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sábado, 3 de janeiro de 2009

Impactos da Revolução Verde

Fonte: Rádio Agência Notícias do Planalto

O processo de agroecologia, ou seja, da prática de uma agricultura sustentável, sem transgênicos ou agrotóxicos, nasceu de um enfrentamento ao projeto do capitalismo para a agricultura: a chamada Revolução Verde, composta por elementos como o agronegócio, a monocultura, a produção para exportação, a exclusão social, a busca incessante por lucro, as transnacionais. O termo Revolução Verde surge no período em que os países vencedores da 2º Guerra Mundial, na década de 40, e as grandes indústrias de armamento buscaram alternativas para manter os grandes lucros obtidos no período de conflito.

Image Encontraram na agricultura uma maneira de empregar todos os serviços tecnológicos desenvolvidos na guerra para manter a atuação no mercado. As empresas da alimentação iniciaram o plano de atender aos interesses de grupos capitalistas com a produção voltada para o mercado externo e com o uso intensivo de insumos industriais. Com a Revolução Verde passou-se a aplicar na agricultura o conjunto de produtos utilizados nas guerras. Os materiais de explosivos, por exemplo, transformaram-se em adubos sintéticos e nitrogenados. Os gases mortais, em agrotóxicos; e tanques de guerra, em tratores.

Todo o processo da Revolução Verde atendeu a interesses mercadológicos específicos que colocaram a preocupação com o meio ambiente em terceiro plano. De acordo com o agrônomo do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Vladimir Moreira, os métodos aplicados pela agricultura convencional são insustentáveis. Image

“A Revolução Verde foi criada para favorecer um segmento da sociedade que é o latifúndio. Em contrapartida este latifúndio não consegue enxergar que, na verdade, ele é só mais um meio de manobra para as transnacionais. Porque se você olhar o cenário da agricultura mundial e brasileira, os latifundiários não estão conseguindo sustentar o meio de produção em que eles vivem. A agricultura convencional está em declínio. Principalmente na questão de produção e ambiental.”

A Revolução Verde pode ser dividida em três fases. A primeira foi a implantação deste modelo de produção nos países chamados do Terceiro Mundo como México, Brasil e Filipinas. A segunda etapa foi o momento de expansão das técnicas utilizadas pelas empresas, que foram levadas para o resto do mundo como uma agricultura massificada. Na terceira, a que vivemos hoje, em que as grandes empresas do ramo da biotecnologia e da nanotecnologia passaram a desenvolver experimentos tecnológicos com a utilização do material biológico de plantas e animais, ou seja, os organismos geneticamente modificados, ou simplesmente, transgênicos. A terceira fase da Revolução Verde consolida um modelo de produção que gera maior desigualdade no interior dos países, marcada pelos latifúndios, pelos monocultivos e pelo uso de insumos químicos. E as empresas do ramo de agrotóxicos e transgênicos aprofundam um modelo econômico e tecnológico de exploração baseado na destruição ambiental, no desperdício de energia e na expulsão de milhares de agricultores do campo.

Mas uma das maiores empresas de biotecnologia, a Monsanto, que é dos Estados Unidos, garantiu à Radioagência NP por meio de sua assessoria de imprensa, que “a biotecnologia preza a agricultura sustentável na medida em que desenvolve tecnologias que buscam causar o menor impacto possível ao meio ambiente, redução do uso de inseticidas”, da não degradação do solo e manutenção da biodiversidade. O Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB), uma organização sem fins lucrativos formada por empresas da biotecnologia, afirma que o uso desta tecnologia reduz os insumos e aumenta a produtividade. É o que explica a diretora-executiva do Conselho, Alda Lerayer.

"Há uma vantagem na redução de custos de produção para o agricultor, porque ele usa menos agroquímicos, ele vai menos ao campo, usa menos o trator, conseqüentemente usa menos combustível com o trator. E é uma tecnologia mais limpa para o meio ambiente justamente porque você reduz a emissão de gases, reduz a quantidade de produto químico e também o risco de contaminação dos agricultores, dos trabalhadores rurais.”

Image No entanto, os agricultores e agrônomos que defendem a prática agroecológica discordam dessa teoria argumentada pelas empresas de biotecnologia. Segundo Maria Rita Reis, assessora jurídica da Organização Não-Governamental Terra de Direitos, as promessas dos transgênicos não se concretizaram na prática.

"A indústria de biotecnologia é mestra em fazer falsas promessas. Especificamente em relação aos transgênicos, a primeira grande falsa promessa foi de que seriam desenvolvidos alimentos transgênicos mais nutritivos. Se a gente for ver hoje, as sementes transgênicas desenvolvidas são desenvolvidas para atender aos interesses da própria indústria de biotecnologia. Geralmente os transgênicos ou são resistentes a herbicidas, ou são inseticidas, para combinar com o pacote tecnológico das empresas, e assim aprofundarem a dependência dos agricultores com relação à esta indústria, aprofundando também as conseqüências da Revolução Verde. Em relação à produtividade foi outra promessa não cumprida. Hoje em dia há estudos inclusive da Embrapa que indicam que a produtividade da soja convencional é superior à da soja transgênica. Em relação aos outros cultivos também.”

Os protagonistas do modelo de agricultura ao longo do desenvolvimento da Revolução Verde foram se modificando com o passar do tempo, como explica Valdermar Arl, da Associação para o Desenvolvimento da Agroecologia .

“No passado, quem plantou este modelo no Brasil, na década de 60/70, quem mais protagonizou isso foi o governo, junto com as empresas multinacionais e criou todo um arsenal. Agora o Estado está sendo sucateado, o Estado mínimo. Quem é o protagonista hoje deste modelo da Revolução Verde? A iniciativa privada, as multinacionais. Monsanto, Syngenta e outras mais. Quem na verdade protagoniza hoje, quem dita o desenvolvimento no campo são as empresas multinacionais.”

Entre as maiores empresas transnacionais da agricultura, desde a indústria de alimentação até a produção de inseticidas e defensivos, estão a Monsanto, Cargill, Bunge, Syngenta, Bayer e Basf e outras tantas que acabam impondo regras de produção que valorizam o modelo convencional de agricultura. Com o cruzamento de espécies, as empresas registram a patente do novo produto e lucram bastante com os royalties, que são as taxas cobradas aos agricultores pelo uso destas sementes patenteadas.

E hoje, pode-se dizer que um dos maiores desafios dos movimentos sociais e das entidades ambientalistas neste debate é a resistência às imposições das transnacionais na área da biotecnologia. E uma das formas de enfrentamento é a reivindicação da reforma agrária, como explica Vladimir Moreira, agrônomo do MST.

Image "A reforma agrária não busca somente uma agricultura limpa, mas também um enfrentamento a re-inserção do homem que foi excluído por esta mesma agricultura e pela revolução verde. Então a RA é um dos meios que se tem para que se consiga fazer o enfrentamento com as transnacionais, com os países que tentam fazer a dominação do camponês. E tem que ter cuidado com a palavra orgânico, o orgânico pode prover também do latifúndio orgânico que trás a mesma exclusão do que um latifúndio convencional. Então a RA é um viés contrário do que se busca hoje na agricultura convencional.”

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Agronegócio: dois olhares para o mesmo conceito

O alerta dos camponeses contra o agronegócio


1 – AGRONEGÓCIO não significa apenas uma operação comercial com produtos agrícolas, como diz o dicionário e como alguns articulistas da imprensa corporativa querem usar. No Brasil, esse é um modelo específico de organizar a produção e o comércio na agricultura e que se transformou numa categoria socioeconômica.

Ele representa a aliança que se produziu a partir do neoliberalismo entre os grandes proprietários de terra com as empresas estrangeiras. Essas grandes transnacionais, como Monsanto, Bunge, Cargill, ADM, Syngenta, Bayer, Basf, Dreyfus, Unilever, Nestlé e Danone, dominam todo o comércio mundial e os preços dos insumos e dos produtos agrícolas.

Esse modelo impõe o monocultivo especializado com uma só planta em grandes extensões de terra. E, para se viabilizar, precisa de mecanização intensiva, muito veneno agrícola (os agrotóxicos) e pouca mão-de-obra. Basicamente toda a produção é voltada para o comércio exterior. Exportam a maior parte da soja, milho, algodão, café, açúcar, etanol e laranja que fabricam. Tudo isso financiado com dinheiro público, com juros subsidiados.

E, apesar de estarem ganhando muito dinheiro, o governo renegociou com os grandes ruralistas uma dívida de R$ 75 bilhões, por 20 anos! Além disso, desde os tempos do governo de FHC, foi aprovada a Lei Kandir, que isenta de ICMS todas as exportações de matérias-primas agrícolas e minerais. Ou seja, o agronegócio não paga nada de imposto nas exportações. Isso representa um grande subsídio. Então, alguém precisa avisar o Lula, quando reclama dos benefícios agrícolas dados pelos governos dos Estados Unidos e Europa aos seus fazendeiros, que aqui no Brasil o subsídio em termos percentuais é até maior.

O fato é que o Brasil está virando uma nova colônia dos capitalistas estrangeiros, que querem apenas nossa natureza para produzir o que eles precisam e enriquecer ainda mais. E nós ficamos com a degradação do meio ambiente, com a transferência da água, que vai dentro dos produtos, com a destruição da biodiversidade imposta pela monocultura e com os alimentos contaminados, que geram muitas enfermidades para a população.

Por isso, as elites se protegem comendo apenas produtos orgânicos, cada vez mais caros nas gôndolas de supermercados. Enquanto isso, o povo fica com o desemprego, a pobreza e o êxodo rural, que expulsa a mão-de-obra do campo para as favelas da cidade.

Portanto, o agronegócio só interessa às empresas estrangeiras e aos grandes proprietários – que, aliás, vivem nas cidades sem trabalhar – e não ao povo brasileiro, que apenas paga a conta.

2 – Mas há alternativas. É possível produzir em larga escala, com técnicas da agroecologia, que protegem o meio ambiente e garantem a biodiversidade através da policultura e da combinação de plantas. É possível e necessário produzir alimentos saudáveis e baratos.

Essa alternativa significa organizar a produção agrícola na forma de pequenas e médias unidades, com mão-de-obra familiar e na forma camponesa, combinando essa produção com agroindústrias cooperativadas e fixando a juventude e as pessoas no meio rural. Ou seja, é possível produzir muito mais alimentos, em vez de etanol e eucalipto, e com menos recursos. A grande propriedade usa muito mais crédito, e de maneira irresponsável, do que os agricultores familiares.

Por isso, na primeira quinzena desse mês, em todo o Brasil, os trabalhadores rurais da Via Campesina estão se mobilizando para denunciar o modelo do agronegócio. Para que o povo da cidade saiba que está comendo alimentos envenenados e pagando a conta. Para que o povo saiba qual o motivo do preço dos alimentos terem aumentado. A sociedade precisa saber por que o clima anda cada vez mais descontrolado. Por que falta água em tantas regiões do país e por que há aquecimento global, enquanto meia dúzia de empresas estão acumulando muito dinheiro.

Por tudo isso, os camponeses se mobilizaram em locais símbolos do agronegócio, como as sedes das grandes empresas – campeãs na multiplicação de sementes transgênicas, no monocultivo de eucalipto de exportação –, nos portos e ferrovias utilizados para exportação de nossas riquezas.

por peruano — Última modificação 26/06/2008 22:29


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Em defesa da agricultura familiar

Miguel do Rosário

A agricultura familiar é responsável por 70% da produção de alimentos no país e representa a esmagadora maioria numérica dos produtores. Não temos "pouquíssimos" nesta situação.

Temos milhões de pequenos agricultores no país, e sua situação melhorou muito nos últimos anos. No Espírito Santo, por exemplo, 95% das propriedades são pequenas. Estive lá recentemente, no norte, para fazer uma reportagem, e verifiquei, in loco, que os pequenos estavam conseguindo produtividade recorde, mais que os grandes: em primeiro lugar por sua bravura e talento pessoais, e depois pela maior disponibilidade de recursos do Banco do Brasil e maior assistência técnica - no caso, por extensionistas do governo estadual do ES, através do Incaper.

O Brasil tem uma produção agrícola muito superior e mais variada que a Argentina. O plano federal em prol da agricultura familiar prevê aumento de verbas e de assistência técnica. Os número de extensionistas subirá de 20 mil para 30 mil.

Reforma agrária não é distribuir terra. Isso é uma grande bobagem. Reforma agrária é possuir uma política agrária inteligente.

Não há deslumbramento com o agronegócio empresarial. Há sim, por parte de segmentos esquerdistas, um preconceito irracional contra o agronegócio, que responde por quase 40% das exportações nacionais e gera milhões de empregos.

A maioria dos empresários agrícolas são de médio porte, que trabalham muito, pagam os trabalhadores de acordo com a lei e contribuem decisivamente para o desenvolvimento do país.

A desapropriação de terras, que é o que muita gente entende como sendo a única verdadeira reforma agrária, depende da Justiça brasileira e de entendimentos no Congresso Nacional, fatores que fogem totalmente ao controle do governo. O mais importante é que as desapropriações e a legalização dos assentamentos sejam feitas com qualidade. O FHC legalizou alguns assentamentos mas não deu condições para a viabilidade econômica dos mesmos.

Por fim, não estou seguro de que a Cristina (a quem admiro e apoio) tomou a melhor decisão em taxar as exportações de soja e milho. Entendo que isso não tem nada a ver com guerra contra o latifúndio e sim forma de aumentar a receita do Estado e, talvez, desestimular o plantio desses produtores, em prol de maior investimento em trigo, por exemplo. Mas acho uma medida repressiva contra-producente que, além de antipática politicamente, pode desacelerar os investimentos produtivos no país, num momento em que o mundo precisa produzir mais alimentos - e soja, ao cabo, é um produto fundamental para a produção alimentar, visto que é a base principal das rações para aves, suínos e bovinos, etc.

Quanto à estrangeirização (compra de terras por estrangeiros no Brasil), o governo agora está iniciando medidas bastante severas para evitar distorções, mas não devemos cair em xenofobia barata. Investimento estrangeiro produtivo sempre é bem vindo, porque paga imposto aqui, gera emprego aqui e produz alimento aqui.

Por fim, a produção de soja e cana exigem unidades grandes de produção. Não se pode confundir, porém, grandes unidades de produção com latifúndios improdutivos. O inimigo é o latifúndio IMPRODUTIVO, as terras degradadas, a pecuária indecentemente extensiva.

Os fazendeiros não são os adversários da reforma agrária. São seus maiores aliados. A reforma agrária tem que ser feita para beneficiar os fazendeiros, e o imaginário esquerdista contra o fazendeiro é totalmente reacionário.

Um fazendeiro ganha menos dinheiro que jogador de futebol ou celebridade, tem mais riscos, trabalha mais, e tem uma importância vital para o país. A lógica da agricultura é diferente do trabalho urbano, onde o sujeito ganha seu dinheiro mensalmente, tem garantias trabalhistas, não se arrisca. Um produtor agrícola ganha muito hoje e perde muito no ano seguinte. Vive numa tensão constante se vai chover na época da floração. As chuvas não apenas tem que vir regularmente, como tem que cair na hora certa. Enfim, é uma atividade muito ingrata, que além do apoio governamental, merece ser mais respeitada pela sociedade, e não demonizada vulgarmente por esquerdistas urbanóides.

Segundo o IBGE, o Brasil tem 3,6 milhões de proprietários agrícolas. Isso oficialmente. Na prática deve ser o dobro, porque muitas terras que estão em nome de uma pessoa já estão divididas para seus diversos filhos.

Quanto à Raposa do Sol, acho que tem que ser homologada e a terra ficar mesmo com os índios. O problema do Brasil não é apenas a concentração de terra. Em algumas áreas, há problema também de pulverização de terras, de micro-fúndios que, por serem tão pequenos, inviabilizam a atividade agrícola sustentável.

O MST é importante, mas não podemos esquecer que o número de pequenos agricultores familiares no Brasil é muito superior ao número de filiados ao MST. Com todo o respeito ao MST, é uma questão de justiça priorizar o pequeno agricultor familiar já estabelecido, que está labutando na terra. Quanto à criminalização do MST pelo MP gaúcho, é coisa de nazista sulista que, espero eu, não deve prosperar.

(Miguel do Rosário é jornalista e este texto é uma resposta aos meus comentários a esse outro texto aqui)

sábado, 5 de julho de 2008

Titulação de quilombos emperra diante de pressões do agronegócio, racismo e falta de vontade política

Reproduzo um texto de 2005 que a meu ver ainda é bem atual: direitos socioambientais, direitos originários, reforma agrária, a questão dos biocombustíveis, da segurança alimentar e desenvolvimentismo cuja fácil mais visível é o agronegócio, não se separam.


Direitos Socioambientais


Titulação de quilombos emperra diante de pressões do agronegócio, racismo e falta de vontade política
[29/07/2005 14:13]

Em dois anos e meio, foram concedidos apenas dois títulos de terra. Governo federal diz que reformulou a legislação e precisou criar novas estruturas administrativas. Movimento quilombola cobra mais agilidade.


São dois anos e sete meses. Mais precisamente: 941 dias de governo Lula. E apenas dois territórios quilombolas receberam seus títulos de terra. Em 16 anos, desde a Constituição de 1988, o Estado brasileiro expediu cerca de 70 títulos semelhantes. Neste ritmo, seriam necessários aproximadamente 33 anos para finalizar os 144 processos de titulação hoje em tramitação no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Sem contar outros em curso em órgãos fundiários estaduais.

Não é possível fazer um cálculo exato sobre o tempo que seria preciso, no compasso observado até agora, para regularizar os territórios quilombolas restantes, em todo o País, porque os dados disponíveis sobre o assunto são imprecisos. Mesmo assim, não custa lembrar que, segundo levantamento feito, neste ano, pelo Centro de Cartografia Aplicada e Informação Geográfica (Ciga) da Universidade de Brasília (UnB), existiriam hoje, no Brasil, 2.228 comunidades quilombolas, totalizando uma população de mais de 2,5 milhões de pessoas.

Em relação à administração Lula, as explicações para tanta morosidade apontam para o que já parece ser um de seus traços característicos: uma enorme dificuldade em vencer obstáculos político-administrativos diante de uma conjuntura marcada pela predominância de forças conservadoras dentro e fora do governo. Em todo caso, do ponto de vista da sociedade civil, duas titulações em dois anos e meio de mandato soam como um resultado irrisório para quem prometia retomar o resgate da dívida social e cujo partido (PT) abriga grande parte da militância negra.

Organizações quilombolas e especialistas consideram que falta determinação ao governo para atacar o preconceito racial, enfrentar o poder dos ruralistas e acelerar os processos de regularização fundiária. A administração federal não teria sido capaz nem mesmo de colocar em prática uma política pública unificada de teor étnico e de realizar um censo populacional. Por outro lado, o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e o Incra - que passaram a ser os responsáveis pelas titulações no governo Lula - argumentam que foi preciso reformular a legislação sobre o tema, idealizar e implantar toda uma estrutura operacional que não existia para reconhecer as terras quilombolas. Além disso, o processo seria tão complicado e lento quanto a criação de Terras Indígenas e muitos processos estariam sendo refeitos.

“Para os quilombolas, assim como para outras populações tradicionais, o direito às suas terras é o mais fundamental de todos. Sem ele não há moradia, saúde, segurança alimentar ou preservação da cultura”, lembra Raul Silva Telles do Valle, advogado do ISA. Ele considera que qualquer política voltada aos remanescentes de quilombos deveria centrar-se nesse aspecto sob pena de não alcançar seus objetivos.

Governo diz que trabalha, mas não gasta

Um dos dados que mais chama a atenção em relação às ações do governo Lula para o setor é o baixíssimo índice de execução orçamentária, especialmente no que diz respeito às titulações. Segundo o boletim Orçamento & Política Socioambiental, de junho, publicação do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), dos R$ 11,6 milhões previstos no orçamento do MDA de 2004 para o pagamento de indenizações aos ocupantes de boa-fé de terras qumlombolas, nenhum centavo foi pago. Este ano, também não se gastou nada do orçamento de R$ 14,4 milhões para o mesmo fim. Dos R$ 2,3 milhões previstos, em 2004, na rubrica “Reconhecimento, Demarcação e Titulação”, foram usados R$ 1,4 milhão, pouco mais de 62%. Para este ano, estavam destinados R$ 5,4 milhões para a mesma rubrica e, até o momento, foram gastos cerca de R$ 432 mil, em torno de 8% do total.

Em relação ao total de recursos disponibilizados pelo governo federal para os quilombolas, no ano passado, foram usados apenas 50% dos R$ 51 milhões que deveriam ser gastos por seis ministérios, pela Presidência da República e pela Secretaria Especial de Promoção de Políticas para a Igualdade Racial (Seppir) no âmbito de programas como o Brasil Quilombola, Cultura Afro-brasileira e Comunidades Tradicionais. Dos R$ 60,1 milhões previstos para este ano, apenas R$ 7,5 milhões, 12,5% do total, foram utilizados até este mês.

“A execução orçamentária não reflete o trabalho que temos realizado”, defende Mozar Artur Dietrich, assessor especial do MDA para a questão quilombola. Ele explica que o governo ainda não chegou à fase de usar o dinheiro das indenizações e avisa que, pelo mesmo motivo, o gasto da rubrica pode continuar na estaca zero este ano. Dietrich insiste no argumento de que o governo Lula levou mais de um ano para refazer a legislação sobre o assunto e transferir para o Incra a responsabilidade pela titulação.

“Estamos implantando todo um procedimento legal e administrativo inédito. Vamos contratar novos funcionários. Já temos 144 processos em andamento relativos a 278 comunidades. Quem disser que isso é menos do que foi feito no governo Fernando Henrique não conhece os procedimentos da área”. A gestão FHC concedeu 14 títulos aos quilombolas, mas todos estariam em áreas públicas, onde não existiriam conflitos fundiários.

O assessor do MDA explica que, em virtude da complexidade das titulações quilombolas, não é possível estabelecer uma meta de terras regularizadas para o final do governo Lula. “Tenho me recusado a estabelecer uma meta. Estamos falando de um processo semelhante àquele das Terras Indígenas. É impossível a Funai [Fundação Nacional do Índio] dizer que vai homologar uma área em um certo tempo porque ocorrem ações judiciais contrárias, conflitos locais, ocupações do movimento social etc”, explica Dietrich. Ele não considera que as duas titulações realizadas até agora na administração petista sejam um número baixo.

Agronegócio e racismo pressionam terras

O antropólogo Alfredo Wagner Berno de Almeida, especialista na questão quilombola há vários anos e responsável pela análise publicada pelo Inesc, admite que o processo de titulação dos quilombos é bastante burocratizado e defende trâmites mais ágeis. Ele julga, no entanto, que outros fatores externos também contribuem para a inércia do Estado em reconhecer as terras quilombolas. “Além dos obstáculos burocráticos, temos os interesses do agronegócio e o racismo da sociedade brasileira”.

Almeida deverá divulgar em breve um levantamento a respeito do avanço da agropecuária e de outras atividades, como a mineração e a indústria do papel, sobre territórios tradicionais em várias regiões do País, incluindo Terras Indígenas, quilombos e outras áreas de uso coletivo, como os chamados “fundos de pasto” e as “terras soltas”.“A força destas ocupações centenárias está erodindo diante do agronegócio. A elevação geral do preço das commodities e a ação da indústria madeireira estão levando a uma ocupação e a uma valorização muito rápida das terras em todo o Brasil”. O antropólogo avalia que o fenômeno tem feito aumentar as pressões pelo não reconhecimento dos territórios tradicionais, em especial no norte do Tocantins, no sul do Maranhão, no oeste da Bahia e de Pernambuco. As commodities são produtos primários - como a soja, o café, a carne e o minério de ferro, por exemplo - cujos preços e o comércio em geral são determinados pelo mercado internacional.

A opinião do pesquisador está apoiada em estatísticas conhecidas. Segundo informações da empresa de consultoria FNP, especializada em estudos sobre angronegócios, nos últimos 36 meses (até junho de 2005), o preço médio das terras no País registrou taxa de crescimento de 63%, muito acima da inflação acumulada de 49% no mesmo período (IGP-DI). No Centro-Oeste, houve um pico de valorização de 122%, no acumulado dos últimos 12 meses.

“Existem forças conservadoras que se movimentam o tempo todo para criar obstáculos ao reconhecimento dos direitos dos quilombolas”, continua Almeida. Ele cita a Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) proposta pelo PFL, em julho de 2004, contra o Decreto nº 4.887/03, que atualmente regulamenta a titulação dos quilombos, como um exemplo da força do racismo na sociedade brasileira e de uma conseqüente negação da propriedade aos negros. “Isso se reflete também nas pessoas que estão no aparato do Estado. Não existe uma predisposição para fazer, mas uma inclinação para colocar problemas e dificultar a vida de quem quer fazer”. Neste ponto, o antropólogo refere-se especialmente às dificuldades impostas à ação dos funcionários do Incra na ponta do sistema, ou seja, nas menores cidades do interior e nos confins do País, onde o poder dos fazendeiros é maior.

Vários setores do movimento quilombola crêem na boa vontade da cúpula do governo, em especial do presidente Lula e de alguns ministros, como Miguel Rosseto (MDA) e a chefe da Seppir, ministra Matilde Ribeiro. Os mesmos segmentos concordam, porém, que falta determinação para enfrentar os entraves burocráticos e as pressões dos grupos conservadores.

“Ganhamos o governo, mas não ganhamos o poder. Falta interesse político não só do presidente, mas de todas as instâncias”, resume Ivo Fonseca Silva, integrante da Coordenação Nacional de Quilombos (Conaq) e da Associação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas do Maranhão (Aconeruq). Ele também não aceita a opinião, defendida pelos técnicos do MDA, de que as dificuldades administrativas e legais seriam o principal obstáculo para a regularização dos quilombos. Silva garante que existem hoje, no País, mais de cem territórios cujos processos já estão finalizados e só aguardam a autorização do governo para receber a titulação.

“Hoje, a questão quilombola é prioritária no Incra, mas não é mais importante – 99% da demanda é para os sem-terra. Não estou dizendo que os quilombolas devam acampar. Mas os sem-terra acampam até no Palácio do Planalto”, admite Cláudio Rodrigues Braga, responsável pela Coordenação-geral de Regularização Fundiária de Áreas Remanescentes de Quilombos, que já funciona na prática, mas ainda aguarda, desde o início de 2004, a assinatura de um decreto para passar a existir formalmente na estrutura do Incra. Braga também bate na tecla da complexidade do processo de regularização fundiária dos quilombos para sugerir que a lentidão observada até agora é normal (saiba como é a titulação).

“Tinha-se a idéia de que a regularização dos quilombolas seria rápida. A Seppir, o Ministério Público e o movimento quilombola diziam isso. Ainda se diz que o ministro Rosseto não tem vontade política. Não concordo. Parte da responsabilidade também é da sociedade civil, que não se mobilizou durante muito tempo após a Constituição de 1988 e não cobrou do governo anterior”, rebate Mozar Artur Dietrich. Segundo o assessor, mais de 90% dos territórios quilombolas do País estão localizados em áreas que já têm pretensos proprietários, ou seja, que provavelmente irão demandar batalhas judiciais demoradas. Ele volta a frisar que, como o Incra nunca participou do processo de titulação, foi preciso praticamente recomeçar do zero.

Demora em colocar a máquina em ação

De fato, o governo Lula levou quase um ano para substituir o Decreto nº 3.912/01, que regulamentava até então o processo de titulação, mas era recheado de equívocos. Na verdade, impunha condições que, na prática, inviabilizava a regularização das terras quilombolas. A norma nem mesmo previa indenizações para os posseiros de boa-fé. Em 20 de novembro de 2003, Dia Nacional da Consciência Negra, o presidente Luís Inácio Lula da Silva assinou o Decreto nº 4.887, com novas regras para o setor (confira).

Grande parte do movimento quilombola considera que o Decreto nº 4.887 é um avanço e foi elaborado de forma democrática: a Seppir realizou uma série de consultas e debates com vários setores da sociedade civil organizada para discutir o tema. Por outro lado, ao deslocar a atribuição de regularizar as terras da Fundação Cultural Palmares (FCP), órgão subordinado ao Ministério da Cultura, para o Incra, provocou um novo problema administrativo e condicionou sua solução ao ritmo da burocracia de Brasília. Em abril de 2004, foi elaborada a Instrução Normativa interna que regulamentava os novos procedimentos. Só em agosto daquele ano, ocorreu o primeiro curso para os funcionários das Superintendências Regionais do Incra sobre o tema quilombola.

“Hoje, se saio de São Luís e vou a Brasília, eu entro em todos os gabinetes, em todos os ministérios. Existe mais transparência. As portas estão abertas para nós. O problema é na hora de operacionalizar”, aponta Ivo Fonseca Silva. Ele admite que o problema não será resolvido rapidamente, mas diz que a sociedade esperava mais agilidade no trato da questão. “Todos os governos têm dificuldade para resolver o problema fundiário. A reforma agrária que estamos cobrando vai ser lenta, mas é preciso que o governo tenha mais coragem e diga ‘temos de fazer’”.

Os técnicos do MDA e do Incra afirmam que os processos devem se tornar mais ágeis a partir de agora, depois da consolidação da legislação e da nova estrutura burocrática. Pelo menos para 2005, a intenção seria regularizar a situação de dez comunidades (em áreas públicas) e reconhecer mais 20. Outra promessa é de contratar por concurso público, até o final do ano, 136 funcionários, entre antropólogos, agrônomos, agrimensores e técnicos para a Coordenação-geral de Áreas Quilombolas do Incra, que tem, hoje, seis funcionários em Brasília. Já teriam sido qualificados outros 110 em todo o País.

Na publicação do Inesc, o antropólogo Alfredo Wagner de Ameida aponta uma tendência que não permite fazer previsões muito otimistas. O Estado estaria abrindo mão de uma política étnica integrada e coordenada em benefício de ações fragmentadas, distribuídas por vários órgãos diferentes. Ao mesmo tempo, o foco das políticas públicas voltadas aos quilombolas estaria sendo deslocado do atendimento ao direito à terra para iniciativas de caráter assistencial e, ainda de forma incipiente, a prestação de serviços básicos, como eletrificação e saneamento. Pelo menos no curto e médio prazo, portanto, o problema fundamental de se enfrentar as pressões sobre as terras quilombolas estaria sendo postergado.

Enquanto o Decreto nº 4.887 é considerado um avanço na formulação de respostas à questão quilombola, muitas comunidades continuam sofrendo com os mesmos problemas de várias décadas atrás. Além da violência dos fazendeiros e da discriminação racial, os remanescentes de quilombos carecem de escolas, de tratamento médico, de transporte e de apoio para sua produção agropecuária.

“Nas comunidades mais isoladas, muitas vezes, temos de carregar pessoas doentes por mais de 30 quilômetros no lombo da ‘liteira’ [uma rede pendurada em um tronco de bambu e apoiada por dois homens]”, explica Manuel Edeltrudes Moreira, o Tico, secretário de Promoção da Igualdade Racial de Monte Alegre, cidade do norte de Goiás, a cerca de 300 quilômetros de Brasília. Tico pertence á comunidade Kalunga, cujo território de 270 mil hectares estende-se pelos municípios de Monte Alegre, Cavalcante e Teresina de Goiás.

Os Kalunga esperam na fila das titulações há vários anos e já chegaram até a receber a visita do presidente Lula, em março de 2004. Apesar das promessas, o Incra ainda não terminou de fazer todos os levantamentos necessários à finalização do processo de regularização. A construção de novas escolas está atrasada e não há nenhum tipo de atendimento de saúde especial para os mais de 5 mil quilombolas que vivem na região.

“Infelizmente, até o momento, o Decreto nº 4.887 ainda não foi colocado em prática. Não serviu para nada”, critica Raul Silva Telles do Valle. Ele lembra que várias organizações da sociedade civil, entre elas o ISA, estão defendendo o instrumento legal no julgamento da Adin no STF, mas que todo este esforço pode ser em vão se houver uma nova alteração na legislação, com uma eventual mudança de governo, depois de 2006. “Este risco existe. Por isso toda essa demora pode significar a perda de uma chance histórica de regularizar boa parte das terras quilombolas”.

Governador libera R$ 978 mil para regularização de quilombos em SP

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), liberou R$ 978 mil para o processo de regularização fundiária das 48 áreas quilombolas existentes no Estado. Alckmin disse que pretende georreferenciar 24 áreas, reconhecer 25 e titular outras seis, até o fim do ano – apenas cinco já receberam seus títulos de terra. O Instituto de Terras de São Paulo está realizando a regularização de territórios quilombolas no Estado.

O anúncio foi feito no último dia 24 de julho, em uma visita feita ao quilombo de Caçandoca, em Ubatuba, no norte do litoral paulista. Em maio, as 60 famílias de quilombolas que vivem em Caçandoca sofreram com a ameaça de despejo provocada por uma liminar de reintegração de posse concedida à empresa imobiliária Urbanizadora Continental. No início de junho, o Tribunal de Justiça de São Paulo suspendeu a decisão judicial, acatando pedido do governo estadual (confira).


Quilombo de Ivaporunduva no Vale do Ribeira (SP): terras tituladas em 2000


Quilombolas da comunidade de São Pedro no Vale do Ribeira (SP): terras tituladas em 2001


Quilombo André Lopes no Vale do Ribeira (SP): terras reconhecidas mas não tituladas

ISA, Oswaldo Braga de Souza.

terça-feira, 3 de junho de 2008

O novo 'Ouro verde' ou a produção dos desertos verdes: Green Gold, soja

CONTEÚDO INTERDISCIPLINAR E TRANSDISCIPLINAR

(História, Geografia, Ciências Naturais, Saúde e Meio-ambiente)


soja na Amazônia

Paisagem do Cerrado no Piauí


Em tempos coloniais tivemos um 'ouro verde', a cana-de-açúcar, que destruiu a cobertura vegetal do Nordeste de nosso território (e prossegue firme e forte desertificando o interior do estado de São Paulo e outros estados para a produção do etanol). Depois o 'ouro negro' - o café-, que acabou com a mata Atlântica dos atuais territórios do estado do Rio de Janeiro e São Paulo.

Típica flor presente no cerrado brasileiro. No auge da temporada de seca (agosto), em meio a uma vegetação predominantemente verde-acinzentada, ela floresce para dar vida e cor a esse belo bioma (e único no mundo) que é o cerrado brasileiro. Foto: Marcelo Cassio

Culturas impulsionadas pela lógica metropolitana, que foi substituída pela lógica desenvolvimentista (esta de longa duração), e que agora busca justificar a era de outro 'ouro verde', a soja.
Foto de novembro de 2004 mostra área ilegal com soja ao lado de floresta, no Mato Grosso. A conversão em plantação se deu em menos de um ano, de acordo com o governo estadual. Foto ISA.


A cultura da soja , entrou no território brasileiro pelo Rio Grande do Sul e avança a passos largos. Por onde é cultivada produz verdadeiros desertos verdes. Hoje, a soja está presente também no oeste baiano, em Minas Gerais em todo o centro-sul e já chegou ao Piauí. Até agora os Campos e Cerrado foram suas principais vítimas. Nos últimos anos ela vem avançando pela Amazônia.
(Jacarandá do Cerrado)


O documentário Green Gold traz entrevistas com o maior produtor de soja do mundo, o ruralista e governador do Mato Grosso, Blairo Borges Maggi, acusado pelo Greenpeace de ser a personalidade brasileira de maior responsabilidade individual no desmatamento do Amazonas. Lideranças indígenas do Xingu depõem sobre a degradação do entorno de suas terras. Devastadas, com nascentes de rios poluídas e contaminadas, esse desenvolvimentismo irresponsável gera lucro para poucos, exclui muitos, desequilibra a vida e inviabiliza física e culturalmente a sobrevivência dos povos indígenas.
Esta área vem sendo desmatada desde 2002, segundo a Fundação Estadual do Meio Ambiente do Mato Grosso. Fotografada em novembro de 2004, já apresenta conversão em soja e infra-estrutura. Foto Instituto Socioambiental

Assistam Green Gold, o documentário holandês que mostra as relações da produção da soja com a devastação do Cerrado e da Amazônia, bem como o paradoxo entre riqueza e a pobreza que o agronegócio impõe. Apreciem, reflitam.


Grenn Gold, parte 1

Grenn Gold, parte 2

Grenn Gold, parte 3


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