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sábado, 20 de setembro de 2008

Por toda a América Latina manifestações em prol da legalidade do governo boliviano


Centenas de pessoas reuniram-se no fim da tarde desta quinta-feira (18-9) em frente ao consulado da Bolívia em São Paulo para protestar contra a tentativa de golpe no país andino e emprestar solidariedade ao governo de Evo Morales, bem como rechaçar a intromissão dos Estados Unidos nos assuntos internos dos países da América Latina.

Dezenas de entidades estavam presentes ao ato. Centrais sindicais, partidos e movimentos sociais compareceram para dizer "não ao golpe separatista na Bolívia! Abaixo a direita fascista na América Latina”, conforme o título do Manifesto de Solidariedade divulgado durante a manifestação.

Ao lado de muitos bolivianos residentes no Brasil, que leram o manifesto de apoio ao governo de Evo Morales, representantes das entidades externaram seu repúdio à tentativa de golpe no coração da América do Sul.
Presente no evento, Wagner Gomes, presidente da CTB, discursou alertando que a solidariedade dos trabalhadores e do povo brasileiro ao povo boliviano é urgente e necessária. "O governo americano está envolvido nessa tentativa de desestabilização do governo de Evo Morales, por isso se faz necessária a unidade dos nossos povos para derrotar a ingerência do imperialismo na América Latina", declarou.

O presidente boliviano tem enfrentado há quase um mês violentos protestos em departamentos (Estados) governados pela oposição (Pando, Beni, Santa Cruz e Tarija). A direita neoliberal é contra a nova Constituição que Morales pretende aprovar para aumentar a participação do Estado na economia, dar mais poderes à maioria indígena e promover uma reforma agrária. Na sexta-feira (12/09), um dos conflitos resultou no assassinato de 30 camponeses em Pando, cujo governador, Leopoldo Fernández, foi detido nesta quinta-feira, acusado de ser o mandante do massacre.

O Cônsul da Bolívia em São Paulo agradeceu a manifestação de apoio do povo brasileiro e recebeu das mãos dos presentes o Manifesto de Solidariedade ao povo boliviano e ao governo de Evo Morales.
(Texto extraído do portal da CTB.org

MANIFESTO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS E ENTIDADES BRASILEIRAS


Não ao golpe separatista na Bolívia!
Abaixo a direita fascista ianque na América Latina!


Na última semana, uma escalada de violência tomou o leste da Bolívia. Como não puderam eleger um representante direto das classes dominantes para o governo central, grupos civis da direita fascista tentam impor um golpe separatista ao país, com vistas à derrubada do governo de Evo Morales e retomar o controle absoluto sobre o país vizinho e, em especial, sobre o gás e os demais hidrocarbonetos.

Tais grupos, liderados pelos auto-intitulados "comitês cívicos" e pelos governadores oposicionistas de cinco departamentos (estados), em coordenação com a Embaixada Norte-Americana, implementaram um verdadeiro estado de terror em muitas cidades do oriente boliviano.

O caráter racista destas manifestações - que chamam de “invasor” o indígena do altiplano que migra para as terras baixas - é evidente não somente no discurso. Muitas das ações violentas desta semana se deram justamente nos locais de trabalho e de moradia desta população migrante - como no mercado camponês em Tarija e no bairro popular Plan 3000, em Santa Cruz. Porém, a gota d’água ocorreu na última quinta-feira (11/08), quando 30 trabalhadores camponeses (dados divulgados pelo governo boliviano até dia 14/09) foram massacrados por funcionários e grupos paramilitares ligados ao governo oposicionista do departamento de Pando.
Frente a esta situação, chamamos a todos para um ato de repúdio veemente à iniciativa de golpe separatista na Bolívia. Os EUA nunca hesitaram em utilizar a força para impor estados de terror com o objetivo de impedir o avanço das lutas e reivindicações camponesas, indígenas e operárias. Mas a ditadura e o fascismo não voltarão! Abaixo a direita fascista ianque na América Latina!

Assinam:

VIA CAMPESINA, MST, MTST, INTERSINDICAL, CONLUTAS, CMS, CTB, CUT, MARCHA MUNDIAL DAS MULHERES, UNE, PASTORAL OPERARIA METROPOLITANA DE SÃO PAULO, CONSULTA POPULAR, SERVIÇO PASTORAL DOS MIGRANTES, MTL, GRITO DOS EXCLUIDOS CONTINENTAL, PSOL, PSTU, PCB, PT, PCdoB e REFUNDAÇÃO COMUNISTA.

Ato de solidariedade e apoio ao povo Boliviano, realizado em São Paulo, Brasil, 18 de setembro de 2008, VÍDEO produzido pela Tv Classista- TV da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil - CTB - www.ctb.org.br.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

ESPECIAL BOLÍVIA: Uma guerra que começou há muito tempo

Os conflitos que a Bolívia enfrenta hoje são uma nova etapa de uma antiga guerra. A história do país é uma história de massacres de indígenas, camponeses e trabalhadores, desde os tempos coloniais até hoje. A diferença, hoje, é que a oligarquia boliviana está sendo governada por um "índio", algo inaceitável para ela.

BARCELONA (ALAI-AMLATINA) - Quem se interessa por história, descobrirá que a da Bolívia é uma história de massacres de indígenas, camponeses e trabalhadores desde os tempos coloniais até hoje. A República sustentou-se sobre a exploração da força de trabalho indígena e dos recursos naturais. A exploração consolidou uma estrutura social e institucional vinculada à produção e à exportação de matérias primas, consolidando no longo prazo uma condição de dependência que a converteu num dos países mais pobres do hemisfério ocidental. Com uma organização social extremamente estratificada e um horizonte estatal frágil, sua história é marcada por exclusão e massacres. Os povos originários nunca deixaram de manifestar seus anseios de liberdade, como provam as inúmeras sublevações, tanto as que culminaram com a grande rebelião de 1780, como as contra os fazendeiros, durante a República.

Algumas destas sublevações tiveram grande magnitude, não só pelo esforço da mobilização e a tragédia que representaram, mas pela memória e herança emancipatória transmitida de geração em geração. As de 1874 e 1899, nas terras altas e nas terras baixas do país, se desdobraram em manifestações que terminaram em novos massacres como a rebelião de Machaca, em 1921, ou a de Chayanta, em 1928. Os massacres de trabalhadores também tiveram sua marca de dramatismo como a matança de mineiros em Uncia, em 1923, Catavi, em 1942, a guerra do Chaco (1932-1935), a revolução de 1946, a de 1952, a de 1964, a matança de San Juan, em 1967, o golpe militar de Bánzer, em 1971, o massacre de trabalhadores e universitários de 1979, a marcha pela vida, em 1986, a marcha pela terra , em 1990, a guerra do gás e o massacre de El Alto, em 2003, e, agora, o massacre de Pando.

Com o tempo, consolidou-se na estrutura mental dos povos indígenas e dos movimentos populares, tanto das terras altas como das terras baixas, uma cultura política insurrecional e de resistência anticolonial que foi e é uma guerra longa e intermitente contra os invasores e seus descendentes, que cruza de forma transversal toda a história boliviana. Agora, esses movimentos populares e indígenas, liderados pelo presidente Evo Morales, converteram-se em uma real opção de poder político e construção de uma nova hegemonia política que questiona a estrutura oligárquico-clientelista e antinacional que governou o país até dois anos atrás. Os movimentos indígenas e campesinos já não são sujeitos de postais folclóricos, agora são uma real opção de poder político para o país. Essa é a dimensão deste novo paradigma.

(Massacre de Porvenir)

Inclusive a esquerda tradicional, baseada em paradigmas que já não se sustentam, como o fato de assumir a “inevitável” vanguarda operária em todos os processos revolucionários, tem dificuldade em assumir a potência deste novo e, ao mesmo tempo, antigo ator social cuja estratégia de poder se sustenta na recuperação do Estado para as maiorias nacionais e que este sirva não só para assegurar a propriedade dos recursos naturais para todos os bolivianos, mas também para redistribuir as rendas obtidas com sua exploração. O conservadorismo da oligarquia boliviana, idêntica a de qualquer outra região, viu-se obrigada a aceitar ser governada por um “índio” que, segundo seus cálculos, cairia por si próprio e por sua condição de “índio”. Mas quando se questiona a estrutura da propriedade da terra, estão dispostos a tudo para não abandonar o cenário da história.

A sedição aberta da direita responde a uma estratégia planificada e coordenada de violência, bloqueios de estradas, ocupações de entidades estatais, controle e saque de instituições públicas, plano de fustigamento e ameaças, ocupação de quartéis, fechamento de válvulas de gás, desabastecimento de produtos básicos, desestabilização econômica, criação de um clima de insegurança e desgoverno. Um pano golpista que coincide, quase como uma cópia, com o que ocorreu no Chile durante o governo de Salvador Allende. Com tudo isso, ainda fica no ar uma sensação de passividade por parte do governo boliviano. Os movimentos sociais tomaram a iniciativa de conter a escalada golpista com a mobilização de suas bases, cuja decisão é frear a direita com a autoridade moral que lhes dá o sangue derramado, sua capacidade combativa e o horizonte de um modelo de país diferente.

Foram eles que carregaram sobre seus ombros os vexames e a marginalização a que os submeteram a colônia e o estado republicano oligárquico. O governo popular tem a obrigação de fazer respeitar o Estado de Direito em todo o país e levar para a Justiça os criminosos, sediciosos e paramilitares fascistas que executaram um novo massacre. O que eles pensaram que seria um elemento que incendiaria os sentimentos regionalistas autonomistas da direita fascista, acabou gerando uma reação contrária. O crime e a barbárie desta ação expôs essa direita. As Forças Armadas e a Polícia Nacional, historicamente, atenderam aos interesses da oligarquia a qual pertencem seus principais oficiais. Isso explica em parte sua posição de “braços cruzados” e inoperância frente às ações ameaçadoras da classe social com a qual se identificam.

Na história dos massacres, os militares sempre foram os atores inconfundíveis da repressão e da morte. Em todos os casos, atuaram como sicários a serviço das oligarquias. Exceto no último massacre campesino de Pando. Isso não é sinal de nada, só que devem cumprir a lei que lhes assinala a responsabilidade de serem “garantidores da unidade da pátria” e de obedecerem ao seu comandante geral, o presidente Evo Morales. Mas é preciso não cair na ingenuidade de pensar que estejam de acordo com o novo projeto de país que se constrói na Bolívia. A maior debilidade do campo popular é sua extrema diversidade e as lutas setoriais. A maior vantagem, a capacidade e tradição de luta revolucionária. O país está chegando a um ponto de bifurcação, a um ponto de inflexão e ruptura. A saída “democrática” foi esgotada com os resultados do referendo revocatório.



A violência provocada pelas oligarquias deve enfrentar as conseqüências da resposta popular. A guerra civil que muitos temem, na verdade, já começou há muito tempo, só que agora adquire uma dinâmica diferente, uma liderança distinta. O projeto emancipatório que devemos apoiar é o da “Revolução democrática e cultural”. O presidente Evo Morales assume com uma fortaleza grave a liderança desta nova etapa. Definindo que sua posição está ao lado do povo que hoje decide assumir o desafio que lhe impõe a história. A principal tarefa dos movimentos sociais e indígenas é tomar a iniciativa e passar da resistência à ofensiva. O seguinte passo é aprovar a Nova Constituição Política do Estado.

* Economista boliviano, professor da Universidade Autônoma de Barcelona.

Agência Carta Maior- Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

Fotos: Gonzalo Jallasi/ABI

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

O encontro de Santiago

Acompanhe o encontro de Santiago ao vivo aqui

Mauro Santayana (do Jornal do Brasil)

15/09/2008

Convocados pelo Chile reunem-se, na tarde de hoje, em Santiago, os países sul-americanos, para discutir a crise boliviana. O Brasil, em conseqüência das suas dimensões políticas, terá grande responsabilidade nas decisões da Unasul. Para isso, o presidente Lula conta com a habilidade e a tradição de coerência do Itamaraty. O peso do Chile é também destacado. Em conseqüência de uma guerra, entre 1879 e 1883, a Bolívia perdeu para o Chile grande parte de seu território, até o litoral, no Pacífico, e, o Peru, parcela de seu espaço meridional, na disputa pelas riquezas minerais do deserto de Atacama e do guano da costa.

A Bolívia e o Paraguai são os dois únicos países mediterrâneos da América do Sul, o que lhes traz desvantagem do ponto de vista econômico – mas são países estratégicos do ponto de vista geopolítico. O Paraguai tem bom acesso fluvial ao Atlântico, pelo Rio da Prata. A Bolívia depende basicamente de duas ferrovias, Santa Cruz de la Sierra–Corumbá, com acesso a Santos, e a de La Paz a Arica, no litoral chileno, ambas construídas como concessão, com os acordos com o Brasil (na Questão do Acre) e com o Chile, depois da guerra perdida.

Até a segunda metade do século passado, o eixo da economia boliviana estava na cordilheira, com a extração mineral, principalmente de estanho. Os trabalhadores das minas, sob a poderosa Central Obrera Boliviana, comandada por Juan Lechin, com sua mobilização permanente, exerciam papel estabilizador no país, como árbitros nas disputas políticas. As terras baixas estavam abandonadas. Mesmo entre os indígenas havia a diferença entre os nativos do Altiplano, com sua cultura incaica, e os guaranis e outros grupos das selvas do sopé da Cordilheira. O potencial econômico da região oriental era o da indústria extrativa no Nordeste da Bolívia (seringais e castanhais) e o Sudeste, com as jazidas de petróleo e gás, cobiçadas pela Shell e pela Standard Oil. As duas empresas (a primeira anglo-holandesa e a outra, norte-americana) provocaram a Guerra do Chaco com o Paraguai, nos anos 30 – também perdida pelos bolivianos. Essas jazidas começaram a ser exploradas mais tarde, por empresas multinacionais – e pela Petrobras.

O aumento da demanda e dos preços de produtos agrícolas, nos últimos anos, e as novas tecnologias de produção, estimularam a exploração capitalista das terras baixas da Bolívia, adquiridas a preços insignificantes pelos estrangeiros. Nestas três últimas décadas, sua ocupação por empresários do agronegócio (muitos deles brasileiros, americanos e croatas) promoveu, ao mesmo tempo, a concentração da propriedade, a expulsão dos índios e dos pequenos agricultores, o surgimento de burguesia branca, racista e – como mostram os últimos fatos – de caráter neonazista.

Os países do continente, que irão reunir-se hoje em Santiago, sabem que é preciso cortar logo essa tentativa de balcanização, incentivada pelos norte-americanos, que ameaça nossas repúblicas (a Venezuela, entre outras). A Bolívia deve somar os recursos do Altiplano aos das terras baixas, para sobreviver como nação. Não pode ser dividida. Aceitar o precedente é contar com movimentos separatistas em todos os países, com as áreas mais ricas tentando livrar-se de suas responsabilidades nacionais com as regiões mais pobres. No Brasil temos, há algum tempo, movimento separatista nos Estados meridionais, sob o lema de O Sul é o meu país. Manter as fronteiras históricas da América do Sul é garantir a paz.

É também chegada a hora de dizer a Washington que o continente está disposto a assumir identidade comum diante do mundo, e a não permitir a velha política de intriga de uns países contra os outros, fomentada pelos estranhos. Os governos de Morales e de Chávez podem não agradar a muitos. Mas todos os vizinhos lhes devem respeitar a legitimidade, posto que confirmada nas urnas, em eleições limpas, acompanhadas por observadores internacionais.

O pretexto dos separatistas, ao reclamar os impostos do petróleo, é improcedente. Depois da nacionalização promovida por Morales, a parcela dos recursos tributários sobre o petróleo, destinada aos departamentos, cresceu 300%. Desse dinheiro, Morales quer utilizar 30% para subsídio de US$ 20 a US$ 26 mensais a centenas de milhares de idosos pobres, muitos deles da própria região – o que os "autonomistas" consideram um esbulho.

Bolívia: A Guerra do Gás Continua



O interessante é que as classes/etnias tentam se reapropriar do gás, o elemento de uma unidade nacional que vem se constituindo a partir do indígena

O interessante é que as classes/etnias tentam se reapropriar do gás, o elemento de uma unidade nacional que vem se constituindo a partir do indígena

15/09/2008

Carlos Walter Porto-Gonçalves e Marcelo Câmara* (Brasil de Fato)

Em outubro de 2003 a Bolívia se via diante de amplas mobilizações callejeras que se aglutinaram em função da manifesta vontade do governo de então - Gonzalo Sánchez de Lozada - de exportar o gás boliviano pelo Chile, episódio que ficou conhecido como Guerra del Gás. Somente um homem que fala um espanhol com forte sotaque inglês, ou melhor, norte-americanizado, como o Sr. Goni de Lozada, seria capaz de fazer uma proposta daquele teor, ignorando não só o tempo de longa duração da história do povo boliviano que remete à perda de território para aquele país vizinho, como mostrava completa ignorância com o tempo de curta duração que, em 2000, mobilizara amplas camadas do país contra a privatização da água em Cochabamba, na chamada Guerra del Água. A ignorância, misto de soberba e onipotência, que tão bem caracteriza a tradicional classe/etnia dominante criollo/mestiza boliviana não se apercebia que o conjunto de políticas iniciado pelo mesmo Goni de Lozada, em 1985, no perfeito receituário recomendado pelo Banco Mundial e o FMI, estava desabando. A quebra do setor mineral do país com o desmonte das empresas estatais fragilizaria um dos principais pólos de resistência popular no país, a histórica COB - Central Obrera Boliviana - mas engendraria um dos fenômenos de novo tipo que vem marcando o país, e para o qual as ciências sociais não têm um nome para caracterizar o processo, qual seja, a recampenização desse proletariado mineiro que agora se dispersava. Trata-se, na verdade, da reterritorialização camponesa desse proletariado em dispersão, sobretudo pelos vales do Chapare, quando passam a se dedicar em grande parte ao cultivo de coca. E na Bolívia, assim como no Equador, Peru, México, Guatemala, Paraguai e sul do Chile, o conceito proposto por Darci Ribeiro de indigenato, qual seja, um campesinato etnicamente diferenciado, tem enormes implicações sociais e culturais e, cada vez mais, políticas. A geografia social boliviana, assim como a equatoriana, nos ajuda a entender a força do indigenato insurgente, conforme nos ensina o antropólogo Xavier Albó, na medida em que ao mesmo tempo em que parte dos antigos mineiros que se reterritorializam enquanto camponeses seguem mantendo importantes relações com as matrizes culturais dos povos originários e com as populações urbanas em função das relações sócio-espaciais mantidas entre as cidades com o altiplano. O melhor exemplo disso é a população de El Alto, cidade onde está localizado o aeroporto que dá acesso à capital La Paz, que dos seus 90 mil habitantes, em 1976, tem, hoje, aproximadamente 900 mil habitantes, em sua grande maioria indígena, que mantêm fortes vínculos com o vasto altiplano boliviano onde os ayllus, unidades territorial tradicional, mantém-se enquanto propriedade familiar-comunitária e estrutura sócio-política vigente (binômio tupus-ayllus). Na própria cidade de El Alto é marcante a reinvenção de instituições dos povos originários como é o caso das Juntas Vecinales, estruturas de perfil organizativo onde são nítidas as memórias dessa cultura organizacional.

Um hibridismo explosivo então se configura quando uma cultura político-sindical operária - como a rica tradição dos mineiros bolivianos - se encontra com a coca e, assim, com uma história de longuíssima duração que remete à ancestralidade indígena atualizada por meio desse campesinato cocalero que, por sua vez, está frente a frente com a intervenção imperialista estadunidense que, desde os anos oitenta, tenta impor a erradicação da coca. Uma declaração do então embaixador estadunidense Manuel Rocha, em abril de 2001, dá o tom da intervenção: “Bolívia es el país em la región (andina) que mejor cumplió en la lucha contra el narcotráfico; (en Washington) están admirados de lo que pasó em estos tres años en Bolívia” (La Razón, 18/04/2001, p.Política, 3-A). Admiracion esta que não só ignora as relações ancestrais dos povos andinos com a folha de coca, como se mostra especialmente insensível às dramáticas conseqüências dos programas de erradicação para o campesinato chapareño. A exigência estadunidense por “Coca Cero”, negando a reivindicação do indigenato cocalero que exigia a legalidade de parte do cultivo de coca que alegava não se vincular aos circuitos da narco-burguesia boliviano-estadunidense, mas sim à cultura ancestral quéchua/aymara e aos hábitos tradicionais de consumo, ensejará uma resposta de Evo Morales que afirmará que “cuando hablan de Coca Cero es como si estuvieran hablando de cero de quechuas-aymaras. Es el genocídio!”. Num país em que mais de 60% da população é indígena pode-se dizer que a arrogante declaração do embaixador dos EEUU adicionava um elemento imperialista a um movimento já em si contundente, e começava-se, aí, a construir uma liderança nacional em torno do indígena na Bolívia com forte caráter anti-imperialista.

Acompanhando um processo em curso em toda a América Latina onde a resistência contra as políticas neoliberais acabou por derrubar cerca de 20 governos desde 1989, a Bolívia terá num original movimento indígena o eixo em torno do qual um longo e exitoso processo de resistência se ensejará. O movimento indígena boliviano é original na medida em que se mostra visível antes do grande 1° de janeiro Zapatista de 1994, pois já em 1990 organiza, desde as Terras Baixas do Oriente, a Marcha pela Dignidade e pelo Território. É interessante notar que até mesmo a palavra dignidade que terá grande força no ideário zapatista constava explicitamente nos cartazes do movimento indígena boliviano, aliás mesmo título dado pelos indígenas equatorianos que também organizam sua Marcha pela Dignidade e pelo Território em 1990. O movimento indígena boliviano não só foi o primeiro a se manifestar, tornando-se nacionalmente visível, como será o primeiro a dar forma nacional às suas lutas elegendo Evo Morales em 2005.

A truculência histórica da classe/etnia dominante na Bolívia se encarregaria de oferecer os ingredientes de sofrimento com os massacres que se seguiram às mobilizações callejeras pela reapropriação social do gás em 2003 com dezenas de bolivianos sendo assassinados pelas forças militares a mando do então Presidente Goni de Lozada.

Desde 2006, quando Evo Morales tomou posse e, sobretudo depois que o amplo movimento social conseguiu maioria na Constituinte através de seu “Instrumento para la Soberanía de los Pueblos” - que é o MAS - Movimento Al Socialismo - que os setores retrógrados das classes/etnias dominantes bolivianas vêm fazendo de tudo para inviabilizar o processo democrático de mudança em curso no país, seja por meio de autonomias separatistas, seja com questões como a mudança da capital e a conseqüente inviabilização dos trabalhos da Constituinte, mas também, sobretudo, com o maciço uso da máquina midiática que desqualifica todos os dias, o dia todo, toda e qualquer medida governamental.

Cabe aqui recordar o fato de que um dos impasses cruciais nas discussões na Assembléia Constituinte foi a exigência, pela oposição, da necessidade de um mínimo de 2/3 dos votos dos constituintes para a aprovação da Carta Magna, como requisito supostamente essencial para um resultado democrático que contemplasse a vontade das minorias e aprovasse a nova constituição amplamente discutida. Essa mesma oposição, em um passado não muito distante no qual o papel oposição não lhes cabia, se regozijava no parlamento aplicando aquilo que ficou conhecido como “rodillo parlamentário”, um sistema de composição de alianças esdrúxulas e/ou improváveis para a composição de 50% mais um dos votos das câmaras no parlamento, aprovando o que lhes fosse de interesse. Num interessante sinal dos tempos, hoje, quando já não são mais capazes de compor uma maioria simples que lhes atenda os desejos, tornaram-se ardorosos defensores da democracia das minorias.

Porém, mesmo com todo o apoio da mídia para tentar desestabilizar o governo durante o referendum revocatório, Evo Morales conseguiu ampliar seu apoio popular tendo passado de 53% dos votos com que se elegeu, em dezembro de 2005, para 67%, em agosto de 2008! Mesmo assim, e tendo convidado os seus oponentes ao diálogo, no que foi contestado por parte de algumas lideranças populares que exigiam mano dura, as classes/etnias dominantes acantonadas na Meia Lua, agora Minguante com a derrota em Chuquisaca, resistem e exigem que o Presidente abra mão de uma gestão nacional dos recursos originários - justamente dos hidrocarbunetos - tendo inclusive desencadeado ações terroristas contra instalações da empresa que com tanto sacrifício foi nacionalizada pelas lutas e mortes recentes de bolivianos e bolivianas no ainda vivo Outubro Sangrento da Guerra do Gás de 2003.

O interessante é que as classes/etnias dominantes capitaneadas por Santa Cruz tentam se reapropriar do gás, o elemento de uma unidade nacional que vem se constituindo a partir do indígena num país profundamente fragmentado social e territorialmente, parte do caráter abigarrado da sociedade boliviana, como nos ensina René Zabaleta Mercado: um “Estado aparente”, incapaz de articular as diferentes temporalidades/territorialidades existentes no país.

A unidade nacional que se tenta construir a partir da reapropriação do gás natural, fruto das lutas e do sangue derramado nas ruas de El Alto, tem sua lógica subvertida pela elite lunática ao definir os hidrocarbonetos como recurso praticamente exclusivo daqueles departamentos de onde é extraído, discurso que logra obter um nítido apoio popular nessas regiões, sem que se apercebam de uma lógica inerente a esse processo, qual seja, a de um saudosismo pela ingerência estrangeira na administração desse recurso, afora seu anti-indigenismo histórico.

A postura de não-enfrentamento direto com que o comandante em chefe das Forças Armadas vem conduzindo o processo, abdicando de prerrogativas legais diante de uma clara tentativa de secessão, deve ser entendida como parte do profundo aprendizado político democrático que o movimento indígena-camponês boliviano experimentou, onde 1952 não é uma data qualquer. A recusa a aplicar as mesmas medidas de força com as quais foram sucessivamente reprimidos ao longo da história boliviana tem seu fundamento na compreensão da importância da construção de um núcleo comum, apropriando-nos aqui da formulação do politólogo Luis Tapia, que seja resultado do diálogo entre os diferentes setores.

Que não se confunda a disposição incessante ao diálogo com fraqueza. Este governo é herdeiro e tributário de uma luta que bem começou há alguns séculos, quando as botas dos irmãos Cortés tocaram estas terras pela primeira vez. É essa memória radicalizada - não o radicalismo midiaticamente condenado, extremista e inconseqüente - mas o de uma luta que tem raízes profundas, que se expressam na defesa firme que o governo Evo Morales faz daqueles que tiveram sua história negada. E que o exemplo de El Alto insiste teimosamente em não nos deixar esquecer.

Jallalla Bolivia!


Carlos Walter Porto Gonçalves é doutor em Geografia e Professor do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense. Foi presidente da Associação dos Geógrafos Brasileiros (1998-2000).

Marcelo Câmara é professor de Geografia da América Latina e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Jornalismo em cheque o caso da crise da Bolívia

O jornalismo (como a historiografia) deveria trabalhar com fatos e a partir deles os jornalistas podem analisar e opinar sobre a realidade, embora seja importante evitar juízos de valor. Entretanto, parece que os fatos cada vez mais estão sendo desconsiderados. Na atual crise do jornalismo a regra parece ser relativizá-los.

Para que vocês possam avaliar essa questão, destaco a seguir dois artigos. O primeiro foi escrito por um jornalista e o segundo por um cidadão sem formação no jornalismo e que ganha a vida viajando pela América Latina, vendendo peças para veículos. Leiam cuidadosamente ambos os textos e depois reflitam, quais dos autores merece a alcunha de bom jornalista?

TEXTO 1:

MANUAL DO PERFEITO IDIOTA

14/09/2008- Antonio Tozzi*

Miami (EUA) - Esta semana, os presidentes da Bolívia e da Venezuela deram mais algumas valiosas contribuições para o “Manual do Perfeito Idiota Latino- Americano”, livro escrito pelo cubano Carlos Alberto Montaner, pelo colombiano Plinio Mendoza e pelo peruano Mario Vargas Llosa, todos ex-esquerdistas decepcionados com os slogans vazios e inconseqüentes.

Pois não é que o sr. Evo Morales fez a parte dele para figurar no tal manual ao expulsar o embaixador americano da Bolívia, sob acusação de estar conspirando com os separatistas que querem dividir o país? E ainda afirmou ter sido o cidadão um dos artifices da separação de Kosovo. Ou seja, Evo ainda deu uma de analista de política internacional.

É uma pena. Estive entre aqueles que achou bem legal a eleição de um indígena aymara para governar o país andino. No entanto, o índio infelizmente não passa de um títere daqueles esquerdistas com idéias enferrujadas, que está tornando a Bolívia ainda mais empobrecida do que já era.

Depois de ter tomado o poder, partiu para estatização de empresas e inflamados discursos “anti-imperialistas”. Em vez de fazer um governo de coalizão, na linha do que vem fazendo Lula no Brasil, Evo Morales preferiu hostilizar os empresários locais e enfrentar as companhias estrangeiras que estavam fazendo investimentos no país, como foi o caso da Petrobras, por exemplo.

Ao adotar esse tipo de posicionamento, açulou os opositores que aproveitaram a oportunidade para se reagrupar após terem sido legitimamente derrotados nas urnas. E com esta postura está levando quase o país a uma guerra civil, em vez de melhorar a vida de seu povo – sobretudo a dos sofridos indígenas que há centenas de anos são massacrados.

Entretanto, os índios continuam miseráveis e sem perspectivas, e agora o país tem mais um problema para administrar. E o que faz o grande “estadista”? Expulsa o embaixador dos Estados Unidos do país. Além de ter sido uma tremenda descortesia com uma nação amiga, transferiu a responsabilidade pela crise interna para um país estrangeiro.

Evo Morales só não conseguiu ficar com o título do “Perfeito Idiota Latino- Americano”, graças ao inefável Hugo Chavez. O homem, mais uma vez, demonstrou um destempero que não condiz com um governante de um país sério.

Sem que o embaixador americano tivesse feito algo, ele decidiu “em solidariedade à Bolívia” também expulsá-lo da Venezuela. E ainda ameaçou interromper a venda de gasolina aos Estados Unidos. Obviamente, o governo americano também optou por expulsar os embaixadores da Bolívia e da Venezuela, que tiveram de deixar Washington.

Pior ainda, afirmou que enviaria tropas venezuelanas à Bolívia para intervir no conflito interno do país, “a fim de impedir que os inimigos da revolução bolivariana dessem um golpe de estado”, seja lá o que ele quis dizer com isto.

Pelo menos, o ministro da Defesa da Bolívia teve o bom senso de recusar veementemente a intervenção da Venezuela ou de qualquer outro país estrangeiro nas questões internas da Bolívia.

Finalmente, neste domingo Evo Morales e os oposicionistas começaram a discutir as possibilidades de se estabelecer um consenso. Algo que pode até mesmo resultar em autonomia para algumas províncias, como estão reivindicando os governadores locais. Ou seja, depois de a crise chegar a um ponto quase insustentável, é que começaram a negociar. Algo que deveria ter sido feito desde o início. Tomara que tudo termine bem para o povo boliviano, a verdadeira vítima deste confronto.

Só esperamos que não surja nenhum personagem que queira roubar a cena do “Perfeito Idiota Latino Americano” nesta semana e a América do Sul seja respeitada por seu crescimento e não por patranhas deste tipo.

*Sobre o autor: Foi repórter do Jornal da Tarde e do Estado de São Paulo. vive nos EUA desde 1996, onde foi editore na CBS Telenotícias Brasil e no canal de estortes PSN. Atualmente é editor da revista Latin Trade e do Jornal AcheiUSA.

TEXTO 2

Análise política internacional

Evo melhorou a Bolívia

15/09/2008- Eduardo Guimarães*


Aos poucos, vão sendo impostas a democracia e a verdade aos seus eternos inimigos nesta parte do mundo, ou seja, aos Estados Unidos, à mídia latino-americana e, sobretudo, aos fascistas bolivianos, que tanto mal estão causando ao povo da Bolívia e à democracia de toda região ao reeditarem um passado de golpismo, de racismo e de ruptura institucional.

Facilitado pela mídia golpista daqui, a maior das mentiras que está sendo contada é a de que o governo de Evo Morales Ayma, com seu “comunismo”, estaria afastando investimentos da Bolívia e fazendo ruir a economia do país.
Nesse contexto, vários leitores deste blog vieram aqui repetir bobagens que leram na imprensa golpista tupiniquim sobre a “piora” que o governo da Bolívia promoveu no país, “afastando investimentos” etc.

A “imprensa” estimula a burrice da sociedade ao dar ampla publicidade a discursos enlatados engendrados nas redações das Folhas, Globos, Vejas e, claro, nos “Comitês Cívicos” dos nazistas da “Meia Lua” boliviana.

Essa gente nada sabe sobre a Bolívia. É provável que nem saiba qual é a capital de fato do país, que, à diferença do que se pensa, não é La Paz e, sim, Sucre; La Paz é a sede do governo boliviano. Isso não impede essas vítimas do mau jornalismo de saírem por aí repetindo as imbecilidades que foram inculcadas em suas cabeças vazias.

Diante desse quadro deprimente de emburrecimento jornalístico coletivo, vale a pena expor alguns fatos sobre os êxitos expressivos que também o governo de esquerda boliviano vem obtendo nos últimos anos, à semelhança dos êxitos que todos os governos progressistas da região vêm obtendo em maior ou menor grau.

Evo Morales foi eleito em dezembro de 2005. O país que passou a governar era, então, o mais pobre da América do Sul, com 60% dos seus 9 milhões de habitantes abaixo da linha da pobreza e 38% em extrema pobreza; desemprego de 12%, com 40% de sub-empregados; renda dos indígenas 40% inferior à renda dos não-indígenas (Fonte: Vi o Mundo)

Apesar de ter a segunda maior reserva de petróleo da América do Sul, a Bolívia ainda é o país mais pobre da região. Não foi por outra razão que Evo nacionalizou o gás e o petróleo e negociou seus preços com o Brasil e a Argentina, pois tais preços eram extremamente baixos. O gás, por exemplo, era vendido por cerca de 3 dólares o metro cúbico, apesar de o preço alternativo – por exemplo, da Rússia – ser 3, 4 vezes mais alto. (Fonte: Folha de São Paulo)

Com a nacionalização do petróleo, a Bolívia passou a lucrar 85% das exportações do produto, que dobraram de 2005 para 2006, chegando a 4,9 bilhões de dólares (Fonte: Vi o Mundo).

Mas o discurso falacioso mais comum que as vítimas da lavagem cerebral midiática gostam de alardear é o de que Evo estaria “afastando investimentos estrangeiros” com seu governo “comunista”.

É mentira. A empresa siderúrgica indiana Jindall Steel & Power, por exemplo, ganhou licitação em 2006 para a explorar a jazida de Mutún, uma das reservas de ferro mais importantes do planeta, que fica no leste da Bolívia. O investimento, até agora, soma 2,5 bilhões de dólares (Fonte: Folha On Line).

É bom informar, também, que a mina de Mutún possui reservas de 40 bilhões de toneladas de ferro, 10 bilhões de magnésio (70% das reservas mundiais) e se achava sub-explorada antes de Evo assumir (Fonte: Folha On Line) .

Outro êxito expressivo do governo da Bolívia foi na questão da dívida externa do país. A queda do endividamento boliviano, que ocorreu já no primeiro ano do governo Evo Morales (2006), decorreu da obtenção de muito maior receita do petróleo, principal fonte de divisas da Bolívia e que era vendido a preço de banana ao Brasil, certamente porque os governos brasileiros anteriores devem ter usado “argumentos” altamente convincente$ para que os governos bolivianos de então aceitassem vender-nos gás por preços tão irrisórios...

Os gráficos abaixo mostram quanto caiu a dívida externa da Bolívia a partir do governo Evo Morales, eleito em 2005 e empossado em 2006 (Fonte: Cia - The World Factbook).
Quero explicar a vocês, finalmente, que, durante a recente crise na Bolívia, dediquei-me tanto ao assunto aqui porque descobri uma coisa. Nos últimos 13 anos venho viajando quase todos os meses pela América Latina. Nesses tantos países, fiz amigos, entrei nas casas das famílias, vi as mazelas e as qualidades desses povos e países e com eles estabeleci uma ligação muito íntima. Em suma, aprendi a amar a região em que está o meu país.

Senti uma dor imensa ao ver sofrer tanto, ao ver ser chacinado por bandidos aquele povo pobre, humilde, que tantas vezes me recebeu como se eu fosse uma celebridade só por ser branco, brasileiro e por me dignar a entrar em suas casas humildes.

Os bolivianos são pessoas boas, humanas, com forte senso de solidariedade, humildes ao impensável... Sinto muito por eles, sobretudo pelas vítimas dos reacionários nazistas da “Meia Lua”, uma gente desprezível que, infelizmente, conheço bem, e que explora aqueles índios e os trata como lixo.
Mas parece que as coisas melhoram graças ao apoio decidido dos governos progressistas latino-americanos – e não acreditem na imprensa golpista brasileira quando esta põe em dúvida o apoio de Lula a Evo –, que disseram em alto e bom som aos mentores do golpismo boliviano, os Estados Unidos, que não aceitariam que a potência hegemônica voltasse a promover por aqui sua “democracia” criminosa.

O mundo mudou, a América Latina muda mais do que qualquer outra parte, mas a direita latino-americana, vil, assassina, covarde, golpista e capacho dos americanos ainda não percebeu. Azar dela.

*Sobre o autor: paulistano, blogueiro do Cidadania.com, criador do Movimento dos Sem Mídia e vendedor de auto-peças.

domingo, 14 de setembro de 2008

Em tempos de golpes tercerizados e sabotadores nas embaixadas....

Um sabotador (ou assassino) econômico

Esta entrevista com o americano John Perkins, foi publicada na revista “Caros Amigos” (março de 2006).

John Perkins é autor do livro “Confessions of an Economic Hit Man” (“Confissões de um sabotador econômico”), editado no Brasil pela Editora Cultrix com o título “Confissões de um assassino econômico”.

CAROS AMIGOS: Qual é a história dos sabotadores econômicos? Por que essa "carreira" foi criada?

John Perkins: Foi o trabalho dos sabotadores econômicos que criou o primeiro império verdadeiramente global – e sem ter que usar as forças militares. Os sabotadores econômicos nasceram em 1951, quando Kermit Roosevelt, neto de Theodore Roosevelt, foi enviado para o Irã para derrubar do poder o xá Mossadegh. O governo americano estava com medo de que, se mandasse os militares para o Irã, isso causaria uma guerra contra a Rússia, e a Rússia era uma potência nuclear. Então, a CIA fez uma experiência, enviando Kermit Roosevelt, e ele foi muito bem-sucedido, conseguiu derrubar o presidente eleito democraticamente, que estava se opondo às companhias petrolíferas americanas. Foi substituído pelo xá Mohammad Reza, que era um grande camarada das empresas de petróleo.

Como ele fez isso?

Ele contratou gente para organizar protestos e passeatas, boicotes, marchas pelas ruas, e assim fez o Mossadegh parecer impopular. Esse padrão se mostrou muito mais seguro e menos caro para obter o controle de outros países do que os meios militares. O problema é que o Roosevelt era um agente da CIA, e isso poderia ser um problema para os Estados Unidos. Em vez disso, a nova política era que esse tipo de trabalho seria contratado por empresas privadas. Quando eu entrei em cena, no final dos anos 60, o trabalho era feito somente por empresas privadas.

Mas como esse trabalho – uma missão estratégica – passou para a mão de empresas? Como as empresas se tornaram tão cúmplices do governo?

Nos Estados Unidos acontece o que chamamos de "porta giratória": quem está no comando das grandes corporações sempre recebe cargos no alto escalão do governo por alguns anos, e depois volta para o mundo corporativo. Agora, na administração Bush, todo mundo do alto escalão, incluindo o próprio Bush, a Condoleezza Rice, Dick Cheney, Donald Rumsfeld, veio dos grandes negócios: petróleo, laboratórios farmacêuticos etc. As grandes corporações e os governos trabalham muito proximamente, o que torna fácil o governo contratar empresas privadas para fazer o tipo de trabalho dos sabotadores econômicos.

Quando você começou na Main, havia muitas empresas fazendo esse trabalho?

Havia outras empresas fazendo isso, tenho certeza de que a Bechtel, a Halliburton, a Stone & Webster, Brown & Root, mas só posso falar seguramente sobre o que aconteceu comigo. Não tínhamos muito contato uns com os outros, era um esquema muito inteligente. E, quando jantava no Rio de Janeiro, em Jacarta ou Caracas, eu sabia que a pessoa com quem estava trabalhando era um sabotador econômico, mas na verdade o cargo oficial dele era, por exemplo, economista-chefe, como eu, ou consultor econômico, ou especialista financeiro.

Como você se tornou um sabotador econômico?

Quando fui convidado para trabalhar para a Chas. T. Main, e conheci Claudine. O cartão dela dizia que era consultora especial para a Main. Mas eu acho que ela era especializada em treinar sabotadores econômicos, e provavelmente contratada por uma outra empresa particular.

No livro, você conta que, durante seus encontros, que sempre aconteciam no apartamento dela, ela ia contando exatamente qual seria o trabalho para o qual você tinha sido contratado. Você pode explicar qual era a sua função?

Meu trabalho era, na essência, identificar países que têm recursos que as corporações americanas desejam – como petróleo – e então conseguir enormes empréstimos de instituições como o Banco Mundial para esses países. Mas a maior parte do dinheiro nunca ia para o país, e sim para as corporações americanas, que construíam enormes projetos de infra-estrutura para aquele país, como usinas de energia, estradas, portos, coisas que ajudavam os ricos daqueles países, mas geralmente não ajudavam a maioria da população. E os países acabavam com uma dívida enorme, tão grande a ponto de não poder ser paga. Então, em algum momento, um sabotador econômico voltava ao país e dizia: olha, vocês nos devem muito dinheiro, não podem pagar a dívida, então vendam petróleo muito barato para nossas empresas, ou votem conosco na ONU, ou enviem tropas para ajudar nossas guerras.

Mas você chegou a fazer isso?

Sim, fiz. Isso quase sempre era feito pelos altos escalões do Departamento de Estado americano, mas algumas vezes eu estava envolvido.

Como era garantido que esses países obteriam um empréstimo das instituições internacionais como o Banco Mundial? E como era garantido que as corporações americanas ganhariam os contratos?

Tínhamos que produzir relatórios, e assim convencer as pessoas de que esse dinheiro iria beneficiar a economia desses países. Então é por isso que tínhamos que falsificar previsões, fazer previsões bem mais altas do que elas deveriam ser na realidade, para mostrar que, se o dinheiro fosse investido em alguma grande represa, nos próximos vinte anos a eletricidade gerada, por exemplo, resultaria num grande crescimento econômico. Se boa parte do dinheiro viesse de organismos americanos, como Usaid, ou o Banco de Exportação e Importação, então por lei esse dinheiro tinha que ir para as corporações americanas. Se vinha do Banco Mundial ou do Banco Interamericano de Desenvolvimento, então outras empresas poderiam ganhar os contratos, mas sempre havia uma enorme pressão para que contratassem corporações americanas.

No livro, você fala muito em corporatocracia. O que é?

Gosto dessa palavra, porque ela explica como é o primeiro império realmente global. Não tem um imperador, ou um rei, mas um grupo muito pequeno de homens que controlam as grandes corporações multinacionais. Essas corporações têm o controle do governo americano e de muitos outros governos pelo mundo afora. Eles governam o sistema. Das cem maiores economias do mundo, 51 são corporações, não países; e 47 delas são americanas. E os Estados Unidos são como o capitão, ou o treinador do time. As mesmas pessoas estão nos altos escalões dos organismos multilaterais, pelo mesmo mecanismo de "porta giratória". Hoje, o presidente do Banco Mundial é Paul Wolfowitz, que tinha um alto posto no nosso Departamento de Estado, e também trabalhou em grandes instituições financeiras internacionais.

Para o leitor ter uma idéia mais real, gostaria que você explicasse como foi o seu primeiro trabalho como sabotador econômico, em Java, na Indonésia.

No começo dos anos 70, o governo americano percebeu que ia perder o Vietnã. E havia um medo do efeito dominó – se o Vietnã caísse, então o resto da Ásia também ia cair. A crença era de que a Indonésia era um bom lugar para frear o efeito dominó, porque tinha uma grande população, tinha mais muçulmanos que em qualquer país do mundo, e tinha petróleo. Então fui enviado para a Indonésia junto com um monte de pessoas que fizeram um grande empréstimo para a construção de um sistema de energia – usando nossas corporações para construir esse sistema. No processo, tínhamos que deixar a Indonésia com uma enorme dívida. E fomos muito bem-sucedidos. Por causa desse trabalho, a Indonésia caiu nas nossas garras. E não virou comunista. Nunca tivemos que mandar os militares.

Sim, mas como você conseguiu convencer os governantes da Indonésia?

Foi fácil convencer o governo porque pessoas que fazem parte do governo ficariam muito ricas, já que elas e suas famílias eram donas das grandes indústrias que iriam se beneficiar com a eletricidade. E a mesma coisa vale para todos os países em que trabalhei, é por isso que os líderes de todos esses países cooperam conosco. Quando construímos o projeto, muito trabalho vai para seus parentes. Eles são donos de pequenas empresas que vão ganhar subcontratos para construção.

Mas isso é combinado, falado?

Algumas vezes é tão óbvio porque apenas os parentes deles são donos das empresas. Mas algumas vezes isso é dito: "Se pegarmos esse contrato, a sua família vai ficar muito rica". Além disso, eles detêm as grandes indústrias, os shopping centers e os empreendimentos comerciais que vão se beneficiar com a eletricidade, os portos, as estradas, o que for. Claro que aqueles que moram em caixas de papelão ou nos pequenos povoados nunca vão receber eletricidade nenhuma.

E como eram as suas previsões de uso de energia?

Muito altas, nos relatórios eu previa um crescimento de 15 a 20 por cento por ano no uso de eletricidade, o que criaria também um crescimento enorme na economia.

Como você chegava a essas estimativas?

Eu sabia que esses eram os números que esperavam de mim, então desenvolvi modelos matemáticos, que chamamos de modelos econométricos para justificar essas estimativas. Você pode usar estatísticas para provar quase tudo, qualquer bom economista pode provar qualquer coisa através de estatística, se ele quiser. Então, em cada um desses países, produzimos relatórios muito extensos usando modelos matemáticos que justificavam aquilo que era determinado politicamente.

Então era uma fraude completa?

Normalmente era.

De que maneira a Main se beneficiava com isso?

Uma vez aprovados, a Main não construía os projetos, mas geria a construção. Isso nos colocava em uma posição muito boa, podíamos dizer que éramos imparciais, mas sabíamos que íamos ganhar mais e mais trabalhos semelhantes se apresentássemos as "previsões certas". Além disso, éramos aliados muito próximos das empresas que ganhavam os contratos, como Bechtel, Stone & Webster, a Brown & Root.

Qual foi a diferença do trabalho na Arábia Saudita?

A Arábia Saudita não precisava pegar empréstimos porque tinha muito petróleo, muito dinheiro entrando. O que tivemos que fazer foi convencer a Arábia Saudita a investir os petrodólares em títulos do governo americano, e então o Departamento do Tesouro americano usaria esse dinheiro para contratar empresas americanas que pudessem construir grandes indústrias, complexos petroquímicos, sistemas de energia elétrica, portos, estradas, toda a infra-estrutura na Arábia Saudita. E dissemos: se vocês toparem o acordo, e mantiverem o preço do petróleo acessível, faremos tudo para manter a família real no poder. Como fizemos com o Kuwait, onde havia um acordo semelhante... Quando o Saddam Hussein atacou o Kuwait, em 1990, enviamos as tropas para proteger a família real do Kuwait.

Isso foi dito assim, tão claramente?

Sim. Eu fui uma das pessoas que falaram isso. Claro que você tem que ser meio cuidadoso com as palavras que usa, caso alguém esteja gravando, mas basicamente era isso que dizíamos.

Mas quem te deu essas ordens?

Nesse caso, o Departamento do Tesouro enviou pessoas para falar conosco. Eu costumava enviar documentos em envelopes de comunicação interna no escritório, e não tinha certeza de quem os estava recebendo ou para onde estavam indo.Na Arábia Saudita não era apenas sobre poder ou dinheiro, mas a proposta era mesmo ocidentalizar para que o país fosse um modelo para o Oriente Médio...A interferência foi muito profunda, deixou árabes e muçulmanos do mundo todo muito bravos porque os lugares mais sagrados do Islã, Medina e Meca, estão agora cercados por cidades ocidentalizadas, complexos petroquímicos, McDonald's... E eu acho que podemos ver isso acontecendo em muitos países. Sempre que há um império em extensão, isso acontece. Quando os portugueses foram para o Brasil para explorar os recursos do Brasil, a cultura portuguesa se tornou dominante no Brasil, e as culturas nativas chegaram a quase desaparecer.

O próximo passo, uma vez endividados os países, seriam medidas que são impostas pelo Banco Mundial e pelo FMI para "sanear" as economias. E um passo principal seria a privatização dos recursos. Na sua época já se falava nisso?

Estávamos nos primeiros estágios. Naquela época, as empresas de petróleo estavam insistindo que todas as empresas de petróleo desses países deveriam ser privatizadas. Então, esse processo havia começado, mas hoje está muito maior.

Os sabotadores econômicos ainda existem?

Claro que sim. Acho que há muito mais hoje. Tem o mesmo tipo de sabotador que eu era, chamamos de "genéricos" porque não trabalhávamos para que uma empresa específica pegasse os contratos, mas apenas que as empresas americanas fizessem o trabalho. Mas hoje há sabotadores que trabalham diretamente para certas companhias, como a General Electric, ou a Monsanto, ou a Nike, Halliburton, Bechtel.

Mas isso não seria um lobby?

É mais que um lobby, porque essas pessoas também trabalham em parceria com bancos e conseguem empréstimos para construir grandes fábricas, empreendimentos. Essas empresas se tornam muito próximas de autoridades do governo, elas conseguem vagas nas universidades americanas para os filhos deles, ou contratam os jovens como estagiários, pagando muito dinheiro. Ou então contratam pessoas do alto escalão dos governos de outros países por alguns anos, e depois essas pessoas voltam a trabalhar para o governo. Isso é na verdade uma forma de suborno.

No seu livro, você descreve que havia uma seqüência na intervenção externa americana. Primeiro, eram enviados os sabotadores econômicos; se eles falhassem, então era a vez de os "chacais" entrarem em ação, para derrubarem o governo ou até assassinar presidentes. Ainda funciona assim?

Ainda é assim. Os chacais foram enviados à Venezuela em 2002 para organizar o golpe de Estado contra Hugo Chávez. Eu conheço os sabotadores que fizeram isso. E conheço o sabotador que conseguiu convencer o presidente Gutiérrez, do Equador. Durante a campanha, Gutiérrez prometeu taxar mais as empresas de petróleo, ou nacionalizá-las, e ele venceu, mas aí esse sabotador econômico foi falar com ele, Gutiérrez voou para Washington e encontrou o presidente Bush, e quando voltou ele só praticou políticas a favor das empresas petrolíferas. O Hugo Chávez fala abertamente disso, ele soube do meu livro e disse que foi exatamente o que aconteceu com ele: os sabotadores foram visitá-lo.

Você perguntou ao sabotador que tratou com Gutiérrez como ele fez isso?

Não especificamente. Mas eu sei como funciona. Você vai até o gabinete do presidente e o relembra do que aconteceu com Allende, e Jaime Roldós, e Torrijos, e Noriega. Todos esses eram presidentes que se opuseram à corporatocracia e foram derrubados ou assassinados. E diz que a opção é fazermos grandes contratos no seu país, podemos implantar usinas de energia, sistemas de água, e que ele e sua família vão ganhar muito dinheiro quando fizermos isso. Foi o que eu fiz com Omar Torrijos no Panamá. Ele não topou, e foi por isso que ele morreu. E tudo está se repetindo agora, está acontecendo com Evo Morales, na Bolívia, tenho certeza.

Quem são os chacais?

A maioria deles é empregada de empresas privadas, trabalha para empresas como a Global Management Solution e outras empresas de segurança. Muitos deles foram treinados por forças especiais nos Estados Unidos, na Inglaterra ou na África do Sul, mas geralmente quando eles se tornam chacais vão trabalhar para corporações privadas. Eu conheço alguns chacais, sei como funciona. Para os chacais entrarem em ação, hoje em dia, nem precisa de uma decisão centralizada, as coisas funcionam de maneira muito indireta. Porque os chacais, quando são enviados a campo, sabem o que devem fazer. Assim como quando me tornei um sabotador econômico, quando fui enviado para encontrar Omar Torrijos, ou fui para a Indonésia, ou qualquer outro país, não precisava que alguém me ligasse e falasse: "Olha, você precisa trazer Torrijos para o nosso lado". Eu sabia que, se fosse enviado para o Panamá, esse seria o meu trabalho.

Agora, a conjuntura na América Latina mudou bastante, na América do Sul temos muitos presidentes de esquerda... Onde estão os sabotadores econômicos?

Acredito que todos esses presidentes foram visitados pelos sabotadores econômicos. A pergunta é: onde estão os chacais?

Pichações em Santa Cruz, Bolívia que seguem o manual da Cia

Você não está com medo, depois que seu livro foi publicado? Não recebeu nenhuma ameaça?

Decidi escrever esse livro por causa dos atentados de 11 de setembro, e dessa vez não contei a ninguém. Uma vez publicado o livro, essa é a melhor proteção que eu tenho. Eles sabem que, se alguma coisa acontecer comigo, o livro vai vender milhões de cópias, e é a última coisa que eles querem.

O livro vendeu muito bem, certo?

Sim, a versão em papel-jornal está há cinco semanas, desde que foi lançada, na lista de mais vendidos do New York Times. Semana que vem (a última de fevereiro), ela vai para o quinto lugar na lista. E o livro já foi publicado em vinte línguas até agora.

Como foi a repercussão nos Estados Unidos?

É interessante, porque a imprensa grande não fala sobre o livro. O livro está na lista de mais vendidos do New York Times, mas eles nunca mencionaram isso, nunca fizeram resenha do livro, nunca falaram dele. A mesma coisa com o Los Angeles Times, todos os grandes jornais. Fui convidado para dar uma entrevista na NBC, um grande canal de televisão, e voei da Califórnia para Nova York para participar do programa. Eles ficaram de me mandar uma limusine para me levar ao estúdio e, enquanto eu estava esperando a limusine, eles ligaram e cancelaram. Sem nenhuma explicação.

Seu livro tem um tom bastante confessional, e fala diretamente ao coração dos americanos, porque fala muito dos ideais dos fundadores dos Estados Unidos. O que ele provocou nas pessoas?

Primeiro, eu queria dizer uma coisa: me considero um cidadão americano muito leal. Meus ancestrais lutaram em todas as guerras neste país, e eu acredito muito fortemente nos princípios que este país defende. Acho os ideais que estão na nossa declaração de independência muito bonitos. Todo mundo no mundo todo tem direito à liberdade, à vida, e a buscar a felicidade, o que não quer dizer que eles querem o mesmo sistema que temos. Uma das razões de eu ter escrito o livro é porque acredito que, se os americanos realmente souberem o que está acontecendo, eles vão exigir mudanças. Agora, com meu livro, outros sabotadores econômicos estão aparecendo, saindo do "gelo", como diz a CIA. Vamos publicar um outro livro com muitas histórias diferentes, cada uma escrita por um sabotador. E eles toparam assinar seus nomes.

Há mais alguma coisa que o senhor gostaria de dizer aos leitores brasileiros?

Acho que vale a pena para os brasileiros pensar um pouco sobre a minha história. Tenho certeza de que Lula tem sofrido muitas pressões dos sabotadores econômicos e talvez dos chacais. Não sei se ele cedeu, mas acho que os brasileiros deveriam dar uma olhada nessa história. Pensem nisso. ..................................................

Entrevista concedida à jornalista Natália Viana, da Caros Amigos.

*Publicado por Nezimar Borges

Fonte das imagens

Aqui em espanhol

Imperialismo sanguinário


Mauro Santayana

O que está ocorrendo na Bolívia ocorreu no Brasil, em 1964; no Chile, em 1973; na Argentina, em 1976, e quase ocorreu na Venezuela, em 2002. Tudo começou com a usurpação de 1.300 mil km² do território do México, na guerra movida pelo presidente Polk (1846/1848). E em 1856, o mercenário ianque William Walker se declarou presidente da Nicarágua. Podemos deixar de lado o caso bem conhecido da intervenção em Cuba, desde sua "independência" até a Revolução de 1959.

No início do século 20, para construir o canal, os americanos promoveram o movimento separatista do Panamá – que pertencia à Colômbia – e obtiveram, da constituição que eles mesmos redigiram, o direito de intervir no país quando necessário. Entre 1926 e 1933, a Nicarágua viveu a extraordinária gesta de Sandino – em seu tempo, mito maior do que o de Guevara. Ele enfrentou vitoriosamente os marines, foi traído e assassinado por Somoza, em encontro marcado para a conciliação nacional. Como prêmio, o democrata Roosevelt fez do assassino o ditador da Nicarágua, que legou o país a seu filho, até a vitória dos sandinistas em 1979, quando os EUA armaram os contra-revolucionários. Em El Salvador o terrorismo norte-americano matou dezenas de milhares de pessoas, entre elas o bispo dom Oscar Romero, junto ao altar.

Em 1964, os norte-americanos estimularam e orientaram, mediante seus diplomatas e agentes, o golpe contra o governo constituído de Jango. Como hoje na Bolívia, houve a orquestração da imprensa, o incentivo aos baderneiros, a mobilização da extrema direita. Em 1973 foi a vez do Chile. Repetiu-se o mesmo modelo, com o envolvimento das forças armadas, o uso de vultosos recursos financeiros, a cooptação remunerada dos serviços de informação, os atos de sabotagem, o lock-out dos empresários e o estímulo a agentes provocadores. O golpe contra Allende só foi consumado com a morte do grande presidente. O envolvimento dos Estados Unidos no episódio é registrado em documentos oficiais de Washington.

A Venezuela, mesmo depois de o presidente constitucional Hugo Chávez ter sido seqüestrado, conseguiu impedir o golpe de abril de 2002, patrocinado pelos Estados Unidos, pelas multinacionais, empresários locais e os meios de comunicação. No fim da última semana, era denunciada nova articulação golpista. Com a experiência que temos do passado, é quase certo que Washington se encontre por detrás da conspiração. Chávez, diante dos fatos na Bolívia, teve a coragem de expulsar o embaixador dos Estados Unidos. Morales também havia decidido declarar persona non grata o embaixador norte-americano em La Paz, e com razões públicas e objetivas: o diplomata estava se reunindo com os governadores da oposição que pregam a independência de suas regiões.

A Bolívia não se encontra nas antípodas. Está ali, ao lado. A nossa posição, no episódio, deve ser orientada pela velha afirmação do princípio de não intervenção. Fez bem o Brasil em acatar a decisão de Evo Morales de declinar do oferecimento dos vizinhos para buscar a conciliação. Morales preferiu convidar o prefeito de Tarija, a fim de conversar. O problema maior é o grande latifúndio: 860 proprietários controlam 46% das terras da planície (quatro deles com glebas de mais de 50 mil hectares cada um), enquanto 54 mil empresários médios só possuem 7,3% da área. Os índios foram despojados de suas terras, e o agronegócio (movido por croatas, sírio-libaneses, norte-americanos e brasileiros) está por detrás das agitações. É ainda mais grave saber que a razão invocada pelos baderneiros é a de que Morales vai usar os recursos do gás para socorrer os bolivianos idosos e pobres.

Não é provável uma saída rápida para a crise. Ainda que se chegue a um acordo entre o presidente e os governadores da região oriental, o problema continuará latente. O caso da Bolívia é também uma advertência para a nossa política fundiária na Amazônia. Estamos permitindo a aquisição de glebas na região por estrangeiros e por grandes fundos de investimentos (que são apátridas, como o Opportunity), o que trará grande risco em futuro próximo.

Aos Estados Unidos não interessa a estabilidade de nenhum país do continente. É evidente que tanto na Venezuela, quanto na Bolívia, seus agentes, oficiais e embuçados, incentivam os inimigos de Morales e de Chávez. Diante da situação, os demais países sul-americanos devem unir-se diplomaticamente e impedir o pior.

Fonte: Jornal do Brasil