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sábado, 20 de setembro de 2008

Por toda a América Latina manifestações em prol da legalidade do governo boliviano


Centenas de pessoas reuniram-se no fim da tarde desta quinta-feira (18-9) em frente ao consulado da Bolívia em São Paulo para protestar contra a tentativa de golpe no país andino e emprestar solidariedade ao governo de Evo Morales, bem como rechaçar a intromissão dos Estados Unidos nos assuntos internos dos países da América Latina.

Dezenas de entidades estavam presentes ao ato. Centrais sindicais, partidos e movimentos sociais compareceram para dizer "não ao golpe separatista na Bolívia! Abaixo a direita fascista na América Latina”, conforme o título do Manifesto de Solidariedade divulgado durante a manifestação.

Ao lado de muitos bolivianos residentes no Brasil, que leram o manifesto de apoio ao governo de Evo Morales, representantes das entidades externaram seu repúdio à tentativa de golpe no coração da América do Sul.
Presente no evento, Wagner Gomes, presidente da CTB, discursou alertando que a solidariedade dos trabalhadores e do povo brasileiro ao povo boliviano é urgente e necessária. "O governo americano está envolvido nessa tentativa de desestabilização do governo de Evo Morales, por isso se faz necessária a unidade dos nossos povos para derrotar a ingerência do imperialismo na América Latina", declarou.

O presidente boliviano tem enfrentado há quase um mês violentos protestos em departamentos (Estados) governados pela oposição (Pando, Beni, Santa Cruz e Tarija). A direita neoliberal é contra a nova Constituição que Morales pretende aprovar para aumentar a participação do Estado na economia, dar mais poderes à maioria indígena e promover uma reforma agrária. Na sexta-feira (12/09), um dos conflitos resultou no assassinato de 30 camponeses em Pando, cujo governador, Leopoldo Fernández, foi detido nesta quinta-feira, acusado de ser o mandante do massacre.

O Cônsul da Bolívia em São Paulo agradeceu a manifestação de apoio do povo brasileiro e recebeu das mãos dos presentes o Manifesto de Solidariedade ao povo boliviano e ao governo de Evo Morales.
(Texto extraído do portal da CTB.org

MANIFESTO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS E ENTIDADES BRASILEIRAS


Não ao golpe separatista na Bolívia!
Abaixo a direita fascista ianque na América Latina!


Na última semana, uma escalada de violência tomou o leste da Bolívia. Como não puderam eleger um representante direto das classes dominantes para o governo central, grupos civis da direita fascista tentam impor um golpe separatista ao país, com vistas à derrubada do governo de Evo Morales e retomar o controle absoluto sobre o país vizinho e, em especial, sobre o gás e os demais hidrocarbonetos.

Tais grupos, liderados pelos auto-intitulados "comitês cívicos" e pelos governadores oposicionistas de cinco departamentos (estados), em coordenação com a Embaixada Norte-Americana, implementaram um verdadeiro estado de terror em muitas cidades do oriente boliviano.

O caráter racista destas manifestações - que chamam de “invasor” o indígena do altiplano que migra para as terras baixas - é evidente não somente no discurso. Muitas das ações violentas desta semana se deram justamente nos locais de trabalho e de moradia desta população migrante - como no mercado camponês em Tarija e no bairro popular Plan 3000, em Santa Cruz. Porém, a gota d’água ocorreu na última quinta-feira (11/08), quando 30 trabalhadores camponeses (dados divulgados pelo governo boliviano até dia 14/09) foram massacrados por funcionários e grupos paramilitares ligados ao governo oposicionista do departamento de Pando.
Frente a esta situação, chamamos a todos para um ato de repúdio veemente à iniciativa de golpe separatista na Bolívia. Os EUA nunca hesitaram em utilizar a força para impor estados de terror com o objetivo de impedir o avanço das lutas e reivindicações camponesas, indígenas e operárias. Mas a ditadura e o fascismo não voltarão! Abaixo a direita fascista ianque na América Latina!

Assinam:

VIA CAMPESINA, MST, MTST, INTERSINDICAL, CONLUTAS, CMS, CTB, CUT, MARCHA MUNDIAL DAS MULHERES, UNE, PASTORAL OPERARIA METROPOLITANA DE SÃO PAULO, CONSULTA POPULAR, SERVIÇO PASTORAL DOS MIGRANTES, MTL, GRITO DOS EXCLUIDOS CONTINENTAL, PSOL, PSTU, PCB, PT, PCdoB e REFUNDAÇÃO COMUNISTA.

Ato de solidariedade e apoio ao povo Boliviano, realizado em São Paulo, Brasil, 18 de setembro de 2008, VÍDEO produzido pela Tv Classista- TV da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil - CTB - www.ctb.org.br.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

ESPECIAL BOLÍVIA: Uma guerra que começou há muito tempo

Os conflitos que a Bolívia enfrenta hoje são uma nova etapa de uma antiga guerra. A história do país é uma história de massacres de indígenas, camponeses e trabalhadores, desde os tempos coloniais até hoje. A diferença, hoje, é que a oligarquia boliviana está sendo governada por um "índio", algo inaceitável para ela.

BARCELONA (ALAI-AMLATINA) - Quem se interessa por história, descobrirá que a da Bolívia é uma história de massacres de indígenas, camponeses e trabalhadores desde os tempos coloniais até hoje. A República sustentou-se sobre a exploração da força de trabalho indígena e dos recursos naturais. A exploração consolidou uma estrutura social e institucional vinculada à produção e à exportação de matérias primas, consolidando no longo prazo uma condição de dependência que a converteu num dos países mais pobres do hemisfério ocidental. Com uma organização social extremamente estratificada e um horizonte estatal frágil, sua história é marcada por exclusão e massacres. Os povos originários nunca deixaram de manifestar seus anseios de liberdade, como provam as inúmeras sublevações, tanto as que culminaram com a grande rebelião de 1780, como as contra os fazendeiros, durante a República.

Algumas destas sublevações tiveram grande magnitude, não só pelo esforço da mobilização e a tragédia que representaram, mas pela memória e herança emancipatória transmitida de geração em geração. As de 1874 e 1899, nas terras altas e nas terras baixas do país, se desdobraram em manifestações que terminaram em novos massacres como a rebelião de Machaca, em 1921, ou a de Chayanta, em 1928. Os massacres de trabalhadores também tiveram sua marca de dramatismo como a matança de mineiros em Uncia, em 1923, Catavi, em 1942, a guerra do Chaco (1932-1935), a revolução de 1946, a de 1952, a de 1964, a matança de San Juan, em 1967, o golpe militar de Bánzer, em 1971, o massacre de trabalhadores e universitários de 1979, a marcha pela vida, em 1986, a marcha pela terra , em 1990, a guerra do gás e o massacre de El Alto, em 2003, e, agora, o massacre de Pando.

Com o tempo, consolidou-se na estrutura mental dos povos indígenas e dos movimentos populares, tanto das terras altas como das terras baixas, uma cultura política insurrecional e de resistência anticolonial que foi e é uma guerra longa e intermitente contra os invasores e seus descendentes, que cruza de forma transversal toda a história boliviana. Agora, esses movimentos populares e indígenas, liderados pelo presidente Evo Morales, converteram-se em uma real opção de poder político e construção de uma nova hegemonia política que questiona a estrutura oligárquico-clientelista e antinacional que governou o país até dois anos atrás. Os movimentos indígenas e campesinos já não são sujeitos de postais folclóricos, agora são uma real opção de poder político para o país. Essa é a dimensão deste novo paradigma.

(Massacre de Porvenir)

Inclusive a esquerda tradicional, baseada em paradigmas que já não se sustentam, como o fato de assumir a “inevitável” vanguarda operária em todos os processos revolucionários, tem dificuldade em assumir a potência deste novo e, ao mesmo tempo, antigo ator social cuja estratégia de poder se sustenta na recuperação do Estado para as maiorias nacionais e que este sirva não só para assegurar a propriedade dos recursos naturais para todos os bolivianos, mas também para redistribuir as rendas obtidas com sua exploração. O conservadorismo da oligarquia boliviana, idêntica a de qualquer outra região, viu-se obrigada a aceitar ser governada por um “índio” que, segundo seus cálculos, cairia por si próprio e por sua condição de “índio”. Mas quando se questiona a estrutura da propriedade da terra, estão dispostos a tudo para não abandonar o cenário da história.

A sedição aberta da direita responde a uma estratégia planificada e coordenada de violência, bloqueios de estradas, ocupações de entidades estatais, controle e saque de instituições públicas, plano de fustigamento e ameaças, ocupação de quartéis, fechamento de válvulas de gás, desabastecimento de produtos básicos, desestabilização econômica, criação de um clima de insegurança e desgoverno. Um pano golpista que coincide, quase como uma cópia, com o que ocorreu no Chile durante o governo de Salvador Allende. Com tudo isso, ainda fica no ar uma sensação de passividade por parte do governo boliviano. Os movimentos sociais tomaram a iniciativa de conter a escalada golpista com a mobilização de suas bases, cuja decisão é frear a direita com a autoridade moral que lhes dá o sangue derramado, sua capacidade combativa e o horizonte de um modelo de país diferente.

Foram eles que carregaram sobre seus ombros os vexames e a marginalização a que os submeteram a colônia e o estado republicano oligárquico. O governo popular tem a obrigação de fazer respeitar o Estado de Direito em todo o país e levar para a Justiça os criminosos, sediciosos e paramilitares fascistas que executaram um novo massacre. O que eles pensaram que seria um elemento que incendiaria os sentimentos regionalistas autonomistas da direita fascista, acabou gerando uma reação contrária. O crime e a barbárie desta ação expôs essa direita. As Forças Armadas e a Polícia Nacional, historicamente, atenderam aos interesses da oligarquia a qual pertencem seus principais oficiais. Isso explica em parte sua posição de “braços cruzados” e inoperância frente às ações ameaçadoras da classe social com a qual se identificam.

Na história dos massacres, os militares sempre foram os atores inconfundíveis da repressão e da morte. Em todos os casos, atuaram como sicários a serviço das oligarquias. Exceto no último massacre campesino de Pando. Isso não é sinal de nada, só que devem cumprir a lei que lhes assinala a responsabilidade de serem “garantidores da unidade da pátria” e de obedecerem ao seu comandante geral, o presidente Evo Morales. Mas é preciso não cair na ingenuidade de pensar que estejam de acordo com o novo projeto de país que se constrói na Bolívia. A maior debilidade do campo popular é sua extrema diversidade e as lutas setoriais. A maior vantagem, a capacidade e tradição de luta revolucionária. O país está chegando a um ponto de bifurcação, a um ponto de inflexão e ruptura. A saída “democrática” foi esgotada com os resultados do referendo revocatório.



A violência provocada pelas oligarquias deve enfrentar as conseqüências da resposta popular. A guerra civil que muitos temem, na verdade, já começou há muito tempo, só que agora adquire uma dinâmica diferente, uma liderança distinta. O projeto emancipatório que devemos apoiar é o da “Revolução democrática e cultural”. O presidente Evo Morales assume com uma fortaleza grave a liderança desta nova etapa. Definindo que sua posição está ao lado do povo que hoje decide assumir o desafio que lhe impõe a história. A principal tarefa dos movimentos sociais e indígenas é tomar a iniciativa e passar da resistência à ofensiva. O seguinte passo é aprovar a Nova Constituição Política do Estado.

* Economista boliviano, professor da Universidade Autônoma de Barcelona.

Agência Carta Maior- Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

Fotos: Gonzalo Jallasi/ABI

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

O encontro de Santiago

Acompanhe o encontro de Santiago ao vivo aqui

Mauro Santayana (do Jornal do Brasil)

15/09/2008

Convocados pelo Chile reunem-se, na tarde de hoje, em Santiago, os países sul-americanos, para discutir a crise boliviana. O Brasil, em conseqüência das suas dimensões políticas, terá grande responsabilidade nas decisões da Unasul. Para isso, o presidente Lula conta com a habilidade e a tradição de coerência do Itamaraty. O peso do Chile é também destacado. Em conseqüência de uma guerra, entre 1879 e 1883, a Bolívia perdeu para o Chile grande parte de seu território, até o litoral, no Pacífico, e, o Peru, parcela de seu espaço meridional, na disputa pelas riquezas minerais do deserto de Atacama e do guano da costa.

A Bolívia e o Paraguai são os dois únicos países mediterrâneos da América do Sul, o que lhes traz desvantagem do ponto de vista econômico – mas são países estratégicos do ponto de vista geopolítico. O Paraguai tem bom acesso fluvial ao Atlântico, pelo Rio da Prata. A Bolívia depende basicamente de duas ferrovias, Santa Cruz de la Sierra–Corumbá, com acesso a Santos, e a de La Paz a Arica, no litoral chileno, ambas construídas como concessão, com os acordos com o Brasil (na Questão do Acre) e com o Chile, depois da guerra perdida.

Até a segunda metade do século passado, o eixo da economia boliviana estava na cordilheira, com a extração mineral, principalmente de estanho. Os trabalhadores das minas, sob a poderosa Central Obrera Boliviana, comandada por Juan Lechin, com sua mobilização permanente, exerciam papel estabilizador no país, como árbitros nas disputas políticas. As terras baixas estavam abandonadas. Mesmo entre os indígenas havia a diferença entre os nativos do Altiplano, com sua cultura incaica, e os guaranis e outros grupos das selvas do sopé da Cordilheira. O potencial econômico da região oriental era o da indústria extrativa no Nordeste da Bolívia (seringais e castanhais) e o Sudeste, com as jazidas de petróleo e gás, cobiçadas pela Shell e pela Standard Oil. As duas empresas (a primeira anglo-holandesa e a outra, norte-americana) provocaram a Guerra do Chaco com o Paraguai, nos anos 30 – também perdida pelos bolivianos. Essas jazidas começaram a ser exploradas mais tarde, por empresas multinacionais – e pela Petrobras.

O aumento da demanda e dos preços de produtos agrícolas, nos últimos anos, e as novas tecnologias de produção, estimularam a exploração capitalista das terras baixas da Bolívia, adquiridas a preços insignificantes pelos estrangeiros. Nestas três últimas décadas, sua ocupação por empresários do agronegócio (muitos deles brasileiros, americanos e croatas) promoveu, ao mesmo tempo, a concentração da propriedade, a expulsão dos índios e dos pequenos agricultores, o surgimento de burguesia branca, racista e – como mostram os últimos fatos – de caráter neonazista.

Os países do continente, que irão reunir-se hoje em Santiago, sabem que é preciso cortar logo essa tentativa de balcanização, incentivada pelos norte-americanos, que ameaça nossas repúblicas (a Venezuela, entre outras). A Bolívia deve somar os recursos do Altiplano aos das terras baixas, para sobreviver como nação. Não pode ser dividida. Aceitar o precedente é contar com movimentos separatistas em todos os países, com as áreas mais ricas tentando livrar-se de suas responsabilidades nacionais com as regiões mais pobres. No Brasil temos, há algum tempo, movimento separatista nos Estados meridionais, sob o lema de O Sul é o meu país. Manter as fronteiras históricas da América do Sul é garantir a paz.

É também chegada a hora de dizer a Washington que o continente está disposto a assumir identidade comum diante do mundo, e a não permitir a velha política de intriga de uns países contra os outros, fomentada pelos estranhos. Os governos de Morales e de Chávez podem não agradar a muitos. Mas todos os vizinhos lhes devem respeitar a legitimidade, posto que confirmada nas urnas, em eleições limpas, acompanhadas por observadores internacionais.

O pretexto dos separatistas, ao reclamar os impostos do petróleo, é improcedente. Depois da nacionalização promovida por Morales, a parcela dos recursos tributários sobre o petróleo, destinada aos departamentos, cresceu 300%. Desse dinheiro, Morales quer utilizar 30% para subsídio de US$ 20 a US$ 26 mensais a centenas de milhares de idosos pobres, muitos deles da própria região – o que os "autonomistas" consideram um esbulho.

Bolívia: A Guerra do Gás Continua



O interessante é que as classes/etnias tentam se reapropriar do gás, o elemento de uma unidade nacional que vem se constituindo a partir do indígena

O interessante é que as classes/etnias tentam se reapropriar do gás, o elemento de uma unidade nacional que vem se constituindo a partir do indígena

15/09/2008

Carlos Walter Porto-Gonçalves e Marcelo Câmara* (Brasil de Fato)

Em outubro de 2003 a Bolívia se via diante de amplas mobilizações callejeras que se aglutinaram em função da manifesta vontade do governo de então - Gonzalo Sánchez de Lozada - de exportar o gás boliviano pelo Chile, episódio que ficou conhecido como Guerra del Gás. Somente um homem que fala um espanhol com forte sotaque inglês, ou melhor, norte-americanizado, como o Sr. Goni de Lozada, seria capaz de fazer uma proposta daquele teor, ignorando não só o tempo de longa duração da história do povo boliviano que remete à perda de território para aquele país vizinho, como mostrava completa ignorância com o tempo de curta duração que, em 2000, mobilizara amplas camadas do país contra a privatização da água em Cochabamba, na chamada Guerra del Água. A ignorância, misto de soberba e onipotência, que tão bem caracteriza a tradicional classe/etnia dominante criollo/mestiza boliviana não se apercebia que o conjunto de políticas iniciado pelo mesmo Goni de Lozada, em 1985, no perfeito receituário recomendado pelo Banco Mundial e o FMI, estava desabando. A quebra do setor mineral do país com o desmonte das empresas estatais fragilizaria um dos principais pólos de resistência popular no país, a histórica COB - Central Obrera Boliviana - mas engendraria um dos fenômenos de novo tipo que vem marcando o país, e para o qual as ciências sociais não têm um nome para caracterizar o processo, qual seja, a recampenização desse proletariado mineiro que agora se dispersava. Trata-se, na verdade, da reterritorialização camponesa desse proletariado em dispersão, sobretudo pelos vales do Chapare, quando passam a se dedicar em grande parte ao cultivo de coca. E na Bolívia, assim como no Equador, Peru, México, Guatemala, Paraguai e sul do Chile, o conceito proposto por Darci Ribeiro de indigenato, qual seja, um campesinato etnicamente diferenciado, tem enormes implicações sociais e culturais e, cada vez mais, políticas. A geografia social boliviana, assim como a equatoriana, nos ajuda a entender a força do indigenato insurgente, conforme nos ensina o antropólogo Xavier Albó, na medida em que ao mesmo tempo em que parte dos antigos mineiros que se reterritorializam enquanto camponeses seguem mantendo importantes relações com as matrizes culturais dos povos originários e com as populações urbanas em função das relações sócio-espaciais mantidas entre as cidades com o altiplano. O melhor exemplo disso é a população de El Alto, cidade onde está localizado o aeroporto que dá acesso à capital La Paz, que dos seus 90 mil habitantes, em 1976, tem, hoje, aproximadamente 900 mil habitantes, em sua grande maioria indígena, que mantêm fortes vínculos com o vasto altiplano boliviano onde os ayllus, unidades territorial tradicional, mantém-se enquanto propriedade familiar-comunitária e estrutura sócio-política vigente (binômio tupus-ayllus). Na própria cidade de El Alto é marcante a reinvenção de instituições dos povos originários como é o caso das Juntas Vecinales, estruturas de perfil organizativo onde são nítidas as memórias dessa cultura organizacional.

Um hibridismo explosivo então se configura quando uma cultura político-sindical operária - como a rica tradição dos mineiros bolivianos - se encontra com a coca e, assim, com uma história de longuíssima duração que remete à ancestralidade indígena atualizada por meio desse campesinato cocalero que, por sua vez, está frente a frente com a intervenção imperialista estadunidense que, desde os anos oitenta, tenta impor a erradicação da coca. Uma declaração do então embaixador estadunidense Manuel Rocha, em abril de 2001, dá o tom da intervenção: “Bolívia es el país em la región (andina) que mejor cumplió en la lucha contra el narcotráfico; (en Washington) están admirados de lo que pasó em estos tres años en Bolívia” (La Razón, 18/04/2001, p.Política, 3-A). Admiracion esta que não só ignora as relações ancestrais dos povos andinos com a folha de coca, como se mostra especialmente insensível às dramáticas conseqüências dos programas de erradicação para o campesinato chapareño. A exigência estadunidense por “Coca Cero”, negando a reivindicação do indigenato cocalero que exigia a legalidade de parte do cultivo de coca que alegava não se vincular aos circuitos da narco-burguesia boliviano-estadunidense, mas sim à cultura ancestral quéchua/aymara e aos hábitos tradicionais de consumo, ensejará uma resposta de Evo Morales que afirmará que “cuando hablan de Coca Cero es como si estuvieran hablando de cero de quechuas-aymaras. Es el genocídio!”. Num país em que mais de 60% da população é indígena pode-se dizer que a arrogante declaração do embaixador dos EEUU adicionava um elemento imperialista a um movimento já em si contundente, e começava-se, aí, a construir uma liderança nacional em torno do indígena na Bolívia com forte caráter anti-imperialista.

Acompanhando um processo em curso em toda a América Latina onde a resistência contra as políticas neoliberais acabou por derrubar cerca de 20 governos desde 1989, a Bolívia terá num original movimento indígena o eixo em torno do qual um longo e exitoso processo de resistência se ensejará. O movimento indígena boliviano é original na medida em que se mostra visível antes do grande 1° de janeiro Zapatista de 1994, pois já em 1990 organiza, desde as Terras Baixas do Oriente, a Marcha pela Dignidade e pelo Território. É interessante notar que até mesmo a palavra dignidade que terá grande força no ideário zapatista constava explicitamente nos cartazes do movimento indígena boliviano, aliás mesmo título dado pelos indígenas equatorianos que também organizam sua Marcha pela Dignidade e pelo Território em 1990. O movimento indígena boliviano não só foi o primeiro a se manifestar, tornando-se nacionalmente visível, como será o primeiro a dar forma nacional às suas lutas elegendo Evo Morales em 2005.

A truculência histórica da classe/etnia dominante na Bolívia se encarregaria de oferecer os ingredientes de sofrimento com os massacres que se seguiram às mobilizações callejeras pela reapropriação social do gás em 2003 com dezenas de bolivianos sendo assassinados pelas forças militares a mando do então Presidente Goni de Lozada.

Desde 2006, quando Evo Morales tomou posse e, sobretudo depois que o amplo movimento social conseguiu maioria na Constituinte através de seu “Instrumento para la Soberanía de los Pueblos” - que é o MAS - Movimento Al Socialismo - que os setores retrógrados das classes/etnias dominantes bolivianas vêm fazendo de tudo para inviabilizar o processo democrático de mudança em curso no país, seja por meio de autonomias separatistas, seja com questões como a mudança da capital e a conseqüente inviabilização dos trabalhos da Constituinte, mas também, sobretudo, com o maciço uso da máquina midiática que desqualifica todos os dias, o dia todo, toda e qualquer medida governamental.

Cabe aqui recordar o fato de que um dos impasses cruciais nas discussões na Assembléia Constituinte foi a exigência, pela oposição, da necessidade de um mínimo de 2/3 dos votos dos constituintes para a aprovação da Carta Magna, como requisito supostamente essencial para um resultado democrático que contemplasse a vontade das minorias e aprovasse a nova constituição amplamente discutida. Essa mesma oposição, em um passado não muito distante no qual o papel oposição não lhes cabia, se regozijava no parlamento aplicando aquilo que ficou conhecido como “rodillo parlamentário”, um sistema de composição de alianças esdrúxulas e/ou improváveis para a composição de 50% mais um dos votos das câmaras no parlamento, aprovando o que lhes fosse de interesse. Num interessante sinal dos tempos, hoje, quando já não são mais capazes de compor uma maioria simples que lhes atenda os desejos, tornaram-se ardorosos defensores da democracia das minorias.

Porém, mesmo com todo o apoio da mídia para tentar desestabilizar o governo durante o referendum revocatório, Evo Morales conseguiu ampliar seu apoio popular tendo passado de 53% dos votos com que se elegeu, em dezembro de 2005, para 67%, em agosto de 2008! Mesmo assim, e tendo convidado os seus oponentes ao diálogo, no que foi contestado por parte de algumas lideranças populares que exigiam mano dura, as classes/etnias dominantes acantonadas na Meia Lua, agora Minguante com a derrota em Chuquisaca, resistem e exigem que o Presidente abra mão de uma gestão nacional dos recursos originários - justamente dos hidrocarbunetos - tendo inclusive desencadeado ações terroristas contra instalações da empresa que com tanto sacrifício foi nacionalizada pelas lutas e mortes recentes de bolivianos e bolivianas no ainda vivo Outubro Sangrento da Guerra do Gás de 2003.

O interessante é que as classes/etnias dominantes capitaneadas por Santa Cruz tentam se reapropriar do gás, o elemento de uma unidade nacional que vem se constituindo a partir do indígena num país profundamente fragmentado social e territorialmente, parte do caráter abigarrado da sociedade boliviana, como nos ensina René Zabaleta Mercado: um “Estado aparente”, incapaz de articular as diferentes temporalidades/territorialidades existentes no país.

A unidade nacional que se tenta construir a partir da reapropriação do gás natural, fruto das lutas e do sangue derramado nas ruas de El Alto, tem sua lógica subvertida pela elite lunática ao definir os hidrocarbonetos como recurso praticamente exclusivo daqueles departamentos de onde é extraído, discurso que logra obter um nítido apoio popular nessas regiões, sem que se apercebam de uma lógica inerente a esse processo, qual seja, a de um saudosismo pela ingerência estrangeira na administração desse recurso, afora seu anti-indigenismo histórico.

A postura de não-enfrentamento direto com que o comandante em chefe das Forças Armadas vem conduzindo o processo, abdicando de prerrogativas legais diante de uma clara tentativa de secessão, deve ser entendida como parte do profundo aprendizado político democrático que o movimento indígena-camponês boliviano experimentou, onde 1952 não é uma data qualquer. A recusa a aplicar as mesmas medidas de força com as quais foram sucessivamente reprimidos ao longo da história boliviana tem seu fundamento na compreensão da importância da construção de um núcleo comum, apropriando-nos aqui da formulação do politólogo Luis Tapia, que seja resultado do diálogo entre os diferentes setores.

Que não se confunda a disposição incessante ao diálogo com fraqueza. Este governo é herdeiro e tributário de uma luta que bem começou há alguns séculos, quando as botas dos irmãos Cortés tocaram estas terras pela primeira vez. É essa memória radicalizada - não o radicalismo midiaticamente condenado, extremista e inconseqüente - mas o de uma luta que tem raízes profundas, que se expressam na defesa firme que o governo Evo Morales faz daqueles que tiveram sua história negada. E que o exemplo de El Alto insiste teimosamente em não nos deixar esquecer.

Jallalla Bolivia!


Carlos Walter Porto Gonçalves é doutor em Geografia e Professor do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense. Foi presidente da Associação dos Geógrafos Brasileiros (1998-2000).

Marcelo Câmara é professor de Geografia da América Latina e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Jornalismo em cheque o caso da crise da Bolívia

O jornalismo (como a historiografia) deveria trabalhar com fatos e a partir deles os jornalistas podem analisar e opinar sobre a realidade, embora seja importante evitar juízos de valor. Entretanto, parece que os fatos cada vez mais estão sendo desconsiderados. Na atual crise do jornalismo a regra parece ser relativizá-los.

Para que vocês possam avaliar essa questão, destaco a seguir dois artigos. O primeiro foi escrito por um jornalista e o segundo por um cidadão sem formação no jornalismo e que ganha a vida viajando pela América Latina, vendendo peças para veículos. Leiam cuidadosamente ambos os textos e depois reflitam, quais dos autores merece a alcunha de bom jornalista?

TEXTO 1:

MANUAL DO PERFEITO IDIOTA

14/09/2008- Antonio Tozzi*

Miami (EUA) - Esta semana, os presidentes da Bolívia e da Venezuela deram mais algumas valiosas contribuições para o “Manual do Perfeito Idiota Latino- Americano”, livro escrito pelo cubano Carlos Alberto Montaner, pelo colombiano Plinio Mendoza e pelo peruano Mario Vargas Llosa, todos ex-esquerdistas decepcionados com os slogans vazios e inconseqüentes.

Pois não é que o sr. Evo Morales fez a parte dele para figurar no tal manual ao expulsar o embaixador americano da Bolívia, sob acusação de estar conspirando com os separatistas que querem dividir o país? E ainda afirmou ter sido o cidadão um dos artifices da separação de Kosovo. Ou seja, Evo ainda deu uma de analista de política internacional.

É uma pena. Estive entre aqueles que achou bem legal a eleição de um indígena aymara para governar o país andino. No entanto, o índio infelizmente não passa de um títere daqueles esquerdistas com idéias enferrujadas, que está tornando a Bolívia ainda mais empobrecida do que já era.

Depois de ter tomado o poder, partiu para estatização de empresas e inflamados discursos “anti-imperialistas”. Em vez de fazer um governo de coalizão, na linha do que vem fazendo Lula no Brasil, Evo Morales preferiu hostilizar os empresários locais e enfrentar as companhias estrangeiras que estavam fazendo investimentos no país, como foi o caso da Petrobras, por exemplo.

Ao adotar esse tipo de posicionamento, açulou os opositores que aproveitaram a oportunidade para se reagrupar após terem sido legitimamente derrotados nas urnas. E com esta postura está levando quase o país a uma guerra civil, em vez de melhorar a vida de seu povo – sobretudo a dos sofridos indígenas que há centenas de anos são massacrados.

Entretanto, os índios continuam miseráveis e sem perspectivas, e agora o país tem mais um problema para administrar. E o que faz o grande “estadista”? Expulsa o embaixador dos Estados Unidos do país. Além de ter sido uma tremenda descortesia com uma nação amiga, transferiu a responsabilidade pela crise interna para um país estrangeiro.

Evo Morales só não conseguiu ficar com o título do “Perfeito Idiota Latino- Americano”, graças ao inefável Hugo Chavez. O homem, mais uma vez, demonstrou um destempero que não condiz com um governante de um país sério.

Sem que o embaixador americano tivesse feito algo, ele decidiu “em solidariedade à Bolívia” também expulsá-lo da Venezuela. E ainda ameaçou interromper a venda de gasolina aos Estados Unidos. Obviamente, o governo americano também optou por expulsar os embaixadores da Bolívia e da Venezuela, que tiveram de deixar Washington.

Pior ainda, afirmou que enviaria tropas venezuelanas à Bolívia para intervir no conflito interno do país, “a fim de impedir que os inimigos da revolução bolivariana dessem um golpe de estado”, seja lá o que ele quis dizer com isto.

Pelo menos, o ministro da Defesa da Bolívia teve o bom senso de recusar veementemente a intervenção da Venezuela ou de qualquer outro país estrangeiro nas questões internas da Bolívia.

Finalmente, neste domingo Evo Morales e os oposicionistas começaram a discutir as possibilidades de se estabelecer um consenso. Algo que pode até mesmo resultar em autonomia para algumas províncias, como estão reivindicando os governadores locais. Ou seja, depois de a crise chegar a um ponto quase insustentável, é que começaram a negociar. Algo que deveria ter sido feito desde o início. Tomara que tudo termine bem para o povo boliviano, a verdadeira vítima deste confronto.

Só esperamos que não surja nenhum personagem que queira roubar a cena do “Perfeito Idiota Latino Americano” nesta semana e a América do Sul seja respeitada por seu crescimento e não por patranhas deste tipo.

*Sobre o autor: Foi repórter do Jornal da Tarde e do Estado de São Paulo. vive nos EUA desde 1996, onde foi editore na CBS Telenotícias Brasil e no canal de estortes PSN. Atualmente é editor da revista Latin Trade e do Jornal AcheiUSA.

TEXTO 2

Análise política internacional

Evo melhorou a Bolívia

15/09/2008- Eduardo Guimarães*


Aos poucos, vão sendo impostas a democracia e a verdade aos seus eternos inimigos nesta parte do mundo, ou seja, aos Estados Unidos, à mídia latino-americana e, sobretudo, aos fascistas bolivianos, que tanto mal estão causando ao povo da Bolívia e à democracia de toda região ao reeditarem um passado de golpismo, de racismo e de ruptura institucional.

Facilitado pela mídia golpista daqui, a maior das mentiras que está sendo contada é a de que o governo de Evo Morales Ayma, com seu “comunismo”, estaria afastando investimentos da Bolívia e fazendo ruir a economia do país.
Nesse contexto, vários leitores deste blog vieram aqui repetir bobagens que leram na imprensa golpista tupiniquim sobre a “piora” que o governo da Bolívia promoveu no país, “afastando investimentos” etc.

A “imprensa” estimula a burrice da sociedade ao dar ampla publicidade a discursos enlatados engendrados nas redações das Folhas, Globos, Vejas e, claro, nos “Comitês Cívicos” dos nazistas da “Meia Lua” boliviana.

Essa gente nada sabe sobre a Bolívia. É provável que nem saiba qual é a capital de fato do país, que, à diferença do que se pensa, não é La Paz e, sim, Sucre; La Paz é a sede do governo boliviano. Isso não impede essas vítimas do mau jornalismo de saírem por aí repetindo as imbecilidades que foram inculcadas em suas cabeças vazias.

Diante desse quadro deprimente de emburrecimento jornalístico coletivo, vale a pena expor alguns fatos sobre os êxitos expressivos que também o governo de esquerda boliviano vem obtendo nos últimos anos, à semelhança dos êxitos que todos os governos progressistas da região vêm obtendo em maior ou menor grau.

Evo Morales foi eleito em dezembro de 2005. O país que passou a governar era, então, o mais pobre da América do Sul, com 60% dos seus 9 milhões de habitantes abaixo da linha da pobreza e 38% em extrema pobreza; desemprego de 12%, com 40% de sub-empregados; renda dos indígenas 40% inferior à renda dos não-indígenas (Fonte: Vi o Mundo)

Apesar de ter a segunda maior reserva de petróleo da América do Sul, a Bolívia ainda é o país mais pobre da região. Não foi por outra razão que Evo nacionalizou o gás e o petróleo e negociou seus preços com o Brasil e a Argentina, pois tais preços eram extremamente baixos. O gás, por exemplo, era vendido por cerca de 3 dólares o metro cúbico, apesar de o preço alternativo – por exemplo, da Rússia – ser 3, 4 vezes mais alto. (Fonte: Folha de São Paulo)

Com a nacionalização do petróleo, a Bolívia passou a lucrar 85% das exportações do produto, que dobraram de 2005 para 2006, chegando a 4,9 bilhões de dólares (Fonte: Vi o Mundo).

Mas o discurso falacioso mais comum que as vítimas da lavagem cerebral midiática gostam de alardear é o de que Evo estaria “afastando investimentos estrangeiros” com seu governo “comunista”.

É mentira. A empresa siderúrgica indiana Jindall Steel & Power, por exemplo, ganhou licitação em 2006 para a explorar a jazida de Mutún, uma das reservas de ferro mais importantes do planeta, que fica no leste da Bolívia. O investimento, até agora, soma 2,5 bilhões de dólares (Fonte: Folha On Line).

É bom informar, também, que a mina de Mutún possui reservas de 40 bilhões de toneladas de ferro, 10 bilhões de magnésio (70% das reservas mundiais) e se achava sub-explorada antes de Evo assumir (Fonte: Folha On Line) .

Outro êxito expressivo do governo da Bolívia foi na questão da dívida externa do país. A queda do endividamento boliviano, que ocorreu já no primeiro ano do governo Evo Morales (2006), decorreu da obtenção de muito maior receita do petróleo, principal fonte de divisas da Bolívia e que era vendido a preço de banana ao Brasil, certamente porque os governos brasileiros anteriores devem ter usado “argumentos” altamente convincente$ para que os governos bolivianos de então aceitassem vender-nos gás por preços tão irrisórios...

Os gráficos abaixo mostram quanto caiu a dívida externa da Bolívia a partir do governo Evo Morales, eleito em 2005 e empossado em 2006 (Fonte: Cia - The World Factbook).
Quero explicar a vocês, finalmente, que, durante a recente crise na Bolívia, dediquei-me tanto ao assunto aqui porque descobri uma coisa. Nos últimos 13 anos venho viajando quase todos os meses pela América Latina. Nesses tantos países, fiz amigos, entrei nas casas das famílias, vi as mazelas e as qualidades desses povos e países e com eles estabeleci uma ligação muito íntima. Em suma, aprendi a amar a região em que está o meu país.

Senti uma dor imensa ao ver sofrer tanto, ao ver ser chacinado por bandidos aquele povo pobre, humilde, que tantas vezes me recebeu como se eu fosse uma celebridade só por ser branco, brasileiro e por me dignar a entrar em suas casas humildes.

Os bolivianos são pessoas boas, humanas, com forte senso de solidariedade, humildes ao impensável... Sinto muito por eles, sobretudo pelas vítimas dos reacionários nazistas da “Meia Lua”, uma gente desprezível que, infelizmente, conheço bem, e que explora aqueles índios e os trata como lixo.
Mas parece que as coisas melhoram graças ao apoio decidido dos governos progressistas latino-americanos – e não acreditem na imprensa golpista brasileira quando esta põe em dúvida o apoio de Lula a Evo –, que disseram em alto e bom som aos mentores do golpismo boliviano, os Estados Unidos, que não aceitariam que a potência hegemônica voltasse a promover por aqui sua “democracia” criminosa.

O mundo mudou, a América Latina muda mais do que qualquer outra parte, mas a direita latino-americana, vil, assassina, covarde, golpista e capacho dos americanos ainda não percebeu. Azar dela.

*Sobre o autor: paulistano, blogueiro do Cidadania.com, criador do Movimento dos Sem Mídia e vendedor de auto-peças.

domingo, 14 de setembro de 2008

Imperialismo sanguinário


Mauro Santayana

O que está ocorrendo na Bolívia ocorreu no Brasil, em 1964; no Chile, em 1973; na Argentina, em 1976, e quase ocorreu na Venezuela, em 2002. Tudo começou com a usurpação de 1.300 mil km² do território do México, na guerra movida pelo presidente Polk (1846/1848). E em 1856, o mercenário ianque William Walker se declarou presidente da Nicarágua. Podemos deixar de lado o caso bem conhecido da intervenção em Cuba, desde sua "independência" até a Revolução de 1959.

No início do século 20, para construir o canal, os americanos promoveram o movimento separatista do Panamá – que pertencia à Colômbia – e obtiveram, da constituição que eles mesmos redigiram, o direito de intervir no país quando necessário. Entre 1926 e 1933, a Nicarágua viveu a extraordinária gesta de Sandino – em seu tempo, mito maior do que o de Guevara. Ele enfrentou vitoriosamente os marines, foi traído e assassinado por Somoza, em encontro marcado para a conciliação nacional. Como prêmio, o democrata Roosevelt fez do assassino o ditador da Nicarágua, que legou o país a seu filho, até a vitória dos sandinistas em 1979, quando os EUA armaram os contra-revolucionários. Em El Salvador o terrorismo norte-americano matou dezenas de milhares de pessoas, entre elas o bispo dom Oscar Romero, junto ao altar.

Em 1964, os norte-americanos estimularam e orientaram, mediante seus diplomatas e agentes, o golpe contra o governo constituído de Jango. Como hoje na Bolívia, houve a orquestração da imprensa, o incentivo aos baderneiros, a mobilização da extrema direita. Em 1973 foi a vez do Chile. Repetiu-se o mesmo modelo, com o envolvimento das forças armadas, o uso de vultosos recursos financeiros, a cooptação remunerada dos serviços de informação, os atos de sabotagem, o lock-out dos empresários e o estímulo a agentes provocadores. O golpe contra Allende só foi consumado com a morte do grande presidente. O envolvimento dos Estados Unidos no episódio é registrado em documentos oficiais de Washington.

A Venezuela, mesmo depois de o presidente constitucional Hugo Chávez ter sido seqüestrado, conseguiu impedir o golpe de abril de 2002, patrocinado pelos Estados Unidos, pelas multinacionais, empresários locais e os meios de comunicação. No fim da última semana, era denunciada nova articulação golpista. Com a experiência que temos do passado, é quase certo que Washington se encontre por detrás da conspiração. Chávez, diante dos fatos na Bolívia, teve a coragem de expulsar o embaixador dos Estados Unidos. Morales também havia decidido declarar persona non grata o embaixador norte-americano em La Paz, e com razões públicas e objetivas: o diplomata estava se reunindo com os governadores da oposição que pregam a independência de suas regiões.

A Bolívia não se encontra nas antípodas. Está ali, ao lado. A nossa posição, no episódio, deve ser orientada pela velha afirmação do princípio de não intervenção. Fez bem o Brasil em acatar a decisão de Evo Morales de declinar do oferecimento dos vizinhos para buscar a conciliação. Morales preferiu convidar o prefeito de Tarija, a fim de conversar. O problema maior é o grande latifúndio: 860 proprietários controlam 46% das terras da planície (quatro deles com glebas de mais de 50 mil hectares cada um), enquanto 54 mil empresários médios só possuem 7,3% da área. Os índios foram despojados de suas terras, e o agronegócio (movido por croatas, sírio-libaneses, norte-americanos e brasileiros) está por detrás das agitações. É ainda mais grave saber que a razão invocada pelos baderneiros é a de que Morales vai usar os recursos do gás para socorrer os bolivianos idosos e pobres.

Não é provável uma saída rápida para a crise. Ainda que se chegue a um acordo entre o presidente e os governadores da região oriental, o problema continuará latente. O caso da Bolívia é também uma advertência para a nossa política fundiária na Amazônia. Estamos permitindo a aquisição de glebas na região por estrangeiros e por grandes fundos de investimentos (que são apátridas, como o Opportunity), o que trará grande risco em futuro próximo.

Aos Estados Unidos não interessa a estabilidade de nenhum país do continente. É evidente que tanto na Venezuela, quanto na Bolívia, seus agentes, oficiais e embuçados, incentivam os inimigos de Morales e de Chávez. Diante da situação, os demais países sul-americanos devem unir-se diplomaticamente e impedir o pior.

Fonte: Jornal do Brasil

Não é a Bolívia, é toda a América Latina que está em jogo

A ação golpista dos EUA na Bolívia

Laerte Braga
13/09/2008

O embaixador dos Estados Unidos na Bolívia Philip Goldberg encontrou-se com o governador da província de Santa Cruz, Ruben Costa, principal líder das manifestações contra o governo do presidente Evo Morales, poucos dias antes do início dos protestos.

Philip Goldberg era o embaixador norte-americano na Sérvia quando da guerra separatista do Kosovo, no governo de Bil Clinton. Seu papel foi decisivo no processo separatista naquela república da antiga Iugoslávia. Tinha a mesma tarefa na Bolívia.

A decisão do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, de expulsar o embaixador dos EUA na Venezuela, vai além da solidariedade a Evo Morales. A ação golpista dos norte-americanos estende-se ao governo bolivariano de Chávez.

Chávez disse hoje que a eventual deposição por golpe do presidente da Bolívia justifica a luta armada na América do Sul, já que a vontade popular esbarra nos interesses colonialistas dos norte-americanos.

O presidente do Brasil Luís Inácio Lula da Silva enviou a Bolívia o seu assessor especial para política externa, Marco Aurélio Garcia e o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, secretário geral do Itamaraty. Os dois viajaram depois que Lula conversou com Evo Morales e recebeu sinal verde para o apoio à ordem constitucional naquele país.

Uma das razões dos ataques às instalações da empresa de petróleo e gás boliviana é a exigência das companhias e empresários que os repasses da exportação de gás continuem a ser feito às elites e não ao programa de assistência aos idosos como definiu o presidente Evo Morales.

Por trás desse fato estão interesses maiores. Derrotadas nas urnas as grandes empresas nacionais e estrangeiras não aceitam que a Bolívia se livre do tacão nazista dos Estados Unidos. Por trás do golpe existem de agentes do MOSSAD, serviço de inteligência do estado terrorista de Israel e do governo da Espanha, aliados incondicionais dos Estados Unidos. Aos agentes do MOSSAD cabem as chamadas tarefas sujas.

No Brasil, o stf soltou nove presos ligados ao PCC. Os criminosos eram acusados de planejar invasões de presídios em São Paulo. Estavam presos há quatro anos e sequer a audiência inicial de interrogatório havia sido feita na justiça. O motivo? O governador do estado José Serra alegava através do seu secretário de Segurança Pública que não havia policiais disponíveis para escoltar os presos.

Fiel ao estilo tucano de mentir em notas oficiais, o governador disse que não havia necessidade de escolta e que o judiciário é o culpado. É ação golpista visando encurralar o governo Lula e evitar avanços. Já perceberam que o presidente dá uma no cravo e outra na ferradura e prefere as políticas de não enfrentar os adversários diretamente.

João XXIII, antepenúltimo papa não fascista da Igreja (os outros dois foram Paulo VI e João Paulo I – Albino Luciani -) justifica a luta armada como recurso válido se esgotados todos os outros para a garantia dos direitos básicos do homem. Está na encíclica MATER ET MAGISTRA (Mãe e Mestra).

No golpe fracassado de 2002 contra Chávez o cardeal primaz da Venezuela participou da ação e da posse do presidente fantoche, Carmona. Em Santa Cruz os sinos repicam a cada ataque de vândalos e pistoleiros fascistas contra instalações públicas no terrorismo das elites. Não aceitam o resultado das urnas.

Philip Goldberg insuflava e apoiava com agentes e recursos financeiros os grupos contrários a Evo Morales e já se desenhava um plano separatista. Um novo país. Foi assim em séculos passados quando os EUA decidiram construir o canal do Panamá. Incentivaram o separatismo e tomaram parte do território colombiano, o que é hoje o Panamá.

Camponeses e indígenas bolivianos resolveram sair às ruas para garantir o governo de Morales (são a maioria esmagadora da população). A rigor há uma guerra de sedição não declarada.

As forças armadas bolivianas devem, em tese, garantir o governo constitucional. Têm larga tradição golpista e alguns setores são ligados ao tráfico de droga (um presidente boliviano, Garcia Meza, coronel do Exército, foi preso no Brasil para onde fugiu depois de provadas suas ligações com o tráfico).

A eventual derrubada de Morales vai mergulhar a Bolívia numa guerra civil e certamente numa ditadura cruel e sanguinária, mas vão ficar preservados os “interesses” dos EUA e dos empresários nacionais e estrangeiros.

No Paraguai já se conspira contra o presidente Fernando Lugo. Lugo tomou posse há dias e anunciou um programa social de longo alcance. Contraria interesses norte-americanos e das elites do país. Lugo foi eleito, como Morales e Chávez, por maioria absoluta de votos dos paraguaios.

A idéia que a América do Sul aprofunde o processo de integração dos países da região e descarte a idéia (não está morta) da ALCA (ALIANÇA DE LIVRE COMÉRCIO DAS AMÉRICAS) proposta pelos EUA, não é tolerada por Washington.

Para que se tenha uma idéia do tamanho dos interesses dos EUA em países sul americanos é só olhar para o Brasil e entender a “mecânica” de exploração do petróleo do pré sal.

Ao contrário do que disse o presidente Lula a PETROBRAS não conseguirá aquecer a indústria brasileira como imaginado. Boa parte dos campos petrolíferos descobertos está em mãos de companhias estrangeiras, a EXXON MOBIL a maior delas e as encomendas de plataformas, equipamentos, etc, podem ser feitas no exterior. A primeira plataforma já está encomenda pela EXXON mesmo, no Japão.

As tentativas do governo Lula de reduzir a presença estrangeira nos chamados leilões de áreas para prospecção esbarrou nos contratos assinados no governo de Fernando Henrique (doação total e absoluta a grossas propinas) e nas pressões do governo dos EUA.

Essa política neoliberal e colonialista vai se estender para além da Venezuela e Bolívia no mesmo nível que agora nesses dois países, à medida que governos nacionais forem capazes de reagir, como reagiram vários e colocarem em risco os “negócios” dos EUA e seus parceiros espalhados pelo mundo.

Isso se aplica a questão da água e aí o Brasil se torna vulnerável em larga escala por conta do aqüífero Guarani, o quinto maior do mundo (reserva subterrânea).

A percepção que os acontecimentos na Bolívia se voltam para toda a América do Sul é questão de sobrevivência de cada um dos países dessa parte do mundo.

Não há a menor perspectiva de futuro se mantidos os privilégios norte-americanos, de empresas e governo na esteira do mundo dito globalizado, mais que nunca “globalitarizado” como definiu o geógrafo brasileiro Milton Santos.

A opção é simples. Ou nos tornamos América Latina, ou continuamos América LATRINA.

Uma especial atenção deve ser dada a posições de chefes militares. Boa parte dos principais comandantes de forças armadas latino-americanas está na folha de pagamento do Pentágono e a expressão patriotismo historicamente tem se prestado a canalhices como foram as ditaduras militares. No Brasil é o caso do general Augusto Heleno, comandante militar da Amazônia, com passagem pelo Haiti, onde tropas brasileiras cumprem o papel de polícia opressora dos haitianos.

Atira publicamente para um lado, a soberania nacional e a integridade do território brasileiro, mas quer acertar em outro.

O que acontece na Bolívia é só um trailer de um filme de terror que os povos do Iraque e do Afeganistão conhecem muito bem. Prisões e câmaras de tortura. Seqüestros, assassinatos e toda a sorte de barbáries para garantir empresas e “negócios”. Inclusive o tráfico de drogas. Os EUA sustentam o governo do narcopresidente Álvaro Uribe na Colômbia.

As simpatias da mídia brasileira para as ações das elites bolivianas são regiamente pagas. Empresas como a GLOBO, a RECORDE, o SBT, a BANDEIRANTES, principais redes de tevê do País são controladas por agências de publicidade e essas pelos tais interesses.

Vendem o verde enquanto espalham o sombrio do cinza. Assim são os grandes jornais e revistas.

O que se trava é uma guerra de sobrevivência de países como o Brasil, a guerra agora está na Bolívia, como nações soberanas e independentes.

E sempre em mente que elites, aqui ou acolá, onde queiram, são apátridas e pútridas. No caso da boliviana e da nossa, das sul americanas, servis e dóceis aos “negócios” do terrorismo de mercado dos EUA.

Não é a Bolívia, um país de dimensões territoriais mínimas diante do Brasil. É toda a América Latina que está em jogo.

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É golpe
CLÓVIS ROSSI (da Folha de São Paulo)

SÃO PAULO - O que está em andamento na Bolívia é uma tentativa de golpe contra o presidente Evo Morales. Segue uma linha ideológica e táticas parecidas às que levaram ao golpe no Chile, em 1973, contra o governo de Salvador Allende, tão constitucional e legítimo quanto o de Evo Morales.
Os bloqueios agora adotados nos Departamentos são a cópia de locautes de caminhoneiros que ajudaram a sitiar o governo Allende.Outra semelhança: Allende elegeu-se presidente, em 1970, com pouco mais de um terço dos votos (36%). Mas, três anos depois, sua Unidade Popular saltou para 44%, em pleito legislativo, o que destruiu qualquer expectativa da direita de vencê-lo política ou eleitoralmente.
Foi na marra mesmo, o que deu origem a um dos mais brutais regimes políticos de uma América Latina habituada à brutalidade.
Evo Morales também se elegeu com menos votos do que obteve agora no chamado referendo revogatório, o que demonstra um grau de aprovação popular até surpreendente para as dificuldades que o governo enfrentou desde o primeiro dia, em parte por seus erros e em parte pelo cerco dos adversários.
A luta dos Departamentos pela autonomia, eixo da crise, é também legítima e precede Evo Morales.
Mas passou a ser apenas um biombo para encobrir as verdadeiras intenções, cristalinamente reveladas a Flávia Marreiro, desta Folha, por Jorge Chávez, líder "cívico" de Tarija, um dos Departamentos rebelados contra o governo central: "Se precisar, vai ter sangue. É preciso conter o comunismo e derrubar o governo deste índio infeliz".
Cena mais explícita de hidrofobia e racismo, impossível. Nem o governo nem a oposição no Brasil têm direito ao silêncio, escondendo-se um na não-ingerência em assuntos internos e outra em preconceitos similares.

uma crítica à cobertura da grande imprensa sobre a crise na Bolívia

Mídia acoberta terroristas da Bolívia

por Altamiro Borges*

“Se precisar, vai ter sangue. É preciso conter o comunismo e derrubar o governo deste índio infeliz”. Jorge Chávez, líder da oligarquia racista de Tarija.

“Não vejo razão pela qual se deve permitir o Chile se tornar marxista pela irresponsabilidade de seu povo”. Henry Kissinger, secretário de Estado do EUA, poucos dias antes do golpe de 11 de setembro de 1973 que derrubou Salvador Allende.


É repugnante a cobertura que o grosso da mídia hegemônica tem dado aos trágicos confrontos na já sofrida Bolívia. Os serviçais da TV Globo tratam os chefões golpistas como “líderes cívicos” e “dirigentes regionais”. Mirian Leitão, que esbanjou valentia ao sugerir que o governo brasileiro retirasse o nosso embaixador de La Paz e enviasse tropas às fronteiras quando da estatização do petróleo, agora é toda afável com a oligarquia racista deste país. Outros “colunistas” bem pagos da mídia chegam a insinuar que a culpa pelos violentos conflitos, que já causaram oito mortes, é do presidente Evo Morales, “um radical e populista” que instigou o separatismo regional.

Rubén Costas (esq), "prefeito" de Sta. Cruz, e Branko Marinkovic (dir), líder do "comitê cívico" de Sta. Cruz

A manipulação é grotesca até na terminologia. No caso das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que há décadas enfrentam as oligarquias paramilitares e que foram excluídas violentamente da luta institucional no país, os guerrilheiros são estigmatizados como terroristas, narcotraficantes, bandidos. Já os bandos terroristas da Bolívia, organizados e armados pela elite racista que desrespeita o voto popular, são tratados como “comitês cívicos” e “grupos rebeldes”. O embaixador estadunidense Philip Goldberg, que acaba de ser expulso da Bolívia por estimular abertamente a divisão do país, é apresentado pela mídia subserviente como “negociador”.

A triste lembrança do Chile

O que está em curso na Bolívia é um golpe fascista organizado pela oligarquia local e teleguiado pelos EUA. Seus métodos terroristas lembram o ocorrido no Chile, em setembro de 1973, noutro golpe sangrento orquestrado pelo “império do mal”. Visam desestabilizar e derrubar o governo democraticamente eleito de Evo Morales, confirmado em agosto num referendo. Poucos são os veículos midiáticos e os “colunistas” que denunciam esta conspiração, talvez porque torçam pela derrota do que FHC chamou num paper ao governo Bush de “esquerdização da América Latina”. Como verdadeiro “partido da direita e do capital”, a mídia burguesa não tolera a democracia!

Uma das raras exceções foi o lúcido artigo de Clóvis Rossi, que há muito estava adormecido por seu rancor antiesquerda. “O que está em andamento na Bolívia é uma tentativa de golpe contra o presidente Evo Morales. Segue uma linha ideológica e táticas parecidas as que levaram ao golpe no Chile, em 1973, contra o governo de Salvador Allende, tão constitucional e legítimo quanto o de Evo Morales. Os bloqueios agora adotados nos Departamentos são uma cópia dos locautes de caminhoneiros que ajudaram a sitiar o governo Allende... Nem o governo nem a oposição no Brasil têm o direito ao silêncio”, escreveu, relembrando sua perspicácia e coragem do passado.

O criminoso Philip Goldberg

A conspiração golpista na Bolívia, acobertada pelo grosso da mídia nativa, exige rápida resposta das forças progressistas e democráticas do Brasil. Como afirmou Evo Morales, trata-se de “uma violência fascista com o objetivo de acabar com a democracia e dividir o país”. Sob o biombo da autonomia regional, governadores de cinco departamentos (estados) e abastados empresários têm financiado bandos terroristas que já assassinaram oito camponeses favoráveis ao governo eleito, saquearam prédios públicos, destruíram uma emissora estatal de televisão, sabotaram gasodutos, bloquearam rodovias e proibiram o próprio presidente de pousar em três aeroportos do país.

Milícia da União Juvenil Cruzense em ação: porretes e caminhonetes
Segundo relatos de Marco Aurélio Weissheimer, da Carta Maior, na semana passada “grupos de jovens de setores da classe média branca, que não escondem seu sentimento racista em relação a Evo Morales, lideraram as manifestações. Capitaneados pela União Juvenil Cruzense (UJC), eles invadiram o prédio da empresa estatal de telecomunicação para ‘entregá-lo à administração do governo Rubén Costas’, de Santa Cruz. Na Televisión Boliviana/Canal 7, saquearam o escritório, destruíram computadores e fizeram uma fogueira na entrada do prédio”. Além de Santa Cruz, as ações terroristas ocorrem em outros quatro departamentos – Beni, Pando, Tarija e Chuquisaca.

Membros da União Juvenil Cruzense (UJC) preparando-se para atacar durante referendo da autonomia departamental em Santa Cruz


Os EUA estão diretamente metidos no complô. O embaixador Philip Goldberg já foi fotografado em eventos da União Juvenil Cruzense (UJC), grupo terrorista de Santa Cruz que utiliza o slogan “terminemos com os ‘collas’ [indígenas], raça maldita”. A embaixada ianque até contratou vários destes bandidos. Goldberg é um fascista convicto. Como embaixador dos EUA na ex-Iugoslávia, ele orquestrou a crise no Kosovo e a sangrenta guerra civil separatista naquele país. Declarado persona non grata, ele finalmente foi expulso da Bolívia. “Não queremos aqui gente separatista, divisionista, que conspira contra a unidade do país”, justificou o presidente Evo Morales.

Intensificar a solidariedade internacionalista

O governo, mesmo aberto ao diálogo, não tem se submetido à pressão dos golpistas, que exigem a anulação da nova Constituição e do referendo que aprovou a manutenção do mandato de Evo Morales. Ocorrido em 10 de agosto, por demanda da própria oposição, o referendo confirmou a força do atual presidente. Evo foi ratificado em 95 das 112 províncias do país e, apesar do caos promovido pelos golpistas, teve mais votos do que na eleição presidencial – obteve 67,41% dos votos, bem acima dos 53,3% em 2005. Sua votação cresceu em oito dos nove departamentos e o referendo ainda revogou o mandato de dois governadores ligados às oligarquias racistas.

Desesperada, a elite investe no terrorismo e esbarra na resistência do governo e do povo. “Vamos agir com serenidade, mas também com firmeza”, diz Alfredo Rada, ministro da Defesa. Walker Sam Miguel, ministro do Interior, garante que “os fascistas não passarão”. O governo já decretou estado de sítio, ameaça deter os chefes terroristas e acionou tropas do exército nos departamentos para garantir o fornecimento de gás e a ordem pública. A derrota dos fascistas, porém, exige o apoio dos governos e dos movimentos sociais na América Latina. O que está em jogo é o avanço da democracia, é a derrota das oligarquias, do “império do mal” e da mídia mentirosa.

*Jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB - Partido Comunista do Brasil, autor do livro “Sindicalismo, resistência e alternativas” (Editora Anita Garibaldi)

“A Bolívia corre um risco grave de iugoslavização”

“A Bolívia corre um risco grave de iugoslavização”: Eduardo Paz Rada, sociologo da Universidad Mayor de San Andrés (UMSA)

Para o sociólogo Eduardo Paz Rada da UMSA, a elite do oriente, apoiada pela embaixada dos EUA e contando com grupos armados contratados por latifundiários bolivianos, brasileiros e estadunidenses, está agindo para promover a divisão do país.

Para sociólogo, a elite do oriente, apoiada pela embaixada dos EUA e contando com grupos armados contratados por latifundiários bolivianos, brasileiros e estadunidenses, está agindo para promover a divisão do país

13/09/2008

Igor Ojeda*

“Os setores das oligarquias do oriente boliviano não estão somente reagindo contra o processo de transformações que o governo Evo Morales está implementando e que afeta diretamente seus interesses – sobretudo no manejo da terra e dos excedentes procedentes do gás –, como agora estão em uma clara ofensiva destinada a promover a divisão da Bolívia, com o argumento das autonomias”, analisa o sociólogo Eduardo Paz Rada, da Universidad Mayor de San Andrés (UMSA).

Segundo ele, tais ações estão vinculadas à estratégia do imperialismo estadunidense de provocar uma crise regional e tentar frear os processos revolucionários e reformistas nos países da região. Há cerca de três semanas, os governadores opositores de Santa Cruz, Tarija, Beni e Pando vem promovendo, ao lado de comitês cívicos regionais, formados principalmente por empresários, a tomada de controle de instituições estatais nos departamentos (estados). A justificativa deles é a pressão pela devolução do montante do imposto sobre o gás destinado às regiões que foi cortado em parte pela gestão Evo para financiar uma bolsa aos idosos.

Para Rada, o governo do presidente Evo Morales, ao não haver adotado medidas há vários meses contra tal arremetida, se encontra agora em grandes dificuldades. “O país corre um risco grave de iugoslavização e fragmentação devido ao fato de que as oligarquias do oriente, apoiadas pela embaixada dos Estados Unidos, possui grupos armados, contratados especialmente por proprietários de terras bolivianos, brasileiros e estadunidenses”, diz. O termo "iugoslavização" é uma referência à desintegração da então Iugoslávia em vários países a partir da década de 90.

Ainda segundo o sociólogo, o Executivo deve tomar medidas urgentes com ação direta das Forças Armadas, a Polícia Nacional e os movimentos sociais. “Seja através do estado de sítio, ou de ações fundadas na lei e na Constituição, o governo deve atuar rapidamente e com energia, sobretudo para frear desde agora mesmo o controle territorial dos setores das oligarquias regionais”.

Estado de sítio

Desde que as mobilizações da oposição tiveram início, as Forças Armadas e a polícia vêm evitando atuar com mais energia. Em muitos dos casos, os militares e policiais que resguardavam as entidades foram obrigados a se retirar, diante do forte assédio dos manifestantes. No entanto, nesta sexta-feira (12), a entidade militar confirmou o deslocamento de soldados às regiões em conflito e afirmou que aguarda uma ordem escrita por Evo Morales para recuperar as instituições públicas e reprimir os grupos de “vândalos ou radicais”. Já o presidente disse sentir-se culpado pelas humilhações sofridas pelo exército e pela polícia, já que foi ele quem pediu para que não fossem usadas armas de fogo.

No mesmo dia, o governo decretou estado de sítio no departamento de Pando, devido à morte, oficialmente, de oito pessoas (sete delas camponeses apoiadores de Evo) em enfrentamento com funcionários do governo departamental em El Porvenir.

O Executivo, defensores de direitos humanos e camponeses chamam o ocorrido de “massacre” e acusam o governador Leopoldo Fernández de ter armado os funcionários e ter contratado mercenários peruanos e brasileiros para impedir que os apoiadores de Evo chegassem à capital Cobija, a 30 km do local das mortes, que podem aumentar, já que 35 camponeses ainda estão desaparecidos.

Já Fernández nega as acusações, afirma que não acatará o estado de sítio e desautorizou o governador de Tarija, Mario Cossío, a representá-lo no diálogo com o Executivo, iniciado na sexta-feira.

Em Cobija, um soldado morreu, vítima de um disparo por arma de fogo, e seis civis ficaram feridos à bala na retomada pelo exército do aeroporto Capitán Anibal Arab, que estava em controle dos opositores desde o dia 5. Segundo alguns relatos, os militares ingressaram no local atirando para o ar, e foram recebidos com disparos de metralhadoras.

Movimentos reagem

Enquanto isso, teve início, na noite de sexta-feira, um diálogo entre governo e oposição, representada por Mario Cossío. Depois de mais de oito horas de reunião, foram acordadas as bases das negociações, que serão retomadas no domingo (14). Mesmo assim, os movimentos sociais do país acentuaram suas ações em retaliação às medidas de pressão dos opositores.

No dia 10, cultivadores de folha de coca do Chapare, no centro da Bolívia, iniciaram um cerco à Santa Cruz de la Sierra, com fechamento de estradas. Desde então, os pontos de bloqueio vêm aumentando. No dia 11, Eugenio Rojas, prefeito da cidade de Achacachi, no ocidente do país, e líder do movimento indígena “poncho rojos”, declarou estado de emergência nas filas camponesas e ameaçou a tomada de terras e fábricas no oriente.

Outros dirigentes sociais, separadamente, afirmaram que retomarão as instituições públicas controladas pela oposição e defenderão o governo Evo, se necessário, com suas vidas.

Na quinta-feira à noite, a Federação Nacional de Cooperativas Mineradoras (Fencomin) havia dado um prazo de 72 horas aos governadores da oposição para que estes retomassem o diálogo com o Executivo. “Caso contrário, as cooperativas mineradoras se mobilizarão a nível nacional em defesa da democracia em liberdade, da igualdade social e da unidade do país. Se eles exigem nosso sangue, nós vamos oferecê-lo mais uma vez para o benefício de todo o povo boliviano”, diz o comunicado da entidade.

“Considero necessário que se combinem a ação das instituições militares com a mobilização popular, especialmente para respaldar os setores afins ao governo que se encontram combatendo no seio mesmo do conflito em Santa Cruz, Pando, Beni e Tarija. Parece, a esta altura da situação, que não se poderá evitar o enfrentamento direto e de grande dimensão, e que já prevíamos que se desataria pela decisão das classes dominantes de não perder seus privilégios e o poder econômico e político”, opina o sociólogo Eduardo Paz Rada.

Em Santa Cruz de la Sierra, os dirigentes da Confederação de Povos Indígenas do Oriente (Cidob) se declararam na clandestinidade, em virtude da perseguição que estão sofrendo por grupos opositores a Evo Morales.

Na tarde de quinta-feira, integrantes da União Juvenil Crucenhista (UJC) invadiram e saquearam a sede da Cidob, e atacaram as casas de seus líderes. “Queremos denunciar ao mundo que o governador Rubén Costas quer massacrar os indígenas que, até o momento, não responderam a nenhuma de suas provocações”, disse Adolfo Chávez, presidente da organização.

“Conspiração”

E, em meio à polêmica da expulsão do embaixador dos EUA em La Paz, Philip Goldberg, o ministro da Presidência boliviano, Juan Ramón Quintana, acusou a USAID (agência estadunidense de apoio ao desenvolvimento) de contratar políticos neoliberais dos governos anteriores para desestabilizarem a gestão do presidente Evo Morales, principalmente com o apoio à oposição regional.

“A USAID se converteu em refúgio político e econômico de todos aqueles funcionários do mais alto nível de Goni [Gonzalo Sánchez de Lozada] e Carlos Mesa. Portanto, estes funcionários, com a informação do Estado, fizeram um complô, durante todo esse tempo, contra o governo nacional”, disse.

Quintana detalhou a denúncia: de acordo com ele, Carlos Campero, ex-funcionário de Lozada, passou a trabalhar no escritório encarregado em temas de descentralização da entidade estadunidense. “Setor que trabalhou em projetos de apoio nos governos departamentais da oposição”.

Além de Campero, teriam sido contratados pela USAID Javier Cuevas, ex-ministro da Fazenda de Lozada e Mesa; Javier Rebollo, ex-diretor geral do Tesouro Nacional; José Nogales, ex-viceministro de Política Tributária de Lozada e Mesa; e Juan Brun, ex-diretor do Instituto Nacional de Reforma Agrária no governo Lozada.

O ministro da Presidência fez a denúncia ao justificar a expulsão do país do embaixador estadunidense, por conspiração contra o governo e a unidade boliviana. Segundo Quintana, um dos resultados da atuação do diplomata “estamos experimentando agora, com a violência e o enfrentamento nos departamentos de Santa Cruz, Pando, Beni e Tarija, parte da estrutura conspirativa montada com os recursos da USAID na Bolívia, sobre a qual nem o embaixador soube explicar”.

*Correspondente do Brasil de Fato em La Paz (Bolívia)

Entrrevista com Victor Cuba, Cônsul-geral da Bolívia em Mato Grosso

Cônsul: interesses privados financiam protestos

Raphael Prado

Cônsul-geral da Bolívia em Mato Grosso - estado que faz fronteira com o departamento de Santa Cruz de La Sierra, Victor Cuba fala com exclusividade a Terra Magazine sobre a tensão vivida pelo país vizinho. Para ele, há setores descontentes com a vitória do presidente Evo Morales nas urnas, que "financiam" os protestos contra a nova proposta de Constituição:

- Há interesses. A nova Constituição não muda muitas coisas, mas toca em um problema básico: a questão das terras. E não é o pobre que tem a terra na Bolívia - afirma.

Victor Cuba se diz tranqüilo quanto à instabilidade em seu país, porque alega já ter visto outros momentos críticos na história boliviana. O cônsul-geral imagina que os problemas são passageiros mas fala sobre as dificuldades de se elaborar uma nova Constituição para o país:

- ...a ordem geral não é aceita por todos. Cada um tem um modelo de Constituição apropriado a seus interesses. A Bolívia é diversa em suas culturas, então deveria haver muitas Constituições para as muitas formas de pensar que têm os bolivianos.

Acusado de apoiar as manifestações que agravam a violência na Bolívia, o embaixador dos Estados Unidos no país, Philip Goldberg, foi expulso pelo presidente Evo Morales na quarta-feira, 10. O Departamento de Estado norte-americano classificou a atitude como "erro grave" e as acusações contra o diplomata de "infundadas".

Também na quarta-feira, a explosão de um gasoduto prejudicou o fornecimento de gás boliviano para o Brasil. Nesta quinta, 11, outro incidente, segundo o consórcio operador do gasoduto, provoca a redução de pelo menos metade desse fornecimento.

Os manifestantes de oposição bolivianos querem que o presidente Evo Morales volte atrás na decisão de suspender o repasse de impostos sobre os hidrocarbonetos que era feito aos departamentos. O presidente alega que o dinheiro está sendo usado para financiar a aposentadoria no país.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista com o cônsul-geral da Bolívia no Mato Grosso:

Terra Magazine - Como tem refletido, na fronteira, essa situação política da Bolívia?
Victor Cuba - As grandes transformações de um país, que muda de um sistema que tem muitos anos de funcionamento, com novas normas, novos modos de focar a realidade, contraem situações como as que estamos vendo na Bolívia. Uma nova Constituição, que será decidida em referendo e tem que ser para a ordem geral não é aceita por todos. Cada um tem um modelo de Constituição apropriado a seus interesses. A Bolívia é diversa em suas culturas, então deveria haver muitas Constituições para as muitas formas de pensar que têm os bolivianos.

E na fronteira a situação é tranqüila?
Já dizia um ex-presidente que "na Bolívia se passa tudo e não se passa nada". São problemas internos e nitidamente há interesses que estão financiando as desordens. Porque quando se compra fogos de artifício, por exemplo, alguém está financiando isso. O povo boliviano é mais interessado pelo seu progresso, seus trabalhos diários.

E quem estaria financiando isso?
Não atacaríamos diretamente quem está financiando. Mas há interesses. A nova Constituição não muda muitas coisas, mas toca em um problema básico: a questão das terras. E não é o pobre que tem a terra na Bolívia.

O senhor enxerga alguma tentativa de não-aceitação da vitória do presidente Evo Morales? Esse tipo de manifestação vem de parte das pessoas que não aceitam essa vitória?
Isso, isso. A eleição foi legítima, com maioria da população. Porque o problema não é a nova Constituição, não é a distribuição das riquezas. O problema é de propriedade de terras. A Bolívia é um país pobre, com muitas riquezas e muito patrimônio. Faz parte dessa gente (que não aceita a vitória) uma porcentagem que não aceita a nova Constituição. E não porque não lhes convém, porque não lhes interessa mexer nas entidades privadas, no patrimônio.

Há risco de agravamento da situação boliviana?
Eu estou muito atento aos acontecimentos, mas reitero esse pensamento: em Bolívia passa tudo, mas não passa nada. Eu tenho 52 anos de vida e já passei por momentos em que estávamos ao ponto de guerra civil, mas em um instante acaba tudo. A Bolívia é um povo muito diverso, o Oriente não pensa como o Ocidente, e vice-versa. Então é muito difícil se implementar leis.

Terra Magazine