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segunda-feira, 2 de março de 2009

"DITABRANDA": MARCELO COELHO TENTA JUSTIFICAR O PATRÃO

Por Rodrigo Vianna, do blog O Escrevinhador

segunda-feira, 02 de março de 2009 às 09:45

O Marcelo Coelho (colunista da "Folha") decidiu escrever sobre a "ditabranda".
O texto está no blog dele Marcelo Coelho/Folha.

Marcelo reconhece que o termo usado em editorial pelo jornal, para se referir ao regime millitar brasileiro (1964-1985) é "infeliz". Ufa, que alívio!

Mas, depois, ele se rende a um lamentável contorcionismo verbal, para tentar justificar a posição do jornal.

Hum...


"Marcelo quer agradar o patrão?"

Os leitores não são bobos. Por isso, Marcelo apanha feio nos comentários do blog. Um dos leitores chega a dizer: "não faça isso com o seu nome, com sua memória. Um emprego na Folha não vale sua alma".

Hum... Será que não vale?

Marcelo não é só colunista. É membro do Conselho Editorial da "Folha". Há muito o que defender, portanto.



"Gaspari: Folha dava carona pro DOI-CODI"

Dois argumentos usados por ele me deixaram levemente irritado (não muito, porque já não esperava grande coisa de quem cumpre o papel de escrever pra livrar a cara do patrão).

1) Marcelo diz que a carta de Fabio Konder Comparato trazia uma intenção oculta: "Tratava-se de defender Chávez, mais do que acreditar na tese de que a “Folha” teria passado a apoiar a ditadura. A resposta de Otavio a Comparato quis denunciar essa hipocrisia, essa indignação postiça, chamando-a de cínica."

Fui reler a carta de Comparato, para ver como o brilhante professor tinha feito a defesa de Chavez. Não encontrei, no texto de Comparato, nenhuma referência ao presidente da Venezuela.

Queria que o Marcelo nos mostrasse onde está a defesa de Chavez. Por favor, Marcelo, onde está?

Falo de fatos, não de opinião. Não há defesa de Chavez na carta de Comparato. A não ser que Marcelo tenha advinhado as intenções malévolas do professor!

E, outra coisa: ainda que Comparato defendesse Chavez (o que não ocorreu), isso não muda o fato de a "Folha" ter usado um termo errado, absurdo, para se referir a um regime que torturava, matava, e coordenava a "Operação Condor" em toda a América do Sul: a ditadura brasileira.

2) Marcelo também embarca na mitologia de uma "Folha" democrática.
"Há pelo menos 30 anos, a “Folha” reprova o autoritarismo. Teve, se não me falha a memória, papel importante na luta contra o regime militar."

Desculpe, Marcelo, mas sua memória falha.
Talvez, você esteja confuso, diante dos compromissos com o nono andar da rua Barão de Limeira.

A "Folha", onde trabalhei por 3 anos no início dos anos 90, teve um papel importante na campanha das Diretas-Já. Isso é fato.

O jornal sentiu que o vento estava soprando pro lado da democracia, e resolveu aderir. Aproveitou o "nicho de mercado", trouxe intelectuais para a página 3, deu voz à sociedade civil. Mas, isso tudo, só depois da Anistia em 79.

Antes disso, Marcelo, a família Frias estava colada com a ditadura. E com a linha-dura dos militares.

Veja o que Mino Carta conta sobre o jornal (a declaração de Mino consta de artigo do jornalista Alípio Freire, que me chega pela internet):
"(...) hoje você vê esses anúncios da Folha - o jornal desse menino idiota chamado Otavinho [Otavio Frias Filho] - esses anúncios contam de um jeito que parece que a Folha, nos anos de chumbo, sofreu muito, mas não sofreu nada. Quando houve uma mínima pressão, o sr. Frias afastou o Cláudio Abramo da direção do jornal. Digo que foi a "mínima pressão" porque o sr. Frias estava envolvido na pior das candidaturas possíveis, na sucessão do general Geisel. A Folha estava envolvida com o pior, apoiava o Frota [general Sílvio Frota, ministro do Exército no governo Geisel]. O Claudio Abramo foi afastado por isso.“
("A mídia implorava pela intervenção militar" Entrevista com Mino Carta. Por Adriana Souza Silva, da Redação AOL, abril de 2004)

Marcelo, como você sabe, por ser amigo íntimo da família, o velho Frias e os filhos tiveram que morar no prédio da "Folha", porque temiam as ações da esquerda armada nos anos 70.

E por que? Porque a "Folha" punha seus carros de entregar jornal a serviço da meganha da OBAN, a serviço dos torturadores. Nos anos 70, esse era o "nicho" onde seu Frias e o sócio Carlos Caldeira colhiam bons negócios.

Não sou eu que estou dizendo, Marcelo.

Em "A Ditadura Escancarada", Élio Gáspari (hoje, colunista da "Folha") solta (sem grande alarde, porque ele não está aqui para causar constrangimentos à família Frias) uma informação interessante:
"Carros da empresa [Folha] eram emprestados ao DOI, que os usava como cobertura para transportar presos na busca de 'pontos' " (p. 395).

Hum...

Não é só o Ivan Seixas quem diz. O Élio Gáspari também sabe. Escreveu e nunca foi desmentido pelo jornal.

E por que? Porque até as horrorosas pastilhas que enfeitam o prédio da "Folha", na rua Barão de Limeira, sabem que isso é verdade.

Mas, a "Folha" segue posando de democrata.

Os Mesquita não são santos. Apoiaram o golpe de 64. Depois, se arrependeram publicamente, e passaram à oposição. Nunca emprestaram carro pra torturador. A história do "Estadão" está aí. Ninguém precisa reescrevê-la.

Já a "Folha" tem um passado a ocultar. Coisa feia.

Todos nós erramos, não é, Marcelo?
Quando isso acontece, o melhor a fazer é reconhecer o erro, pedir desculpas, e tentar repará-lo, quando for possível.

A "Folha" se nega a fazer isso. O Otavinho (que devia ir criar galinhas) prefere insultar professores covardemente.

Mas, você, Marcelo, podia pedir desculpas pelo artigo lamentável no seu blog. Teria todo o meu respeito. Porque erros todos nós cometemos.


Leia também:

Ato contra a Folha de São Paulo

Porque não devemos falar em Ditabranda

Para Ombudsman, Folha só foi 'descortês' com eBnevides e Comparato

O papel sujo da Folha de São Paulo

... Cartas de ivan Seixas, por que a Folha não as publica?

A Ditabranda, a culpa é de Fidel

Ditabranda na Folha, Direita volver!

O cinismo revisionista da Folha

Folha afirma em editorial que não houve ditadura no Brasil

ATO EM REPÚDIO À DITABRANDA: DIA 07/03, ÀS 10 HORAS, NA BARÃO DE LIMEIRA EM FRENTE À FOLHA

"Você corta um verso/ Eu escrevo outro.
Você me prende vivo/ Eu escapo morto.
De repente, olha eu de novo/ Perturbando a paz
Exigindo o troco."
(Pesadelo - Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro)

Carlos Latuff revisitou a foto mais emblemática para o jornalismo durante à ditadura militar (veja a foto original aqui) para ironizar a barbárie dita pela Folha. De modo provocativo ele traduz o que este jornal colaboracionista do regime militar quis dizer ao afirmar que no Brasil não houve ditadura, mas "ditabranda".

Caros,

Como sabem o editorial da Folha de São Paulo do dia 17/02 tripudiou sobre a memória de todos que foram torturados, abatidos, perseguidos no Brasil, durante o regime militar.

A Folha criou um ditatômetro para afirmar em um revisionismo insidioso que nossa ditadura foi branda. Diante dos protestos de inúmeros sobreviventes e, particularmente, após as cartas em repúdio remetidas pela professora Maria Victória Benevides e Fábio Konder Comparato contra este neologismo absurdo
, a Folha, de maneira cínica e desrespeitosa, publicou uma nota que não só reafirmava o seu revisionismo como buscou fazer chacota aos respeitáveis professores e a suas histórias de vida.

A Folha não apenas desrespeitou os professores em questão e todas as vítimas da ditadura militar, ela desrespeitou os brasileiros, nossa história e memória.


Na esteira do jornal colaboracionista que emprestava suas peruas para transportar presos políticos para serem torturados no Doi-codi, artigos do que há de pior na imprensa brasileira foram escritos: Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, Gravataí Merengue e Cia, chamaram o professor Antonio Cândido e todos os acadêmicos signatários da petition online em repúdio à Folha de 'caducos' de 'doutrinadores dos estudantes'; 'intelectuais' do PT (com uma conotação para lá de negativa), "uma gente tacanha, uma gente cabotina, que pretende ser eternamente recompensada por seus gestos durante o regime militar."


Cabotinos e Tacanhos são estes neocons que dominam a grande imprensa, resta-nos mobilizarmos contra a barbárie.

É importantíssimo que ALÉM DE ASSINAR A PETIÇÃO DE REPÚDIO À FOLHA E EM SOLIDARIEDADE AOS PROFESSORES DESRESPEITADOS POR ELA (http://www.ipetitions.com/petition/solidariedadeabenevidesecomparat/index.html ) saiamos de nosso conformismo e PASSEMOS A EXPRESSAR nossa indignação, não apenas nos pequenos círculos de amigos, nos corredores da Universidade, precisamos dizer em clara e sonora voz que basta de tanto absurdo, precisamos CANCELAR EM MASSA A ASSINATURA DESTE JORNAL SEM NOÇÃO DO RIDÍCULO, PRECISAMOS DIZER QUE NÃO ACEITAMOS MAIS UM REGIME DE EXCEÇÃO, TORTURA NUNCA MAIS!
PRECISAMOS SOMAR ESFORÇOS E NOS AGREGARMOS.


O presidente do movimento dos sem mídia Eduardo Guimarães (www.edu.guim.blog.uol.com. br), jornalistas decentes que não cederam à barbárie, estudantes e professores fazem um apelo a todos que compareçam na manifestação do dia 07/03 e que tragam seus filhos, companheiros/as, amigos, que convoquem seus vizinhos, independente de que partido se filiem ou simpatizem, este é um movimento de CIDADANIA.

Leve seu cartaz para expressar o seu repúdio e sua solidariedade às vítimas da ditadura militar, leve seu celular 3G para ligar convocando os amigos, informar sobre o que está acontecendo, subir, fotos do ato para a rede, ajudar a compor a rede de blogueiros que estarão por lá para que possamos mostrar ao Brasil que estamos descontentes com este REVISIONISMO INSIDIOSO DA FOLHA E SEUS NEOCONS.


Repassem o convite deste protesto DEMOCRÁTICO para seus contatos, está é uma corrente que vale a pena.


Grande abraço

Conceição Oliveira

domingo, 1 de março de 2009

Por que não devemos falar em "ditabranda"

Por Luiz Carlos Azenha no Vi o Mundo

Atualizado em 01 de março de 2009 às 12:52 | Publicado em 01 de março de 2009 às 11:44

Os argumentos de que, comparativamente com outras ditaduras, o regime militar brasileiro foi de alguma forma "brando" são baseados em estatísticas que escamoteiam as verdadeiras implicações do golpe de 64.

Será que os liberais se esqueceram que, depois de colaborar com o golpe, alguns deles foram os primeiros a entrar na lista de cassações?

É fato que cerca de 300 militantes de esquerda morreram ou foram "desaparecidos" pelo regime, um número infinitamente menor que os 700 mil "comunistas" eliminados por Suharto, na Indonésia. Mas essas comparações numéricas são toscas, não refletem a realidade histórica distinta de cada sociedade e nem capturam a atmosfera repressiva de um regime ditatorial.

Para quem não viveu o período, fica parecendo que a ditadura brasileira foi um terror apenas para quem era de esquerda -- muito embora a esquerda tenha, de fato, sido o principal alvo do regime militar. As cassações políticas, a repressão a religiosos, sindicalistas e estudantes e a censura à imprensa afetaram, direta ou indiretamente, a milhões de brasileiros.

Todos nós ficamos, então, à mercê do humor dos ditadores de plantão e, especialmente, de seus agentes paroquiais. Um dedo-duro bem conectado com um agente do governo poderia causar uma enorme dor-de-cabeça a quem fosse identificado como "inimigo" ou mesmo "adversário" do regime.

Nessa hora é muito importante recorrer aos registros históricos:

Em fevereiro de 1968, o proprietário do "Diário da Manhã" de Passo Fundo (RS), começou a ser processado por solicitação de vários prefeitos da região, por razão de críticas e ataques feitos em seu jornal, durante o ano de 1967, àqueles chefes de Executivo Municipal, havendo referência também a ofensas que teriam sido feitas ao ministro da Educação, Tarso Dutra. [Brasil Nunca Mais, editora Vozes, página 146]

Em outras palavras, um jornal do interior falou mal de prefeitos da região e o dono foi processado pela Lei de Segurança Nacional. Outro exemplo:

Ainda em 1971, no mês de agosto, um editorial publicado na "Luta Democrática", do Rio de Janeiro, comentando um acidente de trânsito que vitimou uma criança, levou o jornalista Carlos Augusto Vinhaes a responder por crime contra a Segurança Nacional. [Brasil Nunca Mais, editora Vozes, página 146]

Nem partidários do regime militar escapavam:

Trata-se de "Ari Cunha", na verdade José de Arimatéia Gomes Cunha que, em sua coluna regular no "Correio Braziliense", da Capital da República, denunciou as torturas a que havia sido submetida, grávida, a presa política Hecilda Mary Veiga Fonteles de Lima, recolhida no PIC -- Pelotão de Investigações Criminais, de Brasília. Este foi um caso ímpar, em que um ideólogo da Doutrina de Segurança Nacional sofre o peso da LSN sobre suas costas, por ter divulgado um episódio que, no seu entender, representava um excesso dispensável na repressão necessária para garantir a solidez das instituições do Regime. [Brasil Nunca Mais, editora Vozes, páginas 146 e 147]

E o que dizer do vereador que foi processado por amarrotar uma foto do ditador Médici?

Outros dois vereadores do MDB, agora de Cachoeirinha, nas proximidades de Porto Alegre, seriam processados, também em 1970, um por ter discursado na Câmara atacando o Regime Militar, e o outro, por ter amarrotado uma foto do presidente Médici, enviada para ser afixada naquela casa legislativa. [Brasil Nunca Mais, editora Vozes, página 141]

Meu pai, que apesar de português e comunista era um tremendo gozador, costumava dizer que os militares tinham fabricado alguns espantalhos para justificar não só o golpe, mas o regime que implantaram em seguida.

Havia o mito da "República Sindicalista" a ameaçar a classe média urbana, amedrontada com o comunismo. Um medo manufaturado através das campanhas do IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) e do IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), como brilhantemente documentado no livro "1964: A Conquista do Estado", de René Armand Dreifuss.

Uma obra de ficção, a tal "República Sindicalista", muito mais sofisticada que o "estado policial" forjado recentemente pela revista Veja e o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, para defender o banqueiro Daniel Dantas. Mas a linha era mais ou menos a mesma: um assalto à democracia em nome de "defender a democracia".

O mito da "República Sindicalista" se esboroou no primeiro de abril de 1964, quando um regime constitucional foi derrubado sem um tiro sequer. Um assalto em que embarcaram os principais orgãos de imprensa do Brasil, inclusive O Globo, a Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo -- este último, ao lado da Veja, do Jornal do Brasil e da imprensa nanica pagariam um preço muito alto, mais tarde, por causa da censura.

Os três jornalões que restaram são, até hoje, prisioneiros dessa contradição: dizem defender a democracia tendo sido cúmplices do maior atentado contra ela na História recente do Brasil. É de se esperar, portanto, que exibam vez ou outra traços de nostalgia.

LEIA AQUI O EDITORIAL DE "O GLOBO" CELEBRANDO O GOLPE DE 64

LEIA AQUI COMO A TENTATIVA DA "FOLHA" DE REESCREVER A HISTÓRIA NÃO É NOVA

OUÇA AQUI A ENTREVISTA DA HISTORIADORA QUE DIZ QUE A "FOLHA" TEM ESQUELETOS NO ARMÁRIO

Não se enganem: o regime de 64 foi concebido na Escola Superior de Guerra (ESG), obedecia a lógica da Guerra Fria dos Estados Unidos e implantou um aparato de força milimetricamente organizado na melhor (ou pior, dependendo do ponto-de-vista) tradição dos militares. Quem acha que a tortura foi "eventual" ou "acidental" não sabe do que está falando. A tortura foi uma ferramenta política e policial para intimidar e eliminar adversários e foi apenas o lado mais perverso de um estado policial. O conceito de "inimigo interno", inventado pela Doutrina de Segurança Nacional, ainda hoje está entre nós. Quem chiou contra o Brasil imaginado pelos militares foi defenestrado, especialmente depois de 68, independentemente de ser de direita ou de esquerda. Falar em "ditabranda" é, pois, um desserviço à democracia.

LEIA AQUI, EM PORTUGUÊS, PARTE DO ARQUIVO QUE REGISTRA O APOIO DE WASHINGTON AO GOLPE

LEIA AQUI, EM INGLÊS, TODO O ARQUIVO

Tendo a esquerda na América Latina chegado ao poder dentro das regras democráticas, não dá para entender é que, de repente, essas regras não sirvam mais. Ou que se comece a inventar um "estado policial" para atentar contra elas. Um amigo direitista -- na tradição de meu pai, que chegou a ser um rico empresário comunista, eu também tenho amigos direitistas -- outro dia se dizia preocupado com a possibilidade de um terceiro mandato do Lula. É o sonho de consumo da elite: que o Lula tente um terceiro mandato para ser acusado de "ditador".

De gozação, lembrei a meu amigo tucano: eu não me lembro de você ter chiado quando o Sarney ampliou seu mandato de quatro para cinco anos ou quando o FHC "comprou" a reeleição. Ele riu, sem graça. Que poder de turvar a memória têm os interesses políticos conjunturais!

PARA OMBUDSMAN, "FOLHA" FOI SÓ DESCORTÊS COM BENEVIDES E COMPATATO

Domingo, Fevereiro 22, 2009

Vera Sílvia Magalhães: TV Câmara - Memória Política

Na manhã do dia 4 de Setembro de 1969 dava-se início ao sequestro do então embaixador americano no Brasil, Charles Elbrick, planejado cuidadosamente alguns meses antes, por membros da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), ALN (Aliança Libertadora Nacional), DI/GB (Dissidência do PCB / Guanabara) e seu braço armado a FTA (Frente de Trabalho Armado) DI/GB.

Vera Sílvia Araújo de Magalhães, membro da FTA DI/GB, conhecida como “Marta”, “Andréia”, e outros), única mulher a participar do sequestro, faleceu dia 04/12/2007 de câncer, aos 58 anos. No filme “O que é isso companheiro?” duas mulheres encenam partes de sua participação no episódio, Fernanda Torres (“Maria”) e Cláudia Abreu (“Renée”).

Na foto, Vera Sílvia sentada na cadeira devido às torturas - quando presa, após o sequestro do embaixador americano -, que haviam lhe prejudicado a locomoção. Ao seu lado, agachados, da direita para a esquerda: Fernando Gabeira e Carlos Minc. Vera, certa vez, em depoimento emocionado sobre o porquê de continuarem a luta na época, disse: “
Eram meus amigos, era minha vida – e minha morte. Essa contradição eu tinha de viver. Fora dali eu era o quê? Não tinha identidade.”

OBS: No vídeo a informação de que Franklin Martins é comentarista da TV Globo está desatualizada. Hoje, Franklin é ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. (Fonte:"A Loira 90": uma homenagem)

Fonte do vídeo e do texto a seguir: TV Câmera



Ela poderia ter desfilado a beleza de seus vinte anos pelas calçadas de Ipanema, no Rio de Janeiro onde nasceu. Poderia ter sido uma garota que amava os Beatles e os Rolling Stones, no embalo da liberação de costumes que varreu o mundo na década de 60. Ou poderia ter concluído o curso de Economia e levado uma vida burguesa, beneficiada pelo “milagre brasileiro” que fez o País crescer dez por cento ao ano no período mais repressivo dos governos militares. Mas Vera Sílvia Magalhães amava a revolução e, como tantos jovens de sua época, não admitia viver sob a ditadura implantada pelo golpe de 64.

Nenhum deles, porém, foi tão longe: ela pegou em armas, assaltou bancos, trocou tiros com forças de segurança e sequestrou o embaixador do país mais poderoso do mundo. Viu o companheiro tombar a seu lado, quando tentavam escapar de um cerco policial. E a peruca que usava para se disfarçar nos assaltos a transformou em personagem de primeira página nos jornais populares: era a loura noventa, que empunhava dois revólveres calibre 45. Acabou baleada, presa, torturada e banida do país que queria libertar. E virou personagem de um filme que concorreu ao Oscar.

Trinta anos depois, vividos entre o exílio e a volta, Vera Sílvia Magalhães ainda procura seu lugar no mundo. Carrega no corpo e na alma as marcas da violência. E se pergunta o que fazer agora de tanta ousadia e tanta generosidade, de tanta coragem e tanta ternura.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

O PAPEL SUJO DA FOLHA DE SP

Por Uraniano Mota do Direto da Redação

Recife (PE) - Em 17 de fevereiro, ao publicar o editorial Limites a Chávez, a Folha de São Paulo nem imaginava o ciclone imenso que provocou. É que lá no texto ela escreveu “...Mas, se as chamadas ‘ditabrandas’ - caso do Brasil entre 1964 e 1985 - partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça...”, de passagem, como se nada fosse, substituindo Ditadura por Ditabranda. E fez mais: ao receber mensagens dos professores Fábio Konder Comparato e Maria Victoria de Mesquita Benevides, que protestaram contra o insulto à memória histórica, a Folha de São Paulo assim respondeu:

“...Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua ‘indignação’ é obviamente cínica e mentirosa”.

Para quê? Essa qualificação, de indignação cínica e mentirosa, aplicada às palavras de dois intelectuais honrados, provocou o gancho, acordou as forças de todo o mundo culto e democrata do Brasil. Com 2.381 assinaturas, lideradas pelo crítico literário Antonio Cândido (2.381 às 16 horas deste 25.2.2009), corre um abaixo-assinado de protesto, que pode ser acessado em http://www.ipetitions.com/petition/solidariedadeabenevidesecomparat/signatures-1.html

Então começaram a voltar à tona histórias e História, do passado da Folha de São Paulo, que contavam, relatavam o seu mais que apoio, a sua participação nos crimes da ditadura militar. Das histórias, todas com dolorosos depoimentos de humanidade e denúncia, a da jornalista Rose Nogueira mais chama atenção, pelo caráter particular da sua posição no tempo. Rose era funcionária do jornal, repórter da Folha, quando foi presa em 1969. No entanto, ela descobriu 27 anos depois que foi punida

“não apenas pela polícia toda-poderosa, pela justiça militar. Ao buscar nos arquivos da Folha de S. Paulo a minha ficha funcional, descubro que, em 9 de dezembro de 1969, quando estava presa no Deops, incomunicável, 'abandonei' meu emprego de repórter do jornal. Escrito a mão, no alto: ABANDONO. E uma observação oficial: Dispensada de acordo com o artigo 482 – letra 'i' da CLT abandono de emprego'. Por que essa data, 9 de dezembro? Ela coincide exatamente com esse período mais negro, já que eles me 'esqueceram´por um mês na cela'. Todos sabiam que eu estava lá. Isso era – e continua sendo – ilegal em relação às leis trabalhistas e a qualquer outra lei, mesmo na ditadura dos decretos secretos. Além do mais, nesse período, se estivesse trabalhando, eu estaria em licença-maternidade" (Do seu artigo "Em corte seco", no livro "Tiradentes um presídio da ditadura", coord. Alípio Freire, Izaías Almada e J.A. de Granville-Ponce – Scipione Cultural – 1997).

E lembrou mais a jornalista, no mesmo texto:

“Cacá nasceu em 30 de setembro, no Hospital 9 de julho, em São Paulo. Fórceps. Uma cirurgia por rotura da parede da bexiga e uma sonda me obrigaram a ficar mais de vinte dias internada. Quando a polícia chegou, o bebê tinha 33 dias e estávamos em casa havia mais de uma semana....

O leite que eu tirava do seio ainda insistia em vazar e minha blusa cheirava a azedo. A febre aparecia todo dia. O leite me fazia pensar que, enquanto estivesse ali, brotando, eu estaria ligada ao meu filho. Dias depois veio o diminutivo do dia me buscar para depoimento. Empurrava-me pela escada, enquanto gritava: ‘Vai, miss Brasil! Sobe essa escada logo, sobe!’ Miss Brasil era o nome de uma vaca leiteira que havia sido premiada. E na sala para onde me levou, o ‘inho’ chamava os outros: ‘Olha a miss Brasil, pessoal! Tá cheia de leite! É a vaca terrorista!’ “.

Ela nunca mais pôde ter outro filho, em conseqüência das torturas. A parte boa da história é que Rose Nogueira continua exercendo a profissão de jornalista. Ela deu a volta por cima, trabalha em televisão, e continua a ser útil para o seu filho e para outros filhos do mundo. Apesar do jornal-patrão, apesar do título de Miss Brasil em 1969.

(Email do colunista: urarianoms@uol.com.br)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

POR QUE A FOLHA NÃO PUBLICA CARTAS DE IVAN SEIXAS? VEJA O QUE ELE CONTA SOBRE A “DITABRANDA”

Por Rodrigo Vianna em seu blog: O Escrevinhador

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009 às 14:15

Ivan Seixas tinha 16 anos quando foi preso pela ditadura, ao lado do pai, Joaquim Alencar de Seixas. No dia 16 de abril de 1971, os dois foram levados para o DOI-CODI/OBAN, em São Paulo, e barbaramente torturados.

Ivan ficou indignado quando leu o editorial da “Folha de S. Paulo”, definindo a ditadura brasileira como “ditabranda”. Falei há pouco com ele por telefone: “É muita arrogância dos Frias, ainda mais com os pés de barro que eles têm. Os Frias não têm direito de pontificar sobre a ditadura, até porque colaboraram com a ditadura”.


Ivan foi torturado pelo regime que tinha (e tem) apoio do jornal de Otavinho

Ivan Seixas mandou duas cartas para a Redação da “Folha”, protestando. Nenhuma das duas foi publicada. Escreveu, também, para o Ombudsman. Nada.

Nesta última, fez referência ao passado nebuloso do grupo “Folha”, jornal que “empregava carros para nos capturar e entregar para sessões de interrogatórios, como sofremos eu e meu pai. Ninguém me contou, eu vi carro da “Folha” na porta da OBAN/DOI-CODI.”

Ivan sabe do que está falando quando diz que a “Folha” tem pés de barro nesse tema.

Na madrugada do dia 17 de abril de 1971, poucas horas após a prisão dele e do pai, policiais a serviço da “ditabranda” tiraram Ivan da prisão para um “passeio” por São Paulo. Tomaram o caminho do Parque do Estado, uma área de mata fechada, próxima ao Jardim Zoológico. Lá, o jovem (algemado e desarmado) foi ameaçado várias vezes de fuzilamento. Os policiais - polidos como só acontecia na “ditabranda” brasileira - dispararam várias vezes bem ao lado da cabeça de Ivan. Ele fechava os olhos e tinha certeza que morreria: tortura terrível. Mas, deixaram-no vivo, pra contar a história.

No caminho para o Parque do Estado, os funcionários da “ditabranda” pararam numa padaria, na antiga Estrada do Cursino. Desceram pra tomar café, deixando Ivan no “chiqueirinho” da viatura. Foi de lá que Ivan conseguiu observar a manchete da “Folha da Tarde” (jornal do grupo Frias), estampada na banca bem ao lado da padaria: o jornal anunciava a morte do pai dele, Joaquim.

Prestem bem atenção: a “Folha da Tarde” do dia 17 trazia manchete com a morte de Joaquim – que teria ocorrido dia 16. Só que, ao voltar de seu “passeio” com os policiais, Ivan encontrou o pai vivo e consciente, nas dependências do DOI-CODI. Joaquim só morreria – sob tortura – no próprio dia 17


Joaquim Seixas, morto e torturado: vejam como era branda a ditadura apoiada pelos Frias

Ou seja, o jornal da família Frias já sabia que Joaquim estava marcado pra morrer, e “adiantou” a notícia em um dia. Detalhe banal.

A historiadora Beatriz Kushnir publicou um livro em que conta essa e outras histórias mostrando os vínculos estreitos da família Frias com a ditadura. http://www.viomundo.com.br/opiniao/unidade-caes-de-guarda-fala-da-midia-e-de-jornalistas-que-colaboraram-com-a-ditadura-militar/

Ivan está se movimentando para que o livro de Beatriz seja relançado este ano, em São Paulo. O ato serviria também como desagravo às vítimas da ditadura, e como protesto contra a família Frias, que quer reescrever a história recente do Brasil.

O velho Frias, antes de ter jornal, se dedicava a criar galinhas. Não tinha pretensões intelectuais.

Frias Filho – o Otavinho – acha que é um pensador. Devia criar galinhas.

Pensando bem, melhor não. Deixem os bons granjeiros fazerem o serviço deles honestamente...

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Prezado Senhor

Enviei o email abaixo e não obtive resposta. Ao contrário, vi desaparecer das páginas do seu jornal qualquer referência ao assunto DITADURA VERSUS DITABRANDA, e nem mesmo o ombusdman se dignou a me dar alguma resposta.

Com certeza não esperava que o senhor fizesse agora alguma sugestão do que os algozes da DITADURA (repito, DITADURA - para que não haja dúvidas) deveriam fazer de acordo com seu refinado gosto, ou conforme os critérios do seu infográfico que mede a intensidade de ditaduras. Para ajudar VS, visto que a foto do cadáver de meu pai não lhe pareceu suficiente para sua opinião abalizada, envio agora a de outros dois militantes políticos, igualmente assassinados por sua DITABRANDA, que nós, democratas, continuamos a chamar de DITADURA mesmo.

As três fotos são: meu pai, o mecânico Joaquim Alencar de Seixas, o arquiteto Antônio Benetazzo e o operário químico Virgílio Gomes da Silva.

Observe as fotos anexas e reflita. Apenas isso.

Em seguida, mostre aos seus pares de redação: Clóvis Rossi, Eliane Cantanhede, Kennedy Alencar, Nelson de Sá, Mônica Bergamo e Gilberto Dimenstein, entre outros. Pergunte-lhes o que têm a dizer a respeito do assunto. Depois, peça-lhes que enviem suas opiniões para o meu endereço eletrônico (...) Certamente, eles devem ter algo a acrescentar a este debate. O Fernando Barros e Silva já se manifestou. Mas foi obrigado a concordar com sua tese de retaliação e grosserias contra os professores Fábio Konder Comparato e Maria Victória de Mesquita Benevides. Provavelmente com medo de perder o emprego.Senhor, sua democracia é bem curiosa. Frente à condenação pública, suspende e proíbe o debate. Não permite que o ombusdman exerça seu papel - e este se acomoda, enquanto o senhor corta as cartas ao Painel do Leitor, tal qual a dona Solange Hernandes fazia nos áureos tempos do seu pai e do seu jornal cedido ao pessoal da OBAN-DOI/CODI. Ou seja, o senhor cuida de seus funcionários como seu pai cuidava de suas galinhas.

Como o senhor há de supor, vou enviar este email para o maior número possível de amigos. Mandarei, inclusive, para a Doutora Beatriz Kushnir, que conhece bem esse assunto.

Espero que, desta vez, o senhor tenha a dignidade de autorizar aos seus subordinados, a publicação da minha carta.

Democraticamente,

Ivan Akselrud de Seixas

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INSULTOS AOS DEMOCRATAS

Senhor editor

Vejo na página editorial da Folha loas ao bom comportamento dos ditadores brasileiros, que teriam sido até brandos com os inimigos. Vocês chegam até a cunhar o neologismo DITABRANDA para designar aquele período que todos os democratas definem como DITADURA. Hoje vi a redação insultar o professor Fábio Comparato e a Professora Maria Vitória Benevides de CÍNICOS E MENTIROSOS.

A DITABRANDA de vocês me prendeu junto com meu pai, quando eu tinha 16 anos. Nos torturaram juntos e o assassinaram no dia seguinte a noite. Naquela mesma manhã, uma nota oficial foi publicada dando conta de sua morte ao resistir à prisão, quando ele ainda estava vivo. Minha casa foi saqueada, minha mãe e irmãs foram presas e ficaram 1 ano e meio presas, sem acusação sequer. Uma dessas irmãs sofreu uma violência sexual por parte dos agentes da DITABRANDA de vocês. Eu fiquei preso por longos 6 anos.

Diante disso, convém perguntar: O que mais vocês gostariam que fizessem conosco?Para sua informação, envio foto de como ficou meu pai após a DITABRANDA tê-lo interrogado brandamente, nas palavras de vocês da redação da Folha.Saudações democráticas.

Ivan Akselrud de Seixas

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Caro Carlos Eduardo

Há um tempo atrás te escrevi para protestar contra a postura e as mentiras da Folha contra as indenizações aos ex-presos políticos e, uma segunda vez, contra o comportamento preconceituoso contra a Senadora Marina Silva.

Volto a te escrever, mas não é para protestar. Vejo na página editorial da Folha loas ao bom comportamento dos ditadores brasileiros, que foram até brandos com os inimigos. Cunham até o neologismo DITABRANDA para designar aquele período que todos os democratas definem como ditadura. Hoje vi a redação insultar o professor Comparato e a Professora Maria Vitória Benevides de CÍNICOS E MENTIROSOS.

Te escrevo para te lembrar que eu te disse que a foha tomava o perigoso rumo de defe3sa dos torturadores e de ataques às suas vitimas e você me dizia o contrário.

Vou escrever uma carta à redação, mas te coloco antes disso a mesma pergunta que farei a eles. Tenho a certeza que não publicarão o que escreverei, mas mesmo assim cumpro meu dever democrático. A pergunta é a seguinte:
A DITABRANDA de vocês me prendeu junto com meu pai, quando eu tinha 16 anos. Nos torturaram juntos e o assassinaram no dia seguinte a noite. Naquela mesma manhã, uma nota oficial foi publicada dando conta de sua morte ao resistir à prisão, quando ele ainda estava vivo. Minha casa foi saqueada, minha mãe e irmãs foram presas e ficaram 1 ano e meio presas, sem acusação sequer. Eu fiquei preso por longos 6 anos.
O que mais vocês gostariam que fizessem conosco?

Para sua informação, envio foto de como ficou meu pai após a DITABRANDA tê-lo interrogado brandamente, nas palavras da redação da Folha. Aliás, a mesma Folha que emprestava carros para nos capturar e entregar para as sessões de interrogatórios como sofremos eu e meu ´pai. Ninguém me contou, eu vi carro da Folha na porta da OBAN-DOI/CODI.

Saudações democráticas.

Ivan Seixas

"Nunca houve censura"

Por Delton Unglaub

em Canal da Imprensa, sem data

Líbero Badaró chegou ao Brasil pregando a liberdade de expressão, mas partiu com uma bala no peito dizendo: "Morre um liberal, mas não morre a liberdade". Um funcionário do Judiciário imperial foi acusado como mandante do crime, mas como sempre acontece no Brasil, foi absolvido por falta de provas. Há especulações que a ordem poderia ser do próprio imperador dom Pedro I.

Quase um século e meio depois, a família Frias também reclamava pela liberdade de expressão: "Não há causa que justifique assaltos, assassínios e seqüestros, muitos deles praticados com requintes de crueldade". Entretanto, nesta história, ocorreu o contrário: o jornalista estava do lado do repressor e quem o ameaçava era o reprimido.

No dia 21 de setembro de 1971, a Ação Libertadora Nacional (ALN) incendiou camionetes da Folha que eram utilizadas para entregar jornais. Os responsáveis queriam matar o dono do jornal, Octavio Frias de Oliveira. Ele respondeu ao atentado publicando um editorial - incensurável - na primeira página do dia seguinte.

Apesar da resposta firme, o empresário tomou medidas de segurança. Mudou-se com a família para a sede do jornal. Carlos Caldeira - seu sócio - construiu um apartamento no oitavo andar. Agentes de segurança sugeriram que a família Frias se isolasse. Os vidros de seu apartamento foram vedados e os filhos aprenderam a usar armas.

Com o atentado, a ALN queria mostrar sua revolta contra a Folha da Tarde. Na época, a Folha da Tarde publicava constantemente manchetes como: "Lamarca, o louco, é o último chefe do terror". Com títulos como este, o atentado não deve ter sido surpresa.

No livro Notícias do Planalto, Mario Sergio Conti revela que "até o final de 1968 as organizações terroristas de esquerda destacaram alguns de seus militantes jornalistas para trabalhar na Folha da Tarde", e no "início dos anos 70 foi a vez de policiais dos órgãos de informação da ditadura se assenhorearem do jornal."

Conti ainda revela que houveram inúmeras notícias fraudulentas publicadas pela Folha da Tarde. O jornal noticiava a morte de "terroristas" em situações imaginárias - provavelmente por "jornalistas" formados na escola de Jornalismo do regime. Um exemplo foi o militante Joaquim Seixas, que em 16 de abril de 1970 estava preso, mas "morto" nas páginas da Folha. Agora poderia ser torturado à vontade até, realmente, morrer. Uma ferramenta bastante útil, aparentemente.

No editorial, Frias se indignava e se atemorizava com as ameaças.

"Os ataques do terrorismo não alterarão a nossa linha de conduta. Como o pior cego é o que não quer ver, o pior do terrorismo é não compreender que no Brasil não há lugar para ele. Nunca houve. E de maneira especial não há hoje, quando um governo sério, responsável, respeitável e com indiscutível apoio popular está levando o Brasil pelos seguros caminhos do desenvolvimento com justiça social-realidade que nenhum brasileiro lúcido pode negar, e que o mundo todo reconhece e proclama. [...] Um país, enfim, de onde a subversão -que se alimenta do ódio e cultiva a violência - está sendo definitivamente erradicada, com o decidido apoio do povo e da imprensa, que reflete os sentimentos deste. Essa mesma imprensa que os remanescentes do terror querem golpear."
(Editorial: Banditismo - publicado em 22 de setembro de 1971; Octavio Frias de Oliveira).

Realmente o "pior cego é aquele que não quer ver". E Frias não via que o lado que defendia agia, senão igual, pior. Tudo para alcançar seus objetivos.

Em defesa própria

Otavio Frias Filho, ainda na universidade, ouviu histórias sobre o envolvimento da empresa da família com os órgãos de repressão política. Numa destas conversas - de pai para filho - perguntou ao pai qual era a verdade. Naturalmente, o pai, "herói", respondeu que se houvesse uma colaboração, ele saberia: "Nunca me pediram isso", garantiu.

"A Folha de S. Paulo nunca foi censurada. Até emprestou uma C-14 [carro tipo perua, usado na distribuição do jornal] para recolher torturados ou pessoas que iriam ser torturadas na Oban [Operação Bandeirante]", afirma o também italiano - assim como Badaró - Mino Carta. Para Carta, quem sofreu com a censura foram apenas O Estado de S. Paulo e o Jornal da Tarde que tiveram de substituir artigos proibidos por poemas de Camões e receitas de bolo.

Na visão executiva da Folha, sua atuação no regime militar passou por diferentes fases. "No contexto da polarização da época, que dividia o País, a Folha aprovou a deposição do presidente Goulart. Esteve sob censura, entre 1969 e 1983, quando a supressão das liberdades públicas atingiu seu ponto máximo. A partir de 1974, o jornal foi uma das principais vozes a reivindicar a democratização do País", defendeu-se o veículo.

Não existem provas consistentes de que houve colaboração do grupo Folha com os órgãos repressores. No regime militar, o capitalismo não foi exatamente incentivado. O fato é que para sobreviver e prosperar neste período a opinião deveria ser volúvel. O grupo era, e é, uma empresa comercial que prosperou durante a ditadura porque não foi contra o poder vigente.

Ao contrário de outros veículos, a Folha não se fixou a uma ideologia. O que moveu este grupo foi o puro e simples capitalismo. A rentabilidade era a prioridade. Ou seja, quando se deparou em uma situação de represália, a Folha de S. Paulo parafraseou Badaró dizendo: "Morre um ideal, mas compra-se a liberdade."

A dica é do Vi o mundo

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

LEITURAS DA FOLHA: A "ditabranda" e a culpa de Fidel

Por Gilson Caroni Filho em 23/2/2009 no Observatório da Imprensa

Faltando três dias para o início do carnaval, a Folha de S. Paulo inverteu o rito de inversão. Tirou a fantasia de "fiscal republicana", longamente confeccionada ao longo dos anos 1980, e partiu para o desfile sem disfarces, disposta a contar suas origens, histórias e personagens.

Com o editorial (ou seria um samba-enredo?) "Limites a Chávez" (17/2/2009), o jornal acompanha o pensamento do ex-publisher Octávio Frias de Oliveira (1912-2007), mostra o inconformismo com a nova institucionalidade latino-americana e reverencia os generais-presidentes da ditadura com quem manteve laços estreitos. Dessa vez, os carnavalescos da Barão de Limeira deixaram claro que o apreço pela democracia tem limites. E eles são bem mais estreitos do que supunham os otimistas.

Ecoando o sentimento da grande imprensa latino-americana, o editorial deplora mais uma vitória do presidente venezuelano em eleições internas e afirma que "o rolo compressor do bonapartismo chavista destruiu mais um pilar do sistema de pesos e contrapesos que caracteriza a democracia. Na Venezuela, os governantes, a começar do presidente da República, estão autorizados a concorrer a quantas reeleições seguidas desejarem.".

É um raciocínio tortuoso esse. É como se, uma vez desenhada a tela institucional das elites, o regime político aceitável só pudesse existir como moldura para uma realidade pretérita. Não é apenas contra Chávez que a Folha se volta, mas contra qualquer possibilidade de incorporações de novos atores sociais à política. Algo fundamental quando o que se objetiva é dar maior densidade à democracia. Reinventar o ordenamento jurídico-político, respeitando os procedimentos constitucionais, é coisa recente na América Latina.

Os termos, bem como as idéias, estão fora do lugar. Empregam-se categorias como caudilhismo, bonapartismo e até mesmo ditador, fora de contexto histórico preciso, sem qualquer rigor conceitual. É o caso de indagarmos se a Venezuela bolivariana não dispõe de um Estado com organização flexível que, assegurando a vontade popular, preserve igualdade de possibilidades e liberdade? Talvez, ali, verifique-se, em plenitude, a idéia do Estado democrático como transformador da realidade. E é precisamente isso que deve ser exorcizado pelos editorialistas de plantão: a concepção de que a democracia implica um Estado fomentador da participação pública.

Os membros do conselho editorial da Folha sabem da inexistência de presos políticos em Caracas. Não têm notícias de perseguição e assassinatos de lideranças da oposição. Não ignoram a presença de uma forte mídia privada que continua defendendo os interesses das elites banidas do poder pelas urnas, mas batem na mesma tecla do "autoritarismo chavista". O que chamam de antidemocrático, no final das contas, é o emprego da ordem legal como instrumento de reestruturação social.

Como parte integrante das classes dominantes, os conglomerados privados na área de comunicação, e seus prestimosos funcionários, não têm qualquer pudor em manejar torneios verbais de ocultamento e prestidigitação da realidade.

Alinhamento com a repressão

Voltemos ao editorial. O trecho em destaque vai além de um canhestro exercício de política comparada. Revela motivações bem mais profundas e significativas. "Mas, se as chamadas `ditabrandas´ - caso do Brasil entre 1964 e 1985 - partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso".

Ao comparar o movimento político liderado por Chávez com a ditadura militar brasileira, a Folha não incorre em equívoco de um "articulista desavisado". Assume editorialmente a defesa dos golpistas de Pindorama. O neologismo "ditabranda" é usado pelos filhos de quem nunca negou apoio ao terrorismo de Estado. Pelo contrário, o empréstimo de peruas C-14 do jornal para transporte de presos mostra total alinhamento dos Frias com centros de torturas e seus comandantes mais conhecidos.

Em 1969, com o lançamento da Operação Bandeirantes (OBAN), antecedente dos DOI-Codi, a estrutura de terror estava praticamente montada. Financiada por setores do grande empresariado, a OBAN tinha a tarefa, definida após anos de discussão, em órgãos como a Escola Superior de Guerra, de centralizar toda a operação repressiva do Estado. Não lhe faltou apoio logístico da Folha da Tarde.

A "ditabranda" teve duas constituições e não respeitou nenhuma delas. O que prevalecia era uma lógica militar que devia obediência aos regulamentos internos de quartéis e aos altos comandantes do regime. Suas "ditabrandas" formas de convencimento incluíam torturas de vários tipos: espancamentos, telefones (tapas simultâneos nos dois ouvidos), corredor polonês (fila dupla de espancadores), pau-de-arara, choque elétrico, afogamentos, entre tantas outras "técnicas".

Em documento publicado pelo Congresso Nacional, conforme registrou a revista Retrato do Brasil, em 1984, havia uma "Relação parcial sobre brasileiros mortos após 64", dando conta de 197 casos até 1979, 147 dos quais só no período Médici, exatamente quando a Folha mais colaborou com o regime. Quantos mortos e torturados foram transportados por suas "ditabrandas" peruas?

Ditadômetro covarde

Como os carros alegóricos já estavam na rua, os leitores que questionaram o editorial conheceram a ira do carnavalesco. O enredo de vilezas não acabou no editorial. A ele sobreveio a ridícula "Nota da Redação" de 19/2, com o "ditadômetro"; seguida da torpe e covarde, porque oculta no anonimato da "Redação", agressão a Maria Victoria Benevides e Fábio Konder Comparato.

Com a ligeireza dos passistas de porões, a Folha se justifica com a mesma explicação dada ao personagem Anna de la Mesa, no magistral filme de Julie Gavras: A culpa é de Fidel. E não se fala mais nisso.

Ver José Serra na presidência foi um sonho não realizado pelo patriarca da família Frias. Seus filhos não poupam esforços para realizá-lo. Seria interessante saber o que pensa de tudo isso o atual governador de São Paulo. Afinal, ele foi presidente da UNE, militou na Ação Popular (AP) e, com o golpe militar, viveu no exílio até 1978. Tido por muitos como um quadro "progressista" do PSDB, deveria tecer alguma consideração sobre a "ditabranda" do jornal que o apóia. No mínimo esclareceria o que vem a ser a "progressividade do tucanato".

"DITABRANDA" NA FOLHA: Direita, volver!

Por Luiz Antonio Magalhães em 23/2/2009, no Observatório da Imprensa

Há males que vêm para o bem, lembra o dito popular. No último dia 17 de fevereiro, em Editorial contra o presidente venezuelano Hugo Chávez, a Folha de S. Paulo qualificou, assim como quem não quer nada, en passant, de "ditabranda" o regime militar que vigorou no Brasil entre 1964 a 1985.

Para que não reste nenhuma dúvida sobre o que foi escrito na Folha, vai a seguir a transcrição do trecho que vem provocando tanta polêmica:

"Mas, se as chamadas ‘ditabrandas’ -caso do Brasil entre 1964 e 1985- partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça-, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso."

Para começo de conversa, causa espécie que o jornal escreva "as chamadas ‘ditabrandas’" quando não há notícia de que alguém tivesse, antes da Folha, a idéia de jerico de qualificar o regime militar de tal forma. Este observador fez uma busca no Google e constatou que a pesquisa retorna apenas as referências à polêmica iniciada pela Folha. Ninguém antes qualificou a ditadura brasileira de "ditabranda".

Aliás, a busca no Google já vem carregada de ironia, pois antes da primeira indicação de link, o buscador pergunta: "você quis dizer dieta branda?" Como bem sabem os iniciados, toda vez que alguém erra a digitação da palavra, o Google cuida de corrigir ou sugerir o nome correto. Ditabranda, portanto, é coisa lá da rua Barão de Limeira mesmo. Dieta branda teria sido realmente mais feliz.

Mas até aqui, é justo dizer, a direção da Folha e seus editorialistas têm todo o direito de achar que os militares pegaram leve. É uma questão de gosto e escolha, provavelmente o assinante do Estadão jamais leria tamanho despautério, ainda que o jornal se posicione de maneira muito mais conservadora do que a Folha em várias questões. A razão para isto é simples: O Estado de S. Paulo sofreu bem mais com a censura e sabe o quão duro foi o dito governo. De toda maneira, o diário da família Frias não precisa se envergonhar em qualificar de ditabranda o regime em questão, da mesma maneira que a turma da Abril não só pensa que pegaram leve como anda saudosa de um novo período semelhante, especialmente para tirar essa gente barbuda e mal educada que insiste em permanecer altamente popular em meio à maior crise do capitalismo.

Nota da Redação: jornal muda de rumo

Não foi no editorial, portanto, que a Folha perdeu a mão. Nos dias que se seguiram à publicação daquela jóia do pensamento que emerge no nono andar do belo prédio do jornal, os leitores naturalmente reclamaram, enviando cartas indignadas à redação. O Painel do Leitor publicou algumas nos dias 18 e 19, mas foi no dia 20 de fevereiro que o jornal mostrou a sua verdadeira cara. Depois de uma sequência de cartas de leitores, apareceram duas de "figurões", seguidas por uma inacreditável resposta da Redação, como segue abaixo.

"Mas o que é isso? Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da repressão de "ditabranda’? Quando se trata de violação de direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem comparar "importâncias" e estatísticas. Pelo mesmo critério do editorial da Folha, poderíamos dizer que a escravidão no Brasil foi "doce" se comparada com a de outros países, porque aqui a casa-grande estabelecia laços íntimos com a senzala -que horror!" MARIA VICTORIA DE MESQUITA BENEVIDES , professora da Faculdade de Educação da USP (São Paulo, SP)

"O leitor Sérgio Pinheiro Lopes tem carradas de razão. O autor do vergonhoso editorial de 17 de fevereiro, bem como o diretor que o aprovou, deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro, cuja dignidade foi descaradamente enxovalhada. Podemos brincar com tudo, menos com o respeito devido à pessoa humana." FÁBIO KONDER COMPARATO , professor universitário aposentado e advogado (São Paulo, SP)

Nota da Redação - A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua "indignação" é obviamente cínica e mentirosa.

É preciso ler com calma a tal Nota da Redação. Que a Folha respeite a opinião dos leitores é o mínimo que se pode esperar. Imagine o grau de arrogância, que já não é baixo, se não respeitasse... Mas o que realmente choca neste caso é a Redação classificar de "obviamente cínica e mentirosa" a indignação de Fábio Konder Comparato e Maria Victoria Benevides, como se para que os dois se indignassem com a barbeiragem do jornal fosse necessária a indignação prévia com Fidel Castro.

Este observador aprendeu com seu avô, pioneiro do ensino de Filosofia na Universidade de São Paulo, que o fiofó nada tem a ver com as calças. Ou, como diria outro filósofo, este da esfera futebolística, "uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa". Comparato e Benevides não têm "autorização" da Folha para se indignarem, precisam antes bradar que não gostam de Fidel e seus amigos e, principalmente, que Cuba é uma DI-TA-DU-RA. Ou será que se os eméritos professores também qualificarem o regime cubano de "ditabranda" a Folha já deixaria de considerar "cínica e mentirosa" a indignação dos dois?

O pior de tudo realmente não foi o editorial, bem lamentável, mas a Nota da Redação de 20/2. Pior, sim, porque todo foca que passou uma semana em qualquer redação do país sabe que uma nota dessas não é publicada sem a anuência da direção do jornal. Por mais que o editor do Painel do Leitor vista a camisa do jornal, ele não tem autonomia para chamar Fábio Konder Comparato de cínico e Maria Victoria Benevides de mentirosa. A nota veio de cima, o que só reforça a ideia de que também o editorial foi cuidadosamente pensado para que o jornal emitisse o juízo de valor que tem, hoje, sobre a ditadura brasileira.

Não será surpresa se a Folha roubar Reinaldo Azevedo ou Diogo Mainardi da Veja. A esta altura, é bem provável, inclusive, que ambos já tenham sido sondados. E, ironia das ironias, não demora muito para o leitorado paulista de esquerda migrar para o Estadão. Há mesmo males que vem para o bem: nível de azia na leitura será bem menor...

PS em 22/02: O ombudsman da Folha, em sua coluna semana publicada no domingo (22/02), parece concordar com este observador. Evidentemente, Carlos Eduardo Lins e Silva foi mais ameno na forma, mas não deixou de assinalar o despropósito da Nota da Redação do jornal, conforme se pode ver abaixo:

Duas opiniões que mobilizam muitos leitores

Já me referi aqui ao escopo do trabalho do ombudsman, que não abarca as opiniões publicadas pelo jornal, em editoriais, colunas ou artigos.

O ombudsman se atém aos aspectos técnicos, factuais, comprováveis, verificáveis. Opinião é como religião, time de futebol, convicção ideológica: cada um tem a sua e nenhuma é melhor que outra.

Mas, talvez porque, como ensinava Spencer, a opinião é determinada em última análise pelos sentimentos, não pelo intelecto, ela mobiliza manifestação de muitos leitores.

Esta semana, duas motivaram pelo menos 115 mensagens. Sem entrar no seu mérito opinativo, vou tratar de ambas.

Um post de blog do Folha Online trazia no título as palavras vadias e vagabundas acima de foto em que apareciam Marta Suplicy e Dilma Rousseff. Pareceu-me uma insinuação de mau gosto e insultuosa.

Um editorial com referência ao regime militar brasileiro provocou cartas publicadas no "Painel do Leitor". Resposta da Redação a duas delas na sexta foge do padrão de cordialidade que julgo essencial o jornal manter com seus leitores.

Ainda sobre a 'ditabranda' e o cinismo revisionista da Folha de São Paulo

Reproduzo na íntegra o texto do professor Idelber Avelar do Biscoito fino e a massa, porque creio que cidadãos brasileiros e, especialmente, os professores de História devem se posicionar, contra o revisionismo cínico e desrespeitoso d Folha de são Paulo. Tortura nunca mais! Ditadura, nunca mais!

Leia também a este respeito: Folha afirma em editorial que no Brasil não houve ditadura, mas ditabranda.



Folha de São Paulo, cínica e mentirosa. Todo o apoio a Fabio Konder e Maria Victoria Benevides
segunda-feira, 23 de fevereiro 2009
Por Idelber Avelar

Convenhamos que de ser “cínica e mentirosa” a Folha de São Paulo entende. Mas ela nunca, sejamos justos, havia nomeado dois profissionais, professores de currículo infinitamente superior ao de qualquer um dos membros de seu Conselho Editorial, para uma injúria gratuita. Com a agressão a Fabio Konder Comparato e Maria Victoria de Mesquita Benevides, o jornal já conhecido como Façamos Serra Presidente chegou a um novo limite, um mais recente e enlameado piso. Pouca coisa o diferencia do lamaçal de publicações como a Veja. Neste episódio, o mais urgente, acredito, é assinar a petição em defesa dos Professores e de protesto contra a injúria. A petição é encabeçada pelo maior crítico literário brasileiro, o Mestre Antonio Candido.

O já infame editorial da Folha, além de insultante à memória das vítimas da ditadura militar brasileira e comprometido com a ocultação da história colaboracionista do próprio jornal, fazia exatamente o contrário do que deve fazer o jornalismo: ele desinformava, contava uma mentira. Qualquer bom professor de história do primeiro grau sabe que não há nenhuma tradição bibliográfica de uso do termo “ditabranda” para designar o regime militar brasileiro, a ditadura de 1964-1985. Aos escrever as chamadas "ditabrandas" -caso do Brasil entre 1964 e 1985, o jornal simplesmete mentia aos leitores. Não “errava” ou “tinha um ponto de vista diferente”. Mentia, pois a ditadura brasileira não é “chamada” de ditabranda por ninguém. Não era, pelo menos, até o dia 17 passado.

Se tivessem, para compensar os livros que não leram, utilizado por dois minutos a internet que tanto temem, os membros do Conselho Editorial da Folha teriam descoberto que o termo “ditabranda” vem do espanhol e foi usado para caracterizar o regime que precedeu a República Espanhola dos anos 30. Depois, na Argentina, a ditadura de Onganía (1966-70) chegou a ser chamada de “ditabranda”, a princípio por falta de notícias sobre a extensão de seus crimes, e depois ironicamente, para acentuar os horrores da outra ditadura que se seguiria (1976-83).

O termo não tem qualquer história bibliográfica no Brasil para designar o período 1964-85, e é curioso que um jornal suspeito de ceder seus automóveis para a repressão, colaboracionista até a medula na divulgação das versões mentirosas dos assassinatos cometidos pelo regime, venha fingir que a ditadura brasileira tenha sido chamada de “ditabranda” -- e, para completar, chame de “cínicos e mentirosos” dois professores com os currículos de Fabio Konder e Maria Benevides, pelo simples fato de eles não aceitarem a chantagem da falsa comparabilidade entre o regime cubano e os regimes militares da América do Sul com os quais a Folha colaborou.

Por uma postura de opinião – abalizada por vastas obras, diga-se –, intelectuais são chamados de “cínicos e mentirosos”, sem direito de resposta, por um jornal de tiragem de 300 mil exemplares, cuja história colaboracionista é vastamente conhecida. Não é o máximo? São esses os lacaios que vêm nos falar de “liberdade de imprensa” todas as vezes em que são questionados. São esses os lambe-botas que vêm posar de “linchados” quando sua cumplicidade com os poderosos é desvelada. São esses os que falam de “apurar notícias” e até hoje não nos disseram quais são os jornalistas que recebem dinheiro de Daniel Dantas e se a lista que circula por aí – com Noblat, Fernando Rodrigues, Miriam Leitão – é verdadeira ou falsa.

Onde estão os jornalistas que se indignaram tanto e chamaram de "linchadores" os dois blogs que fizeram posts sobre as peroratas racistas da correspondente da Globo, agora que um jornal de 300 mil leitores chama de “cínicos e mentirosos”, por uma opinião política, dois professores com as histórias de Fabio Konder e Maria Victoria Benevides?

O mais cretino, o mais absurdamente revoltante dessa história, o mais fundamental que passou até agora sem menção, é que se você tomar os currículos de todos os jornalistas funcionários do Globo, da Folha, da Veja e do Estadão – eu disse se você tomar todos eles em conjunto --, você não chega a algo remotamente comparável ao currículo de Fabio Konder Comparato. Não adianta o Pedro Dória honestamente matutar de lá pra cá se ele não entender essa premissa básica que deve estar sobre a mesa para o início da conversa: o paupérrimo, o assombrosamente rasteiro nível intelectual da grande mídia brasileira. Além de mentirosos, venais e pouco transparentes, são fraquíssimos.

Não percebem, por exemplo, que é vergonhoso o maior jornal brasileiro não saber de onde vem o termo “ditabranda”.

Com o insulto a Fábio Konder e Maria Benevides, o portal UOL perdeu de vez minha assinatura. O Biscoito entra em fase de apoio radical a qualquer ridicularização, boicote, ataque verbal, protesto, charges, manifestação ou sabotagem não violenta dirigida contra os Frias, os Marinho, os Civita e suas corjas de servidores. Cada assinatura que eles percam, cada desmoralização que sofram, cada restinho de credibilidade que escoe pelo ralo, é mais um tijolinho no prédio da democracia.