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quinta-feira, 5 de março de 2009

"É possível contar um monte de mentiras, dizendo só a verdade"

Pela manhã recebo do @joildo via twitter o link para mais um artigo da Folha sobre a ditabranda. Fui ler, era o historiador Marco Antonio Villa.

Ao menos entre os historiadores respeitáveis de que tenho notícia revisionismos carregam uma conotação pejorativa, na medida em que os revisionistas retomam as fontes (se assim o fazem) para negar fatos, mesmo trabalhando com dados. Clássicos são os anti-semitas que negam o holocausto, ou os judeus que negam a Nakba palestina. Agora parece que estamos inaugurando o revisionismo tupiniquim: "não houve ditadura no Brasil". Torturas, assassinatos, prisões, censura, exílios e toda a ordem de ações de um regime que tomou o poder a partir de um golpe militar e governou por meio de Atos institucionais com cassações, fechamento de sindicatos e uma série de arbitrariedades é tudo miragem, delírio da esquerda 'petralha', como diria o suprassumo do neocon o tio 'rei' da Veja (mas não perca seu tempo).

A Folha após ser desmacarada por artigos críticos feito por jornalistas que tem vergonha na cara e honram a sua profissão, passou a recorrer aos seus historiadores neocons para sustentar sua 'ditabranda'.

Professora Benevides tem toda razão ao usar o adjetivo 'insidioso' pra qualificar o tipo de revisionismo da Folha, ele é perigosíssimo mesmo, é cínico e mentiroso, relativiza tanto um acontecimento que acaba por recriá-lo à sua imagem e semelhança.

Villa é professor da UFScar é mais velho que eu, quando nasci com o golpe, ele estava entrando na escola. Tem aasim, ao menos 7 anos de vantagem para lembrar sobre o que é viver e ser educado em uma sociedade sustentada pela premissa "Brasil ame-o ou deixe-o" (ou seja deixado à força). Não há justificativa para um sujeito que bem-informado, com formação na área de História e que viveu os anos de chumbo negar a fatura que pagamos até hoje pela censura e pela perseguição política dos anos de chumbo.

Pode-se fazer qualquer coisa com estatísticas, mas não se pode afirmar que houve expansão do ensino superior no Brasil e esquecer-se de que grande parte da intelectualidade acadêmica deste país foi calada à força, que fazer pesquisa naquela época era dificílimo, que muitos bons profissionais foram aposentados compulsoriamente.

Eu realmente espero que o neocon Villa com seu revisionismo insidioso não tenha muitos adeptos na academia. Mas insisto mais uma vez, aos historiadores que me lêem: já passou da hora da ANPUH se posicionar formalmente diante deste episódio. O malabarismo narrativo do Villa, ao meu ver, é auto-explicativo desta necessidade.

Associem a campanha irresponsável da Folha buscando antecipar as eleições de 2010, a onda conservadora no STF, no MP com a criminalização do MST e qualquer coisa que cheire a movimento social e nos vejo caminhando a passos largos para a história repetida como farsa, como diria o velho barbudo.

Para encerrar reproduzo o mail que recebi hoje do meu querido amigo Aton Fon, a quem a 'ditabranda' da Folha suprimiu 11 anos de vida, os melhores de sua juventude, além das torturas sofridas que, felizmente, sua doçura e caráter não permitiram que ele perdesse a ternura com a barbárie sofrida.

"Lembrei de uma propaganda da própria Folha em que mostra a foto do Hitler com grande aproximação, e ia fazendo um afastamento enquanto falava de realizações econômicas do governo nazista, para terminar com a seguinte frase: 'É possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade'.
Pedi a um amigo meu para fazer um vídeo a partir desse artigo do Villa. É o roteiro perfeito!!" Aton Fon
Leiam o artigo do Villa e relembrem da propaganda aí abaixo, troquem o texto de Hitler pela ditabranda do Villa/Folha e me digam: não foram feitos um para o outro?




E aqui, a pedido do Aton Fon, o vídeo feito pelo Justo, roteiro do professor Villa:


Leia também o excelente artigo de Mino Carta e o texto de Luis Nassif produzidos sobre o tema, reproduzi ambos do bloco de notas da história em projetos, acesse aqui

5 comentários:

Darlan Reis disse...

Faço das suas palavras as minhas!!!

Muito bem!

Zélia Gominho disse...

Acabei de ler o artigo de Marcos Villa e compreendo o que ele quis expressar no seu artigo. Considero, inspirada pela leitura de Ítalo Calvino, que todas as épocas são marcadas por medos e desejos; e com Eugen Weber complemento afirmando que as transições podem ser reconhecidas como promessa ou como ameaça dependendo das perspectivas envolvidas. A ditadura militar, a ditadura Vargas, qualquer ditadura não abarca a sociedade como um todo e é possível que muita coisa boa aconteça, o problema é quem é beneficiado com essas boas obras: é justa a distribuição? O acesso é democrático? Os meios são lícitos. Uma ditadura não é necessariamente sombria e violenta pra todo mundo, pra muita gente ela foi indiferente; e só agora é vista por todos como ruim por serem desvelados os crimes e arbitrariedades cometidas. Ainda bem que existe a resistência, a oposição e a possibilidade de mudar. Apesar de Marcos Villa ter afirmado que nos outros países latino-americanos a realidade foi mais dura, foi porque havia resistência, havia luta, assim como aqui; o caso é estudar porque lá pode ser considerado pior do que aqui. Estudos de comparação me incomodam porque, geralmente, deixam de levar em conta as especificidades dos casos; não há como pesar na balança crimes contra a liberdade e a vida, são crimes. Doem no corpo e na alma de todos que prezam pela vida. Ninguém é inocente nessa história; há uma disputa; e o fato é que cada um enxerga o que quer e o que pode.
Ando estudando sobre a experiência democrática no Brasil entre 1945 e 55, e percebo que considerar, ou pelo menos tolerar, a opinião divergente é uma das atitudes mais difíceis numa relação democrática. Clamamos tanto por liberdade e democracia e, geralmente, esquecemos que isso não significa consenso e homogeneidade de opiniões. Revisionismo ao meu ver não tem - quando bem alicerçado em teoria e metodologia e, principalmente, no caso da história, em fontes diversas – conotação pejorativa; pelo contrário, vejo como oportunidade de revisitar representações (ou verdades, como queira) que foram produzidas num determinado contexto histórico, portanto, motivadas por paixões, razões e erudições próprias de seu tempo, e do tempo de seu autor. Lançar outro olhar, buscar outros ângulos; se não fosse assim, talvez estaríamos até hoje escrevendo, apenas, a história dos grandes líderes e heróis da humanidade, e muito do que conhecemos sobre a luta operária estaria perdida em arquivos e depósitos maltratados. Entretanto, quanto a fatos e processos do tempo passado que, fora de dúvidas, aconteceram é certo que não nos cabe negar, mas estudá-los e buscar compreender porque e como ocorreram, mas esse estudo depende muito do conceito de história que o profissional da memória assume, da sua bagagem erudita e capacidade cognitiva, e, também, de seu posicionamento sóciopolítico na sociedade. Não há neutralidade, bem como o historiador pode cair na armadilha das fontes e, sem perceber, ser seduzido pela verdade editada da época, especialmente quando recorre a apenas, por exemplo, um jornal do período estudado (imagine para quem só lê o Folha de São Paulo e não tem acesso a outras leituras). Não estou querendo justificar o posicionamento de Marcos Villa, do Folha de São Paulo e demais defensores dessa história de ditabranda, mas lembrar que numa democracia (e a queremos muito) esse tipo de posicionamento é possível, apesar de reprovável, e, nesse movimento de reprovação, devemos lançar mão de, não apenas, argumentos justos, mas que demonstrem toda a nossa indignação diante do desrespeito aos mortos e feridos que lutaram pelo direito que todos usufruem, ou deveriam usufruir, e mesmo as vozes em questão, de dizerem até tamanho despropósito; porque liberdade com democracia é uma conquista cotidiana. Quanto ao posicionamento da ANPUH, não posso falar pela entidade, mas acredito que os historiadores têm uma responsabilidade imensa com a memória, a história e os direitos de todos, e, nesse sentido, deveriam ser mais cobrados e reconhecidos pela sociedade, considerando que exercem um trabalho que vai além do que repassar conhecimento nas instituições de ensino, sendo que há um comprometimento político de peso, mesmo involuntário, na formação de gerações.

maria fro disse...

Zélia, em algumas situações a meu ver não cabe relativismo. Tortura é uma delas, o texto de Villa é partidário não apenas de uma ideologia conservadora, mas serrista, as eleições de 2010 já começaram. A Folha acabou de dar o tiro de morte em sua vaga sombra de respeito que tinha na academia, os professores lá dão risada, não levam a sério o jornal, assim como há décadas ignoram a Veja.
Não deixe de ler o artigo do Mino Carta que está no bloco de notas Ditabranda (no link ao final deste post), eu acho que vou acabar subindo o artigo dele tal é a importância, eu não conseguiria dizer melhor que ele.

Zélia Gominho disse...

Maria, concordo contigo. Não dá pra relativizar a tortura, não há nem como trocá-las por palavras, não tem como representar, apenas se aproximar. O esforço é pela compreensão de algo que se foi, se perdeu, e, no caso da tortura e de tantos outros crimes da humanidade é não deixar cair no esquecimento e lutar para não permitir que aconteça de novo. Mas, o conhecimento, este envolve toda uma gama de relações e sempre falamos de determinado lugar, para determinado leitor. O problema não é o Folha e Marcos Villa expressarem suas opiniões (eles cumprem o seu papel), mas, no caso, vejo que é a academia que não se posiciona efetivamente, ou seja não reage e permite que avancem. Ainda bem que estamos reagindo. Vou buscar o tx de que falou. Um abç, e vamos à luta!

meg disse...

Ocorre-me comentar com outro comentário:
"A tortura é apenas o acto de transferir para a vítima o medo do agressor." - Hayat, Faíz