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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

ISRAEL PRENDE COORDENADOR DA CAMPANHA "STOP THE WALL"

Jamal Juma, coordenador da Campanha Stop the Wall, que luta pela derrubada do muro construído no meio do território palestino foi preso por soldados israelenses, dia 16 de dezembro, em sua casa.
Ele esteve este ano no Brasil, participando do Fórum Social Mundial, em Belém (Foto de Eduardo Seidl).


E enquanto isso todo o mundo comemora os 20 anos da queda do muro de Berlim.





Jamal Juma foi preso por soldados israelenses, dia 16 de dezembro, em sua casa. Os soldados disseram a esposa de Juma que ela só voltaria a ver o marido quando houvesse uma troca de prisioneiros. Desde então, ele permanece preso e proibido de falar com um advogado ou com a família, sem nenhuma explicação oficial para a sua prisão, denuncia a Stop the Wall. Jamal, de 47 anos, dedica a vida à defesa dos direitos dos palestinos.


O governo de Israel prendeu, dia 16 de dezembro, Jamal Juma, coordenador da Campanha Stop the Wall, que luta pela derrubada do muro construído no meio do território palestino. Segundo informações do site da campanha, militares israelenses convocaram Juma para um interrogatório à meia-noite do dia 15 de dezembro. Horas depois, levaram-no de volta para sua casa. Juma foi mantido algemado, sob os olhos da esposa dos três filhos pequenos, enquanto soldados revistaram sua casa durante duas horas. Na saída, os soldados disseram a esposa de Juma que ela só voltaria a ver o marido quando houvesse uma troca de prisioneiros. Desde então, Juma permanece preso e proibido de falar com um advogado ou com a família, sem nenhuma explicação oficial para a sua prisão, denuncia a Stop the Wall.

Jamal, de 47 anos, nasceu em Jerusalém e dedicou a sua vida à defesa dos direitos humanos dos palestinos. Ele esteve este ano no Brasil, participando do Fórum Social Mundial, em Belém. Na ocasião, defendeu o boicote econômico a Israel como uma das armas prioritárias para defender os direitos do povo palestino. O foco principal do trabalho de Jamal é a capacitação das comunidades locais para defenderem os seus direitos em face de violações provocadas pela ocupação israelense. Ele é membro fundador de várias ONGs palestinas e redes da sociedade civil. Também é coordenador da Palestina Grassroots Anti-Apartheid Wall Campaign desde 2002. É muito respeitado pelo seu trabalho e foi convidado para numerosas conferências de entidades e da ONU.

Ainda segundo a Stop the Waal, Jamal Juma é o preso de mais alto escalão no quadro de uma campanha de intensificação da repressão da mobilização popular contra o muro e os colônias israelenses em território palestino. “No início, foram presos ativistas locais das aldeias afetadas pelo muro. Agora, estão sendo presos defensores dos direitos humanos internacionalmente conhecidos, como Mohammad Othman e Abu Abdallah Rahmeh. Mohammad, um outro membro da campanha Stop the Wall, foi preso há quase três meses, no regresso de uma palestras na Noruega. Após dois meses de interrogatório, as autoridades israelenses não conseguiram encontrar provas para acusa-lo e, por isso, emitiram uma ordem de detenção administrativa. Abdallah Abu Rahma, uma figura importante na luta não violenta contra o muro em Bil’in, foi levado de sua casa por soldados encapuzados no meio da noite, uma semana antes de Jamal ter sido preso, denuncia ainda a organização.

Na avaliação dos ativistas companheiros de Jamal, com estas detenções, Israel pretende quebrar a sociedade civil palestina e sua influência na tomada de decisões políticas em nível nacional e internacional. Eles fazem uma convocação:

“Este processo claramente criminaliza o trabalho dos defensores dos direitos humanos palestinos e a desobediência civil palestina. É crucial que a sociedade civil internacional se oponha às tentativas israelenses de criminalizar defensores de direitos humanos que lutam contra o muro. A política de Israel de atacar os organizadores que apelam à responsabilização de Israel é um desafio direto às decisões dos governos e organismos mundiais como o Tribunal Internacional de Justiça para responsabilizar Israel pelas violações do direito internacional. Este desafio não deve ficar sem resposta”.



terça-feira, 18 de agosto de 2009

Latuff sobre a disputa Globo versus Record: ambos impérios tê razão

Clique na imagem para ampliá-la.


Latuff sobre a disputa entre as tvs. Charge ser publicada no boletim da Associação dos Servidores do PRODERJ.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Tributo aos palestinos, por Carlos Latuff

por Carlos Latuff na Caros Amigos

A imposição de um estado judeu na Palestina em 1948 produziu um contingente colossal de refugiados (a ONU estima atualmente em mais de 4 milhões e meio). As famílias palestinas que não foram simplesmente assassinadas pelo terrorismo sionista de grupos como Irgun e Haganah tiveram de fugir para países limítrofes como Jordânia, Síria e Líbano, onde vivem até hoje em campos de refugiados.

No ano do 61º aniversário do que os palestinos acertadamente chamam de A Catástrofe, estive no Oriente Médio, a convite da al-Hanouneh Society for Popular Culture, e visitei três destes campos: Marka/ Shnillar e al-Baq'a na Jordânia, e al-Badawi no Líbano. Neles encontrei um povo marginalizado, sobrevivendo em condições muitas vezes precárias, semelhantes às favelas brasileiras, esquecido pelo Ocidente e, por vezes, como no Líbano, correndo o risco de ser massacrado por milicias hostis ou mesmo pelo governo, como aconteceu no campo de Nahr al- Bared em 2007.

Esta população sequer pode regressar a sua terra natal, já que seu direito de retorno é sistematicamente negado por Israel. Este ensaio é um tributo aos palestinos da diáspora.



segunda-feira, 2 de março de 2009

ATO EM REPÚDIO À DITABRANDA: DIA 07/03, ÀS 10 HORAS, NA BARÃO DE LIMEIRA EM FRENTE À FOLHA

"Você corta um verso/ Eu escrevo outro.
Você me prende vivo/ Eu escapo morto.
De repente, olha eu de novo/ Perturbando a paz
Exigindo o troco."
(Pesadelo - Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro)

Carlos Latuff revisitou a foto mais emblemática para o jornalismo durante à ditadura militar (veja a foto original aqui) para ironizar a barbárie dita pela Folha. De modo provocativo ele traduz o que este jornal colaboracionista do regime militar quis dizer ao afirmar que no Brasil não houve ditadura, mas "ditabranda".

Caros,

Como sabem o editorial da Folha de São Paulo do dia 17/02 tripudiou sobre a memória de todos que foram torturados, abatidos, perseguidos no Brasil, durante o regime militar.

A Folha criou um ditatômetro para afirmar em um revisionismo insidioso que nossa ditadura foi branda. Diante dos protestos de inúmeros sobreviventes e, particularmente, após as cartas em repúdio remetidas pela professora Maria Victória Benevides e Fábio Konder Comparato contra este neologismo absurdo
, a Folha, de maneira cínica e desrespeitosa, publicou uma nota que não só reafirmava o seu revisionismo como buscou fazer chacota aos respeitáveis professores e a suas histórias de vida.

A Folha não apenas desrespeitou os professores em questão e todas as vítimas da ditadura militar, ela desrespeitou os brasileiros, nossa história e memória.


Na esteira do jornal colaboracionista que emprestava suas peruas para transportar presos políticos para serem torturados no Doi-codi, artigos do que há de pior na imprensa brasileira foram escritos: Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, Gravataí Merengue e Cia, chamaram o professor Antonio Cândido e todos os acadêmicos signatários da petition online em repúdio à Folha de 'caducos' de 'doutrinadores dos estudantes'; 'intelectuais' do PT (com uma conotação para lá de negativa), "uma gente tacanha, uma gente cabotina, que pretende ser eternamente recompensada por seus gestos durante o regime militar."


Cabotinos e Tacanhos são estes neocons que dominam a grande imprensa, resta-nos mobilizarmos contra a barbárie.

É importantíssimo que ALÉM DE ASSINAR A PETIÇÃO DE REPÚDIO À FOLHA E EM SOLIDARIEDADE AOS PROFESSORES DESRESPEITADOS POR ELA (http://www.ipetitions.com/petition/solidariedadeabenevidesecomparat/index.html ) saiamos de nosso conformismo e PASSEMOS A EXPRESSAR nossa indignação, não apenas nos pequenos círculos de amigos, nos corredores da Universidade, precisamos dizer em clara e sonora voz que basta de tanto absurdo, precisamos CANCELAR EM MASSA A ASSINATURA DESTE JORNAL SEM NOÇÃO DO RIDÍCULO, PRECISAMOS DIZER QUE NÃO ACEITAMOS MAIS UM REGIME DE EXCEÇÃO, TORTURA NUNCA MAIS!
PRECISAMOS SOMAR ESFORÇOS E NOS AGREGARMOS.


O presidente do movimento dos sem mídia Eduardo Guimarães (www.edu.guim.blog.uol.com. br), jornalistas decentes que não cederam à barbárie, estudantes e professores fazem um apelo a todos que compareçam na manifestação do dia 07/03 e que tragam seus filhos, companheiros/as, amigos, que convoquem seus vizinhos, independente de que partido se filiem ou simpatizem, este é um movimento de CIDADANIA.

Leve seu cartaz para expressar o seu repúdio e sua solidariedade às vítimas da ditadura militar, leve seu celular 3G para ligar convocando os amigos, informar sobre o que está acontecendo, subir, fotos do ato para a rede, ajudar a compor a rede de blogueiros que estarão por lá para que possamos mostrar ao Brasil que estamos descontentes com este REVISIONISMO INSIDIOSO DA FOLHA E SEUS NEOCONS.


Repassem o convite deste protesto DEMOCRÁTICO para seus contatos, está é uma corrente que vale a pena.


Grande abraço

Conceição Oliveira

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Estados Unidos aumentará prisão no Afeganistão

Do Vermelho.org

20 DE FEVEREIRO DE 2009 - 09h38

As forças armadas dos Estados Unidos estão próximas de completar a expansão da prisão da base aérea de Bagram, no Afeganistão, onde estão detidas 600 pessoas, denominadas "combatentes inimigos" pelas tropas de ocupação do país. O custo da expansão é calculado em US$ 60 milhões.


A quase duplicação da prisão ocorre ao mesmo tempo que o secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, prepara uma "redefinição" da posição americana em relação ao uso de Bagram e outras instalações, inclusive o campo de concentração instalado na base ilegal de Guantânamo.


Gates, junto com Eric Holder, o secretário de Justiça dos EUA, foi encarregado de fazer um relatório para determinar o destino dos detidos em instalações americanas.


O presidente americano Barack Obama foi bastante elogiado por ordenar, assim que foi empossado, o fechamento do campo de concentração construído na base americana de Guantânamo, que ocupa ilegalmente o território de Cuba.


Mas com a sua ordem de redirecionar 17 mil militares do Iraque para o Afeganistão, no sentido de reforçar a presença militar no país, a prisão de Bagram parece ser agora mais visível e polêmica.


Rumi Nielson-Green, uma das porta-vozes das forças armadas americanas, disse à rede catariana de televisão al-Jazira que os detidos na prisão de Bagram são "combatentes inimigos fora da lei".


"São indivíduos que foram retirados dos campos de batalha porque são perigosos para nossas forças e nossos parceiros na coalizão", disse ela.


Direitos básicos


A organização Anistia Internacional exigiu que Obama continue rompendo com a "política de detenções ilegais" de seu predecessor, assegurando que "todas as detenções americanas no Afeganistão cumpram com as leis internacionais" e que dê aos detidos acesso aos tribunais americanos para que possam defender-se de suas acusações.


"Uma revisão judicial é uma salvaguarda básica contra abusos e uma proteção contra detenções arbitrárias e secretas, torturas e outros tratamentos nefastos, assim como transferências ilegais de uma país ou governo para outro", insistiu o grupo de defesa dos direitos humanos.


"Na ausência de supervisão judicial, os detidos em Bagram, assim como em Guantânamo, foram submetidos a tais abusos — sendo que até mesmo crianças não foram poupadas", destaca.


A organização afirma que mais de 615 pessoas que estão detidas em Bagram, sem acesso a tribunais ou dispositivos legais, são afeganis e alguns deles estão detidos há anos.


Embora a administração Obama tenha prometido resolver o caso dos pouco mais de 240 detidos em Guantânamo, nada disse sobre o que pretende fazer em Bagram.


John Bates, juiz de uma corte distrital dos EUA que recebeu processos abertos por quatro detidos de Bagram que estão na prisão há anos, deu à administração Obama até esta sexta-feira para "revisar" sua posição sobre o uso da base aérea de Bagram como instalação prisional e se acredita que os detidos ali podem acionar a justiça americana para rever suas prisões.


A administração Bush, anterior a Obama, argumentava que, como "combatentes inimigos", os detidos em Bagram não tinham o direito de acionar a justiça americana, argumento também utilizado em relação aos detidos em Guantânamo.


Mesmo assim, a suprema corte dos EUA determinou, no ano passado, que os prisioneiros de Guantânamo têm o direito de serem julgados pelos tribunais do país, algo que os grupos de direitos humanos querem agora para os detidos da base aérea de Bagram.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Eleições estadunidenses e as novas relações com a América Latina e o restante do globo, segundo Latuff e Chomsky

América Latina está deixando de ser o quintal dos Estados Unidos


Uma das principais mudanças na ordem mundial está sendo vivida agora na América Latina, diz Noam Chomsky, em entrevista. Para ele, a região está começando a superar seus problemas internos e sua subordinação ao Ocidente, principalmente em relação aos EUA. Chomsky acredita que a crise atual traz oportunidades de mudanças reais na ordem mundial. "Até onde essa mudança pode chegar, isso depende daquilo que estamos dispostos a empreender".

Agencia de Prensa Alternativa Humanista “Sur”

A Agencia de Prensa Alternativa Humanista “Sur” (APAHs) entrevistou Noam Chomsky sobre o desenrolar da crise econômica atual. Reproduzimos, aqui, a entrevista, onde Chomsky defende a necessidade de desmontar algumas mitologias relacionadas à crise, destaca o novo papel que a América Latina vem desempenhando no mundo e aponta a abertura de uma janela de oportunidades para mudanças na atual ordem político-econômica global.

Como explicar que, apesar de muita gente ter visto a crise se aproximando, aqueles que estavam na liderança dos governos e das economias não se mostraram preparados para enfrentá-la?

Noam Chomsky: As bases para a crise eram previsíveis. Um fator constitutivo da liberalização financeira é que haverá crises freqüentes e profundas. De fato, desde que a liberalização financeira foi instituída há cerca de 35 anos, estabeleceu-se uma tendência a incrementar a regularidades crises, e crises cada vez mais profundas. As razões são intrínsecas e entendidas: têm a ver fundamentalmente com as bem conhecidas ineficiências dos mercados. Assim, por exemplo, se você e eu fazemos uma transação, digamos que me vende um automóvel, podemos fazer um bom negócio para nós mesmos, mas não consideramos o efeito sobre os outros.

Se eu compro um automóvel, aumenta o uso da gasolina, aumenta a contaminação, o congestionamento, etc. Mas não levamos em conta esses efeitos. Isto é o que os economistas chamam de externalidades, que não são consideradas nos cálculos do mercado. Estas externalidades podem ser enormes. No caso das instituições financeiras, são particularmente grandes. A tarefa de uma instituição financeira é assumir riscos. Se é uma instituição financeira bem administrada, digamos, a Goldman Sachs, ela considerará os riscos para si própria, mas a expressão crucial aqui é “para si própria”. Não leva em conta os riscos sistêmicos, os riscos para o conjunto do sistema se a Goldman Sachs tiver uma perda substancial. Isso significa que esses riscos são subestimados. Assume-se mais riscos do que se deveria tomar em um sistema eficiente que leva em conta todas as implicações. Assim, esta fixação errônea de preços se integra simplesmente como parte do sistema do mercado e da liberalização das finanças.

Como conseqüência dessa subestimação de riscos, estes passam a ser mais freqüentes e quando há fracassos, os custos são mais altos que o esperado. As crises passam a ser mais freqüentes e mais graves à medida que o alcance e o volume das transações financeiras aumentam. Tudo isso se amplifica ainda mais pelo fanatismo dos fundamentalistas do mercado que desmontaram o aparato regulador e permitiram a criação de instrumentos financeiros exóticos e opacos.

É um tipo de fundamentalismo irracional porque fica claro que o enfraquecimento de mecanismos regulatórios em um sistema de mercado incorpora um risco de crise desastrosa. Trata-se de atos sem sentido, salvo para o interesse no curto prazo dos senhores da economia e da sociedade. As corporações financeiras podem, e conseguiram, colher enormes lucros no curto prazo ao empreender ações extremamente aventuradas, incluindo especialmente a desregulação, que trazem dano à economia em geral, mas não para elas, ao menos no curto prazo que é o que orienta o seu planejamento.

Nos EUA, os salários reais permaneceram praticamente estancados para a maioria durante trinta anos.

Não se podia prever o momento exato de uma crise severa, nem se podia prever o alcance exato da crise, mas era óbvio que ela viria. De fato, ocorreram crises sérias e repetidas durante este período de desregulação crescente. Só que até agora não tinham golpeado tão duramente o centro da riqueza e do poder, mas sim, sobretudo, os países do chamado terceiro mundo. Vejamos o caso dos Estados Unidos. É um país rico, mas para uma maioria substancial da população, os últimos trinta anos provavelmente figuram entre os piores da história econômica norte-americana. Neste período, não ocorreram crises massivas, grandes guerras, depressões, etc. No entanto, os salários reais permaneceram praticamente estancados para a maioria durante trinta anos.

Para a economia internacional, o efeito da liberalização financeira foi bastante daninho. Líamos na imprensa que os últimos trinta anos, os do neoliberalismo, mostraram o maior decréscimo da pobreza na história do mundo, um enorme crescimento, etc. Há algo de verdade nisso, mas o que falta dizer é que a diminuição da pobreza e o crescimento ocorreram em países que não seguiram as regras neoliberais, como ocorreu no leste asiático. E os países que observaram tais regras sofreram gravemente, como ocorreu na América Latina.

Joseph Stiglitz escreveu recentemente que esta última crise marca o fim do neoliberalismo. Chávez, durante uma coletiva de imprensa, disse que a crise poderia ser o final do capitalismo. Qual dos dois está mais próximo da verdade?

Chomsky: Em primeiro lugar, devemos ter claro que o capitalismo não pode terminar porque nunca começou. O sistema no qual vivemos deve ser chamado de capitalismo de Estado, não simplesmente capitalismo. No caso dos Estados Unidos, a economia se apóia muito fortemente no setor estatal. No momento, há muita angústia sobre a socialização da economia, mas isso é uma grande brincadeira. A economia avançada de alta tecnologia e similares sempre dependeu amplamente do setor dinâmico da economia estatal. É o caso da informática, da internet, da aviação, da biotecnologia, quase tudo o que está à vista.

Temos um sistema de socialização dos custos e riscos e privatização dos lucros.

O Massachusetts Institute of Technology (MIT), de onde estou falando, é uma espécie de funil no qual o setor público despeja o dinheiro e de onde sai a tecnologia do futuro, que será entregue ao poder privado para que saquem os lucros. Então, temos um sistema de socialização dos custos e riscos e privatização dos lucros. Isso não ocorre somente no sistema financeiro, mas em toda economia avançada.

De modo que, para o sistema financeiro, provavelmente o resultado será mais ou menos o descrito por Stiglitz. É o final de uma certa era da liberalização financeira conduzida pelo fundamentalismo de mercado. O jornal Wall Street Journal lamenta que Wall Street, tal como a conhecemos, tenha desaparecido com a derrocada da banca de investimentos. Alguns passos serão dados na direção da regulação. Isso é certo. No entanto, as propostas que estão sendo formuladas, por mais extensas e severas que sejam, não mudam a estrutura das instituições básicas subjacentes. Não há nenhuma ameaça ao capitalismo de Estado. Suas instituições fundamentais seguirão sendo as mesmas, talvez, inclusive, sem grandes sacudidas. Elas podem ser reacomodadas de várias maneiras. Alguns conglomerados podem absorver outros, alguns podem ser semi-nacionalizados tibiamente, sem que isso afete fortemente o monopólio privado da tomada de decisões.

No entanto, do jeito que vão as coisas, as relações de propriedade e a distribuição de poder e riqueza não mudarão significativamente, embora a era do neoliberalismo, vigente há uns trinta e cinco anos, seguramente será modificada de maneira significativa. Diga-se de passagem, ninguém sabe o quão grave essa crise poderá se tornar. Cada dia traz novas surpresas. Alguns economistas estão prevendo uma verdadeira catástrofe. Outros pensam que ela pode ser consertada, com um transtorno modesto e uma recessão, que provavelmente será pior na Europa do que nos Estados Unidos. Mas ninguém sabe ao certo.

Na sua avaliação, veremos algo parecido com a depressão, com pessoas sem trabalho fazendo grandes filas para conseguir alimentos, nos Estados Unidos e na Europa? E, se isso ocorrer, veremos uma grande guerra para repor as economias em pé, uma terapia de choque ou algo tipo?


Chomsky: Não acredito que a situação seja comparável com o período da grande depressão, ainda que haja algumas semelhanças com essa época. Os anos 20 também foram um período de especulação selvagem e de uma enorme expansão de crédito e empréstimos, com a criação de uma enorme concentração de riqueza em um setor muito pequeno da população e a destruição do movimento sindical. Deste ponto de vista, há semelhanças com o período atual. Mas também há muitas diferenças. Existe um aparato muito mais estável de controle e regulação, resultante do New Deal, e ainda que tenha se enfraquecido, boa parte dele permanece intacto.

Além disso, há a compreensão de que os tipos de políticas, vistas como extremamente radicais no período do New Deal, hoje são mais ou menos normais. Assim, por exemplo, no recente debate presidencial dos EUA, John McCain, o candidato da direita, propôs medidas tomadas do New Deal para enfrentar a crise da habitação. Então, há a compreensão de que o governo deve assumir um papel importante na gestão da economia e, de fato, os setores avançados da economia já vivem essa experiência há cerca de 50 anos.

Há muita mitologia que precisamos desmontar: Reagan foi o presidente mais protecionista da história econômica dos EUA do pós-guerra.

Muito do que se lê sobre isso é pura mitologia. Por exemplo, lemos que a crença apaixonada de Reagan no milagre dos mercados agora está sendo atacada. Atribuiu-se ao ex-presidente o papel de Grande Sacerdote da fé nos mercados. De fato, Reagan foi o presidente mais protecionista da história econômica estadunidense do pós-guerra. Ele aumentou as barreiras protecionistas mais que todos os seus precursores juntos. Convocou o Pentágono a desenvolver projetos para treinar administradores norte-americanos nos métodos avançados de produção japoneses. Ele também operou um dos maiores salvamentos bancários da história norte-americana e conformou um conglomerado baseado no Estado para tratar de revitalizar a indústria de semi-condutores. De fato, ele acreditava em um governo poderoso, de intervenção radical na economia. Quando digo “Reagan” refiro-me a sua administração. O que ele acreditava sobre tudo isso, se é que acreditou em algo, realmente não sabemos e isso não é muito importante.

Há muita mitologia que precisamos desmontar, incluindo aí o que diz a respeito do grande crescimento e da redução da pobreza. Nos próprios Estados Unidos, quando se aplicaram as regras neoliberais, os resultados foram bastante daninhos para a maioria da população. Olhando para além da mitologia, podemos perceber que uma economia capitalista de Estado que, particularmente desde a Segunda Guerra Mundial, dependeu muito fortemente do setor estatal, agora está voltando a depender do Estado para o manejo do sistema financeiro que está desmoronando. Por enquanto, não há sinais de que se produzirá algo parecido com o que ocorreu em 1929.

Então, você não considera que estamos nos encaminhando para uma mudança na ordem mundial?

Chomsky: Bom, há mudanças muito significativas na ordem mundial e esta crise talvez contribua para isso. Mas elas estão aí há algum tempo. Uma das principais mudanças na ordem mundial está sendo vivida agora na América Latina. Costuma-se dizer que a América Latina é o quintal dos EUA e que, há muito tempo, é uma região controlada pelos EUA. Mas isso está mudando. Em meados de setembro tivemos uma ilustração dramática disso.

No dia 15 de setembro, ocorreu uma reunião da Unasul, a União das Nações Sul-americanas, da qual participaram todos os governos sul-americanos, incluindo a Colômbia, atual favorito dos EUA na região. A reunião foi realizada em Santiago, Chile, outro favorito dos EUA. Dela, saiu uma declaração muito contundente de apoio a Evo Morales, da Bolívia, e de rechaço aos setores quase-secessionistas deste país, que contam com o apoio dos Estados Unidos.

Evo Morales respondeu, corretamente, que esta era a primeira vez em 500 anos que a América Latina havia tomado seu destino em suas próprias mãos.

Há uma luta muito significativa na Bolívia. As elites estão se mobilizando pela autonomia e mesmo pela secessão, gerando fortes níveis de violência com a evidente concordância dos EUA. Mas as repúblicas sul-americanas assumiram uma postura firme, em apoio ao governo democrático. A declaração foi lida pela presidente Bachelet, do Chile, uma favorita do Ocidente. Evo Morales respondeu agradecendo aos presidentes pelo apoio e assinalou, corretamente, que esta era a primeira vez em 500 anos que a América Latina havia tomado seu destino em suas próprias mãos, sem a interferência da Europa nem, sobretudo, dos EUA. Esse é um símbolo de mudança muito significativo que está em curso, às vezes chamado de “maré rosada”. Foi tão importante que não foi reportado pela imprensa dos EUA. Há uma frase aqui, outra ali, que registra que algo aconteceu, mas suprimiram totalmente o conteúdo e a importância do que ocorreu.

Isso é parte de um processo de longo prazo, no qual a América do Sul está começando a superar seus enormes problemas internos e também sua subordinação ao Ocidente, principalmente em relação aos Estados Unidos. A América do Sul também está diversificando suas relações com o mundo. O Brasil tem relações cada vez maiores com a África do Sul, a Índia e, particularmente, a China, país cada vez mais envolvido com investimentos e intercâmbios com países latino-americanos. São processos extremamente importantes, que agora estão começando a chegar também na América Central. Honduras, por exemplo, era a clássica república bananeira. Serviu de base para as guerras do terror perpetradas por Reagan na região e subordinou-se totalmente aos EUA. Mas Honduras somou-se recentemente a ALBA, a Alternativa Bolivariana para os Povos da América, proposta pela Venezuela. É um pequeno passo, mas não deixa de ser muito significativos.

Você acha que estas tendências na América do Sul, como Alba, Unasul e os grandes acontecimentos na Venezuela, Bolívia e outros países, podem ser afetados por uma crise econômica da dimensão desta que estamos enfrentando agora?

Chomsky: Bem, esses países serão afetados pela crise mas, no momento, não tanto como estão sendo a Europa e os Estados Unidos. Se olhamos o caso da Bolsa no Brasil, ela caiu muito rapidamente, mas os bancos brasileiros não estão quebrando. Do mesmo modo, na Ásia, as bolsas estão declinando agudamente, mas os governos não estão assumindo o controle dos bancos, como ocorre na Inglaterra, Estados Unidos e boa parte da Europa. Essas regiões, América do Sul e Ásia, de alguma maneira conseguiram se separar das calamidades dos mercados financeiros. O que desatou a crise atual foram os empréstimos subprime para ativos construídos sobre areia, e estes, claro, estão em mãos de estadunidenses e de bancos europeus. O fato de possuir ativos tóxicos baseados em hipotecas os envolveu muito rapidamente nestes acontecimentos. Além disso, os europeus têm suas próprias crises de habitação, particularmente a Inglaterra e a Espanha.

A Ásia e a América Latina ficaram muito menos expostas por terem mantido estratégias de crédito mais cautelosas, particularmente a partir do descalabro neoliberal de 1997-1998. Um grande banco japonês, Mitsubishi UFG, acaba de comprar uma parte substancial do Morgan Stanley, nos EUA. Então, não parece, até agora, que a Ásia e a América Latina serão afetadas tão gravemente como Estados Unidos e Europa.

Você acredita que há uma grande diferença entre Obama e McCain no que diz respeito a temas como o Tratado de Livre Comércio e o Plano Colômbia? Na Colômbia, pode-se sentir que o presidente e seus apoiadores estão assustados frente à eleição de Obama. Sei que você tem a sensação que Obama é como uma folha em branco, mas pensa que ela fará alguma diferença?
Chomsky: Com efeito, Obama tem se apresentado mais ou menos como uma folha em branco. Mas não há motivo para que o governo colombiano se assuste com sua eleição. O Plano Colômbia é uma política de Clinton e há muitas razões para supor que Obama será outro Clinton. Ele é bastante impreciso, a propósito. Mesmo quando explicita políticas, elas se parecem muito a políticas centristas, como Clinton, que modelou o Plano Colômbia e militarizou o conflito.

Tenho, às vezes, a sensação de que os períodos de Bush se deram em um contexto de mudança da ordem mundial, tratando de manter o poder com o uso da força, e que, em troca, Obama pode representar a cara boa para renegociar a ordem mundial. Qual sua opinião sobre isso?

Chomsky: É importante lembrar que o espectro político nos EUA é bastante estreito. É uma sociedade controlada pelas empresas, basicamente, é um Estado de partido único, com duas facções, democratas e republicanos. As facções têm algumas diferenças e estas, às vezes, são significativas. Mas o espectro é bastante estreito. A administração Bush, porém, se situava bastante além do final do espectro, com nacionalistas radicais extremos, crentes extremos no poder do Estado, na violência no exterior e em um alto gasto governamental. De fato, estavam tão fora do espectro que foram criticados duramente inclusive por parte do poder, desde os primeiros tempos.

Seja quem for que assuma o mandato, é provável que desloque o tabuleiro político para o centro do espectro. Obama talvez faça isso em maior medida. Diria que, no caso de Obama, haverá algo como um renascimento dos anos Clinton, adaptado certamente às novas circunstâncias.

Há oportunidades para uma mudança real. Até onde essa mudança pode chegar, isso depende daquilo que estamos dispostos a empreender.

Agora que estamos chegando ao fim da globalização neoliberal, existe a possibilidade de algo realmente novo, uma globalização boa?


Chomsky: Penso que as perspectivas hoje estão muito melhores do que estavam antes. O poder está extraordinariamente concentrado, mas há mudanças a medida que a economia internacional torna-se mais diversificada e complexa. O Sul está se tornando mais independente. Mas, se olhamos para os EUA, mesmo com todo o dano causado por Bush, segue sendo a maior economia homogênea, com o maior mercado interno, a força militar mais forte e tecnologicamente mais avançada, com gastos anuais comparáveis aos do resto do mundo combinados e com um arquipélago de bases militares espalhadas pelo mundo. Estas são fontes de continuidade, mesmo que a ordem neoliberal esteja sofrendo uma erosão dentro dos EUA, na Europa e internacionalmente, com um crescimento da oposição a ela. Então, há oportunidades para uma mudança real. Até onde essa mudança pode chegar, isso depende da gente e daquilo que estamos dispostos a empreender.


Tradução: Katarina Peixoto

sábado, 6 de setembro de 2008

Políticas de Preservação da Memória da Ditadura no Brasil

A professora Joana D'Arc Fernandes Ferraz coordena uma pesquisa na Universidade Federal do Rio de Janeiro sobre Políticas de Preservação da Memória da Ditadura no Brasil

Projeto de Pesquisa 2005 - 2009- descrição:

Estamos vivendo um fenômeno bastante interessante na sociedade brasileira.

No que se refere à memória da ditadura, as pessoas que não viveram ou que ainda eram muito jovens neste período estão manifestando um grande desejo de saber o que aconteceu. Este fenômeno exemplifica-se pelo grande número de filmes sobre esse passado remoto, de biografias e depoimentos nos meios de comunicação.

No entanto, a precária informação sobre este período, produzida pelos institutos oficiais, levaram à produção do esquecimento e do silêncio no lugar da produção da memória.

A maioria dos livros de História não faz uma análise abrangente sobre o tema, tratando-o de modo compartimentado, tais como, o milagre econômico , as grandes obras públicas (transamazônica, Ponte Rio-Niterói entre outras), e as sucessões de generais no poder.

Este também é o momento em que muitos ex-militantes estão conseguindo, embora com muita dor, revelar o que viveram. Dentre as questões que devem ser vistas com mais atento, consideramos as relativas às Políticas de Preservação da Memória da Ditadura.

Essas políticas têm por função dar uma maior visibilidade social à memória do período da ditadura e, conseqüentemente, promover novos debates e novas reflexões sobre o tema na sociedade. Essas políticas de preservação sugerem três objetivos que requerem três encaminhamentos metodológicos distintos, mas que devem ser realizados de forma conexa.

I - O primeiro objetivo refere-se à análise das disputas em torno da memória da ditadura em seus aspectos comemorativos e patrimoniais, especificamente no que se referem às medalhas, às placas, aos monumentos, viadutos, logradouros, praças públicas, nomes de cidades que fazem alusão aos militares que participaram do regime ditatorial e outros que fazem menção aos militantes opositores deste regime.

II A outra política de preservação da memória da ditadura brasileira vincula-se à produção de um catálogo cuidadoso sobre literatura de testemunho. Definimos como literatura.

Assista a entrevista da professora Joana Ferraz e sua interessante abordagem sobre os dois momentos da Ditadura Militar:


quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Em Israel há mais de 11 mil palestinos padecendo nas prisões.

Charge enviada pelo autor Carlos Latuff (clique na imagem para ampliar)

Professora Nurid Peled, da Universidade de Tel Aviv:

"Milhares de israelenses que serviram no Exército têm as mãos manchadas de sangue de palestinos e não foram julgados e nem mesmo interrogados"


A libertação dos 198 prisioneiros palestinos dos calabouços israelenses está gerando polêmica.

“Dois dos prisioneiros libertados têm as mãos manchadas de sangue” proclama a mídia servil.

Leiam a seguir a opinião da professora de Literatura da Universidade de Tel Aviv Nurit Peled Elhanan que perdeu sua filha, Smadar, de 14 anos, em um atentado suicida cometido em Jerusalém em 1997.

“Esse discurso contra libertar prisioneiros com as “mãos manchadas de sangue” é um absurdo".

"Milhares de israelenses que serviram no Exército têm as mãos manchadas de sangue de palestinos e não foram julgados e nem mesmo interrogados", disse.

"Tenho uma amiga palestina, Salwa Aramin, que está em uma situação intolerável", contou. "Sua filha, Abir, de 10 anos, foi morta por um soldado israelense há um ano."

"Abir foi assassinada, com um tiro na cabeça, quando saía da escola, em Anata (Jerusalém Oriental). O soldado nem foi interrogado, a queixa da família foi arquivada", disse.

"No nosso caso, o assassino de Smadar se suicidou, mas no caso de Abir, o assassino continua livre, impune. Tanto nós, as mães israelenses que perderam seus filhos, como as mães palestinas somos vitimas da ocupação."

"Nós, os civis, somos todos vítimas dessa política cínica", afirmou Elhanan.

Em Israel há mais de 11 mil palestinos padecendo nas prisões. Eles não foram presos, mas seqüestrados, já que viviam em Território palestino.

Ninguém sabe qual é o estado de saúde deles. Entre os prisioneiros
há centenas de mulheres, idosos e crianças.

domingo, 24 de agosto de 2008

Arte, tecnologia e solidariedade: Latuff em Gazza



Dia 22 recebi do Carlos Latuff o cartum ao lado, feito para marcar a viagem dos ativistas dos barcos Liberty e Free Gaza que saíram de Chipre em direção à Gaza.

Os ativistas seguem para prestar solidariedade ao povo palestino e levar aparelhos auditivos para as crianças que tiveram sua audição prejudicada devido
ao barulho contínuo de explosões e choques ultra-sônicos causados por caças israelenses que sobrevoam freqüentemente a região.

Hoje, Latuff mandou-me as fotos feitas pelos ativistas na chegada em Raffah.

Nas fotos podemos ver a artista plástica palestina Laila Shaheen e o ativista israelense Jeff Halper com o cartum feito por Latuff.




Essa junção da arte a serviço da solidariedade entre os povos em tempo real só é possível com a tecnologia.


Bacana quando a tecnologia é usada para a paz e as ações solidárias, maravilhoso quando a arte não está alheia à vida.

Viva o Latuff, viva a Laila e o Halper, viva o povo palestino e a solidariedade de brasileiros e israelenses.


Veja também no site oficial de libertação de Gaza: Free Gaza

Conheça mais sobre este cartunista brasileiro clicando aqui

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Direitos humanos
(Da BBC- Brasil)

Ativistas tentam romper bloqueio à Gaza de barco

Quarenta e seis ativistas de direitos humanos, de 18 países, saíram nesta sexta-feira do Chipre, a bordo de dois barcos, em direção à Faixa de Gaza, com a intenção de romper o bloqueio decretado por Israel há mais de um ano.

Os ativistas, que estão nos barcos Free Gaza e Liberty e fazem parte do Movimento pela Libertação de Gaza, planejam chegar à Faixa de Gaza na tarde de sábado.

Em entrevista à BBC Brasil, o ativista israelense Jeff Halper disse que a viagem "não tem fins humanitários, mas sim objetivos políticos".

"Nossos barcos não estão levando alimentos ou medicamentos, mas sim ativistas de 18 países que protestam contra o cerco decretado à população da Faixa de Gaza há mais de um ano", disse Halper uma hora depois que os barcos tinham saído de Chipre e ainda estavam nas águas territoriais da ilha.

De acordo com Halper, que é professor de Antropologia da Universidade de Jerusalém e fundador do Comitê Israelense contra a Destruição de Casas, a viagem do Chipre até a Faixa de Gaza deverá durar cerca de 30 horas.

Bloqueio israelense

"Esses barcos são bastante primitivos e não muito rápidos, mas acredito, que, se tudo der certo, chegaremos à Faixa de Gaza na tarde de sábado", afirmou.

Halper disse à BBC Brasil que a única coisa que os ativistas estão levando para Gaza são aparelhos de audição para crianças.

"Nossos amigos de Gaza nos pediram para trazer 9 mil aparelhos de audição para crianças, mas conseguimos trazer apenas 2 mil", disse Halper.

"Na Faixa de Gaza existe um problema sério, muitas crianças ficaram surdas em decorrência do barulho contínuo de explosões e choques ultra-sônicos causados por caças israelenses que sobrevoam freqüentemente a região", afirmou.

Halper também disse que não acredita que o Exército israelense vá permitir a entrada dos ativistas em Gaza.

"Tenho certeza de que Israel vai impedir a nossa entrada na Faixa de Gaza", disse, "mas acho que, do ponto de vista da lei internacional, não tem o direito de fazê-lo".

"Eles podem revistar nossos barcos e procurar armas, que obviamente não vão achar, mas não podem nos impedir de entrar na região".

"Se impedirem, vai ficar claro que o bloqueio imposto por Israel à Faixa de Gaza não é apenas militar, mas sim civil", concluiu Halper.

Resistência

Halper afirmou que, caso as tropas israelenses tentem prender os ativistas, eles vão "resistir de maneira passiva".

"A vantagem de uma ação não-violenta é que de qualquer maneira se ganha. Se conseguirmos quebrar o cerco, ganharemos e mesmo se formos presos ganharemos, pois estaremos expondo a cara da ocupação e o fato de que Israel ainda está ocupando Gaza", concluiu o ativista.

Entre os participantes do protesto também se encontra a israelense Hedy Epstein, de 84 anos, Lauren Booth, que é parente de Cherie, esposa de Tony Blair, o escritor americano Ramzi Kysia e a jornalista americana Yvonne Ridley.

Os ativistas são dos Estados Unidos, Alemanha, Grécia, Israel, Territórios Palestinos e outros países.

O Movimento pela Libertação de Gaza obteve o apoio de Jimmy Carter e de Desmond Tutu.

Para mais notícias, visite o site da BBC Brasil

Ativistas chegam a Gaza e dizem ter 'rompido cerco'
Guila Flint
De Tel Aviv para a BBC Brasil



Barco
Ativistas chegaram a Gaza depois de viajar 32 horas desde o Chipre
Dois barcos transportando 46 ativistas de direitos humanos, que saíram na sexta feira do Chipre, foram recebidos por milhares de pessoas neste sábado na Faixa de Gaza.

O acesso dos barcos Liberty e Free Gaza não foi impedido pelas tropas isralenses, que impõem um bloqueio à região há 14 meses.

As autoridades israelenses, que haviam advertido os ativistas contra a viagem à Faixa de Gaza, optaram por não impedir a passagem dos barcos.

De acordo com o porta voz do ministério das Relações Exteriores de Israel, Aviv Shiron, o governo decidiu evitar qualquer contato entre os barcos da Marinha israelense e os barcos dos ativistas.

“Nós sabemos o que há nos barcos e quem são os passageiros, portanto decidimos não impedir sua entrada”, afirmou o porta-voz.

Pane eletrônica

O Liberty e o Free Gaza saíram do Chipre na manhã da sexta-feira, com o objetivo de romper simbolicamente o bloqueio imposto por Israel desde que o Hamas tomou o controle da Faixa de Gaza, em junho de 2007.

A viagem durou cerca de 32 horas. Na manhã deste sábado, todos os sistemas eletrônicos dos dois barcos, tanto de comunicação como de navegação, teriam entrado em colapso.

Os ativistas a bordo enviaram uma mensagem de emergência, por um telefone por satélite, dizendo terem sido "vítimas de sabotagem eletrônica".

Os barcos teriam ficado incomunicáveis por 5 horas e sofrido problemas com o sistema de navegação.

A porta-voz do movimento, Angela Godfrey-Goldstein, culpou as autoridades israelenses pela pane nos sistemas dos barcos.

"Nessas circunstâncias, a própria vida dos ativistas a bordo ficou seriamente ameaçada", disse Goldstein à BBC Brasil.

No entanto, o Exército israelense negou qualquer envolvimento no episódio.

'Objetivo político'

Os ativistas a bordo, pertencentes ao movimento Liberdade para Gaza, são de 17 países diferentes, entre eles Estados Unidos, Grã Bretanha, Alemanha, Grécia, Israel e Territórios Palestinos.

O ativista israelense, Jeff Halper, disse nesta sexta-feira à BBC Brasil que o objetivo da viagem “não é humanitário, mas sim político”.

“Não estamos levando alimentos ou medicamentos, mas ativistas de direitos humanos que querem protestar contra o cerco imposto à população de Gaza há mais de um ano”, disse Halper.

Segundo Paul Larudee, que é um dos fundadores do movimento, se trata de “uma luta por um direito humano básico, o direito dos palestinos de ir e vir, de sair e entrar na Faixa de Gaza”.

Godfrey-Goldstein disse neste sábado que “agora o governo israelense deve ficar ciente que sim, o mundo se importa, a sociedade civil tem uma voz e esta voz está dizendo ‘não’.”

'Prisão chamada Gaza'

“Os seres humanos têm direitos que são sagrados, e as pessoas estão dispostas a defendê-los, onde quer que estejam, até na prisão chamada Gaza”, afirmou Goldstein.

Vinte barcos de pescadores palestinos que tinham tentado sair para receber o Liberty e o Free Gaza no mar, tiveram que retornar, depois que navios da Marinha israelense dispararam tiros de advertência.

O líder do Hamas na Faixa de Gaza, Ismail Hania, expressou satisfação com a chegada dos barcos e chamou “mais ativistas a virem protestar contra o bloqueio injusto imposto à população da Faixa de Gaza”.

De acordo com a Agência de Refugiados das Nações Unidas, a população da Faixa de Gaza, de cerca de 1,5 milhão de habitantes, sofre falta de produtos básicos, inclusive alimentos, medicamentos e combustíveis.