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terça-feira, 1 de abril de 2008

01/04/1964, alguns documentos

Quarenta e quatro anos após o golpe militar ainda estamos construindo nossa democracia.
Em postagens anteriores destacamos o importante livro Direito à verdade e à memória: comissão especial sobre mortos e desaparecidos políticos, publicado em 2007 pela Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, livro que resgata a memória dos mortos e desaparecidos, vítimas da ditadura.

Hoje indicamos o filme 'Que bom te ver viva' de Lucia Murat.
Trata-se de um filme bastante sensível que une a interpretação de Irene Ravache entrecortada pelos depoimentos de 8 presas políticas sobreviventes da repressão e cuja ação política, após a queda do regime militar, contribuiu para reconstrução da redemocratização e ampliação da cidadania em nosso país.

Em nossa biblioteca virtual destacamos um artigo em PDF que faz uma excelente análise deste filme, acesse aqui.

Como documentos de época, destacamos uma gravação telefônica de uma conversa entre George Ball e o presidente estadunidense Lyndon Johnson, disponível no youtube, traduzida pelo jornalista L.C. Azenha. Do Vi o mundo também destacamos o editoral do Jornal O Globo apoiando o golpe militar.
Do blog do Mello trouxemos o vídeo atual de Jair Bolsonaro e da Agência Carta Maior o artigo de Lungaretti.

Bom trabalho, professores!

Vídeo com a conversa entre George Ball e o presidente Lyndon Johnson sobre o apoio dos Estados Unidos ao golpe militar de 1964, no Brasil:



Como demonstra o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) , ex-militar, defensor da pena de morte, da tortura, com traços homofóbicos e que já quis fuzilar FHC, O Globo não esteve sozinho nas comemorações do golpe militar:


editorial de "O Globo", em 02/04/1964

Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas, que obedientes a seus chefes demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do Governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições.

Como dizíamos, no editorial de anteontem, a legalidade não poderia ser a garantia da subversão, a escora dos agitadores, o anteparo da desordem. Em nome da legalidade, não seria legítimo admitir o assassínio das instituições, como se vinha fazendo, diante da Nação horrorizada.

Agora, o Congresso dará o remédio constitucional à situação existente, para que o País continue sua marcha em direção a seu grande destino, sem que os direitos individuais sejam afetados, sem que as liberdades públicas desapareçam, sem que o poder do Estado volte a ser usado em favor da desordem, da indisciplina e de tudo aquilo que nos estava a levar à anarquia e ao comunismo.

Poderemos, desde hoje, encarar o futuro confiantemente, certos, enfim, de que todos os nossos problemas terão soluções, pois os negócios públicos não mais serão geridos com má-fé, demagogia e insensatez.

Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares, que os protegeram de seus inimigos. Devemos felicitar-nos porque as Forças Armadas, fiéis ao dispositivo constitucional que as obriga a defender a Pátria e a garantir os poderes constitucionais, a lei e a ordem, não confundiram a sua relevante missão com a servil obediência ao Chefe de apenas um daqueles poderes, o Executivo.

As Forças Armadas, diz o Art. 176 da Carta Magna, "são instituições permanentes, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade do Presidente da República E DENTRO DOS LIMITES DA LEI."

No momento em que o Sr. João Goulart ignorou a hierarquia e desprezou a disciplina de um dos ramos das Forças Armadas, a Marinha de Guerra, saiu dos limites da lei, perdendo, conseqüentemente, o direito a ser considerado como um símbolo da legalidade, assim como as condições indispensáveis à Chefia da Nação e ao Comando das corporações militares. Sua presença e suas palavras na reunião realizada no Automóvel Clube, vincularam-no, definitivamente, aos adversários da democracia e da lei.

Atendendo aos anseios nacionais, de paz, tranqüilidade e progresso, impossibilitados, nos últimos tempos, pela ação subversiva orientada pelo Palácio do Planalto, as Forças Armadas chamaram a si a tarefa de restaurar a Nação na integridade de seus direitos, livrando-os do amargo fim que lhe estava reservado pelos vermelhos que haviam envolvido o Executivo Federal.

Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais. Aliaram-se os mais ilustres líderes políticos, os mais respeitados Governadores, com o mesmo intuito redentor que animou as Forças Armadas. Era a sorte da democracia no Brasil que estava em jogo.

A esses líderes civis devemos, igualmente, externar a gratidão de nosso povo. Mas, por isto que nacional, na mais ampla acepção da palavra, o movimento vitorioso não pertence a ninguém. É da Pátria, do Povo e do Regime. Não foi contra qualquer reivindicação popular, contra qualquer idéia que, enquadrada dentro dos princípios constitucionais, objetive o bem do povo e o progresso do País.

Se os banidos, para intrigarem os brasileiros com seus líderes e com os chefes militares, afirmarem o contrário, estarão mentindo, estarão, como sempre, procurando engodar as massas trabalhadoras, que não lhes devem dar ouvidos. Confiamos em que o Congresso votará, rapidamente, as medidas reclamadas para que se inicie no Brasil uma época de justiça e harmonia social. Mais uma vez, o povo brasileiro foi socorrido pela Providência Divina, que lhe permitiu superar a grave crise, sem maiores sofrimentos e luto. Sejamos dignos de tão grande favor.

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DEBATE ABERTO (Agência Carta Maior)

Ditadura de 1964/85: fracassso e ignomínia

Inexistia em 1964 uma possibilidade real de revolução socialista. Não houve o alegado "contragolpe preventivo", mas, pura e simplesmente, um golpe para usurpação do poder, meticulosamente tramado e executado com apoio dos EUA.

Ao completarem-se 44 anos da quebra da normalidade institucional no Brasil, mergulhando o País nas trevas e na barbárie durante duas décadas, é oportuno evocarmos o que realmente foi essa ditadura, defendida hoje com tamanha desfaçatez pelos culpados inúteis e com tanta ingenuidade pelos inocentes úteis.

Como frisou a bela canção de Milton Nascimento e Fernando Brant, cabe a nós, sobreviventes do pesadelo, o papel de sentinelas do corpo e do sacrifício dos nossos irmãos que já se foram, assegurando-nos de que a memória não morra – mas, pelo contrário, sirva de vacina contra novos surtos da infestação virulenta do totalitarismo.

Nessa efeméride negativa, o primeiro ponto a destacar é que a quartelada de 1964 foi o coroamento de uma longa série de articulações e tentativas golpistas, nada tendo de espontâneo nem sendo decorrente de situações conjunturais; estas foram apenas pretextos, não causa.

Há controvérsias sobre se a articulação da UDN com setores das Forças Armadas para derrubar o presidente Getúlio em 1954 desembocaria numa ditadura, caso o suicídio e a carta de Vargas não tivessem virado o jogo. Mas, é incontestável que a ultra-direita vinha há muito tempo tentando usurpar o poder.

Em novembro/1955, uma conspiração de políticos udenistas e militares extremistas tentou contestar o triunfo eleitoral de Juscelino Kubitscheck, mas foi derrotada graças, principalmente, à posição legalista que Teixeira Lott, o ministro da Guerra, assumiu. Um dos golpistas presos: o então tenente-coronel Golbery do Couto e Silva, que viria a ser o formulador da doutrina de Segurança Nacional e eminência parda do ditador Geisel.

Em fevereiro de 1956, duas semanas após a posse de JK, os militares já se insubordinavam contra o governo constitucional, na revolta de Jacareacanga.

Os oficiais da FAB repetiram a dose em outubro de 1959, com a também fracassada revolta de Aragarças.

E, em agosto de 1961, quando da renúncia de Jânio Quadros, as Forças Armadas vetaram a posse do vice-presidente João Goulart, só voltando atrás diante da resistência do governador Leonel Brizola (RS) e do apoio por ele recebido do comandante do III Exército, gerando a ameaça de uma guerra civil.

Apesar das bravatas de Luiz Carlos Prestes e dos chamados grupos dos 11 brizolistas, inexistia em 1964 uma possibilidade real de revolução socialista. Não houve o alegado "contragolpe preventivo", mas, pura e simplesmente, um golpe para usurpação do poder, meticulosamente tramado e executado com apoio dos EUA. Derrubou-se um governo democraticamente constituído, fechou-se o Congresso Nacional, cassaram-se mandatos legítimos, extinguiram-se entidades da sociedade civil, prenderam-se e barbarizaram-se cidadãos.

A esquerda só voltou para valer às ruas em 1968, mas as manifestações de massa foram respondidas com o uso cada vez mais brutal da força, por parte de instâncias da ditadura e dos efetivos paramilitares que atuavam sem freios de nenhuma espécie, promovendo atentados e intimidações.

Até que, com a edição do dantesco AI-5 (que fez do Legislativo e o Judiciário Poderes-fantoches do Executivo, suprimindo os mais elementares direitos dos cidadãos), em dezembro de 1968, a resistência pacífica se tornou inviável. Foi quando a vanguarda armada, insignificante até então, ascendeu ao primeiro plano, acolhendo os militantes que antes se dedicavam aos movimentos de massa.

As organizações guerrilheiras conseguiram surpreender a ditadura no 1º semestre de 1969, mas já no 2º semestre as Forças Armadas começaram a levar vantagem no plano militar, introduzindo novos métodos repressivos e maximizando a prática da tortura, a partir de lições recebidas de oficiais estadunidenses.

Em 1970 os militares assumiram a dianteira também no plano político, aproveitando o boom econômico e a euforia da conquista do tricampeonato mundial de futebol, que lhes trouxeram o apoio da classe média.

Nos anos seguintes, com a guerrilha nos estertores, as Forças Armadas partiram para o extermínio sistemático dos militantes, que, mesmo quando capturados com vida, eram friamente executados.

A Casa da Morte de Petrópolis (RJ) e o assassinato sistemáticos dos combatentes do Araguaia estão entre as páginas mais vergonhosas da História brasileira – daí a obstinação dos carrascos envergonhados em darem sumiço nos restos mortais de suas vítimas, acrescentando ao genocídio a ocultação de cadáveres.

O milagre brasileiro, fruto da reorganização econômica empreendida pelos ministros Roberto Campos e Octávio Gouveia de Bulhões, bem como de uma enxurrada de investimentos estadunidenses em 1970 (quando aqui entraram tantos dólares quanto nos 10 anos anteriores somados), teve vida curta e em 1974 a maré já virou, ficando muitas contas para as gerações seguintes pagarem.

As ciências, as artes e o pensamento eram cerceados por meio de censura, perseguições policiais e administrativas, pressões políticas e econômicas, bem como dos atentados e espancamentos praticados pelos grupos paramilitares consentidos pela ditadura;

Corrupção, havia tanta quanto agora, mas a imprensa era impedida de noticiar o que acontecia, p. ex., nos projetos faraônicos como a Transamazônica, Ferrovia do Aço, Itaipu e Paulipetro (muitos dos quais malograram).

A arrogância e impunidade com que agiam as forças de segurança causou muitas vítimas inocentes, como o motorista baleado em 1969 apenas por estar passando em alta velocidade diante de um quartel, na madrugada paulistana (o comandante da unidade ainda elogiou o recruta assassino, por ter cumprido fielmente as ordens recebidas!).

Longe de garantirem a segurança da população, os integrantes dos efetivos policiais chegavam até a acumpliciar-se com traficantes, executando seus rivais a pretexto de justiçar bandidos (Esquadrões da Morte).

O aparato repressivo criado para combater a guerrilha propiciava a seus integrantes uma situação privilegiadíssima. Não só recebiam dos empresários extremistas vultosas recompensas por cada revolucionário preso ou morto, como se apossavam de tudo que encontravam de valor com os militantes. Acostumaram-se a um padrão de vida muito superior ao que sua remuneração normal lhes proporcionaria.

Daí terem resistido encarniçadamente à disposição do ditador Geisel, de desmontar essa engrenagem de terrorismo de estado, no momento em que ela se tornou desnecessária. Mataram pessoas inofensivas como Vladimir Herzog, promoveram atentados contra pessoas e instituições (inclusive o do Riocentro, que, se não tivesse falhado, provocaria um morticínio em larga escala) e chegaram a conspirar contra o próprio Geisel, que foi obrigado a destituir sucessivamente o comandante do II Exército e o ministro do Exército.

A ditadura terminou melancolicamente em 1985, com a economia marcando passo e os cidadãos cada vez mais avessos ao autoritarismo sufocante. Seu último espasmo foi frustrar a vontade popular, negando aos brasileiros o direito de elegerem livremente o presidente da República, ao conseguir evitar a aprovação da emenda das diretas-já

Celso Lungaretti é jornalista e escritor, ex-preso político e autor do livro "Náufrago da Utopia".

domingo, 23 de março de 2008

5 mil dólares por segundo é o custo de uma guerra que faz 5 anos

23/03/2008
Guerra do Iraque custa quase US$ 5 mil por segundo
Por Nicholas Kristof (New York Times)

A guerra do Iraque está indo melhor do que o esperado, para variar. A maioria dos críticos, inclusive eu, desdenhou o que estava acontecendo: não prevíamos a melhora na segurança que resultou, em parte, do "avanço" feito no ano passado.

A melhora é real, porém frágil e limitada. Eis aqui o que ela conseguiu: diminuímos o número de mortos para os mesmos índices inaceitáveis que nos assombraram em 2005, e ainda não temos nenhum plano de retirada para os próximos anos - tudo isso por um custo total que cresce quase US$ 5 mil por segundo.

Pior que isso, apesar de o número de mortos ter diminuído, passamos a ter baixas na Flórida e na Califórnia. Os Estados Unidos parecem ter escorregado para dentro de uma recessão; os americanos estão perdendo suas casas, empregos e seguros de saúde; os bancos estão enfrentando problemas - e a guerra do Iraque parece ter agravado todas as aflições domésticas.

"A atual bagunça econômica está bastante relacionada com a guerra do Iraque", diz Joseph Stiglitz, economista ganhador do prêmio Nobel. "No mínimo, a guerra contribuiu para o aumento dos preços do petróleo. Além disso, o dinheiro gasto no Iraque não estimulou a economia tanto quanto teria acontecido se esses mesmos dólares tivessem sido gastos no país. Para cobrir a fraqueza da economia americana, o Fed aprovou um fluxo de liquidez que, aliado a regulamentações frouxas, levou à bolha imobiliária e a um boom do consumo".

Nem todos concordam que a conexão entre o Iraque e os problemas econômicos seja tão forte. Robert Hormats, vice-presidente da Goldman Sachs International e autor de um livro sobre como os Estados Unidos financiam as guerras, argumenta que a Guerra do Iraque é negativa para a economia, mas ainda assim é um fator menor na crise atual.

"Se é uma causa significativa da recessão atual?", pergunta Hormats. "Eu diria que não. Mas o dinheiro poderia ter sido melhor utilizado para fortalecer nossa economia? A resposta é sim."

Apesar das discordâncias, parece haver no mínimo uma ligação modesta entre os gastos no Iraque e as dificuldades econômicas nos EUA. Assim, ao discutir se devemos retirar nossas tropas do Iraque, a questão central deveria ser se a guerra é de fato o melhor lugar para investir US$ 411 milhões por dia do atual orçamento.

Já argumentei que permanecer indefinidamente no Iraque enfraquece nossa segurança nacional por dar poder aos jihadis - assim como sabemos que nossa presença militar na Arábia Saudita nos anos 90 foi, de fato, contraproducente por ter fortalecido o início da Al-Qaeda. Por outro lado, os que apóiam a guerra argumentam que uma retirada do Iraque seria um sinal de fraqueza e deixaria um vácuo de poder que os extremistas iriam preencher, o que é uma preocupação legítima.

Mas se você acredita que permanecer no Iraque faz mais bem do que mal, responda à seguinte questão: essa presença é tão importante que vale o preço de enfraquecer a economia norte-americana?

Com certeza os custos estimados da guerra são variáveis e controversos, em parte por que os US$ 12,5 bilhões por mês que estamos pagando para o Iraque são apenas a entrada. Ainda estaremos pagando indenizações por invalidez para os veteranos da guerra do Iraque daqui a 50 anos.

Em um novo livro, escrito com Linda Bilmes da Universidade de Harvard, Stiglitz calcula que o custo total, incluindo as contas de longo prazo, chega a cerca de US$ 25 bilhões por mês. Isso equivale a US$ 330 por mês para uma família de quatro pessoas.

Um estudo do Congresso feito pelo Comitê Econômico Conjunto descobriu que o valor gasto por dia na guerra do Iraque poderia colocar mais 58 mil crianças no programa Head Start (que ajuda crianças a entrarem na escola) ou fornecer bolsas Pell para que 153 mil alunos cursem a universidade. Ou então, se quiséssemos de verdade investir em segurança, um dia de gastos no Iraque seria capaz de financiar 11 mil agentes de patrulha de fronteira ou 9 mil policiais.

Imagine as possibilidades. Poderíamos contratar mais policiais e patrulheiros de fronteira, expandir o programa Head Start e reabilitar a imagem dos Estados Unidos no mundo financiando uma iniciativa global para reduzir a mortalidade materna, para erradicar a malária ou os vermes de todas as crianças da África.

Tudo isso gastaria menos dinheiro do que um mês de guerra no Iraque.

Além disso, o governo Bush financiou essa guerra de uma forma que enfraquece a nossa segurança nacional - emprestando dinheiro. Cerca de 40% da dívida gigantesca será cobrada pela China e outros países estrangeiros.

"Esta é a primeira grande guerra da história americana em que todos os custos adicionais foram pagos com empréstimos", escreve Hormats. Se os que apóiam a guerra do Iraque acreditam que ela é tão essencial, deveriam então estar dispostos a pagar por ela em parte através de impostos, em vez de empréstimos.

De qualquer forma, agora ou mais tarde, teremos de pagar a conta. Stiglitz calcula que o custo total da guerra possivelmente ficará em torno de US$ 3 trilhões. Para uma família de cinco pessoas como a minha, isso representa uma conta de quase US$ 50 mil.

Não sinto que meu dinheiro esteja sendo bem empregado.

Tradução: Eloise De Vylder


CONTAGEM REGRESSIVA: NÚMERO DE SOLDADOS AMERICANOS MORTOS NO IRAQUE ATINGIRÁ QUATRO MIL

Luiz Carlos Azenha: Atualizado em 22 de março de 2008 às 22:31 | Publicado em 22 de março de 2008 às 21:06

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SÃO PAULO - Nos próximos minutos o número de soldados americanos mortos desde a invasão do Iraque atingirá 4 mil. É simbólico. É o número que interessa aos eleitores e contribuintes americanos. Quatro mil mortos em cinco anos. Mas não parece. Não parece porque o desembarque dos corpos nos Estados Unidos não pode ser filmado. Não parece porque os 30 mil feridos americanos não aparecem feridos em campo de batalha. É raro ver uma foto de um soldado ferido na capa de um jornal americano ou imagens de um fuzileiro naval morto no Iraque em alguma rede nacional de televisão. É atestado de competência do gerenciamento de imagens e da mídia feito pelo Pentágono e pela Casa Branca.

Qual é a diferença essencial entre o Vietnã e o Iraque? É que, durante a guerra do Vietnã, em que 50 mil sodados americanos morreram, o exército americano era de voluntários. Qualquer jovem de mais de 18 anos de idade podia ser convocado. No Iraque, os americanos colocaram um exército profissional. Os jovens são atraídos com promessas de emprego, educação e vários outros benefícios. Além disso, dessa vez a guerra foi terceirizada: bilhões e bilhões de dólares em dinheiro público foram transferidos para empresas privadas ligadas a integrantes do governo Bush que fazem de tudo, de transportar e alimentar os soldados a interrogatórios e serviços de segurança.

Quais as consequências políticas, esperadas ou inesperadas, da invasão e da ocupação?

1) Um governo majoritariamente xiita no Iraque;

2) Fortalecimento do Irã, que com isso projeta o seu poder regional através de aliados na região - do Hezbollah no Líbano ao Hamas nos territórios palestinos;

3) Instabilidade no norte do Iraque, com o aumento da tensão entre curdos e sunitas, que disputam o controle das reservas de petróleo na região; temendo a ascensão dos curdos, a Turquia promoveu sua própria guerra preventiva, com ataques a guerrilheiros no Iraque. A guerrilha do PKK quer reunir os curdos do Iraque, Irã, Turquia e Síria em um país independente;

4) Liberdade absoluta para Israel tomar as medidas que achou necessárias nos territórios palestinos, o que levou o ex-presidente Jimmy Carter a escrever em livro que os israelenses implantaram um regime de apartheid contra os palestinos, com muro e tudo;

5) Transformação do Iraque em campo de treinamento terrorista para o desenvolvimento dos chamadas IEDs, aparatos explosivos improvisados, acionados através de controle remoto ou telefone celular; e para que os Estados Unidos aplicassem novas técnicas de combate à insurgência, envolvendo a guerra psicológica, de informação e social. No Afeganistão, alguns antropólogos agora acompanham as tropas, participando de missões de "resolução de conflito."

Os democratas querem acabar com a guerra, levar as tropas de volta para casa e aplicar parte do dinheiro hoje investido no Iraque na economia doméstica. O orçamento militar não deverá sofrer cortes. Tanto Hillary Clinton quanto Barack Obama prometem manter os gastos militares, só que focados no combate ao terrorismo no Afeganistão.

Os republicanos acham que a vitória no Iraque está ao alcance das mãos. É obvio que os Estados Unidos já venceram, do ponto de vista militar. Mas perderam politicamente. Porém, a turma de Bush mira em interesses econômicos bastante claros: na manutenção de gastos militares que favorecem os amigos e no controle das reservas de petróleo do Iraque.

O republicano John McCain falou em até "um século" de presença americana no Iraque. Falou no modelo da Alemanha e do Japão, países em que até hoje os Estados Unidos mantém bases militares. Ao custo de 4 mil vidas a cada 5 anos, em mais dez anos o número de soldados mortos no Iraque chegaria a 12 mil.

O cálculo de McCain e dos republicanos é de que a população americana estaria disposta a topar esse "sacrifício" em nome de um triunfo completo. A contrapartida seria o acesso americano às maiores reservas de petróleo de qualidade do mundo. Petróleo de primeira, à flor da terra - se comparado com o que a Petrobras retira do mar - e que será essencial para tocar a economia americana pelos próximos 30 anos.

Os democratas parecem apostar na diplomacia com o Irã e a Venezuela para reduzir a pressão sobre o preço do petróleo. Enquanto isso, os Estados Unidos investiriam em energias alternativas.

Porém, as promessas de campanha podem trombar com interesses econômicos essenciais. Ainda hoje operam em território americano usinas de energia tocadas a carvão que são altamente poluentes e já deveriam ter sido aposentadas há duas décadas. Produzem energia baratíssima se comparada às alternativas. Alguém duvida que só serão fechadas quando estiverem no osso?

Em quase tudo um governo do republicano John McCain seria muito parecido com o de um dos dois pré-candidatos democratas - Barack Obama e Hillary Clinton. A diferença fundamental é na questão do Iraque.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Renúncia de Fidel: uma segunda quinzena de fevereiro histórica!

Publicado originalmente em 15/02/2008
Atualizado em 02/03/2008

A segunda quinzena de fevereiro de 2008 parece querer ser aquele curto período da História recheado de de eventos significativos. Desta vez, Fidel renuncia após 49 anos no poder! A revolução e o líder mais pop do planeta desde o princípio até o fim foram notícias.
Vamos publicar aqui a série de reportagens sobre o tema, creio que servirá como um bom exercício de análise de discurso entre representantes da esquerda e direita, revisionistas, os pró e contra Fidel Castro.
Conexões da temática com a coleção História em Projetos: Volume 8ª série/9º ano, Unidade 3 "Guerra Fria, descolonização da África e da Ásia e conflitos no Oriente Médio", capítulo 9: No calor da Guerra Fria: o que significa ser capitalista ou socialista?
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Opiniões

NEW YORKER DEFENDE O FIM DO EMBARGO AMERICANO CONTRA CUBA

Atualizado em 02 de março de 2008 às 07:07 | Publicado em 02 de março de 2008 às 07:02

de Alma Guillermoprieto, Revista New Yorker

Tradução Luiz Carlos Azenha

Que fosse terminar de forma tão inglória! Não houve batalha até o último homem, rendição de um mártir à bala de um assassino - apenas um rangido na saída pela porta do ambulatório, com o roupão do hospital esvoaçante. Estamos a menos de um ano da marca de meio século de uma maratona surpreendente, mas mesmo esse artista da resistência deve se curvar ao destino e reconhecer que é hora de ir. Vamos, Fidel: ninguém está em seu caminho.

E assim ele deixa o campo: Fidel Castro Ruz, filho de um rico fazendeiro espanhol com uma lavadeira cubana; brigão de rua e líder estudantil; político de audácia incontrolável; ícone revolucionário de perfil nobre; socialista tropical que se inventou; inimigo épico dos Estados Unidos. Em 1953, a extraordinária força de sua convicção persuadiu mais de 100 homens (e duas mulheres) a se juntar a ele em um ataque a um dos principais quartéis militares do ditador Fulgencio Batista. Quase metade dos homens morreram no malogrado ataque; ele escapou sem ferimentos e emergiu como herói. Em dezembro de 1956, depois de um período de prisão e exílio, liderou outro ataque - desta vez pelo mar - contra Batista. De novo, perdeu quase todos os seus homens mas sobreviveu, junto a seu irmão, o menino Raúl, e a um desajeitado argentino chamado Ernesto Guevara. Washington tinha se cansado do repugnante Batista e abandonou o ditador para seus inimigos. No dia 8 de janeiro de 1959, Fidel - em Cuba ele seria sempre conhecido pelo primeiro nome - entrou em Havana em triunfo, prometendo aos cubanos uma alternativa ao que parecia ser o inescapável destino de uma ilha caribenha. Não seria mais a terra da prostituição ou das cantoras de cha-cha, da morte ou cegueira por falta dos remédios mais simples, dos sorrisos de servidão aos turistas e clientes, nada de mendigagem.

Em retrospectiva, é surpreendente o quanto foi curto o período das grandes conquistas da revolução. A campanha de alfabetização estava completa em 1961; o programa de saúde e o de racionamento (que, apesar de odiado, garantiu a todo cubano sua cota de calorias) estavam implantados em 1962. Tudo feito com dinheiro soviético, mas ninguém mais tinha feito isso, e o direito à educação e a uma vida saudável foi uma promessa mais do que suficiente para milhões de pobres do mundo, que permaneceram fiéis à idéia de Cuba durante as décadas do colapso em câmera lenta da revolução. O casario da ilha se desfez; o transporte público se desintegrou; a indústria açucareira foi destruída; o racionamento tornou-se uma forma constante de tortura; dedurar vizinhos suspeitos se tornou um ideal; pensamento e comportamento incorretos foram punidos com ostracismo e prisão; o jornalismo foi sumindo; a arte congelou; e ainda assim o líder de Cuba encontrou em si os recursos dramáticos para incorporar um sonho, um objetivo, um propósito para uma audiência do tamanho do mundo.

E o que vai ser agora? Ninguém deixou de notar que o substituto oficial de Fidel, Raúl, não está, como o irmão, na primavera da juventude. Fidel, em suas despedidas da semana passada, sugeriu que era hora de abrir caminho para líderes "que ainda eram bem jovens no primeiro estágio da revolução." Quem vai dizer quanto tempo os novos ocupantes dos vários cargos que Fidel preencheu vão permanecer no poder?Há indubitável conflito no círculo de poder, formado pela nomenklatura do Partido Comunista e da Forças Armadas Revolucionárias, sobre como uma transição delicada deve ser coreografada e gerenciada. A essa altura da transição, no entanto, não parece haver qualquer resistência à idéia de que mudanças estão a caminho - idealmente de forma gradual, provavelmente rápida e necessariamente profunda.

As palavras "modelo chinês" são ditas com entusiasmo, mas a pequena Cuba não tem, entre outras coisas, um bilhão de pessoas para dar combustível a um mercado interno. O que Cuba tem, inevitavelmente e, até agora, para seu infortúnio histórico, são os Estadfos Unidos, e o que os Estados Unidos não têm é uma política para Cuba. O estúpido embargo comercial, imposto em 1962 - que impõe grande sofrimento a um povo orgulhoso numa tentativa de fazê-lo apoiar os interesses dos Estados Unidos - não serve. Nove presidentes sucessivamente aprovaram o embargo; além de fazer famosos no mundo os mecânicos da ilha que consertam velhos carros americanos, o único efeito recente é o de negar aos cubanos remédios baratos, comida, livros, equipamento industrial, peças de reposição, sistemas de comunicação e razões para boa vontade em relação aos americanos.

A única outra iniciativa política significativa em relação a Castro, como ele sempre foi chamado neste país, foi a Baía dos Porcos e, como o embargo, serviu apenas para fortalecer a revolução. A Baía dos Porcos foi um presente digno dos céus; permitiu a Fidel e Raúl, o eterno cabeça das forças armadas da revolução, destroçar 1.400 cubanos anticastristas, armados e treinados pela CIA (rima como see ya, te vejo), e forneceu a Fidel o perfeito cenário para, durante a operação, declarar Cuba um estado socialista. Quando a crise dos mísseis cubanos aconteceu a armadura de Castro já exibia um polimento brilhante.

Depois de cinquenta anos, é difícil argüir que houve um dia o desejo do povo cubano de detonar seu líder com um charuto explosivo ou dar as boas vindas a uma invasão terceirizada. A política dos Estados Unidos não encorajou uma revolta em massa contra Fidel mesmo durante os anos em que centenas de milhares de cubanos desesperados arriscaram suas vidas para fugir da ilha. Hoje, mesmo a oposição mais veemente em Cuba tem poucas ilusões de que Washington vai tomar um caminho informado, esclarecido, não-intervencionista e generoso em relação à transição cubana. Ainda assim há sinais de esperança, começando pelos pedidos de Raúl Castro para conversar com Washington. No início do debate democrata da última quinta-feira, Barack Obama se ofereceu para encontrar com a liderança cubana sem pré-condições - um rompimento com o passado que seus rivais deveriam muito bem considerar. Imagine que o próximo presidente dos Estados Unidos declare que o embargo vai continuar até que os cubanos derrubem o governo atual. Agora imagine que o próximo presidente ofereça não-intervenção na política interna de Cuba, assistência financeira para enfrentar furacões e o sistema de saúde e uma mediação no difícil diálogo que certamente acontecerá entre a comunidade exilada na Flórida e os ilhéus. Qual dessas políticas vai ajudar a estabilidade em Cuba e conquistar maior boa vontade para os Estados Unidos?

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Professor Luis Felipe Alencastro (historiador e autor entre outras obras de O Trato dos Viventes: Formação do Brasil no Atlântico Sul, séculos XVI e XVII. São Paulo:Companhia das letras.)

Frei Beto (teoólogo brasileiro da Teologia da Libertação, autor do livro "Fidel e a religião")


Professor Laurindo Leal Filho (sociólogo e professor da USP)



Professora Cristina Peccequilo (professora de relações internacionais da Unesp (Universidade do Estado de São Paulo)

19/02/2008 - 04h59
Em carta, Fidel Castro anuncia renúncia à Presidência

Da Redação *
São Paulo:
O líder cubano Fidel Castro anunciou nesta terça-feira que não voltará a ocupar a presidência do país. A renúncia foi divulgada por meio de uma carta publicada no jornal oficial do país, o "Granma".

"A meus caros compatriotas, que me deram a imensa honra de me eleger, recentemente, como membro do Parlamento (...) comunico que não desejarei nem aceitarei - repito - não desejarei nem aceitarei o cargo de Presidente do Conselho de Estado e Comandante Chefe", diz a carta.


Fidel discursa em Havana, em maio de 2006, pouco antes de passar o comando do país ao seu irmão Raúl; ao fundo, imagem do líder revolucionário Che Guevara
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"Desempenhei o honroso cargo de Presidente ao longo de muitos anos. (...) Sempre dispus das prerrogativas necessárias para levar adiante a obra revolucionária com o apoio da maioria do povo", continua o texto publicado nesta terça.


Fidel fala ainda das limitações que os problemas de saúde trouxeram, ressaltando que "trairia sua consciência assumir uma responsabilidade que requer mobilidade e entrega total, o que não estou em condições físicas de oferecer." E acrescenta: "Falo isso sem drama."

Na carta, ele lembra que "o adversário a ser derrotado é muito forte" e encerra com uma mensagem para o povo cubano: "Não me despeço de vocês. Desejo apenas combater como um soldado das idéias. Continuarei escrevendo sob o título "Reflexões do companheiro Fidel". Será uma arma a mais no arsenal com a qual se poderá contar. Talvez minha voz seja ouvida. Serei cuidadoso".


As reflexões citadas por Fidel são publicadas no "Granma", o jornal do Partido Comunista Cubano. Os textos falam de política doméstica e internacional, servindo como um meio de comunicação com a população do país e, conseqüentemente, divulgando as idéias de Fidel para o mundo todo.

Desde julho de 2006, o comando do país está interinamente nas mãos do irmão de Fidel Castro, Raúl. O afastamento ocorreu por causa de problemas de saúde. Depois de submeter-se a uma cirurgia no intestino, Fidel passou o poder para as mãos do irmão.

Aos 81 anos de idade, Fidel ocupava o poder desde a revolução comunista de 1959. Em dezembro do ano passado, ele indicou que poderia se afastar para dar espaço para uma nova geração política.



O líder cubano Fidel Castro teve uma trajetória política semelhante à de líderes latino-americanos do século 19, como José de San Martín e Símon Bolívar, na opinião do historiador argentino Jose García Hamilton.

Assim como os dois "libertadores da América", Fidel tentou se eternizar no poder depois de ter liderado uma campanha de libertação, diz Hamilton.

Para o historiador, Fidel "virou um ditador pior do que seu principal inimigo, Fulgêncio Batista", em referência ao líder do regime derrubado pela Revolução Cubana. A diferença, continua Hamilton, é que Fidel bateu recorde de tempo no poder.
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No ultimo dia 20 de janeiro, Cuba realizou eleições para renovar a Assembléia Nacional. Na ocasião, ficou acertado que no dia 24 de fevereiro seria designado o presidente do Conselho de Estado, órgão do governo presidido por Fidel Castro.

Encontro com Lula
No dia 14 de janeiro deste ano, o presidente Lula teve um encontro com Fidel Castro em Havana. Os dois conversaram durante aproximadamente duas horas e meia e, ao final da reunião, Lula afirmou aos jornalistas que a saúde de Fidel estava "impecável" e que o líder cubano estaria "pronto para assumir o seu papel político".

Convidado a visitar o Brasil, Fidel disse que o faria "pelo menos com o pensamento", em texto publicado no diário comunista no dia 1º de fevereiro.

Na carta desta terça, o líder cubano cita outro brasileiro, o arquiteto Oscar Niemeyer. Ao reproduzir trechos de cartas enviadas a Randy Alonso, diretor do programa "Mesa Redonda" da Televisão Nacional e amigo pessoal de Fidel, ele sublinha: "Penso como Niemeyer que é preciso ser conseqüente até o final."

A mensagem já tinha sido lida no programa de TV no dia 18 de dezembro, quando Fidel pela primeira vez considerou a hipótese de abrir mão de seu posto formal de liderança no país. O que se concretizou nesta terça-feira.

No dia 29 de janeiro deste ano, uma escultura de Niemeyer foi inaugurada em Havana. A imagem de 15 metros representa a luta cubana contra o monstro imperialista, na definição do arquiteto que, por medo de avião, não compareceu à cerimônia.
*Folha com CNN e BBC
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19/02/2008 - 06h44
Para historiador, Fidel passou de 'libertador a ditador'
O líder cubano Fidel Castro teve uma trajetória política semelhante à de líderes latino-americanos do século 19, como José de San Martín e Símon Bolívar, na opinião do historiador argentino Jose García Hamilton. Assim como os dois "libertadores da América", Fidel tentou se eternizar no poder depois de ter liderado uma campanha de libertação, diz Hamilton."
San Martín e Bolívar chegaram ao poder graças à libertação dos povos, mas depois tentaram se perpetuar no cargo", disse o autor de livros sobre Bolívar e San Martín.
Para o historiador, Fidel "virou um ditador pior do que seu principal inimigo, Fulgêncio Batista", em referência ao líder do regime derrubado pela Revolução Cubana. A diferença, continua Hamilton, é que Fidel bateu recorde de tempo no poder. "Nenhum deles, nem mesmo Franco, permaneceu tantos anos na Presidência", afirmou, referindo-se ao general espanhol Francisco Franco, que governou a Espanha entre 1939 e 1975.
San Martín, libertador da Argentina, do Chile e do Peru, exerceu sua liderança entre 1812 e 1826. Bolívar esteve cerca de 20 anos no poder em uma trajetória similar que foi de 1810 a 1830.Com o anúncio de sua renúncia nesta semana, Castro encerrará quase cinco décadas no comando da política cubana.
Fidel e 'Che'
O historiador acredita, no entanto, que, ao menos inicialmente, Fidel Castro "libertou" Cuba da ditadura de Batista. "Naquele momento, suas ações foram vistas com bons olhos pela comunidade internacional", disse. Foi logo depois, lembra Hamilton, do início de mudanças na política de diferentes países da região. Getúlio Vargas se suicidou em 1954, Perón foi derrubado do poder em 1955, por uma revolta militar, Perez Jímenez, na Venezuela, caiu em 1958, e Fidel tomou o poder, em Havana, em 1959.
Já o historiador e psicanalista Pacho O'Donnell, autor da biografia Che sobre o ex-guerrilheiro argentino Ernesto "Che" Guevara, prefere não fazer comparações entre personagens de diferentes períodos históricos, mas diz acreditar que o paralelo mais próximo seja o próprio ex-companheiro de revolução.A diferença entre Fidel e Che, que estiveram unidos na decisão de derrubar a ditadura de Fulgêncio Batista, em 1959, está, segundo O'Donnell, no fato de "o cubano ter apostado na política, e o argentino, na epopéia". Ou seja, um entrou para a história e o outro virou mito - o rosto de Che Guevara está, por exemplo, nas passeatas e protestos de várias partes do mundo, representando o desejo de igualdade social.
O'Donnell recorda que foi Raúl Castro quem apresentou Che Guevara a Fidel Castro, como contou o próprio ex-guerrilheiro argentino em uma carta enviada a sua família, em julho de 1955, quatro anos antes da queda da ditadura de Batista. "Guevara e Raúl Castro representaram, no início, o setor mais radicalizado da Revolução Cubana. Eles eram os únicos que se reconheciam, publicamente, como marxistas", recordou.
'Autoritarismo'
Autor de livros sobre o general e "libertador" José San Martín ("Don Jose") e sobre o também general e igualmente conhecido Como "libertador" Simón Bolívar ("Simón"), García Hamilton entende que Fidel também é o único a deixar o irmão no poder - mesmo que temporariamente. Raúl Castro está no poder na ilha desde meados de 2006 e tem chances de permanecer no posto após as eleições da Assembléia Nacional, no próximo dia 24.
Ele cita, no entanto, três outros casos de nepotismo na história recente da América Latina. François Duvalier, no Haiti, deixou o cargo para o filho, Jean Claude Duvalier. A cadeira de Anastasio Somoza, na Nicarágua, foi ocupada pelo filho, Luis Somoza.
Na Argentina, o ex-presidente Juan Domingo Perón morreu no cargo, deixando a Presidência para sua mulher, Isabel Perón. Tanto Hamilton como O'Donnell reconheceram que o líder cubano, a despeito da opinião que se tenha sobre ele, é um dos principais personagens políticos da América Latina - e talvez do mundo - no século 20 e início do século 21.
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