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quarta-feira, 2 de julho de 2008

Pequena história da burca e xador

No artigo a seguir Yasmin Anukit retirado do site da Comunidade Islâmica podemos acompanhar três grandes momentos do uso do véu islâmico para os islâmicos: sua introdução como reafirmação da mulher islâmica entre as mulheres de outras religiões monoteístas que também cobriam a cabeça (afirmação de uma identidade positiva da mulher islâmica); a subversão deste papel pelos fundamentalistas (negação e submissão da mulher na sociedade islâmica) e finalmente na atualidade como uma reafirmação da identidade cultural da mulher islâmica no mundo ocidental).

No segundo artigo há um questionamento do professor italiano, Sérgio Noja Noseda, especialista em estudos islâmicos de que os textos sagrados trazem instruções para o uso da burca e xador.


Na coleção História em projetos tanto nos volumes de 5ª série/6º ano como no de 8ª série/9º ano esta problematização está presente.

A Mulher e o Véu no Islão

Por Yasmin Anukit*


Quando os filósofos de Alexandria, no Egito, promoveram o sincretismo de Ísis e Palas Athena, a deusa grega da Sabedoria, o seu templo, em Saís, passou a ostentar uma máxima que veio a se tornar clássica: "Eu sou tudo o que é e o que sempre será. Mortal algum jamais erguerá meu véu!" Ora, na condição de simples mortal, isto é, de profano não iniciado nos Mistérios, o aspirante permaneceria à margem do conhecimento, até que este lhe fosse revelado pela abertura dos "olhos espirituais".

O véu foi originalmente introduzido nas antigas civilizações da Pérsia e da Mesopotâmia e mais tarde, na cultura greco-romana. Caracterizava o sta- tus feminino elevado, conferindo-lhe uma certa inacessibilidade. Habitual entre as mulheres judias, tornou-se, também, uma referência das damas cristãs em Bizâncio e na Idade Média ocidental. O Profeta Mohammad (s.a.w.) instituiu o uso do véu no século VI, na Arábia, para que as muçulmanas também gozassem da mesma dignidade das demais seguidoras entre os povos do Livro, isto é, da Torá e do Evangelho. Deste modo, numa época selvagem e belicosa, onde a lei mal se delineava, o véu era uma salvaguarda. Porém, mais do que isso, o seu uso simbolizava a elevação espiritual da condição feminina, assim como o turbante concedia aos homens a sacralização da cabeça. O Islão pretendeu, através do sacerdócio universal, estender a toda a Ummah (Comunidade) uma vestimenta que tornasse os fiéis iguais diante de Deus.

Portanto, o uso do véu nunca designou a submissão feminina, embora uma política gradualmente machista – muito distante da época em que as mulheres muçulmanas cavalgavam e guerreavam ao lado dos homens – refreou as suas liberdades e, na mesma medida, o seu rosto foi se tornando anónimo. Com o tempo, o véu - burkas, xadors e abayas - veio a cair nas mãos de uma intolerância patriarcal cada vez maior, tornando-se motivo de apologia entre os fundamentalistas: wahabbitas da Arábia Saudita, radicais xiitas do Irã pós-Khomeíni, talibãs afegãos e guerrilheiros do Hamas, na Palestina. Para estes, o véu se tornara uma arma de controle e exclusão da mulher, privada de escolha quanto à sua própria indumentária. Países como o Iraque e o Líbano, nas últimas décadas, promoveram uma progressiva libertação do corpo feminino e de seus costumes.

A foto registra modelos iranianas que participam da Semana de Moda de Teerã. Nos desfiles, a música é tradicional e o figurino deve seguir regras islâmicas, tais como o uso do xador — véu que cobre o corpo feminino — e de cores neutras.


Entretanto, hoje em dia, esta questão se reverte, pois muitas mulheres muçulmanas passaram a reivindicar o uso do véu, tanto no Oriente Médio quanto na Europa, como uma afirmação de sua identidade religiosa e como um ato de resistência cultural.

Existe, porém, ainda, uma aura profundamente sugestiva no que concerne a este tema. Os antigos beduínos perfumavam sua tenda - xador - com incenso para seduzir a futura noiva. A jovem, por sua vez, ao permitir ali a entrada de um pretendente, estava consentindo no casamento. Abrir a tenda ao amado era o mesmo que abrir o xador, pois ambas são palavras equivalentes. Envolta nas túnicas negras da região do Golfo, a mulher sabe que seu modo de vestir discreto e sombrio, o hijab - cortina -, oculta esplêndidas cores, decotes e trajes íntimos sensuais que ela só exibe aos mais próximos. Velada, pode despertar, por um lado, um fascinante sex appeal ; por outro, paradoxalmente, mantém os homens a salvo da fitna - a sedução incontrolável exercida pelos seus cabelos!

A literatura sufi, medula da alma Islâmica, descreve como o louco poeta Majnum aspirou levantar uma só ponta do véu de Laila. Laila - a noite - é o nome místico universal da Amada entre os muçulmanos. Exemplifica a Realidade última do Ser, inapreensível pelos sentidos, aquela que apenas sugere a mais secreta essência de todas as coisas. De Laila nasce o dia, a luz e todas as formas da criação. Ela é a face oculta e feminina de Deus. "Abrir a tenda de Laila", ou o xador , portanto, representa o antegozo do Paraíso e inspira imagens de suave erotismo: a permissão para o prazer que advém da espera, o êxtase da intimidade e a cupidez do silêncio que faz os amantes desfalecerem no oceano da Vida.

Grandes mistérios, assim, desafiam o tempo. O santuário da Caaba, em Meca, através dos séculos, tem permanecido coberto por um véu negro, bordado com letras douradas. Do mesmo modo, "Allah se oculta a nossos olhos com setenta mil véus de luz e escuridão. Se Ele os levantasse, o esplendor de sua face consumiria todo aquele que O visse".

* Yasmin Anukit, da "icarabe", e o artigo foi publicado na Revista Islâmica Portuguesa Al Furqán, nº. 147, de Outº. / Novº. 2005.

professor Sérgio Noja Noseda, autoridade de referência internacional em estudos sobre o Alcorão, afirma categoricamente que a origem do xador e da burca, que escondem o rosto e o corpo da mulher, não tem base nos textos. O livro sagrado dos muçulmanos traz como preceito que homens e mulheres devem cobrir a nudez total, o que já era uma atitude muito comum nos países árabes na época de Maomé. Noseda fundamenta-se na sura ou capítulo 24, o da Luz, versículos 31 e 32, que citamos da tradução brasileira de Mansour Challita.

No versículo 31, “O profeta recomenda aos crentes que baixem os olhos e preservem o pudor; é mais correto para eles. Deus observa o que fazem”. Para as mulheres, no versículo 32, “O profeta diz que baixem o olhar e preservem o pudor e não exibam seus adornos, além do que aparece necessariamente. E que abaixem o seu véu sobre os seios e não exibam seus adornos senão aos seus maridos ou pais ou sogros ou filhos, enteados, irmãos... e às crianças que nada sabem da nudez das mulheres”.

Nesses versículos, Maomé admoesta a cobrir algumas partes do corpo, porque quer mudar os costumes dos árabes, entre os quais a nudez parecia bastante usual. Aonde chegava o Alcorão, as pessoas começavam a se vestir. Assim aconteceu na Arábia e em outros países, como Etiópia, Índia e na África, em que a nudez era natural. A atitude de Maomé é compreensível e, no Alcorão, além de preceitos religiosos, foram incluídos instruções e comportamentos práticos e concretos da vida, o que encontramos também no Antigo Testamento e nos Vedas.

Ao longo dos tempos, neófitos mais entusiastas ou outros mestres do islã transferiram, para o plano religioso, o que era um fato cultural ou de defesa para as pessoas que viviam nas areias do deserto, tornando o xador e a burca sinais visíveis de um sistema religioso e familiar bem fechado. Em outros lugares, como a Índia, as mulheres islâmicas não usam o xador. No Ocidente e em países onde há religiões diferentes, o xador tornou-se um sinal de pertença ao Islã.


Muçulmanas com xador na Argélia

Na sura n.º 33 vers. n.º 59, Maomé dita:

“Recomenda a tua esposa e a tua filha e às mulheres dos crentes que apertem seus véus em volta delas: é mais provável que sejam assim reconhecidas, evitando ser molestadas.

Deus perdoa e é misericordioso”. Portanto, o véu é um costume das mulheres islâmicas, mas não necessariamente um preceito religioso.


O véu e a cruz

A questão do véu, na França, e da cruz, na Itália, que parece uma polêmica sobre a liberdade religiosa, pode envolver outros aspectos mais profundos. Na França, há centenas de moças islâmicas que se apresentam na escola com o seu xador, sem ter nem causar problemas, assim como na Itália existem centenas de estudantes islâmicos que freqüentam as escolas e universidades estatais onde, pela constituição, está pregado um pequeno crucifixo.

Em setembro do ano passado, duas irmãs francesas voltaram às aulas não somente com seu xador, mas vestindo a burca, roupa que veste as mulheres da cabeça aos pés deixando só pequenas frestas para os olhos e boca, causando um impacto na diretoria da escola e a sucessiva repulsa nacional. Os defensores da laicidade do país reclamaram uma lei que proíba, em todo e qualquer edifício público, sinais religiosos ostensivos, como a burca e o véu, visto que, na França, nem o crucifixo ostensivo não existe mais em nome da laicidade.

Atrás, porém, desses gestos de intolerância e fundamentalismo religioso, parece existir um plano. De fato, o pai das duas estudantes francesas é um advogado agnóstico de origem judaica que estimulou as filhas a fazerem a provocação, a fim de demonstrar que existe intolerância em relação ao islã. Na Itália, o pai das duas crianças que questionou a presença do crucifixo nas salas é um recém convertido ao islã. Em ambos os casos, foram feitos apelos à lei da laicidade dos órgãos públicos, passando por cima de milhares de anos de cultura cristã.

Os dois atos, porém, não tiveram grande ressonância mundial, visto que outros casos acontecem em lugares de menor importância e nem aparecem na mídia. Por isso, parece que atrás desses dois fatos, existe um desejo de demonstrar a intolerância européia e/ou de tentar islamizar a sociedade. A denúncia é feita pelo professor Olivier Clement, teólogo ortodoxo e profundo conhecedor do islã.

Islã modelo Ramadã

Clement lançou, recentemente, um alerta em que denuncia que as “provocações são feitas intencionalmente pelos recém-convertidos muçulmanos, que usam casos extremos para demonstrar a intolerância da sociedade européia”, e afirma que não existe fundamentalismo dos franceses contra os islâmicos e vice-versa. Todavia, confirma a expansão de uma nova ideologia, cujo mentor é Tariq Ramadã, jovem intelectual islâmico, professor, filho de Hassam Al Banna, fundador do movimento islâmico fundamentalista dos Irmãos Muçulmanos, aos quais se atribui a assassinato de Anuar Sadat.


Muçulmanas com xador em Jerusalém

Tariq não prepara atentados, declara-se um tolerante nos meios de comunicação europeus e propõe um islã reformista e globalizante. Sua mensagem quer destacar, a partir das fontes islâmicas, uma vocação universal do islã, que tomaria o lugar dos valores da civilização cristã, e a idéia de que a identidade muçulmana é a fonte da verdadeira universalidade. Ele constata que o fulcro dos movimentos históricos, nos dias de hoje, é o eixo Europa- América do Norte, enquanto os países muçulmanos estariam relegados à periferia da civilização, apesar da superioridade numérica e do surgimento de intelectuais islâmicos no mundo.

Prega a necessidade de remodelar o mundo, substituir os modelos judaicos e cristãos que já – segundo ele – estão desaparecendo. Para Tariq, o islã poderá preencher o vazio que atingirá o Ocidente cristão, porque “a Alcorão completa e melhora as mensagens que o precederam”. Chega também a dizer que as grandes personalidades ocidentais que marcaram o mundo, como Tereza de Calcutá, Abbé Pierre, Dom Helder Câmara, foram exceções que demonstram que todos os melhores homens são implicitamente “muçulmanos”. Portanto, o objetivo de Tariq não é “modernizar o islã, mas islamizar a modernidade ocidental”.

O que fazer? Se na Itália parece que permanece o problema de imigração dos muçulmanos, na França esse protesto perturba diretamente a laicidade, da qual os franceses tanto se orgulham. Preocupa e ainda não está definido qual rumo seguir: é cada vez maior o número de imigrantes muçulmanos, muitos dos quais já são cidadãos franceses, com plenos direitos.

Alguns sugerem que uma exclusão total dos símbolos muçulmanos seria a prova clara de uma profunda islamofobia da sociedade francesa, mas uma permissão criaria uma cadeia de protestos contra a laicidade da França e, talvez, a formação de uma França leiga e outra muçulmana. De outro lado, a partir de agora, será necessário conviver pacificamente com as diferentes religiões e culturas e, portanto, é necessário que o cristianismo se aprofunde e se esclareça, para se tornar capaz de acolher a todos, sem perder a si mesmo.

Sérgio Noja Noseda, professor italiano, presidente da Fundação Noseda de Estudos Islâmicos. Artigo originalmente publicado em Revista Mundo Missão.


E já que entramos no tema duas curiosidades linguísticas:


• Alcorão ou Corão

O nome do livro sagrado dos muçulmanos em árabe é “Al-kuran”, em que ‘al’ é artigo definido. É por isso que também se pode escrever, em português, Corão, separando-se o artigo do substantivo. A grafia mais comum, porém, é Alcorão – embora pareça redundante dizer o Alcorão – porque é assim que se comportam as palavras de origem árabe que se incorporam à língua portuguesa, ou seja, o artigo ‘al’ se aglutina à palavra-base na passagem para nosso idioma. É o caso de: a alface, a alfândega, a almofada, a almôndega, o algodão, a aldeia, a alcova, a alcachofra, o alfinete, o algarismo, o alvará, o almoxarife – só para dar alguns exemplos.

• Burqa e xador

Vejamos a grafia do primeiro nome, pois ele não está dicionarizado e por isso temos encontrado três formas diferentes: burqa, burka e burca. O problema é que não existe verdadeira correspondência entre certos sons ou fonemas da língua árabe e o nosso alfabeto; assim, o c não traduz o som original, o k não faz parte do nosso alfabeto e a seqüência q + a é esdrúxula em português; apesar disso, fico com burqa, pois ainda é a grafia que mais se aproxima da pronúncia árabe.

A diferença entre uma e outra vestimenta usada pelas mulheres ao sair de casa em alguns países muçulmanos é a seguinte:

  • a burqa cobre a mulher da cabeça aos pés, comportando apenas uma pequena tela na altura dos olhos e do nariz para permitir que pelo menos ela não sufoque e saiba onde pisa;
  • o xador cobre o corpo todo mas deixa parte do rosto à mostra, entre as sobrancelhas e a boca.
M. T. Piacentini De Alcorão a Xador, publicado aqui

Um comentário:

Rosana disse...

Adorei o que li. era realmente o que queria saber.Agora só me restam duas dúvidas: Quando as mulheres optam por usar a burqa ou o xador? O uso delas tem alguma coisa haver com heranças do hinduismo? Obrigada