
Os termos do acordo negociado em 1678 constituem a maior evidência disso”, disse a historiadora.
"O mundo é um mosaico de pontos de vista. Aprendemos muito com os pontos de vista dos outros, e perder nem que seja um pedaço desse mosaico é uma perda para todos nós. David Crystal (A revolução da linguagem,2004:69).


fonte: Carta Maior

| Pablo Uchoa* De Londres |
![]() | |
| Crianças escravas aparecem em imagem de 1857 (Cortesia New York Public Library) |
Crianças foram ganhando a preferência dos traficantes porque, entre outros aspectos, eram mais "maleáveis" que adultos, indicam novas pesquisas publicadas duzentos anos após a lei britânica que proibiu o comércio de escravos.
No fim da era escravagista, um em cada três africanos escravizados era criança, nas estimativas do historiador David Eltis, da Universidade de Emory, em Atlanta, um dos maiores especialistas mundiais no tema.
Segundo Eltis, cerca de 12,5 milhões de escravos deixaram a costa da África entre 1500 e 1867, quando se tem registro do último carregamento. Em torno de 10 milhões chegaram aos seus destinos nas Américas.
Nos cálculos do pesquisador, dos 5,5 milhões de pessoas que tinham como destino o Brasil, apenas 4,9 milhões desembarcaram em portos brasileiros.
'Maleáveis'
Os dados de Eltis indicam que quase 2,3 milhões de escravos foram enviados ao Brasil entre 1800 e 1850 – destes, ele acredita que 775 mil eram crianças.
A alta proporção de menores de 15 anos entre os escravos já era conhecida dos pesquisadores – há estimativas que a colocam em até metade do total –, mas novos dados oferecem novas explicações para este fato.
Um estudo de caso publicado na última edição do Journal of Economic History pelos pesquisadores David Richardson, da Universidade britânica de Hull, e Simon Hogerzeil, do Centro Psicomédico Parnassia holandês, mostrou que crianças reagiam melhor à travessia que os adultos.
Richardson disse à BBC Brasil que, além disso, "no fim da era escrava havia uma percepção geral, por parte dos mercadores, de que as crianças eram mais maleáveis que os adultos, que poderiam ser treinadas em habilidades específicas".
Analisando 49 viagens de navios negreiros holandeses entre 1751 e 1797, os pesquisadores observaram que crianças eram compradas antes, porque reagiam melhor à experiência traumática.
Comparada à de um adulto, sua taxa de mortalidade era a metade, calcularam os pesquisadores.
![]() David Richardson, historiador |
Assim, uma criança tinha mais chance que um adulto de passar longos períodos – até um ano, no caso estudado – dentro de um navio negreiro, entre todas as fases do tráfico.
Antes que o navio zarpasse para a viagem transatlântica propriamente dita, uma criança passava em média quatro meses dentro da embarcação – um prazo mais de 40 dias superior ao passado por homens.
"Em outras palavras, as estratégias de compra dos mercadores expunham crianças a riscos por mais longos períodos de tempo que os adultos", disse Richardson.
Em uma viagem típica, os navios da Middelburgsche Commercie Compagnie, que operava no oeste africano, zarpariam com 253 escravos, perderiam 33 ao longo do trajeto e venderiam 220 nas Américas.
Sobrevivência
As observações dos pesquisadores não eliminam a validade de explicações levantadas anteriormente, que atribuíam a forte escravização de crianças à escassez de adultos em determinadas áreas da África.
Outra razão, levantada em entrevista à BBC Brasil pelo historiador Manolo Florentino, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, destaca que senhores brasileiros podem ter sentido necessidade de "importar" mais mulheres e crianças para garantir mão-de-obra futura caso o tráfico negreiro fosse proibido.
Richardson e Hogerzeil destacaram, no entanto, que as condições de aprisionamento dos homens adultos podem estar relacionadas às taxas de mortalidade menores de crianças.
Os homens, comprados aos poucos durante a "fase de carregamento" do navio, entravam em grande quantidade no final da etapa, a menos de um mês ou até a menos de uma semana da partida, verificaram os pesquisadores.
"As condições dos escravos no momento da embarcação é criticamente importante para determinar por que eles sucumbiam mais durante a travessia", diz o estudo.
"Isto pode estar associado a pressões sobre os capitães para levar homens adultos para satisfazer as expectativas dos compradores, o que os encorajava a ser menos rigorosos na seleção."
"Os homens também eram tipicamente vistos como instigadores de rebeliões dentro dos navios, e sofriam mais fatalidades durante esses incidentes."
"Além disso", justificam os pesquisadores, "os homens eram normalmente encarcerados em celas separadas de mulheres e crianças, e normalmente ficavam presos por ferros, sobretudo quando o navio ainda estava próximo da África".
* BBC- Colaborou Sílvia Salek, de Londres.
| Estudos sobre a vinda da família real ao Brasil ignoram que país estava inserido no contexto mais amplo do Atlântico Sul |
“Há pessoas que não
sabem, ou não se lembram
de raspar a casca do riso
para ver o que há dentro”.
Machado de Assis
Machado de Assis é incontestavelmente um dos maiores escritores da literatura brasileira. Está citado no livro Gênio, de Harold Bloom, renomado crítico da atualidade, entre os cem maiores escritores mundiais. Segundo Bloom, “Machado reúne os pré-requisitos da genialidade. Possui exuberância, concisão e uma visão irônica ímpar do mundo”.
Apesar de todo reconhecimento e homenagens, cem anos depois de sua morte, há ainda quem insista em repetir a leviana afirmativa de Hemérito dos Santos, de que o escritor não se envolveu na causa abolicionista e negou sua origem.
Com o propósito de oferecer uma contribuição, ainda que pequena, no estudo da personagem negra, seu múltiplo processo de construção, sócio-histórico-literário, e nele começar a desvelar a face da personagem negra na obra de Machado de Assis, desenvolvemos uma pesquisa, concluída em 1997, que resultou no livro Imagens, Máscaras e Mitos; o negro na obra de Machado de Assis.1
“A ficção é imitação [...] da ação, isto é, disto que já conhecemos como ação e interação no envolvimento físico e social”,2 afirma Paul Ricoeur. Ao buscarmos a personagem negra na literatura, estamos também buscando a representação desta “ação e interação” do elemento negro na sociedade do seu tempo.
No tempo de Machado, as teorias raciais e crenças etnocêntricas ainda apregoavam uma hierarquia etnográfica na qual o negro ocupava o último grau da escala social. Assim, embora elemento integrante (juntamente com o branco e o índio) da civilização brasileira, era marginalizado. A literatura não o omitiu, mas sua voz e ação, muitas vezes, quando não apagadas, foram tolhidas, distorcidas, ou mascaradas. Sua presença, em geral, se dá por tipos. O indivíduo representa o coletivo.
O discurso a seu respeito variava conforme o posicionamento de quem escrevia: estereotipada, a imagem do negro, passa de dócil, infantil, fiel, subjugada a violenta, feroz, vingativa, em razão dos interesses do momento e contexto em que é inserido o estereótipo.
Nos discursos, porém, a classificação não é estanque. Textos qualificados em uma das duas categorias, às vezes, trazem em seu interior pequenos deslizes do autor, que denunciam um posicionamento diferente do anunciado ou proposto. As Vítimas Algozes, de Joaquim Manoel de Macedo, publicado em 1869, é um bom exemplo disto; embora se apresente como um libelo contra a escravidão, seu discurso é, ao mesmo tempo, antinegro. Para demonstrar quão danosa é a instituição da escravidão e a necessidade de aboli-la, o autor anuncia que contará estórias verdadeiras e mostrará “os vícios ignóbeis, a perversão, os ódios, os ferozes instintos do escravo, inimigo natural e rancoroso do seu senhor”3 MACEDO.
Joaquim Manoel de. - As Vítimas Algozes: quadros da escravidão. Rio de Janeiro: Garnier, 1871. 2a. ed., p. XIV..
As Vítimas Algozes são o que podemos chamar de romance de tese, conforme Silviano Santiago: “no romance de tese, a verdade se insinua por detrás de cada palavra, de cada gesto, cada cena, induzindo o leitor a pensar ser ela a única a apreender corretamente o significado das cenas ou do drama apresentado pelo texto”4. Nesse sentido, Macedo não está sozinho.
O contraponto é que, ao criar uma imagem do negro escravizado, baseando-se na concepção ideológica senhorial, o autor do discurso, de certa forma constrói, também, a sua própria imagem. Em oposição à selvageria, à indolência, à submissão, à promiscuidade, ele é a civilidade, a moral, o domínio, a posse, a superioridade. Ele é o que o outro não é. Sem se dar conta, talvez, de que nesta construção, ausentando-se o outro, a sua tão bem construída imagem deixa de existir.
É o que se pode ver, bem elaborado, no conto O Espelho5: esboço de uma teoria da alma humana, de Machado de Assis, publicado em Papéis Avulsos, em 1882.
Nele, Jacobino, um jovem pobre, é promovido a alferes da Guarda Nacional. Tal fato é festejado e motivo de orgulho para toda a família. Na fazenda de sua tia, uma fazendeira escravista, não é mais chamado pelo nome, só pelo título. Todos os escravos estão obrigados a tratá-lo de “senhor alferes”. Um dia, estando a tia ausente da fazenda, os escravos fogem, abandonando o alferes, privando-o da admiração a que estavam obrigados.
“Achei-me só, sem mais ninguém, entre quatro paredes (...) Nenhum fôlego humano.(...) ninguém, um molequinho que fosse. Gatos e galinhas tão-somente, um par de mulas, que filosofavam a vida, sacudindo as moscas, e três bois... nenhum ente humano. Pareceu-lhes que isto era melhor do que ter morrido? Era pior”.6
Jacobino, sem os sustentadores de sua “identidade”, percebe-se sem imagem no espelho, único espaço onde, ainda, podia se refletir. O que restou na fazenda foram apenas os animais, instrumentos de produção; bens semoventes, categoria em que os escravos eram incluídos. A questão é que os animais não representam a alteridade, no sentido de refletir a identidade do outro. Na ausência do escravo, cai por terra a ordem escravocrata e com isso o autoconceito de superioridade apregoado pela ideologia vigente em relação aos senhores.
Há nesse conto um absoluto silêncio a respeito tanto da escravidão quanto aos possíveis acontecimentos relacionados aos escravos fugidos. Entretanto, como reflete Eni Orlandi,"O silêncio é. Ele significa.”7 Ao calar-se, Machado abre espaço para uma significação outra, que a óbvia. Uma forma sutil, para gerar idéias.
Mas, se no conjunto da obra do autor estão incorporados elementos históricos e sociais a serem lidos nas entrelinhas, há também momentos em que sua colocação é explícita. Isto ocorre, sobretudo, nas crônicas e na crítica. Vejamos, por exemplo, o trecho de uma carta endereçada a José de Alencar, datada de fevereiro de 1868, na qual Machado tece elogios a Castro Alves8. Esta carta era, de fato, a crítica do escritor, sobre o drama Gonzaga, escrito pelo poeta, portanto, destinada a ser lida pelo público.
“Eu não podia, por exemplo, deixar de mencionar aqui a figura do preto Luiz. Em uma conspiração para a liberdade, era justo aventar a idéia da abolição. Luiz representa ao elemento escravo. Contudo o Sr. Castro Alves não deu exclusivamente a paixão da liberdade[...]. Luiz espera da revolução, antes da liberdade, a restituição da filha; é a primeira afirmação da personalidade humana; o cidadão virá depois. Por isso, quando no terceiro ato Luiz encontra a filha já cadáver, e prorrompe em exclamações e soluços, o coração chora com ele, e a memória, se a memória pode dominar a tais comoções, nos traz aos olhos a bela cena do rei Lear, carregando nos braços Cordélia morta. Quem os compara não vê nem o rei nem o escravo; vê o homem”.
Serão essas palavras de um omisso, dissimulado para não transparecer sua condição racial?
Bastante explícitos também são algumas poesias e contos, vale notar, escritos antes da abolição. O poema Sabina, publicado em 1875, por exemplo. Embora incluído no livro Americanas, foge à temática indígena, sugerida inclusive pelo título da obra. Sabina é um longo poema que relata a sedução de uma jovem mucama, não embranquecida, mas tratada de forma paternalista. Jovem, virgem de tez morena, cabelos cor da noite escura, busto moldado em modelo clássico e olhos brandos cor de jabuticabas.
A conquista de Sabina não passa pela violência física, prática comum na “ideologia falocrática”9 Sant’Ana, Affonso Romano de. - “O Canibalismo Erótico na Sociedade Escravocrata.”In. Revista do Brasil. Rio de Janeiro: FUNARJ, 1984. N. 1/84. p. 14., descrita de forma magistral por Castro Alves, em “A Cachoeira de Paulo Afonso”. A abordagem é romântica. O narrador, indiferente como o rio, “ao mal ou bem que lhe povoa a margem” desnuda a alma de ambos.
O jovem conquistador, Otávio, volta para a corte. “Com ela a alma não fica. De seu jovem senhor.” Não fica a alma, mas fica-lhe um filho no ventre. A reação dos companheiros de desventura é de total falta de solidariedade, impera a inveja, o ciúme, a maledicência e a superstição. “Após os dias da saudade, os dias da esperança”, e a decepção. Otávio volta casado. Em desespero, Sabina pensa em se matar, mas no último momento desiste.
O poema, embora aparente descrever a aceitação do cativeiro, denuncia a trágica ironia do paternalismo e as suas conseqüências. Uma faceta da escravidão, muito conveniente aos senhores e, em parte, responsável pela crença de que, no Brasil, a vida dos escravos era amena.
A crença na igualdade, pelo tratamento privilegiado, impede de ver: “o fundo abismo tenebroso e largo que separa”10 senhores e escravos. A delicadeza não garante o afeto, nem evita o abandono da escrava, mas facilita a “caçada” do sinhozinho. Além disso, provoca sentimentos desagregadores dentro do meio escravo, afastando a solidariedade e a confiança. Preserva a imagem ideológica, segundo a qual escravo é gente dotada de maus sentimentos, quando não de apatia, servilismo e resignação.
Enquanto Castro Alves denuncia a violência explícita a que os escravos e, principalmente as mulheres, negra e mulata, estavam expostos, Machado revela outras formas de violência, nem sempre tão explícitas, mas igualmente cruéis e doloridas. A violência, que passa pela dissimulação e falsa camaradagem, instituída para amenizar as relações entre senhor e escravo, aumentar a produção, garantir fidelidade e diminuir as fugas e as revoltas, bem como as despesas com segurança ostensiva.
No conto, como em outras obras, não há floreios nem uso de meias palavras. Machado não transforma o negro em herói ou ser extraordinário, nem o pinta com as cores miseráveis da ideologia dominadora. Ele o apresenta como ser humano que é, sujeito em sua condição de oprimido. Sem fazer apologia, mas de forma sutil, o autor, a seu modo, desnuda a realidade senhorial e revela uma sociedade em que a condição econômica define o indivíduo, determina sua exclusão ou aceitação. Uma sociedade que, sob uma fachada moderna e liberal, oculta as bases do sistema colonial, o escravismo e o clientelismo, como bem explicita Roberto Schwarz em Ao Vencedor as Batatas.11
A crônica foi outro gênero de produção escrita que Machado de Assis exerceu com a habilidade criativa e crítica que lhe era peculiar. Nelas, encontramos um Machado de Assis irônico e sarcástico, que enfoca diversos estágios do período abolicionista, as manipulações dos senhores, a violência inerente ao sistema de dominação. Faz isso, ora de forma direta, ora dissimulada, mas preservando um distanciamento crítico e lançando mão dos recursos de estilo que lhe eram comuns.
Muitos seriam os exemplos a serem aqui elencados, mas por que não deixar para o leitor o prazer deste desvelar? Uma leitura mais atenta de algumas das obras e se pode perceber de que lado o escritor está. Para isso, se necessário, não faltam bons guias: Roberto Schwarz, John Gledson, Sidney Chalhoub e outros. Podemos adiantar que a preocupação de Machado de Assis era com o homem, o ser humano e sua interioridade psicológica e moral. O escravo, antes de sua condição servil, era um ser humano; e assim Machado o via e o retratava em sua obra.
Experimente ler, reler! Permita-se um passeio pelo universo cifrado das obras machadianas. Por prazer, deleite-se!
Mailde J. Trípoli é autora do livro Imagens, Máscaras e Mitos; o negro na obra de Machado de Assis (Editora da Unicamp)
NOTAS
1 TRÍPOLI, Mailde Jerônimo. Imagens, Máscaras e Mitos: o negro na obra de Machado de Assis. Campinas/SP, Editora UNICAMP, 2006
2 RICOEUR, Paul. “L’Identité Narrative.” In. Revue des Sciences Humaines. No 221
4 SANTIAGO. Silviano. Desvios da Ficção. In PATROCÍNIO, José do. - Mota Coqueiro. .P. 13.
5 ASSIS, Machado de. “O Espelho“. In. Papeis Avulsos. Rio de Janeiro: Garnier, s/d. p. 221-235
6 ASSIS. Machado de. - “O Espelho”. In O Conto de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980. p.142.
7 PUCCENELLI. Eni Orlandi. - As Formas do Silêncio: No Movimento dos Sentidos. Campinas: Editora da UNICAMP, 1993. 2a. ed.
8 Assis, Machado. Crítica. (Coleção feita por Mario de Alencar). Rio de Janeiro, Livraria Garnier, Sd. p.54 e55. (grafia atualizada).
10 ASSIS, Machado de. “Sabina”. Op. Cit., p.423
11 Schwarz, Roberto. Ao Vencedor as Batatas. São Paulo, Duas Cidades, 1981. p. 20.
Em Minas Gerais, entre os séculos XVIII e XIX, atributos como leitura, escrita e capacidade musical eram valorizados; no XIX, os negros eram maioria na escola
"Nas senzalas da Bahia de 1835 havia talvez maior número de gente sabendo ler e escrever do que no alto das casas-grandes."A frase, de Gilberto Freyre em Casa grande & senzala, ilumina um fenômeno pouquíssimo difundido: o da familiaridade dos escravos com a escrita, portuguesa ou não (os malês escreviam em árabe suas orações a Alá).
(Litogravura de Rugendas, primeira metade do século XIX, que representa um mercado de escravos. Observe à esquerda da imagem um cativo registra algo na parede sob olhares de outros cativos e de um homem branco e livre posicionado ao centro da gravura)"Ter profissão especializada, como alfaiate, pedreiro ou carpinteiro, que exigia o uso de medidas e cálculos, indica um grau refinado de "letramento", termo que ajuda a entender os usos sociais, culturais e históricos atribuídos à palavra escrita", diz Christianni.
"A cidade exercia a função de entreposto, pois era centro de exportação dos produtos mineiros e de redistribuição das mercadorias da Corte. Possuía vida política e cultural intensa, com biblioteca pública e imprensa periódica", diz Christianni.
"Fotografo e analiso as assinaturas tendo por base a caligrafia da época. Busco perceber se a pessoa tinha traço firme, bem organizado e distribuído na folha, se conseguia fazer arabescos, ligava as letras ou tinha boa escrita cursiva, o que não era fácil na época porque os ensinos da leitura e da escrita eram dissociados. Então, se o assinante se encaixa no nível 2, provavelmente sabia ler", conclui.
"Quando sabiam assinar, os negros aumentavam seu status numa sociedade basicamente iletrada."
"No Brasil, a escola sempre foi vinculada à modernização, ao passo que o negro foi associado ao atraso. A discussão sobre a democratização das universidades e a de que a inserção dos negros pode comprometer o nível das instituições é manifestação tácita desse raciocínio" diz Fonseca.
| Pesquisadores descobrem uma notável cultura da escrita entre os negros brasileiros do século 19 | |||
| Alex Sander Alcântara
Os corpos de 70 negros se espalham pelos arredores do Quartel de Cavalaria, em Água de Meninos, Salvador. Outros 280 são presos. Cai à bala a Revolta dos Malês, levante de escravos e libertos islâmicos na Bahia, em janeiro de 1835. No corpo, amuletos trazem papéis escritos pelos próprios revoltosos. "Nas senzalas da Bahia de 1835 havia talvez maior número de gente sabendo ler e escrever do que no alto das casas-grandes." A frase, de Gilberto Freyre em Casa Grande & Senzala, ilumina um fenômeno pouquíssimo difundido: o da familiaridade dos escravos com a escrita, portuguesa ou não (os malês escreviam em árabe suas orações a Alá). Por tempo demais a historiografia tradicional difundiu a idéia de que os negros trazidos ao Brasil até o século 19 não sabiam ler nem escrever. Aos poucos, esse mito, que alimentou o preconceito secular contra a inteligência negra, perde espaço na recomposição da escravidão, cuja Lei Áurea completou 120 anos. Pesquisas em história da educação levantam evidências de uma disseminação da cultura escrita entre escravos e alforriados. Há pistas de que, nos séculos 17 e 18, os negros foram decisivos na difusão do português no Brasil. Um estudo de Christianni Cardoso Morais, do Departamento de Educação da Universidade Federal de São João del-Rei, em Minas Gerais, reforça a idéia de que mesmo os escravos e alforriados iletrados sabiam se utilizar do escrito numa época em que eram proibidos de freqüentar escolas. A pesquisa se baseia em anúncios de jornais e em documentos. Nos anúncios, era comum a descrição física e das habilidades dos escravos foragidos ou à venda. Além de marcas e cicatrizes, realçavam-se atributos, como ofício, capacidade musical, de leitura ou de escrita. - Ter profissão especializada, como alfaiate, pedreiro ou carpinteiro, que exigia o uso de medidas e cálculos, indica um grau refinado de "letramento", termo que ajuda a entender os usos sociais, culturais e históricos atribuídos à palavra escrita - diz Christianni. Consciência escrita A pesquisadora faz doutorado sobre a disseminação da escrita na região. Analisou 1.612 documentos de 1731 a 1850, relatórios do Ministério da Agricultura, testamentos, processos-crime, além de anúncios de O Astro Minas, um jornal do período. A região analisada é a Comarca do Rio das Mortes, cidade mineira escolhida pela importância econômica e cultural que teve no século 18. O recorte temporal seguiu lógica imposta pela documentação, mais abundante naqueles anos. - A cidade exercia a função de entreposto, pois era centro de exportação dos produtos mineiros e de redistribuição das mercadorias da Corte. Possuía vida política e cultural intensa, com biblioteca pública e imprensa periódica - diz Christianni. Para determinar os graus de letramento dos escravos, ela usou um método de análise de assinaturas a partir de escala de cinco níveis desenvolvida pelo português Justino Magalhães. O primeiro corresponde ao mero uso de siglas ou sinais; o nível 2, à assinatura ainda rudimentar, imperfeita; o 3 indica assinatura completa; o nível 4, uma caligráfica mais precisa e o 5, mais personalizada. Maior a complexidade do traçado, maior o domínio do idioma. - Fotografo e analiso as assinaturas tendo por base a caligrafia da época. Busco perceber se a pessoa tinha traço firme, bem organizado e distribuído na folha, se conseguia fazer arabescos, ligava as letras ou tinha boa escrita cursiva, o que não era fácil na época porque os ensinos da leitura e da escrita eram dissociados. Então, se o assinante se encaixa no nível 2, provavelmente sabia ler. Combinado O método não é exato, admite Christianni. Mas, na ausência de fontes diretas, as assinaturas se tornam fontes, sobretudo, pelo poder simbólico entre os assinantes. - Quando sabiam assinar, os negros aumentavam seu status numa sociedade basicamente iletrada. O ensino "combinado" da leitura e da escrita se disseminou só após 1850. Antes, primeiro se aprendia a ler, depois a escrever. Depois, surgiram pessoas com assinaturas bem compostas, mas que na prática não sabiam ler. Essas foram descartadas por Christianni. Ela ainda coletou 76 anúncios, dos quais 5 com mulheres, pois só homens tendiam a ser identificados, como o "escravo pardo de nome Vicente", que era "oficial de alfaiate, sabe ler e escrever". Evidência ainda mais segura do letramento escravo é a presença de negros nas escolas do século 19, em Minas Gerais, numa proporção muito superior à dos brancos. Para Marcus Vinicius Fonseca, autor de Educação dos Negros (Edusf, 2002), quando se fala em educação elementar nas Minas Gerais do período é preciso ter em mente uma escola negra.
O perfil populacional de 1830 o comprova. Segundo Fonseca, a comunidade livre de Minas era de 270 mil pessoas, 59% das quais negras, somando-se os 130 mil escravos locais. - No Brasil, a escola sempre foi vinculada à modernização, ao passo que o negro foi associado ao nosso atraso. A discussão sobre a democratização das universidades e a de que a inserção dos negros pode comprometer o nível das instituições é manifestação tácita desse raciocínio - diz Fonseca.
Há, no entanto, um silêncio da historiografia sobre a relação do escravo com a língua portuguesa. Fervilham hipóteses. Como a da professora da Faculdade de Educação da UFMG Cynthia Greive Veiga, para quem os negros tiveram participação ativa na difusão da língua portuguesa no Brasil Império. Os africanos precisavam dominar o idioma que os adaptasse à sociedade. Tal fato fez coro à oficialização do português nos tempos da Independência. - Os registros de inspetores e professores das aulas elementares do século 19, sobre o desempenho de alunos em leitura e escrita ("sofrível", "não sabe nada"), podem ter relação com as tensões entre um português oficial e outro misto, marcado pelos dialetos africanos. Os sinais, desde Gilberto Freyre, abrem veio importante a investigar. Já se pode provar a distância entre ser negro e escravo, por exemplo, e de que essa distância parece passar pelo letramento. Os escravos letrados podem ter sido exceção no Brasil, como os de Minas ou os da Bahia de 1835. Mas será preciso muita pesquisa para entender a real difusão das práticas de leitura e escrita negra no Império, e a relação dos escravos com a língua portuguesa. O terreno está a explorar. Mas está dado. |