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domingo, 16 de agosto de 2009

Sakamoto: Eles cantam Chico mas não entendem o que Chico quer dizer

15/08/2009 - 19:09

Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Por Leonardo Sakamoto

Com as refilmagens de “O Poderoso Chefão” no Senado, muitas pessoas, indignadas com a política, têm feito seus protestos. Acham que aquilo é o máximo da participação cidadã e que terá um efeito avassalador nos salões do Congresso Nacional. Na minha avaliação, isso é de uma inutilidade atroz, só comparável à compra de indulgências durante a Idade Média.

Começam pelas correntes na internet - não peguei até agora uma que trouxesse alguma possibilidade de causar alterações reais. Mas o pessoal acha que está mudando o mundo através do spam. Triste.

Isso passa pelos “flash mobs”, aquelas manifestações relâmpago organizadas pela internet. Eu estava na avenida Paulista, dia desses, quando um grupo de umas 80 pessoas se reuniu no vão do Masp e começaram a protestar. Cruzavam a faixa de pedestres quando o semáforo fechava e retornavam à calçada quando abria. Gritavam “Fora Sarney!” Uma senhora, já avançada em anos e sabedoria, parou, olhou, refletiu e me perguntou: “é alguma festa?” Respondi que, de certa forma, sim. Um ato mais para expiação da culpa individual do que algo realmente construtivo. Depois o povo deve ter ido tomar um refri na rede de fast food mais perto.

Também atinge as reclamações e ações virtuais em blogs e twitters. Já postei muita coisa sobre a atual crise neste blog, sei que o acesso à informação contribui para a conscientização do problema real e não apenas de sua superficialidade aparente, mas não tenho a mínima pretensão de achar – como alguns – de que o mundo virtual sozinho pode ser a ponte para a derrubada de fulano ou ciclano do poder.

Muita gente se esconde atrás da tela de um computador, mas não tem coragem de usar as armas da democracia para tirar aquele povo de lá. A indignação vai durar enquanto o tema estiver no topo dos mais comentados, vai seguir a pauta política da situação e da oposição e não a da sociedade. Não chegará às próximas eleições. Depois, a indignação dará lugar à outro sentimento exatamente porque ela não é real, não veio de dentro para fora e sim de fora para dentro. Para alguns, foi embutida ali, como uma moda. A moda hoje é estar indignado. Amanhã é usar azul celeste.

E falando em cores, um outro protesto foi inacreditável. Recebi um torpedo ordenando que, no dia seguinte, todos vestissem preto para derrubar o Sarney. Mas não vi alteração significativa nas ruas. Certamente quem mandou o SMS deve ter achado que quem usava o pretinho básico protestava ferozmente.

Por fim, os protestos da turma do antigo “Cansei!” Dia desses, zapeando canais, parei em um daqueles programas bregas de fofocas da alta classe. Ícones do “Cansei!” reclamavam, enojados com tudo e com Brasília. Depois, apareciam, na mesma festa, abraçados com políticos que não têm currículo e sim capivara, ficha corrida. Eles cansaram, mas foi só de brincadeira. Até porque o caviar tem que sair de algum lugar, não?

Enquanto isso, quem protesta de verdade, tentando mudar as coisas, é taxado de vagabundo, louco, imbecil, retrógrado, egoísta. Por que? Porque eles não protestam como eles, seres civilizados, que nunca parariam o trânsito. Para estes manifestantes de butique, o protesto tem limites. A partir daí, vira arruaça.

Estava voltando de Brasília e não conseguiu deixar de ouvir uma conversa de duas mulheres sentadas atrás de mim no avião. Aliás, a aeronave inteira ouviu, porque elas falavam muito alto:

- Você viu que morreu uma daquelas sem-terra na rodovia dia desses. Atropelada.
- Também, estava andando no meio da estrada, fazendo protesto. Atrapalhando o trânsito.
- Não gosto daquela gente, sabia? São um bando de arruaceiros. Por que não vão arrumar um emprego ao invés de ficar protestando por aí?
- Tem gente que não sabe se encaixar.

“Encaixar”! Nossa elite é o máximo, de uma sinceridade aviltantemente bonita! É o velho: ponha-se no seu lugar! Eles cantam Chico Buarque, mas não entendem o que ele diz – talvez se soubessem, parassem de cantar. Pois foi uma trabalhadora rural do MST pedindo reforma agrária, mas poderia ter sido um pedreiro caindo de um andaime, sonhando com uma vida melhor: “Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”.

Ontem, também na avenida Paulista, foi realizado um protesto de verdade contra a crise no Senado, que juntou sindicatos, movimentos populares e estudantis, organizações da sociedade civil. Mais de quatro mil pessoas, de acordo com a polícia.

Um taxista, ao ver o trânsito causado pela manifestação, começou a gritar: “Cambada de vagabundos! Vagabundos!” (como o prefeito Kassab naquele ataque de histeria anos atrás…) Perguntei o motivo. “Porque eles estão atrapalhando o tráfego. Por que não vão arranjar um emprego!”

Exercer sua cidadania e colocar a democracia em prática em um país como o Brasil é perigoso. Além de poder morrer atropelado, ser xingado e considerado um inútil, você ainda pode ser desalojado e tratado como um marginal.

Tempos atrás, moradores de uma favela próxima ao Real Parque, zona Sul de São Paulo, fecharam as pistas da Marginal Pinheiros para protestar contra a derrubada de suas casas. Seus barracos estavam em um terreno público e a prefeitura resolveu removê-los antes de finalizar negociações. Afinal de contas, a gente bonita que passa por aquele bairro rico não é obrigado a ver aquelas casinhas de madeira feias. Houve bombas de gás, surras de cacetetes, enfim, aquela corja tinha que acabar com aquilo. Na mídia, a ênfase estava nos relatos sobre o congestionamento causado, o ato era apenas um detalhe.

O tráfego, sempre ele, que reina soberano em uma cidade que quer funcionar como um relógio suíço, sem se atrasar. Protestos agendados, marcados, pequenos, ordenados com começo, meio e fim, protestos que não mudam nada só expiam culpa, são o desejo de muitos paulistanos, cada vez mais embutidos no sistema. Não conseguem perceber que manifestações que fogem disso, que rompem a lógica, é que são reais e têm poder de mudança.

No fundo e por trás de tudo isso, uma pergunta ecoa no peito de muita gente das classes média e alta desse país quando defrontada com tudo isso: Mudar para quê? Time que está ganhando, não se mexe.

domingo, 7 de setembro de 2008

Pátria Amada Esquartejada: o que comemorar no 7 de Setembro?

As efemérides, especialmente, as de cunho tão nacionalista como o 7 de setembro tem a sua própria história. Na década de 1970, uma análise como da economista e educadora popular Roberta Traspadini transcrita abaixo seria impossível de ser expressa sem censura. Nas décadas de 1980 e 1990 com a redemocratização análises críticas ao nacionalismo exarcerbado e a denúncia de uma nação excludente para uma grande parcela da população tornam-se mais comuns. Hoje, os pesquisadores, especialmente os envolvidos com os movimentos sociais buscam refletir sobre nossa independência política e o verdadeiro acesso a cidadania para todos os brasileiros.
(In)dependência do Brasil: a ordem do progresso?

Roberta Traspadini*

O mês de setembro é, para muitos, um período de comemoração pátria. Dia em que se festeja, com direito a parada cívica, o suposto logro da Independência do Brasil.

Foi com essa postura nacionalista, em que as distinções são camufladas e os valores cívicos são incorporados, que por muitos anos estudamos em nossas escolas a educação moral e cívica. Jurar respeito e amor à bandeira e demais símbolos pátrios era o elemento fundamental do adestramento educativo. Até hoje, nas competições olímpicas, esse quesito do nacionalismo, como amor à Nação, independente de suas crenças políticas, enche os olhos dos brasileiros de pura emoção.

E o que implica isto na realidade? Implica que, ante determinados temas e momentos, todos os sujeitos, brasileiros, devem estar na mesma energia da ordem e do progresso. Significa esquecer tanto dos sofrimentos próprios, quanto dos alheios. A construção de uma identidade nacional para além da classe, dos conflitos, das opções políticas e da vida cotidiana que se vive.
(Cenas do desfile e da festa de Sete de Setembro em São Paulo, que ocorreu no sambódromo do Anhembi, 2008)

Esse espírito nacionalista, tipicamente capitalizado para um sentido de vida e de processo político, sustentou o progresso do capital a partir de uma lógica escravizadora do trabalho e dos recursos naturais do país, educou, via adestramento, gerações que, ao incorporarem o sentido pátrio, renegaram sua própria situação conflitiva de classe.

A intencionalidade por trás dessa concepção política é a de colocar todos os sujeitos numa única linha sobre o sentido do sentir pátrio, para além do que se vive. Nada mais trágico. Os desfiles que, na aparência, revelam belezas de trajes, de sons e de posturas, na essência camuflam um cotidiano de grande diferença e exclusão. Um cotidiano, inclusive, de muita postura raivosa de classe: os poucos detentores de muitos recursos, culpando os muitos, detentores de muitas dívidas, sobre seu processo de não progresso.

As crianças das escolas públicas vão às ruas. Talvez este seja o único momento de visibilidade para além de sua vida como brasileiros, independente de onde vivam: a periferia. E isso é o mais brutal. Reforçar nos sujeitos o amor ao País, sem forçá-los a entender o desamor de grupos políticos historicamente no poder. Poder este consolidado para responder a seus interesses específicos – de classe - e não gerais – de todos indistintamente - nacionais.
(Representando uma vitória-régia, estudante participa de desfile cívico-militar na Esplanada dos Ministérios, em BrasíliaWilson Dias/Abr)

O nacional é composto de várias partes e por várias classes. E o sentido dado a ele não pode ser diferente. O nacional burguês - nacional ruralista, financeiro e comercial -, defende um Brasil para poucos lucradores, logrado pelo suor de muitos. O nacional popular, dos pequenos agricultores, sem terras, ou com terras conquistadas por eles e desde seu próprio suor, defende um Brasil em que muitos tenham, não só a oportunidade, mas a ordem do progresso sobre suas mãos.

Após anos de escravidão, mesmo com a lei Áurea assinada, o que temos é a vitória do progresso resultado da ordem burguesa. Um progresso instituído de fora para dentro, no período anterior - colonial -e que, no império, com a independência, reverteu à lógica interna a mesma reprodução anterior. Ou seja, a ordem do progresso, o progresso da ordem burguesa.

Mas, quem ganha? Quem progride? Quem vive do seu próprio suor, e quem vive do suor alheio? Essas são perguntas geradoras que qualquer sujeito, como educador popular, deve se fazer ao viver o dia pátrio. Viver o histórico sentido pátrio brasileiro, é reviver anos de exploração, exclusão e alienação, de muitos, implementados por um pequeno grupo em nome dos supostos valores nacionais.

Numa perspectiva nacionalista burguesa, o sentido pátrio registrado na nossa bandeira ganha evidência a partir das conquistas de ganho capitalistas. Ou as cores da bandeira não simbolizam a vitória do capital sobre o trabalho no âmbito nacional? Com a particularidade histórica de que, em meio ao cenário global de ação das transnacionais, o território tenha se transformado numa terra de gigantes internacionais, aparentemente sem pátria, sem fronteiras para seus ganhos.

Se os verdes são as matas, o amarelo as riquezas preciosas, o azul a beleza do céu e a gigantesca preciosidade litorânea – principalmente no tema da energia e da água -, e o branco os estados da federação, como ler então a ordem e o progresso? A Amazônia, as terras da raposa do sol, as várias serras peladas, as riquezas das empresas antes estatais, agora, (trans)nacionais - CVRD -, os transportes de ganhos privados terrestres, marítimos e aéreos, e, principalmente, o tema da energia, da água e da alimentação nas mãos das grandes corporações internacionais, são bons exemplos cotidianos do paradoxo que se vive entre desfiles pátrios e vidas cotidianas de exclusão e exploração, protagonizadas pelo povo brasileiro, em nome das benesses do capital.

A (in)dependência do Brasil, no sentido popular, como algo tomado e protagonizado pelo povo, para o povo na construção de um projeto nacional soberano não só nunca ocorreu no Brasil, como está, atualmente, muito à margem de qualquer discussão. Retomar o nacional popular é, sem sombra de dúvidas, dar um significado de classe tanto para o que se tem, quanto para como se chegou ao que se tem: um Brasil da ordem e progresso de poucos a partir da exclusão de muitos.

Por isso o hino nacional, por mais comoção que possa causar, não pode velar, tem que nos ajudar a revelar o elitismo por trás da moral e cívica nacionalista burguesa. O hino nacional é um reflexo à exaltação da classe vitoriosa – a elite - ao longo dos tempos, na luta por um Brasil soberano e nacional, quando útil, e aberto, quando mais rentável, em conformidade com seus interesses territoriais de ganhos sem fim.
(O presidente Lula, ex-metalúrgico, eleito em 2002 e reeleito em 2006, desfila em carro aberto nas comemorações do 7 de setembro no DF)
A ordem e o progresso do povo brasileiro pode e deve assaltar as ruas, reivindicando, protestando e projetando, para além do que se tem, o que se quer. Necessitamos da substituição dos desfiles pátrios, de boas vestimentas e boas canções, com um público passivo assistindo, por uma nova ordem e progresso. Necessitamos de uma ação rumo a um outro Brasil, a uma outra ordem, para além do progresso do consumo, da dívida, dos infindáveis compromissos com pagamentos e débitos do povo brasileiro. Uma comoção fruto de uma ação popular. Essa é a independência que estamos por conquistar. Parafraseando o autor das idéias fora do lugar, Roberto Schuartz, é importante, ao tomarmos consciência disto, lutar por colocá-las em sua devida ordem: a do progresso, cujo sentido é o do poder popular.

(*) Economista, educadora popular e integrante da Consulta Popular/ES.

05/09/08

Veja também o Vídeo Pátria Amada Esquartejada

Existe uma pátria brasileira? Quantas nações somos? O que é ser brasileiro? Estas perguntas estão presentes em Pátria Amada Esquartejada, documentário sobre o projeto do mesmo nome realizado pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, em 1992, durante a gestão da prefeita Luísa Erundina e da secretária de cultura Marilena Chauí.

Naquele ano os 500 anos do "achamento" da América foi palco de muita discussão sobre a realidade brasileira. Uma série de encontros e debates foi promovida nas praças e escolas da cidade de São Paulo no formato de aulas públicas, nas quais os professores eram os sujeitos históricos temas das aulas. Até uma TV de rua foi montada para discutir qual Brasil existe. No filme, a questão indígena, a discriminação racial, a dominação econômica, a miséria, a educação deficitária são alguns dos maiores problemas desse país multifacetado.

Indicações de uso:

Este filme traz uma reflexão sobre a formação e atualidade da nação brasileira. Pode ser usado nas aulas ára debater a história, sociedade, cultura, direitos humanos e política brasileira.

Ficha técnica:

Direção: Eduardo Ferreira; 1992; 32 minutos

Produção: TV Anhembi – São Paulo

Realização: Departamento do Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

AOS DE HOJE E AOS QUE VIRÃO

Por Stela Guedes Caputo (*)

07.08.2007

Extraído de Fazendo Media

MSTEu ainda vivo em tempos sombrios. Um tempo em que os pobres continuam sendo massacrados e não há punição para esses crimes. Há 12 anos, 155 policiais mataram 19 trabalhadores rurais, fizeram centenas de feridos e 69 pessoas mutiladas. Dos 144 incriminados, apenas dois foram condenados e aguardam em liberdade a análise do recurso da sentença. Em 2007, foram 25 assassinatos no campo e a “matadeira” que mata lá, é a mesma que mata na cidade. Carandiru... Candelária... favelas. Em cada grupo de dez jovens de 15 a 18 anos assassinados no Brasil, sete são negros. A violência escolhe cor, escolhe classe.


Por isso, a inocência continua sendo loucura e uma testa sem rugas, sinal de indiferença. E aquele que ri ainda não recebeu a terrível notícia. Mas é só uma questão de tempo. Que tempos são esses quando falar sobre flores é quase um crime porque significa silenciar sobre tanta injustiça? Recentemente, a Justiça Federal brasileira condenou a Veracel (Stora-Enso e Aracruz), que possui cerca de 205 mil hectares de terras no Extremo Sul da Bahia, sendo cerca de 96 mil hectares de monocultura de eucalipto a restaurar, com vegetação nativa, todas suas áreas compreendidas nas licenças de plantio de eucalipto que foram liberadas entre 1993 e 1996. Mas a empresa já recorreu, como de outras vezes.


Em 2007 ela foi multada por usar ilegalmente substância tóxica em área de preservação permanente e por impedir a regeneração natural de mata atlântica com projetos de plantio de eucalipto. A empresa tem 7.428 hectares de plantios em torno dos Parques Nacionais de Monte Pascoal e Pau Brasil, mesmo que uma Lei Federal determine que não se plante mais eucalipto num raio de 10 km no entorno dos Parques Nacionais na região. Mas a Veracel Celulose ganhou em março deste ano, da SGS/Qualifor o certificado FSC para o bom manejo florestal ambientalmente adequado para suas plantações de monocultura de eucalipto.


Enquanto isso, o Ministério Público do RS pediu a dissolução do MST. Nós, os criminosos? Eu queria ser um sábio. Nos livros antigos está escrito o que é sabedoria: manter-se afastado dos problemas do mundo e sem medo passar o tempo que se tem para viver na terra; seguir seu caminho sem violência. Não, eu não queria ser um sábio. Eu estou no campo e na cidade no tempo da desordem, quando a fome e a violência reinam. Convivo com homens e mulheres de revolta e me revolto ao lado deles e delas. É assim que quero passar o tempo que viverei na terra. Nós existimos através da luta de classes. Dizem que o socialismo é utopia e fracasso. Utopia é imaginar possível um projeto humano dentro do capitalismo. Isso sim é fracasso.


Também dizem que um dia os pobres herdarão a terra. Já esperamos demais e queremos a terra agora, antes que o agronegócio privatize toda terra, toda água, toda biodiversidade. A mídia esconde que a alta da inflação também é conseqüência do incentivo à produção de etanol para exportação o que amplia a monocultura da cana-de-açúcar e aumenta o preço dos alimentos e a concentração da propriedade da terra por empresas estrangeiras. O ódio contra toda essa injustiça endurece o rosto, enrouquece a voz.


Ah, infelizmente, nós que desejamos preparar terreno para a bondade não pudemos ser bons. Vós, porém, quando chegar o momento em que o ser humano seja bom para o ser humano e forem falar do que fizemos... não, não pensem em nós com compreensão. Julguem, sem qualquer indulgência aqueles que, entre nós, traíram a nossa classe e se associaram aos que nos perseguem e massacram.


(*) Stela Guedes Caputo é jornalista (texto e foto da autora). Texto adaptado do poema de Brecht com dados da página do MST.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Manipulação de imagens, manipulação da memória

Manipulação de fotografias com objetivos políticos tem longa história, uma das mais clássicas são as fotos manipuladas a mando de Stálin para apagar da memória e da história seus inimigos políticos como Trotsky e outros, observe:




Na primeira fotografia original temos Lenin e Trotsky na Praça Vermelha celebrando juntos o segundo aniversário da revolução (1919). Depois, a foto “retocada” para publicação (em 1967) de um livro sobre Lenin. O “retocado” foi Trotsky e outros presentes, enviados para as brumas da falta de memória.

Aqui mais um inimigo político desaparece no retoque:











Trata-se de Nikolai Yezhov que foi apagado da foto onde aparecia ao lado de Stalin, após o primeiro ter sido executado a mando do segundo em 1940. Ironicamente foi substituído pelas águas do canal Moscovo-Volga: Nicolai tinha sido o comissário responsável pelo transporte fluvial.



Nesta, Trostky que, na fotografia original, estava de pé ao lado do palanque onde Lenin discursava também sofreu apagão no período stalinista:










Na foto original de 1820, Lenin em frente ao Teatro Bolshoi em Moscovo discursa às tropas revolucuionárias. Trotsky, que no governo comunista era responsável pela área militar, acompanha-o em posição de destaque (de pé, junto ao palanque). Esta imagem tornou-se um símbolo da Rússia revolucionária, mas a sua utilização em muitas publicações de grande tiragem foi “filtrada” para extrair Trotsky desse símbolo.


Infelizmente a manipulação da memória e da história não está restrita aos tempos ditatoriais stalinistas, nos cinco anos de conflito após a invasão estadunidense em território iraquiano alguns jornais estadunidenses manipularam fotografias, no atual conflito que ocorre no Tibet, estudantes chineses denunciam manipulações de imagens: a Veja anda se superando na produção de imagens manipuladas e agora é a vez de IstoÉ:

8 DE ABRIL DE 2008 - 20h22

Para proteger Serra, 'IstoÉ' manipula foto de manifestação

A revista IstoÉ desta semana mostra - para poucos - que a campanha eleitoral já começou e de que lado está. Para proteger o PSDB e o governador de São Paulo, José Serra, a publicação, contrariando todas as regras do jornalismo, apagou a inscrição ''Fora Serra'' de uma foto feita durante um protesto do MST e do MAB contra a privatização da Cesp.

Por Marcelo Netto Rodrigues e Renato Godoy de Toledo, no Brasil de Fato



Versão na IstoÉ (à esq.) omitiu o ''Fora Serra'' da foto original

Mais que isso, o resultado visual inverte o significado da imagem que traz uma placa de trânsito ''Pare'', como se quem devessem parar fossem os movimentos, e não as privatizações.

A adulteração de uma foto - passível de processo pelo detentor de seus direitos autorais, no caso a Folha de S.Paulo - é plenamente possível hoje em dia com o uso de um programa para tratamento de imagens, como o Photoshop por exemplo, mas é prática condenada no meio jornalístico. O fato escancara o poder de influência camuflada que os meios de comunicação de massa tem para atuar como o que vem sendo chamado de ''Partido da Mídia'' (PM).

A foto adulterada, de autoria do fotógrafo Cristiano Machado, ilustra a matéria '' O MST contra o desenvolvimento'' e mostra integrantes de movimentos sociais bloqueando a rodovia Arlindo Bétio, que liga São Paulo a Mato Grosso do Sul e Paraná, em protesto contra a privatização da Cesp (Companhia Energética de São Paulo), no dia 24 de março.

A legenda diz ''A exemplo do que ocorreu em São Paulo, em protesto contra a privatização da Cesp, os sem-terra prometem parar estradas em todo o país nos próximos dias''.

A reportagem assinada por Octávio Costa e Sérgio Pardellas criminaliza os movimentos sociais sustentando que ''os sem-terra ameaçam empresas e investimentos que geram empregos e qualidade de vida'', sem mencionar que a Aracruz Celulose, a Monsanto, a Cargill, a Bunge e a Vale - citadas pela matéria como exemplos de empresas prejudicadas - respondem a acusações de destruição do meio ambiente, desrespeito aos direitos de povos tradicionais, como quilombolas e indígenas, e exploração de trabalhadores.

A matéria tenta desautorizar o MST como um ator político que vá além da luta pela reforma agrária. Diz que ''desde 2006, o MST lidera ataques à globalização, ao neoliberalismo e às privatizações - algo que nada tem a ver com a sua luta original''.

Nada é por acaso

A editora Três, que publica a revista IstoÉ, é controlada pelo acionista majoritário do banco Opportunity, Daniel Dantas. O banqueiro tem ligações com fundos de pensões, além de uma participação ativa no processo de privatizações de estatais sobretudo durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Em 2007, Dantas superou a concorrência da Rede Record e comprou 51% das ações da editora Três, que estava à beira da falência.

O banqueiro tem uma trajetória de proximidade com outros partidos de direita como o DEM, sobretudo com o falecido político baiano Antonio Carlos Magalhães. Também foi sócio do publicitário tucano Nizan Guanaes. Por diversas vezes, foi alvo de investigações e respondeu a crimes como espionagem e formação de quadrilha. Quando estava à frente da Brasil Telecom, foi acusado de contratar a empresa Kroll para espionar a Telecom Itália.


publicado em 09/04/2008

atualizado em 10/04/2008

A Folha rafirmou hoje (10/04/2008) que a IstoÉ manipulou a fotografia

Revista "IstoÉ" faz adulteração em imagem comprada da Folha

DA REPORTAGEM LOCAL

A revista "IstoÉ", publicação da Editora Três, adulterou uma fotografia adquirida da Folha. A imagem foi publicada pela revista na edição do final de semana, ao lado da reportagem "O MST contra o desenvolvimento".

A revista apagou digitalmente a expressão "Fora Serra", referência ao governador José Serra (PSDB-SP). A frase aparecia, na foto original, pichada numa placa de trânsito por integrantes do MST na rodovia Arlindo Bétio, que liga SP a MS e PR. Eles participavam de um ato contra a privatização da Cesp (Companhia Energética do Estado de São Paulo).

Em e-mail enviado ontem à Folhapress, agência de notícias do Grupo Folha, o editor-executivo da agência IstoÉ, César Itiberê, confirmou a adulteração e pediu desculpas. "Houve realmente manipulação por photoshop [programa de computador] da imagem dos sem-terra, com intenção absolutamente estética." Ele afirmou, por telefone, que "não houve nenhuma ordem [superior], nenhuma orientação política, nenhum dolo. Houve um mal-entendido".

O jornalista Mello tem outra hipótese para essa manipulação