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terça-feira, 29 de abril de 2008

As visões sobre educação e segurança pública podem ser positivas?

Analisando a pesquisa CNT/Census publicada ontem (28/04/2008), para além da crescente popularidade do atual presidente, chamaram-me a atenção as percepções do povo brasileiro sobre educação e segurança pública.

Se você parar para analisar os resultados da pesquisa (acesse-a aqui) sobre as variáveis Emprego, Renda, Saúde, Educação e Segurança Pública, perceberá que os entrevistados apontam que nos últimos 6 meses ocorreram mudanças positivas e perceptíveis em relação ao emprego e a renda. Em relação à Saúde creio que os focos de epidemia de dengue explicam o resultado da avaliação; quanto as variáveis Segurança Pública e Educação os entrevistados também não vêem melhoras expressivas.

Ao medir as expectativas da população em relação a melhoria das condições dessas variáveis para os próximos 6 meses o otimismo diminui (parece que o povo brasileiro está com 'o pé no chão', controlando suas expectativas), mas nenhuma delas é tão baixa como a relativa a variável EDUCAÇÃO.

À noite de ontem, assistindo ao psicanalista Contardo Calligaris no programa Roda Viva, na tevê Cultura, cujo tema era a análise do mundo e da vida contemporânea, o entrevistado foi provocado por um telespectador policial. Este lhe perguntou se a polícia que temos seria um reflexo de nossa sociedade.

Calligaris respondeu que não apenas a polícia, mas todas as instituições são, em alguma medida, reflexos das sociedades que as criaram e as mantêm. E, como psicanalista com uma rara visão antropológica e histórica de seu ofício, complementou: nossa polícia melhorará no dia em que ser policial for o sonho das crianças de classe média; no dia em que esta profissão fizer parte da expectativa de futuro das crianças desta camada social.

O dia em que uma criança dos Jardins (bairro de classe média alta da cidade de São Paulo) disser que quer ser policial e sua afirmação não for peremptoriamente ignorada, rejeitada ou até mesmo ridicularizada como 'brincadeira (de mau gosto) de criança', poderemos ver mudanças expressivas na escala de valores da elite brasileira, possivelmente jamais vistas em nossa história.

Eu diria que com a educação ocorrerá o mesmo.

A profissão de mestre de escola básica já foi valorizada como uma profissão profundamente respeitável para a formação cidadã, especialmente ao longo do século XIX e durante a primeira década do XX.

Durkheim chegou mesmo a nos definir como um ministério laico, verdadeiros sacerdotes leigos, responsáveis por educar moralmente e de modo laicizado o cidadão comprometido com a construção de uma sociedade democrática.

Depois da Primeira Guerra a crença no papel da educação como fundamental para a criação de uma sociedade de paz e progresso foi bastante abalada. Mas em países como o nosso (onde a escolarização em massa chegou mais tardiamente que nos países europeus), ainda na primeira metade do século XX, poderíamos constatar o status positivo da profissão docente. Éramos, igualmente, vistos como os responsáveis por retirar da 'ignorância' uma grande massa (em sua maioria rural) e que necessitava ser educada, 'civilizada' nos moldes da 'civilidade urbana'.

Hoje os educadores reconstituíram tais representações sobre o papel dos professores e, muito embora nossa identidade ainda esteja em construção, conseguimos enxergar os limites da educação sem, no entanto, abandonar a idéia de que nosso trabalho permanece como algo necessário e de grande importância nas sociedades contemporâneas, especialmente no que diz respeito à formação de valores socialmente desejáveis e de condutas pró-sociais.

Calligaris enxerga em nosso país duas representações da infância: 'as crianças-rei', filhas da classe média e média alta para as quais poucos limites são impostos e que raramente convivem com frustrações e as crianças 'dejetos', grosso modo, a expressão serve pra definir todas aquelas destituídas dos direitos básicos da infância.

Retomando à afirmação inicial de Calligaris sobre as instituições, sociedades e seus reflexos, creio que na atual crise da educação pública, ajudaria bastante se a classe média (que opta cada dia mais pelas instituições privadas* para educar seus filhos) se comprometesse (como cidadãos) com a melhoria do ensino público, assim como com a manutenção de seu caráter público e cobrasse do Estado, independente do partido que o governa, que não abra mão do seu papel como principal ator das diretrizes e gerenciamento do ensino no país.

Esse olhar cidadão da elite que tanta falta faz em nosso país, faria com que seus filhos um dia sonhassem em ser professores. Pode parecer assustador a alguns, especialmente àqueles movidos por um profundo individualismo que é capaz de cegá-los e de impedi-los de se comprometer com as principais questões nacionais que afetam a todos (incluindo aí as variáveis Educação, Saúde e Segurança Pública).

Mas na visão sistêmica defendida por Calligaris (e com a qual concordo), seria bom ver nossas crianças-rei que vivem de modo privilegiado sonharem em ser educadoras juntas com as 'crianças-dejeto' para que todos nós pudéssemos sonhar com uma sociedade capaz de se reinventar, reconstruir-se em novos moldes: sem crianças-rei nem 'crianças-dejeto', apenas crianças como todas poderiam e deveriam ser.
__________________
*As boas escolas privadas que realmente educam e não apenas adestram seus alunos sabem e não negam o fato de que a educação nunca deixará de ser um bem público, embora o espaço escolar delas seja privado.


4 comentários:

Para Além do Hip Hop disse...

Fala, Maria, tudo bem?
Também gostei bastante de seu blog, bom conteudo e bom layout, dá até saudades da faculdade...
LINKADO

é disse...

O jornalista Luiz Carlos Azenha publicou este texto no Blog Vi o mundo.
De lá trago o comentário de Isabel e minha resposta a ela:

Isabel (30/04/2008 - 21:08)


Conceição, que belo texto o seu. No entanto, embora existam aqui e acolá pessoas realmente interessadas, a classe média está muito longe de levantar qualquer pena nesse assunto. A maioria das escolas privadas são um verdadeiro "apartheid" contra a realidade. A idéia é essa mesmo: separar os filhos dos filhos dos pobres. Isso faz parte de um pensamento fascista, mas que tem origem na ignorância dos pais, já mal e porcamente educados. A classe média brasileira é burra, ignorante e iletrada. Isso não é uma afirmação ideológica, é uma constatação real. Você vê mães e pais médicos, engenheiros, advogados que são de uma falta total de ilustração, a ponto de deixar a gente se perguntando como são capazes de exercer as profissões a que se propõe. Eles estão longe de serem capazes de qualquer atitude, quanto mais de ensinar aos filhos. Muito se fala do apreço que o povo judeu tem pela educação, e é verdade, mas o que a maioria não sabe é que isso não se originou das sucessivas perseguições, e sim do valor religioso atribuído ao estudo das escrituras. Na Bíblia cristã, Jesus é repetidamente chamado de "rabi", que não quer dizer somente mestre, ou professor, mas sim um sacerdote, porque o conhecimento não era separado da religião. Infelizmente essa parte foi deixada de lado pelos cristãos, a ignorância, até por erros de interpretação das escrituras, foi valorizada como sinal de "pureza", o que originou um ressentimento muito grande dos povos da Europa pelos judeus da diáspora.
***************
Conceição:
Oi Bel, obrigada, pela leitura e comentário.

Eu concordo com vc, o individualismo da nossa classe média e a quase ausência de uma visão humanista diante do mundo inviabiliza mudanças profundas. Mas creio que embora o fosso social e ideológico esteja bastante aprofundado em nosso país (a imagem do dique construída por Frankin Martins a meu ver foi a melhor metáfora pra defini-lo) nós não construiremos uma nação com noções e práticas cidadãs se não conseguirmos educar também essa parcela expressiva da classe média profundamente preconceituosa (viste ontem as declarações do coordenador do curso da Faculdade de Medicina da Bahia que explica o baixo rendimento dos alunos no ENADE 'porque os baianos ouvem Olodum e tocam berimbau?') Enquanto tivermos sujeitos em posições de comando (esse indivíduo forma médicos que vai cuidar da saúde do brasileiro e vai olhar pra população negra e pobre com esse ranço e uma miríade de preconceitos e estereótipos sobre a população baiana, negra...) que sejam tão inconseqüentes esse fosso tende a se aprofundar.
Venho relendo os clássicos e enfronhando-me nos estudos da gênese da profissão docente, ouvindo outros interlocutores para ver se encontro outros olhares sobre a crise profunda que nos encontramos e pra fazer frente, em termos de reflexão, à ideologia do mercado na educação. Minha ferramenta de luta é a palavra dirigida particularmente aos professores.
Grande abraço
Conceição

maria fro disse...

Trazendo para cá os comentários do blog Vi o Mundo:

Leider Lincoln (01/05/2008 - 08:36)
Concordo com ambas: Conceição e Isabel. Na escola em que trabalho buscamos fazer o possível para que os bolsistas ou sejam negros ou portadores de necessidades especiais, mas isso é uma exceção. Em relação a nossa classe média, Isabel, ela não é apenas burra, ignorante e iletrada: ela também se ressente profundamente disso. Basta ver o desprezo que ela devota aos "sabe-tudo" e a qualquer forma de conhecimento, saber ou mesmo de lazer que envolva algo que resulte em mais inteligência, como bons livros. Por isso que ela na verdade tem horror a idéia de uma educação pública de qualidade: imaginar a "plebe" mais culta, letrada e educada, causa calafrios aos nossos filisteus broncos e estúpidos.

é disse...

Recebido por mail do psicanalista Contardo Calligaris, cujas observações motivou-me a redigir o artigo.

"Obrigado, Conceição, pelo apreço e pelo texto,
um grande abraço, Contardo"
01/07/2008