meios de comunicação e sua participação histórica na sociedade.

Metodologia:

Leitura de jornais, revistas e blogs na internet de alguns jornalistas.

Comparação de diferentes pontos de vista de um mesmo fato.

Discussão em sala desses pontos de vista e exposição da opinião pessoal dos alunos.


Durante algumas trocas de mensagens sugeri ao professor Daniel a inclusão de alguns blogs e foco para algumas temáticas. Nessas últimas semanas o 'caso' dos cartões corporativos, cujas despesas podem ser acompanhadas via rede, e a suposta epidemia de febre amarela foram assuntos bastante tratados tanto na mídia institucional como na desenvolvida pelos blogueiros do movimento Sem-mídia e do Sivuca. São dois assuntos importantes, relacionados aos gastos públicos e à saúde pública. A distância como a mídia institucional e os sem mídia trataram a questão merece estudo.

Segue algumas indicações de sites interessantes para se discutir a atuação da mídia corporativa no país:
Direito à comunicação
Palanque do Blakão
Congresso em Foco
Global Voice
Observatório da Imprensa
Afropress

Veja também nossa relação de links 'Blogs e portais de notícias
'

Indico também a leitura da entrevista do professor Bernardo Kucinski, originalmente publicada na revista Sesc- TV

“Melhor o jornalismo, melhor a democracia”
Bernardo Kucinski - Por Livia Chede Almendary. 27.02.2008


Bernardo Kucinski, jornalista e professor da USP, é conhecido pela contundência e acidez com que critica mídia e política. Na entrevista concedida ao SESCTV, sua crítica aparece como fruto de uma extensa experiência jornalística, sempre associada à reflexão e à pesquisa.

*

Qual a relação entre jornalismo e democracia?
Não há democracia sem a livre circulação de opiniões, sem o debate público e você não consegue fazer isso sem ter uma imprensa livre e diversificada. Quanto melhor o jornalismo, melhor a democracia. Do lado oposto, a primeira coisa que precisa ser suprimida para acabar com a democracia é a liberdade de informação. Então as coisas estão muito ligadas.


Você faz muitas críticas à mídia de forma geral. Mas, até que ponto a imprensa define a opinião do leitor/espectador?
O jornalismo vive uma contradição porque ele é um direito inerente às pessoas, à democracia, mas, é também uma indústria. E os grandes jornais, as grandes revistas e as grandes cadeias de televisão são empresas que querem lucro, e têm interesses políticos. O espaço público é um espaço de disputa permanente de grupos de interesse e também um campo de divergências ideológicas naturais, legítimas. Então, uma certa dose de manipulação é praticamente intrínseca ao jornalismo, que por sua vez é uma atividade muito subjetiva: não existe uma verdade sobre os fatos, existem maneiras de vê-los. Por isso, sempre prego, do ponto de vista do jornalismo, a necessidade da honestidade. Você pode tratar o fato como quiser, desde que seja honesto, não distorça a informação. No caso brasileiro, o que acontece hoje é que a imprensa está fazendo tantas jogadas – desonestas – que ela se descolou completamente da realidade. Nas notícias atuais, tudo aparece como negativo, enquanto a vida do povo está melhorando. Nesses casos, quando as informações veiculadas na mídia estão muito descoladas da realidade, a mensagem não é aceita, e a mídia destrói sua própria influência porque exagerou na manipulação. Foi isso que eu acho que aconteceu na reeleição do Lula, que venceu mesmo com a campanha negativa sobre sua re-candidatura.


E você atribui essa má qualidade a quê?
São vários fatores. Praticamente metade do que é publicado nos jornais são matérias de denúncias que muitas vezes não são nem comprovadas, mas tudo é colocado em suspensão. A mídia está moralista, denuncista, anti-governo, e apressadinha. Por exemplo, vi uma notícia de que tantos por cento dos eleitores são analfabetos e não têm nem mesmo o ensino fundamental completo. Então, um crítico da mídia foi lá pesquisar os dados e não era nada disso. O dado se referia a um momento passado em que as pessoas se inscreveram para obter o título de eleitor e declararam o grau de escolaridade. Mas não é o grau de escolaridade que têm hoje, porque muitos eleitores se inscrevem com 18 anos, 16 anos.


Qual o papel da televisão na percepção e na definição do espaço público?
Todos dizem que a televisão tem um papel dominante justamente por estar presente em praticamente todos os lares brasileiros. Mas eu acredito que este papel está se modificando hoje, porque há uma grande fragmentação da televisão, e há uma maior diversidade de mensagens. Acho também que a influência do rádio é muito minimizada. O que está em todo lugar hoje não é bem a televisão. É, na verdade, a imagem televisiva. Você entra no elevador, no ônibus, no metrô e tem uma telinha. É como se ela fizesse parte do meio ambiente. O homem moderno se forma no ambiente midiático. Hoje, a criança de seis ou sete anos já sabe operar um computador. A mídia não apenas informa, ela forma a pessoa. Ela é o próprio espaço público.


Mas é um espaço público dentro de um sistema de interesses privados...
Essa confusão entre público e privado sempre existiu. Por exemplo, fala-se muito da vida privada de um político – que está com câncer, que tem uma amante. Mas é de interesse público ou privado? Esse conflito é clássico no jornalismo e é resolvido caso a caso. Mas o que acontece atualmente é uma coisa diferente, mais profunda. Houve quase que a destruição da demarcação entre público e privado com a internet. Porque na internet – e correlatos, como, celulares, palm top etc. – não há um protocolo que defina o que é correspondência privada e o que é pública. É tudo misturado no mesmo meio, usando os mesmo recursos. Um email pode transmitir um manifesto político, mas também pode ser uma mensagem privada. Ninguém pede licença para te mandar nada, invadem sua caixa postal. Houve uma destruição de várias demarcações e o que a internet fez nesse sentido é uma verdadeira revolução: dissolução entre público e privado, entre quem é jornalista e quem não é, entre leitor e escritor. Precisamos recriar a demarcação entre público e privado.


Como você avalia a chegada da TV pública?
É muito importante que ela seja construída, implementada. É uma coisa que está na Constituição: criar um sistema público de rádio e de televisão. Mas, na minha opinião, está muito na defensiva, envergonhada, com medo de errar, de ser criticada, e está sendo operada dentro de uma mesma visão que rege a TV privada. Torço para que dê certo, mas estou cético quanto ao seu sucesso.


O Brasil ainda vai assistir à democratização da mídia?
Acho essa expressão equivocada. Você não democratiza a mídia. A mídia são os veículos. É preciso, sim, democratizar o mercado: não se pode permitir o monopólio, o oligopólio, o cartel, o acúmulo de propriedade de concessões, que a lei proíbe. Isso é o que tem que ser feito. O resto é por conta da sociedade civil. E nesse aspecto, a sociedade civil avançou muito. Se você for a uma banca de jornal, você vê a enorme quantidade de publicações. Por trás dos jornalões, das grandes emissoras, existe uma explosão de mídias. A imprensa hoje é muito heterogênea. Você tem revista de filosofia, de esporte, de turismo, de moda, várias de história, de ciência, de tudo o que você possa imaginar. Tem a internet. E isso é mídia, muito mais diversa do que há dez anos. Além disso, há um pouco mais de massa crítica. Sempre houve esse movimento, como a Frente Nacional pela Democratização da Comunicação. Mas, agora temos o movimento das rádios comunitárias, observatórios de mídia, ongs. E foi nesse contexto que o governo conseguiu criar a lei da TV pública.

Agora para refletir:

Esta capa esteve nas bancas. O texto escrito pelo diretor de arte da revista "Época" e publicado no site da revista é auto-explicativo:

"Capa da semana

Para fazer a capa desta semana foi feita uma pesquisa de imagem muito específica.
O presidente da Venezuela Hugo Chávez teria que estar com cara ameaçadora.
Foi muito difícil, ele tem uma cara gorda e simpática, não dá medo em ninguém.
A imagem que mais chegou próximo do objetivo foi a que ele está de boina vermelha olhando para o lado esquerdo. Para deixar a imagem ainda mais forte, o nosso ilustrador Nilson Cardoso fez um trabalho de manipulação na imagem original, até chegar a este resultado final.
O que acham? Façam seus comentários.

Marcos Marques - diretor de arte"

Extraído de Viomundo

PROFESSOR COELHO: "INTENÇÃO FOI DEMONIZAR A PARCERIA"

Os alunos de uma disciplina do programa de pós-graduação da Escola de Comunicações e Artes entrevistaram, em 1997, o jornalista Fernando Salgado, que na época era o responsável pelo jornal “O Metalúrgico” do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. Os pós-graduandos ficaram surpresos com a honestidade e veemência do editor do mencionado periódico sindical. Ele classificou a sua atividade como marketing ideológico e não como jornalismo, porque só lhe interessava o lado dos trabalhadores.

Essa lembrança vem a propósito da matéria de Henrique Costa, publicada no sitio da ONG Direito à Comunicação, Presença de empresas de mídia no curso de jornalismo da USP gera reação dos alunos. Os desdobramentos que podem ser extraídos do conteúdo e da edição dessa matéria são tão ricos quanto a posição clara e ética de Fernando Salgado e de sua obra sindical, apesar da oposição de comportamento dos dois profissionais.

Pela abertura do citado comentário, termo que aqui se usa na acepção dos estudos de gênero de Manuel Chaparro, é possível verificar que a pauta da referida matéria não foi pesquisada e que havia uma clara intenção de demonizar a “parceria” que foi explorada no texto.

Uma das acusações que consta da costura dos argumentos é que as mídias alternativas não estão presentes na estrutura do curso de Jornalismo da ECA.

Para demonstrar que não houve cuidado em contextualizar o tema, é preciso citar, como exemplo de que esse tipo de afirmação não é sustentável, a entrevista com o próprio Salgado. Ela faz parte do livro “Edição no Jornalismo Impresso” (Edicon/ECA-USP/NJC, 1998). Faltou, também, constar da matéria as tentativas feita pelo Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA, nos últimos cinco anos, para reativar discussões importantes para a formação dos jornalistas, que teve em seu currículo, até meados da década de 80, disciplinas como “Jornalismo Sindical”, “Jornalismo Comunitário” e “Folkcomunicação”.

Estudo de Caso

Atualmente a estrutura curricular do curso de Jornalismo da ECA optou por discutir Jornalismo e não Mídia, o que justifica a existência das disciplinas de Estudos de Caso (Jornalismo Televisionado, a Imprensa Diária, Jornalismo Radiofônico, Jornalismo Social, Jornalismo e Políticas Públicas, Imprensa Semanal).

Este detalhe, ponto fundamental na construção do currículo, não foi discutido na matéria, contrariando a prática jornalística que recomenda a apresentação de contextos claros e precisos para fornecer aos leitores a perspectiva que deu origem ao fato jornalístico. Pelo menos é isso que pregam os manuais e livros dedicados à argumentação.

A matéria, além de sonegar as origens históricas da colaboração das empresas e organizações (Folha de S. Paulo, Editora Globo, Abril, TV Globo, Andi e Anjos), dá às disciplinas uma dimensão que elas não têm na grade curricular.

Historicamente, a primeira experiência da relação empresa/escola, na ECA, aconteceu em 1987, quando a Folha cedeu o jornalista Cláudio Abramo para ministrar um curso que tratou de edição jornalística. Portanto, não se confirma a afirmação de crise de identidade alardeada pela matéria. Essa experiência, que já conta mais de 20 anos, está sendo aprimorada e é uma identidade da estrutura.

O projeto que teve o menor tempo de planejamento foi o de Jornalismo Social, que começou a ser discutido no dia 04.08.2004 e foi ministrado pela primeira vez no segundo semestre de 2007, como curso de extensão gratuito e será disciplina optativa no segundo semestre de 2008.

Onde mora o problema?

Outro ponto não contemplado na matéria foi a informação de que as disciplinas optativas livres não fazem parte do núcleo duro da formação do aluno de jornalismo. A consulta à grade curricular, mesmo que feita superficialmente, demonstrará que esse tipo de disciplina corresponde a 11,22% do total da carga horária. As disciplinas mencionadas na matéria, são complementares e concorrem com mais de uma centena de disciplinas optativas da área de ciências humanas oferecidas aos alunos da Universidade .

O cerne da construção do saber na área está na articulação de conteúdos das disciplinas obrigatórias, dispostas em um desenho curricular elaborado e fundamentado de acordo com parâmetros científicos. Atentando para princípios recomendados por César Coll, há um esforço para que esse desenho curricular se transforme em verdadeiro instrumento de trabalho e de indagação, que se consubstancia na oportunidade de os alunos criarem, exercitarem e exercerem a crítica em relação ao mercado e ao que lhes é ensinado. Em outras palavras, o aluno está em sintonia com a sua formação crítica e tem nas disciplinas optativas o campo de verificação das teorias e, no feedback dessa verificação, as indagações que dão vida à teoria. Não se trata, pois, de uma via de mão única.

Este desenho significa que o currículo de Jornalismo da ECA não trabalha com a perspectiva de adestramento. Não tem fórmulas prontas porque não considera estático o mercado, na sua acepção ampla. E não entende o Jornalismo como mera mídia, mas como uma manifestação do direito fundamental do cidadão que será alimentada pelos seus egressos. Talvez esteja aí a grande diferença entre a formação proporcionada pelo curso de Jornalismo da ECA e algumas escolas cuja administração está voltada ao atendimento exclusivo das necessidades do mercado ou subordinada a princípios ideológicos reducionistas.

Uma organização curricular aberta e participativa, como a que foi brevemente descrita, só pode ser mantida quando o corpo docente rechaça a visão de ensino como forma de moldar mentes para a aceitação de conceitos com propósitos determinados. Os estudantes que contam com estruturas similares são incentivados a aprimorar a visão crítica da sociedade, do mercado e do capital, sem os filtros ideológicos que castram a capacidade de questionamento dos fatos.

Outro equívoco que deve ser apontado na matéria é a imprecisão do acordo entre a instituição e as empresas e organizações. Não há uma parceria, no sentido amplo do termo. O que se faz é um convite onde a receptora (ECA) se mantém fiel à sua meta de formar jornalistas e a outra parte (empresas e organizações) concorda em ceder parte de sua capacidade produtiva para que os propósitos de ensino projetados sejam alcançados. É possível que existam dificuldades administrativas para a implementação de similar estrutura em cursos privados. As relações de lucro entre as duas entidades poderiam tornar a oferta de disciplinas optativas onerosa, e poderiam contrariar os projetos acadêmico e pedagógico criados para atender principalmente às metas econômico-financeiras impostas pela instituição bancária que garante a manutenção da instituição de ensino.

Teoria da conspiração

A matéria contamina o leitor levando-o a acreditar na existência de uma conspiração que tem o curso de jornalismo da ECA como “parceiro” das grandes instituições de comunicação. Seria desgastante apresentar os fatos da história recente do país em que alunos e professores do curso de Jornalismo da ECA constam como atores na luta contra a ditadura e a favor das liberdades de informação e opinião, justamente porque faz parte do DNA dessa instituição a defesa intransigente da democracia e da pluralidade de opiniões.

Na angulação do tema, o autor da matéria poderia ter usado os instrumentos da própria USP para requerer o fechamento do curso, como foi sugerido em duas ocasiões do texto. É possível que a cruzada, encetada pelo autor, tivesse maior êxito se, por exemplo, recorresse ao “Código de Ética” que, no preâmbulo, afirma que a “USP adota os princípios indissociáveis aprovados pela Associação Internacional de Universidades, convocada pela Unesco em 1950 e em 1998, a saber:

1) o direito de buscar conhecimento por si mesmo e de persegui-lo até onde a procura da verdade possa conduzir;

2) a tolerância em relação a opiniões divergentes e a liberdade em face de qualquer interferência política;

3) a obrigação, enquanto instituição social, de promover, mediante o ensino e a pesquisa, os princípios de liberdade e justiça, dignidade humana e solidariedade, e de desenvolver ajuda mútua, material e moral, em nível internacional.”

Para não ferir o mencionado Código de Ética, outras ilações constantes do texto publicado não serão comentadas. Com sabedoria, a Universidade de São Paulo recomenda que “a relação com os demais profissionais da área deve basear-se no respeito mútuo e na independência profissional de cada um, buscando sempre o interesse profissional” (Art. 18)


Prof. José Coelho Sobrinho
Do curso de Jornalismo da ECA/USP

Extraído de Vi o mundo


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Imagem do dia: entre políticos e múmias

Postado em 27/02/2008, atualizado em 29/02
Vandalismo ou ativismo?

A foto de Raimundo Pacco/Folha Imagem, publicada hoje no site da uol mostra funcionário do mosteiro da Luz, pintando o muro que foi pichado nesta madrugada, após a divulgação pela imprensa de que múmias de cerca de 200 anos foram encontradas no mosteiro. Hoje além das irmãs concepcionistas, as dependências do mosteiro abrigam também o Museu de Arte Sacra.


O autor da pichação diz: As únicas múmias em São Paulo são os políticos do Senado* (sic) e da Câmara. Fora Kassab".

*possivelmente em referência aos políticos paulistas que estão no Senado, já que este se localiza em Brasília.

Embora esse/a pichador/a tenha limitado a expressão de suas críticas aos políticos aos muros externos do mosteiro da Luz, esta autora que vos fala não considera legal pichar a cidade, especialmente monumentos históricos.

E você o que acha da ação do/a pichador/a bem informado sobre as descobertas arqueológicas da cidade e revoltado/a com as ações da administração municipal e com políticos da Câmara e Senado? Comente.
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As recentes descobertas no Mosteiro da Luz provocarão pesquisas entre historiadores e arqueólogos especialistas em temas cristãos, pois foi encontrada uma múmia de cerca de 200 anos em um mosteiro católico e a igreja católica não tem como prática a mumificação de seus mortos, saiba mais sobre esta descoberta lendo o artigo reproduzido ao final desta postagem.
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Você conhece o museu de arte sacra da cidade de São Paulo?


O Mosteiro da Luz, fundado e construído por Frei Antonio de Sant'Anna Galvão, em 1774, é um desses exemplos, sendo considerado, atualmente, o mais importante monumento arquitetônico colonial do século XVIII. Encerrado na última chácara conventual urbana, no Bairro da Luz, coração da cidade de São Paulo, foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN - em 1943, e pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Arquitetônico do Estado de São Paulo - CONDEPHAAT - em 1979, sendo reconhecido como monumento de interesse e preservação nacional.

No seu interior, protegido por suas imponentes paredes de taipa, preserva-se o clima de silêncio e meditação, quer seja no secular recolhimento das Irmãs Concepcionistas, que ainda hoje dedicam-se à oração e ao trabalho, como nas dependências do Museu de Arte Sacra de São Paulo. A Igreja da Luz, fundada em 1802, um dos raros exemplos de planta octogonal do período, compõe o conjunto arquitetônico do Mosteiro da Luz e acolhe, ainda hoje, com sobriedade, ritos religiosos.

O Museu de Arte Sacra convive harmoniosamente com o Mosteiro da Luz, monumento arquitetônico e museal que o acolhe, compondo o cenário apropriado para a preservação e divulgação de uma das mais eloqüentes representações do imaginário religioso brasileiro.
Fonte: Museu de Arte Sacra

Leia sobre essas importantes descobertas arqueológicas feitas neste mosteiro:

Múmia de 200 anos é encontrada no Mosteiro da Luz em São Paulo
Maurício Savarese, São Paulo 26/02/2008 - 18h06. Fonte: Folha online.





















"Havia rastro dos cupins, e os técnicos entraram nas paredes de dentro do museu para ver o que tinha lá. Foi uma grande surpresa, não sabemos há quanto tempo a múmia e o esqueleto estavam ali", disse à Reuters por telefone o padre Armênio Rodrigues Nogueira, responsável pela Mosteiro da Luz.

Encontrados há algumas semanas, os restos foram mantidos em sigilo pelo mosteiro, que entregou a múmia e o esqueleto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O material depois será investigado por arqueólogos e antropólogos ligados ao Museu de Arte Sacra, segundo a assessoria da Arquidiocese de São Paulo.

O ambiente no qual o material foi encontrado será esterilizado, lacrado e desumidificado para evitar riscos à preservação, completou a assessoria da arquidiocese, que informou que até 1822 as freiras que habitavam o local eram enterradas ali.

O processo de mumificação, no entanto, não faz parte de nenhum rito católico.

O mosteiro foi fundado e construído em 1774 por frei Antonio de Sant'Anna Galvão, que no ano passado foi santificado no Brasil pelo papa Bento 16. A Igreja Católica paulistana considera o prédio como o mais importante monumento arquitetônico colonial do século 18 na cidade.

O Museu de Arte Sacra, onde foram encontrados a múmia e o esqueleto, é protegido por paredes de taipa e fica na área do mosteiro, que é habitado pelas chamadas Irmãs Concepcionistas. Elas se dedicam exclusivamente à oração e ao trabalho e pouco saem dali.
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Leia mais sobre essa grande descoberta em nossa biblioteca virtual

Relatório da Onu: racismo, violência e direitos humanos no Brasil

Temáticas correlacionadas neste blog:

Biografia da Rainha Nzinga
Pontos de Vista
Racismo, direitos humanos, ONU

IDH de negros não aumenta no país
Discutindo valores, preconceitos discriminações
Professor/a, abaixo reproduzimos duas matérias extraídas de dois jornais paulistanos de grande circulação no país, com o objetivo de oferecer materiais para a discussão sobre o racismo e temas correlacionados em sala de aula.
Ao longo de nossas pesquisas de mais dados sobre esse relatório publicado pela ONU e de notícias correlacionadas, vamos alimentando este post.

Nas matérias selecionadas para este post as manchetes para o mesmo assunto nos dois jornais em questão guardam alguma diferença. Ambos jornais atribuem as falas que compõem suas headlines à ONU. A Folha abre a afirmação identificando quem é o sujeito a quem se atribui a afirmação e busca a sutileza ao pôr aspas no adjetivo persistente: ONU aponta racismo "persistente" no Brasil. Já a manchete de O Estado possivelmente poderia ser identificada com a palavra de ordem de muitos movimentos sociais, no caso, especialmente, com as dos movimentos negros: "Brasil é corrupto, violento e racista, diz relatório da ONU". O que não deixa de ser curioso considerando a história, o posicionamento político e a auto representação para seus assinantes dos dois veículos em questão.

De todo modo, ressaltamos que as grandes diferenças que, há algumas décadas, poderiam ser apontadas entre as linhas editoriais da mídia impressa brasileira estão cada vez mais tênues na atualidade. Avaliem.
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ONU aponta racismo "persistente" no Brasil
Revisão sobre direitos humanos ressalta ainda incidência de casos de tortura, violência policial e discriminação contra a mulher.
ONU reconhece "esforços para reformar o Judiciário", mas revela preocupação com a "interferência" da corrupção na Justiça do país

MARCELO NINIO
DE GENEBRA
A primeira revisão sobre os direitos humanos no Brasil feita pelo novo órgão especializado das Nações Unidas aponta uma grande e persistente incidência de casos de racismo, tortura, violência policial e discriminação contra a mulher. O Brasil está no primeiro grupo de países que passarão pela Revisão Periódica Universal, mecanismo criado em 2006, junto com o Conselho de Direitos Humanos da ONU.
A revisão, que no caso do Brasil ocorrerá no dia 14 de abril, será baseada em três relatórios, um com informações enviadas por ONGs (organizações não-governamentais), outro com uma compilação de informações recolhidas pela ONU nos últimos anos, e um terceiro preparado pelo governo. O prazo para a apresentação dos documentos era a última segunda, mas até ontem o do governo era o único ainda não disponível no site das Nações Unidas.

Na versão preliminar que apresentou em audiência pública no Senado, no último dia 12, o governo foi criticado pelas ONGs por ter exaltado as ações do governo sem responder às recomendações feitas pela ONU. Segundo a coordenadora de Relações Internacionais da Conectas Direitos Humanos, Lucia Nader, que participou da sessão, o Brasil só menciona uma das 117 recomendações feitas pelos nove relatores especiais da ONU que visitaram o país desde 2000.

"Esperamos que a versão final tenha menos propaganda do governo e responda mais às recomendações sobre o Brasil como um todo, não apenas no nível federal", diz Nader. Para ela, o país tem uma responsabilidade extra no Conselho de Direitos Humanos da ONU, pois sempre foi um dos maiores defensores do mecanismo de revisão universal.

O relatório da ONU lembra as cobranças feitas em 2005 ao Brasil em relação a abusos como expulsões de populações indígenas de suas terras, execuções extrajudiciais, tortura, superpopulação carcerária e condições desumanas das cadeias, entre outros. No entanto, diz o documento, "a resposta tem sido adiada desde 2006".

Embora reconheça "esforços feitos para reformar o Judiciário e aumentar sua eficiência", a ONU diz que continua preocupada com a "interferência" da corrupção na Justiça brasileira. Com base numa inspeção mais recente, do ano passado, a organização observa que a violência atinge sobretudo a camada mais humilde da população.

"Em 2007, o relator especial sobre execuções extrajudiciais, sumárias e arbitrárias observou que o homicídio era a principal causa de mortes entre pessoas com idade entre 15 e 44, com 45 mil a 50 mil homicídios cometidos todo ano", diz o documento. "As vítimas são, em sua maioria, jovens do sexo masculino, negros e pobres."

O relatório com observações de 22 ONGs alerta para altos índices de discriminação racial e sexual e enfatiza o problema da violência. Também chama a atenção para a distância entre a legislação e sua prática. A Anistia Internacional afirma que, com a Constituição de 1988, o Brasil adotou "as leis mais progressistas para a proteção dos direitos humanos da América Latina". "No entanto, persiste um enorme fosso entre o espírito dessas leis e sua implementação", diz a organização.

ONU vai receber dados em março, afirma ministro
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O ministro Paulo Vannuchi (Direitos Humanos) informou, por meio de nota, que o Brasil vai entregar as informações cobradas pela ONU no próximo mês e que a demora na entrega dos dados já havia sido explicada por integrantes da missão brasileira em Genebra.

"A partir de 17 de março o Brasil apresentará informações que ainda são devidas ao Comitê, sanando-se assim, por completo, o atraso em questão", diz a nota, que também informa que o país "acaba" de enviar a Genebra o Relatório Periódico Universal, com dados sobre o que avançou e não avançou em diferentes frentes.

Para Alexandro Reis, subsecretário de políticas de ações afirmativas da Secretaria da Igualdade Racial, só será possível mensurar uma inflexão no racismo no Brasil em 10 a 15 anos, devido ao longo período de escravidão pelo qual o país passou.

Ele rechaça afirmações de que não há racismo no Brasil. "No Brasil, o racismo se estrutura no sentido de impedir a ascensão social da população negra", diz. Para Reis, as ações do governo vão até o limite de oferecer igualdade de oportunidades a negros, já que o problema, diz, também é cultural.

Procurados ontem, o Ministério da Justiça e a Presidência informaram que não iriam se pronunciar.
Fonte: Folha online, 27/02/2008 - 02h55
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"Brasil é corrupto, violento e racista, diz relatório da ONU"

Conclusão faz parte do primeiro raio X completo sobre a situação dos direitos humanos no País

JAMIL CHADE - Agencia Estado


GENEBRA - O Brasil precisa solucionar com urgência a questão da violência e da desigualdade social no País. O alerta é da Organização das Nações Unidas (ONU), que acaba de preparar o primeiro raio X completo feito sobre a situação dos direitos humanos no Brasil, destacando problemas como corrupção, desigualdade social, racismo, tortura e impunidade.


O documento alerta ainda que Brasil não cumpriu as recomendações feitas pela entidade. A ONU, em 2005, deu um ano para o país adotar medidas para a proteção dos direitos humanos. Dois anos depois, o governo ainda não respondeu à ONU o que fará para lidar com os problemas.

O raio X faz parte de uma nova estratégia do órgão de avaliar a situação de cada país, e o Brasil será um dos primeiros a ser examinado. O documento será debatido na plenária da ONU em abril e, até lá, o governo terá de se preparar para dar respostas aos problemas. O exame reúne relatórios preparados pela ONU desde 2001 sobre o Brasil e faz um balanço geral da situação no país, considerada como preocupante.

Segundo o documento, em 2005, a ONU fez uma série de recomendações ao país diante da crise na proteção aos direitos humanos. Entre as medidas solicitadas estavam o tratamento da impunidade no sistema judiciário, o problema da expulsão de indígenas de suas terras, o fim da tortura e superlotação nas prisões e assassinatos extrajudiciais. De acordo com o órgão, o Brasil deveria ter fornecido as informações em 2006. Mas até agora nada foi apresentado.

Violência

Em todo o documento, a violência no país surge como um fator que vem atingindo um número cada vez maior de pessoas e violando os direitos humanos das formas mais diversas. Para a ONU, um dos desafios para o governo é como manter a população segura. "A violência em todas as idades aumentou na última década, transformando o assunto em um dos mais sérios desafios enfrentados pelo país. Os homicídios de adolescentes entre 15 e 19 anos aumentaram quatro vezes nas últimas duas décadas, atingindo 7,9 mil em 2003", afirmou o Unicef em sua contribuição para o documento da ONU.

Segundo o relatório, o número total de homicídios no Brasil por ano poderia ser de até 50 mil e a violência seria a principal causa de morte para pessoas entre 15 e 44 anos de idade. Impunidade, guerra entre gangues e violência policial estão entre os principais fatores desses índices alarmantes.

Tortura

O raio X ainda destaca o uso da tortura generalizada como uma prática para obter confissões em prisões e alerta que muitos juízes não classificam esses atos como tortura, preferindo apenas citar "abuso de poder". Nas prisões, o documento alerta que a ocupação seria três vezes maior do que a capacidade das instalações e pede o fim imediato da "superlotação endêmica" e das "condições desumanas" em que são mantidos os prisioneiros.

Uma das formas de atacar a violência e esses problemas seria a reforma urgente do sistema judiciário, o que acabaria contribuindo para lidar com a impunidade e a corrupção. Para a ONU, a reforma tem amplas condições de ser realizada.

Desigualdade

As disparidades sociais também fazem parte da lista de preocupações da ONU, principalmente o desenvolvimento social no Norte e Nordeste. Segundo o Unicef, 50 milhões de pessoas no Brasil ainda vivem na pobreza e, apesar dos avanços, o país está entre os cinco mais desiguais do planeta.

Um exemplo da desigualdade está na educação. Para a entidade, os avanços no número de matrículas nos últimos anos mascaram uma desigualdade extrema. "No Norte e Nordeste, apenas 40% das crianças terminam o primário", afirma o documento. No Sudeste, essa taxa seria de 70%. Cerca de 3,5 milhões de adolescentes ainda estariam fora das escolas. Os motivos: violência e gravidez precoce.

Outro exemplo de desigualdade está na saúde. Os indígenas têm um índice de mortalidade que é o dobro do de uma criança no Sudeste. Cerca de 87% da população tem acesso a água encanada. Mas os 20% mais ricos da população têm um acesso 50 vezes maior do que a parcela dos 20% mais pobres.

Para o Unicef, o Brasil está no caminho de atingir metas do milênio de reduzir a pobreza. De fato, a desigualdade social começou a dar sinais de melhorias. Em 1993, 35% da população viva com menos de R$ 40 por mês. Em 2006, essa taxa caiu para 19,3%. A baixa nutrição caiu mais de 60% para as crianças de menos de um ano desde 2003. Mas ainda existem cerca de 100 mil crianças que passam fome nessa faixa de idade.

Racismo

Outro alerta feito pela ONU é quanto à "generalizada e profunda discriminação contra afro-brasileiros, indígenas e minorias". Os vários documentos da ONU destacam a existência do racismo no país e ainda critica o fato de que a demarcação de terras indígenas está ocorrendo de forma lenta."


terça-feira, 26 de fevereiro de 2008, 17:08 Fonte: Estado


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Sites em destaque

Temas correlacionados:

Estevão da Conceição
Museu Afro Brasil
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IDH de negros não aumenta no país
Pontos de Vista

Racismo, direitos humanos, ONU

Do site Memória Lélia Gonzalez

A democracia racial exige uma militância "Você tem que estar atento a esse processo global e atuar no interior dele para poder efetivamente desenvolver estratégias de luta.

... Só na prática é que se vai percebendo e construindo a identidade, porque o que está colocado em questão é justamente uma identidade a ser construída, reconstruída, desconstruída, num processo dialético realmente muito rico."

Gonzalez - entrevista à revista SEAF, republicada por UAPÊ REVISTA DE CULTURA N. 2 - Editora Uapê, mar. 2000.

Aplicação da Lei 10639/03




A Lei 10.639

Parecer da Lei 10.639

Resolução 01/2004


Material didático

Literatura


Material para pronta utilização em sala-de-aula

Documentos - atualização de professores e professoras

Na dúvida em como aplicar a
Lei 10.639, entre em contato conosco
leliagonzalez@leliagonzalez.org.br

A palavra de quem entende

Unidade na diversidade


"Samba também se aprende no colégio"
Clique e conheça o projeto pedagógico

Modelos a serem seguidos:

1 - a Prefeitura Municipal de Salvador-BA foi a primeira a implantar, em toda a rede escolar, a Lei 10.639 (em 2005), durante a gestao da Secretaria de Educação e Cultura Olívia Santana.

2 - no Rio de Janeiro, a escola que já fez seu Projeto Pedagógico com base na Lei 10.639 é o Colégio Estatual Professor Sousa da Silveira, em Quintino - em 2005. Carla Lopes é a Pedagoga responsável pela iniciativa e implementação.


1

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Vidas lusófonas dedica-se a recontar biografias de personagens históricas, em especial as de personagens do mundo lusófono em forma de entrevistas jornalísticas ou outros gêneros.
É uma dica interessante avaliar forma e conteúdo pra desenvolver projetos propostos na coleção História em Projetos como aqueles que sugerem escrever histórias de vida de personalidades negras e de sujeitos da história que raramente mereceram destaque na história.
Retiramos de lá a biografia da Rainha Nzinga

RAINHA JINGA

Soberana de Angola: 1582 – 1663

Fernando Correia da Silva


Representação da rainha Nzinga

Abaixo a escravidão!

QUANDO TUDO ACONTECEU...

1582: Nasce a futura Rainha Jinga. – 1617: Morre Ngola Kiluangi, pai de Jinga; Mbandi, o filho de Kiluangi, toma o poder, desterra Jinga e manda assassinar o filho desta. – 1621: Jinga tenta negociar a paz com os portugueses; é fundada a Companhia Holandesa das Índias Orientais..– 1624: No porto de Luanda os holandeses afundam seis navios portugueses; Ngola Mbandi morre envenenado, talvez por ordem de Jinga; – 1641: Os holandeses voltam a Luanda, capturando frota de vinte navios portugueses; a Rainha Jinga faz aliança com eles. – 1648: Vindo do Brasil chega a Luanda o novo governador Salvador Correia de Sá comandando forte esquadra que expulsa os holandeses de águas angolanas; ele tenta convencer Jinga a prestar vassalagem à coroa portuguesa, mas não o consegue. – 1663: Morte da Rainha Jinga..



QUIMBUNDO E PORTUGUÊS


Corre o ano de 1663. Junto à sua palhoça, uma preta velha, muito velha. Dizem-me que tem 81 anos porque nasceu cerca de 1582. Mas sempre altiva e parece que está à minha espera. Meto conversa. Em quimbundo pergunto-lhe:

- Avó, tu falas português?

E em português ela responde:

- Rapaz, tu falas quimbundo?

Largamo-nos a rir e começamos a conversar, ora em quimbundo, ora em português. Para que todos os meus patrícios bem me entendam, da primeira à última frase vou passar toda a conversa para português.



NZINGA MBANDI NGOLA


Luanda, século XVII

- Avó, o teu nome completo é Nzinga Mbandi Ngola, não é?

- Pois é! Mas como os portugueses não falam bem quimbundo, em vez de Nzinga dizem Jinga, e em vez de Ngola dizem Angola.

- E Ngola ou Angola quer dizer rei ou rainha, não é?

- Sim, rapaz, quer dizer rei ou rainha. E não sei por que é que o nome de Ngola ou Angola foi dado a estas terras que sempre foram chamadas de Ndongo e Matamba.

- Não sabes tu mas sei eu. É porque esta região é a rainha entre as várias que os portugueses conquistaram na África ocidental. Percebes?

- Estou a ver...

- E mais, Avó: quando eu digo Rainha Jinga, todos sabem que é de ti que estou a falar.

- Uf, estou mais descansada...



NGOLA MBANDI


Enquanto esgrimimos alfinetadas recordo o muito que sei a teu respeito. O teu pai, Ngola Kiluangi, rei do Ndongo, manteve a paz com os portugueses de Luanda. Porém falece cerca de 1617. Entre os africanos a sucessão é por linha materna. O teu irmão antecipa-se, desterra-te, manda assassinar o teu filho, toma o poder, passa a chamar-se Ngola Mbandi.

Abre depois hostilidades contra os portugueses porque estes não desistem de caçar populações que exportam como escravos para o Brasil, de Luanda a Recife e Salvador e Rio de Janeiro um navio negreiro atrás do outro.

Mas uma coisa é abrir hostilidades, outra é ganhar a guerra. Mbanda não ganha, é até empurrado com os seus guerreiros para as ilhas de difícil acesso do rio Quanza.

Porém a guerrilha generalizada prejudica os portugueses de Luanda, não só no tráfico de escravos, como também no aprovisionamento de víveres. Por isso estão dispostos a assinar um tratado de paz com os aristocratas negros.

Mbanda acha que, pela sua forma de estar e presença de espírito. a grande negociadora pode ser Jinga. Esta engole em seco, finge esquecer as afrontas do seu irmão e predispõe-se às negociações.



UM MISSIONÁRIO CONTA COMO FOI


Representação da Rainha Jinga negociando

com os portugueses

Cavazzi, missionário capucho, comenta:

- Entre os negros com quem tive ocasião de conversar, não encontrei nenhum que superasse esta rainha pela generosidade de alma ou sabedoria de governação... ela revelava grande destreza nos assuntos políticos, perspicácia e prudência nos assuntos de família.

Cavazzi conta depois como foi o encontro com os portugueses:

- Quando o vice-rei lhe concedeu audiência, ela, ao entrar na sala, notou que lá estava no lugar mais nobre apenas uma poltrona de veludo, ornada de ouro que se destinava ao vice-rei, havendo do lado oposto um riquíssimo tapete e umas almofadas de veludo destinados a soberanos africanos. Sem se atrapalhar e sem dizer uma única palavra, ela fez sinal a uma das suas damas para que se ajoelhasse e fizesse de cadeira. Sentou-se em cima das suas costas e ali permaneceu sentada até ao fim da audiência.

Foi essa a forma, ó Jinga, de ficares ao mesmo nível do vice-rei e assim mostrares que não eras súbdita de Portugal. Mais: ficam todos atordoados com a fluência do teu discurso em português, a paz é vantajosa para ambos os lados que estão em guerra. Aceitam o acordo que propões. Convidam-te à conversão ao catolicismo e tu prontamente renuncias aos orixás (espíritos da selva) para receberes Jesus Cristo. És baptizada com o nome de Ana Sousa, em homenagem à esposa do governador português que participa na cerimónia e se assume como tua deslumbrada madrinha.


ARRAIA-MIÚDA PRETA

No século XVII os portugueses exportam
escravos e mais escravos angolanos para o Brasil. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo. Consulta a TÁBUA CRONOLÓGICA

Os portugueses interpretam assim o acordo de paz: jamais hostilizar a aristocracia africana para não afrontar aqueles que mandam. Porém a arraia-miúda preta continua e continuará a ser caçada, escravizada e exportada para o Brasil.

Ngola Mbandi não mexe uma palha, deixa rolar o lusitano desacato. Acaba por morrer envenenado e estou em crer, ó Jinga, que foste tu a padroeira do envenenamento. Mais que não seja porque, logo a seguir à morte do teu irmão, tomas decididamente as rédeas do poder para lutar contra os portugueses. Abjuras o cristianismo e outra vez invocas os teus antigos orixás.


QUARENTA ANOS DE GUERRA


Estátua da Rainha Jinga em Luanda

Ultrapassas as sempre latentes rivalidades tribais e consegues armar, com vários povos vizinhos de Ndongo e Matamba, uma aliança contra a escravidão. São eles os dos territórios do Congo, do Kassanje, de Dembos e Kissama. Mas há sempre quem esteja disposto a trair a aliança, desde que possa fazer bons negócios com os portugueses. E entre os “bons negócios” está, obviamente, o tráfico de escravos...

Em 1621 é fundada a Companhia Holandesa das Índias Orientais. E logo em 1624 uma esquadra holandesa queima e afunda seis navios portugueses no porto de Luanda. Aproveitas a súbita desorientação dos portugueses para libertares escravos, já concentrados em campos e à espera de embarque para o Brasil. Prometes-lhes a liberdade desde que integrem as tuas forças. Eles gritam abaixo a escravidão, abaixo a escravidão! e estão contigo.

Em 1641 os holandeses voltam a Luanda, capturando frota de vinte navios portugueses. Tu, Jinga, fazes um pacto com eles e acabas por chefiar trezentos dos seus guerreiros e assim consegues controlar a maior parte do litoral e do interior do país, também as principais rotas de comércio.

Em 1648 chega do Brasil, comandando poderosa esquadra, o novo governador Salvador Correia de Sá, o qual expulsa os holandeses das águas angolanas. Ele também tenta que tu prestes vassalagem à coroa portuguesa, mas não consegue, és um osso muito duro de roer...

A guerra entre brancos e pretos continua durante cerca de quarenta anos; tu, Jinga, a comandares a guerrilha e o ataque aos fortes militares.

As coisas só sossegam um pouco porque, no Brasil, os escravos reproduziram-se em cativeiro e por isso a mão de obra já é quase a suficiente para as necessidades dos senhores de engenho, senhores de escravos. Os portugueses chegam mesmo a libertar a tua irmã Cambu detida em Luanda durante dez anos.

A propósito: no Brasil, perto de Recife, há um filho de angolanos, ZUMBI DOS PALMARES, que lidera a revolta contra os portugueses como tu a lideras em Angola.

Ao sentires que chega a velhice, referes-te aos guerreiros jaga (teus primeiros aliados) e confessas ao missionário Antoine Gaete:

- Agora estou velha, padre, e mereço indulgência. Quando eu era jovem, nunca ficava atrás de qualquer jaga na rapidez de andar e na habilidade da mão. Havia tempos em que não hesitava em fazer frente a 25 soldados brancos armados. É verdade, não sabia manejar fuzil mas, para desfechar golpes de espada, também são necessárias a coragem, a audácia e o juízo.

Com 81 ou 82 anos faleces em 1663. O teu nome é reverenciado não só em Angola, mas também entre os negros do Brasil.

Outros sites de biografias sobre a rainha Nzinga:
Wikipédia
DEC.UFCG
Black History Pages

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Por falar em etnocentrismo e suas críticas

Esse vídeo de cerca de 4 minutos oferece muitos elementos pra discussão sobre o lugar da humanidade no planeta, aliás, também sobre a dimensão de nosso planeta no restante do universo observável.
Apreciem:
video

Para conhecer a história do vídeo, clique aqui. A seguir, a transcrição do texto original:

DANCE, MONKEYS, DANCE
by Ernest Cline

There are billions of galaxies in the observable universe
And each of them contains hundreds of billions of stars
In one of these galaxies
Orbiting one of these stars
Lies a little blue planet
And this planet is run by a bunch of monkeys


Now these monkeys don’t think of themselves as monkeys
They don’t even think of themselves as animals
In fact, they love to list all the things that they think
separate them from the animals:
Opposable thumbs
Self-awareness
They use words like Homo Erectus and Australopithecus

You say Toe-mate-o, I say Toe-motto
They’re animals all right
They’re monkeys
Monkeys with high-speed digital fiber-optic technology
But monkeys nevertheless

I mean, they’re clever
You’ve got to give them that
The Pyramids, skyscrapers, phantom jets,
the Great Wall of China
That’s all pretty impressive
For a bunch of monkeys

Monkeys whose brains have evolved
to such an unmanageable size
that it’s now pretty much impossible
for them stay happy for any length of time

In fact, they’re the only animals that think
they’re supposed to be happy
All of the other animals can just be

But it’s not that simple for the monkeys

You see, the monkeys are cursed with consciousness
And so the monkeys are afraid
So the monkeys worry
The monkeys worry about everything
but mostly about what all the other monkeys think
Because the monkeys desperately want to fit in
with the other monkeys

Which is pretty hard to do
because a lot of the monkeys hate each other
This is really what separates them from the other animals
These monkeys hate
They hate monkeys that are different
Monkeys from different places
Monkeys who are a different color

You see, the monkeys feel alone
All six billion of them

Some of the monkeys pay another monkey
to listen to their problems

The monkeys want answers
and the monkeys know they're going to die
So the monkeys make up gods
and then they worship them
Then the monkeys start to argue
over whose made-up god is better
Then the monkeys get really pissed off
and this is usually when the monkeys decide
that it’s a good time to start killing each other

So the monkeys wage war
The monkeys make hydrogen bombs
The monkeys have got their entire planet
wired up to explode

The monkeys just can’t help it

Some of the monkeys play to a sold out crowd of other monkeys

The monkeys make trophies
and then they give them to each other
Like it means something

Some of the monkeys think they've all figured out
Some of the monkeys read Nietzsche
The monkeys argue about Nietzsche
without given any consideration to the fact that Nietzsche
was just another monkey

The monkeys make plans
The monkeys fall in love
The monkeys have sex
and then they make more monkeys

The monkeys make music
and then the monkeys dance
Dance, monkeys, dance

The monkeys make a hell of a lot of noise

The monkeys have so much potential
if they would only apply themselves

The monkeys shave the hair off of their bodies
in blatant denial of their true monkey nature

The monkeys build giant monkey hives that they call "cities"

The monkeys draw a lot of imaginary lines in the dirt

The monkeys are running out of the oil
which is what fuels their precarious civilization

The monkeys are polluting and raping their planet
like there's no tomorrow

The monkeys like to pretend that everything is just fine

Some of the monkeys actually believe that the entire universe
was created for their benefit

As you can see . . . these are some messed up monkeys

These monkeys are at once the ugliest
and the most beautiful creatures on the planet

And the monkeys don’t want to be monkeys
They want to be something else
But they're not
.


Veja também essas belíssimas fotos aqui
E outros posts relacionados à temática:
silêncios da história
valores racismo anti-racismo e temas correlatos

Pontos de vista 'dos que não saíram na foto': silêncios da história


Vale a pena a leitura deste artigo de Eduardo Galeano, publicado em 30/12/2007 no periódico portenho Pagina 12.
O autor faz um passeio pela história recuperando novos pontos de vista, focando alteridades.
O Paradoxo Andante
(Por Eduardo Galeano)

Cada dia, ao ler os jornais, assisto a uma aula de história.
Os diários ensinam-me pelo que dizem e pelo que silenciam.
A história é um paradoxo andante. A contradição lhe move as pernas. Talvez por isso os seus silêncios digam mais que suas palavras e muitas vezes as suas palavras revelam, mentindo, a verdade.
Dentro em breve será publicado um livro meu chamado Espejos. É algo assim como uma história universal, e desculpem o atrevimento. "Posso resistir a tudo, menos à tentação", dizia Oscar Wilde, e confesso que sucumbi à tentação de contar alguns episódios da aventura humana no mundo do ponto de vista dos que não saíram na foto.
Pode-se dizer que não se trata de fatos muito conhecidos.
Aqui resumo alguns, apenas uns poucos.
- - -
Quando foram desalojados do Paraíso, Adão e Eva mudaram-se para África, não para Paris.
Algum tempo depois, quando seus filhos já se haviam lançado pelos caminhos do mundo, foi inventada a escrita. No Iraque, não no Texas.
Também a álgebra foi inventada no Iraque. Foi fundada por Mohamed al Jwarizmi, há mil e duzentos anos, e as palavras algoritmo e algarismo derivam do seu nome.
Os nomes costumam não coincidir com o que nomeiam. No British Museum, por exemplo, as esculturas do Partenon chamam-se "mármores de Elgin", mas são mármores de Fídias. Elgin era o nome do inglês que as vendeu ao museu.

As três novidades que tornaram possível o Renascimento europeu, a bússola, a pólvora e a imprensa, haviam sido inventadas pelos chineses, que também inventaram quase tudo o que a Europa reinventou.

Os hindús souberam antes de todos que a Terra era redonda e os maias haviam criado o calendário mais exato de todos os tempos.

- - -

Em 1493, o Vaticano presenteou a América à Espanha e obsequiou a África negra a Portugal, "para que as nações bárbaras sejam reduzidas à fé católica". Naquele tempo a América tinha quinze vezes mais habitantes que a Espanha e a África negra cem vezes mais que Portugal.

Tal como havia mandado o Papa, as nações bárbaras foram reduzidas. E muito.

- - -

Tenochtitlán, o centro do império asteca, era de água. Hernán Cortés demoliu a cidade pedra por pedra e, com os escombros, tapou os canais por onde navegavam duzentas mil canoas. Esta foi a primeira guerra da água na América. AgoraTenochtitlán chama-se México DF. Por onde corria a água, agora correm os automóveis.

- - -

O monumento mais alto da Argentina foi erguido em homenagem ao general Roca, que no século XIX exterminou os índios da Patagônia.

A avenida mais longa do Uruguai tem o nome do general Rivera, que no século XIX exterminou os últimos índios charruas.

- - -

John Locke, o filósofo da liberdade, era acionista da Royal Africa Company , que comprava e vendia escravos.

No momento em que nascia o século XVIII, o primeiro dos bourbons, Felipe V, estreou o seu trono assinando um contrato com o seu primo, o rei da França, para que a Compagnie de Guinée vendesse negros na América. Cada monarca ficava com 25 por cento dos lucros.

Nomes de alguns navios negreiros: Voltaire, Rousseau, Jesus, Esperança, Igualdade, Amizade.

Dois dos Pais Fundadores dos Estados Unidos desvaneceram-se na névoa da história oficial. Ninguém se recorda de Robert Carter nem de Gouverner Morris. A amnésia recompensou os seus atos. Carter foi a única personalidade eminente da independência que libertou seus escravos. Morris, redator da Constituição, opôs-se à cláusula estabelecendo que um escravo equivalia às três quintas partes de uma pessoa.

"O nascimento de uma nação" , a primeira super-produção de Hollywood, foi estreado em 1915, na Casa Branca. O presidente, Woodrow Wilson, a aplaudiu de pé. Ele era o autor dos textos do filme, um hino racista de louvação à Ku Klux Klan.

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Algumas datas:

Desde o ano 1234, e durante os sete séculos seguintes, a Igreja Católica proibiu que as mulheres cantassem nos templos. As suas vozes eram impuras, devido àquele caso da Eva e do pecado original.

No ano de 1783, o rei da Espanha decretou que não eram desonrosos os trabalhos manuais, os chamados "ofícios vis", que até então implicavam a perda da fidalguia.

Até o ano de 1986 foi legal o castigo das crianças, nas escolas da Inglaterra, com correias, varas e porretes.

- - -

Em nome da liberdade, da igualdade e da fraternidade, em 1793 a Revolução Francesa proclamou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. A militante revolucionária Olympia de Gouges propôs então a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã. A guilhotina cortou-lhe a cabeça.

Meio século depois, outro governo revolucionário, durante a Primeira Comuna de Paris, proclamou o sufrágio universal. Ao mesmo tempo, negou o direito de voto às mulheres, por unanimidade menos um: 899 votos contra, um a favor.

- - -

A imperatriz cristã Teodora nunca disse ser uma revolucionária, nem nada que se parecesse. Mas há mil e quinhentos anos o império bizantino foi, graças a ela, o primeiro lugar do mundo onde o aborto e o divórcio foram direitos das mulheres.

- - -

O general Ulisses Grant, vencedor da guerra do Norte industrial contra o Sul escravocrata, foi a seguir presidente dos Estados Unidos.

Em 1875, respondendo às pressões britânicas, respondeu:

–Dentro de duzentos anos, quando tivermos obtido do protecionismo tudo o que ele nos pode proporcionar, também nós adotaremos a liberdade de comércio.

Assim sendo, em 2075, o país mais protecionista do mundo adotará a liberdade de comércio.

- - -

"Botinzito" foi o primeiro cão pequinês que chegou à Europa.

Viajou para Londres em 1860. Os ingleses o batizaram assim porque era parte do botim extorquido à China no fim das longas guerras do ópio.

Vitória, a rainha narcotraficante, havia imposto o ópio a tiros de canhão. A China foi convertida num país de drogados, em nome da liberdade, a liberdade de comércio.

Em nome da liberdade, a liberdade de comércio, o Paraguai foi aniquilado em 1870. Ao final de uma guerra de cinco anos, este país, o único das Américas que não devia um centavo a ninguém, inaugurou a sua dívida externa. Às suas ruínas fumegantes chegou, vindo de Londres, o primeiro empréstimo. Foi destinado a pagar uma enorme indenização ao Brasil, Argentina e Uruguai. O país assassinado pagou aos países assassinos, pelo trabalho que haviam tido ao assassiná-lo.

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O Haiti também pagou uma enorme indenização. Desde que em 1804 conquistou a sua independência, a nova nação arrasada teve que pagar à França uma fortuna, durante um século e meio, para espiar o pecado da sua liberdade.

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As grandes empresas têm direitos humanos nos Estados Unidos. Em 1886, a Suprema Corte de Justiça estendeu os direitos humanos às corporações privadas, e assim segue sendo.

Poucos anos depois, em defesa dos direitos humanos das suas empresas, os Estados Unidos invadiram dez países, em diversos mares do mundo.

Então Mark Twain, dirigente da Liga Anti-imperialista, propôs então uma nova bandeira, com caveirinhas em lugar de estrelas. E outro escritor, Ambroce Bierce, confirmou:

–A guerra é o caminho escolhido por Deus para nos ensinar geografia.

- - -

Os campos de concentração nasceram na África. Os ingleses iniciaram o experimento, e os alemães o desenvolveram. Depois disso Hermann Göring aplicou na Alemanha o modelo que o seu papa havia ensaiado, em 1904, na Namíbia. Os mestres de Joseph Mengele haviam estudado, no campo de concentração da Namíbia, a anatomia das raças inferiores. As cobaias eram todas negras.

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Em 1936, o Comitê Olímpico Internacional não tolerava insolências. Nas Olimpíadas de 1936, organizadas por Hitler, a seleção de futebol do Peru derrotou por 4 a 2 a seleção da Áustria, o país natal do Führer. O Comitê Olímpico anulou a partida.

- - -

A Hitler não faltaram amigos. A Rockefeller Foundation financiou investigações raciais e racistas da medicina nazi. A Coca-Cola inventou a Fanta, em plena guerra, para o mercado alemão. A IBM tornou possível a identificação e classificação dos judeus, e essa foi a primeira façanha em grande escala do sistema de cartões perfurados.

- - -

Em 1953, explodiu o protesto operário na Alemanha comunista.

Trabalhadores tomaram as ruas e os tanques soviéticos trataram de calar-lhe a boca. Bertolt Brecht, em seguida, sugeriu: Não seria mais fácil para o governo dissolver o povo e eleger outro?

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Operações de Marketing. A opinião pública é o alvo. As guerras se vendem mentindo, tal como se vendem os carros.

Em 1964, os Estados Unidos invadiram o Vietnam, porque o Vietnam havia atacado dois navios dos Estados Unidos no Golfo de Tonkin. Quando a guerra já havia trucidado uma multidão de vietnamitas, o ministro da Defesa, Robert McNamara, reconheceu que o ataque de Tonkin não existiu.

Quarenta anos depois, a história se repetiu no Iraque.

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Milhares de anos antes da invasão norteamericana levar a civilização ao Iraque, nesta terra bárbara nasceu o primeiro poema de amor na história mundial. Na língua suméria, escrito no barro, o poema narrou o encontro de uma deusa e um pastor. Inanna, a deusa, amou nesta noite como se fosse mortal. Dumuzi, o pastor, foi imortal enquanto durou essa noite.

- - -

Paradoxos andantes, paradoxos estimulantes:

O Aleijadinho, o homem mais feio do Brasil, criou as mais belas esculturas da era colonial americana.

O livro de viagens Marco Pólo, aventura da liberdade, foi escrito na prisão em Gênova.

Don Quixote de La Mancha, uma outra aventura da liberdade, nasceu na prisão de Sevilha.

Foram netos de escravos, os negros que criaram o jazz, a mais livre das músicas.

Um dos melhores guitarristas de jazz, o cigano Django Reinhardt, não tinha mais que dois dedos em sua mão esquerda.

Não tinha mãos Grimod de Reynière, o grande mestre da cozinha francesa. Com garfos escrevia, cozinhava e comia.