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sexta-feira, 21 de março de 2014

Da necessidade de manter a cabeça fria

Por Luiz Carlos Azenha, Viomundo

27/05/2011

Temos tido uma temporada de intensos debates entre os comentaristas, neste e em outros espaços digitais. Evidencia de que temos muitas opiniões e que, quase sempre, elas são divergentes. Em defesa da cabeça fria, ainda que discordemos, ofereço a vocês um interessante texto, traduzido do capítulo 9 do livro Africa, A Biography of the Continent, de John Reader, o melhor livro generalista que já li sobre a África. Divirtam-se:

Cool Systems

A forma humana é sólida e suficientemente substancial para projetar uma longa sombra por toda a face da Terra, mas as pessoas — como a superfície do próprio planeta — são mais de 70% líquidas. A água é o maior componente estrutural do corpo humano; os ‘encanamentos’ constituem a maior porção da carcaça humana: no total, as veias sanguíneas e os sistemas urinário e linfático de um único ser humano são suficientemente longos para dar a volta ao mundo — duas vezes. O conteúdo de água de um humano saudável de 65 quilos é de 50 litros — o suficiente para encher 150 latinhas de Coca Cola. Tanta água, mas não mais que o essencial para o transporte de nutrientes e a eliminação dos detritos.

A pessoa média, em condições de temperatura médias, precisa consumir e excretar cerca de dois litros e meio de líquido por dia (uma taxa de substituição de cerca de 5% do conteúdo total de água), e seja qual for o consumo o conteúdo total de água no corpo permanece consistente, se desviando menos de 1% da norma. A pele e os pulmões são responsáveis por uma proporção da perda de água, mas o conteúdo total é mantido em um nível consistente primariamente pelos rins — a urina se torna mais diluída quando o consumo de água é alto, e mais concentrada quando o consumo é baixo. Mas há limites. Uma descarga diária de urina de cerca de meio litro é essencial, já que menos que isso não será suficiente para descartar todos os produtos potencialmente tóxicos do corpo.
Na verdade, manter o conteúdo de água do corpo em níveis adequados é tão crítico que desvios relativamente pequenos da norma podem se tornar extremamente perigosos. Um perda absoluta de perto de 5% do conteúdo total de água afetará muitas funções, inclusive a capacidade do cérebro de processar informação; a morte quase certamente resultará de uma perda de mais de 5%. Para a pessoa média, em condições de temperatura médias, 5% do conteúdo total de água equivale ao consumo líquido médio de um dia: 2,5 litros, o equivalente a 7,5 latas de Coca. As pessoas podem viver semanas sem comer, mas sem beber morreriam em alguns dias.
Em condições tropicais, os requisitos de água são maiores, já que os humanos precisam suar para manter a temperatura. Aqui naturalmente é a manutenção da temperatura do corpo que é crítica — tão crítica quanto a manutenção do conteúdo de água no corpo. O corpo humano mantém uma temperatura básica de 37 graus centígrados, e enquanto a maior parte dos tecidos do corpo é relativamente tolerante de pequenas variações da norma, o sistema nervoso central é particularmente sensível ao aumento da temperatura. O funcionamento normal do cérebro se torna progressivamente prejudicado por elevações da temperatura acima dos 37 graus e mesmo uma temperatura de 40,5 graus centígrados pode ser fatal.
O simples fato de estar vivo queima energia e, assim, gera calor. Uma pessoa descansando, lendo este livro por exemplo, equivale a um motor ou uma lâmpada de cerca de 75 watts. Quando a temperatura ambiente está abaixo da temperatura básica do corpo, o calor produzido pelo motor humano é perdido no ambiente, mas mecanismos adicionais de resfriamento são necessários em ambientes com temperaturas mais altas que as do corpo. Nós coramos e suamos. A evaporação tira o calor do sangue bombado através das veias capilares da superfície da pele, o sangue resfriado corre de volta para o centro do corpo, e uma temperatura estável de 37 graus centígrados é mantida.
A eficiência do sistema de resfriamento do corpo humano (sem mencionar sua necessidade) foi demonstrada a mais de 200 anos pelo Dr. Charles Blagden, então secretário da Sociedade Real. Acompanhado por um grupo de amigos e um pedaço de carne, Blagden passou 45 minutos em um quarto que tinha sido aquecido a uma temperatura de 126 graus centígrados. Blagden e os amigos emergiram suados do quarto, mas fora disso não foram afetados. A carne saiu de lá cozida. Os dados não registram quanto líquido aqueles senhores beberam antes que o conteúdo de água de seus corpos fosse restaurado aos níveis normais, mas as quantidades devem ter sido consideráveis. Estudos modernos de campo anotaram taxas de suor de até 4 litros por hora entre pessoas que passaram pequenos períodos de tempo em temperaturas extremas. Um homem jovem e em forma caminhando 5 quilômetros em temperaturas de cerca de 40 graus perde 1,5 litro de suor por hora, e vários estudos demonstraram uma perda de água de 8 litros por dia, em média, para jovens que tenham atividade moderada em desertos.
Num clima quente e seco a evaporação de um litro de suor pode na teoria dissipar 2.500 kJ de calor (o que é energia suficiente para tocar um refrigerador padrão por três horas e meia), deixando clara a eficácia do suor como mecanismo de resfriamento. Mas o custo também fica aparente. Toda gota precisa ser reposta. O fracasso em repor as perdas de água em um ciclo de 24 horas produz desidratação séria e incapacitação; a morte é inevitável caso um segundo dia de grande carga de calor for experimentado.
Nas savanas abertas da África Oriental, onde as condições se aproximam daquelas experimentadas pelo ancestral humano 200 mil anos atrás, um estudo do fisiologista Pete Wheeler marcou temperaturas do ar próximas do solo regularmente excedendo 35 graus centígrados para sete das doze horas do dia. Elas atingiram 30 graus pouco depois das 9 da manhã e subiram a um pico de 45 graus à uma da tarde. O período mais quente do dia foi das 11 da manhã às 4 da tarde. Mesmo no cair do sol, às seis da tarde, as temperaturas do ar excediam os 30 graus.
Manter o frescor em tais regimes de temperatura pede pródigas quantidades de suor. Uma pessoa pesando 65 quilos suaria (e precisaria repor) pelo menos 7 litros por dia, se ativa sob tais condições. Os ancestrais humanos, 200 mil anos atrás, devem ter pesado menos e provavelmente estavam melhor adaptados às condições da savana, tanto em termos físicos quanto de comportamento. Eles provavelmente requeriam menos água. Ainda assim, precisariam beber água todos os dias e apenas este fato imporia limites estritos na distância que poderiam se distanciar de fontes conhecidas de água. Assim sendo, acesso regular à água deve ter sido uma determinante primária da evolução e do comportamento humanos; mais fundamentalmente que acesso à comida.
Os humanos não foram, naturalmente, os únicos mamíferos a confrontar os problemas do stress do calor nas savanas da África Oriental durante sua história de evolução. Animais de pasto passam os dias expostos ao impacto total do sol tropical. Em algumas espécies de antílope, a temperatura básica do corpo chega aos 45 graus centígrados durante as horas mais quentes do dia.  Eles sobrevivem apenas porque desenvolveram formas elaboradas de manter o cérebro resfriado, ao mesmo tempo em que os corpos se tornam muito quentes.
Os focinhos longos são chave para a estratégia de sobrevivência dos mamíferos da savana. Nos focinhos compridos, o calor se perde na evaporação da água a partir da superfície úmida das cavidades nasais. Essa evaporação remove calor do sangue que flui sob as membranas nasais, e o sangue resfriado segue para perto da base do crânio, numa seção expandida da veia jugular, chamada seio nasal. O sangue relativamente resfriado do seio nasal retira algum calor diretamente do cérebro; mais importante, também age como resfriador do sangue que abastece o cérebro. O cérebro é abastecido pelas artérias carótidas, que passam pelo seio nasal, onde elas se abrem numa rede de veias finas. Quando o sangue arterial passa através dessa rede, o calor excessivo é transferido para o sangue venoso resfriado do seio nasal, e o cérebro recebe sangue na temperatura certa.
Com um “radiador” no nariz e um “resfriador” no crânio, a maioria dos mamíferos consegue manter os cérebros resfriados mesmo quando os tecidos do corpo estão muito quentes. Quando o rosto se alargou e a mandíbula encolheu no curso da evolução dos primatas (como consequência de mudanças na dieta), o focinho da espécie encolheu a ponto de não funcionar mais como radiador. Os humanos nem mesmo resfolegam quando sentem calor. Além disso, os primatas (incluindo os humanos) não dispõem de um “resfriador” de sangue equivalente ao dos antílopes. Esses fatores entregam nossa ancestralidade em ambiente de floresta, frio e sombreado, onde nossos primos mais próximos ainda são encontrados. Os chimpanzés, por exemplo, são muito mal equipados para o superaquecimento. Mesmo na sombra, sem receber sol direto, temperaturas ambientais de mais de 40 graus causam stress considerável nos chimpanzés. Eles suam e respiram pesadamente quando as temperaturas sobem, mas sem efeito. Somente o frescor das noites traz alívio.
Se os ancestrais imediatos dos hominídeos tiveram semelhança com os modernos chimpanzés, enfrentaram considerável pressão para manter a temperatura [do cérebro] quando se aventuraram das florestas em direção às planícies abertas da África tropical. As planícies ofereciam um espectro mais amplo de oportunidades — tubérculos, sementes, nozes, carniça — mas essas comidas usualmente estavam espalhadas, não distribuídas uniformemente; os forrageadores bem sucedidos precisavam buscar num espaço amplo durante o dia e precisavam se manter ativos mesmo quando o sol estava a pino. Este foi o nicho ecológico que os hominídeos ancestrais exploraram.
Obviamente que não fizeram isso da noite para o dia; as adaptações que mantiveram os corpos hidratados e os cérebros resfriados em condições quentes e secas evoluiram com o tempo, e nossa própria fisiologia é testamento vivo de nosso sucesso. Os humanos são extremamente bem adaptados à atividade energética durante o dia em ambientes quentes e secos. Nós temos o sistema mais eficaz de resfriamento do corpo de todos os mamíferos.
As evidências fósseis conclusivamente demonstram que os ancestrais da linhagem do hominídeo existiram apenas na África; assim sendo, nosso sistema de resfriamento foi uma resposta de adaptação ao stress ambiental da África tropical. E assim o fato fisiológico moderno está indisputavelmente ligado às evidências fósseis antigas. A significância dessa conjunção foi explorada por Pete Wheeler em pesquisa para uma tese de doutorado.
Wheeler investigou os aspectos fisiológicos da evolução humana de um ponto-de-vista funcional, avaliando as capacidades básicas e os requerimentos essenciais dos ancestrais dos hominídeos, numa tentativa de definir as pressões seletivas e as adaptações que moldaram as características ancestrais na forma humana moderna. A pesquisa dele levou a uma série de publicações que demonstraram que a termorregulação está na base de todas as coisas humanas.
Ele começou com avaliações dos atributos fisiológicos básicos — mesmo quando óbvios — da forma humana. Por exemplo, já que os passos de um bípede são pouco vantajosos em termos de locomoção eficaz, será que a postura ereta é funcionalmente vantajosa em termos de carga de calor e resfriamento do corpo? Claramente, um animal que anda ereto expõe menos da superfície do corpo aos raios do sol que um animal que anda sobre quatro patas, mas que diferença isso faz?
Wheeler fez modelos de hominídeos que poderiam ser colocados em modo bípede ou quadrúpede e mediu a área da superfície do corpo que ficaria exposta diretamente à radiação solar ao longo de um dia na África tropical. Os resultados demonstraram que enquanto o quadrúpede teria cerca de 20% da superfície do corpo exposta ao sol durante todo o dia, o bípede começava com 20% mas isso declinava rapidamente, acompanhando o ‘movimento’ do sol. Ao meio-dia, quando o sol está diretamente sobre a cabeça e a radiação é mais intensa, apenas 7% da superfície do corpo de um bípede fica exposta. Isso significa que pelo mero fato de ficar em pé, os hominídeos bípedes evitaram 60% da radiação solar direta aos quais ficariam expostos se fossem quadrúpedes.
Além disso, como a velocidade do vento sobe e as temperaturas caem com a distância do solo, a posição bípede expõe uma maior proporção do corpo a condições sob as quais fica mais fácil remover calor da pele. Wheeler mediu os efeitos resfriadores da elevação em relação ao solo e descobriu que um bípede parado em uma planície perde calor 33% mais rapidamente que um quadrúpede no mesmo lugar. E este benefício é turbinado pelo fato de que o ar mais próximo do solo é mais úmido, por causa da água liberada pela vegetação transpirante. Consequentemente, mesmo que o quadrúpede  sue tanto quando o bípede, o suor não evapora tão rapidamente e seu efeito resfriador, portanto, fica diminuído.
Então há o fator da pele descoberta dos humanos a ser considerado. Os pelos servem aos quadrúpedes da savana como um escudo, refletindo e diminuindo o calor antes que ele chegue à pele. Se os quadrúpedes tivessem perdido o pelo, a melanina os teria protegido da radiação UV-B, mas isso teria diminuído a reflexividade da pele, causando ganho maior de calor. Juntos, esses fatores evitaram a evolução de grandes superfícies peladas em quadrúpedes da savana, mas um bípede poderia dispensar a maior parte do escudo, retendo cabelo apenas na cabeça e nos ombros, mas tirando benefício do resfriamento causado pela transpiração mais farta no resto do corpo. As vantagens, em termos de termorregulação, são consideráveis.
Os humanos tem tantos pelos por centímetro quadrado quanto os chimpanzés, mas são cabelos mais curtos e finos. Essa nudez funcional, em conjunto com glândulas sudoríparas bem desenvolvidas, permite a nós perder calor na taxa pródiga de 700 watts por metro quadrado de pele, uma taxa da qual não se aproxima nenhum outro mamífero existente. Outras espécies da savana tem glândulas sudoríparas, mas a pelagem inibe a livre circulação de ar sobre a pele molhada e o suor evapora, em vez disso, da pelagem, dependendo do calor do ar para a vaporização.  Nas pessoas, quase toda a energia necessária para evaporar o suor vem do próprio corpo, tornando todo o processo mais eficiente.
Wheeler avaliou todos estes fatores e publicou resultados que convicentemente demonstraram que a posição ereta e a pele descoberta permitiram a um hominídeo bípede permanecer ativo sob temperaturas que levariam um primo quadrúpede à beira de um colapso. Mas o almoço nunca foi de graça; e o preço para esta habilidade única de buscar comida sob o sol tropical era uma fonte segura de água — algo que nem sempre se encontra nas savanas da África. Desidratação é um problema sério, com risco de incapacitação mesmo em níveis baixos, por isso deve ter havido sempre um ponto em que os efeitos debilitantes da perda de água pesavam mais que os benefícios de estender a procura por comida.
Os dados reunidos por Wheeler mostram que se o hominídeo ancestral (Lucy, por exemplo, que tinha 1,2 metro e pesava 30 quilos) pudesse tolerar desidratação de até 4% do total da massa corporal (que é próximo do limite de segurança para humanos modernos), poderia viajar apenas 11,5 quilômetros entre fontes de água para procurar comida durante um dia. Os hominídeos se tornaram maiores com o passar do tempo.  Hominídeos maiores precisam de mais água, mas as vantagens de uma relação menor entre superfície-volume significam que eles desidratam mais vagarosamente que indivíduos menores e podem viajar relativamente mais longe. Na verdade, como Wheeler demonstrou, dobrando a massa (daquela de Lucy) para os humanos modernos (70 quilos) mais que dobrou a distância para buscar comida, para 25 quilômetros entre as fontes de água,  multiplicando o potencial de encontrar comida por um fator de 4,73.
Embora a postura ereta e a pele nua tenham permitido aos hominídeos forragear nas savanas abertas e tropicais da África sob temperaturas mais altas e por distâncias mais longas que virtualmente qualquer outro mamífero, em termos de fisiologia básica eles eram apenas elementos funcionais de um sistema de resfriamento do corpo que protegia o cérebro do stress do calor. O sistema mantinha um extraordinário grau de estabilidade da temperatura do corpo. Evoluiu enquanto o cérebro humano era ainda relativamente pequeno, e assim coincidentemente estabeleceu as condições precisas para a característica humana mais definitiva: o grande cérebro cognitivo. Isso não é o mesmo que dizer que as estratégias de controle de temperatura causaram a evolução de um cérebro grande, meramente que removeram certas barreiras fisiológicas e, assim, tornaram o crescimento do cérebro possível.
As barreiras fisiológicas em questão, presentes em todos os outros mamíferos que evoluiram para viver na savana aberta da África, são o “radiador” e o “resfriador”; ou seja, o longo focinho e o sistema interno de resfriamento do sangue que abastece o cérebro, por exemplo, dos antílopes. Eles permitiram que os animais da savana resfriassem o sangue seletivamente, mantendo o cérebro resfriado mas o corpo quente. Mas o resfriamento seletivo tem os seus limites. A estratégia depende da quantidade de sangue que o sistema pode manter em temperatura adequada para abastecer o cérebro. Cérebros maiores dependem de um maior abastecimento de sangue resfriado e, assim, o sistema interno precisa ser maior. No entanto, como o sistema depende de bombear sangue através de uma rede de finos vasos sanguíneos, o tamanho máximo dele é determinado pela pressão e volume de sangue que precisa ser acomodado.
Os cálculos de Wheeler mostram que se a quantidade de sangue que abastece o moderno cérebro humano fosse resfriada por um sistema interno como o dos quadrúpedes da savana, o sistema de resfriamento teria, no homem, o mesmo diâmetro do pescoço. Claramente, o sistema de resfriamento do corpo apoiado na postura ereta e na pele descoberta foi uma estratégia muito mais adequada.
Mas enquanto as estratégias de termorregulação que evoluiram nos hominídeos removeram barreiras fisiológicas ao alargamento do cérebro, a evolução de um cérebro maior criou em si demandas físicas de magnitude considerável.
O cérebro é um ‘tecido caro’. O cérebro humano moderno é seis vezes maior que o de um mamífero de tamanho comparável e embora, na pessoa média, represente apenas 2% do peso, consome cerca de 16% do orçamento de energia. Por comparação, os músculos, onde a energia é obviamente gasta, consomem 15% do orçamento, apesar de constituirem 41,5% do peso do corpo humano.
Além disso, o cérebro usa energia nove vezes mais rapidamente que a média para o resto do corpo, e como não tem formas de estocar energia para uso futuro, precisa ser abastecido continuamente por altos níveis de combustível e oxigênio. A evolução de um sistema de resfriamento excepcionalmente eficaz facilitou a evolução do grande cérebro nos hominídeos, mas logo abastecer o cérebro se tornou tão importante quanto mantê-lo resfriado. Em termos fisiológicos, o consumo de comida teve de aumentar para acompanhar o crescimento do cérebro e, logo,  o estômago e o trato digestivo também, relativamente ao tamanho do corpo. Mas, na verdade, o tamanho da barriga humana é quase exatamente a metade do que se previa para acompanhar o cérebro maior, uma deficiência fisiológica que a evolução equilibrou com algumas características de comportamento.
Os hominídeos aprenderam a buscar comidas nutritivas que precisavam ser consumidas apenas em pequenas quantidades. Não eram para nós as grandes barrigas através das quais outros primatas processam grandes quantidades de folhas ou grama, com o consumo apenas ocasional de algo mais nutritivo. Nossa pequena barriga funciona exclusivamente com alimentos de alta qualidade, principalmente o rico núcleo reprodutivo de outros organismos — sementes, nozes, tubérculos e ovos — acrescidos de quantidades significativas de proteína na forma de carne.
Paradoxalmente, satisfazer as demandas dietéticas de um cérebro grande pediu um esforço cognitivo da parte do próprio cérebro. O sucesso dessa relação interativa é evidente; está sob todas as conquistas e comportamentos humanos: tecnologia, linguagem e cultura. As características fundamentais da humanidade evoluiram para manter o cérebro funcionando e o cérebro grande só surgiu quando adaptações aos ambientes quentes e secos retiraram as barreiras que limitaram o potencial de crescimento do cérebro em todos os outros mamíferos terrestres. “Provavelmente não é coincidência”, Wheeler concluiu, “que o mamífero com o cérebro e o comportamento social mais desenvolvidos é da espécie que possui o sistema de resfriamento mais elaborado”.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O que se esconde por trás do discurso de combate às mudanças do clima

por Luiz Carlos Azenha

Não pretendo discutir, aqui, se de fato o clima no mundo está ou não mudando, se sempre mudou porque a Terra está em constante transformação, se a atividade do homem na Terra colaborou com o aquecimento global e outros temas. Fiquem à vontade para fazê-lo nos comentários. Não acho que o assunto esteja definitivamente encerrado, pois o cigarro um dia vendido de forma glamourosa causava câncer e o fim do mundo por causa do bug do milênio não se materializou.

O que me interessa é discutir o que se esconde por trás do discurso oficial das grandes nações do planeta.

Sabemos que os Estados Unidos e a União Europeia se desenvolveram tirando proveito de todos os seus recursos naturais e mais daqueles que estavam ao alcance de sua expansão imperial na Ásia, na África e na América Latina. Este é um dado histórico, incontestável. Basta analisar, por exemplo, a empresa da escravidão dos negros africanos, mão de obra gratuita que trabalhou as terras brasileiras, que exportou no açúcar a água e o poder energético do sol colhidos no Brasil para abastecer as mesas do nascente mercado consumidor. Basta ver a degradação ambiental promovida pela industrialização dos grandes centros urbanos dos Estados Unidos, a poluição dos rios europeus e os grandes projetos de mineração, de construção de represas ou ferrovias que varreram montanhas, florestas e rios do mapa.

É óbvio que, como grandes poluidores do meio ambiente, os Estados Unidos, as nações europeias e o Japão devem contribuir proporcionalmente com os esforços para mitigar as mudanças climáticas com as quais eventualmente tenham contribuído.

É óbvio, igualmente, que os paises em desenvolvimento -- como o Brasil, a Índia e a China -- podem e devem, na medida de suas possibilidades, adotar políticas públicas distintas daquelas praticadas anteriormente pelos grandes devastadores, por todos os motivos do mundo: a degradação ambiental é, também, degradação humana; ela embute custos que, mais tarde, serão pagos pela própria sociedade que a pratica (as doenças ambientais, por exemplo); o consumismo desenfreado é uma impossibilidade material para uma sociedade que realmente se pretende democrática (que garanta que a população realmente desfrute dos recursos naturais de forma equânime).

Dito isso, é sempre importante lembrar que os Estados Unidos, os europeus e os japoneses seguem sendo os maiores consumidores de recursos naturais do planeta, muitos dos quais obtidos na África, na Ásia e na América Latina. Que a matriz energética dos Estados Unidos continua fortemente dependente do carvão (responsável pela produção de quase 50% da energia elétrica do país) e que a matriz energética da China é fortemente dependente do carvão (65% da energia elétrica do país).

Que, enquanto nos fóruns internacionais, esses países se dizem interessados em combater o aquecimento global, internamente poucas medidas práticas ambos tomam para fazê-lo, colocando sempre o consumo e o bem-estar de suas próprias populações acima de objetivos genéricos do planeta.

Que os grandes poluidores são também aqueles com maior capacidade humana e financeira para desenvolver as novas tecnologias ligadas à produção de energia limpa.

Fiquem alertas, pois, para a seguinte possibilidade: eles vão explorar todos os recursos naturais disponíveis em seus próprios territórios enquanto nos acusam de degradar o meio ambiente e ao mesmo tempo vão faturar nos vendendo a tecnologia necessária para produzir energia limpa. Resumo do filme: Não faça o que eu faço e pague para não fazer o que faço. É preciso ter cuidado para não cair nessa armadilha neocolonial.

18/12/2009 Vi o mundo

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A teoria do medo ou um discurso antigo da direita reacionária

02 de novembro de 2009 às 12:13

Wild Tales From the Reactionary Right

Conspiracy, Inc.

por ANTHONY DiMAGGIO, no
Counterpunch

A extensão completa da radicalização do movimento conservador está se tornando aparente depois de nove meses de governo Obama. Crescentemente, os comentaristas reacionários da mídia e muitos dos filiados do Partido Republicano estão levando a direita americana por um caminho perigoso, marcado pela abundância de teorias conspiratórias dirigidas contra o Partido Democrata e os liberais centristas.

Autores proeminentes vem alertando faz tempo sobre a ascensão da direita reacionária ao palco nacional. Thomas Frank lidera essas acusações com seus livros bestsellers como The Wrecking Crew: How Conservatives Rule e What’s the Matter with Kansas: How Conservatives Won the Heart of America. Os alertas de Frank são particularmente interessantes à luz da ascensão das teorias conspiratórias da direita.

Uma teoria conspiratória é definida como um plano secreto de autoridades poderosas para praticar alguma ação que seria rejeitada pelo público se o plano fosse divulgado. Teorias conspiratórias são tremendamente perigosas porque elas abandonam análises institucionais em favor de descrições exóticas do comportamento governamental. Em nenhum outro lugar esse extremismo é visto tão bem quanto no movimento "Verdade do 11 de Setembro". Em sala de aula eu tenho uma resposta padrão para alunos que querem saber sobre as teorias conspiratórias do 11 de setembro. Eu digo que a diferença entre um argumento e uma conspiração é crucial: a existência de provas. Qualquer grande teoria conspiratória requer uma falta completa de provas tangíveis, já que conspirações são por definição armações "secretas" sobre as quais o público não sabe quase nada. Essa falta de provas é mais uma razão para rejeitar essas conspirações como algo desprovido de seriedade e de rigor intelectual.

Muitos conservadores, sem dúvida motivados pelo racismo, pela xenofobia e pelo desprezo pela política multipartidária, usaram essas teorias conspiratórias em tentativas de abalar o governo Obama. Além disso, as teorias conspiratórias agora são um dos meios primários -- talvez o meio primário -- pelo qual os conservadores tentam desacreditar seus oponentes políticos. Uma avaliação das conspirações mais importantes coloca a radicalização do movimento conservador em perspectiva:

A tentativa de Limbaugh de comprar os Rams

Rush Limbaugh [porta-voz da extrema direita estadunidense] foi recentemente excluído da disputa para comprar o time de futebol americano St. Louis Rams. A tentativa de Limbaugh de se tornar parte da NFL [liga estadunidense] causou apreensão nos dirigentes, já que ela é 75% afroamericana e à luz da história de racismo de Limbaugh. Não é difícil de entender porque o público acharia Limbaugh racista considerando seus comentários:

-- "Bem, deixe-me colocar da seguinte forma: a NFL parece sempre um jogo entre os Bloods e os Crips sem usar armas. Pronto, falei". [Nota do Viomundo: Bloods and Crips são duas gangues americanas, cujos integrantes são predominantemente negros].

-- A NAACP deveria ensaiar quebra-quebras. Deveria comprar uma loja de bebidas e praticar assaltos". [Nota do Viomundo: A sigla significa Associação Nacional pelo Desenvolvimento das Pessoas de Cor].

Limbaugh gosta de cantar uma música que tem o nome "Barack, o Negro Mágico" em seu programa de rádio, embora ele se diga fortemente ressentido contra aqueles que concluem que a letra é racista. Ainda assim, acusações de racismo acabaram com o papel de Rush como comentarista da ESPN em 2003 quando ele sugeriu que o jogador Donovan McNabb, do Filadélfia Eagles, não era tudo isso e só mantinha o emprego porque a NFL queria o sucesso de jogadores negros na posição de quarterback.

Os comentários não foram aceitos no mundo do esporte, que imediatamente reconheceu que a tática de Limbaugh de gritar "racismo reverso" é, em si, racista. Presumivelmente, Limbaugh quer nos fazer acreditar que existe alguma conspiração corporativa contra jogadores brancos, apesar do fato de os afroamericanos representarem 19% dos quarterbacks [a posição de lançador, a mais importante do jogo] mas 75% do total de jogadores.

As conspirações de Limbaugh não ficam só nas acusações de racismo reverso. Quando os investidores resolveram excluí-lo do grupo, Limbaugh respondeu que o incidente era um exemplo "dos Estados Unidos de Obama". Naturalmente não há provas de alguma conspiração contra Limbaugh da parte da NFL, nem que Obama ou seus assessores tenham pressionado os investidores a tirar Limbaugh do grupo.

Longe de ser um bastião liberal dos Estados Unidos, a NFL é conhecida como uma liga politicamente conservadora. Os donos de times da NFL, por exemplo, deram duas vezes mais dinheiro em contribuições de campanha a republicanos do que a democratas nas eleições de 2008. A real razão para a rejeição de Limbaugh não tem nada a ver com uma conspiração pró-Obama, mas com o fato de que Limbaugh representa um rosto controverso para uma liga interessada em maximizar lucros e minimizar controvérsias.

É difícil fazer isso servindo a racistas quando a maioria dos jogadores da NFL é de negros. O dirigente da NFL Roger Goddell, por exemplo, explicou que a decisão da liga de rejeitar Limbaugh é resultado de seus comentários "polarizadores" sobre afroamericanos feitos no passado. O diretor executivo dos jogadores, DeMaurice Smith, explicou que a NFL "é melhor quando unifica, dando a todos nós motivo para celebrar, e quando transcende. Nosso esporte faz exatamente isso quando supera divisões e rejeita discriminação e ódio".

Obama o queniano, terrorista muçulmano

A propaganda racista sobre a cidadania de Obama e suas ligações com terrorismo radical persiste. O movimento "birther" [de birth, nascimento] ganhou grande visibilidade pública este ano -- seus membros apareceram em manifestações alegando que Obama não é cidadão dos Estados Unidos e que é um fundamentalista islâmico fanático. A atenção dada pela mídia aos integrantes do movimento conspiratório foram particularmente danosos para a imagem de Obama, como as estatísticas sugerem:

-- Antes das eleições de 2008, quase 80% dos estadunidenses tinham ouvido rumores de que Obama era muçulmano. Um em dez acreditava que Obama era muçulmano, enquanto um em três dizia não saber qual era a crença dele.

-- Em 2009, os conservadores acreditam que Obama é muçulmano 2,5 vezes mais que os democratas. Mais da metade dos republicanos acredita que Obama não é cidadão dos Estados Unidos ou está incerta sobre a cidadania do presidente.

O movimento birther ganhou fôlego em programas da mídia como Lou Dobbs Tonight e na emissora Fox News e recebeu ênfase no Congresso por parte da republicana Michelle Bachmann. O absurdo do movimento birther foi demonstrado diversas vezes, já que os documentos de Obama foram divulgados publicamente pelo estado do Havaí e verificados por grupos apartidários como o Factcheck.org.

Outros ataques contra Obama não dizem explicitamente que ele é muçulmano; eles apenas indiretamente associam Obama ao fundamentalismo islâmico. Essa tática favorita da direita reacionária foi recentemente utilizada por Sean Hannity [apresentador da Fox] que atacou Obama depois que o presidente fez um discurso no Egito sobre os ataques terroristas de 11 de setembro.

Hannity atacou Obama por "dar aos simpatizantes do 11 de setembro uma voz no palco mundial" depois que o presidente disse que "estava consciente de que ainda existe gente que questiona ou mesmo justifica o 11 de setembro. Mas sejamos claros: a al Qaeda matou quase 3 mil pessoas naquele dia. As vítimas eram homens, mulheres e crianças inocentes dos Estados Unidos e de muitas outras nações que não haviam causado dano a qualquer pessoa... Isso não é opinião a ser debatida, mas são fatos com os quais devemos lidar".

Os leitores tem razão se ficaram confusos para entender como Hannity concluiu o que concluiu, considerando as palavras de Obama. Quando alguém enxerga o mundo pelos olhos de um teórico da conspiração, os fatos são maleáveis e existem para ser manipulados com o objetivo de aprofundar preconceitos pré-existentes.

Obama, ACORN e a crise econômica

A organização que John McCain de forma conspiratória atacou como "destruidora da fábrica da democracia" não sai das manchetes da Fox News. O caso mais recente foi no programa de Glenn Beck [apresentador da Fox News] do dia 28 de outubro, na qual a ACORN [Associação de Organizações Comunitárias por Reforma Já] foi acusada por causar o colapso econômico e a recessão de 2008. O poder dos teóricos da conspiração conservadores foi demonstrado plenamente pelos comentários de Beck, reproduzidos abaixo:

"Um ano atrás, tivemos problemas com os bancos, porque as pessoas fizeram muitos empréstimos sem condições. Mas eram as casas e os automóveis pelos quais não podíamos pagar que haviam nos sido prometidos por gente de Washington. 'Não se preocupe, compre tudo. Você pode comprar esta casa. Por que viver numa casa ruim, você deveria viver nessa casa com dois carros, não seria ótimo?'. Quem disse isso? Essas pessoas [o governo] e o povo da ACORN, ok? Eles pressionaram os bancos a fazer empréstimos a gente que não podia pagar por eles, e assim tudo acabou derretendo, já que os bancos disseram às pessoas, 'não, não, essas pessoas não podem pagar suas casas'".

À luz da alegada resistência dos bancos em dar empréstimos, Beck conclui que os protestos dos "interesses especiais" representados pela ACORN foram suficientes para colocar Wall Street de joelhos, forçando os bancos a emprestar para clientes que em outras condições seriam rejeitados.

De novo, os leitores devem ser perdoados se ficarem confusos com a lógica bizarra de Beck. Qualquer pessoa que tiver familiaridade com reformas das políticas públicas sabe que a crise imobiliária de 2008 não foi resultado de alguma conspiração na qual a ACORN e o governo forçaram os bancos a emprestar para clientes ruins. Ao contrário, o governo ficou sem ação ao repelir qualquer restrição legal a empréstimos e repelir a regulamentação sobre emprestadores, enquanto o Congresso repeliu limites às fusões e aquisições bancárias (para mais sobre isso, consulte a derrubada do Glass Steagall Act de 1999) que permitiram associação entre bancos especuladores e bancos engajados em empréstimos menos arriscados.

Essa retirada da regulamentação governamental permitiu ao banqueiros de Wall Street se engajar em empréstimos sub-prime (sem monitoramento do governo sobre os papéis derivativos), que eventualmente contribuiram para o colapso financeiro e a recessão de 2008. Beck, no entanto, prefere culpar a ACORN e não os banqueiros que fizeram fortuna com empréstimos predadores a pobres -- aqueles que realisticamente nunca poderiam pagar a casa própria sem entrada e com taxas de juros flutuantes.

Obama, o Socialista

Provavelmente a teoria conspiratória mais popular é a alegação de que Obama é um socialista no armário. É claramente a mais ofensiva e absurda contra um presidente que liderou o resgate para salvar o capitalismo americano do capitalismo americano. Obama tem prometido reerguer os bancos americanos, as firmas de investimento e a indústria imobiliária de seus próprios investimentos destrutivos e especulativos. Obama deu centenas de bilhões de dólares em dinheiro público e prometeu outro trilhão de dólares em dinheiro para que bancos e financeiras limpem seus balanços dos papéis tóxicos. Nada disso é suficiente para os conservadores, que se penduram no apoio tímido de Obama à "opção pública" na reforma do sistema de saúde como prova de seu socialismo secreto.

Aliás, a opção pública [permitiria ao usuário comprar um plano de saúde organizado pelo governo federal] não tem nada a ver com socialismo, considerando que cobriria apenas aqueles indivíduos não cobertos pela indústria privada de seguros de saúde. A opção pública é tão socialista quanto qualquer outro serviço público que não dá lucro, como a educação pública, as estradas públicas, as forças policiais, os bombeiros e as bibliotecas públicas. Todos esses serviços públicos coexistem com educação, estradas e segurança privadas sem ameaçar as fundações do capitalismo. Ainda assim, esses serviços "socialistas" sempre foram alvo dos conservadores, que preferem negar acesso aos pobres em nome do "direito" ao lucro privado. Não é surpreendente, portanto, quando ouvimos sobre as ameaças "socialistas" contra o cérebro de crianças em bibliotecas públicas, assim como os ataques à "tirania" de organizações que oferecem educação pública aos desvalidos.

Há muitas outras teorias conspiratórias conservadores que podemos citar: os "campos de concentração" da FEMA [a Defesa Civil americana teria 800 campos de prisioneiros prontos para usar nos Estados Unidos] divulgados por Glenn Beck, os "comitês da morte" na reforma do sistema de saúde denunciados por Sarah Palin [vice na chapa republicana derrotada por Barack Obama, Palin sustentou que na reforma seriam instituídos comitês estatais para decidir quais pacientes teriam atendimento e quais poderiam morrer] e a maior de todas -- a alegação de que o Iraque ameaçava os Estados Unidos com a posse de armas de destruição em massa e tinha ligações com a al Qaeda.

Todas as teorias acima tem uma coisa em comum: elas capitalizam na desconfiança do público sobre o governo de maneira a desviar a atenção da análise institucional. Elas são particularmente perigosas ao convencer americanos a atacar fantasmas falsos, ao alegar que a liberdade está sob assalto por conspirações secretas planejadas e implementadas pelo Partido Democrata.

Subscrever a teorias como essas torna o discurso civilizado literalmente impossível, como qualquer pessoa que tenha discutido com um teórico da conspiração de 11 de setembro sabe. Em seu livro "Em Guerra com a Metáfora: Mídia, Propaganda e Racismo na Guerra contra o Terror" [At War With Metaphor: Media, Propaganda, and Racism in the War on Terror], Erin Steuter e Deborah Wills argumentam que a propaganda ajuda a construir inimigos imaginários.

Os autores dizem que a "propaganda não está preocupada em disseminar informação mas em provocar emoção... o intuito da propaganda não é educar mas gerar emoção e dirigir emoção, ferver o sangue para garantir que a emoção pública domine as discussões". É fácil ver como a propaganda coloca em risco o diálogo público à luz das conspirações ideológicas incoerentes que dizem que Obama é socialista, nazista ou terrorista islâmico. Ao empregar propaganda alarmista, os ativistas conservadores promovem o pior dos medos -- completamente divorciado de provas factuais de qualquer tipo.

As análises de Steuter e Will nos ajudam a entender a propaganda das teorias conspiratórias dos conservadores. O Partido Republicano e o movimento conservador tem se movido à direita por décadas e o extremismo que isso causou (muito dele guiado pela religião) é crescentemente relevante nos debates públicos e na retórica vitriólica dirigida contra a aliança democrata que está no poder em Washington.

Jacob Hacker e Paul Pierson analisam como funciona o extremismo em seu trabalho Off Center: The Republican Revolution and the Erosion of American Democracy. Eles relembram aos leitores que os ativistas do Partido Republicano se caracterizam como duas vezes mais crentes que os democratas. Além disso, a guinada à direita dos conservadores aconteceu num ritmo duas vezes maior entre os anos 60 e 2000 do que a dos liberais democratas à esquerda. O liberalismo dos ativistas democratas cresceu mais vagarosamente e declinou significativamente desde o fim dos anos 80 até o período pós-2000. Em outras palavras, os ativistas republicanos se tornaram cada vez mais reacionários em anos recentes, enquanto os democratas se tornaram centristas em sua ideologia. Diante dessa polarização, os teóricos conservadores da conspiração se tornaram cada vez mais proeminentes. Deveríamos considerar isso ao avaliar a qualidade de nossa democracia hoje e no futuro.

Anthony DiMaggio é professor de política na Illinois State University. Ele é autor de Mass Media, Mass Propaganda (2008) e When Media Goes to War (2010). Responde no e-mail adimagg@ilstu.edu

Nota do Viomundo: Na minha primeira análise do recente artigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso notei isso. O texto me pareceu ilógico, mas cheio de referências a um poder difuso, obscuro, de bastidores, que teria contaminado o governo e o Estado brasileiros. O próprio presidente Lula seria, na visão de FHC, possível vítima desse "vírus". FHC fala em um subperonismo lulista mas é incapaz de narrar quais são os fatos objetivos que o levaram a concluir pela existência dele. Lula tentou a reeleição, fechou o Congresso, amordaçou a mídia? Como nota o autor do artigo que reproduzi acima, em relação aos Estados Unidos, também notei no novo discurso do ex-presidente. Ele fala à emoção das pessoas, ao preconceito existente contra sindicalistas ou petistas como se fossem vírus corrompedores da democracia brasileira. A adesão de um ex-presidente da República, intelectual de renome, a esse tipo de discurso, diz muito sobre a degradação do ambiente político brasileiro.

Reproduzido de: A lógica bizarra de FHC e as teorias conspiratórias da direita americana

Nota do história em projetos: Azenha fez outro artigo analítico de primeiríssima linha sobre o artigo do sociólogo FHC e analisou com primazia a ilustração de O Globo para o referido artigo. Luis Nassif comentou o episódio aqui e aqui e Rodrigo Vianna fez um post bem humorado a respeito do descabido artigo do ex-presidente.
E na opinião deste autora o caminho traçado por FHC é perigoso, a analogia é descabida, comparar um governo democrático com alguma tendência social ao período de censura, tortura, perseguições políticas, prisões arbitrárias, fechamento de Congresso, AI-5 e afins é esquecer todas as bases da teoria política da sociologia ou praticar má-fé.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Luiz Carlos Azenha, diretor de Nova África fala sobre a série

Nova África: série da TV Brasil dá voz aos africanos e retrata diversidade do continente

Publicado em 18 de setembro de 2009

A série Nova África, incluída na nova programação da TV Brasil, mostra imagens e histórias do continente africano que pouca gente viu ou ouviu. “Falar em África como um todo é tão impróprio quanto falar em América Latina desconhecendo que ela inclui desde o Uruguai até Barbados. Por isso o nome: Nova África. Uma nova forma de ver a África”, define Luiz Carlos Azenha, jornalista responsável pela série de 26 episódios que será exibida toda sexta-feira a partir de 25 de setembro, às 22h, na TV Brasil. “A cada semana, uma surpresa”, promete o jornalista, para acrescentar: “ Tentamos romper com o tom condescendente ou folclórico que é comum nas reportagens de brasileiros sobre a África”.

Confira a entrevista que Azenha concedeu à equipe da TV Brasil.

TV Brasil - A ideia do Nova África é mostrar uma África diferente. O que isso quer dizer?
Luiz Carlos Azenha - A África que conhecemos foi "inventada" pelos europeus. A ocupação física do continente se deu num quadro de disputa entre as potências européias e da expansão da evangelização cristã. "Comércio, cristianismo e civilização" eram os 3 cês conjugados pelos colonizadores. Nasceu daí a idéia da África "bárbara", "selvagem", do "continente negro" como lugar da perdição. Foi preciso apagar a história da África para inventar um continente à imagem e semelhança da Europa, mas para poucos. Muito embora essa visão racista da África tenha desaparecido do discurso oficial, os preconceitos persistem em pleno século 21. A África "não dá certo", é vista como símbolo do atraso, da decadência e da corrupção. Nós pretendemos romper com esse paradigma de ver a África através de lentes européias. Em primeiro lugar, deixando que os próprios africanos falem sobre si, não "especialistas" que nunca puseram o pé no continente. Em segundo lugar mostrando que o continente é bastante complexo e que falar em África como um todo é tão impróprio quanto falar em América Latina desconhecendo que ela inclui desde o Uruguai até Barbados. Por isso o nome: Nova África. Uma nova forma de ver a África.


TVB - Como será a estrutura do programa?
LCA - Cada programa tem 26 minutos, grosseiramente divididos em dois blocos. Fazemos roteiros terrestres, viagens de descoberta, especialmente por regiões remotas dos países que visitamos. Começamos em Moçambique, passamos pela África do Sul, Botsuana e Namíbia. Em seguida, Ruanda e Congo. Existem fios condutores em cada um dos programas. Em Moçambique, mostramos a força da cultura dos macua, que mantiveram suas tradições apesar da escravidão, do colonialismo e da guerra civil. Na África do Sul, mostramos como pouco mudou no campo desde o fim do apartheid: as terras continuam concentradas na mão de 60 mil fazendeiros brancos e os negros que migraram para as cidades entram em conflito com imigrantes negros que vem de países da região.Em Botsuana mostramos a disputa entre homens e elefantes pelo uso da água e das terras.

TVB - Quais temas serão tratados nos episódios?
LCA - Nos programas temáticos falaremos, por exemplo, de como o português do Brasil - que chega pela TV, especialmente pelas novelas - foi incorporado ao cotidiano dos países de língua portuguesa; da disputa pelos recursos naturais à qual se incorporaram mais recentemente chineses, indianos e brasileiros; discutiremos até que ponto a "ajuda externa" à África é, de fato, ajuda.

TVB - Que histórias dos programas já gravados você destacaria?
LCA - Fomos ao famoso Grande Hotel da Beira, em Moçambique, que já foi um símbolo do império colonial português na África, hoje ocupado por cerca de 800 famílias. Fomos ao parque nacional do Chobe, em Botsuana, onde a maior concentração de elefantes no planeta disputa terras com os fazendeiros. Fomos às cachoeiras de Epupa, no rio Cunene, fronteira de Angola e Namíbia, mostrar a tradição ameaçada do povo himba. Apenas na primeira viagem fizemos 6 mil km de jipe atravessando quatro países, o que resultou num material riquíssimo. A segunda viagem começamos em Bruxelas, na Bélgica, país que enriqueceu graças à borracha extraída do Congo. Ou seja, fazemos reportagens historicamente contextualizadas, que estamos certos terão grande serventia para estudantes e professores que quiserem ensinar sobre a África.

TVB - O que o telespectador da TV Brasil pode esperar do Nova África?
LCA - Estamos prometendo uma surpresa por semana. Os programas estão bem diferentes uns dos outros. Não é por acaso. Tentamos romper com o tom condescendente ou folclórico que é comum nas reportagens de brasileiros sobre a África. Os montadores fazem um trabalho muito mais próximo do cinema que da TV. E a repórter Aline Midlej faz uma viagem de descoberta pessoal em busca das raízes da família dela no continente. A gente espera que o telespectador se surpreenda tanto quanto a Aline se surpreendeu até agora.

Nova África estreia no dia 25 de setembro, às 22h.

domingo, 23 de agosto de 2009

Aprenda a ler jornais e não seja enganado/a!

Estudem os golpes midiáticos. Eles virão em 2010?

23 de agosto de 2009 às 15:18

por Luiz Carlos Azenha

De original o Brasil só inventou a jabuticaba. O resto quase tudo vem de fora. Especialmente as grandes idéias dos marqueteiros políticos. A inspiração deles tem origem clara: os Estados Unidos.

Em quarenta anos de profissão, nunca vi a mídia tão partidarizada. Jamais. Jamais testemunhei um fenômeno como o de Lina Vieira: a mídia martela uma tese e simplesmente descarta todas as outras que possam contradizer aquela tese. Uma tese bancada por Agripino Maia. Uma tese que tem o objetivo de carimbar Dilma Rousseff como "mentirosa". Que faz parte da campanha para demonizar a candidata do governo. Que, em minha opinião, obedece a uma campanha milimetricamente traçada por marqueteiros de José Serra e executada por prespostos dos Civita, Marinho, Frias e Mesquita.

Onde estava Lina Vieira na tarde do dia 19 de dezembro? Dentro de um avião, voando para Natal. E Dilma? Depois de reuniões em Brasília, também viajou. Se não foi naquele dia o suposto encontro entre a ex-secretária da Receita Federal e a ministra, quando foi? Baixou um silencio espetacular nos jornais, nas rádios e nas telas da TV. Um silencio ensurdecedor.

[Para quem estava em outro planeta, no encontro a ex-secretária disse que Dilma Rousseff pediu a ela que interferisse indevidamente em uma ação da Receita Federal contra o filho do presidente do Senado, José Sarney. A ministra nega o encontro.]

Depois de oito anos distante do poder federal, a UDN vai usar todas as ferramentas a seu dispor para reconquistar o Planalto em 2010. É o pré-sal, estúpido! São bilhões e bilhões de dólares que permitirão a quem estiver no poder investimentos como há muito tempo não vemos no Brasil. E há gigantescos interesses externos já expressos, ainda que delicadamente, no debate sobre a exploração do pré-sal.

O consórcio DEM-PSDB vai tentar barrar as tentativas do governo Lula de aumentar a participação da União na exploração do petróleo. Vai fazer isso, sem assumir, em defesa dos interesses das grandes petroleiras internacionais, que correm desesperadamente em busca de reservas exploráveis.

Aqui você pode ler, em inglês, um artigo sobre a crescente disputa entre estados e petrolíferas pelo controle dos lucros da exploração, que se aguçou depois que a produção mundial de petróleo atingiu o pico.

Não é por outro motivo que, através da mídia, esses interesses tentam enfraquecer a Petrobras. Tentam dizer que a Petrobras é incapaz de tocar o projeto. Tentam dizer que a Petrobras ou o Brasil não tem dinheiro para fazer os investimentos necessários. Não é por acaso que a TV Globo assumiu a proposta do governo americano de uma "parceria": eles nos ajudam a explorar o pré-sal E nos vendem armas. É como aquela famosa piada da troca de casais. Nós entramos duas vezes como "doadores". Doamos o petróleo E pagamos pelas armas.

Não é por acaso que, em duas reportagens recentes, tanto o jornal New York Times quanto a revista britânica The Economist lançaram dúvidas sobre o futuro da exploração do pré-sal. O repórter Alex Barrionuevo, do Times, usou em seu texto palavras que acionam o botão de ojeriza do típico leitor americano: falou em "nacionalismo" e disse que uma suposta onda de "nacionalismo" no Brasil, agora, é comparável à dos tempos da ditadura militar.

Mas ele, por ignorância ou má fé, se esqueceu de dizer que a decisão correta de investir na exploração de petróleo em águas profundas, tomada durante o regime militar, é que permitiu à Petrobras o sucesso de agora. Ou seja, um exemplo de uma decisão "nacionalista" que deu resultado. Barrionuevo deu conotação negativa a "nacionalismo". Pelo simples fato de que "nacionalismo" só interessa aos americanos quando representa a defesa dos interesses dos Estados Unidos.

Leia aqui a tradução da reportagem do New York Times

Leia aqui, em inglês, a reportagem do Economist

Dito isso, é bom se precaver. Como?

Estudando o uso de pesquisas que foi feito durante várias campanhas políticas recentes. O episódio mais descarado aconteceu na Venezuela e está contado aqui.

Estudando os golpes eleitorais que permitiram a George W. Bush se eleger em 2000 depois de uma forcinha da Suprema Corte. Estudando os sofisticados golpes eleitorais aplicados pelos republicanos em 2000, na Flórida, e em 2004, em Ohio.

O melhor investigador do que se passou na Flórida é o repórter Greg Palast, que tem este site.

O melhor investigador do que se passou em Ohio é o deputado John Conyers Jr., que fica aqui.

Eu tenho todos os livros a respeito, mas não vou emprestar. Ninguem devolve livro no Brasil.

Mas você pode comprar vários deles na Amazon, a começar do relatório oficial da comissão encabeçada pelo deputado Conyers, aqui.

Sugiro que assistam ao documentário Free For All, que resume as duas fraudes nos Estados Unidos e pode ser visto aqui.

Essas fraudes foram baseadas em truques sofisticados, como a supressão de blocos de eleitores. Por exemplo, com a colocação de um número menor de máquinas de votação em seções eleitorais onde se sabia que a maioria era de eleitores democratas -- bairros de maioria negra, por exemplo.

Há suspeitas de fraude eletrônica. E de que os republicanos tenham aplicado um arsenal de medidas administrativas e jurídicas com o objetivo de desestimular ou simplesmente bloquear o voto de grupos majoritariamente democratas.

É importante ver o documentário A revolução não será televisionada, sobre o golpe midiático contra Hugo Chávez na Venezuela. Está aqui.

É importante ver o documentário Los Duenos de la Democracia, sobre a fraude eleitoral no México. Está aqui.

É importante ver o documentário Our brand is crisis, que fala sobre as táticas eleitorais empregadas por marqueteiros americanos para eleger Gonzalo Sanchez de Lozada presidente da Bolívia (ascendeu ao poder com apoio americano e pretendia implantar um projeto pelo qual o gás boliviano seria exportado por navios para os Estados Unidos, a partir de um terminal no Chile).

Finalmente, é preciso estudar todas as ações do National Endownment for Democracy, o NED, uma instituição bipartidária dos Estados Unidos, bancada com dinheiro público, que "promove a democracia" no mundo através de ações de engajamento da sociedade civil. O NED foi criado no governo de Ronald Reagan, em 1983, para fazer, abertamente, o que a CIA fazia antes na clandestinidade.

O NED estimula o uso de todas as ferramentas eletrônicas modernas -- SMS, internet, twitter -- para a mobilização popular, especialmente de jovens, considerando que os jovens têm menor conhecimento histórico, são mais voláteis e são mais suscetíveis à influência da cultura americana.

O NED teve um papel importante em algumas "revoluções" no Leste europeu, notadamente na derrubada de Slobodan Milosevic na extinta Iugoslávia, em 2000; na Revolução das Rosas, na Geórgia, em 2003; na Revolução Laranja, na Ucrânia, em 2005, e na Revolução das Tulipas, no Quirguistão, em 2005.

Nesses e em outros casos jovens ativistas estudantis foram mobilizados com slogans e símbolos simples e diretos (Resistência! na extinta Iugoslávia, É Hora na Ucrânia), atuando especialmente antes ou depois de eleições, em manifestações de rua durante crises eleitorais.

A lista de grupos e movimentos, que receberam financiamento do NED ou de outras instituições dos Estados Unidos inclui:

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Otpor! na extinta Iugoslávia.

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Kmara na Geórgia

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Pora na Ucrânia

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Flash mob convocada pelo Zubr, em Minsk, em 16.04.2006

Zubr na Bielorrússia

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Mjaft! na Albania

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Oborona na Rússia

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Kelkel no Quirguistão

Nabad al-Horriye no Líbano

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Maria Corina Machado, do grupo Súmate, é recebida por George W. Bush na Casa Branca, em 2002

Súmate (e outros) na Venezuela

O Instituto Nacional Republicano (IRI) e o National Democratic Institute (NDI) são os braços dos dois principais partidos americanos encarregados de "promover a democracia" no mundo, ou seja, de treinar e promover jovens líderes partidários que sejam "amigáveis" aos interesses de Washington. Tanto o IRI como o NDI integram o NED. Foi uma forma de garantir no Congresso americano a aprovação de todas as verbas que o NED achar necessárias para "promover a democracia" no mundo, sempre em parceria com entidades locais da sociedade civil. Também fazem parte do NED uma entidade de empresários, o Center for International Private Enterprise, e outra ligada a sindicatos, o Solidarity Center.

O Brasil tem uma sociedade civil suficientemente informada para não cair em contos do vigário. Mas nunca é demais ficar alerta. Afinal, suspeitas do passado se confirmaram: havia ouro de Moscou; houve ajuda política e militar dos Estados Unidos ao golpe de 1964; houve estímulo dos Estados Unidos ao golpe que derrubou Hugo Chávez na Venezuela, para lembrar apenas de casos marcantes.

O caso clássico, na Venezuela, no referendo de 2004, funcionou assim: pesquisa de boca-de-urna, divulgada antes do início das apurações, dava como certa a derrota de Hugo Chávez, por ampla margem (59% contra Chávez, 41% pela permanência dele no poder). O que abria caminho para dois movimentos: fraude na apuração ou, em caso de vitória de Chávez, a denúncia de que ele teria fraudado o resultado. E manifestações de rua. E protestos internacionais.

Qual foi o resultado da contagem de votos? Chávez teve 59% contra 41%! A oposição, obviamente, gritou fraude. E tentou organizar protestos de rua. Mas os observadores internacionais atestaram a lisura do referendo. E Chávez sobreviveu.

Como costuma dizer a Conceição Lemes, a melhor vacina contra a desinformação é a informação. Vacine-se!

sábado, 15 de agosto de 2009

Luiz Carlos Azenha: leitura pente fino na ideologia da direita no Brasil

Dois bons textos que fazem uma leitura crítica com muita propriedade, analisando como a mídia e o jogo político eleitoral trabalham de mãos dadas.

Aproveitem, o que Luiz Carlos Azenha faz nestes dois artigos: é decupagem da ideologia da mídia corporativa,
travestida de jornalismo.

Kamel descobre Lula. Com vinte anos de atraso

15 de agosto de 2009

por Luiz Carlos Azenha

Ali Kamel acaba de lançar o Dicionário Lula.

Pelo que li em seis páginas dedicadas ao livro na revista Veja -- precedidas por duas páginas de propaganda da Globo, que ninguem é de ferro --, Kamel descobriu uma ferramenta bacana para analisar textos e, aparentemente sem ter o que fazer, decidiu aplicá-la. Em quem? Em declarações de Lula. São 672 páginas de declarações de Lula.

Como é provável que ninguem vá ler, Kamel facilita nossa vida e resume Lula: "Um brasileiro médio, mais ou menos crente em Deus e que se vê como o proponente de uma sociedade capitalista onde haja mais harmonia entre os pobres e ricos".

Notem como ele faz questão de hierarquizar: coloca os pobres adiante dos ricos, como se no Brasil do Kamel os ricos não estivessem por cima -- bem protegidos, alimentados e educados -- e os pobres não estivessem por baixo, se possível além-túnel. Pobre do Kamel, afinal, é pobre de novela da Globo: pobre limpinho, que aspira estudar e é bem comportado.

Como Kamel não faz nada sem tramar muito bem, o livro pode ser visto de muitas formas: um agrado no ego de Lula, que sabe que Kamel esteve por trás das tentativas globais de derrotá-lo em 2006 de forma, vamos dizer assim, maquiavélica; o livro pode ser também uma tentativa de reinterpretar Lula.

Fico mais com a segunda, já que Kamel é dado a grandes pretensões jornalísticas e intelectuais. Ele não se contenta em ser um reles diretor da Globo. Kamel tem uma missão na terra: a de reescrever a História.

Assim sendo, depois de provar que Não Somos Racistas, Kamel agora se dedica a provar que Lula não é Lula. O que ele quer dizer com sua definição é que Lula não é um "esquerdista radical tresloucado", visão que ele, Kamel, provavelmente tinha de Lula.

Quem conhece o presidente do Brasil na intimidade sabe que Lula nunca foi marxista, não se diz de esquerda e sempre foi conciliador.

Por que Kamel precisa de 672 páginas para provar o que já sabemos?

Porque, na verdade, quem está descobrindo isso agora é o diretor da Globo. O curioso é que ninguem colaborou mais para criar a imagem de Lula "bicho papão" que a própria Globo, na campanha eleitoral de 1989.

Fernando Collor de Melo, que a Globo ajudou a criar e a derrubar, fez campanha como antítese de Lula: em vez de vermelho, verde-amarelo; em vez de rude, elegante; em vez de ignorante, poliglota; radical, sim, mas no "bom sentido", o de caçador de marajás.

É como se Kamel estivesse tentando repetir, agora, o exercício de quem realmente mandava, Roberto Marinho.

Só que o exercício do diretor da Globo é distinto do executado pelo patrão: Kamel, que não conseguiu "desfazer" Lula em 2006, tenta "refazê-lo", agora em novo sabor: um Lula cordial e conciliador, com o qual a elite brasileira aceitará conviver -- especialmente depois que ele deixar o Planalto.

Mas, sendo Kamel quem é, não poderia deixar de nos oferecer diversão. "Mais ou menos crente em Deus", que é como ele define Lula, é o mesmo que dizer que uma mulher é meio virgem.

PS1: Se Lula se comportar bem, depois que a candidata dele for derrotada em 2010 o "ex-presidente" será convidado para ser consultor da Globo. O círculo estará fechado.

PS2: Para descobrir o que Kamel descobriu sobre Lula, não seria mais fácil perguntar ao presidente? Mas o "jornalismo" de Kamel prefere caminhos, vamos dizer assim, mais tortuosos.


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Serra e o desespero em campanha

por Luiz Carlos Azenha


Existe um princípio do marketing eleitoral nos Estados Unidos segundo o qual você precisa definir o seu adversário antes que ele consiga se definir diante da opinião pública.

Como os EUA são a fonte onde bebem os marqueteiros do Brasil, deve ter nascido aí a estratégia de José Serra para chegar ao Planalto, aliada às ferramentas das quais ele já se utilizou em 2002 para matar a candidatura de Roseana Sarney no berço: o trabalho de agentes públicos que dão um ar oficial aos dossiês, devidamente divulgados pela mídia. O padrão dos "assassinatos de reputação" está de volta.

Dilma, a terrorista, foi obra da Folha de S. Paulo. É uma espécie de pedágio que o jornal pagou, no rodízio que os órgãos da propaganda eleitoral de Serra fazem. Uma hora é a Folha que denuncia, repercutida pela Globo. Outra hora é a Veja que denuncia, repercutida pelo Estadão. De outra feita a Globo denuncia e os jornais correm atrás. É um ciclo de retroalimentação, sempre com objetivos políticos. Informações são misturadas a boatos e ilações. Em um fato real são penduradas dezenas de suposições. A estratégia pressupõe que o eleitor é estúpido, que o leitor, o telespectador e o ouvinte jamais saberão discernir o real do imaginado.

Finalmente, nessa estratégia, as pesquisas eleitorais medem os resultados. Peças da narrativa que não deram certo são descartadas. E é assim que a campanha é calibrada. Dilma a terrorista deu para trás.

Agora passamos a uma nova fase: Dilma, a mentirosa aliada de gente financiada por narcotraficantes.

Para estudar esse fenômeno eleitoral, a edição da revista Veja que chegou às bancas é um primor. Revela uma sofisticação inédita. Na capa, anuncia o confronto Dilma x Lina [a ex-secretária da Receita Federal que acusou Dilma de ter pedido a ela agilidade nas investigações sobre a família Sarney em encontro que a ministra nega].

"Cabe à acusadora mostrar as provas contra a ministra", diz o título. No índice, a chamada é outra: "Dilma: uma rebelião surda contra sua candidatura". Finalmente, na reportagem, o título: "Quem está dizendo a verdade?" O texto é um maravilhoso exemplo de como encher espaço com absolutamente nada.

Começa com uma pensata pretensiosa sobre o uso da mentira na política. Sugere descontentamento entre petistas com a candidatura de Dilma Rousseff. Alinhava "fatos e versões", com os títulos de "o fato", "o que disse a ministra" e "o que foi comprovado". Sugere, sem dizer isso escancaradamente, que Dilma é mentirosa. Ou, pelo menos, que não dá para confiar nela. "Se o rótulo de mentirosa colar na ministra, será muito difícil superar isso em uma campanha", diz o texto. Bastante sugestivo isso, especialmente quando impresso na Veja.

Mas a Veja não seria a Veja sem Diogo Mainardi. Depois de, sob o título de "O Dízimo do Tráfico", especular que dinheiro de narcotraficantes colombianos teria sido investido na Igreja Universal, ele escreve:

"A Igreja Universal, nos últimos dias, atrelou sua imagem à de Lula. É a mesma estratégia empregada por José Sarney. Um apoia o outro. Um defende o outro. Edir Macedo está com Lula e com Dilma Rousseff. Agora e em 2010. Se a Igreja Universal tem um Diploma de Dizimista, assinado pelo Senhor Jesus Cristo, Dilma Rousseff tem um Diploma de Mestrado da Unicamp, supostamente assinado pelo senhor Espírito Santo. O senhor Edir Macedo e o senhor Lula se entendem. Eles sabem capitalizar a fé".

O bom do Diogo Mainardi é que ele facilita sobremaneira o nosso trabalho. Em apenas um parágrafo conseguiu ilustrar a campanha de José Serra ao Planalto melhor que qualquer um faria. Juntou em apenas um parágrafo Lula mentiroso, Lula explorador da fé pública e José Sarney. Por associação, coloca no mesmo saco Dilma, Lula e gente que teria recebido financiamento de narcotraficantes colombianos. Só faltou juntar as FARC e o Fidel Castro.

Mas não se encerra por aí o primor desta edição imperdível. Tem mais. Tem seis páginas dedicadas ao novo e magistral livro de Ali Kamel sobre... Lula. Ou sobre as declarações de Lula. É curiosa essa obsessão do diretor de Jornalismo da TV Globo com aquele que ele, Kamel, tentou desesperadamente derrotar em 2006.

Depois de provar que não somos racistas, Kamel gasta 672 páginas para provar que... Lula não é Lula.

"Um brasileiro médio, mais ou menos crente em Deus e que se vê como proponente de uma sociedade capitalista onde haja mais harmonia entre pobres e ricos". É assim que Kamel define Lula. Sobre isso, leia aqui.

Para terminar, a verdadeira piada de Veja: precedendo as seis páginas dedicadas a Kamel, duas páginas de propaganda da Globo sobre o Criança Esperança. Poderia ser um pouco menos explícito?

PS: Não percam, neste sábado, o Jornal Nacional repercutindo a capa da Veja. Estamos de volta a 2006.

PS2: A simbiose entre Veja, Globo, Kamel e Mainardi se estende aos políticos que alimentam e prestam serviço a ambos. O compadrio entre a elite brasileira é coisa antiga.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Lula: Falta coragem política

Atualizado em 12 de março de 2009 às 00:07 | Publicado em 11 de março de 2009 às 19:25

por Luiz Carlos Azenha no Vi o Mundo

Fiz uma aposta com o Eduardo Guimarães. Uma aposta que eu não gostaria de vencer. Eu acredito que o Eduardo subestimou a crise internacional em suas análises sobre a economia brasileira. Ele acredita que a mídia teve um papel relevante em provocar a crise. Eu não boto tanta fé no poder da mídia para inventar uma crise econômica, embora seja nítida a torcida do "quanto pior, melhor".

Não sou economista e, em geral, erro sempre em minhas previsões. Dessa vez talvez eu acerte. Eu vivia em Washington quando comecei a acompanhar a crise. E não é preciso ser um gênio para constatar que, diante da globalização e da financeirização do mundo -- dois fenômenos que se entrelaçam -- uma crise profunda nos países centrais afeta as economias ditas "periféricas", por mais que elas estejam preparadas. O risco de os maiores bancos dos Estados Unidos falirem é um sinal da profundidade da crise.

Sim, o Brasil tem um mercado interno, mas não vive só dele. Vive, também, da exportação de seus produtos. A crise atingiu não apenas os Estados Unidos, mas também a União Européia. Dois grandes mercados brasileiros. Reduziu o crescimento na China, outro mercado importante. "Marolinha", como definiu o presidente da República? Até entendo que Lula faça o papel de "dourar a pílula". Nos Estados Unidos, Barack Obama tem sido criticado pelo tom catastrofista que adotou. O governo brasileiro já admite que o crescimento do Brasil não atingirá a meta de 4% em 2009.

Eu disse, lá atrás, que se o Brasil crescer 2% este ano deveríamos soltar rojões. Quando a crise se agravou, mesmo nos Estados Unidos notei um tremendo descompasso entre os números da economia real e o noticiário da imprensa. Se eu acreditasse em conspirações, diria que o "dinheiro inteligente" estava ganhando tempo para pular fora e deixar o mico na mão do "dinheiro burro", ou seja, do estado.

Vai ficar cada vez mais óbvio, no Brasil, que o governo Lula demorou a agir. Só posso especular que os quadros governamentais não se deram conta da gravidade da crise que teriam pela frente. O conservadorismo do Banco Central é típico de quem não se deu conta de que estamos vivendo um momento de transformação. Não se trata, apenas, de mais uma crise, mas "da crise" de nossa geração. Não dá para aplicar velhas receitas em problemas novos.

A doença que acometeu os governos Sarney e FHC também pegou o governo Lula: a falta de coragem política. O loteamento do governo para garantir a "governabilidade", lá atrás, em 2002, desaguou em 2009 nas vitórias políticas de Collor e Sarney dentro do Congresso. O antigo Centrão divide o poder com o governo Lula, que agora é refém dele para as eleições de 2010. E essa "banda podre" sempre foi, é e sempre será imobilista: do jeito que está, tudo bem. Eles sempre estiveram por cima da carne seca. Assim como FHC, Lula faz um governo "reativo". Não ousa politicamente, apesar de montado em 84% de popularidade. Aposto que o cálculo político do presidente leva em conta que à esquerda dele não há lugar para correr. Por isso, Lula costura à vontade ao centro e à direita.

Seria a hora, hoje, de demitir o presidente do Banco Central e colocar no lugar não outro representante dos banqueiros, mas alguem identificado com os novos contornos que o mundo vai tomando. Um mundo em que o papel do estado será decisivo para separar os paises que sairão ganhando da crise daqueles que sairão perdendo. Mas Lula deve satisfações, no Congresso, à sua base mais conservadora. A posição que ele assumiu é justamente aquela que interessa a José Serra e ao PSDB: a única chance do tucano repousa em vender, fora de São Paulo, a imagem de um administrador experimentado e que tem mão firme para conduzir o Brasil num momento de crise.

A situação de hoje é a que mais interessa aos tucanos: um governo imobilizado, que fica esperando a economia reagir como se isso dependesse de alguma simpatia. A sorte de Lula é que a oposição já deu muitas demonstrações de inépcia e confunde o Jornal Nacional com a realidade.

PS: O que o governo Lula fez pela "renovação política"? Quase nada. Não dá para cumprir 8 anos de mandato e dizer que a culpa "é da oposição". Lula fez a inclusão social, mas pecou na inclusão politica. Promoveu a ascensão de uma nova classe média que reproduz acriticamente como verdade o que ouve no BBB ou no Jornal Nacional -- quando consegue discernir entre um e outro. As demandas sociais foram contempladas, mas as demandas políticas foram diluídas no assistencialismo. O Congresso de 2009 é igualzinho ao de 2002. O assalto aos cofres públicos é generalizado. Os ruralistas mandam na política agrária e ambiental; os banqueiros, na política econômica; a Globo nas comunicações. O estatuto do negro parou no Congresso. A reforma da radiodifusão, também. A presença das mulheres no Congresso é de menos de 10%. Os partidos são tão fracos hoje quanto eram há oito anos, talvez mais. Venceu o lulismo, mas não houve avanço institucional equivalente. Não dá para dizer que a culpa é só dos tucanos e demos.

terça-feira, 3 de março de 2009

A escolinha do professor Kamel

Este artigo do jornalista Luiz Carlos Azenha, publicado no Vi o mundo dia 02/03/2009, juntamente com os transcritos neste blog faz o que todo bom jornalista que não abre mão da função social do jornalismo deve fazer: análise crítica dos fatos.

A tentativa da Folha de S. Paulo de reescrever a História não é um episódio isolado. A socióloga Maria Victoria Benevides, na entrevista que deu à jornalista Conceição Lemes, disse que tem ouvido aqui e ali tentativas de "reler" o regime militar como algo menos perverso do que de fato foi.

Na turma da "releitura" cabe muita gente. Há os que cometeram crimes e não querem pagar por eles. Há os que genuinamente acreditam que o regime militar foi benéfico. Há os que foram cúmplices e, portanto, precisam reinventar a História.

Mais de quatro décadas depois do golpe, os arquivos da ditadura ainda não foram escancarados. O Brasil é o único país da região que não acertou plenamente as contas com seu próprio passado. Enquanto isso, os oportunistas de plantão tentam rearranjar a História para apagar sua cumplicidade, tirando proveito para isso do poder que lhes foi conferido pela própria ditadura militar.

Sim, meus caros, o que têm em comum os donos dos meios de comunicação que apoiaram a implantação da ditadura militar? Todos cresceram com benesses obtidas a partir dessa prestação de serviço. O golpe de 64 privilegiou os grupos que o apoiaram ao mesmo tempo em que provocou a falência de empresários ligados ao regime constitucional de João Goulart. Essa ainda é uma história mal contada.

A da TV Globo é melhor conhecida. A da Folha de S. Paulo permanece obscura, embora a ajuda da família Frias à Operação Bandeirantes -- o "teste" da repressão financiado por empresários paulistas que precedeu a formalização do sistema de torturas do DOI-CODI -- começou a ser desvendada pela historiadora Beatriz Kushnir.

Clique aqui para ouvir uma entrevista com a Beatriz.

Na TV Globo, Ali Kamel participou do trabalho de "reescrever" a História da emissora, com o objetivo de apagar o passado. O livro oficial que conta a história do Jornal Nacional, por exemplo, sustenta que a TV Globo fez bom jornalismo na cobertura do comício das eleições diretas, em 1984, em São Paulo. Na maior cara de pau.

Ali Kamel escreveu um texto em O Globo sustentando sua tese.

Foi rebatido por Mário Sergio Conti, com esse artigo.

E foi desmentido pelo José Bonifácio de Oliveira, o Boni, ex-dirigente da Globo, em entrevista a Roberto D'Ávila que foi ao ar na TV Cultura.

A própria Folha de S. Paulo registrou o desmentido de Boni.

Curiosamente, a Folha parece inclinada a fazer o que condena na Globo.

A biografia de Octavio Frias de Oliveira passa quase batido pelas relações entre o empresário e o regime militar.

E o editor do jornal Meio&Mensagem, que trouxe de volta o assunto, foi sumariamente demitido.

Agora veio a "ditabranda".

Que já tinha um precedente: editorial assinado por Octavio Frias Filho, em 2004, dizendo que o regime, afinal, não foi tão mau assim.

No atual episódio, embora discordando da "ditabranda", um colunista da Folha de S. Paulo, espantosamente, escreveu que o jornal teve "se não me falha a memória, papel importante na luta contra o regime militar". Nada sobre a Folha da Tarde. Ou a Operação Bandeirantes. Ignorância, má fé ou puxa-saquismo?

O que me espanta é eles imaginarem que ninguém está prestando atenção. Ou que todo mundo é bobo.


domingo, 1 de março de 2009

Por que não devemos falar em "ditabranda"

Por Luiz Carlos Azenha no Vi o Mundo

Atualizado em 01 de março de 2009 às 12:52 | Publicado em 01 de março de 2009 às 11:44

Os argumentos de que, comparativamente com outras ditaduras, o regime militar brasileiro foi de alguma forma "brando" são baseados em estatísticas que escamoteiam as verdadeiras implicações do golpe de 64.

Será que os liberais se esqueceram que, depois de colaborar com o golpe, alguns deles foram os primeiros a entrar na lista de cassações?

É fato que cerca de 300 militantes de esquerda morreram ou foram "desaparecidos" pelo regime, um número infinitamente menor que os 700 mil "comunistas" eliminados por Suharto, na Indonésia. Mas essas comparações numéricas são toscas, não refletem a realidade histórica distinta de cada sociedade e nem capturam a atmosfera repressiva de um regime ditatorial.

Para quem não viveu o período, fica parecendo que a ditadura brasileira foi um terror apenas para quem era de esquerda -- muito embora a esquerda tenha, de fato, sido o principal alvo do regime militar. As cassações políticas, a repressão a religiosos, sindicalistas e estudantes e a censura à imprensa afetaram, direta ou indiretamente, a milhões de brasileiros.

Todos nós ficamos, então, à mercê do humor dos ditadores de plantão e, especialmente, de seus agentes paroquiais. Um dedo-duro bem conectado com um agente do governo poderia causar uma enorme dor-de-cabeça a quem fosse identificado como "inimigo" ou mesmo "adversário" do regime.

Nessa hora é muito importante recorrer aos registros históricos:

Em fevereiro de 1968, o proprietário do "Diário da Manhã" de Passo Fundo (RS), começou a ser processado por solicitação de vários prefeitos da região, por razão de críticas e ataques feitos em seu jornal, durante o ano de 1967, àqueles chefes de Executivo Municipal, havendo referência também a ofensas que teriam sido feitas ao ministro da Educação, Tarso Dutra. [Brasil Nunca Mais, editora Vozes, página 146]

Em outras palavras, um jornal do interior falou mal de prefeitos da região e o dono foi processado pela Lei de Segurança Nacional. Outro exemplo:

Ainda em 1971, no mês de agosto, um editorial publicado na "Luta Democrática", do Rio de Janeiro, comentando um acidente de trânsito que vitimou uma criança, levou o jornalista Carlos Augusto Vinhaes a responder por crime contra a Segurança Nacional. [Brasil Nunca Mais, editora Vozes, página 146]

Nem partidários do regime militar escapavam:

Trata-se de "Ari Cunha", na verdade José de Arimatéia Gomes Cunha que, em sua coluna regular no "Correio Braziliense", da Capital da República, denunciou as torturas a que havia sido submetida, grávida, a presa política Hecilda Mary Veiga Fonteles de Lima, recolhida no PIC -- Pelotão de Investigações Criminais, de Brasília. Este foi um caso ímpar, em que um ideólogo da Doutrina de Segurança Nacional sofre o peso da LSN sobre suas costas, por ter divulgado um episódio que, no seu entender, representava um excesso dispensável na repressão necessária para garantir a solidez das instituições do Regime. [Brasil Nunca Mais, editora Vozes, páginas 146 e 147]

E o que dizer do vereador que foi processado por amarrotar uma foto do ditador Médici?

Outros dois vereadores do MDB, agora de Cachoeirinha, nas proximidades de Porto Alegre, seriam processados, também em 1970, um por ter discursado na Câmara atacando o Regime Militar, e o outro, por ter amarrotado uma foto do presidente Médici, enviada para ser afixada naquela casa legislativa. [Brasil Nunca Mais, editora Vozes, página 141]

Meu pai, que apesar de português e comunista era um tremendo gozador, costumava dizer que os militares tinham fabricado alguns espantalhos para justificar não só o golpe, mas o regime que implantaram em seguida.

Havia o mito da "República Sindicalista" a ameaçar a classe média urbana, amedrontada com o comunismo. Um medo manufaturado através das campanhas do IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) e do IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), como brilhantemente documentado no livro "1964: A Conquista do Estado", de René Armand Dreifuss.

Uma obra de ficção, a tal "República Sindicalista", muito mais sofisticada que o "estado policial" forjado recentemente pela revista Veja e o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, para defender o banqueiro Daniel Dantas. Mas a linha era mais ou menos a mesma: um assalto à democracia em nome de "defender a democracia".

O mito da "República Sindicalista" se esboroou no primeiro de abril de 1964, quando um regime constitucional foi derrubado sem um tiro sequer. Um assalto em que embarcaram os principais orgãos de imprensa do Brasil, inclusive O Globo, a Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo -- este último, ao lado da Veja, do Jornal do Brasil e da imprensa nanica pagariam um preço muito alto, mais tarde, por causa da censura.

Os três jornalões que restaram são, até hoje, prisioneiros dessa contradição: dizem defender a democracia tendo sido cúmplices do maior atentado contra ela na História recente do Brasil. É de se esperar, portanto, que exibam vez ou outra traços de nostalgia.

LEIA AQUI O EDITORIAL DE "O GLOBO" CELEBRANDO O GOLPE DE 64

LEIA AQUI COMO A TENTATIVA DA "FOLHA" DE REESCREVER A HISTÓRIA NÃO É NOVA

OUÇA AQUI A ENTREVISTA DA HISTORIADORA QUE DIZ QUE A "FOLHA" TEM ESQUELETOS NO ARMÁRIO

Não se enganem: o regime de 64 foi concebido na Escola Superior de Guerra (ESG), obedecia a lógica da Guerra Fria dos Estados Unidos e implantou um aparato de força milimetricamente organizado na melhor (ou pior, dependendo do ponto-de-vista) tradição dos militares. Quem acha que a tortura foi "eventual" ou "acidental" não sabe do que está falando. A tortura foi uma ferramenta política e policial para intimidar e eliminar adversários e foi apenas o lado mais perverso de um estado policial. O conceito de "inimigo interno", inventado pela Doutrina de Segurança Nacional, ainda hoje está entre nós. Quem chiou contra o Brasil imaginado pelos militares foi defenestrado, especialmente depois de 68, independentemente de ser de direita ou de esquerda. Falar em "ditabranda" é, pois, um desserviço à democracia.

LEIA AQUI, EM PORTUGUÊS, PARTE DO ARQUIVO QUE REGISTRA O APOIO DE WASHINGTON AO GOLPE

LEIA AQUI, EM INGLÊS, TODO O ARQUIVO

Tendo a esquerda na América Latina chegado ao poder dentro das regras democráticas, não dá para entender é que, de repente, essas regras não sirvam mais. Ou que se comece a inventar um "estado policial" para atentar contra elas. Um amigo direitista -- na tradição de meu pai, que chegou a ser um rico empresário comunista, eu também tenho amigos direitistas -- outro dia se dizia preocupado com a possibilidade de um terceiro mandato do Lula. É o sonho de consumo da elite: que o Lula tente um terceiro mandato para ser acusado de "ditador".

De gozação, lembrei a meu amigo tucano: eu não me lembro de você ter chiado quando o Sarney ampliou seu mandato de quatro para cinco anos ou quando o FHC "comprou" a reeleição. Ele riu, sem graça. Que poder de turvar a memória têm os interesses políticos conjunturais!