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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Rodrigo Vianna faz uma boa análise sobre o quadro político da Venezuela pós-referendo

DIRETO DE CARACAS, UM BALANÇO DOS NÚMEROS:
CHAVEZ VENCEU, MAS OPOSIÇÃO FICOU MAIS FORTE

Rodrigo vianna (em seu blog: O Escrevinhador)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009 às 09:52

Este e um país onde a política está nas ruas. Com suas camisas vermelhas, e sua mania de fazer discurso, falando alto - mesmo que o público seja de uma ou duas pessoas, numa esquina qualquer do centro da cidade - os chavistas seguem comemorando a vitória em Caracas.

A Praça Bolívar é o território preferido deles. Lembra um pouco a Cinelândia no Rio, na época de Brizola, com barracas cheias de panfletos, fotografias de Che Guavara e Simon Bolivar.

Gente simples, que vem dos “barrios” mais pobres, anda por ali com um sorriso orgulhoso nos lábios, dizendo: “si, mi comandante se queda” (sim, meu comandante vai permanecer no poder).

Nas TVs privadas e nas páginas dos maiores diários de Caracas, a oposição tenta reduzir o impacto da vitória de Hugo Chavez:

- “o chavismo encolheu, o ‘sim’ teve um milhão de votos a menos do que Chavez obteve na eleição presidencial de 2006”, dizem (esse é um fato inquestionável, um número verdadeiro);

- “o processo eleitoral foi dominado por vícios”, estampa um dos jornais de oposição na primeira página (esse não é um fato; houve problemas pontuais, mas observadores internacionais e os líderes mais conseqüentes da oposição atestaram que o processo transcorreu de forma limpa e organizada).

Dessa forma, misturando fatos verdadeiros com afirmações mentirosas, a oposição terá mais dificuldades em se consolidar. Seguir afirmando que Chavez é um líder antidemocrático, e que na Venezuela impera um regime autoritário, é algo que não encontra respaldo nos fatos.

Desde que Chavez chegou ao poder, em 98, houve 15 consultas populares: eleições, plebiscitos, referendos. Tudo se resolve no voto. A oposição tem liberdade de atuar, tanta liberdade que - em 2002 – tentou derrubar o presidente com um golpe que teve amplo apoio da mídia privada.


Chavez já olha pra 2012: ele segue forte, mas perdeu eleitores

A Venezuela é uma democracia. Chavez é um líder popular. Desalojou do poder grupos que usavam a renda do petróleo em favor de uma parcela ínfima da população. A Venezuela, com Chavez, eliminou o analfabetismo, investiu pesado em Saúde, criou programas sociais bem-estruturados, levando o Estado para perto do povo (são as “missiones”, ou “Barrio Adentro”, como eles dizem aqui). Esses são fatos concretos.

Mas os chavistas parecem não enxergar (ou não querer enxergar) outro fato concreto: o eleitorado que apóia o presidente, realmente, encolheu.


Oposição não tem um líder para enfrentar Chavez, mas tem muitos votos

Vamos aos números.

1) Em 2006, Chavez obteve mais de 7 milhões de votos quando se reelegeu presidente. A oposição (com Manuel Rosales) obteve pouco mais de 4 milhões.

2) Embalado pela vitória, em 2007, Chavez tentou aprovar uma ampla reforma constitucional, incluindo a possibilidade de reeleições irrestritas e também mudaças na estrutura econômica do país para oficializar a construção do socialismo: perdeu. A oposição obteve 4,3 milhões dos votos. O chavismo teve 4,1 milhões. Ou seja, em 2007, a oposição continuou do mesmo tamanho, mas o chavismo perdeu 3 milhões de votos – gente que nem saiu de casa pra votar.

3) Agora, em 2009, o objetivo de Chavez era recuperar esses 3 milhões de eleitores, a meta era atingir 7 milhões de votos novamente. Não conseguiu. O “sim” obteve 6,3 milhões – um milhão a menos do que na reeleição de Chavez em 2006. Parte dos antigos eleitores chavistas migrou para oposição (ao que parece, definitivamente): o “não” teve 5,2 milhões de votos, um milhão a mais que em 2006 e 2007.

Quais os motivos pra isso? O sociólogo Ernesto Lander - um ex-simpatizante de Chavez, hoje crítico do governo – diz que as administrações locais do PSUV são ruins. “Falta capacidade de gestão”, ele me disse.

De fato, vi muito lixo nas ruas – tanto agora, como em 2007, quando também acompanhei o referendo em Caracas. E a criminalidade avança nos grandes centros.

No domingo, conversei com Lucia, uma eleitora do bairro popular de Petare. Ela disse que na última eleição local (em 2008) votou na oposição, ajudando a eleger um “alcaide” (prefeito) antichavista: “o pessoal do Chavez não cuidou das ruas, não recolheu o lixo”. Mas, no referendo de domingo, cravou “sim”: “sou chavista, estou com o presidente, mas os políticos precisam trabalhar”. Ou seja, parte do eleitorado pode flutuar, a depender da conjuntura e das administrações locais.

Minha impressão pessoal é de que Chavez gastou muita energia nos últimos 10 anos, com tantas consultas, tantos discursos, tanto combate verbal. Agora, precisa fazer seus partidários trabalharem firme nos governos locais. Do contrário, em 2012, pode ter dificuldades.

A oposição conquistou 45% dos votos domingo. Não é pouco. Esse votos não vieram só da classe média enraivecida, elitista e golpista. Amplos setores populares – especialmente na Grande Caracas – votaram com a oposição. Isso é fato.

O que facilita a vida do presidente é que não há, na oposição, um nome que unifique tantos setores , hoje desarticulados. Mas, até 2012, há tempo pela frente.

A crise econômica mundial e a queda do preço do petróleo jogam contra Chavez.

A favor dele, joga a história recente, em que o presidente soube se colocar - com discursos, mas também com fatos e programas concretos - ao lado dos setores até então marginalizados na sociedade venezuelana.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Emir Sader: Fases da luta anti-neoliberal

Um artigo do professor Emir Sader que me parece ainda muito atual, apreciem:

Da Agência Carta Maior

02/06/2008

Fases da luta anti-neoliberal

A luta contra o neoliberalismo já tem história, já passou por várias fases – da resistência ao inicio da construção de alternativas – e agora enfrenta um novo momento, o da contra-ofensiva da direita.
No mesmo ano do lançamento do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) -1994-, os zapatistas conclamavam a resistir à nova onda hegemônica. Ignacio Ramonet chamava, em editorial do Le Monde Diplomatique -1997-, a lutar contra o “pensamento único” e o Consenso de Washington.

O Forum Social Mundial – 2001 -convocava à construção de “um outro mundo possível”. As manifestações contra a OMC, iniciadas em Seattle – 2001 -, revelavam a extensão do mal estar com o novo modelo hegemônico e o potencial popular da luta de resistência. Era uma fase de resistência, de defensiva, diante da virada regressiva de proporções históricas gigantescas operada pela passagem de um mundo bipolar ao unipolar, sob hegemonia imperial norte-americana, e do modelo regulador ao modelo neoliberal.

No plano governamental, a consolidação da hegemonia neoliberal, produziu-se pela passagem da geração direitista inicial que a lançou – a de Pinochet, Reagan, Thatcher – para a segunda, que alguns dos seus protagonistas reivindicaram como a “terceira via” – Clinton, Blair, Cardoso -, ocupando quase todo o espectro político. Essa força compacta começou a ser furada com a eleição de Hugo Chavez na Venezuela – 1998 -, concentrando-se na América Latina a partir desse momento, com a derrota eleitoral dos principais promotores do novo modelo – Cardoso, Menem, Fujimori, Carlos Andrés Perez, o PRI -, revelando o seu fracasso.

No entanto, essa reação popular refletida nos triunfos eleitorais que sucederam ao de Chavez – Lula (2002), Kirchner (2003), Tabaré Vazquez (2004), aos que se pode acrescentar o de Daniel Ortega (2006) –, apresentaram um cenário diferente do que se pensava. Ainda que vitoriosos contra governos ortodoxamente neoliberais, esses novos governantes não apontaram para a ruptura com o modelo neoliberal, mantendo-o, com distintos graus de flexibilização – principalmente pelo peso que passaram a ter as políticas sociais.

Esses matizes, somados à opção pelos processos de integração regional – antes de tudo o Mercosul -, e à derrota da Alca – ao que eles colaboraram ativamente - revelavam, no entanto, diferenças significativas em relação aos governos que os antecederam, contribuindo para o surgimento de um cenário político inédito no continente, pela existência simultânea de uma quantidade de variadas formas de governos que se opunham aos tratados e políticas de livre comércio pregadas pelos Estados Unidos, assim como a sua política de “guerra infinita” – que teve apenas na Colômbia uma adesão explícita na região.

As vitórias de Evo Morales (2005) e de Rafael Correa (2006), ao lado do lançamento da Alba, do Banco do Sul, do gasoduto continental, da adesão da Venezuela e da Bolívia ao Mercosul, deram contornos mais amplos e fortaleceram um eixo de governos que, além do privilegio dos processos de integração regional, começavam a construir modelos de ruptura com o neoliberalismo, modelos neoliberais. O triunfo eleitoral de Fernando Lugo (2008) alarga o campo dos governos progressistas no continente, ao que pode somar-se proximamente El Salvador.

No entanto, a partir de 2007, depois de pega relativamente de surpresa pela proliferação de governos progressistas na região, a direita retomou capacidade de iniciativa. Estes governos haviam capitalizado, no plano eleitoral, o descontentamento social gerado pelas políticas neoliberais, avançando neste plano – o elo mais frágil da cadeia neoliberal.

Para recompor sua capacidade de iniciativa, a direita – cujo campo conta com a velha direita oligárquica e com as correntes social-democratas que aderiram ao neoliberalismo – lançou mão das esferas sobre as quais sua hegemonia não havia sido tocada ou que conservava, no essencial, sua força: o poder econômico e o mediático. Essa contra-ofensiva assumiu caras um pouco distintas em cada país, porém com elementos comuns: crítica da presença do Estado e de seus processos de regulação, dos processos de integração regional e com o Sul do mundo. Temas como a “corrupção” – centrado sempre nos governos e no Estado -, o desabastecimento, a autonomia dos governos regionais contra a centralização estatal, as supostas “ameaças” à “liberdade de imprensa” – identificada para eles com imprensa privada, etc.

Passada a surpresa da multiplicação de governos em que o controle do aparato estatal escapava a seu controle direto, a direita retomou a iniciativa. No Brasil, com as campanhas de denúncias contra o governo Lula; na Venezuela, depois da tentativa de golpe de 2002, na defesa dos monopólios privados da mídia, a corrupção e o desabastecimento; na Bolívia, contra a reforma agrária, a nova Constituição e o uso dos novos impostos à exportação do gás para que o governo central realize políticas sociais; na Argentina, contra formas de regulação de preços e o desabastecimento; no Equador, contra a nova Constituição e as novas formas de regulação estatal. Conta também com os dois principais governos de direita na região – México e Colômbia -, tentando abrir um processo de privatização da empresa estatal do petróleo, Pemex, no primeiro, intensificando o epicentro das guerras infinitas na região, no segundo caso.

Depois de ter ficado na defensiva nos anos de expansão da economia internacional, que favoreceu a obtenção de recursos do comercio exterior para intensificar suas políticas sociais, a direita retoma a ofensiva também neste plano, de denuncias sobre os riscos de retomada da inflação, sobre a necessidade de novos ajustes, de elevação novamente das taxas de juros, buscando retomar a prioridade da estabilidade monetária sobre a expansão econômica.

A fase atual está marcada pelo recrudecimento dos enfrentamentos entre os governos progressistas e a oposição de direita, no plano político e ideológico. As tentativas de desqualificação do papel do Estado ganha destaque central como tema centralizador do conjunto de debates e polêmicas entre direita e esquerda. Se perfilam hoje no continente países que seguem com o esquema do Estado mínimo – com o México tentando dar início a um processo de privatização da empresa petrolífera Pemex, como exemplo do novo ímpeto privatizador do neoliberalismo no continente, com o Perú, aderido recentemente, assim como a Costa Rica e o Chile, embora concertando alguns dos graves buracos do seu outrora modelo de previdência privada, mantêm-se como o “caso” exibido como de sucesso desta vertente -, por um lado.

Por outro, países buscam a refundação dos seus Estados, em base a esquemas posneoliberais e posliberais, no sentido de buscar novas formas de representação política, mais além do formalismo liberal, como são os casos da Bolívia, do Equados – ambos buscando fundar Estados plurinacionais, pluriétnicos, pluriculturais – e da Venezuela. Entre eles, se situam países que colocam em prática níveis de regulação do Estado, sem recompor os Estados prévios ao neoliberalismo, mas freando o desmantelamento dos aparatos estatais e fortalecendo capacidades setoriais de regulação estatal, brecando os processos de privatização anterior, fomentando o novo crescimento do trabalho formal e reequipando o funcionalismo público e os serviços públicos – de que os casos do Brasil e da Argentina são exemplos.

O destino do neoliberalismo no continente não está definido. Ele continua hegemônico, seja pelos países que mantêm ortodoxamente o modelo, seja porque ele continua hegemônico em vários dos principais países do continente, de uma ou outra forma – Brasil, México, Argentina, Colômbia, Chile, Peru, Uruguai, Costa Rica, - em um mundo dominado pelo neoliberalismo. Seu destino será decidido antes de tudo nos três países de economias mais fortes. Entre eles, por enquanto o México avança consolidando a hegemonia neoliberal, a Argentina e o Brasil preservam o modelo, com flexibilizações, porém ameaçados por forças opositoras de direita.

O espaço mais significativo de construção pós-neoliberal é a Alba – Iniciativa Bolivariana para as Américas -, em que os países que dela participam – Venezuela, Cuba, Bolívia, Nicarágua, mais intercâmbios importantes com o Equador -, constróem relações de intercâmbio solidárias, buscando responder às necessidades e possibilidades de cada país, de forma alternativa às leis do “livre comércio” da OMC, praticando o que o Fórum Social Mundial chama de “comércio justo”. Este é um espaço tipicamente pós-neoliberal, que depende da consolidação dos processos políticos nesses países.

domingo, 14 de setembro de 2008

O mundo unipolar e a esquerda na América Latina, uma análise da geopolítica

Evo Morales é um presidente legítimo não há o que se discutir a respeito disto. Ele não apenas foi eleito com ampla margem como recentemente aceitou um plebiscito proposto pela elite separatista da Média Luna e foi referendado pelo povo com mais de 60% de aprovação, o que não ocorreu com prefeitos e governadores de algumas províncias que governam a chamada região da Média Luna. No entanto, como era de se esperar essa mesma elite não cumpriu o combinado e não apenas não aceitou o veredito do plesbiscito que ela mesmo propôs, como agora iniciou uma guerra civil sob a capa do discurso da autonomia, mas que objetiva dar um golpe de Estado.

A elite da Média Luna não é qualquer elite, ela é em sua maioria de origem européia, racista e fascista em seu discurso e prática, não aceita as reformas de cunho social realizadas nos governos de Evo Morales e deseja perpetuar as desigualdades e para defender seus interesses de classe alia-se aos EUA e a outros latifundiários, inclusive brasileiros, deixando de lado os interesses nacionais. Ela se opõe, por exemplo, a um programa de paposentadoria aos idosos do país, que conta com verbas obtidas da renda do gás. Essa elite não quer permitir o aumento da pensão aos idosos. Ela se opõe também aos limites ao latifúndio impostos pela nova Constituição boliviana que será referendada em dezembro. Avaliem 860 proprietários controlam 46% das terras da planície (quatro deles com glebas de mais de 50 mil hectares cada um), enquanto 54 mil empresários médios só possuem 7,3% da área. Os indígenas foram despojados de suas terras, e o agronegócio (movido por croatas, sírio-libaneses, estadunidenses e brasileiros) está por detrás das agitações.

No Brasil temos especialmente no sul/sudeste do país (em municípios isolados) um discurso separatista que, por vezes, recai no preconceito regional e racial. Perto da elite racista e fascista da Média Luna nossos neoconservadores separatistas são café-com-leite. Mas só para entendermos o que ocorre hoje na Bolívia, façamos um exercício: imaginemos que São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul resolvessem se separar do restante do país, alegando que os nordestinos representam o atraso, são inferiores etc. e para isso os prefeitos e governadores desses estados se articulassem com a embaixada dos EUA, recebessem dinheiro, se armassem, passassem a resistir às leis estabelecidas no Brasil e buscassem por todos os meios derrubar o presidente do Brasil.

Entendido o que está ocorrendo na Bolívia, resta saber sobre o posicionamento de Chavez : no dia 11 de setembro ele fez um discurso contundente contra os EUA e expulsou o embaixador estadunidense da Venezuela em solidariedade a Evo Morales. Chavez entre os presidentes eleitos e reeleitos latino-americanos é o que mais marcadamente se opõe à interferência estadunidense nos assuntos latino-americanos.

No artigo a seguir o jornalista Luiz Carlos Azenha, sem incorrer em juízos de valor, faz uma análise bastante interessante, contextualizando a atual crise na Bolívia. O artigo foge dos costumeiros reducionismos presentes na mídia brasileira quando o assunto é a América Latina. Vamos ao texto do Azenha e nos próximos posts outros artigos críticos sobre a crise na Bolívia:


OS BOMBARDEIROS RUSSOS EM CARACAS E O QUE VOCÊ TEM A VER COM ISSO

(Luiz Carlos Azenha)

Atualizado em 13 de setembro de 2008 às 23:50

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Dois bombardeiros estratégicos russos TU-160, conhecidos como Blackjacks, estão na Venezuela e devem permanecer no país até o próximo dia 15. Não estranhe se nas próximas horas Hugo Chávez voar em um deles. É a primeira vez que aviões russos pousam na região desde o fim da Guerra Fria. Em tese os aviões podem voar com mísseis nucleares mas já se sabe que não vieram armados com bombas atômicas.

A União Soviética já controlou a base de Lourdes, em Cuba, de onde praticava espionagem eletrônica no "quintal" dos Estados Unidos. Agora os russos parecem interessados em mandar uma mensagem aos Estados Unidos: se vocês querem brincar em "nosso quintal" também podemos brincar no "quintal de vocês".

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Até o final deste ano a Venezuela deverá receber a visita do contratorpedeiro Pedro O Grande (foto acima), do cruzador Almirante Chabanenko e de outros navios de guerra russos. Não está confirmado se haverá ou não manobras conjuntas no mar do Caribe. Vale mais pelo simbolismo.

O jornal russo Izvestia disse que o país pode estacionar bombardeiros TU-160 em Cuba, na Venezuela e na Argélia. Eles fazem parte do tripé nuclear de ataque da Rússia para um eventual confronto nuclear com os Estados Unidos. Para ter algum valor militar significativo essa medida exigiria grandes investimentos em pessoal e equipamento que parecem incertos.

Para entender o que está acontecendo é preciso recuar ao fim da Guerra Fria. Tive a sorte de testemunhar pessoalmente a "queda" do Muro de Berlim na capital alemã. Todos nós imaginávamos que o mundo estava a caminho de se livrar das armas nucleares. Mas o que aconteceu desde então? O mundo se tornou unipolar. Os Estados Unidos, através de uma variedade de instituições públicas e privadas, de influência em processos eleitorais e de conflitos militares quentes e frios fez avançar seus interesses em todo o mundo. Não vou emitir juízo de valor. Trata-se de uma constatação factual. A OTAN se expandiu. Áreas que um dia estiveram sob controle soviético hoje são da esfera de influência dos Estados Unidos.

Os Estados Unidos atingiram a hegemonia nuclear, ou seja, hoje têm a certeza de que poderiam vencer uma guerra nuclear atirando primeiro. Sem isso não teriam derrubado o governo do Afeganistão ou invadido o Iraque.

O que a Rússia fez, na Geórgia, foi deixar claro que quer ser levada a sério na arena internacional. Os russos consideram que existe um limite para a expansão da aliança militar do Ocidente. Não aceitam a entrada na aliança da Geórgia e da Ucrânia. Washington apóia a entrada dos dois países. Os europeus não estão certos disso.

Se hoje existe uma grande diferença entre Estados Unidos e Rússia há também entre Estados Unidos e União Européia. Mas nisso Bush, McCain e Obama concordam: a expansão da OTAN deve incluir a Geórgia e a Ucrânia.

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Agora olhem o mapa acima, que identifica o Mar Negro (Black Sea). Notem a posição da Ucrânia (Ukraine), no alto, e da Geórgia, à direita, em relação à Rússia.

Acharam Sevastopol no mapa? É onde fica baseada a frota russa do Mar Negro.

A Geórgia não é importante apenas por ser um corredor para tirar petróleo da região do mar Cáspio. É essencial também para o controle do próprio mar Negro. Existe um tratado internacional que prevê que navios da OTAN só podem permanecer na região durante 21 dias. A entrada para o mar é controlada pela Turquia nos estreitos de Bósforo e Dardanelos. A Turquia é integrante da OTAN.

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A presença de um grande número de navios estrangeiros na região causou grande alarme na Rússia durante a recente crise. Os Estados Unidos, alegando a necessidade de entregar ajuda humanitária, despacharam para a Geórgia o navio da Guarda Costeira Dallas, o USS Mount Whitney e o contratorpedeiro USS McFaul (foto).

É nesse contexto que é preciso entender o envio dos bombardeiros russos - desarmados - à Venezuela e a decisão do governo Bush de acusar dois integrantes do governo de Hugo Chávez de terem dado ajuda ao narcoterrorismo na Colômbia.

Além da expansão da OTAN, os russos reclamaram muito do apoio ocidental à independência de Kosovo e da instalação de mísseis anti-míssil dos Estados Unidos na Polônia, com radares de monitoramento na República Tcheca. Vladimir Putin não acordou um dia e decidiu: "Vou ficar maluco e tocar fogo no mundo". Por mais que você não concorde com ele é nesse quadro que se explicam as ações recentes de Moscou.

Deixo com vocês os cinco pontos da nova política externa da Rússia, como definidos pelo presidente do país, Dmitri Medvedev:

1. A Rússia reconhece a primazia dos princípios da lei internacional;

2. O mundo deve ser multipolar. O mundo unipolar é inaceitável;

3. A Rússia não quer confronto, não tem a intenção de se isolar;

4. A prioridade da Rússia é proteger a dignidade e a vida de "nossos cidadãos" (considere que há grande quantidade de russos vivendo fora do país, inclusive na Ucrânia);

5. A Rússia, assim como outros países do mundo, tem regiões nas quais tem interesses privilegiados. Nessas regiões, há países com os quais tradicionalmente tivemos relações cordiais, relações historicamente especiais. Vamos trabalhar atentamente nessa regiões e desenvolver relações amigáveis com esses países, com nossos vizinhos próximos.

Já os Estados Unidos tentam restabelecer sua hegemonia na América Latina. Hugo Chávez e Evo Morales se associaram ao Irã e buscam uma inserção internacional fora do guarda-chuva de Washington, num período em que Washington tenta reduzir sua dependência das fontes de energia do Oriente Médio e olha crescentemente para as reservas existentes na própria região. Tanto Barack Obama quanto John McCain colocaram esse objetivo em suas plataformas eleitorais.

A mídia brasileira não levou a sério as recentes denúncias de Hugo Chávez e Evo Morales de que teria havido tentativas de golpe nos dois países. Dado que atacar os Estados Unidos é politicamente conveniente - especialmente no caso de Chavez, que enfrenta eleições em 23 de novembro - é bom mesmo receber as denúncias com uma pitada de sal. Mas a História da América Latina é marcada pela História de intervenções armadas e desarmadas de Washington, com ou sem a mão do gato. E o governo Bush pode muito bem ter tentado limpar a área para um futuro governo. A ver.

Leia também:

DOSSIÊ Bolívia: raça e classe podem dividir o país no referendo de 04 de maio

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

É o petróleo, só o petróleo "Vocês fizeram história, escreveram a história" Hugo Chávez

Este é um dos trechos do documentário de A revolução não será televisionada que me parece sintetizar as principais questões discutidas por seus autores Kim Bartley e Donnacha O'Briain.

Quem ainda não o assistiu, não perca, vale a pena. Clique no vídeo abaixo e será direcionado/a às demais partes do documentário. Ao todo são 10 partes.

Hugo Chavez resolve mexer na direção da maior empresa petroleira do país (PDVSA) e se inicia uma oposição articulada das emissoras de tevê venezuelas contra o presidente que culminou no golpe de Estado.
Nas três primeiras partes o governo popular de Chavez e a crescente oposição da elite econômica.

Na parte 5 você pode ver o golpe e na 6 a explicação de como ele foi articulado.

A partir da parte 7 o/a expectador/a pode acompanhar a rearticulação do povo venezuelano que elegeu Chávez, do governo eleito, assim como do Congresso e da Guarda pessoal do presidente articulando-se para retornar à legalidade e controlar os golpistas (elite econômica, tevês, igreja e alto comando das forças armadas).

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Avanços nas relações diplomáticas na América Latina?

Dois registros interessantes capturados após a Libertação de Ingrid:


Na França, pessoas removem cartaz que pedia a liberdade de Ingrid Betancourt, política franco-colombiana que passou mais de seis anos seqüestrada pelas Farc, na Colômbia








Em Bordeaux, na França, pessoas penduram faixa escrita "Enfim livre!" sobre cartaz de Ingrid Betancourt










Ontem propus algumas questões para refletirmos sobre o papel político da franco-colombiana Ingrid Betancourt em relação ao processo de pacificação entre o poder institucional da Colômbia e a guerrilha promovida pelas Farcs, assim como sua postura diante das relações entre os governos latino-americanos, veja aqui.

São razoavelmente animadoras as notícias de hoje:

Ingrid Betancourt pede que Chávez e Correa restabeleçam laços com Uribe; Chávez parabeniza vizinho

Das agências internacionais
03/07/2008 - às 14h34







Após 6 anos em poder das Farcs ingrid Betancourt reencontra os filhos: Melanie e Lorenzo














A franco-colombiana Ingrid Betancourt, resgatada com outros 14 reféns das Farc em 02/07/2008, insistiu hoje para que os presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, e do Equador, Rafael Correa, restabeleçam vínculos com Bogotá em benefício de novas libertações unilaterais com as Farc. "A primeira coisa que devemos fazer é um apelo ao presidente Chávez e ao presidente Correa para que ajudem a restabelecer vínculos de amizade, de fraternidade e confiança com o presidente Uribe. Esta é uma etapa essencial para que possamos vislumbrar novas libertações unilaterais."

Ainda nesta quinta-feira, o presidente venezuelano Hugo Chávez felicitou seu colega colombiano Álvaro Uribe pelo resgate dos reféns e se colocou a sua disposição para ajudar na libertação de todos os seqüestrados e obter a paz no país vizinho.

Em declarações à imprensa durante o reencontro com os filhos que chegaram da França à capital colombiana nesta manhã, Betancourt convidou também outros dirigentes políticos latinoamericanos para que se envolvam em busca de uma solução para o conflito interno que vive o seu país.

"Temos também que convidar os novos atores regionais para que nos ajudem a fazer isso mudar. Penso na presidente da Argentina, Cristina Kirchner, e outros chefes de Estado para que, com entendimento, nos ajudem a libertar os seqüestrados sem fortalecer a guerra na Colômbia", advertiu ela.

Betancourt apelou à influência que vários presidentes da América Latina teriam sobre os comandantes das Farc para que "nos ajudem para que as mudanças que precisamos que ocorram na Colômbia se dêem pelas vias democráticas, apelando ás Farc para que deixem os terrorismo e empreendam o caminho da negociação."

Ingrid Betancourt, seqüestrada em 23 de fevereiro de 2002, foi resgatada em 02/07/2008 junto com mais três americanos e onze militares e policiais colombianos em uma operação militar do governo de Álvaro Uribe.

O presidente venezuelano Hugo Chávez figurou até novembro passado como mediador de uma negociação de troca de reféns por rebeldes presos, mas o trabalho foi interrompido por Uribe, que acusou Chávez de se meter em assuntos de seu país. Este fato provocou uma tensão diplomática entre Bogotá e Caracas.

Os 15 reféns resgatados faziam parte de um grupo de 39 seqüestrados que as Farc propõem trocar por 500 guerrilheiros presos, incluindo três que estão presos nos Estados Unidos

França continuará apoiando luta pela libertação de reféns
O chanceler francês Bernard Kouchner agradeceu ao presidente Álvaro Uribe e ao povo colombiano e sua "luta pela libertação dos reféns em poder das Farc" e disse que Paris continuará apoiando os esforços para conseguir o retorno dos demais seqüestrados.

Kouchner viajou de París em um avião enviado pelo governo francês para levar os filhos da ex-senadora. "É um milagre. Um momento mágico ver Ingrid rodeada por sua família. Isso não nos impede, no entanto, de pensar em todos os outros que estão em poder das Farc e a formidável força da família Betancourt vai servir também para libertar os demais."

O chanceler francês também disse que dividia os agradecimentos "com todos os países da América Latina, com todos os presidentes", em uma alusão às tarefas cumpridas pelos mandatários da Venezuela, Hugo Chávez, e do Equador, Rafael Correa, que se propuseram a negociar com os rebeldes a libertação dos seqüestrados.

Após este resgate, as Farc mantêm em seu poder pelo menos mais 24 reféns, entre eles três políticos, que faziam parte deste grupo de reféns que as Farc pretendiam trocar pelos rebeldes presos. A principal guerrilha colombiana tem, além destes, pelo menos mais 750 seqüestrados por motivos econômicos, segundo uma estimativa do governo.

O Equador anunciou em 03/07/2008 que não retomará as relações diplomáticas com a Colômbia apesar do pedido feito pela ex-refém Ingrid Betancourt para que deixe de lado as divergências e ajude nas negociações para a libertação dos seqüestrados que permanecem em poder das Farc.

A chanceler María Isabel Salvador reiterou seu contentamento com o resgate da ex-candidata à Presidência colombiana, mas descartou que isso possa levar Quito a retomar as relações diplomáticas com Bogotá, rompidas desde março por causa de um bombardeio colombiano contra um acampamento rebelde no Equador.

"Não acho que seja preciso mudar nada (na frente diplomática) porque são coisas distintas. O que ocorreu no dia 1o de março foi uma violação da soberania equatoriana. Nesse sentido, não há por que mudar a situação, não vamos misturar as coisas", considerou Salvador em uma entrevista concedida à rede de TV Teleamazonas.