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domingo, 14 de setembro de 2008

O mundo unipolar e a esquerda na América Latina, uma análise da geopolítica

Evo Morales é um presidente legítimo não há o que se discutir a respeito disto. Ele não apenas foi eleito com ampla margem como recentemente aceitou um plebiscito proposto pela elite separatista da Média Luna e foi referendado pelo povo com mais de 60% de aprovação, o que não ocorreu com prefeitos e governadores de algumas províncias que governam a chamada região da Média Luna. No entanto, como era de se esperar essa mesma elite não cumpriu o combinado e não apenas não aceitou o veredito do plesbiscito que ela mesmo propôs, como agora iniciou uma guerra civil sob a capa do discurso da autonomia, mas que objetiva dar um golpe de Estado.

A elite da Média Luna não é qualquer elite, ela é em sua maioria de origem européia, racista e fascista em seu discurso e prática, não aceita as reformas de cunho social realizadas nos governos de Evo Morales e deseja perpetuar as desigualdades e para defender seus interesses de classe alia-se aos EUA e a outros latifundiários, inclusive brasileiros, deixando de lado os interesses nacionais. Ela se opõe, por exemplo, a um programa de paposentadoria aos idosos do país, que conta com verbas obtidas da renda do gás. Essa elite não quer permitir o aumento da pensão aos idosos. Ela se opõe também aos limites ao latifúndio impostos pela nova Constituição boliviana que será referendada em dezembro. Avaliem 860 proprietários controlam 46% das terras da planície (quatro deles com glebas de mais de 50 mil hectares cada um), enquanto 54 mil empresários médios só possuem 7,3% da área. Os indígenas foram despojados de suas terras, e o agronegócio (movido por croatas, sírio-libaneses, estadunidenses e brasileiros) está por detrás das agitações.

No Brasil temos especialmente no sul/sudeste do país (em municípios isolados) um discurso separatista que, por vezes, recai no preconceito regional e racial. Perto da elite racista e fascista da Média Luna nossos neoconservadores separatistas são café-com-leite. Mas só para entendermos o que ocorre hoje na Bolívia, façamos um exercício: imaginemos que São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul resolvessem se separar do restante do país, alegando que os nordestinos representam o atraso, são inferiores etc. e para isso os prefeitos e governadores desses estados se articulassem com a embaixada dos EUA, recebessem dinheiro, se armassem, passassem a resistir às leis estabelecidas no Brasil e buscassem por todos os meios derrubar o presidente do Brasil.

Entendido o que está ocorrendo na Bolívia, resta saber sobre o posicionamento de Chavez : no dia 11 de setembro ele fez um discurso contundente contra os EUA e expulsou o embaixador estadunidense da Venezuela em solidariedade a Evo Morales. Chavez entre os presidentes eleitos e reeleitos latino-americanos é o que mais marcadamente se opõe à interferência estadunidense nos assuntos latino-americanos.

No artigo a seguir o jornalista Luiz Carlos Azenha, sem incorrer em juízos de valor, faz uma análise bastante interessante, contextualizando a atual crise na Bolívia. O artigo foge dos costumeiros reducionismos presentes na mídia brasileira quando o assunto é a América Latina. Vamos ao texto do Azenha e nos próximos posts outros artigos críticos sobre a crise na Bolívia:


OS BOMBARDEIROS RUSSOS EM CARACAS E O QUE VOCÊ TEM A VER COM ISSO

(Luiz Carlos Azenha)

Atualizado em 13 de setembro de 2008 às 23:50

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Dois bombardeiros estratégicos russos TU-160, conhecidos como Blackjacks, estão na Venezuela e devem permanecer no país até o próximo dia 15. Não estranhe se nas próximas horas Hugo Chávez voar em um deles. É a primeira vez que aviões russos pousam na região desde o fim da Guerra Fria. Em tese os aviões podem voar com mísseis nucleares mas já se sabe que não vieram armados com bombas atômicas.

A União Soviética já controlou a base de Lourdes, em Cuba, de onde praticava espionagem eletrônica no "quintal" dos Estados Unidos. Agora os russos parecem interessados em mandar uma mensagem aos Estados Unidos: se vocês querem brincar em "nosso quintal" também podemos brincar no "quintal de vocês".

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Até o final deste ano a Venezuela deverá receber a visita do contratorpedeiro Pedro O Grande (foto acima), do cruzador Almirante Chabanenko e de outros navios de guerra russos. Não está confirmado se haverá ou não manobras conjuntas no mar do Caribe. Vale mais pelo simbolismo.

O jornal russo Izvestia disse que o país pode estacionar bombardeiros TU-160 em Cuba, na Venezuela e na Argélia. Eles fazem parte do tripé nuclear de ataque da Rússia para um eventual confronto nuclear com os Estados Unidos. Para ter algum valor militar significativo essa medida exigiria grandes investimentos em pessoal e equipamento que parecem incertos.

Para entender o que está acontecendo é preciso recuar ao fim da Guerra Fria. Tive a sorte de testemunhar pessoalmente a "queda" do Muro de Berlim na capital alemã. Todos nós imaginávamos que o mundo estava a caminho de se livrar das armas nucleares. Mas o que aconteceu desde então? O mundo se tornou unipolar. Os Estados Unidos, através de uma variedade de instituições públicas e privadas, de influência em processos eleitorais e de conflitos militares quentes e frios fez avançar seus interesses em todo o mundo. Não vou emitir juízo de valor. Trata-se de uma constatação factual. A OTAN se expandiu. Áreas que um dia estiveram sob controle soviético hoje são da esfera de influência dos Estados Unidos.

Os Estados Unidos atingiram a hegemonia nuclear, ou seja, hoje têm a certeza de que poderiam vencer uma guerra nuclear atirando primeiro. Sem isso não teriam derrubado o governo do Afeganistão ou invadido o Iraque.

O que a Rússia fez, na Geórgia, foi deixar claro que quer ser levada a sério na arena internacional. Os russos consideram que existe um limite para a expansão da aliança militar do Ocidente. Não aceitam a entrada na aliança da Geórgia e da Ucrânia. Washington apóia a entrada dos dois países. Os europeus não estão certos disso.

Se hoje existe uma grande diferença entre Estados Unidos e Rússia há também entre Estados Unidos e União Européia. Mas nisso Bush, McCain e Obama concordam: a expansão da OTAN deve incluir a Geórgia e a Ucrânia.

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Agora olhem o mapa acima, que identifica o Mar Negro (Black Sea). Notem a posição da Ucrânia (Ukraine), no alto, e da Geórgia, à direita, em relação à Rússia.

Acharam Sevastopol no mapa? É onde fica baseada a frota russa do Mar Negro.

A Geórgia não é importante apenas por ser um corredor para tirar petróleo da região do mar Cáspio. É essencial também para o controle do próprio mar Negro. Existe um tratado internacional que prevê que navios da OTAN só podem permanecer na região durante 21 dias. A entrada para o mar é controlada pela Turquia nos estreitos de Bósforo e Dardanelos. A Turquia é integrante da OTAN.

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A presença de um grande número de navios estrangeiros na região causou grande alarme na Rússia durante a recente crise. Os Estados Unidos, alegando a necessidade de entregar ajuda humanitária, despacharam para a Geórgia o navio da Guarda Costeira Dallas, o USS Mount Whitney e o contratorpedeiro USS McFaul (foto).

É nesse contexto que é preciso entender o envio dos bombardeiros russos - desarmados - à Venezuela e a decisão do governo Bush de acusar dois integrantes do governo de Hugo Chávez de terem dado ajuda ao narcoterrorismo na Colômbia.

Além da expansão da OTAN, os russos reclamaram muito do apoio ocidental à independência de Kosovo e da instalação de mísseis anti-míssil dos Estados Unidos na Polônia, com radares de monitoramento na República Tcheca. Vladimir Putin não acordou um dia e decidiu: "Vou ficar maluco e tocar fogo no mundo". Por mais que você não concorde com ele é nesse quadro que se explicam as ações recentes de Moscou.

Deixo com vocês os cinco pontos da nova política externa da Rússia, como definidos pelo presidente do país, Dmitri Medvedev:

1. A Rússia reconhece a primazia dos princípios da lei internacional;

2. O mundo deve ser multipolar. O mundo unipolar é inaceitável;

3. A Rússia não quer confronto, não tem a intenção de se isolar;

4. A prioridade da Rússia é proteger a dignidade e a vida de "nossos cidadãos" (considere que há grande quantidade de russos vivendo fora do país, inclusive na Ucrânia);

5. A Rússia, assim como outros países do mundo, tem regiões nas quais tem interesses privilegiados. Nessas regiões, há países com os quais tradicionalmente tivemos relações cordiais, relações historicamente especiais. Vamos trabalhar atentamente nessa regiões e desenvolver relações amigáveis com esses países, com nossos vizinhos próximos.

Já os Estados Unidos tentam restabelecer sua hegemonia na América Latina. Hugo Chávez e Evo Morales se associaram ao Irã e buscam uma inserção internacional fora do guarda-chuva de Washington, num período em que Washington tenta reduzir sua dependência das fontes de energia do Oriente Médio e olha crescentemente para as reservas existentes na própria região. Tanto Barack Obama quanto John McCain colocaram esse objetivo em suas plataformas eleitorais.

A mídia brasileira não levou a sério as recentes denúncias de Hugo Chávez e Evo Morales de que teria havido tentativas de golpe nos dois países. Dado que atacar os Estados Unidos é politicamente conveniente - especialmente no caso de Chavez, que enfrenta eleições em 23 de novembro - é bom mesmo receber as denúncias com uma pitada de sal. Mas a História da América Latina é marcada pela História de intervenções armadas e desarmadas de Washington, com ou sem a mão do gato. E o governo Bush pode muito bem ter tentado limpar a área para um futuro governo. A ver.

Leia também:

DOSSIÊ Bolívia: raça e classe podem dividir o país no referendo de 04 de maio

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Os donos do poder estão incomodados, já não suportam mais tantos governos independentes no hemisfério

Fernando Lugo, o insuportável

A recente denúncia feita pelo presidente paraguaio Fernando Lugo, sobre uma comprovada reunião conspiratória, põe em debate uma novidade dos tempos atuais. Os donos do poder estão incomodados, já não suportam mais tantos governos independentes no hemisfério.

Por Modesto Emilio Guerrero, para o Página 12*

Fernando Lugo

Para conspirar contra o presidente Hugo Chávez demoraram três anos – seu mandato havia começado em 2 de março de 1999. Logo tentaram contra Evo Morales, cujo governo se iniciou em 26 de janeiro de 2006 – lá o intervalo foi de dez meses. O equatoriano Rafael Correa, que começou seu mandato em 15 de março de 2007, teve que esperar nove meses para se inteirar da primeira tentativa de conspiração.


Chavez, Correa e Evo

Três anos, dez meses, nove meses. Ao sacerdote terceiro-mundista Fernando Lugo, presidente eleito pelo povo do Paraguai, deram apenas três semanas.


A iniciativa não significa que são inevitáveis conspirações militares e nada mais. Isso é muito simples. Trata-se de um plano dinâmico e calculado, no qual elas são parte de um menu que inclui sinuosos trâmites diplomáticos, pressões financeiras, ofertas de investimentos, pactos semi-secretos de Tratado de Livre-Comércio e tudo aquilo que possa conduzir a uma reorganização de seu poder hemisférico. Nesse propósito cabem o enfraquecimento de governos, como o provocado na Argentina recentemente ou derrotas eleitorais ao estilo da Nicarágua, em 1989. Henry Kissinger, que entende bem de conspirações, define esse processo como "uma estratégia de múltiplos efeitos adaptada à globalização".


O que acontece no Paraguai revela seu grau de fragilidade como Estado-Nação capitalista, o protótipo do protagonismo mafioso plantado nas estruturas políticas, militares e sociais do país. A dimensão da impunidade é o estímulo para desafiar o novo governo desde o primeiro dia. Estão aproveitando a ausência de um poderoso movimento social e político que defenda Lugo. Em 1995, quando entrevistei Lino Oviedo em Montevidéu, entendi essa condição com essa resposta: "É que em nosso país as coisas estão feitas de tal maneira que nada se move sem que o saibamos". Reveladora frase, que de todas as maneiras não pôde evitar a mudança que acaba de iniciar Fernando Lugo. Então a tarefa é desestabilizá-lo.


Na Venezuela, tiveram que esperar até que Chávez falasse das "leis de aprofundamento da revolução", em setembro de 2001, pois estas falavam no direito social da terra, na recuperação do petróleo, da PSDVA e outras coisas muito feias para a elite. Nos três anos prévios, a tarefa foi tentar comprá-lo, corrompê-lo e agradá-lo. Recordo da reveladora declaração de Pedro Carmona em uma entrevista que fiz em junho de 1999, antes dele ser "Pedro, o Breve". "Este homem que faça o que bem quiser com sua Constituição Bolivariana e seus discursos incendiários, desde que não queira tocar o petróleo e tumultuar este país". Esse sentido de poder de classe conduziu o golpe de 11 de abril de 2002.

Kirscher, Evo, Lula e Chavez

Com Evo, a situação que levou à primeira conspiração de novembro de 2006 começou seis meses antes, no mesmíssimo dia 1º de maio em que os hidrocarbonetos foram nacionalizados. Não-somente foi a resposta das multinacionais afetadas, começando pela Petrobras, mas também o susto dos chefes de Santa Cruz e os outros estados com reservas de gás: entenderam que estavam a ponto de perder seu controle sobre esses recursos. Cinco meses depois, já andavam reunindo-se com agentes da embaixada dos Estados Unidos, buscando aliados nas Forças Armadas, na igreja, junto à Usaid, à Cia e outros órgãos.


Quanto a Correa, os ataques começaram no Parlamento opositor que quase lhe fez perder quatro ministros no primeiro ano. O movimento cresceu com a resolução presidencial de acabar com a base norte-americano de Manta em 2009 e por sua vontade de pertencer ao "socialismo do século 21", como Chávez.


A incrível lembrança de mais de 300 golpes sofridos pela América Latina no século 20 não faz reviver a frase reveladora segundo a qual a história não suporta o vácuo. Ou se avança ou se retrocede.


* Modesto Emilio Guerrero, venezuelano, é escritor e jornalista.


Tradução: Fernando Damasceno

9 DE SETEMBRO DE 2008 - 15h18