Bem-vindo/a ao blog da coleção de História nota 10 no PNLD-2008 e Prêmio Jabuti 2008.

Bem-vindos, professores!
Este é o nosso espaço para promover o diálogo entre as autoras da coleção HISTÓRIA EM PROJETOS e os professores que apostam no nosso trabalho.
É também um espaço reservado para a expressão dos professores que desejam publicizar suas produções e projetos desenvolvidos em sala de aula.
Clique aqui, conheça nossos objetivos e saiba como contribuir.
Mostrando postagens com marcador Palestina. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Palestina. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 1 de junho de 2010

Financial Times: Israel está perdida no mar

1 de junho de 2010

Israel is lost at sea

Editorial do jornal britânico Financial Times

Com o ato claro de pirataria de ontem, Israel deu um golpe na legitimidade de sua própria luta. A morte de ativistas a bordo dos navios capturados fez a forma como Israel defende sua segurança, que já deveria ter retornado aos limites das leis internacionais, ser jogada no território dos sem-lei.

Israel alega que os ativistas tinham ligações com grupos extremistas e que alguns atacaram soldados israelenses com facas e paus (e de acordo com alguns testemunhos com armas leves). Mesmo se for verdade, isso não justificaria a captura de navios civis carregando ajuda humanitária em águas internacionais, menos ainda o uso de força mortífera.

Ultrajante o comportamento, o verdadeiro ultraje é o bloqueio ilegal de Gaza [mantido por Israel]. Desde a guerra de janeiro de 2009 em Gaza, que expôs a determinação de Israel de destruir as capacidades do Hamas sem considerar os custos para palestinos inocentes, Israel e o Egito se juntaram para evitar a reconstrução do enclave. De acordo com as Nações Unidas, três-quartos da destruição não foram reparados e 60% das casas não tem alimentos suficientes.

O objetivo ostensivo é enfraquecer o Hamas, a vertente da Irmandade Muçulmana que governa Gaza (e cuja encarnação egípcia é a verdadeira oposição a Hosni Mubarak). Mas o bloqueio cujo objetivo é destruir [o Hamas], além de ser punição coletiva ilegal, apenas faz aumentar o apoio ao Hamas. Se Israel e o Egito pretendiam transformar Gaza em um pequeno estado governado pela máfia, teriam feito o que fizeram: acabar com as alternativas à rede de contrabando do Hamas, deixando a população ainda mais à mercê do movimento.

O Hamas engaja em terrorismo e ocasionalmente atira foguetes contra Israel, mas é um exemplo daquela espécie rara no Oriente Médio: um governo popularmente eleito. Também assinou a proposta de paz de 2002 da Liga Árabe e da Organização da Conferência Islâmica. Se for um blefe, é um blefe que Israel deve pagar para ver. É isso o que está em jogo. O governo de Israel tem pretendido que está pronto para negociar a paz, mas que não há ninguém para negociar do outro lado. O ataque aos violadores-do-bloqueio demonstra que o país caiu no desrespeito pela lei internacional, na intolerância com a dissidência e na sabotagem aberta de uma representação viável para os palestinos.

Israel sempre soube da importância de sua conduta ser julgada legal pelos principais poderes do mundo. Esses poderes — que tomam corpo no Quarteto e no Conselho de Segurança das Nações Unidas — devem deixar claro que Israel foi muito além.
Tradução do Viomundo

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Gaza: o espelho quebrado

Como Israel se apresentará ao mundo, depois disso?

Gaza: o espelho quebrado

M. Shahid Alam*, 16/1/2009, The Daily Star, Daca, Bangladesh


No momento em que todos os palestinenses, homens, mulheres e crianças, encurralados no gueto de Gaza desde 1948, estão sendo bombardeados, diariamente, sem parar, por terra, mar e ar, é instrutivo e esclarecedor voltar os olhos para os pais fundadores do sionismo, e perguntar o que pensariam dessa obscena consequência de sua visão messiânica.

Nos escritos daqueles pais fundadores, só raramente os palestinenses ganham qualquer referência. Pode-se ler e reler uma das primeiras manifestações do credo sionista – "Roma e Jerusalém" , de Moses Hess (1812-1875) – e não se encontra nenhuma referência a 'muçulmanos' ou a 'árabes'. [Hess, 1862. Pode ser lido, na internet, em http://www.zionismontheweb.org/Moses_Hess_Rome_and_Jerusalem.htm -- atenção: tirem as crianças da sala]

Em Hess, a palavra "palestinense" aparece duas vezes: a primeira, relacionada à necessidade de treinar os judeus jovens para viver como "um agricultor palestinense"; a segunda, refere-se ao "Talmud Sanhedrin da Palestina". A Palestina sempre teria existido, inscrita em tábuas divinas, e pertenceria a Israel; mas não havia palestinenses na Palestina.

Se se pesquisa em "O Estado Judeu" (1896), de Theodore Herzl os resultados são igualmente minguados. Não há referência nem a muçulmanos, nem a árabes nem a palestinenses: não se fala, sequer, de beduínos. [Herzl, 1896, pode ser lido em http://www.zionismontheweb.org/Moses_Hess_Rome_and_Jerusalem.htm -- atenção, tirem as crianças da sala],

Por incrível que pareça, também não há a palavra "palestinenses", nem uma vez, em todo o livro de Arthur Hertzberg, "A Idéia Sionista" – uma antologia de textos de várias gerações de ideólogos do sionismo. Muçulmanos, árabes ou palestinenses não foram previstos nos planos para criar um Estado judeu. ["The sionist idea" está à venda hoje, pela Amazon Books, em http://www.amazon.com/s?ie=UTF8&search-type=ss&index=books&field-author=Arthur%20Hertzberg&page=1. Não se pode recomendar a leitura desse tipo de literatura, tanto quanto não se pode recomendar a leitura de "Mein Kampf", porque, sim, são livros, teorias e hipóteses assustadoramente idênticas. Mas é preciso saber de onde brotou a monstruosidade que, hoje, está aí, repetida em televisões e jornais, como se fosse algum "direito de defesa" de Israel.]

Para usar um termo de Lawrence Davidson, houve aí "uma despopulação perceptual" extrema: foi como se a Palestina não tivesse habitantes, quando foi ocupada.

Desde os primeiros momentos, os sionistas só pensaram em manifestar poder. A Palestina era objeto que se compra; o que não estivesse à venda, seria tomado à força.

Por duas vezes, Rabbi Kalischer exigiu que o patriarca da família Rothschild e Moses Montefiore comprassem a Palestina – ou, pelo menos, que comprassem Jerusalém – do sultão otomano. Mais de uma vez, Theodore Herzl ofereceu-se, ele mesmo, para comprar a Palestina, do sultão otomano. Ouviu, como resposta, que a Palestina não estava à venda.

Nada disso deteria o projeto sionista; poderiam convencer um ou mais Estados europeus a tomar a Palestina, para os judeus, pela força. Em 1818, Mordecai Noah, um dos primeiros sionistas norte-americanos, propôs que os judeus criassem seu próprio exército e eles mesmos tomassem a Palestina. Os demais sionistas pensaram mais pragmaticamente: resolveram deixar que os europeus tomassem a Palestina, para eles.

Nas palavras de Theodore Herzl, o plano para criar um Estado judeu foi simples: “Dêem aos judeus plena soberania sobre um pedaço do globo terrestre, suficientemente grande para satisfazer os direitos legítimos de uma nação; do resto, nós nos encarregaremos." Ocultada aí nesse simples "o resto" estava toda a população que habitava a Palestina. Bastariam duas organizações para levar a cabo o projeto: "The Society of Jews" e "The Jewish Company".

No plano arquitetado por Herzl, a "The Society of Jews tratará diretamente com os atuais proprietários da terra [os otomanos], colocando-se sob a proteção dos poderes europeus". Herzl acrescenta que "a criação do Estado Judeu beneficiará os Estados vizinhos (...)". Sobre os habitantes da Palestina, nem uma palavra.

Contudo, Herzl dedica cuidadosa atenção às questões que considera importantes, como "meios para livrar-se das bestas selvagens", na terra da qual os sionistas se apropriariam. Os métodos usados para colonizar a Palestina (ou a Argentina) teriam de ser modernos, usando a mais avançada tecnologia. “É tolice" – explica ele –, "voltar a estados ultrapassados da civilização, como alguns judeus gostariam de fazer."

Os sionistas deveriam trabalhar, Herzl explicou, como se "estivessem obrigados a limpar um país povoado por bestas selvagens"; "não podemos usar espada e lança" – enfatizou –, "e sair, desarmados, para caçar ursos; temos de organizar uma completa expedição de caça, reunir os animais num ponto só, e jogar sobre eles, ali, uma bomba de melinita [ing. melinite bomb. Herzl 1988: 93-4].”

É pouco provável que Herzl falasse – mesmo subconscientemente, garanto! – dos habitantes da Palestina, quando ensina os colonos judeus o melhor modo para limpar a nova colônia e livrá-la de "bestas selvagens", como, por exemplo, "ursos".

Seja como for, é quase impossível não ver paralelos espantosos entre os métodos que Herzl propôs, para livrar-se das "bestas feras" e "ursos", e a estratégia e as táticas que os colonos judeus têm adotado, desde 1948, para limpar a Palestina, dizimando a população autóctone.

Já nos anos 30s, o Yishuv[1] organizou "uma completa expedição de caça”, que recebeu o nome de Haganah[2] e que cresceria muito, depois de 1948, até converter-se numa das mais poderosas máquinas militares do planeta.

Em 1948, essa "completa expedição de caça" lançaria seu primeiro ataque massivo para "limpar" a Palestina de todas as "bestas selvagens" palestinenses. A "expedição de caça" tem operado, desde então, para garantir que as "bestas feras" palestinenses refugiadas jamais voltassem às próprias casas e às suas terras. E cada vez que as "bestas selvagens" palestinenses atreveram-se a usar seus recursos de refugiagos para tentar voltar ou exigir o direito de propriedade sobre suas casas e terras, a "completa expedição de caça" lá estava, a postos, para lançar "uma bomba de melinita" sobre suas cabeças.

Um segundo ataque, com o objetivo de limpar a área das "bestas selvagens" que por ali houvesse, na Palestina, foi lançado em 1967, quando uma "completa expedição de caça", já então muito ampliada, ocupou toda a Palestina.

Depois de 1967, a "completa expedição de caça" dos israelenses começou a implantar novo plano de limpeza étnica de toda a Cisjordânia e da Faixa de Gaza, sempre contra os "ursos" palestinenses. Dedicada a abrir espaço para mais colonos judeus, a "completa expedição de caça" passou a "reunir os animais num ponto só", reunir "as bestas selvagens" palestinenses em enclaves cada vez menores, dentro dos territórios então recentemente ocupados.

Em Gaza, os planos do governo israelenses começaram a encontrar dificuldades a partir da II Intifada, em 2000. O Hamás islâmico já se implantara e ganhava força nas áreas miseráveis e superpopulosas nas quais os palestinenses vinham sendo confinados desde 1948. Preparando-se para uma escalada nos planos de limpar a região de todas as "bestas selvagens", Israel então, em 2005, retirou a "expedição de caça" e os colonos judeus, os pôs em segurança, fora da linha de tiro, e imediatamente fechou o cerco sobre Gaza. Essa era condição 'de campo' indispensável para poder "jogar uma bomba de melinita" sobre a população cercada.

A monstruosa culminação dessa nova estratégia estamos vendo hoje, em Gaza, já há várias semanas.

Israel é o ápice da modernidade dos tempos correntes: é manifestação viva do incansável, racional, eficiente, crudelíssimo, 'científico' intento colonial de implantar-se como poder dominante sobre uma população autóctone; como sobre uma tribo autóctone de índios americanos ou de negros africanos.

O sucesso da empreitada colonial, como já aconteceu no passado, é pressuposto 'consequência' 'natural' do uso massivo de "bobas de melinita" contra populações comparativamente desarmadas, definidas como "bestas selvagens".

Outra vez, sempre nas palavras de Herzl, Israel está tentando, hoje, completar seu assalto colonial no Oriente Médio "em estilo mais definitivo, mais claro do que jamais foi tentado antes, porque [Israel] possui, hoje, meios de ataque que nenhum homem possuiu antes" (Theodore Herzl, "The Jewsish Question", 1897, em http://www.ismi.emory.edu/Articles/HerzlJewishQuestion.pdf).

Sim. Por mais de cem anos, desde o macabro nascimento do projeto sionista, os palestinenses (tratados como "bestas selvagens") jamais se deixaram derrotar. Por mais de 30 anos enfrentaram "a cortina de ferro das baionetas ingleses". E desde 1948 enfrentam, valentemente, a cada dia mais espessa "cortina de ferro das baionetas israelenses".

Os palestinenses sempre tiveram uma força que os sionistas nunca tiveram: a justiça sempre lutou pelos palestinenses e contra os sionistas.

Sim, nem sempre a justiça prevalece, onde tenha de enfrentar a força bruta. Há milhões de nativos mortos nos EUA, que o testemunham. Os israelenses ainda são arrastados pela convicção perversa de que possuem "meios de ataque que nenhum homem possuiu antes".

Talvez a consciência do mundo acorde ainda a tempo de convencer os sionistas de que não, não, nada pode ser vencido por esses meios sionistas. Talvez isso aconteça antes de que seja tarde demais, antes de que a maré da história vire decisivamente contra Israel.

Israel só se sustentou até hoje porque obteve repetidas vitórias militares contra populações árabes desarmadas – operações rápidas, vitórias arrasadoras, como em 1948, 1956, 1967 e 1982.

Isso, precisamente, começou a mudar, desde que Israel foi obrigada a retirar-se do Líbano, em 2000. Ali, pela primeira vez, fracassou a tentativa de massacre. Ali, Israel encontrou a resistência do Hizbóllah, em 2006. Agora, em Gaza, Israel encontrou a resistência do Hamás – dessa vez, já, um governo democraticamente eleito, embora, ao mesmo tempo, exército menos mortífero que o do Hizbóllah. Mas resistência de um governo eleito.

Como Israel se mostrará ao mundo, depois disso? Persistirão os atuais governantes de Israel, na tentativa de destruir os palestinenses, com novas gerações de "bombas de melinita" importadas dos EUA?

Ou, quem sabe, alternativa que ainda pode salvar Israel, as mães israelenses conseguirão educar filhos empenhados em conviver em paz com os palestinenses, numa sociedade – afinal! – não racista?

Esperemos, pelo menos, que os eleitores israelenses – eles, talvez, quem sabe, afinal?! – façam melhores escolhas.

[1] O termo designa, em hebraico, o conjunto dos judeus que vivem na Palestina. Sobre isso, ver http://en.wikipedia.org/wiki/Yishuv

[2] Palavra, em hebraico, para "defesa". Sobre o movimento que recebeu o nome de Hagana, ver http://en.wikipedia.org/wiki/Haganah


Texto reproduzido em Counterpunch, NY, EUA

*M. Shahid Alam é professor de economia na Northeastern University. É autor de Challenging the New Orientalism (2007).

Comentários para alqalam02760@yahoo.com .

Tradução Caia Fittipaldi

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Vladimir Jabotinsky e o Fascismo Judeu

http://4.bp.blogspot.com/_Dt-NV8-MBmE/SV4p5G87m2I/AAAAAAAAEyY/cwfwG1kMCP0/s400/JabotinskyInFascistUniform_1.gif

Alguém já disse que é no passado que se encontram as respostas para os dilemas do presente e as agruras do futuro. Assim, torna-se da maior importância o conhecimento da base política original dos principais líderes israelenses de ontem e hoje. Muito se fala em sionismo, às vezes até se lembra de Thedor Herzl, entretanto, do ponto de vista concreto e objetivo, houve um ativista do sionismo que merece ser recordado e compreendido como o sustentáculo teórico do presente Estado de Israel - Vladimir Jabotinsky. Embora a sua presença e atuação tenham sido fundamentais para a criação de Israel, durante muito tempo, tempo em que perdurou a hegemonia política de um grupo sionista oposto à algumas de suas idéias, foi esquecido. Mas, hoje, saber quem foi e o que pensou Jabotinsky é uma das básicas condições para se compreender a política e a função de Israel na geopolítica do imperialismo. O presente post é a transcrição de um trecho de uma matéria do conhecido jornalista argentino, Roberto Bardini. (Pedro Ayres, no blog Crônicas e Críticas da América Latina*).

Vladimir Jabotinsky foi um dos líderes sionistas mais brilhantes e fanáticos da historia. Inimigo mortal do socialismo, foi o seu crítico mais feroz quando o sionismo socialdemocrata conquistou a hegemonia do sionismo mundial...
Pode-se ser judeu e fascista? Um recorrido rápido pela agitada vida do ucraniano Vladimir Jabotinsky, nascido em Odessa em 1880 e falecido em Nova Iorque em 1940, talvez responda a esta pergunta. Jornalista, escritor, orador, poliglota, soldado e dirigente político, também foi, dependendo de por onde se olhe, combatente pela pátria ou terrorista.

Influenciado pelo “O Estado Judeu”, livro de Theodor Herzl publicado em 1896, Jabotinsky adotou o sionismo na sua expressão mais extremista e promovia uma sociedade de “homens obedientes até a morte”. Opõs-se ao socialismo e ao movimento operário judeu na Palestina. Fundou o grupo Betar, milícias juvenis que vestiam camisas pardas, como os membros dos Comandos de Assalto nazistas (Sturm Abteilungen ou SA), e são organizadas ao estilo dos “squadristi” fascistas.
Menahem Begin e Itschak Shamir, que chegariam a ser primeiros ministros de Israel, foram na juventude seguidores de Jabotinsky. Il Duce Benito Mussolini o considerava um dos seus e o chamava de “cidadão fascista”. O trabalhista David Ben Gurion, fundador do Estado Judeu em 1948, o comparou com o Führer e o apelidou de “Vladimir Hitler”.

betar1
Grupos sionistas desfilando em Varsóvia em 1938

Uma Idéia Fixa

Conhecido como “Zeev”, Vladimir Jabotinsky falava fluentemente russo, francês, inglês e alemão. A última língua que aprendeu foi o hebraico, logo traduzindo “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri. Quando em 1914 estourou a Primeira Guerra Mundial, criou uma Legião Judaica a serviço dos aliados. Pretendia liberar a Palestina do domínio turco-otomano e, depois, conseguir um lugar nas negociações de paz, com direito a exigir o estabelecimento de um Estado judeu.

Ao finalizar a guerra, em 1918, Jabotinsky se estabeleceu com sua esposa e filhos na Palestina, já então sob controle da Inglaterra. Em 1920, o descontentamento árabe pelos festejos de Pessach - uma das datas sagradas judias na qual se comemora a saída dos hebreus do Egito - derivou em violentos protestos de rua. Jabotinsky organizou uma represália contra os nativos, e não lhe tremeu a mão na hora de apertar o gatilho. Os britânicos o prenderam e julgaram por posse ilegal de armas. Sentenciado a quinze anos de prisão, foi posto em liberdade alguns meses mais tarde.

Quando, em 1923, os ingleses adjudicaram terras na Transjordânia aos palestinos, Jabotinsky propõs uma “revisão” das relações entre o movimento sionista e o Reino Unido. Os objetivos – tão agressivos como quase todas as decisões que tomou em sua vida e as ações que promoveu - incluíam a restauração da Legião Judaica e a chegada massiva de até 40 mil judeus por ano à Palestina.

Em 1925, Jabotinsky anunciou o estabelecimento da Aliança de Sionistas Revisionistas, com escritórios em París, e a criação do Betar, movimento juvenil nacional-sionista. Passa os anos seguintes dando conferências e colaborando em dezenas de publicações para promover mundialmente a sua causa. Predica que a atividade econômica do sionismo deveria se concentrar na economia privada, para financiar a imigração massiva para a Palestina. Retorna a Jerusalém em 1928, onde se torna gerente de uma companhia de seguros e edita um jornal.

Em 1930, enquanto se encontra viajando, as autoridades inglesas lhe proibiram o retorno à Palestina. Desde então, e até a sua morte, Jabotinsky fomentou o nacional-sionismo em vários países.

fosh2

O “Cidadão Fascista”

Jabotinsky não teve pudor em estabelecer contatos com mandatários anti-semitas, como o marechal polonês Jozef Pilsudski, um ex-comunista que em 1926 deu um golpe de Estado e instaurou um regime próximo ao nacional-socialismo. Mas o seu inspirador supremo foi Benito Mussolini. Admirava o fascismo e aspirava copiá-lo na Palestina. “Que queremos nós? Queremos um império judeu, igual como a Itália”, declarou.

Quando o Duce assumiu em 1922, Jabotinsky lhe fez chegar uma mensagem por um enviado especial. Dois anos depois, um representante oficial do Partido Fascista Italiano visitou a Palestina para estabelecer relações com os seguidores do dirigente judeu.

A agência de notícias fascista, Avanti Moderno, aplaudiu a celebração do Congresso dos Sionistas Revisionistas em 1935, pelo apoio que este movimento brindou à Itália durante a campanha na Etiópia. Nesse ano, Mussolini comentou ao Rabino de Roma: “As condições necessárias para o êxito do movimento sionista são possuir um Estado judeu, com uma bandeira judia e língua judia. Há uma pessoa que conhece isto muito bem e é o cidadão fascista Jabotinsky”.

O certo é que a perseguição de judeus não figura entre as prioridades de Mussolini. O Duce teve várias amantes, entre elas duas judias: Angelica Balabanov e Margherita Sarafatti. A primeira, quando militou no socialismo; a segunda, logo após assumir o poder. Além disso, cinco judeus –entre eles César Sarafatti, irmão de Margherita – participaram na fundação dos “Fasci de Combattimento” em 1919.

Mussolini, um ex-socialista que recebeu de seu pai o nome de Benito em homenagem ao político liberal mexicano Benito Juárez (1806-1872), só assinou leis anti-semitas em 1938. Então já estava há treze anos no poder, e a Itália começava a transformar-se num Estado satélite da Alemanha. Até esse momento, a comunidade judaica italiana conviveu tranqüilamente com o fascismo.


O escritor Daniel Muchnik garante que o fato de que un judeu possa ser fascista é tão compreensível como que possa ser um gangster. E descreve Jabotinsky da seguinte forma:
“Foi um dos líderes sionistas mais brilhantes e fanáticos da historia. Ninguém lhe foi indiferente: todos o amaram ou o odiaram. Inimigo mortal do socialismo, foi o seu crítico mais feroz quando o sionismo socialista conquistou a hegemonia do sionismo mundial. [...] Por volta de 1930, o partido de Jabotinsky, chamado revisionista, começou a assemelhar-se muito aos movimentos fascistas da Europa, e Ben Gurión chegou a chamar seu líder de ‘Vladimir Hitler’. O ideal de Jabotinsky, tal como ele mesmo o descreveu, era o de uma sociedade monolítica, de homens todos iguais e todos obedientes até a morte, capazes de atuar em uníssono” (Mundo Judío, Lumen/Mairena, Buenos Aires, 1984).

“Atire e Deixe de Conversa Fiada”

Em 1934, “Zeev” firmou um pacto com David Ben Gurion, líder do sionismo trabalhista, secretário geral da poderosa Federação de Trabalhadores e porta-voz inconteste da principal tendência sionista em Palestina. Mas o acordo, que procurava diminuir as tensões entre as duas tendências, fracassou. Nacional-sionistas e sionistas trabalhistas continuaram como ferrenhos adversários políticos durante décadas.A divisão se ampliou mais com o assassinato, numa praia de Tel Aviv, de Chaim Arlozoroff, jovem e proeminente líder sionista moderado, que foi atribuído a seguidores de Jabotinsky.

Quando em 1936 uma comissão britânica recomendou a partilha da Palestina entre um Estado árabe e outro judeu, Jabotinsky rejeitou a proposta e ordenou incrementar os ataques contra os ingleses e os nativos árabes. No ano seguinte se transformou no comandante do “Irgun”, grupo paramilitar clandestino dos revisionistas. “Maldita é toda a guerra, mas se não quiseres matar um inocente, morrerás. E se não queres morrer, atira e deixa de conversa fiada”, escreveu em julho de 1939.

Benoît Ducarme anotou em “Israel, Likud e o sonho sionista”:

“A primeira etapa da evolução do ‘revisionismo’ sionista é a da constituição da Nova Organização Sionista, fundada em 1935, de cujo seio surgiram dois grupos armados que, substancialmente, não diferiam politicamente em muito: o Irgun e o Grupo Stern. A diferença estava na forma de combater a presença britânica na Palestina [...]. Era necessário acabar com os britânicos ou dialogar com eles?

A direção do Irgun, sob o comando de [Menachem] Beguin, era partidária de uma revolta imediata contra os britânicos. [...] A cúpula do grupo Stern pretendia provocar a revolta inclusive antes de concluído o conflito mundial. De fato, dita organização fez propostas a Mussolini no final dos anos trinta. Segundo os planos que se discutiram, os nacional-sionistas deveriam aliar-se com a Itália para acabar com os ingleses na Palestina, fundar um Estado hebreu de caráter corporativo satélite do Eixo, e colocar os lugares santos de Jerusalém à disposição do Vaticano. Estas propostas não puderam se concretizar, assim como o oferecimento feito a Hitler de recrutar 40 mil soldados judeus procedentes da Europa Oriental para enfrentar os britânicos na Palestina. Hitler preferiu apostar na carta árabe”.


Hotel Rei David destruído por bombas do Irgún em 1946


Quatro Dólares e um Cachimbo

No dia 4 de agosto de 1940, durante uma visita a um campo de treinamento juvenil de Betar nos arredores de Nova Iorque, Jabotinsky morreu de um infarto. Faltava pouco para festejar os seus 60 anos, dos quais os dez últimos tinha permanecido fora da Palestina. Seus partidários contam que seus únicos bens pessoais eram um cachimbo e quatro dólares.

Cinco anos antes, o líder nacional-sionista tinha redigido o seu testamento. Nele solicitava que o seu cadáver fosse trasladado a Israel “apenas por ordem do governo judeu que será estabelecido”. Em 1965, seus restos foram levados e sepultados no Monte Herzl, em Jerusalém. Em 1977, os herdeiros políticos de Vladimir “Zeev” Jabotinsky chegaram ao poder em Israel com Menachem Begin e uma aliança de partidos “revisionistas” chamada Likud. Em “Mundo Judío”, Daniel Muchnik afirmou que Begin seguramente passará à historia como “o primeiro chefe de governo judeu e fascista”.

ROBERTO BARDINI - Bambu Press - 28/07/2006


Texto traduzido pelo PazAgoraBr e publicado no blog do jornalista Pedro Ayres.

Um aviso aos leitores desavisados que forem acusar o Pedro Ayres de anti-semita, saibam que ele é judeu.

******************

Documento transcrito do Vi o mundo

The Iron Wall: (We and the Arabs)
(1923)*

O muro de ferro: nós e os árabes

Vladimir Jabotinsky, um dos muitos ideólogos do sionismo


Contrariando a excelente regra de ir direto ao ponto, preciso começar esse artigo com uma introdução pessoal. O autor dessas linhas é considerado um inimigo dos árabes, um proponente de sua expulsão, etc. Isso não é verdadeiro. Minha relação emocional com os árabes é a mesma que tenho com todos os outros povos -- de indiferença educada. Minha relação política é caracterizada por dois princípios. Primeiro: a expulsão dos árabes da Palestina é absolutamente impossível. Sempre haverá duas nações na Palestina -- o que é suficientemente bom para mim, desde que os judeus se tornem a maioria. Segundo: tenho orgulho de ser membro do grupo que formulou o Programa Helsingfors*. Nós o formulamos não apenas para os judeus, para todos os povos, e é a base da igualdade de todas as nações. Estou preparado para jurar, por nós e nossos descendentes, que nunca destruiremos essa igualdade e nunca tentaremos expulsar ou oprimir os árabes. Nosso credo, como o leitor pode ver, é completamente pacífico. Mas é absolutamente outra questão se será possível atingir nossos objetivos pacíficos através de meios pacíficos. Isso depende não de nossa relação com os árabes, mas exclusivamente da relação dos árabes com o Sionismo.

Depois da introdução posso ir ao ponto. Que os árabes da Terra de Israel pretendem chegar voluntariamente a um acordo voluntário conosco está além de toda a esperança e os sonhos do presente e do futuro próximo. A convicção pessoal que expresso categoricamente não é resultado de uma tentativa de desestimular a facção moderada dos sionistas mas, ao contrário, é uma tentativa de evitar que eles se sintam desestimulados. Além daqueles que são "cegos" desde a infância, todos os sionistas moderados já entenderam que não há qualquer esperança de obter um acordo com os árabes da Terra de Israel de que a Palestina vai se tornar um país de maioria judaica.

Todo leitor tem uma idéia da história de outros países que foram colonizados. Sugiro que ele rememore. Mesmo que ele tente lembrar-se de um só caso em que o país foi colonizado com o consentimento daqueles que nasceram lá ele não vai conseguir. Os habitantes (não importa se civilizados ou selvagens) sempre partiram para uma luta teimosa. Além disso, a forma de ação do colonizador nunca importou. Os espanhóis que conquistaram o México e o Peru, ou nossos próprios ancestrais nos dias de Joshua ben Nun se comportaram, poderíamos dizer, como saqueadores. Mas os "grandes exploradores", os ingleses, escoceses e holandeses que foram os pioneiros de fato na América do Norte tinham um alto padrão ético: não só pretendiam deixar os peles vermelhas em paz mas tinham pena até mesmo das moscas; pessoas que em toda a sua sinceridade e inocência acreditavam que aquelas florestas virgens e planícies amplas eram suficientes tanto abrigar o homem branco e o pele vermelha. Mas os nativos resistiram tanto aos colonizadores bárbaros quanto aos civilizados com o mesmo grau de crueldade.

Outro ponto que nunca afetou o comportamento dos nativos é se existia ou não a suspeita de que os colonizadores pretendiam remover os habitantes de suas terras. As vastas áreas dos Estados Unidos nunca contiveram mais de um ou dois milhões de indígenas. Os nativos lutaram com os colonizadores brancos não por medo de que seriam expropriados, mas pelo fato de que nunca houve em qualquer lugar um nativo em qualquer tempo que aceitou a colonização alheia de seu país. Qualquer povo nativo -- tanto faz ser civilizado ou selvagem -- vê seu país como seu lar, do qual será sempre o chefe. Ele nunca vai permitir voluntariamente não só um novo chefe, nem mesmo um parceiro. E assim é com os árabes. Os negociadores em nosso meio tentam nos convencer de que os árabes são algum tipo de tolos que podem ser enganados por uma versão mais amenas de nossos objetivos, ou uma tribo de adoradores do dinheiro que vai abandonar seu lugar de nascença na Palestina por vantagens culturais ou econômicas. Eu rejeito claramente essa avaliação dos árabes palestinos. Culturamente eles estão 500 anos atrasados em relação a nós, espiritualmente não têm nossa resistência ou força de vontade, mas são apenas essas as diferenças. Podemos falar o quanto quisermos sobre nossas boas intenções; mas eles entendem tanto quanto nós que elas não são boas para eles. Eles olham para a Palestina com o mesmo amor instintivo e fervor verdadeiros com os quais os aztecas olhavam para o México ou os sioux para as planícies. Pensar que os árabes vão voluntariamente consentir com a realização do Sionismo em troca de benefícios culturais e econômicos é infantil. Essa fantasia de nossos "arabistas" resulta de algum tipo de desprezo pelo povo árabe, de algum tipo de visão infundada de que eles estão prontos a serem comprados, a trocar a pátria por uma rede ferroviária.

É uma visão sem qualquer base. Os árabes individualmente podem até ser comprados mas isso não singifica que todos os árabes de Eretz Israel estão prontos a vender o patriotismo que nem os moradores da Papua comerciam. Todo povo nativo vai resistir aos colonizadores enquanto tiverem a esperança de se livrar do perigo da colonização estrangeira.

É o que os árabes na Palestina estão fazendo e o que vão continuar fazendo enquanto houver uma centelha de esperança de que conseguirão evitar a transformação da "Palestina" em "Terra de Israel".

Alguns de nós acreditávamos que tinha havido um engano, que os árabes se opunham a nós por não entender nossas intenções, que se demonstrássemos como nossas aspirações são modestas e limitadas eles nos esticariam os braços em paz. Isso também é uma falácia e já foi provado mais de uma vez. Só preciso relembrar de um incidente. Três anos atrás, durante uma visita aqui, Sokolow fez um grande discurso sobre esse "engano", demonstrando que os árabes estavam errados ao supor que pretendíamos tomar a propriedade deles ou expulsá-los do país, ou reprimí-los. Não era isso. Nem queríamos um estado judeu. Tudo o que queríamos era uma regime representativo na Liga das Nações. Uma resposta ao discurso foi publicada no jornal árabe Al Carmel cujo conteúdo vou citar de memória, estou certo de que refletindo a realidade.

Nossos grandes sionistas estão desnecessariamente perturbados, o autor escreveu. Não há qualquer engano. O que Sokolow fala do sionismo é verdadeiro. Os árabes já sabem disso. Obviamente que os sionistas hoje nem podem sonhar em expulsar ou reprimir os árabes, nem mesmo em um estado judeu. Claramente nesse período eles estão interessados só em uma coisa -- que os árabes não interfiram com a imigração judaica. Além disso, os sionistas prometem controlar a imigração de acordo com a capacidade de absorção da economia. Mas os árabes não têm ilusões.

O editor do jornal chegou a dizer que a capacidade de absorção do Eretz Israel é grande e que é possível trazer um grande número de juseus sem afetar os árabes. "E é isso o que os sionistas querem e que os árabes não querem. Desse jeito os judeus, aos poucos, vão se tornar a maioria de fato, um estado judeu será formado e o destino da minoria árabe vai depender da boa vontade dos judeus. Mas não foram os próprios judeus que nos disseram como é 'prazeroso' ser minoria? Não existe engano. Os sionistas querem uma coisa -- liberdade de imigração -- e imigração judaica é o que não queremos".

A lógica empregada por esse editor é tão simples e clara que deveria ser decorada e fazer parte essencial de nossa noção da questão árabe. Não é importante se citamos Herzl ou Herbert Samuel para justificar nossas atividades. A colonização em si tem a sua própria explicação, integral e inescapável, e é entendida por todo árabe e todo judeu que tenha juízo. A colonização só pode ter um objetivo. Para os árabes palestinos esse objetivo é inadmissível. É a natureza das coisas. Mudar essa natureza é impossível.

Um plano que parece atrair muitos sionistas funciona assim: é impossível obter apoio para o sionismo dos árabes palestinos, então precisa ser obtido dos árabes da Síria, Iraque, Arábia Saudita e talvez Egito. Mesmo que fosse possível, não mudaria a situação básica. Não mudaria a postura dos árabes da terra de Isarel em relação a nós. Setenta anos atrás, a unificação da Itália foi obtida, com a retenção pela Áustria de Trent e Trieste. Mas os habitantes destas cidades não só não aceitaram a situação, mas lutaram com redobrado vigor contra a Áustria. Se fosse possível (e eu duvido) discutir a Palestina com os árabes de Bagdá ou Meca como se fosse uma terra desprezível, imaterial, ainda assim para os palestinos a Palestina continuaria sendo o seu lugar de nascimento, o centro e base de sua existência nacional. Seria necessário assim mesmo fazer a colonização contra a vontade dos árabes palestinos, sob as mesmas condições existentes agora.

Mas um acordo com os árabes de fora da Terra de Israel também é uma ilusão. Para os nacionalistas em Bagdá, Meca e Damasco concordar com uma contribuição tão expressiva (concordar em abrir mão da preservação do caráter árabe de um país localizado no centro de sua futura "federação") teríamos que oferecer a eles algo tão valioso quanto. Podemos oferecer apenas duas coisas: dinheiro ou assistência política ou ambos. Mas não podemos oferecer. Quanto a dinheiro, é ridículo pensar que poderíamos financiar o desenvolvimento do Iraque ou da Arábia Saudita, quando não temos o suficiente nem para a Terra de Israel. Dez vezes mais ilusório é dar assistência política. O nacionalismo árabe tem o mesmo objetivo que o nacionalismo italiano de antes de 1870 e do nacionalismo polonês de antes de 1918: unidade e independência. Essas aspirações significam a erradicação de todo traço de influência britânica no Egito e Iraque, a expulsão dos italianos da Líbia, a remoção do domínio francês da Síria, Tunísia, Argélia e Marrocos. Para nós apoiarmos tal movimento seria suicídio e traição. Não podemos falar em remover os britânicos do Canal de Suez e do Golfo Pérsico ou da eliminação dos governos francês e italianos de territórios árabes. Esse jogo duplo nunca poderia ser considerado.

E assim concluímos que não podemos prometer qualquer coisa para os árabes da Terra de Israel ou dos outros países árabes. O acordo voluntário deles está fora de questão. Assim, aqueles que acham que o acordo com os nativos é uma condição essencial para o sionismo devem dizer "não" e deixar o sionismo. A colonização sionista, mesmo a mais restrita, deve ser suspensa ou levada adiante apesar de resistência da população nativa. Esse colonização, assim, só pode continuar e ser desenvolvida sob a proteção de uma força independente da população local -- uma parede de ferro que a população nativa não pode romper. Essa é nossa política diante dos árabes. Formulá-la de qualquer outra forma seria hipocrisia.

Não só tem de ser assim, será assim a gente admita ou não. O que a declaração de Balfour ou o Mandato significam para nós? O fato de que um poder desinteressado se comprometeu a criar as condições de segurança para impedir que a população local interfira com nosso esforço.

Todos nós, sem exceção, pedem que esse poder cumpra estritamente as suas obrigações. Nesse sentido, não há diferenças significativas entre os nossos "militaristas" e nossos "vegetarianos". Um prefere um muro de ferro de baionetas judias, outro propõe um muro de ferro de baionetas britânicas, o terceiro propõe um acordo com Bagdá, e parece satisfeito com as baionetas de Bagdá -- um gosto estranho e arriscado, mas nós aplaudimos, noite e dia, o muro de ferro. Nós destruiríamos nossa causa se proclamassemos a necessidade de um acordo, e enchessemos a cabeças dos Mandatários com a crença de que não precisamos de um muro de ferro, mas conversas sem fim. Tal proclamação só pode nos prejudicar. Sendo assim é nosso dever sagrado expor essa conversa e provar que é uma ilusão.

Duas afirmações breves: em primeiro lugar, se alguém disser que este ponto-de-vista é imoral, eu respondo: não é verdade; ou o sionismo é moral e justo ou é imoral e injusto. Mas essa é uma questão da qual deveríamos ter tratado antes de nos tornarmos sionistas. E já obtivemos uma reposta e ela é afirmativa.

Sustentamos que o sionismo é moral e justo. E já que é moral e justo, a justiça tem de ser feita, não importa se Joseph, Simon, Ivan ou Achmet concordam ou não.

Não há outra moralidade.

Isso não significa que qualquer tipo de acordo é impossível, só um acordo voluntário é impossível. Enquanto houver uma centelha de esperança de que eles podem se livrar de nós, eles não vão vender essa esperança, não por palavras doces ou saborosas, já que não são um bando mas uma nação, talvez um pouco abatida, mas ainda viva. Um povo vivo só faz enormes concessões em questões tão primordiais quando não tiver mais esperança. Só quando não houver uma só abertura no muro de ferro, só assim os grupos extremos perdem poder e a influência se transfere para grupos moderados. Só então esses grupos moderados virão até nós para concessões mútuas. E só então os moderados vão oferecer sugestões de acordo em questões práticas como a garantia contra expulsão, ou igualdade, ou autonomia nacional.

Estou otimista de que eles receberão garantias satisfatórias e de que os dois povos, como bons vizinhos, podem viver em paz. Mas o único caminho para tal acordo é o muro de ferro, ou seja, reforçar o governo da Palestina sem qualquer influência árabe, ou seja, um com o qual os árabes vão lutar. Em outras palavras, para nós o caminho para um acordo no futuro é a rejeição absoluta de qualquer tentativa de acordo agora.

*Publicado em russo com o título O Zheleznoi Stene, em Rassvyet, 4 de Novembro de 1923
Publicado em inglês no Jewish Herald (África do Sul), 26 de Novembro de 1937


domingo, 6 de julho de 2008

Os sessenta anos de Israel e as condições subumanas dos palestinos

Israel acaba de anunciar que pretende destruir mais 440 oliveiras em terras palestinas.
Desta vez as vítimas da brutalidade serão os habitantes de Naalin.
Israel diz que as oliveiras poderão ser replantadas em outros locais. Elas estariam atrapalhando a expansão do Muro do Aparheid.
Os moradores de Naalin dizem que não é possível replantar oliveiras centenárias nesta época do ano.
Com a palavra o lavrador Ibrahim Aahad Jawaya: “Nós tememos que 90% das oliveiras replantadas no poderão dar fruto nunca mais”.
A ONU protestou, a comunidade européia também. O Greenpeace e o WWF permanecem em silêncio.
(10 de Junho de 2008, do blog do jornalista e escritor Georges Bourdoukan http://blogdobourdoukan.blogspot.com)


Não devemos celebrar a espoliação

Eve Spangler


Este mês (maio de 2008) Israel celebra o seu 60 aniversário. Os judeus dos Estados Unidos serão convidados a unirem-se a este celebração. Mas Israel, ao se negar a reconhecer que o fundamento da sua existência é a expulsão de mais de 700 mil palestinos de sua pátria, não pode falar de consciência aos judeus. Aqui estão as razões pelas quais não me posso unir a essa celebração.


A minha avó, mãe da minha mãe, era costureira e era reconhecida pelos seu formosos bordados. Antes da Primeira Guerra Mundial fez carreira cosendo flores e finos vestidos de seda que se usavam no Hofburg, o palácio imperial de Viena. Com o passar do tempo suas mãos perderam a suavidade requerida para costurar a seda e por isso a demitiram do trabalho. A partir desse momento criou as suas três filhas em um apartamento de um único cômodo no segundo distrito de Viena, um gueto judeu conhecido como o Maztosinsel (a ilha do pão ázimo). Para manter-se, ajudava os vendedores de um mercado de alimentos ao ar livre próximo da sua casa a limpar os seus pontos no final do dia. Em retribuição por seu trabalho lhe davam os alimentos meio estragados que já não podiam vender aos seus fregueses; dessa forma, minha avó alimentava as suas filhas e a si própria. Mas mesmo nessas condições de extrema pobreza, continuava costurando e era famosa pelas colchas bordadas que fazia para as suas filhas. Sempre pensei nela como minha omi (vovó) das colchas.


Com o passar do tempo, à privação econômica se juntou o perigo político. Desde 1932 os austríacos viviam sob os tacões de um regime fascista local. Minha mãe foi despedida do trabalho, mas se uniu a um grupo de jovens dedicados a tirar crianças do país. Em 1938, o exército de Hitler anexou a Áustria. Logo depois, Hitler foi visitar as novas possessões do Terceiro Reich. Um dia chuvoso e gelado, os vienenses se formaram ao longo da rota do desfile, durante as oito horas de atraso que teve o trem, gritando "Heil Hitler!" até ficarem sem voz. Desse modo, minha mãe e minha avó descobriram que vivíamos num país de colaboradores.


Um dia, quando a minha mãe chegou em casa, encontrou a sua mãe tomando café com a sua vizinha cristã que vivia do outro lado da rua. Durante muitos anos as duas anciãs haviam compartilhado o banheiro e a bica dágua no fim da rua e também a comida que tinham. Nesse dia compartilhavam o pastel e falavam sobre a ocupação. Quando chegou a hora de se despedirem, a vizinha se levantou, mas ao invés de se dirigir à porta meteu-se por trás dos biombos que separavam as camas do resto do pequeno cômodo. Um minuto depois saiu com todas as colchas da minha avó amontoadas nos seus braços. Sem pressa, sem vergonha e sem desculpas, se dirigiu à porta. Ali se deteve por um momento e disse para a minha avó: "Bem, os nazis as vão levar de qualquer modo e eu sempre as quis." E, simplesmente, saiu.


Algum tempo depois, nomearam minha mãe como responsável pelos últimos Kindertransport (trens de transporte de crianças) que saíram da Áustria. Embora a minha mãe tenha podido ir para um lugar seguro, a minha avó não teve a mesma sorte, pois um dos seus vizinhos a denunciou aos nazistas. Foi arrastada e levada ao Gueto de Varsóvia, que funcionava como um fim-de-linha para Auschwitz. E ali termina o seu rastro. Nunca pudemos saber com exatidão como e quando morreu. Sua morte anônima continua sendo a grande ferida aberta da vida da minha mãe nos seus 98 anos.


Então, quando os israelitas dizem que criaram o estado judeu em meu nome, no nome da minha avó, não estão dizendo a verdade. Nunca dizem "para estabelecer este estado roubamos, e continuamos roubando as formosas colchas bordadas dos palestinos e, o que é pior, a água das suas terras, e as oliveiras dos seus jardins e, na verdade, os tetos sobre as suas cabeças." Israel também é isso. Por isso devo dizer NÃO. Não podem usar o meu nome. Não podem usar o nome da minha avó. Não celebramos uma independência nascida da permanente espoliação de outras pessoas.


*Eve Spangler é professora associada de sociologia do Boston College e membro da associação Jewish Voice for Peace (Voz Judia para a Paz).

Traduzido da versão espanhola de Chelo Ramos, membro de Cubadebate, Rebelión y Tlaxcala, a rede de tradutores pela diversidade lingüística. Esta tradução pode ser reproduzida livremente com a condição de que seja respeitada a sua integridade e mencionada a autora, o tradutor e a fonte. Originalmente publicado em: http://www.counterpunch.org/spangler05152008.html



Gaza

(3 de Junho de 2008)

O bloqueio já vai completar um ano.
A Associação Palestina dos Direitos das Crianças informa que desde que o bloqueio começou, as tropas israelenses já assassinaram 54 crianças pelas armas.E esse número ultrapassa os mil, desde que teve início da Segunda Intifada.

Além disso, há 344 meninas e meninos palestinos encarcerados e padecendo, sem nenhum direito, nas prisões de Israel.

A Associação Palestina dos Direitos das Crianças informa também que mais de 70% dos bebês e crianças sofrem de anemia e danos psicológicos devido às “contínuas violações israelenses, principalmente em conseqüência dos bombardeios indiscriminados contra a população civil”.

Gaza, onde tentam sobreviver um milhão e meio de palestinos, é uma terra arrasada:

1- Falta gás de cozinha
2-Falta combustível até para as ambulâncias
3- Faltam medicamentos nos hospitais
4- Bebês estão morrendo de subnutrição
5- Mulheres grávidas estão sendo barradas nos postos de controle
6-Pacientes com doenças graves estão impedidos de buscar socorros.
7-Hortas e granjas estão sendo destruídas por mísseis israelenses


PARA NÃO CAIR NO ESQUECIMENTO-3

O tribunal Internacional, reunido na Bélgica, condenou Israel, durante a invasão do Líbano, em 2006, pelos seguintes crimes:

1- CRIMES DE GUERRA
2-CRIMES CONTRA A HUMANIDADE
3-CRIME DE GENOCÍDIO

Eis um trecho do texto que justificou a condenação:

“Os jurados(...) seguindo o Direito Internacional, convencional e consuetudinariamente e as normas imperativas contidas nas Convenções de Genebra de 1948 e 1949, no Protocolo A de 1977 e no Estatuto da CPI de 1998, constatando os enormes crimes cometidos por Israel(bombardeios e destruições indiscriminadas, assassinato de mais de mil pessoas, entre elas crianças, mulheres e idosos, enormes danos para a vida econômica e social) declara as autoridades israelitas responsáveis pela guerra de 2006 contra o Líbano e culpados pelos seguintes crimes internacionais:
Crimes de guerra
Crimes contra a humanidade
Crimes de genocídio".

E a mídia ignorou solenemente essa notícia tão importante.


(Quarta-feira, 25 de Junho de 2008)