| Por Gilson Caroni Filho em 23/2/2009 no Observatório da Imprensa Faltando três dias para o início do carnaval, a Folha de S. Paulo inverteu o rito de inversão. Tirou a fantasia de "fiscal republicana", longamente confeccionada ao longo dos anos 1980, e partiu para o desfile sem disfarces, disposta a contar suas origens, histórias e personagens. Com o editorial (ou seria um samba-enredo?) "Limites a Chávez" (17/2/2009), o jornal acompanha o pensamento do ex-publisher Octávio Frias de Oliveira (1912-2007), mostra o inconformismo com a nova institucionalidade latino-americana e reverencia os generais-presidentes da ditadura com quem manteve laços estreitos. Dessa vez, os carnavalescos da Barão de Limeira deixaram claro que o apreço pela democracia tem limites. E eles são bem mais estreitos do que supunham os otimistas. Ecoando o sentimento da grande imprensa latino-americana, o editorial deplora mais uma vitória do presidente venezuelano em eleições internas e afirma que "o rolo compressor do bonapartismo chavista destruiu mais um pilar do sistema de pesos e contrapesos que caracteriza a democracia. Na Venezuela, os governantes, a começar do presidente da República, estão autorizados a concorrer a quantas reeleições seguidas desejarem.". É um raciocínio tortuoso esse. É como se, uma vez desenhada a tela institucional das elites, o regime político aceitável só pudesse existir como moldura para uma realidade pretérita. Não é apenas contra Chávez que a Folha se volta, mas contra qualquer possibilidade de incorporações de novos atores sociais à política. Algo fundamental quando o que se objetiva é dar maior densidade à democracia. Reinventar o ordenamento jurídico-político, respeitando os procedimentos constitucionais, é coisa recente na América Latina. Os termos, bem como as idéias, estão fora do lugar. Empregam-se categorias como caudilhismo, bonapartismo e até mesmo ditador, fora de contexto histórico preciso, sem qualquer rigor conceitual. É o caso de indagarmos se a Venezuela bolivariana não dispõe de um Estado com organização flexível que, assegurando a vontade popular, preserve igualdade de possibilidades e liberdade? Talvez, ali, verifique-se, em plenitude, a idéia do Estado democrático como transformador da realidade. E é precisamente isso que deve ser exorcizado pelos editorialistas de plantão: a concepção de que a democracia implica um Estado fomentador da participação pública. Os membros do conselho editorial da Folha sabem da inexistência de presos políticos em Caracas. Não têm notícias de perseguição e assassinatos de lideranças da oposição. Não ignoram a presença de uma forte mídia privada que continua defendendo os interesses das elites banidas do poder pelas urnas, mas batem na mesma tecla do "autoritarismo chavista". O que chamam de antidemocrático, no final das contas, é o emprego da ordem legal como instrumento de reestruturação social. Como parte integrante das classes dominantes, os conglomerados privados na área de comunicação, e seus prestimosos funcionários, não têm qualquer pudor em manejar torneios verbais de ocultamento e prestidigitação da realidade. Alinhamento com a repressão Voltemos ao editorial. O trecho em destaque vai além de um canhestro exercício de política comparada. Revela motivações bem mais profundas e significativas. "Mas, se as chamadas `ditabrandas´ - caso do Brasil entre 1964 e 1985 - partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso". Ao comparar o movimento político liderado por Chávez com a ditadura militar brasileira, a Folha não incorre em equívoco de um "articulista desavisado". Assume editorialmente a defesa dos golpistas de Pindorama. O neologismo "ditabranda" é usado pelos filhos de quem nunca negou apoio ao terrorismo de Estado. Pelo contrário, o empréstimo de peruas C-14 do jornal para transporte de presos mostra total alinhamento dos Frias com centros de torturas e seus comandantes mais conhecidos. Em 1969, com o lançamento da Operação Bandeirantes (OBAN), antecedente dos DOI-Codi, a estrutura de terror estava praticamente montada. Financiada por setores do grande empresariado, a OBAN tinha a tarefa, definida após anos de discussão, em órgãos como a Escola Superior de Guerra, de centralizar toda a operação repressiva do Estado. Não lhe faltou apoio logístico da Folha da Tarde. A "ditabranda" teve duas constituições e não respeitou nenhuma delas. O que prevalecia era uma lógica militar que devia obediência aos regulamentos internos de quartéis e aos altos comandantes do regime. Suas "ditabrandas" formas de convencimento incluíam torturas de vários tipos: espancamentos, telefones (tapas simultâneos nos dois ouvidos), corredor polonês (fila dupla de espancadores), pau-de-arara, choque elétrico, afogamentos, entre tantas outras "técnicas". Em documento publicado pelo Congresso Nacional, conforme registrou a revista Retrato do Brasil, em 1984, havia uma "Relação parcial sobre brasileiros mortos após 64", dando conta de 197 casos até 1979, 147 dos quais só no período Médici, exatamente quando a Folha mais colaborou com o regime. Quantos mortos e torturados foram transportados por suas "ditabrandas" peruas? Ditadômetro covarde Como os carros alegóricos já estavam na rua, os leitores que questionaram o editorial conheceram a ira do carnavalesco. O enredo de vilezas não acabou no editorial. A ele sobreveio a ridícula "Nota da Redação" de 19/2, com o "ditadômetro"; seguida da torpe e covarde, porque oculta no anonimato da "Redação", agressão a Maria Victoria Benevides e Fábio Konder Comparato. Com a ligeireza dos passistas de porões, a Folha se justifica com a mesma explicação dada ao personagem Anna de la Mesa, no magistral filme de Julie Gavras: A culpa é de Fidel. E não se fala mais nisso. Ver José Serra na presidência foi um sonho não realizado pelo patriarca da família Frias. Seus filhos não poupam esforços para realizá-lo. Seria interessante saber o que pensa de tudo isso o atual governador de São Paulo. Afinal, ele foi presidente da UNE, militou na Ação Popular (AP) e, com o golpe militar, viveu no exílio até 1978. Tido por muitos como um quadro "progressista" do PSDB, deveria tecer alguma consideração sobre a "ditabranda" do jornal que o apóia. No mínimo esclareceria o que vem a ser a "progressividade do tucanato". |
Bem-vindo/a ao blog da coleção de História nota 10 no PNLD-2008 e Prêmio Jabuti 2008.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
LEITURAS DA FOLHA: A "ditabranda" e a culpa de Fidel
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
De braços dados com a ditadura militar
O jornal O Globo está publicando uma série de reportagens sobre a contribuição civil à ditadura militar. Como forma de contribuir com a pesquisa do jornal, ofereço uma modesta ajuda.
Gilson Caroni Filho
No momento em que o Globo dá início à série de reportagens sobre a contribuição civil à ditadura, aguardo ansiosamente que apareçam os nomes dos donos da Organização e dos editores no período. Como diz a jornalista Marinilda Carvalho, ex-editora do Observatório da Imprensa, "vou esperar para ver a fotografia do Dotô Roberto bem grande na primeira página! Afinal, Roberto Marinho foi um dos maiores colaboradores! Sua TV e seu jornal prestaram inestimáveis serviços aos nossos gorilas, tanto financeiros quanto midiáticos!”.
Assim, como forma de contribuir com a pesquisa do jornal, ofereço minha modesta ajuda republicando, na Carta Maior, artigo que escrevi para o Observatório, em agosto de 2003, em meio às homenagens póstumas prestadas ao empresário . Creio que será de alguma valia para os que se interessam por um empreendimento que objetiva recontar a história, ocultando o papel desempenhado nela. Eis o texto, revisado em alguns pontos, em nome da atualização.
Epifania editorial
Terra revolvida, consciências entorpecidas e biografia reinventada. É próprio do rito agir sobre a realidade intervindo na representação que as pessoas fazem dela. A isso se chama eficácia simbólica. Capacidade de reescrever a história, muitas vezes ao preço de falsificá-la com a anuência de seus, outrora, críticos severos. Esmaecidos os princípios e calados os dissensos, os poderosos nunca morrem sós. Levam com eles o silêncio dos que se diziam inocentes.
Homenagens póstumas tanto mais revelam quanto maior a absolvição pretendida. Os panegíricos pedem mais que um minuto de silêncio. Solicitam, com maior ou menor intensidade, a troca de sinais e a inversão de discursos. A fabricação do consenso precisa que a razão adormeça e as contradições se esfumem. A memória deve se reinventar para dar seu "fiel" testemunho ao novo sentido que as estruturas de poder solicitam.
A morte do presidente das Organizações Globo, o jornalista e empresário Roberto Marinho, produziu manifestações de pesar por demais emblemáticas para serem ignoradas. De antigos aliados a opositores ferrenhos ouvimos e/ou lemos declarações entusiásticas sobre o cidadão, o companheiro e o empreendedor. Não pretendo, ao longo desse pequeno artigo, analisar as intenções que moveram os gestos. Seria tão inútil quanto presunçoso. Mas se alguma lição há que se extrair desse episódio, ela não poderá ignorar um ponto fulcral: ao morrer, Roberto Marinho mostrou os acertos das apostas que fez em vida. E isso, per si, explicaria sua longevidade como figura central do cenário político brasileiro.
Apostou no poder das estruturas oligárquicas e acertou na mosca. Jogou todas as fichas em forças sociais que perpetuariam o atraso e raspou a mesa. Foi, em nome da expansão de seu império, parceiro de regimes que suprimiram liberdades civis e acentuaram a exclusão social. Desde jovem soube, como bom jogador de pôquer, que parcela expressiva da intelectualidade que lhe criticava era facilmente cooptável. A retórica cidadã não resistiria a pequenos favores. Não precisou ler Gramsci para ter perfeita noção do que significa transformismo. E, como senhor do cassino, foi avalista de diversas transições pelo alto, de modernizações conservadoras e desconstruções de projetos nacionais. Por tudo isso, foi um vencedor.
Em texto laudatório, o jornal O Globo, na edição de 8 de agosto, registra sua trajetória política:
"Foi o seu modo de exercer o poder. Ficou com Getúlio Vargas em 1930, contra os comunistas em 1935, contra os integralistas logo depois, contra Getúlio quando da redemocratização ao fim da guerra. Em 1964, apoiou o movimento militar, em sua opinião o caminho para preservar as "instituições democráticas ameaçadas pela radicalização ideológica" dos últimos meses do governo Jango. Foi um gesto de fidelidade aos "tenentes e bacharéis", ao lado de quem estava desde 1930".
Ora, esse curto relato anula as intenções dos que pretendem descrevê-lo como "liberal por temperamento", "democrata por natureza" e "empreendedor por vocação".
Deu sustentação simbólica a distintos blocos de poder em troca do atendimento de suas demandas empresariais. A inegável capacidade de se antecipar ao momento histórico é o que explica o parágrafo acima. Reconheceu com sagacidade o caráter conservador do tenentismo e a ele aderiu quando percebeu a revolução passiva que se delineava.
Independentemente de algum desentendimento com censores, não negou ao Estado Novo o apoio de seu veículo. Rompeu com Getúlio e apoiou o golpe de 45, quando pressentiu que, ao caudilho, não restava outra opção a não ser ampliar a institucionalidade a setores até então excluídos. Décadas depois, conspirou contra a legalidade e se tornou o esteio simbólico da ditadura militar, implantada em 64.
Exaltando as virtudes de um modelo econômico calcado no excessivo endividamento externo, fez ouvidos moucos aos gritos dos torturados nos porões. Como principal capitão da indústria editorial, legitimou a censura e pouco, ou quase nada, falou sobre o extermínio de opositores de um regime do qual era parte constitutiva. Se houve uma ou outra escaramuça pouco importa, o certo é que o "democrata por natureza" assistiu impávido à supressão de liberdades civis e ao desfiguramento das instituições republicanas. Deixou claro, ao contrário do que supõem as consciências ingênuas, que não existe simbiose entre democracia e grande imprensa.
O "liberal por temperamento" sempre contou com as benesses estatais para isenções de impostos, favorecimentos fiscais, cambiais e fornecimento de papel. E o "empreendedor por vocação" soube jogar com a conivência dos poderes instituídos, para dar vazão à sua chama de "empresário "schumpeteriano". A associação, ao arrepio de dispositivos constitucionais, com o Grupo Time-Life já faz parte da história da televisão brasileira. E é apenas uma pequena amostra de como se constrói um monopólio. De como se moderniza a mídia ao custo da concentração da informação. Nesse ponto, qualquer analogia com a estrutura fundiária não só é permitida, como desejável.
Retorno que assusta
Esgotado o ciclo militar, o "democrata por natureza" manteve-se na linha de frente dos interesses das classes dominantes. Censurando as manifestações por eleições diretas, celebrando o Colégio Eleitoral que acabaria por levar Sarney ao poder e , no curso de adesão ao projeto neoliberal, apoiando Collor (defenestrado por um acordo intra-elites) e Fernando Henrique.
Roberto Marinho sabia que os movimentos sociais dependem das representações construídas a seu respeito na mídia. Não poupou esforços para sua demonização. O movimento sindical do fim dos anos 70 e o MST, mais recentemente, eram manifestações indesejáveis. Deveriam ser apresentados como disfunções que precisam ser exterminadas para o desejável funcionamento da ordem. Nesse ponto, o restante da mídia lhe seguiu como modelo.
Como sabemos a cultura política de uma formação social – conjunto de significados e valores que constrói o sentido de comunidade política – também resulta da interpretação midiática sobre fatos e comportamentos. Se é assim, não há como olvidar que a contribuição do agora festejado "companheiro-jornalista-empresário" para a prática política brasileira foi deplorável. Sua conivência, em tempos distintos, com a tortura, a exclusão e o patrimonialismo é, em grande parte, responsável por nosso atraso político-institucional.
Por tudo isso soam estranhas declarações como as que abaixo reproduzo:
Antonio Palocci, na época, ministro da Fazenda: "Foi o doutor Roberto Marinho fundamental na construção da democracia brasileira e no fortalecimento e estabilidade do sistema democrático nacional. O Brasil perde, mas devemos aplaudir o exemplo dado por ele."
Miro Teixeira, ex-ministro das Comunicações: "Do amigo ficará a saudade. Do brasileiro o exemplo e a história".
José Genoino, então presidente nacional do PT : "Doutor Roberto é um homem que faz parte da História do Brasil. Viveu os momentos mais importantes do país. Teve uma vida longa e frutífera. E agora descansa em paz."
Márcio Thomaz Bastos, ex-ministro da Justiça: "Roberto Marinho marca uma época de renovação e consolidação do jornalismo e da grande imprensa brasileira."
Pela estatura moral dos atores, não acho cabível falar em transformismo. Mas, por força da eficácia simbólica citada no início do artigo, julgo não ser improcedente afirmar que, vivo, Roberto Marinho foi corretamente associado ao reacionarismo de nossas elites. Morto, retorna como epifania democrática. E, convenhamos, isso assusta.”
Alguma dúvida que, passados cinco anos, continua assustando?
Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Observatório da Imprensa.

