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domingo, 6 de junho de 2010

Robert Fisk: A verdade por trás da propaganda israelense

Publicado originalmente em 5/6/2010, The Independent, UK

Traduzido por: Caia Fittipladi

Eu também, claro, horrorizei-me ao ver homens armados abordando navios em águas internacionais, matando passageiros a bordo que tentavam resistir e em seguida sequestrando o barco e atracá-lo em porto nacional dos piratas sequestradores. Falo, claro, dos piratas somalis que agem em águas ocidentais no Oceano Índico. Como se atrevem, esses terroristas, a tocar em nossos barcos desarmados em alto mar? Temos todo o direito de enviar nossos navios de guerra, para impedir a ação desses terroristas.

Mas... ufa! Sorte, que os israelenses não cobraram resgate! Só querem que os jornalistas vençam, em nome deles, a guerra da propaganda.

A semana mal raiara, e “comandos” de Israel atacaram um barco turco que levava ajuda humanitária para Gaza e mataram nove passageiros. No final da semana, os que protestaram contra esse assalto já estavam convertidos em “ativistas pacifistas armados”, antissemitas pervertidos, que “professam o pacifismo, mas destilam ódio, atacando outros seres humanos com porretes de metal”. Gostei da parte ficcional. A evidência de que os seres humanos que se defenderam com barras de metal estavam recebendo tiros à queima-roupa foi varrida dessa estranha versão dos fatos.

Declaração de uma família turca, de que seus filhos haviam dito que queriam ser mártires – coisa que muitos membros de muitas famílias turcas diriam, se seus parentes fossem assassinados à queima-roupa por israelenses – foram convertidas em prova de que o barco turco conduzia jihadis.

“Naquele barco”, escreveu-me alguém nascido no Sri Lanka, “estavam minha sobrinha, meu sobrinho e a esposa. Infelizmente, Ahmed (meu sobrinho, 20 anos) foi ferido à bala na perna e está hospitalizado, sob custódia militar. Havendo notícias, escrevo.” E escreveu. Poucas horas depois, a imprensa cercou a casa da família na Austrália, perguntando se Ahmed seria jihadi – ou, talvez, potencial suicida-bomba. A propaganda funciona, vejam só.

Não vimos um bit de filme dos protestos, em todo o mundo, porque os israelenses confiscaram tudo. Ninguém explicou por que – se o barco turco conduzia gente tão perigosa – o terrível complô para ajudar os “terroristas” de Gaza não foi descoberto durante a longa viagem desde a Turquia, sequer quando o barco atracou noutros portos. Pois o professor Gil Troy da Universidade McGill em Montreal – em matéria publicada no raivoso e fanático Canadian National Post, é claro – ainda repetia esse lixo sobre “ativistas pacifistas armados”, na 5ª-feira.

Pessoalmente, a matança no barco turco não me surpreendeu. No Líbano, vi esses esquadrões da morte, simulacros de exército, em ação – simulacros de exército, como são também os esquadrões da morte (“grupos de elite”) dos exércitos árabes –, matando civis. Vi-os também, assistindo sem intervir ao massacre de palestinos em Sabra e Shatila na manhã de 18 de setembro (último dia da matança); naquela ação, foram substituídos pelos aliados viciosos das milícias libanesas, mais do mesmo. Eu os vi, em Qana, no primeiro massacre de palestinos por pistoleiros israelenses, em 1996; um dos pistoleiros, na imprensa israelense, chamou os 106 civis mortos de “Arabushim” (termo racista e ofensivo para “árabes”). Mais da metade dos mortos eram crianças. Pouco depois , o governo israelense de Shimon Peres (Prêmio Nobel da Paz!), disse que havia terroristas entre os civis. Mentira, mas... quem liga? E depois, veio o segundo massacre de Qana em 2006 e depois a matança de 1.300 palestinos no ataque de Israel a Gaza em 2008-09, e depois...

Ora, depois veio o Relatório Goldstone, que descobriu que o exército de Israel (e o Hamás) cometeram crimes de guerra em Gaza. Mas todos foram declarados antissemitas – o pobre respeitável juiz Goldstone, ele próprio judeu, além de renomado jurista sul-africano, massacrado também, e declarado “homem do mal” pelo abominável Al Dershowitz de Harvard. – E o relatório foi decretado “controverso” pelo bravo governo Obama. “Controverso”, em inglês, significa “fuck you”. Há dúvidas sobre o relatório. Negócio barra pesada.

Mas voltemos à nossa cronologia. Depois, houve o assassinado, pelo Mossad, de um dirigente do Hamás, em Dubai. Os israelenses usaram pelo menos 19 passaportes britânicos e de outros países, roubados e adulterados. Qual foi a patética reação do então secretário de Relações Exteriores da Grã-Bretanha, David Miliband? Disse que fora “um incidente”. Não o assassinato em Dubai, vejam só, mas a adulteração dos passaportes, assunto super “controverso”, claro. E depois... Aí está. Agora, nove pessoas foram assassinadas a tiros, no mar, por mais dúzia e meia de heróis de Israel.

O engraçado é que tantos jornalistas ocidentais – e incluo aqui a acovardada cobertura da BBC, do ataque aos barcos de ajuda humanitária – estão escrevendo exatamente como a maioria dos jornalistas israelenses. Ao mesmo tempo, muitos jornalistas israelenses escrevem, em Israel, com a coragem que se deveria esperar da ‘mídia’ ‘livre’. E escrevem lá, contra o exército israelense.

Vejam Amos Harel, no Haaretz[1], em matéria na qual analisa a formação do corpo de oficiais do exército de Israel. No passado, muitos saíam dos kibbutz de tradição socialista, de Telavive ou das planícies costeiras de Sharon. Em 1990, só 2% dos cadetes do exército eram judeus ortodoxos religiosos. Hoje, essa proporção já chega a 30%. Seis, dos sete tenentes-coroneis da Brigada Golani, são religiosos. Mais de 50% dos comandantes locais são religiosos “nacionais”, em algumas brigadas de infantaria.

Nada de mal, em alguém ser religioso. Mas – e embora Harel não destaque esse aspecto, apenas registre – muitos dos judeus ortodoxos apoiam a colonização da Cisjordânia e opõem-se à criação de um Estado palestino.

E os colonos ortodoxos são os que mais odeiam os palestinos, e querem tanto detonar qualquer chance de haver Estado palestino, quanto alguns oficiais do Hamás gostariam de detonar o Estado de Israel. Por ironia, foram os antigos oficiais do “velho” exército israelense, que estimularam os “terroristas” do Hamás a construir mesquitas em Gaza. Pretendiam contrabalançar, com mesquitas, o crescimento do “terrorista” Yasser Arafat, em Beirute. E fui testemunha de uma de suas reuniões. Mas a coisa continuará como sempre, a velha história, até que o mundo acorde. “Nunca vi exército mais democrático que o exército de Israel”, disse o infeliz filósofo francês Bernard-Henri Lévy, horas antes do morticínio.

É, o exército de Israel não tem rival, é a elite, é humanitário, heroico. Esperem só até os piratas somalis saberem disso!


[1] Ver “Has the IDF become an army of settlers?” [O exército de Israel converteu-se em exército de colonos religiosos fundamentalistas?], 6/6/2010, em HAARETZ.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Quando foi que paramos de nos incomodar com civis mortos em tempo de guerra?

Quando foi que paramos de nos incomodar com civis mortos em tempo de guerra?

Robert Fisk. 31/1/2009, The Independent, UK

Acho que estamos 'naturalizando' a guerra. Não é só porque Israel outra vez safou-se, depois da matança de centenas de crianças em Gaza.

E depois que a própria ministra de Negócios Estrangeiros de Israel disse que o exército israelense recebeu autorização para "enlouquecer" [ing. "go wild"] lá, tudo parece confirmar o que tenho dito, que a "Força de Defesa" israelense é exército tão vagabundo quanto os outros exércitos da Região.

Mas parece que perdemos o senso de imoralidade que se deve esperar que acompanhe todos os conflitos e todas as violências.

A recusa da BBC, de veicular um anúncio de pedido de ajuda para os palestinos é altamente instrutiva. Temos de pôr em discussão a "imparcialidade" da BBC. Em outras palavras, proteger uma instituição foi considerado mais importante que a vida de crianças. A guerra considerada esporte de massa, cujo atento monitoramento – como um jogo de futebol, por mais que o Oriente Médio seja escandalosa tragédia – ganha precedência sobre o sofrimento humano.

Não sei com certeza quando isso começou. Ninguém duvida que a II Guerra Mundial foi banho de sangue de proporções titânicas, mas, depois daquele conflito, implantamos vários tipos de leis para proteger os seres humanos. Os protocolos da Cruz Vermelha Internacional, a ONU – tanto o todo-poderoso Conselho de Segurança quanto a ridícula Assembléia Geral – e a União Européia foram criadas para pôr fim aos conflitos em larga escala. E sim, sei que houve a Coreia (sob bandeira da ONU) e depois foi o Vietnam, mas depois que os EUA retiraram-se de Saigon, criou-se um consenso de que "nós" já não guerreamos.

Estrangeiros, sim, cometem atrocidades em massa – pode-se pensar no Camboja – mas nós, ocidentais superiores, não. Não agimos assim. Guerra de baixa intensidade na Irlanda do Norte, talvez. E daríamos algum jeito no conflito Israel versus árabes. Mas havia um sentimento de que My Lai, nunca mais. Os civis voltaram a ser sagrados no Ocidente.

Não sei exatamente quando a mudança começou. Terá sido a desastrosa invasão israelense do Líbano, em 1982 e o massacre em Sabra e Chatila, pelos aliados de Israel, de 1.700 palestinos civis? (Gaza não bateu esse recorde.) Israel, como sempre, alegou estar lutando "nossa" "guerra contra o terror". Mas o exército de Israel não é o que se supõe que seja e os massacres (lembro do massacre de Cana, em 1996; e das crianças de Marwahine, em 2006) parecem estar associados a isso.

Além do mais, claro, há o assuntinho da guerra Iran-Iraque, de 1980 a 1988, que os ingleses apoiaram entusiasmados fornecendo armas aos dois lados, e o massacre, pelos sírios, de milhares de civis em Hama e...

Não, talvez tenha começado na Guerra do Golfo de 1991. Os rapazes e as moçoilas da televisão deitaram e rolaram – foi a primeira guerra que teve trilha sonora para acompanhar as imagens –, e os soldados dos EUA simplesmente queimaram vivos milhares de soldados iraquianos nas trincheiras, e só soubemos muito depois e nem demos muita bola; e quando os soldados dos EUA ignoraram as regras da Cruz Vermelha que mandam identificar e sinalizar valas comuns, safaram-se também desse crime. Havia cadáveres de mulheres em algumas dessas valas comuns – vi soldados ingleses enterrando cadáveres de mulheres. E lembro que viajei até Mutla, de carro, para mostrar a um delegado da Cruz Vermelha onde eu vira uma vala comum cavada pelos norte-americanos e ele viu uma papoula de plástico [é um broche, espécie de medalhinha distribuída para os que contribuíram para os fundos de apoio aos veteranos dos EUA] presumivelmente deixada ali por um norte-americano e disse: "Alguma coisa aconteceu."

O que ele disse foi que alguma coisa acontecera à lei internacional, às regras da guerra. Haviam sido violadas. Depois veio Kosovo – onde nosso caro Lord Blair pela primeira vez exercitou seus talentos de fazedor de guerra – e mais massacres. Claro, Milosevic era o bandido (embora muitos dos kosovares ainda estivessem em suas casas quando a guerra começou, o objetivo da guerra foi a volta deles, depois da brutal expulsão pelos sérvios). Mas aqui, outra vez, os ingleses violaram algumas regras a mais e safaram-se.

Lembrem o trem de passageiros que os ingleses bombardeamos na ponte Surdulica – e a famosa sequência em que o filme de Jamie Shea é acelerado, para mostrar que quem bombardeou não teria tido tempo para manter o fogo? (A verdade é que o piloto voltou para um segundo bombardeio depois de o trem já estar em chamas, mas essa parte foi cortada no filme.) Depois, o ataque à estação de rádio em Belgrado. E às estradas civis. Depois, o ataque a um hospital no interior. "Alvos militares", disse Jamie. Tinha razão. Havia soldados escondidos entre os pacientes, no hospital. Todos os soldados sobreviveram. Todos os pacientes morreram.

Depois foi o Afeganistão e todo aquele "dano colateral" e vilas inteiras varridas do mapa e depois foi o Iraque em 2003 e dezenas de milhares – ou meio milhão ou um milhão – de iraquianos civis mortos. Mais uma vez, no início, voltamos aos nossos truques ingleses de bombardear pontes e estações de rádio e pelo menos uma residência civil em Bagdá, onde "nós" imaginamos que Saddam estivesse escondido. Sabíamos que estava protegido por um escudo humano (de cristãos, aliás, por acaso), mas os americanos disseram que se tratava de operação "de alto risco" – e 22 civis foram mortos. Vi quando tiraram dos escombros o último cadáver, um bebê.

E não damos sinais de nos incomodar muito. Lutamos no Iraque, agora vamos voltar a lutar no Afeganistão, outra vez, e todos os direitos humanos e proteção devida à pessoa parecem ter evanescido mais uma vez. Arrasaremos vilas e cidades e descobriremos que os afegãos nos odeiam e formarão mais grupos de milícias criminosas – exatamente como fizemos acontecer no Iraque – para lutar contra nós. Os israelenses organizaram milícia semelhante em sua zona de ocupação no sul do Líbano, comandada por um major do exército libanês e fanático. Agora, os soldados ingleses é que "enlouquecerão". E a BBC está preocupada com sua "imparcialidade"?


Artigo original, em inglês em: The Independent


domingo, 25 de janeiro de 2009

(Israel) Do lado errado (da História)

Poema visual de Al Chaer: Jogo da Velha Faixa de Gaza

Do lado errado*

Uri Avnery, 24/1/2009

De todas as belas frases do discurso de posse de Barack Obama, as palavras que me ficaram na cabeça foram: "Vocês estão do lado errado da história."

Falava dos regimes tirânicos do mundo. Mas os israelenses também devem pensar sobre essas palavras.

Nos últimos dias, tenho ouvido muitas declarações de Ehud Barak, Tzipi Livni, Binyamin Netanyahu e Ehud Olmert. E, cada vez que as ouço, voltam-me à cabeça, para me assustar, aquelas palavras: "Vocês estão do lado errado da história."

Obama falou como homem do século 21. Em Israel, os líderes falam língua do século 19. São como os dinossauros, que tanto medo espalharam à sua volta e nem perceberam que seu tempo havia acabado.

DURANTE a emocionante cerimônia de posse, várias vezes falou-se do quadro multicolorido que é a família do novo presidente.

Todos os 43 presidentes, antes de Obama, foram brancos e protestantes, exceto John Kennedy, branco e católico. 38 deles são descendentes de imigrados das ilhas britânicas. Dos outros cinco, três são descendentes de holandeses (Theodor e Franklin D. Roosevelt e Martin van Buren) e dois, de alemães (Herbert Hoover e Dwight Eisenhower.)

A face da família Obama é muito diferente. Na família estendida há brancos e descendentes de escravos negros, africanos do Quênia, indonésios, chineses do Canadá, cristãos, muçulmanos e até um judeu (afro-norte-americano e judeu convertido). Os dois primeiros nomes do presidente, Barack Hussein, são árabes.

Essa é a face da nova nação norte-americana – uma mistura de raças, religiões, países de origem e cores de pele, uma sociedade aberta e diversa, de cujos cidadãos espera-se que sejam iguais e que se identifiquem com os "pais fundadores". O americano Barack Hussein Obama, filho de pai nascido numa vila do Quênia, pode falar com orgulho de "George Washington, pai de nossa nação", da "Revolução Americana" (a guerra de independência contra os ingleses) e lembrar o exemplo dos "nossos ancestrais" – os pioneiros brancos e os escravos negros que “suportaram o golpe do chicote". Essa é a percepção de uma nação moderna, multicultural e multirracial: todos os cidadãos norte-americanos são herdeiros de toda essa história.

Israel é produto do nacionalismo estreito do século 19, um nacionalismo fechado e excludente, baseado na origem étnica e racial, em sangue e terra. Israel é um "Estado judeu" e só é judeu quem nasça judeu ou converta-se conforme a lei judaica (Halakha). Como o Paquistão e a Arábia Saudita, Israel é um Estado cujo mundo mental é, em larga medida, limitado pela religião, pela raça e pela origem étnica.

Quando Ehud Barak fala sobre o futuro, fala a língua do passado, em termos de força bruta e ameaças brutais, com os exércitos como solução para todos os problemas. Essa foi também a língua do George W. Bush que semana passada desapareceu de Washington, língua que ainda soa nos ouvidos ocidentais, como eco de um passado velho.

As palavras do novo presidente vibram no ar: “Nosso poder, só ele, não pode proteger-nos, nem nos autoriza a fazer como queiramos.” As palavras-chave foram “humildade e moderação”.

Em Israel, os líderes vociferam sobre o que fizeram na guerra de Gaza, na qual Israel usou força sem qualquer moderação, intencionalmente, contra população civil, homens, mulheres e crianças, com o objetivo declarado de "manifestar poder de contenção". Na era que começou 3ª-feira passada, essas expressões só geram desmoderação.

ENTRE Israel e os EUA abriu-se uma ravina essa semana, ainda estreita, quase invisível – mas que pode alargar-se e converter-se em abismo.

Os primeiros sinais ainda são fracos. No discurso de posse, Obama disse que "Somos uma nação de cristãos, muçulmanos, judeus e indus – e de não-crentes."

Desde quanto? Desde quando os muçulmanos aparecem antes dos judeus? O que aconteceu com a "herança judaico-cristã"? (Expressão completamente falsa, para começar, porque o judaísmo é muito mais aparentado com o islamismo do que com o cristianismo. Por exemplo: judaísmo e islamismo não pregam a separação entre religião e Estado.)

Na manhã seguinte, Obama telefonou para vários líderes do Oriente Médio. Decidiu fazer um gesto inusitado: o primeiro telefonema foi para Máhmude Abbas, só depois telefonou a Olmert. A mídia israelense não consegue digerir isso. O Haaretz, por exemplo, ativamente falsificou a notícia e escreveu – não só uma, mas duas vezes na mesma edição – que Obama telefonou a “Olmert, Abbas, Mubarak e ao rei Abdallah” (nessa ordem).

Em vez do grupo de judeus norte-americanos que sempre foram encarregados do conflito Israel-Palestina durante os dois últimos governos, de Clinton e de Bush, Obama, logo no primeiro dia de governo, nomeou um árabe-norte-americano, George Mitchell, filho de mãe libanesa que chegou aos EUA com 18 anos; e o próprio Mitchell, órfão de pai irlandês, foi criado por uma família de cristãos maronitas libaneses.

Nenhuma dessas é boa notícias para os líderes israelenses. Nos últimos 42 anos, mantiveram uma política expansionista, de ocupação, e construíram colônias em estreita cooperação com Washington. Confiaram no apoio ilimitado dos EUA, do massivo aporte de dinheiro e de armas ao veto no Conselho de Segurança da ONU. Esse apoio sempre foi essencial para a política israelense. Esse apoio pode estar chegando ao limite.

Claro que as coisas acontecerão gradualmente. O lobby pró-Israel em Washington continuará a impor o medo de Deus, no Congresso. Um navio imenso, como os EUA, só muito lentamente pode alterar o próprio rumo, tem de fazer curvas suaves. Mas os procedimentos para manobrar o navio começaram logo no primeiro dia do governo Obama.

Nada disso aconteceria se os EUA, eles mesmos, não tivessem mudado. Não se trata apenas da mudança política. Há mudança na visão de mundo, no arranjo mental, nos valores. Um certo mito americano, muito semelhante ao mito sionista, foi substituído por outro mito americano. Não por acaso, Obama devotou parte tão grande do discurso a esse tema (mas o discurso, vale lembrar, não inclui uma única palavra sobre o extermínio dos nativos americanos).

A guerra de Gaza, quando dezenas de milhões de norte-americanos assistiram à horrível carnificina na Faixa de Gaza (apesar de a rigorosa autocensura só ter mostrado uma parte ínfima do que realmente houve), acelerou o processo da separação. Israel, a valente irmãzinha, aliada leal na "Guerra ao Terror" de Bush, foi mostrada como a Israel violenta, ensandecida, mostro sem compaixão, assassina de mulheres, crianças, feridos e doentes. E quando sopram esses ventos, o lobby perde peso.

Os líderes israelenses da Israel oficial nada perceberam. Não sentem que Obama implanta novo contexto, não sentem que "o chão deslizou sob seus pés". Pensam que seja questão política momentânea, à qual darão jeito com a ajuda do lobby e dos congressistas servis.

Os líderes israelenses ainda estão intoxicados pela guerra, embriagados de violência. Reescreveram a frase famosa do general prussiano, Carl von Clausewitz. Para eles: “A guerra é a continuação de uma campanha eleitoral, por outros meios.” Competem entre eles com empenho de se autovangloriar, cada um por seu quinhão de "crédito".

Tzipi Livni, que não pode disputar com os homens a coroa de senhor-da-guerra, tenta superar os homens em dureza, secura, belicosidade, fúria, impiedade.

De todos, o mais brutal é Ehud Barak. Uma vez, eu o chamei de "criminoso de paz", porque levou ao fracasso a conferência de Camp David em 2000 e destroçou o campo da paz israelense. Agora, devo chamá-lo de "criminoso de guerra", porque foi quem planejou a guerra de Gaza sabendo que assassinaria civis em massa.

Aos olhos dele e aos olhos de muitos, na opinião pública em Israel, a guerra foi operação militar digna de elogios. Os conselheiros de Barak também apostaram em que a guerra o elegeria. O partido Labor, que durante décadas foi o maior partido no Parlamento israelense, chegara nas pesquisas a 12, até a 9 cadeiras, de 120. Com a ajuda das atrocidades em Gaza, subiu agora para 16 cadeiras, ou próximo disso. Não é grande sucesso e nada garante que não volte a afundar.

Qual foi o erro de Barak? Simples: as guerras sempre ajudam a direita. A guerra, por sua própria natureza, desperta na população as emoções mais primitivas – ódio e medo, medo e ódio. A direita cavalga sobre essas emoções há séculos. Mesmo que alguma "esquerda" inicie uma guerra, ainda assim a direita sempre ganha mais. Em estado de guerra, a população vota antes em qualquer direita 'audaz' do que em alguma 'esquerda' cenográfica.

Essa, aliás, é a segunda vez que Barak comete o mesmo erro. Quando, em 2000, disseminou a cantilena do "Revirei cada pedra, no caminho da paz, / Ofereci aos palestinos o que jamais alguém lhes oferecera. / Rejeitaram tudo. / Não temos parceiro para construir a paz" –, Barak conseguiu não só reduzir a esquerda a frangalhos como, também abriu o caminho para a ascensão de Ariel Sharon nas eleições de 2001. Agora, está pavimentando a estrada para Binyamin Netanyahu (com a esperança bem evidente de ser seu ministro da Defesa).

E Barak não pavimenta a estrada apenas para Binyamin Netanyahu. O verdadeiro vencedor nessa guerra é um homem que nem participou dela: Avigdor Liberman.

O partido de Liberman, que em qualquer país normal seria identificado como partido fascista, cresce nas pesquisas eleitorais. Por quê? Porque Liberman fala como Mussolini, oferece a imagem de um Mussolini israelense, odeia árabes, é capaz de todas as brutalidades. Comparado a Liberman, Netanyahu é um doce. Grande parte dos mais jovens, criados ao longo de anos de ocupação, matança e destruição, depois de duas guerras atrozes, vê em Netanyahu o seu líder.

AO MESMO TEMPO em que os EUA dão passo de gigante na direção da esquerda, Israel está à beira de afundar-se na direita.

Quem tenha visto os milhões que acorreram para assistir à posse de Obama em Washington sabe que Obama não fala só em seu nome. Ali, manifestavam-se aspirações de um povo, outra visão de mundo.

Entre o mundo mental de Obama e o mundo mental de Liberman e Netanyahu não há ponte possível. Entre Obama, e Barak e Livni, também, há um abismo. A Israel pós-eleitoral talvez acorde para descobrir que entrou em rota de colisão com os EUA pós-eleitorais.

Onde estão os judeus norte-americanos? A grande maioria deles votou em Obama. Estarão entre a espada e a caldeirinha – entre a natural adesão a Israel e seu governo. É razoável supor que daí virá alguma pressão de baixo para cima, sobre os 'líderes' dos judeus-norte-americanos os quais, vale também anotar, jamais foram eleitos, e sobre organizações como o AIPAC. O porrete com o qual os líderes israelenses estão habituados a contar nas horas de aperto pode estar reduzido a cabo-de-vassoura quebrado.

A Europa tampouco permanece intocada pelos novos ventos. É verdade, sim, que ao final da guerra, vimos os líderes europeus – Sarkozy, Merkel, Browne e Zapatero – sentados como meninos de escola, ouvindo respeitosamente a escandalosa arrogância de Ehud Olmert, citando-se e recitando-se. Pareciam aprovar as atrocidades da guerra, falando em Qassams e apagando a ocupação, o bloqueio e a construção de colônias. Não porão na parede de seus gabinetes presidenciais aquela foto.

Mas durante a guerra de Gaza, as ruas européias encheram-se de manifestantes, que gritavam contra aqueles horrores. As mesmas multidões saudaram a posse de Obama.

É um novo mundo. Em Israel, os líderes políticos devem estar sonhando com um novo slogan: "Parem o mundo, que eu quero descer!" Não há outro mundo.

SIM, Israel está do lado errado da história.

Felizmente, há também outra Israel. Não aparece na ribalta e sua voz só pode ser ouvida por quem a procure. É uma Israel racional, sadia, que olha o futuro, que quer progresso e paz. Nas eleições de fevereiro, mal se ouvirá sua voz, porque os velhos partidos lá estão, com os pés pregados no mundo velho.

Mas o que houve nos EUA influenciará profundamente o que aconteça em Israel. A enorme maioria dos israelenses sabe que Israel não sobrevive sem laços estreitos com os EUA. Obama é agora o líder do mundo e todos vivemos no mesmo mundo. Se Obama promete trabalhar "agressivamente" pela paz entre israelenses e palestinos, essa é a palavra de ordem, para Israel.

Israel quer estar do lado certo da história. Levará meses, talvez anos, mas tenho certeza de que conseguirá. A hora de pôr-se a andar é hoje.

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* Uri Avnery, 24/1/2009, "On The Wrong Side", em Gush Shalon [Grupo da Paz]. Tradução de Caia Fittipaldi. Tradução autorizada pelo autor.

It really is a new day?


Em Karachi, simpatizantes do partido islâmico Jamaat-e-Islami protestam contra os ataques estadunidenses em região do Paquistão próxima ao Afeganistão, encarados como "primeiro presente" de Obama ao país. Milhares de paquistaneses foram às ruas contra os ataques que mataram 22 pessoas no dia 23/1. Foto: Rehan


Enquanto isso, em Gaza....
Mulher palestina observa a destruição de casas em Jebaliya, no norte da Faixa de Gaza. Organizações internacionais e as Nações Unidas disseram que a prioridade no momento é buscar um acordo que abra Gaza para ações humanitárias e reconstrução da região Anja Niedringhaus/AP


Até aqui, Obama continua errando, no caso de Gaza... [e no Afeganistão]

Robert Fisk: The Independent, UK, 22/1/2009



Teria sido útil se Obama tivesse tido coragem para falar sobre o que todos falam, no Oriente Médio. Não, ninguém no OM fala sobre a retirada dos EUA, do Iraque. Sobre isso, já sabem. Todos esperavam o início do fim de Guantanamo, e a provável nomeação de George Mitchell, como enviado especial ao OM, foi apenas o mínimo que esperavam que acontecesse. Claro, Obama falou de "inocentes massacrados", mas não dos "inocentes massacrados" nos quais os árabes pensam, dia e noite.

Ontem, Obama telefonou a Máhmude Abbas. Talvez suponha que tenha conversado com o líder dos palestinos. Não. Todos os árabes sabem, exceto talvez o próprio Abbas, que Abbas é chefe de um governo fantasma, um já quase cadáver, mantido vivo à custa de transfusões de sangue que lhe chegam como apoio internacional e sob a forma da "parceria plena" que Obama aparentemente lhe ofereceu, e não se sabe o que significaria "plena". E ninguém se surpreendeu com o telefonema protocolar, para os israelenses.

Mas, para o povo do OM, a ausência da palavra "Gaza" – de fato, também da palavra "Israel" – foi como uma sombra tétrica sobre o discurso de posse de Obama. Será que não está preocupado? Está com medo?

Será que o jovem escrevedor de discursos de Obama não sabe que falar sobre direitos dos negros – muitos pais de negros podem não ter trabalhado em restaurantes há 60 anos – só faria chamar a atenção sobre o destino de um povo que só há três anos obteve o direito de votar, mas, então, imediatamente, o mesmo povo passou a ser castigado porque votou no candidato errado? Nem foi o caso do elefante na loja de porcelanas. O problema é a horrível pilha de cadáveres amontoados no chão da loja de porcelanas.

É fácil, sim, ser cínico. A retórica árabe tem alguma semelhança com os clichês de Obama: "trabalho duro e honestidade, coragem e respeito às regras do jogo... lealdade e patriotismo".

Mas por maior que seja a distância que o novo presidente queira interpor entre ele e o governo vicioso que está substituindo, o 11/9 paira como nuvem sobre New York. Obama teve de relembrar "a coragem dos bombeiros que subiram escadas tomadas de fumaça".

De fato, para os árabes, ouvir que "nossa nação está em guerra contra uma distante rede de violência e ódio" foi como ouvir a voz de Bush; a única referência a "terror", a palavra do eterno medo em Bush e nos israelenses, foi preocupante sinal de que a Casa Branca ainda não captou a mensagem. E mais uma vez, agora Obama, falando sobre os grupos islâmicos como se fosse o Taliban quem estivesse "massacrando inocentes" mas "não nos derrotará".

Quanto, no discurso, aos que são corruptos e cuja "silenciosa oposição", presumivelmente o governo iraniano, a maioria dos árabes leu aí referência a práticas habituais do presidente Hosni Mubarak do Egito (o qual, é claro, também recebeu telefonema de Obama, ontem), do rei Abdullah da Arábia Saudita e de outros autocratas e degoladores que se supõe que sejam amigos dos EUA no Oriente Médio.

Hanan Ashrawi[1] foi quem mais acertou. As mudanças no Oriente Médio – justiça para os palestinos; segurança para os palestinos tanto quanto para os israelenses, e fim da construção ilegal de colônias ilegais pra judeus e só judeus, em terra árabe; fim de toda a violência, não só da modalidade 'árabe' – têm de vir logo, "imediatas", como disse ela, já. Se a nomeação do gentil George Mitchell visava a responder a essas exigências, o discurso de posse (no máximo, discurso nota B-), nem isso fez.

A amigável mensagem aos muçulmanos, "um novo caminho, baseado nos interesses mútuos e em mútuo respeito", simplesmente não tomou conhecimento das fotos da chacina de Gaza que o mundo está vendo com vergonha e horror. Sim, os árabes e muitas outras nações muçulmanas e, é claro, quase todo o mundo, podem festejar que o horrendo Bush foi-se. Guantanamo, também, parece estar-se indo. Mas os torturadores que torturaram por ordem de Bush e de Rumsfeld serão punidos? Ou serão silenciosamente promovidos para cargos nos quais não se use água para torturar nem se dispam as pessoas nem se ouçam gemidos humanos?

Sim, sim, dê-se uma chance ao homem. É possível que George Mitchell reúna-se com o Hamás – ele é homem capaz de tentar esse encontro –, mas o que dirão os fracassados de sempre, como Denis Ross e Rahm Emanuel e, de fato, Robert Gates e Hillary Clinton?

O discurso de posse de Obama foi mais sermão que discurso de posse. Até os palestinenses em Damasco ouviram, gritante, a ausência de duas palavras: Palestina e Israel. Palavras escaldantes, num dia gelado em Washington. Obama ainda nem vestiu as luvas.

[1] Sobre ela, ver: Wikipédia Hanan Ashrawi

sábado, 24 de janeiro de 2009

Fisk: Conspirações, senso e nonsense: o mundo visto da caixa postal


Robert Fisk, 24/1/2009, The Independent, UK

Cartas que não aparecem na coluna "Carta do Leitor". Primeiro, Jack Hyde, leitor, escreve sobre uma possível (verdadeira) razão por trás da carnificina em Gaza. Inclui um artigo, de Michel Chossudovsky, economista da Universidade de Ottawa, que diz que "a intervenção militar na Faixa de Gaza, pelo exército de Israel, tem relação direta com o controle e a propriedade sobre reservas estratégicas de gás em águas territoriais". Não é exatamente "A conspiração". Mas é assunto que Obama e seus rapazes e moçoilas podem ter de estudar nos próximos dias.

Segundo Chossudovsky, a empresa British Gas e os sócios Contractors International Company, empresa que tem base em Atenas e que, segundo o artigo, seria propriedade de duas famílias libanesas, teriam recebido, da Autoridade Palestina de Arafat, em 1999, exclusividade para explorar por 25 anos o petróleo do litoral de Gaza. Cerca de 60% das reservas submarinas, no litoral Gaza - Israel, pertence à "Palestina" (que ninguém sabe dizer onde fica atualmente).

Mas depois da vitória eleitoral do Hamás em 2006 e de ter tomado o poder em 2007, o governo do Hamás teria sido descartado – e o pobre velho "presidente" Máhmude Abbas, ilhado na Cisjordânia, só consegue espiar de longe o Mediterrâneo do alto de uma colina perto de Jenin. Muitas negociações depois – e depois de os oficiais da "defesa" de Israel terem declarado que os palestinenses só poderiam ser pagos em bens móveis, pelo seu gás, não em dinheiro que acabaria nas mãos do temido Hamás –, foi proposto um acordo pelo qual o gás palestino de Gaza seria conduzido por gasoduto submarino até o porto israelense de Ashkelon; assim, o controle sobre a venda do gás seria transferido para Israel. A British Gas afastou-se dessas negociações em dezembro de 2007.

Mas em junho de 2008 – quando, segundo o jornal israelense Haaretz, Israel começou a planejar a invasão de Gaza – Israel repentinamente convidou a British Gas para voltar às negociações. E, diz Chossudovsky, recomeçaram as negociações para comprar o gás natural de poços existentes no litoral de Gaza.

Os tanques israelenses já saíram da Faixa de Gaza, mas a marinha de guerra israelense ainda controla a costa e por razão óbvia: se os israelenses podem continuar a violar a lei internacional e ocupam terra palestina na Cisjordânia, por que não assaltariam também a soberania da Palestina sobre os campos submarinos de gás de Gaza? Se Israel pode anexar Jerusalém, por que não anexar também as áreas de mar?

Minha caixa postal recebe também material muito menos interessante. Amigos libaneses mostraram-me cópias de um novo blog palestino, no qual fotos de mulheres palestinas em fila nos abomináveis pontos de controle da fronteira israelense e de soldados israelenses que atiram em Palestinos são "comparadas" com fotos de arquivo do Holocausto de judeus. Mas as mulheres e crianças em fila nas fotos mais antigas estão entrando em Auschwitz, e a imagem em branco e preto de um soldado nazista atirando com rifle foi artisticamente manipulada para apagar duas figuras à direita na foto original: uma mulher judia com o filho no colo, que recebe tiros pelas costas.

Sim, não tenho dúvidas de que os israelenses cometeram crimes de guerra em Gaza. E no Líbano. Mas a comparação que o blog palestino faz autoderrota-se, porque é baseada numa mentira.

E o que fazer, por exemplo, com outro panfleto que encontro na minha caixa postal, dos "refugiados de Ein Karem, Jerusalém"? Esses palestinos, expulsos originalmente da Palestina de 1948 no primeiro ataque de limpeza étnica perpetrado por Israel, dizem que "considerados os atuais eventos em Gaza e na Palestina", Israel deve ser "desmontado" [orig. "dismantled"], porque "os atos selvagens do exército de Israel [estão] muito além dos crimes de guerra cometidos na II Guerra Mundial". Francamente! Na II Guerra Mundial foram massacrados 60 milhões de seres humanos; o número de judeus mortos é equivalente à atual população da Palestina, incluídos os refugiados.

Mas não pensem que esse seja o único nonsense que paira no ar. Uma carta sem nome de autor nem endereço chega para contar-me que estou estimulando "o fundamentalismo extremista a atacar Países Ocidentais", de tanto que eu insisto na "história da carochinha" [orig. "the old chestnut"] da "proporcionalidade".

Sem considerar o fato de que os muçulmanos estão furiosos por causa da selvageria de Israel em Gaza – não por eu reportar a selvageria – o leitor pergunta: "Não morreram muito mais civis alemães na última guerra, que civis britânicos? Todos os generais britânicos deveriam acusados de criminosos de guerra? Não venha com nonsense!"

Aquela velha história, é claro. Agora então, parece, OK se se matam 100 palestinos em Gaza para cada israelense na área... Porque "nós, os ingleses" matamos mais civis alemães do que os alemães mataram civis ingleses na IIª Guerra Mundial. A observar, aqui, o modo como, sutilmente, os alemães são transformados em palestinos chacinados, e os israelenses (e seus cruéis generais) são transglorificados, como, suponho, o Marechal Harris da Força Aérea inglesa.

E há uma carta ainda mais interessante, não assinada, que chegou ao meu escritório em Beirute essa semana – enviada de um endereço em Wimbledon – que merece ser reproduzida na íntegra:

"Prezado Sr. Fisk, assisti recentemente a uma entrevista que o senhor deu ao canal French News TV. Fiquei impressionado (a?) com o tamanho e o comprimento de seu nariz de batata do senhor (sic). É verdade que os bandidos neonazistas do Hamás alugaram o seu nariz, como escudo pra se defenderem dos israelenses? Atenciosamente..."

Outra vez, os palestinos foram convertidos em nazistas alemães. Respondo a essa imundície racista? Sim, melhor, sim, com a ameaça de processá-lo, como sempre. Mas juro, juro – juramento que esse seu repórter sempre repete – que jamais mencionarei a IIª Guerra Mundial!

Artigo original pode ser lido aqui


domingo, 18 de janeiro de 2009

Um debate entre dois jornalistas sobre a questão Israel- Palestina

No que tenha a ver com Gaza, deixem a II Guerra Mundial fora disso.

por Robert Fisk*

17/1/2009, The Independent, UK



Detesto exageros. Comecei a detestar há anos, nos anos 70s, quando o Provisional IRA (Provisional Irish Republican Army, grupo de ação armada ativo a partir de 1969, na Irlanda e na Inglaterra) declarou que a prisão de Long Kesh seria "pior que Belsen[1]". Não que houvesse algo de bom em Long Kesh – a prisão Maze, como depois foi rebatizada, polidamente. Simplesmente, não foi pior que Belsen. Agora, começou outra vez. Passando por Paris, essa semana, vi, numa manifestação pró-Palestina, cartazes em que se lia "Gaza é Guernica" e "Gaza-sur-Glane".

Guernica, como se sabe, foi a cidade basca destruída pela Luftwaffe em 1937; Oradour-sur-Glane, a vila francesa cujos habitantes foram massacrados pela SS em 1944. A selvageria de Israel em Gaza também tem sido descrita como "genocídio" e – claro –, como um "holocausto". A União Francesa das Organizações Islâmicas descreveu-a como "genocídio sem precedentes" –, o que vale uma medalha, quando até o Papa "ministro para paz e justiça entre os homens" comparou Gaza a um "grande campo de concentração".

Antes de pôr-me a escrever o óbvio, gostaria, só, de que a União Francesa das Organizações Islâmicas chamasse o genocídio dos armênios de genocídio. Não chamam porque não têm coragem, de medo de ofender os turcos e, além disso, quero dizer... eh... o milhão e meio de armênios massacrados em 1915, eh... eram, quero dizer... cristãos.

Aliás, vejam só, o mesmo acontece com George Bush, porque também não pode ofender os generais turcos de cujas bases aéreas os EUA precisam muito para continuar em guerra no Iraque. E nem Israel jamais chamou o genocídio dos armênios de genocídio, de medo de perder o único aliado muçulmano que ainda lhe resta no Oriente Médio. Não é estranho? Quando acontece um verdadeiro genocídio – o genocídio dos armênios – ninguém usa a palavra. Quando não há, imediatamente a palavra aparece em todas as bocas.

Sim, sim, sei o que tantos estão tentando fazer: construir uma conexão direta entre Israel e a Alemanha de Hitler. Muitas entrevistas por rádio, essa semana, ao mesmo tempo, já condenam tais comparações. Como sentem-se, sobreviventes do holocausto, ao ser chamados de nazistas? Ora. Como alguém tem coragem de comparar o exército de Israel à Wehrmacht? Fácil: porque a comparação é ato de anti-semitismo.

Já, várias vezes, estive sob fogo do exército de Israel. Nessa condição, não estou convencido de que o exército de Israel seja "exército nazista". De fato, não entendo por que bombardear as estradas do norte da França em 1940 foi considerado crime de guerra... e bombardear as estradas do sul do Líbano não foi considerado crime de guerra.

O massacre de mais de 1.700 palestinenses nos campos de refugiados de Sabra e Chatila – perpetrado pela Falange Libanesa aliada de Israel, e assistido por soldados de Israel que nada fizeram – pode ser mais bem comparado à II Guerra Mundial. O número de mortos estimado por Israel – vergonhosos 460 – só perde por nove para o massacre nazista da cidade tcheca de Lidice, em 1942, quando quase 300 mulheres e crianças foram mandadas para Ravensbrück (esse, sim, verdadeiro campo de concentração). Lidice foi destruída por Reinhard Heydrich, para vingar a morte de agentes aliados.

Os palestinenses foram chacinados, em Sabra e Chatila, depois que Ariel Sharon disse ao mundo – de fato, mentiu ao mundo – que um palestinense havia assassinado o falangista libanês Bashir Gemayel.

E foi o valente Professor Yeshayahu Leibovitz, da Hebrew University (e editor da Encyclopaedia Hebraica) quem escreveu que o massacre de Sabra e Chatila "foi feito por nós. Os Falangistas são mercenários pagos por nós, exatamente como os ucranianos e os croatas e os eslovacos foram mercenários de Hitler, que os organizou em exército e como soldados, para trabalharem para ele.

Exatamente do mesmo modo, nós, os israelenses, organizamos os assassinos libaneses para assassinar palestinenses". Lição que foi saudada por Yosef Burg, então ministro do Interior e Assuntos Religiosos, com uma pergunta inolvidável: "Cristãos matam muçulmanos... E a culpa é dos judeus?!"

Há muito tempo enfureço-me contra quaisquer comparações que envolvam a II Guerra Mundial – seja na vertente Arafat-é-Hitler, já encenada por Menachem Begin, seja na vertente "os pacifistas-estão-pacificando-os-anos-30", encenada recentemente por George Bush & Lord Blair de Kut al-Amara[2].

Os manifestantes pró-Palestina bem poderiam pensar duas vezes antes de pôr-se a falar sobre genocídio, porque o Grande Mufti de Jerusalém apertou a mão de Hitler e disse – em Berlin, dia 2/11/1943, exatamente – "Os alemães sabem como livrar-se de judeus. Definitivamente, conseguiram resolver o problema judeu." O Grande Mufti, para quem não saiba, era palestinense. Repousa hoje, num túmulo escuro, aqui, a poucos quilômetros do meu apartamento em Beirute.

Mas, de fato, a razão mais importante pela qual o paralelo "Gaza-Genocídio" é perigoso é porque é um falso paralelo.

O 1,5 milhão de refugiados de Gaza são tratados com brutalidade terrível, mas não estão sendo mandados para câmaras de gás ou empurrados para marchas da morte.

Que o exército de Israel é uma horda, é, não há dúvida – e achei engraçado que, semana passada, um dos correspondentes regulares da revista Newsweek o tenha descrito como "esplêndido exército" –, mas isso não implica dizer que todos os soldados israelenses sejam criminosos de guerra.

E tudo faz crer que, sim, cometeram-se crimes de guerra em Gaza. Bombardear escolas da ONU é ato criminoso, que fere todos os protocolos da Cruz Vermelha Internacional. Não há atenuante possível para o assassinato de tantas mulheres e crianças.

Devo acrescentar que fui tomado por sincera emoção de simpatia pelo ministro do Exterior sírio o qual, essa semana, perguntou por que já se organizara em Haia um tribunal internacional inteiro para investigar a morte de um único homem (o ex-primeiro ministro do Líbano, Rafiq Hariri)... mas ainda não se organizara nenhum tribunal em Haia para julgar a morte de mais de 1.000 palestinenses.

Contudo, devo acrescentar que bem pode acontecer de algum tribunal de Haia apontar o dedo para a Síria... e será minha vez de perguntar por que não se organiza nenhum tribunal em Haia para julgar os sírios responsáveis pelo massacre de Hama, em 1982, quando milhares de civis foram mortos a tiro, por soldados das forças especiais de Rifaat al-Assad. O retro-referido Rifaat, sou obrigado a acrescentar, vive hoje em perfeita segurança, dentro da União Européia.

E que tal outro tribunal internacional em Haia, para julgar os soldados da artilharia de Israel que massacraram 106 civis – mais da metade dos quais crianças – na base da ONU em Qana, em 1996?

O xis da questão é a legislação internacional. O xis da questão é a punibilidade. O xis da questão é a administração da justiça – justiça sempre inalteravelmente mal distribuída e que os cidadãos palestinenses jamais receberam – e trata-se de levar bandidos a julgamento. Todos os bandidos, sejam os criminosos de guerra árabes sejam os criminosos de guerra israelenses, o bando todo.

E que ninguém diga que é impossível. É possível – o que ficou bem demonstrado no tribunal ioguslavo. Vários assassinos não foram condenados? Foram. A II Guerra Mundial nada tem a ver com nada disso.

[1] Campo de concentração de prisioneiros dos nazistas, na Baixa Saxônia. Sobre Belsen, ver Wikipédia
[2] Sobre Kut-al-Amara, ver Google


*Robert Fisk, é jornalista, autor de A Grande Guerra pela Civilização: A Conquista do Oriente Médio (1.111 páginas)

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A propósito do artigo de Robert Fisk


por Ahmad Schabib*

Ouso fazer algumas ponderações ao artigo do extraordinário correspondente de guerra Robert Fisk (de quem sou fã anônimo), no qual ele faz algumas considerações sobre a excessiva associação da conduta do governo israelense às atrocidades cometidas pelo nazismo de triste memória, em sua inegável einjustificável guerra de extermínio à população de Gaza, na Palestina
ocupada.

Com todo o respeito jornalístico (e político) de que Robert Fisk é digno, mas não há como concordar com ele quando diz que comparar o exército deIsrael à *wehrmacht* (as forças armadas da Alemanha nazista), bem comochamar um sobrevivente do holocausto de nazista, é um flagrante ato deanti-semitismo. Sem ser leviano, mas na correta acepção do termo, os árabes
(descendentes de Ismael, filho de Hagar com Abraão, segundo a tradição) também são semitas – e, portanto, chamá-los de terroristas, de atrasados e outros tantos adjetivos de baixo calão e, sobretudo, chaciná-los como insetos (matar suas crianças e seus anciões, destruir impunemente suas moradias, seus hospitais, seus templos religiosos, seus cemitérios, suas escolas, bibliotecas, centros de pesquisa etc) não é um ato flagrante de anti-semitismo? A história esta repleta de episódios em que árabes e judeus, na Idade Média, eram perseguidos por terem sido aliados no tempo em que os chamados mouros eram hegemônicos em boa parte do planeta. Isso não tem mais valor histórico?

Para os pouco chegados à história (talvez por serem discípulos de Francis Fukuyama e sua bizarra tese do fim da história), basta fazer uma breve retrospectiva, na grande imprensa, para, por meio da cobertura facciosa e nada isenta das agências noticiosas hegemônicas, constatar a guinada ideológica dada pelo *establishment* israelense rumo à intolerante prática nazi-fascista desde a eleição do terrorista (assim qualificado pelo serviço secreto britânico pelo atentado ao hotel Rei David em Jerusalém pouco antes da partilha do território da Palestina) Menachem Beguin (do agora extintoultradireitista Likud), sucedido por seu correligionário Itzhak Shamir.

Depois, houve uma ligeira virada à centro-esquerda com a eleição de dois trabalhistas, Shimon Peres e Itzhak Rabin (este último responsável pelo histórico acordo de Oslo com Yasser Arafat, e que foi assassinado por um judeu ortodoxo por considerá-lo traidor de Israel). Em seguida, Benjamin Netaniahu (eleito numa coalizão de extrema direita em que partidos religiosos ultraconservadores que só aceitavam negociar a paz mediante a rendição incondicional dos palestinos), Ariel Sharon (do Likud, acusado pelo massacre de Sabra e Chatila e de outros crimes de guerra, mas nunca condenado por qualquer tribunal internacional) e agora Ehud Olmert (do Kadima, para onde também migraram Shimon Peres e Ariel Sharon, teoricamente de centro, mas de fato ainda mais à direita que o extinto Likud). Os fatos são eloqüentes e falam por si mesmos: só para refrescar a memória dos incautos, *Bibi* (apelido de Netaniahu) cometeu uma sucessão de trapalhadas no exercício de seu medíocre mas funesto mandato de primeiro-ministro israelense, em meados da década de 1990 – um dos mais bizarros foi a ordem de assassinar o então presidente da autoridade palestina e líder máximo da extinta OLP, Yasser Arafat. Portanto, qualquer semelhança com a intolerância nazi-fascista antes e depois da Segunda Guerra Mundial, não é nem será mera coincidência.

Que o brilhante jornalista, sobretudo por seu singular faro de repórter insaciável à caça do fato jornalístico, tem todo o direito do mundo de nutrir toda a solidariedade às vítimas da insanidade política européia de meados do século passado (cujas ações foram praticadas dentro das fronteiras dos países europeus, e nisso os árabes e muçulmanos nada têm a ver com as dívidas e as gentilezas feitas pelas potências européias e ocidentais por meio da cessão do território palestino, distante milhares de quilômetros das nefastas localidades em que, além de judeus, ciganos, comunistas e mendigos foram também enterrados vivos em valas comuns ou mortos em câmaras de gás), mas daí a querer justificar a insanidade que se abateu no *establishment* do Estado judeu é inconcebível nos parâmetros da racionalidade. Não é demais recorrer a um historiador conterrâneo dele, Arnold Joseph Toynbee, muito combatido pela esquerda marxista e pela direita ocidental quando vivo, mas hoje discretamente reconhecido por historiadores independentes, sobretudo pelo seu poder de análise de livre-pensador, num tempo em que a disputa ideológica estava muito acirrada entre os marxistas e os liberais, em que ele cometera a heresia de dar uma importância maior à influência das religiões nas lutas de poder. Paradoxalmente, depois de os liberais e anti-soviéticos terem dado uma mãozinha a grupelhos religiosos reacionários no Oriente Médio e no Golfo Pérsico, para combater a influência marxista em contraposição ao Ocidente, Toynbee (que faleceu em 1975) está mais atual que os demais em sua análise de que, no século 21, a luta de classes não seria o eixo central, mas a luta religiosa (e, lamentavelmente, é o que vemos em todas as denominações religiosas, para tragédia da humanidade).

Não recorreremos aos ícones da perspectiva histórica marxista, mas a expoentes da história liberal como o historiador estadunidense Edward Mc.Neil Burns (além do já citado Toynbee) para compreender que no desenvolvimento do processo – conhecido como "civilizatório" entre os
eurocentristas – o generoso papel desempenhado pelos árabes, seja na filosofia, nas ciências, nas artes, nas letras, na economia, na arquitetura etc, que de bandeja o ofereceram ao Ocidente sem qualquer mutilação (a maior evidência dessa postura foram os oitocentos anos de presença iluminada dos chamados mouros na Península Ibérica, mas que seus descendentes em menos de trezentos anos promoveram toda sorte de genocídio e saques, seja na América espanhola ou portuguesa – não por acaso no território da atual Espanha se falam mais de cinco idiomas, sendo que o espanhol é corretamente chamado de castelhano, enquanto na América Latina o espanhol e o português, em menos da metade do tempo e por meio de uma colonização intolerante e opressora, são hegemônicos sem compaixão nem piedade). E aí vem a velha discussão: não, é que o modelo de colonização era de exploração, não de *plantation*, como com o do Grande Irmão do Norte... Nem entraremos no mérito do abominável tráfico de seres humanos para fins de escravidão (o funesto comércio negreiro) ao longo de três séculos e da pirataria desavergonhada que enriqueceu os cofres de sua majestade e cacifou a maior frota naval da história...

E quanto ao tema, de fato incômodo para a comunidade árabe e muçulmana (sobre o posicionamento do Grande Múfti de Jerusalém, de nacionalidade palestina, ao lado de Hitler em 1943), temos, sim, que reconhecer e dialeticamente assumir esse equívoco histórico cometido pelas gerações passadas, pelo qual, aliás, os diferentes estados (sobretudo as populações) árabes pagaram (e continuam pagando) um elevado preço, com vidas de milhões de inocentes, perda de soberania, opressão e intolerância. Longe de pretender justificar a atitude do máximo religioso muçulmano de Jerusalém na primeira metade do século 20, há de se fazer uma necessária contextualização histórica do episódio: a Palestina era um "mandato" (eufemismo de colônia) da Inglaterra, inimiga, portanto, do Eixo, capitaneado por Hitler; a totalidade das nações árabes e muçulmanas então se encontrava sob o jugo colonial inglês ou francês (sobretudo desde o fim da Primeira Guerra Mundial, com o fim do obscurantista Império Turco-Otomano, tão tirano quanto o britânico e o francês); tanto o colonialismo inglês quanto o francês impunham um regime de opressão à intelectualidade e à resistência árabe e muçulmana, tal como nos tempos dos turcos; a total ausência de líderes políticos laicos da estatura de Gamal Abdel Nasser (que entrou no cenário político no início da década de 1950, com a deposição do rei Faruk, do Egito) fragilizava os árabes; era de conhecimento dos intelectuais e resistentes árabes a famigerada Declaração Balfour, pela qual era assegurada a entrega do território palestino a pessoas de diferentes nacionalidades que tinham como fator de unidade entre si a confissão religiosa judaica (além do não menos nefasto Acordo Sykes-Picot, pelo qual a Grã-Bretanha e a França, por meio de seus chanceleres, assumiam o compromisso com o Movimento Sionista Internacional de entregar o território da Palestina tão logo o Império Turco-Otomano caísse de podre); finalmente, o massacre de Deir Yassin por sionistas acontecera em 1938, com evidente complacência inglesa.

Para concluir, é honesto e ético que os profissionais da informação, sobretudo aqueles que gozam de um prestígio internacional por seu aguçado faro jornalístico, quando tratarem de determinado tema, não incorram na leviandade de fazer uma análise fragmentada e fora de contexto, pois a história, como ciência humana, não pode ser mais uma vítima da guerra ideológica travada em campo de batalha.

Fraternalmente,

*Ahmad Schabib Hany é membro da secretaria-executiva do Fórum Permanente de Entidades Não Governamentais de Corumbá e Ladário (FORUMCORLAD) e fundador e coordenador-adjunto da Organização de Cidadania, Cultura e Ambiente (OCCA).