Analisando a pesquisa CNT/Census publicada ontem (28/04/2008), para além da crescente popularidade do atual presidente, chamaram-me a atenção as percepções do povo brasileiro sobre educação e segurança pública.
Se você parar para analisar os resultados da pesquisa (acesse-a aqui) sobre as variáveis Emprego, Renda, Saúde, Educação e Segurança Pública, perceberá que os entrevistados apontam que nos últimos 6 meses ocorreram mudanças positivas e perceptíveis em relação ao emprego e a renda. Em relação à Saúde creio que os focos de epidemia de dengue explicam o resultado da avaliação; quanto as variáveis Segurança Pública e Educação os entrevistados também não vêem melhoras expressivas.
Ao medir as expectativas da população em relação a melhoria das condições dessas variáveis para os próximos 6 meses o otimismo diminui (parece que o povo brasileiro está com 'o pé no chão', controlando suas expectativas), mas nenhuma delas é tão baixa como a relativa a variável EDUCAÇÃO.
Se você parar para analisar os resultados da pesquisa (acesse-a aqui) sobre as variáveis Emprego, Renda, Saúde, Educação e Segurança Pública, perceberá que os entrevistados apontam que nos últimos 6 meses ocorreram mudanças positivas e perceptíveis em relação ao emprego e a renda. Em relação à Saúde creio que os focos de epidemia de dengue explicam o resultado da avaliação; quanto as variáveis Segurança Pública e Educação os entrevistados também não vêem melhoras expressivas.
Ao medir as expectativas da população em relação a melhoria das condições dessas variáveis para os próximos 6 meses o otimismo diminui (parece que o povo brasileiro está com 'o pé no chão', controlando suas expectativas), mas nenhuma delas é tão baixa como a relativa a variável EDUCAÇÃO.À noite de ontem, assistindo ao psicanalista Contardo Calligaris no programa Roda Viva, na tevê Cultura, cujo tema era a análise do mundo e da vida contemporânea, o entrevistado foi provocado por um telespectador policial. Este lhe perguntou se a polícia que temos seria um reflexo de nossa sociedade.
Calligaris respondeu que não apenas a polícia, mas todas as instituições são, em alguma medida, reflexos das sociedades que as criaram e as mantêm. E, como psicanalista com uma rara visão antropológica e histórica de seu ofício, complementou: nossa polícia melhorará no dia em que ser policial for o sonho das crianças de classe média; no dia em que esta profissão fizer parte da expectativa de futuro das crianças desta camada social.
O dia em que uma criança dos Jardins (bairro de classe média alta da cidade de São Paulo) disser que quer ser policial e sua afirmação não for peremptoriamente ignorada, rejeitada ou até mesmo ridicularizada como 'brincadeira (de mau gosto) de criança', poderemos ver mudanças expressivas na escala de valores da elite brasileira, possivelmente jamais vistas em nossa história.
Eu diria que com a educação ocorrerá o mesmo.
O dia em que uma criança dos Jardins (bairro de classe média alta da cidade de São Paulo) disser que quer ser policial e sua afirmação não for peremptoriamente ignorada, rejeitada ou até mesmo ridicularizada como 'brincadeira (de mau gosto) de criança', poderemos ver mudanças expressivas na escala de valores da elite brasileira, possivelmente jamais vistas em nossa história.

Eu diria que com a educação ocorrerá o mesmo.
A profissão de mestre de escola básica já foi valorizada como uma profissão profundamente respeitável para a formação cidadã, especialmente ao longo do século XIX e durante a primeira década do XX.
Durkheim chegou mesmo a nos definir como um ministério laico, verdadeiros sacerdotes leigos, responsáveis por educar moralmente e de modo laicizado o cidadão comprometido com a construção de uma sociedade democrática.
Durkheim chegou mesmo a nos definir como um ministério laico, verdadeiros sacerdotes leigos, responsáveis por educar moralmente e de modo laicizado o cidadão comprometido com a construção de uma sociedade democrática.
Depois da Primeira Guerra a crença no papel da educação como fundamental para a criação de uma sociedade de paz e progresso foi bastante abalada. Mas em países como o nosso (onde a escolarização em massa chegou mais tardiamente que nos países europeus), ainda na primeira metade do século XX, poderíamos constatar o status positivo da profissão docente. Éramos, igualmente, vistos como os responsáveis por retirar da 'ignorância' uma grande massa (em sua maioria rural) e que necessitava ser educada, 'civilizada' nos moldes da 'civilidade urbana'.
Hoje os educadores reconstituíram tais representações sobre o papel dos professores e, muito embora nossa identidade ainda esteja em construção, conseguimos enxergar os limites da educação sem, no entanto, abandonar a idéia de que nosso trabalho permanece como algo necessário e de grande importância nas sociedades contemporâneas, especialmente no que diz respeito à formação de valores socialmente desejáveis e de condutas pró-sociais.
Calligaris enxerga em nosso país duas representações da infância: 'as crianças-rei', filhas da classe média e média alta para as quais poucos limites são impostos e que raramente convivem com frustrações e as crianças 'dejetos', grosso modo, a expressão serve pra definir todas aquelas destituídas dos direitos básicos da infância.
Retomando à afirmação inicial de Calligaris sobre as instituições, sociedades e seus reflexos, creio que na atual crise da educação pública, ajudaria bastante se a classe média (que opta cada dia mais pelas instituições privadas* para educar seus filhos) se comprometesse (como cidadãos) com a melhoria do ensino público, assim como com a manutenção de seu caráter público e cobrasse do Estado, independente do partido que o governa, que não abra mão do seu papel como principal ator das diretrizes e gerenciamento do ensino no país.
Esse olhar cidadão da elite que tanta falta faz em nosso país, faria com que seus filhos um dia sonhassem em ser professores. Pode parecer assustador a alguns, especialmente àqueles movidos por um profundo individualismo que é capaz de cegá-los e de impedi-los de se comprometer com as principais questões nacionais que afetam a todos (incluindo aí as variáveis Educação, Saúde e Segurança Pública).Mas na visão sistêmica defendida por Calligaris (e com a qual concordo), seria bom ver nossas crianças-rei que vivem de modo privilegiado sonharem em ser educadoras juntas com as 'crianças-dejeto' para que todos nós pudéssemos sonhar com uma sociedade capaz de se reinventar, reconstruir-se em novos moldes: sem crianças-rei nem 'crianças-dejeto', apenas crianças como todas poderiam e deveriam ser.
__________________
*As boas escolas privadas que realmente educam e não apenas adestram seus alunos sabem e não negam o fato de que a educação nunca deixará de ser um bem público, embora o espaço escolar delas seja privado.
