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sexta-feira, 2 de agosto de 2013

História de Palmares ganha nova cronologia com análise de fontes originais


 Pesquisadora da Unicamp se debruça sobre documentos históricos que permaneciam inéditos desde o século XVII para entender as formas de dominação no período colonial

 História de Palmares ganha nova cronologia com análise de fontes originais

Por Frances Jones, Agência FAPESP 01/08/2013

Em 1678, o então rei dos Palmares firmou um acordo de paz com o governador de Pernambuco, a autoridade máxima sobre um território que englobava os atuais estados da Paraíba, Alagoas, Rio Grande do Norte, além de Pernambucano.

A negociação durou alguns meses e envolveu intérpretes, envio de embaixadas, presentes e libertação de prisioneiros. De um lado, Ganazumba (ou Gangazumba), tio de Zumbi, séculos depois apontado como símbolo da resistência contra a escravidão; de outro, dom Pedro de Almeida, governador prestes a voltar para Portugal.

Até agora pouco estudado e comentado pela historiografia, o episódio vem ganhando contornos mais definidos sob a luz de documentos originais, boa parte deles inéditos. O material, manuscrito, inclui cartas, despachos de conselheiros do regente português, crônicas e até rascunhos encontrados em Portugal pela historiadora Silvia Hunold Lara, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em pesquisa realizada no âmbito do Projeto Temático“Trabalhadores no Brasil: identidades, direitos e política (séculos XVII a XX)”.

A documentação tem permitido que Lara e outros historiadores tracem uma nova cronologia sobre Palmares. “Em geral, a historiografia periodizou a história palmarina a partir das guerras feitas contra eles. Procuro me concentrar na formação dos mocambos [os assentamentos de fugitivos] e entender como eles se organizavam em termos políticos e militares”, disse Lara àAgência FAPESP.

“A década de 1670 é importante porque marca o reconhecimento por parte das autoridades portuguesas e coloniais desse sobado (estado africano) em Palmares.

Os termos do acordo negociado em 1678 constituem a maior evidência disso”, disse a historiadora.

Em seus estudos, Lara retoma teses de uma vertente da historiografia que dá ênfase às raízes africanas de Palmares, na qual se incluem os brasileiros Nina Rodrigues (1862-1906) e Edison Carneiro (1912-1972) e os norte-americanos Raymond Kent (1929-2008), Stuart B. Schwartz e John Thornton.

De acordo com Lara, um documento-chave para entender Palmares é uma crônica anônima, com data atribuída a 1678, escrita logo depois do acordo de paz selado entre Ganazumba e o governo de Pernambuco, quando d. Pedro de Almeida volta a Portugal e vai mostrar seus feitos às autoridades portuguesas.

“É uma crônica extensa, que faz uma história de Palmares, desde o seu início até 1678. Dá nome aos mocambos, descreve as relações entre os chefes militares e os chefes dos mocambos, conta as expedições feitas e equipara a uma conquista militar a vitória [parcial] obtida em 1677 por uma expedição que destrói os mocambos e está na origem do acordo de paz”, disse.

O grande ponto, segundo a professora titular do Departamento de História da Unicamp, é que essa crônica sempre havia sido lida pelos estudiosos a partir de uma publicação na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro de 1859 – feita quase 200 anos após ser redigida.

“As pessoas não viram o original, que estava perdido nos arquivos. Quando você olha o original, pode ver que houve transcrições incorretas”, disse Lara. Um bom exemplo é o dos nomes das lideranças palmarinas e dos principais mocambos ali descritos – com diferenças em relação aos consagrados pela historiografia.

“A maior parte de quem lidou com Palmares trabalhou com uma documentação impressa. E quem transcreveu e publicou fez uma seleção. Ao ir às fontes e aos arquivos, localizei uma quantidade muito grande de fontes ao redor desses documentos transcritos, muitas nunca publicadas”, disse.

Os achados estavam no Arquivo Histórico Ultramarino e no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, e na biblioteca pública da cidade de Évora, interior de Portugal.

Saindo da trilha dos Imbangala
Lara também parte de um trabalho publicado em 2007 por Thornton e pela historiadora Linda Heywood, da Boston University, nos Estados Unidos, sobre a história das guerras na África Central para estudar quem eram os africanos escravizados e trazidos para o Brasil que fugiram e acabaram se organizando em agrupamentos em vários pontos de uma extensa região nordestina ao norte do Rio São Francisco, caracterizada por matas de palmeiras.

“Hoje conseguimos saber com um pouco mais de precisão quem eram as pessoas trazidas para cá: muito provavelmente eram falantes de kimbundu, língua africana da região do então reino de Ndongo, que ocupava o que hoje é uma região de Angola”, disse.

Dos vários assentamentos de fugitivos – todos conhecidos nessa época como palmares –, um deles em especial se consolidou durante o período da ocupação holandesa (entre 1630 e 1654), formando uma rede de mocambos que se tornou conhecida depois como Palmares. Nove mocambos chegaram a abrigar no total cerca de 11 mil habitantes, de acordo com algumas fontes.

“Todo mundo diz quilombo dos palmares, mas a palavra ‘quilombo’ é empregada deslocadamente nesse contexto e é anacrônica para designar Palmares. A palavra empregada naquele período para designar ‘assentamentos de fugitivos’ é mocambo”, afirmou Lara.

Segundo a historiadora, “kilombo” é uma palavra africana que significa “acampamento de guerra”, usada pelos grupos nômades guerreiros Imbangala, da África Central. Historiadores como o norte-americano Stuart Schwartz, da Yale University, consideraram que a formação dos quilombos nas Américas estava relacionada a esses acampamentos guerreiros – daí a origem do termo.

“Mas acho que essa não é uma matriz da formação dos assentamentos dos fugitivos no Brasil. Os kilombos Imbangala tinham rituais específicos, com morte de crianças, serragem de dentes e canibalismo. Como eram nômades, não tinham uma ligação territorial nem as linhagens que davam a legitimidade do poder, diferentemente do que ocorreu nos mocambos do interior de Pernambuco, onde se formou um reino linhageiro”, disse Lara.

Os mocambos se organizavam segundo uma gramática política centro-africana, explicou a pesquisadora. Como nos sobados centro-africanos (os potentados locais da África), os chefes políticos dos mocambos do Nordeste mantinham relações de parentesco entre si e todos estavam subordinados a Ganazumba, conhecido como rei dos Palmares. “Esse sobado que se formou no interior de Pernambuco foi reconhecido pelas autoridades coloniais como um poder político independente, com o qual se podia negociar”, disse.

Mudança para Cucaú
A pesquisadora conta que a ideia de as autoridades coloniais fazerem acordos com fugitivos sempre existiu – e não apenas no Brasil. O de 1678, porém, foi o que mais progrediu. Boa parte dos habitantes dos mocambos de Palmares mudou-se para uma aldeia criada especialmente para recebê-los, Cucaú, e eles foram considerados livres.

A paz, no entanto, não durou mais do que dois anos. Uma parte dos mocambos, liderada por Zumbi, rejeitou o acordo e ficou em Palmares. Seguidores de Ganazumba, como seu irmão Ganazona, participaram de buscas para trazer os que haviam permanecido no mato. Ganazumba termina assassinado e Cucaú, destruída, provavelmente por tropas coloniais. As pessoas que moravam lá voltaram à condição de escravos.

“A história contada até hoje sobre Palmares é uma história militante e toda ela converge para o enaltecimento da figura de Zumbi como a grande liderança que jamais se curvou e resistiu à escravidão até ser morto em 1695; as pessoas reiteram e usaram a mesma documentação para dizer mais ou menos a mesma coisa”, ressaltou Lara. “Essa história passa muito rápido pelo acordo de paz. Tão rápido que os termos do acordo nunca foram publicados nas coletâneas de documentos feitas sobre Palmares.”

Interessada em discutir as formas de dominação nesse período e o modo como africanos e indígenas lidaram com o domínio colonial, Lara recupera de todas as formas o acordo. “A história de Palmares, da maneira como a estamos estudando, ajuda a entender como a dominação colonial foi enfrentada e modificada pela ação dos índios e dos africanos na África e no Brasil.”

Com o auxílio do Projeto Temático FAPESP, Lara e sua equipe montaram uma base de dados sobre Palmares, organizada de forma a ser disponibilizada para consulta pública on-line. Cerca de 2 mil documentos foram digitalizados e aos poucos estão sendo transcritos. “Espero que, dentro de dois anos, tudo esteja aberto para o público”, disse.

Diversos bolsistas também produziram trabalhos relacionados à produção da base de dados. Um deles foi a monografia de graduação "Guerras contra Palmares: um estudo das expedições realizadas entre 1654 e 1695", de Laura Peraza Mendes, que ganhou prêmio de melhor monografia de graduação do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp em 2011.

Mendes defenderá sua dissertação de mestrado, que contou com Bolsa FAPESP ( Expedições contra os mocambos de Palmares e os dilemas do governo colonial de Pernambuco, 1654-1695), em agosto de 2013.

Lara agora trabalha para transformar em livro a tese  “Palmares; Cucaú: o aprendizado da dominação”, com a qual se tornou professora titular.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Beto Almeida: João Cândido, petróleo, racismo e emprego


Por: Beto Almeida (*)
07/05/2010

A Transpetro lançou ao mar o navio petroleiro João Cândido. Batizado com o nome de um dos nossos heróis, marinheiro negro, filho de escravos e líder da Revolta da Chibata, o navio tem 247 metros de comprimento, casco duplo que previne acidente e vários significados históricos. Primeiro, leva a industrialização para Pernambuco, contribuindo para reduzir as desigualdades regionais. Em segundo lugar, dá um cala-boca para quem insinuou de forma maldosa que o PAC era apenas virtual. Em terceiro, prova que está em curso a remontagem da indústria naval brasileira criminosamente destruída na era da privataria. Como um simbolismo adicional, um total de 120 operários dekasseguis foram trazidos do Japão, com suas famílias, para juntarem-se aos operários nordestinos que construíram o navio. Os primeiros não precisam mais morar longe da pátria; os outros, saem do canavial para a indústria e não precisam mais pegar o pau-de-arara, nem entoar com amargura a Triste Partida, de Patativa do Assaré, como um certo pernambucano teve que fazer na década de 50. Até que virou presidente.

Mulheres trabalhando como chefes de equipe de soldagem no Estaleiro Atlântico Sul, no município de Ipojuca, em Pernambuco, pronunciavam frases orgulhosas lembrando que não sabiam nem que esta também poderia ser uma tarefa feminina. O ex-pescador de caranguejo contava em depoimento agreste que antes do estaleiro não sabia direito como ganhar o sustento da família a cada dia que acordava. O ex-canavieiro, agora operário, destaca que não depende mais temporalidade insegura da colheita da cana e quando acorda já tem para onde ir, quando antes vivia a insegurança. Estes alguns dos vários depoimentos colhidos na inauguração do navio petroleiro João Cândido ao ser lançado ao mar pernambucano. Deixa em terra um rastro de transformação.

Inicialmente, na vida destas pessoas antes lançadas ao deus-dará de uma economia nordestina reprimida, desindustrializada. A transformação atinge os municípios mais próximos, pois no local onde foi construído o estaleiro, uma antiga moradora, Mônica Roberta de França, negra de 24 anos, que foi escolhida para ser a madrinha do navio, dizia que ali era um imenso areal, não tinha nada. Agora tem uma indústria e uma escola técnica para os jovens da região. E que só agora ela tem seu primeiro emprego na vida com carteira assinada.

Desculpas à Nação
Para o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, o lançamento do João Cândido ao mar tem o mesmo alcance histórico do gesto de Getúlio Vargas quando deu forte impulso à nacionalização da indústria naval brasileira, na década de 30, por meio da empresa de navegação estatal. “Aqueles que destruíram a indústria naval tem que assumir sua responsabilidade e pedir desculpas à Nação”, disse Campos na solenidade que teve a participação de 5 mil pessoas aproximadamente, sobretudo dos operários.

O Navio João Cândido abre uma nova rota para a economia brasileira. Incialmente, porque a Petrobrás já não será obrigada a desembolsar cerca de 2,5 bilhões de reais por ano com o afretamento de navios estrangeiros. Há, portanto, um revigoramento do papel do estado na medida em que a reconstrução da indústria naval brasileira é resultado direto de encomendas da nossa empresa estatal petroleira. O que também permite avaliar a gravidade e o caráter antinacional das decisões que levaram um país com a enorme costa que possui, tendo montado uma economia naval de peso internacional respeitável, retroceder em um setor tão estratégico.

E isso quando nossa economia petroleira, há anos, já dava sinais de expansão, mesmo quando estavam no poder os que promoveram o espantoso sucateamento, a desnacionalização e a abertura da navegação em favor dos países que querem impedir nosso desenvolvimento. Este tema, certamente, não poderá faltar nos debates da campanha presidencial deste ano.

Almirante negro
A escolha do nome João Cândido também foi destacada na solenidade por meio do novo ministro da Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial, Eloy Moreira. Vale registrar que há pouco mais de um ano Lula participou de homenagem ao Almirante Negro inaugurando sua estátua na Praça XV, no Rio, que estava há anos guardada, supostamente porque não teria havido grande empenho da Marinha na realização desta solenidade. Pois bem, agora João Cândido não está apenas nas “pedras pisadas do cais”, com diz a maravilhosa canção de Bosco e Blanc. Está na estátua e está cruzando mares levando para o mundo afora o nome de um de nossos heróis.

Navegar é possível
O novo petroleiro estatal, portanto, é uma prova real de que sim “navegar é possível”, como dizia uma faixa no ato. Navegar na rota inversa daquela que promoveu o desmantelamento da nossa indústria naval. Navegar na rota da revitalização e qualificação do papel protagonista do estado. Recuperar um curso que havia sido fundado lá durante a Era Vargas onde se combinava industrialização e nacionalização com geração de empregos e direitos trabalhistas. Se no período neoliberal foi proclamada a idéia de destruir a “Era Vargas”, agora, está não apenas proclamada, mas já colocada em marcha, a necessidade de reconstruir a partir dos escombros da ruína das privatizações - entulho neoliberal - tendo no dorso no navio-gigante o nome heróico do líder da Revolta da Chibata. Sem revanchismo, o episódio permite lembrar outra canção: “É a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar”

(*) Presidente da TV Cidade Livre de Brasília

fonte: Carta Maior

quarta-feira, 10 de junho de 2009

No ápice do tráfico, Brasil recebeu 775 mil crianças escravas



Imagem publicada no Illustrated London News em 20 de junho de 1857 - Cortesia da New York Public Library
Crianças escravas aparecem em imagem de 1857 (Cortesia New York Public Library)

Pelo menos 775 mil crianças africanas foram escravizadas e levadas para o Brasil nos primeiros cinqüenta anos do século 19, em um período em que o tráfico negreiro atingiu o ápice de sua sofisticação, indicam dados cruzados a partir de novas informações sobre a era da escravidão.

Crianças foram ganhando a preferência dos traficantes porque, entre outros aspectos, eram mais "maleáveis" que adultos, indicam novas pesquisas publicadas duzentos anos após a lei britânica que proibiu o comércio de escravos.

No fim da era escravagista, um em cada três africanos escravizados era criança, nas estimativas do historiador David Eltis, da Universidade de Emory, em Atlanta, um dos maiores especialistas mundiais no tema.

Segundo Eltis, cerca de 12,5 milhões de escravos deixaram a costa da África entre 1500 e 1867, quando se tem registro do último carregamento. Em torno de 10 milhões chegaram aos seus destinos nas Américas.

Nos cálculos do pesquisador, dos 5,5 milhões de pessoas que tinham como destino o Brasil, apenas 4,9 milhões desembarcaram em portos brasileiros.

'Maleáveis'

Os dados de Eltis indicam que quase 2,3 milhões de escravos foram enviados ao Brasil entre 1800 e 1850 – destes, ele acredita que 775 mil eram crianças.

A alta proporção de menores de 15 anos entre os escravos já era conhecida dos pesquisadores – há estimativas que a colocam em até metade do total –, mas novos dados oferecem novas explicações para este fato.

Um estudo de caso publicado na última edição do Journal of Economic History pelos pesquisadores David Richardson, da Universidade britânica de Hull, e Simon Hogerzeil, do Centro Psicomédico Parnassia holandês, mostrou que crianças reagiam melhor à travessia que os adultos.

Richardson disse à BBC Brasil que, além disso, "no fim da era escrava havia uma percepção geral, por parte dos mercadores, de que as crianças eram mais maleáveis que os adultos, que poderiam ser treinadas em habilidades específicas".

Analisando 49 viagens de navios negreiros holandeses entre 1751 e 1797, os pesquisadores observaram que crianças eram compradas antes, porque reagiam melhor à experiência traumática.

Comparada à de um adulto, sua taxa de mortalidade era a metade, calcularam os pesquisadores.

Rugendas retratou o sofrimento dos negros em Nègres à Fond de Cale - Cortesia da New York Public Library
No fim da era escrava havia uma percepção geral, por parte dos mercadores, de que as crianças eram mais maleáveis que os adultos, que poderiam ser treinadas em habilidades específicas.
David Richardson, historiador

Assim, uma criança tinha mais chance que um adulto de passar longos períodos – até um ano, no caso estudado – dentro de um navio negreiro, entre todas as fases do tráfico.

Antes que o navio zarpasse para a viagem transatlântica propriamente dita, uma criança passava em média quatro meses dentro da embarcação – um prazo mais de 40 dias superior ao passado por homens.

"Em outras palavras, as estratégias de compra dos mercadores expunham crianças a riscos por mais longos períodos de tempo que os adultos", disse Richardson.

Em uma viagem típica, os navios da Middelburgsche Commercie Compagnie, que operava no oeste africano, zarpariam com 253 escravos, perderiam 33 ao longo do trajeto e venderiam 220 nas Américas.

Sobrevivência

As observações dos pesquisadores não eliminam a validade de explicações levantadas anteriormente, que atribuíam a forte escravização de crianças à escassez de adultos em determinadas áreas da África.

Outra razão, levantada em entrevista à BBC Brasil pelo historiador Manolo Florentino, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, destaca que senhores brasileiros podem ter sentido necessidade de "importar" mais mulheres e crianças para garantir mão-de-obra futura caso o tráfico negreiro fosse proibido.

Richardson e Hogerzeil destacaram, no entanto, que as condições de aprisionamento dos homens adultos podem estar relacionadas às taxas de mortalidade menores de crianças.

Os homens, comprados aos poucos durante a "fase de carregamento" do navio, entravam em grande quantidade no final da etapa, a menos de um mês ou até a menos de uma semana da partida, verificaram os pesquisadores.

"As condições dos escravos no momento da embarcação é criticamente importante para determinar por que eles sucumbiam mais durante a travessia", diz o estudo.

"Isto pode estar associado a pressões sobre os capitães para levar homens adultos para satisfazer as expectativas dos compradores, o que os encorajava a ser menos rigorosos na seleção."

"Os homens também eram tipicamente vistos como instigadores de rebeliões dentro dos navios, e sofriam mais fatalidades durante esses incidentes."

"Além disso", justificam os pesquisadores, "os homens eram normalmente encarcerados em celas separadas de mulheres e crianças, e normalmente ficavam presos por ferros, sobretudo quando o navio ainda estava próximo da África".

* BBC- Colaborou Sílvia Salek, de Londres.

domingo, 14 de dezembro de 2008

200 anos da Chegada da Corte e a continuidade da escravidão


A terceira margem do Rio

Estudos sobre a vinda da família real ao Brasil ignoram que país estava inserido no contexto mais amplo do Atlântico Sul

LUIZ FELIPE DE ALENCASTRO

No termo do ano do bicentenário, talvez ainda haja algo para ser dito sobre a chegada da corte.
Eventos variados apresentaram as mudanças introduzidas em 1808.
Apontou-se o desenvolvimento comercial, a modernização social e institucional, o transplante da burocracia européia que forjou o aparelho estatal da nação, a não-fragmentaçã o da América portuguesa e a singularidade monárquica brasileira no contexto americano.
Some-se a isso certa nostalgia da época em que o Rio de Janeiro era a capital política, econômica e cultural do país.
Com exceção deste último aspecto, os temas não foram muito distintos dos que haviam sido destacados cem anos atrás.
Como há um século, a comemoração da vinda da corte serviu para apregoar a preeminência do Brasil na história da expansão européia e a excepcionalidade do destino brasileiro.
Pouco se falou a respeito da ofensiva inglesa no Atlântico Sul, ilustrada pelos ataques de 1806 e 1807 a Buenos Aires, cujo comércio seria em seguida aberto à Inglaterra.
Quase nada foi notado sobre o arrocho de Londres para que a corte viesse para o Brasil comboiada -subjugada pelos canhões da Royal Navy.
No entanto -respondendo à chancelaria britânica, que insistia, ainda em 1838, na generosidade da ajuda naval inglesa em 1808-, Sá da Bandeira, primeiro-ministro português, argumentou que a corte podia muito bem ter se estabelecido na ilha da Madeira, mais próxima de Lisboa e inacessível à Marinha de Guerra francesa (destruída em 1805 na batalha de Trafalgar).

Pressão inglesa
Para ele, a vinda da corte para o Rio de Janeiro fora imposta pelos ingleses, sobretudo interessados em ter livre acesso ao mercado da América portuguesa. Nessa perspectiva, o fator decisivo do translado da corte é a pressão inglesa para forçar a abertura do comércio do Brasil.
Assim, o plano de mudança da sede do reino, cogitado desde sempre por uma elite portuguesa ansiosa por vir morar em Pindorama -eixo central da historiografia e do comemoracionismo- , se torna aleatório.
Enviesada por uma interpretação territorial da história do Brasil que desconsidera a unidade do Atlântico Sul, boa parte das análises não atinou para o outro evento marcante de 1808: o engolfamento brasileiro nos portos africanos abandonados pelos negreiros da Inglaterra e dos EUA.
De fato, concretizou- se nesse mesmo ano a proibição do tráfico de africanos ordenada aos comerciantes dos dois países por seus respectivos governos.
Atenta à mudança, a Mesa de Inspeção -órgão regulador do comércio do Rio- anunciou, em agosto de 1808, as grandes oportunidades abertas ao Brasil, "pela falta de concorrentes estrangeiros na costa [da África], sendo a todos vedado este comércio [de escravos]".
Na seqüência, as trocas diretas com a Inglaterra estimulam as exportações brasileiras para a Europa, avolumando a importação de africanos.
Campeão absoluto do comércio negreiro, já considerado pirataria no século 19, o Brasil captou 1,5 milhão de africanos entre 1808 e 1850. Desses, 760 mil foram ilegalmente introduzidos no país, sobretudo entre 1831 e 1850.
Conforme a legislação brasileira de 1831, todos esses indivíduos eram considerados livres ao pisarem nas praias do império. Sua redução ao cativeiro constituía crime de seqüestro.
Porém a esmagadora maioria deles -e de seus filhos e netos- foi mantida na escravidão com a tolerância das autoridades e o conluio da sociedade.

Livres e escravizados
Desse modo, as duas últimas gerações de escravos simplesmente não eram escravos. Trata-se de indivíduos plenamente livres e escravizados ao arrepio da lei.
Nesse contexto, a transferência da corte ofereceu duas condições importantes para a sobrevivência do sistema negreiro. Um governo português -e depois brasileiro- obstinado na continuidade do escravismo e um aparato diplomático competente, apto a neutralizar as ofensivas diplomática e naval inglesa, protelando o tráfico de africanos até 1850.
A visão irênica da chegada da corte propala a ocidentalização do Brasil pela dinastia dos Bragança que reinava nas duas margens do Atlântico.
Mas houve também uma terceira margem no rio-oceano, formando a cadeia de trocas que conectou a barbárie ao progresso econômico: quanto mais cresceu a economia brasileira, mais gente foi arrancada da África e escravizada no Brasil.
O poeta alemão Heinrich Heine escrevia em 1833: "Cada época é uma esfinge que mergulha no abismo logo que o seu problema é decifrado".
Terá o Brasil decifrado as conseqüências do problema gerado em 1808?




LUIZ FELIPE DE ALENCASTRO é historiador e professor na Universidade de Paris 4. É autor de "O Trato dos Viventes" (Cia. das Letras) e escreve regularmente na seção "Autores", do Mais!.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Jornal Unicamp, especial sobre Machado de Assis

Machado de Assis: abordagens explícitas e nas entrelinhas (Foto: Academia Brasileira de Letras)“Há pessoas que não
sabem, ou não se lembram
de raspar a casca do riso
para ver o que há dentro”.
Machado de Assis

Machado de Assis é incontestavelmente um dos maiores escritores da literatura brasileira. Está citado no livro Gênio, de Harold Bloom, renomado crítico da atualidade, entre os cem maiores escritores mundiais. Segundo Bloom, “Machado reúne os pré-requisitos da genialidade. Possui exuberância, concisão e uma visão irônica ímpar do mundo”.

Apesar de todo reconhecimento e homenagens, cem anos depois de sua morte, há ainda quem insista em repetir a leviana afirmativa de Hemérito dos Santos, de que o escritor não se envolveu na causa abolicionista e negou sua origem.

Com o propósito de oferecer uma contribuição, ainda que pequena, no estudo da personagem negra, seu múltiplo processo de construção, sócio-histórico-literário, e nele começar a desvelar a face da personagem negra na obra de Machado de Assis, desenvolvemos uma pesquisa, concluída em 1997, que resultou no livro Imagens, Máscaras e Mitos; o negro na obra de Machado de Assis.1

“A ficção é imitação [...] da ação, isto é, disto que já conhecemos como ação e interação no envolvimento físico e social”,2 afirma Paul Ricoeur. Ao buscarmos a personagem negra na literatura, estamos também buscando a representação desta “ação e interação” do elemento negro na sociedade do seu tempo.

No tempo de Machado, as teorias raciais e crenças etnocêntricas ainda apregoavam uma hierarquia etnográfica na qual o negro ocupava o último grau da escala social. Assim, embora elemento integrante (juntamente com o branco e o índio) da civilização brasileira, era marginalizado. A literatura não o omitiu, mas sua voz e ação, muitas vezes, quando não apagadas, foram tolhidas, distorcidas, ou mascaradas. Sua presença, em geral, se dá por tipos. O indivíduo representa o coletivo.

O discurso a seu respeito variava conforme o posicionamento de quem escrevia: estereotipada, a imagem do negro, passa de dócil, infantil, fiel, subjugada a violenta, feroz, vingativa, em razão dos interesses do momento e contexto em que é inserido o estereótipo.

Nos discursos, porém, a classificação não é estanque. Textos qualificados em uma das duas categorias, às vezes, trazem em seu interior pequenos deslizes do autor, que denunciam um posicionamento diferente do anunciado ou proposto. As Vítimas Algozes, de Joaquim Manoel de Macedo, publicado em 1869, é um bom exemplo disto; embora se apresente como um libelo contra a escravidão, seu discurso é, ao mesmo tempo, antinegro. Para demonstrar quão danosa é a instituição da escravidão e a necessidade de aboli-la, o autor anuncia que contará estórias verdadeiras e mostrará “os vícios ignóbeis, a perversão, os ódios, os ferozes instintos do escravo, inimigo natural e rancoroso do seu senhor”3 MACEDO.

Joaquim Manoel de. - As Vítimas Algozes: quadros da escravidão. Rio de Janeiro: Garnier, 1871. 2a. ed., p. XIV..

As Vítimas Algozes são o que podemos chamar de romance de tese, conforme Silviano Santiago: “no romance de tese, a verdade se insinua por detrás de cada palavra, de cada gesto, cada cena, induzindo o leitor a pensar ser ela a única a apreender corretamente o significado das cenas ou do drama apresentado pelo texto”4. Nesse sentido, Macedo não está sozinho.

O contraponto é que, ao criar uma imagem do negro escravizado, baseando-se na concepção ideológica senhorial, o autor do discurso, de certa forma constrói, também, a sua própria imagem. Em oposição à selvageria, à indolência, à submissão, à promiscuidade, ele é a civilidade, a moral, o domínio, a posse, a superioridade. Ele é o que o outro não é. Sem se dar conta, talvez, de que nesta construção, ausentando-se o outro, a sua tão bem construída imagem deixa de existir.

É o que se pode ver, bem elaborado, no conto O Espelho5: esboço de uma teoria da alma humana, de Machado de Assis, publicado em Papéis Avulsos, em 1882.

Nele, Jacobino, um jovem pobre, é promovido a alferes da Guarda Nacional. Tal fato é festejado e motivo de orgulho para toda a família. Na fazenda de sua tia, uma fazendeira escravista, não é mais chamado pelo nome, só pelo título. Todos os escravos estão obrigados a tratá-lo de “senhor alferes”. Um dia, estando a tia ausente da fazenda, os escravos fogem, abandonando o alferes, privando-o da admiração a que estavam obrigados.

“Achei-me só, sem mais ninguém, entre quatro paredes (...) Nenhum fôlego humano.(...) ninguém, um molequinho que fosse. Gatos e galinhas tão-somente, um par de mulas, que filosofavam a vida, sacudindo as moscas, e três bois... nenhum ente humano. Pareceu-lhes que isto era melhor do que ter morrido? Era pior”.6

Jacobino, sem os sustentadores de sua “identidade”, percebe-se sem imagem no espelho, único espaço onde, ainda, podia se refletir. O que restou na fazenda foram apenas os animais, instrumentos de produção; bens semoventes, categoria em que os escravos eram incluídos. A questão é que os animais não representam a alteridade, no sentido de refletir a identidade do outro. Na ausência do escravo, cai por terra a ordem escravocrata e com isso o autoconceito de superioridade apregoado pela ideologia vigente em relação aos senhores.

Há nesse conto um absoluto silêncio a respeito tanto da escravidão quanto aos possíveis acontecimentos relacionados aos escravos fugidos. Entretanto, como reflete Eni Orlandi,"O silêncio é. Ele significa.”7 Ao calar-se, Machado abre espaço para uma significação outra, que a óbvia. Uma forma sutil, para gerar idéias.

Mas, se no conjunto da obra do autor estão incorporados elementos históricos e sociais a serem lidos nas entrelinhas, há também momentos em que sua colocação é explícita. Isto ocorre, sobretudo, nas crônicas e na crítica. Vejamos, por exemplo, o trecho de uma carta endereçada a José de Alencar, datada de fevereiro de 1868, na qual Machado tece elogios a Castro Alves8. Esta carta era, de fato, a crítica do escritor, sobre o drama Gonzaga, escrito pelo poeta, portanto, destinada a ser lida pelo público.

“Eu não podia, por exemplo, deixar de mencionar aqui a figura do preto Luiz. Em uma conspiração para a liberdade, era justo aventar a idéia da abolição. Luiz representa ao elemento escravo. Contudo o Sr. Castro Alves não deu exclusivamente a paixão da liberdade[...]. Luiz espera da revolução, antes da liberdade, a restituição da filha; é a primeira afirmação da personalidade humana; o cidadão virá depois. Por isso, quando no terceiro ato Luiz encontra a filha já cadáver, e prorrompe em exclamações e soluços, o coração chora com ele, e a memória, se a memória pode dominar a tais comoções, nos traz aos olhos a bela cena do rei Lear, carregando nos braços Cordélia morta. Quem os compara não vê nem o rei nem o escravo; vê o homem”.

Serão essas palavras de um omisso, dissimulado para não transparecer sua condição racial?

Bastante explícitos também são algumas poesias e contos, vale notar, escritos antes da abolição. O poema Sabina, publicado em 1875, por exemplo. Embora incluído no livro Americanas, foge à temática indígena, sugerida inclusive pelo título da obra. Sabina é um longo poema que relata a sedução de uma jovem mucama, não embranquecida, mas tratada de forma paternalista. Jovem, virgem de tez morena, cabelos cor da noite escura, busto moldado em modelo clássico e olhos brandos cor de jabuticabas.

A conquista de Sabina não passa pela violência física, prática comum na “ideologia falocrática”9 Sant’Ana, Affonso Romano de. - “O Canibalismo Erótico na Sociedade Escravocrata.”In. Revista do Brasil. Rio de Janeiro: FUNARJ, 1984. N. 1/84. p. 14., descrita de forma magistral por Castro Alves, em “A Cachoeira de Paulo Afonso”. A abordagem é romântica. O narrador, indiferente como o rio, “ao mal ou bem que lhe povoa a margem” desnuda a alma de ambos.

O jovem conquistador, Otávio, volta para a corte. “Com ela a alma não fica. De seu jovem senhor.” Não fica a alma, mas fica-lhe um filho no ventre. A reação dos companheiros de desventura é de total falta de solidariedade, impera a inveja, o ciúme, a maledicência e a superstição. “Após os dias da saudade, os dias da esperança”, e a decepção. Otávio volta casado. Em desespero, Sabina pensa em se matar, mas no último momento desiste.

O poema, embora aparente descrever a aceitação do cativeiro, denuncia a trágica ironia do paternalismo e as suas conseqüências. Uma faceta da escravidão, muito conveniente aos senhores e, em parte, responsável pela crença de que, no Brasil, a vida dos escravos era amena.

A crença na igualdade, pelo tratamento privilegiado, impede de ver: “o fundo abismo tenebroso e largo que separa”10 senhores e escravos. A delicadeza não garante o afeto, nem evita o abandono da escrava, mas facilita a “caçada” do sinhozinho. Além disso, provoca sentimentos desagregadores dentro do meio escravo, afastando a solidariedade e a confiança. Preserva a imagem ideológica, segundo a qual escravo é gente dotada de maus sentimentos, quando não de apatia, servilismo e resignação.

Enquanto Castro Alves denuncia a violência explícita a que os escravos e, principalmente as mulheres, negra e mulata, estavam expostos, Machado revela outras formas de violência, nem sempre tão explícitas, mas igualmente cruéis e doloridas. A violência, que passa pela dissimulação e falsa camaradagem, instituída para amenizar as relações entre senhor e escravo, aumentar a produção, garantir fidelidade e diminuir as fugas e as revoltas, bem como as despesas com segurança ostensiva.

No conto, como em outras obras, não há floreios nem uso de meias palavras. Machado não transforma o negro em herói ou ser extraordinário, nem o pinta com as cores miseráveis da ideologia dominadora. Ele o apresenta como ser humano que é, sujeito em sua condição de oprimido. Sem fazer apologia, mas de forma sutil, o autor, a seu modo, desnuda a realidade senhorial e revela uma sociedade em que a condição econômica define o indivíduo, determina sua exclusão ou aceitação. Uma sociedade que, sob uma fachada moderna e liberal, oculta as bases do sistema colonial, o escravismo e o clientelismo, como bem explicita Roberto Schwarz em Ao Vencedor as Batatas.11

A crônica foi outro gênero de produção escrita que Machado de Assis exerceu com a habilidade criativa e crítica que lhe era peculiar. Nelas, encontramos um Machado de Assis irônico e sarcástico, que enfoca diversos estágios do período abolicionista, as manipulações dos senhores, a violência inerente ao sistema de dominação. Faz isso, ora de forma direta, ora dissimulada, mas preservando um distanciamento crítico e lançando mão dos recursos de estilo que lhe eram comuns.

Muitos seriam os exemplos a serem aqui elencados, mas por que não deixar para o leitor o prazer deste desvelar? Uma leitura mais atenta de algumas das obras e se pode perceber de que lado o escritor está. Para isso, se necessário, não faltam bons guias: Roberto Schwarz, John Gledson, Sidney Chalhoub e outros. Podemos adiantar que a preocupação de Machado de Assis era com o homem, o ser humano e sua interioridade psicológica e moral. O escravo, antes de sua condição servil, era um ser humano; e assim Machado o via e o retratava em sua obra.

Experimente ler, reler! Permita-se um passeio pelo universo cifrado das obras machadianas. Por prazer, deleite-se!

Mailde J. Trípoli é autora do livro Imagens, Máscaras e Mitos; o negro na obra de Machado de Assis (Editora da Unicamp)

NOTAS

1 TRÍPOLI, Mailde Jerônimo. Imagens, Máscaras e Mitos: o negro na obra de Machado de Assis. Campinas/SP, Editora UNICAMP, 2006
2 RICOEUR, Paul. “L’Identité Narrative.” In. Revue des Sciences Humaines. No 221
4 SANTIAGO. Silviano. Desvios da Ficção. In PATROCÍNIO, José do. - Mota Coqueiro. .P. 13.
5 ASSIS, Machado de. “O Espelho“. In. Papeis Avulsos. Rio de Janeiro: Garnier, s/d. p. 221-235
6 ASSIS. Machado de. - “O Espelho”. In O Conto de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980. p.142.
7 PUCCENELLI. Eni Orlandi. - As Formas do Silêncio: No Movimento dos Sentidos. Campinas: Editora da UNICAMP, 1993. 2a. ed.
8 Assis, Machado. Crítica. (Coleção feita por Mario de Alencar). Rio de Janeiro, Livraria Garnier, Sd. p.54 e55. (grafia atualizada).
10 ASSIS, Machado de. “Sabina”. Op. Cit., p.423
11 Schwarz, Roberto. Ao Vencedor as Batatas. São Paulo, Duas Cidades, 1981. p. 20.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Escravos letrados

Em Minas Gerais, entre os séculos XVIII e XIX, atributos como leitura, escrita e capacidade musical eram valorizados; no XIX, os negros eram maioria na escola

Alex Sander Alcântara

Os corpos de 70 negros se espalham pelos arredores do Quartel de Cavalaria, em Água de Meninos, Salvador. Outros 280 são presos. Cai à bala a Revolta dos Malês, levante de escravos e libertos islâmicos na Bahia, em janeiro de 1835. No corpo, amuletos trazem papéis escritos pelos próprios revoltosos.

"Nas senzalas da Bahia de 1835 havia talvez maior número de gente sabendo ler e escrever do que no alto das casas-grandes."A frase, de Gilberto Freyre em Casa grande & senzala, ilumina um fenô­me­no pouquíssimo difundido: o da fa­mi­liaridade dos escravos com a escrita, portuguesa ou não (os malês escreviam em árabe suas orações a Alá).

Por tempo demais a historiografia tradicional difundiu a idéia de que os negros trazidos ao Brasil até o século XIX não sabiam ler nem escrever. Aos poucos, esse mito perde espaço. Pesquisas em história da educação levantam evidências de uma disseminação da cultura escrita entre escravos e alforriados. Há pistas de que, nos séculos XVII e XVIII, os negros foram decisivos na difusão do português no Brasil.
(Litogravura de Rugendas, primeira metade do século XIX, que representa um mercado de escravos. Observe à esquerda da imagem um cativo registra algo na parede sob olhares de outros cativos e de um homem branco e livre posicionado ao centro da gravura)

Um estudo de Christianni Cardoso Morais, do Departamento de Educação da Universidade Federal de São João del-Rei, em Minas Gerais, reforça a idéia de que mesmo os escravos e alforriados iletrados sabiam se utilizar da escrita numa época em que eram proibidos de freqüentar escolas. A pesquisa se baseia em anúncios de jornais e em documentos. Nos anúncios, era comum a descrição física e das habilidades dos escravos foragidos ou à venda. Além de marcas e cicatrizes, realçavam-se atributos, como ofício, capacidade musical, de leitura ou de escrita.

"Ter profissão especializada, como alfaiate, pedreiro ou carpinteiro, que exigia o uso de medidas e cálculos, indica um grau refinado de "letramento", termo que ajuda a entender os usos sociais, culturais e históricos atribuídos à palavra escrita", diz Christianni.

Consciência escrita

A pesquisadora faz doutorado sobre a disseminação da escrita na região. Analisou 1.612 documentos de 1731 a 1850, relatórios do Ministério da Agricultura, testamentos, processos-crime, além de anúncios de O Astro Minas, um jornal do perío­do. A região analisada é a comarca do Rio das Mortes, cidade mineira escolhida pela importância econômica e cultural que teve no século XVIII. O recorte temporal seguiu a lógica imposta pela documentação, mais abundante naqueles anos.

"A cidade exercia a função de entreposto, pois era centro de exportação dos produtos mineiros e de redistribuição das mercadorias da Corte. Possuía vida política e cultural intensa, com biblioteca pública e imprensa periódica", diz Christianni.

Para determinar os graus de letramento dos escravos, ela usou um método de análise de assinaturas a partir de escala de cinco níveis desenvolvida pelo português Justino Magalhães. O primeiro corresponde ao mero uso de siglas ou sinais; o nível 2, à assinatura ainda rudimentar, imperfeita; o 3 indica assinatura completa; o nível 4, uma caligrafia mais precisa e o 5, mais personalizada. Maior a complexidade do traçado, maior o domínio do idioma.

"Fotografo e analiso as assinaturas tendo por base a caligrafia da época. Busco perceber se a pessoa tinha traço firme, bem organizado e distribuído na folha, se conseguia fazer arabescos, ligava as letras ou tinha boa escrita cursiva, o que não era fácil na época porque os ensinos da leitura e da escrita eram dissociados. Então, se o assinante se encaixa no nível 2, provavelmente sabia ler", conclui.

Combinado

O método não é exato, admite Christianni. Mas, na ausência de fontes diretas, as assinaturas assumem a condição de documento, sobretudo, pelo poder simbólico entre os assinantes.
"Quando sabiam assinar, os negros aumentavam seu status numa sociedade basicamente iletrada."

O ensino "combinado" da leitura e da escrita se disseminou só após 1850. Antes, primeiro se aprendia a ler, depois a escrever. Depois, surgiram pessoas com assinaturas bem compostas, mas que, na prática, não sabiam ler. Essas foram descartadas por Christianni. Ela ainda coletou 76 anúncios, dos quais 5 com mulheres, pois só homens tendiam a ser identificados, como o "escravo pardo de nome Vicente", "oficial de alfaiate, [que] sabe ler e escrever".

Evidência mais segura do letramento escravo é a presença de negros nas escolas do século XIX, em Minas Gerais, em proporção superior à dos brancos. Para Marcus Vinicius Fonseca, autor de Educação dos negros (Edusf, 2002), quando se fala em educação elementar nas Minas Gerais do período é preciso ter em mente uma escola negra.

O perfil populacional de 1830 o comprova. Segundo Fonseca, a comunidade livre de Minas era de 270 mil pessoas, 59% das quais negras, somando-se os 130 mil escravos locais.

"No Brasil, a escola sempre foi vinculada à modernização, ao passo que o negro foi associado ao atraso. A discussão sobre a democratização das universidades e a de que a inserção dos negros pode comprometer o nível das instituições é manifestação tácita desse raciocínio" diz Fonseca.

Vazio

Há, no entanto, um silêncio da historiografia sobre a relação do escravo com a língua portuguesa. Fervilham hipóteses. Como a da professora da Faculdade de Educação da UFMG Cynthia Greive Veiga, para quem os negros tiveram participação ativa na difusão da língua portuguesa no Brasil Império. Os africanos precisavam dominar o idioma que os adaptasse à sociedade. Tal fato fez coro à oficialização do português nos tempos da Independência.

Os registros de inspetores e professores das aulas elementares do século XIX, sobre o desempenho de alunos em leitura e escrita ("sofrível", "não sabe nada"), podem ter relação com as tensões entre um português oficial e outro misto, marcado pelos dialetos africanos.

Os sinais, desde Gilberto Freyre, abrem veio importante a investigar. Já se pode provar a distância entre ser negro e escravo, por exemplo, e de que essa distância parece passar pelo letramento. Os escravos letrados podem ter sido exceção no Brasil, como os de Minas ou os da Bahia de 1835. Mas será preciso muita pesquisa para entender a real difusão das práticas de leitura e escrita negra no Império, e a relação dos escravos com a língua portuguesa. O terreno está a explorar. Mas está dado.

Alcântara, Alex Sander. Escravos letrados. Revista Educação, edição n. 136. Extraído da versão online publicada no Boletim Mineiro de História, edição 155

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Cativos letrados no Brasil do século XIX

Pesquisadores descobrem uma notável cultura da escrita entre os negros brasileiros do século 19

Alex Sander Alcântara

Os corpos de 70 negros se espalham pelos arredores do Quartel de Cavalaria, em Água de Meninos, Salvador. Outros 280 são presos. Cai à bala a Revolta dos Malês, levante de escravos e libertos islâmicos na Bahia, em janeiro de 1835. No corpo, amuletos trazem papéis escritos pelos próprios revoltosos.

"Nas senzalas da Bahia de 1835 havia talvez maior número de gente sabendo ler e escrever do que no alto das casas-grandes."

A frase, de Gilberto Freyre em Casa Grande & Senzala, ilumina um fenô­me­no pouquíssimo difundido: o da fa­mi­liaridade dos escravos com a escrita, portuguesa ou não (os malês escreviam em árabe suas orações a Alá).


Por tempo demais a historiografia tradicional difundiu a idéia de que os negros trazidos ao Brasil até o século 19 não sabiam ler nem escrever. Aos poucos, esse mito, que alimentou o preconceito secular contra a inteligência negra, perde espaço na recomposição da escravidão, cuja Lei Áurea completou 120 anos.

Pesquisas em história da educação levantam evidências de uma disseminação da cultura escrita entre escravos e alforriados. Há pistas de que, nos séculos 17 e 18, os negros foram decisivos na difusão do português no Brasil.

Um estudo de Christianni Cardoso Morais, do Departamento de Educação da Universidade Federal de São João del-Rei, em Minas Gerais, reforça a idéia de que mesmo os escravos e alforriados iletrados sabiam se utilizar do escrito numa época em que eram proibidos de freqüentar escolas. A pesquisa se baseia em anúncios de jornais e em documentos. Nos anúncios, era comum a descrição física e das habilidades dos escravos foragidos ou à venda. Além de marcas e cicatrizes, realçavam-se atributos, como ofício, capacidade musical, de leitura ou de escrita.

- Ter profissão especializada, como alfaiate, pedreiro ou carpinteiro, que exigia o uso de medidas e cálculos, indica um grau refinado de "letramento", termo que ajuda a entender os usos sociais, culturais e históricos atribuídos à palavra escrita - diz Christianni.

Consciência escrita

A pesquisadora faz doutorado sobre a disseminação da escrita na região. Analisou 1.612 documentos de 1731 a 1850, relatórios do Ministério da Agricultura, testamentos, processos-crime, além de anúncios de O Astro Minas, um jornal do período. A região analisada é a Comarca do Rio das Mortes, cidade mineira escolhida pela importância econômica e cultural que teve no século 18. O recorte temporal seguiu lógica imposta pela documentação, mais abundante naqueles anos.


- A cidade exercia a função de entreposto, pois era centro de exportação dos produtos mineiros e de redistribuição das mercadorias da Corte. Possuía vida política e cultural intensa, com biblioteca pública e imprensa periódica - diz Christianni.

Para determinar os graus de letramento dos escravos, ela usou um método de análise de assinaturas a partir de escala de cinco níveis desenvolvida pelo português Justino Magalhães. O primeiro corresponde ao mero uso de siglas ou sinais; o nível 2, à assinatura ainda rudimentar, imperfeita; o 3 indica assinatura completa; o nível 4, uma caligráfica mais precisa e o 5, mais personalizada. Maior a complexidade do traçado, maior o domínio do idioma.

- Fotografo e analiso as assinaturas tendo por base a caligrafia da época. Busco perceber se a pessoa tinha traço firme, bem organizado e distribuído na folha, se conseguia fazer arabescos, ligava as letras ou tinha boa escrita cursiva, o que não era fácil na época porque os ensinos da leitura e da escrita eram dissociados. Então, se o assinante se encaixa no nível 2, provavelmente sabia ler.

Combinado

O método não é exato, admite Christianni. Mas, na ausência de fontes diretas, as assinaturas se tornam fontes, sobretudo, pelo poder simbólico entre os assinantes.

- Quando sabiam assinar, os negros aumentavam seu status numa sociedade basicamente iletrada.

O ensino "combinado" da leitura e da escrita se disseminou só após 1850. Antes, primeiro se aprendia a ler, depois a escrever. Depois, surgiram pessoas com assinaturas bem compostas, mas que na prática não sabiam ler. Essas foram descartadas por Christianni. Ela ainda coletou 76 anúncios, dos quais 5 com mulheres, pois só homens tendiam a ser identificados, como o "escravo pardo de nome Vicente", que era "oficial de alfaiate, sabe ler e escrever".

Evidência ainda mais segura do letramento escravo é a presença de negros nas escolas do século 19, em Minas Gerais, numa proporção muito superior à dos brancos. Para Marcus Vinicius Fonseca, autor de Educação dos Negros (Edusf, 2002), quando se fala em educação elementar nas Minas Gerais do período é preciso ter em mente uma escola negra.

Christianni Morais e os tipos de assinatura que denunciam o grau de letramento dos escravos: uma de nivel 1 (só com sinais) do alforriado Cruz de Antônio José, em 1810 (testamento, 1818, cx.06); outra de nível 2, ainda rudimentar, do alforriado João da Silva Abreu, de 1789 (testamento, 1791,cx.01) e outra de nível 3, mais completa

O perfil populacional de 1830 o comprova. Segundo Fonseca, a comunidade livre de Minas era de 270 mil pessoas, 59% das quais negras, somando-se os 130 mil escravos locais.

- No Brasil, a escola sempre foi vinculada à modernização, ao passo que o negro foi associado ao nosso atraso. A discussão sobre a democratização das universidades e a de que a inserção dos negros pode comprometer o nível das instituições é manifestação tácita desse raciocínio - diz Fonseca.


Vazio

Há, no entanto, um silêncio da historiografia sobre a relação do escravo com a língua portuguesa. Fervilham hipóteses. Como a da professora da Faculdade de Educação da UFMG Cynthia Greive Veiga, para quem os negros tiveram participação ativa na difusão da língua portuguesa no Brasil Império. Os africanos precisavam dominar o idioma que os adaptasse à sociedade. Tal fato fez coro à oficialização do português nos tempos da Independência.


- Os registros de inspetores e professores das aulas elementares do século 19, sobre o desempenho de alunos em leitura e escrita ("sofrível", "não sabe nada"), podem ter relação com as tensões entre um português oficial e outro misto, marcado pelos dialetos africanos.

Os sinais, desde Gilberto Freyre, abrem veio importante a investigar. Já se pode provar a distância entre ser negro e escravo, por exemplo, e de que essa distância parece passar pelo letramento. Os escravos letrados podem ter sido exceção no Brasil, como os de Minas ou os da Bahia de 1835. Mas será preciso muita pesquisa para entender a real difusão das práticas de leitura e escrita negra no Império, e a relação dos escravos com a língua portuguesa. O terreno está a explorar. Mas está dado.