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sábado, 29 de maio de 2010

Obama e o fracasso da política externa dos EUA

A política sem rumo de Obama e uma superpotência evanescente

Por: Dilip Hiro*

27/5/2010

Façam a política que fizerem, todos os políticos dos quais mais se deva desconfiar do que confiar apresentam, todos, um traço comum: todos são indiferentes ao dano que causam, em muitos casos, ao mundo. George W. Bush é bom exemplo; Tony Blair, ex-primeiro-ministro britânico, outro exemplo. No que tenha a ver com política externa, vemos acontecer a mesma coisa hoje, na Casa Branca de Obama.

O padrão-Obama de governar é claro: escolha alguém, no ‘mundo exterior’, e pressione. Ameace. Diga que você fará e acontecerá se ele não se curvar aos desejos de Washington. Quando ‘o inimigo’ não se render e, pior, se responder e falar grosso, retroceda correndo, trate de supercompensar o fracasso com vitórias em alguma outra área e entre em modo ‘reparar danos’.

Em seu pouco mais de um ano de governo, Barack Obama já deu vários exemplos de como governar à sua moda. O presidente dos EUA absolutamente é incapaz de avaliar o peso das cartas de um ou outro dos adversários que escolha atormentar, nem sabe avaliar a determinação de jogar aplicadamente com as cartas que cada um tenha.

Obama tende à retirada, ao primeiro sinal de resistência; o que mostra que não é homem nem de coragem nem de convicções, dois ingredientes cuja presença ou ausência definem os políticos profissionais e os estadistas. Insistindo numa política externa sem rumo, rateando sempre que tem de enfrentar desejos diferentes dos seus, Obama, sem querer, ajuda a dar razão aos que dizem que os EUA já não são nem superpotência nem poder emergente: são poder evanescente – e que a evanescência da ex-única-superpotência é irreversível.

Dentre os que se recusaram a ceder ante a tática linha-dura das ameaças iniciais de Obama (e ante o impacto do poder dos EUA) estão hoje, não só os presidentes de China (megapotência, das grandes) e do Brasil, potência mediana, mas também os líderes israelenses, poder apenas local e visceralmente dependente de Washington para a própria sobrevivência, e até o Afeganistão, estado-cliente. Até aí, ainda sem mencionar a junta militar de Honduras, entidade desimportante, mas que enfrentou as ordens de Obama como se fosse o Politburo da ex-URSS.

Em Honduras, Obama rateou

Quando derrubaram o governo civil e eleito do presidente Manuel Zelaya em junho de 2009, os generais hondurenhos passaram a fazer jus à vergonhosa distinção de serem os primeiros autores de golpe na América Central, da era pós-Guerra Fria. Por que o golpe? O fator decisivo foi o presidente Zelaya ter optado por um Referendum (só consultivo, que nada decidiria), para que a população se manifestasse sobre alterações a serem introduzidas na Constituição. As alterações, se houvesse, seriam feitas pelo Parlamento, votadas, aprovadas ou rejeitadas.

Ao denunciar o golpe como “terrível precedente” na região, e exigir a volta ao Estado de Direito em Honduras, o presidente Obama começou por dizer e repetir que “não queremos voltar àqueles dias negros do passado. Somos e estamos do lado da democracia.”

Para dar peso às palavras, Obama precisaria ter retirado seu embaixador de Tegucigalpa (como fizeram Bolívia, Brasil, Cuba, Equador, Nicarágua e Venezuela) e suspenso imediatamente a ajuda dos EUA, da qual Honduras depende. Nada disso. Em vez dessas atitudes, o que se viu foi a secretária de Estado Hillary Clinton, que declarou que o governo Obama não classificaria formalmente o golpe como golpe… “por hora” – e mesmo depois de a ONU, a OEA e a União Europeia já o terem feito.

Dado que os EUA recuaram, os generais golpistas encheram-se de coragem. Com eles, encorajaram-se também os seus apoiadores no Congresso. O governo imposto de Roberto Micheletti, testa-de-ferro dos militares golpistas contratou uma renomada empresa de “Relações Públicas” em Washington, e puseram-se a trabalhar.

Bastou isso, para enfraquecer toda a “decisão” democrática do presidente dos EUA, homem de belos discursos, mas sem qualquer convicção política no que tenha a ver com política exterior. Foi quando a secretária de Estado Clinton pos-se a tagarelar sobre reconciliar o presidente deposto e o governo golpista de Micheletti, tratando-os ambos os grupos, um governo legítimo e um governo ilegítimo, como se fossem irmãos gêmeos.

Os generais hondurenhos logo viram que a tática de fingir que Washington não pia estava dando bons resultados; e empinaram o peito. Só quando Clinton disse e repetiu que o Departamento de Estado não reconheceria o resultado da eleição presidencial de novembro, porque haveria dúvidas quanto à transparência e lisura das eleições, os generais aceitaram conversar, um mês antes das eleições. Concordariam com a volta de Zelaya ao palácio, para levar o mandato até o término.

Foi quando o senador Republicano linha-dura de direita Jim DeMint, fanático apoiador dos generais hondurenhos, entrou em ação. O governo Obama só receberia aprovação para seus indicados para postos-chave na América Latina, se a secretária Clinton reconhecesse o resultado das eleições, e pouco importava o que fosse feito de Zelaya. Clinton capitulou.

Como resultado, Obama passou a ser o segundo presidente – o outro foi o presidente do Panamá – dos 34 países-membros da OEA, a apoiar a nova “eleição” presidencial em Honduras. O que talvez pareça negociação rotineira na política doméstica do Capitólio foi vista na comunidade internacional que interessa como humilhante retirada do governo Obama, ao ser desafiado por um punhado de generais hondurenhos. Vários políticos e grupos políticos, é claro, tomaram nota.

Retirada ainda mais dramática, seria imposta a Obama, quando trançou chifres com o primeiro ministro de Israel Benjamin Netanyahu.

O esperto Netanyahu levou a melhor

Ao assumir Obama, a Casa Branca anunciou com muita fanfarra que começaria imediatamente a cuidar da difícil questão Israel-palestinos. Examinando então o ‘Mapa do Caminho’ de 2003, de uma paz apoiada pela ONU, por EUA, Rússia e União Europeia, descobriram que Israel, um dia, prometera cessar completamente a construção nas colônias exclusivas para judeus, eufemisticamente chamadas pela Casa Branca e sua mídia, de “assentamentos”.

Na primeira reunião com Netanyahu em meados de maio de 2009, Obama exigiu a suspensão imediata de qualquer construção nas colônias na Cisjordânia e na parte ocupada de Jerusalém Leste, onde já vivem cerca de meio milhão de judeus. Disse que ali estaria o principal obstáculo ao estabelecimento de um Estado palestino independente. Netanyahu rugiu – e jogou a carta iraniana: que o programa nuclear iraniano seria ameaça existencial a Israel.

Obama caiu como patinho na armadilha de Netanhyahu. Em conferência conjunta de imprensa, Obama aproximou as duas questões: as conversações de paz entre israelenses e palestinos e a ameaça que o Irã representaria para a sobrevivência de Israel. Em seguida, para deleite de Netanyahu, Obama deu prazo – “até o final do ano” – a Teerã, para responder aos seus acenos diplomáticos. Assim, o astuto primeiro-ministro de Israel levou o presidente dos EUA a apertar o nó que, dali em diante, manteria atadas uma à outra as duas questões, as quais antes, sempre existiram desconectadas uma da outra. E Netanhyahu sequer precisou oferecer alguma coisa em troca do serviço que Obama prestou-lhe.

Depois, Netanyahu introduziria nova diferença entre a expansão das colônias exclusivas para judeus já existentes e a construção de novas colônias; e a nada se comprometeu, em relação às já existentes. Ainda mais, separou completamente a Cisjordânia e Jerusalém Leste, a qual, como jamais parou de repetir, seria parte integral e inseparável e “capital eterna de Israel” e, portanto, não sujeita a qualquer restrição que se definisse sobre construção nas novas (e também nas velhas) colônias exclusivas para judeus.

No mesmo estilo cenográfico de todo o governo Obama, Clinton respondeu com o que parecia ser firmeza: “Não haverá exceções no congelamento dos assentamentos”. Logo depois, se viu que não passavam de palavras ocas, que nada mudaram na questão real.

Quando Netanyahu rejeitou publicamente as exigências de Obama, de que pusesse fim a construções nas colônias na Cisjordânia, Obama subiu o cacife: sugeriu que a intransigência dos israelenses aumentaria os riscos para a segurança dos EUA.

Dia 15/10, depois de muito vai-e-vem de coxias entre os dois governos, Netanyahu anunciou que dera por encerrada a discussão com Washington sobre “os assentamentos”. Em seguida, em reunião posterior com Clinton, disse que reduziria algumas construções em algumas colônias. A jogada valeu-lhe agradecimentos efusivos da secretária Clinton, que apresentou o gesto como “concessão sem precedentes”, sinal evidente de que, sim, sim, seria possível retomar sem condições as conversações de paz entre palestinos e israelenses.

Os palestinos enfureceram-se com os EUA virarem-lhe tão acintosamente as costas. “Supus que os EUA fossem contrários à expansão das colônias ilegais”, disse um furioso porta-voz do governo palestino, Ghassan Khatib. “Precisamos de negociações para acabar com a ocupação, não de novas colônias para aprofundar a ocupação.”

Em dezembro, Netanyahu aceitou uma moratória de dez meses na construção nas colônias, mas só depois de o Estado ter autorizado a construção de mais 3.000 apartamentos na Cisjordânia ocupada. Firmes na posição assumida, os palestinos rejeitaram qualquer simulacro de conversações de paz, até que a construção de novos prédios nas colônias exclusivas para judeus venha a ser realmente paralisada.

Dia 9/3/2010, exatamente quando o vice-presidente Joe Biden chegava a Jerusalém, como parte da campanha de Washington para iniciar o “processo de paz”, as autoridades do governo de Israel divulgaram a aprovação para que se construam mais 1.600 novas casas exclusivas para judeus em Jerusalém Leste. Movimento violento e arrogante, aprofundou o desafio à autoridade de Obama e enfureceu Biden (além de Obama).

Com sua proposta de reforma da Saúde em disputa por aprovação na Câmara de Deputados, dia 24 de março, quando recebeu Netanyahu em Washington, Obama estava numa roda viva. Ao que se sabe, apresentou três condições para dar por encerrada a crise com Biden: estender o congelamento de novas construções nas colônias, para até depois de setembro de 2010; fim de qualquer novo projeto de construção em colônias em Jerusalém Leste; e retirada dos soldados de Israel para trás das linhas existentes antes da Segunda Intifada. E Obama deixou Netanyahu em reunião com assessores na Casa Branca, para só voltarem a reunir-se quando “houver alguma novidade”. Mais uma vez, como no caso dos golpistas de Honduras, a fala de Obama não passou disso: fala.

O objetivo de toda essa atividade foi conseguir que os palestinos voltassem à mesa das conversações de paz com Israel, conversações muito justificadamente suspensas pelos palestinos quando Israel atacou a Faixa de Gaza em dezembro de 2008. Netanyahu aceitaria novas conversações, desde que “sem qualquer precondição” imposta pelos palestinos.

Ao final, Netanyahu obteve praticamente tudo que queria: nem teve de aceitar precondições do governo Obama, nem teve de aceitar precondições dos palestinos. Em resumo, Obama curvou-se aos desejos de Netanyahu. O cachorro sacudiu o rabo.

Os infelizes representantes da Autoridade Palestina entenderam a mensagem. Depois de alguns protestos apenas rituais, aceitaram participar de “conversações indiretas” com o governo Netanyahu, com George Mitchell, enviado de Washington ao Oriente Médio, levando as conversas de um lado ao outro. ‘Isso’, chamado “conversações indiretas”, começou dia 9/5/2010. Ao longo dos próximos quatro meses, a dura missão de Mitchell será tentar diminuir as diferenças (cada dia maiores) entre o que Israel e os palestinos entendem por “Estado palestino” – sendo que, agora, os dois lados sabem que o governo Obama meterá o rabo entre as pernas e não pressionará Israel, aconteça o que acontecer.

Escaramuças com a China e, de repente, aquecimento

Os problemas de Obama com a República Popular da China começaram em novembro de 2009 quando, para grande desapontamento de Obama, o governo chinês não lhe deu tratamento de Alteza Real em sua primeira visita à China.

As relações Washington-Pequim esfriaram ainda mais quando o governo Obama autorizou venda no valor de 6,4 bilhões de dólares de armamento avançado a Taiwan, inclusive mísseis antimísseis, e Obama recebeu o Dalai Lama, líder espiritual do Tibete, na Casa Branca (embora num salão secundário). A República Popular da China considera Taiwan província separatista e o Tibete como parte da República chinesa, o que faz do Dalai Lama chefe de grupo separatista, aos olhos de Pequim.

Altos funcionários dos EUA qualificaram seus movimentos como “um troco” que Obama estaria dando à China, a qual estaria apostando mais alto do que podia. Com esses movimentos, prosseguiu, incansável, a pressão para que Pequim valorizasse sua moeda, o yuan. O governo de Obama serviu-se de uma lei que exige que o Departamento do Tesouro notifique, duas vezes ao ano, casos de país que manipule a taxa de câmbio entre sua moeda e o dólar americano em busca de ganhos extra no comércio internacional. A data para o próximo relatório desse tipo – antessala para possíveis sanções –, 15 de abril, foi repetida ad nauseam por funcionários do Tesouro e do governo dos EUA.

Em meados de abril, Obama estava preparando um encontro sobre segurança nuclear internacional em Washington. Queria reunir o maior número possível de presidentes. No mínimo, queria reunir os líderes dos quatro países nucleares com poder de veto no Conselho de Segurança – Grã-Bretanha, França, Rússia e China.

Era o que esperava o presidente chinês Hu Jintao, sobre cuja cabeça pendia a espada obamiana, que ameaçava denunciar a China pelo crime de manipular a moeda contra o dólar. Hu declarou que não compareceria à reunião ‘nuclear’ de Obama. Obama piscou. Adiou a data para divulgação do parecer do Departamento do Tesouro, sine die. Em troca, Hu viajou a Washington e encontrou-se com Obama no Salão Oval, na Casa Branca.

Pequim – o coletivo de dirigentes muito realistas e muito experientes – não foi surpreendida por tensões montantes entre China e EUA. A atitude deles apareceu manifesta em editorial do China Daily, pouco depois da posse de Obama. “Os líderes dos EUA jamais se mostraram contidos, ao falar das suas ambições nacionais”, lia-se lá. “Para eles, está-lhes garantida a glória por direito divino, independente do que pensem os demais países.” E o editorial previa que “Obama, que defenderá os interesses dos EUA, acabará inevitavelmente em confronto com os interesses dos demais países.” Exatamente o que se vê acontecer hoje, repetidas vezes.

Esse realismo contrasta vivamente com o estado de espírito da Casa Branca, onde se crê, simploriamente, que alguns poucos discursos enunciados em capitais por todo o mundo, por um eloquente novo presidente, bastariam para restaurar o prestígio dos EUA que as políticas de George W. Bush deixou em ruínas. O que o presidente e sua entourage parecem não ver, contudo, apareceu em pesquisa do importante Pew Research Center. Mostrava-se ali que, depois da campanha pública da diplomacia de Obama, enquanto a imagem dos EUA realmente melhorara consideravelmente na Europa, México e Brasil, a melhora foi menos significativa na Índia e na China; foi apenas marginal no Oriente Médio árabe; e igual a zero na Rússia, Paquistão e Turquia .

Paralisado num modo autocongratulatório, a equipe de Obama não deu atenção à ampla gama de opções de jogo que ainda há em mãos de outras potências, para retaliar contra a pressão dos EUA. Por exemplo, não previram que Pequim ameaça impor sanções contra grandes empresas norte-americanas fornecedoras de armas a Taiwan; tampouco previram a dura resistência da República Popular da China, que não considerou, até agora, sequer a possibilidade de desvalorizar o yuan.

Há quem atribua o comportamento dos chineses a um crescente nacionalismo e ao medo, nos líderes, de que, se cederem a pressão de “estrangeiros”, abalarão a própria imagem “interna”. Mas a verdadeira razão pela qual os chineses resistem tem mais a ver com as durezas da economia, do que com qualquer preocupação com emoções populares. Nos dias iniciais da Grande Recessão de 2008-09, simbolizada pelo colapso do gigantesco banco de investimentos Lehman Brothers, a China logo farejou movimentos tectônicos em andamento no próprio equilíbrio do poder econômico internacional – com desgaste importante à, até então, “única superpotência”.

Enquanto se contraíam as economias de EUA e Europa, Pequim rapidamente adotou políticas que visavam a estimular a demanda interna e os investimentos em infraestrutura. Daí nasceu crescimento impressionante: 9% no PIB em 2009, com 12% já previstos para 2010. Com isso, até os analistas do Goldman Sachs já preveem que a China será a primeira potência econômica mundial, já a partir de 2050.

Pela primeira vez desde a II Guerra Mundial, não são os EUA que arrancam o resto do mundo das garras do crescimento negativo: é a China. Os EUA emergiram da carnificina financeira como a nação mais endividada do planeta, sendo a China o principal credor, com impressionantes – e sem precedentes – reservas de $2,4 trilhões em moeda estrangeira.

Suas ricas corporações endinheiradas estão comprando empresas e recursos naturais futuros da Austrália ao Peru, do Canadá ao Afeganistão onde, ano passado, o Congjiang Copper (cobre) Group, corporação chinesa, ofereceu $3,4 bilhões – um bilhão de dólares a mais que a mais alta proposta das metalúrgicas ocidentais – para assegurar-se o direito de minerar cobre de um dos mais ricos depósitos do planeta.

Karzai, o Perigo, torna-se Karzai, o Indispensável

Ao assumir a presidência, Obama não fez segredo do desagrado que lhe inspirava o presidente afegão, Hamid Karzai. Para dispensar-se de enfrentar a viciosa corrupção que contamina todo o governo afegão, altos funcionários e militares dos EUA inventaram a ideia de negociar diretamente com os governadores das províncias e distritos afegãos. Na eleição presidencial de agosto de 2009, escolheram apoiar Abdullah Abdullah, principal e importante adversário de Karzai, como todos sabiam.

Quando Karzai manipulou pesadamente as eleições para garantir a reeleição, e fez-se de surdo aos clamores de Washington para que ‘limpasse’ o governo, Obama decidiu servir-se do porrete para disciplinar mais esse regime-cliente. Em gesto dramático, embarcou para viagem de 26 horas – de Washington a Cabul –, no último fim-de-semana de março, para dar lições pessoais a Karzai sobre sua (de Karzai) incompetência para governar e combater a corrupção. Karzai, sem alternativas, deixou que Obama falasse e nada disse.

Quando, porém, Karzai soube, pelos jornais, que um militar norte-americano não identificado havia sugerido que seu meio irmão mais jovem, Ahmed Wali, principal representante do governo Karzai na província de Candahar, no sul, deveria ter seu nome incluído na lista do Pentágono de barões da droga a serem assassinados ou presos, a paciência de Karzai esgotou-se, de vez.

O presidente afegão indignado respondeu com declarações de que os EUA obravam deliberadamente para intensificar e aprofundar a guerra no Afeganistão, para conseguir permanecer na região; não para pacificá-la, mas para controlá-la. Disse também que, se Washington insistisse nessa tática suja, aliar-se-ia aos Talibã. (Karzai, de fato, foi importante arrecadador de fundos para financiar os Talibã, depois que capturaram Cabul, em setembro de 1996.)

Obama reagiu como sempre, em iguais circunstâncias: se desafiado, retrocede. De porreteador maluco, transformou-se instantaneamente em distribuidor de cenouras durante a visita de Karzai a Washington no início de maio (a qual, em março, a equipe de Obama ameaçava adiar indefinidamente).

O ponto alto do movimento de bajular Karzai – digno de ser incluído em versão contemporânea de Alice no País das Maravilhas – foi um jantar oferecido a ele pelo vice-presidente Joe Biden, em sua mansão. Karzai, além de sentir-se vingado, deve ter rido muito. Em fevereiro, Biden protagonizara movimento de ofensa operística, ao levantar-se e sair de jantar com Karzai no palácio presidencial, depois de Karzai ter desmentido que seu governo fosse corrupto e dito que, mesmo que houvesse corrupção, o grande corruptor jamais foram nem ele nem sua família.

Apesar do tratamento “tapete vermelho”, e das táticas de “ofensiva de charme” e “poder soft”, Karzai foi cristalmente objetivo e claro na entrevista coletiva; ao lado de Obama, declarou que “o Irã é nação amiga do Afeganistão, nossa nação-irmã”.

Sentimentos semelhantes foram pouco depois expressos também por outro presidente – no Brasil.

O presidente Lula do Brasil e Obama

Desde que assumiu a presidência no Brasil, em 2003, Luiz Inacio Lula da Silva, sempre que necessário, trilhou caminho diferente do prescrito por Washington. Na Rodada de Doha, a questão foi o comércio mundial. E o mesmo se tem visto nas questões de aquecimento global e das sanções contra Cuba.

Em dezembro de 2008, o presidente do Brasil presidiu reunião de 31 países latino-americanos e do Caribe, excluídos os EUA, num centro turístico em território brasileiro, Sauípe. Mês seguinte, em vez de ir ao Fórum Econômico Mundial em Davos, Suíça, da Silva compareceu ao 8º Fórum Social Mundial em Belém, cidade à beira do rio Amazonas.

Criticou o modo como Obama desconsiderara a via democrática em Honduras e, apesar do desagrado manifesto do governo Obama e da oposição no Brasil, convidou o presidente do Irã Mahmoud Ahmadinejad a visitar Brasília em novembro de 2009 para conversações sobre o programa nuclear iraniano – primeiro movimento importante da diplomacia brasileira sob seu governo. (Uma semana adiante, da Silva recebera calorosamente o presidente Shimon Peres de Israel, em Brasília.) Seis semanas depois, da Silva estava em Teerã – e fez história, para desconsolo patético de Washington.

Atuando em conjunto com o primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan, da Silva reviveu uma proposta de acordo nuclear de outubro de 2009 e, contra todas as expectativas, conseguiu definir um acordo nuclear com Ahmadinejad.

Surpreendido, de fato aturdido, com o sucesso de Brasil e Turquia, e com a pouca importância que haviam dado à ‘desaprovação’ de Washington, o governo Obama desconsiderou toda a própria política até ali e passou a exigir que o Irã cancelasse seu programa de enriquecimento de combustível nuclear. E pôs-se freneticamente a tentar impor ao Conselho de Segurança da ONU uma resolução para mais sanções contra o Irã, como se o acordo costurado por Brasil e Turquia não existisse.

A dificuldade para ver a realidade é miopia, para dizer o mínimo. A incapacidade para avaliar, do presidente dos EUA e de sua secretária de Estado, ignora todos os movimentos relevantes que agitam o mundo (real), hoje. A influência das potências ‘medianas’ no cenário mundial está aumentando. Todos os governos, no mundo, sentem – com razão – que não precisam render-se ‘preventivamente’ às exigências de Washington. Nada mais estimulante, hoje, do que esse movimento.

Esse é o caminho pelo qual essas potências ‘medianas’ (ditas “emergentes”, mas, de fato, já plenamente “emergidas”), começam a conseguir reunir-se e atuar nas questões internacionais, tomando iniciativas diplomáticas com boa chance de serem bem-sucedidas.

Hoje, em todo o mundo, do Afeganistão a Honduras, do Brasil à China, líderes globais, dos maiores aos menores, pressentem que o governo Obama mais late que morde. É evidência de que, por mais que os EUA ainda sejam potência mundial, já não são nem a única nem a determinante. Esse desgraçado “século dos EUA” está irreversivelmente a caminho do fim.

* Dilip Hiro

Fonte do artigo original, em inglês: Tom Dispatch

Tradução: Caia Fittipaldi



domingo, 21 de fevereiro de 2010

O legado da CIA no Irã, Afeganistão e Paquistão

Do blog do Argemiro Ferreira

A imagem do herói no cavalo branco a salvar a mocinha das garras do vilão, seja este assaltante de banco ou índio em defesa de suas terras invadidas, é recorrente na ficção de Hollywood. O deputado Charlie Wilson (o da foto acima, entre os radicais afegãos em 1987) morreu, aos 76 anos, no dia 10 de fevereiro, certo de que era herói na vida real (mais sobre ele AQUI). Motivo: no Congresso injetou bilhões de dólares para financiar os que lutavam contra os russos no Afeganistão.

Ao morrer do coração Wilson já estava aposentado. Mas ele representou o Texas por 14 mandatos sucessivos na Câmara. Um livro (Charlie Wilson’s War – The Extraordinary Story of the Largest Covert Operation in History, de George Crile) e um filme (Charlie Wilson’s War, de Mike Nichols, com Tom Hanks no papel-título) o retrataram como herói.

A semana marcou ainda o 31° aniversário da revolução dos aiatolás do Irã, ocorrida apenas alguns meses antes da invasão do Afeganistão. Os iranianos derrubaram o regime do xá Reza Pahlevi, instalado em 1953 graças a golpe planejado pela mesma CIA que usou as verbas secretas do deputado Wilson para recrutar e armar os radicais islâmicos do lado paquistanês da fronteira com o Afeganistão.

O mínimo que se pode dizer é que no Irã, Afeganistão e Paquistão os EUA colhem hoje o que a CIA plantou com a colaboração de gente como o deputado Wilson (na foto, exibindo uma arma em seu gabinete – e, ao lado, a capa do livro que celebrou a “guerra de Charlie Wilson”). Osama Bin Laden foi treinado pela CIA para atacar os russos; gostou e atacou depois o World Trade Center em Nova York. E as bombas atômicas do Paquistão (real) e do Irã (hipotética) devem-se, ao menos em parte, a igual cortesia da CIA.

Um quarto de século para os donos do petróleo

A lambança atual no Afeganistão (largamente nas mãos dos radicais islâmicos usados pela CIA a partir de 1979), no Paquistão (onde a CIA instalou acampamentos para os ataques aos russos no país vizinho e encorajou o sonho paquistanês da bomba nuclear islâmica) e no Irã (que se nega hoje a abandonar o enriquecimento de urânio) reflete o passado irresponsável da espionagem dos EUA.

No Irã o golpe da CIA instalou o xá (foto ao lado – e mais sobre a trajetória dele AQUI) no lugar do premier nacionalista Mohamed Mossadegh, anulou a nacionalização do petróleo e com faustosa coroação em 1967 impôs a ficção do “trono de 2.500 anos”. As corporações anglo-americanas ganharam mais um quarto de século para explorar o petróleo do Irã, já que para isso a CIA também concebeu a tenebrosa Savak, serviço secreto celebrizado pelas câmaras de tortura.

Ainda naquela década de 1950 o Irã foi premiado pelo governo do presidente Eisenhower com relações muito especiais – que incluiram “acordo de cooperação nuclear para fins pacíficos”, deixando o país com alguma base para, em seguida à revolução dos aiatolás, assustar os EUA com a disposição de ampliar o programa nuclear e rumar para o enriquecimento de urânio.

Para o Irã submisso de Reza Pahlevi, nada era bom demais: além de favorecer o desenvolvimento nuclear, Washington ainda dotou o país de armas sofisticadas e modernizou a máquina da repressão – tudo pago com a receita do petróleo, que regalou nos EUA as indústrias de armas, aeronáutica, nuclear e de segurança. Só que hoje, tomado pelos rebeldes radicalizados nas câmaras de tortura, o Irã é outro.

Helms & Pahlevi: a intimidade promíscua

De tal forma o Irã do xá era criatura da CIA que no final de 1973 o presidente Nixon concluiu que ninguém melhor para ser embaixador em Teerá do que o próprio diretor da central de espionagem, Richard Helms – “dada a intimidade dele com o xá”, explicou (veja-o ao lado na capa da revista Time em 1967). Como se fosse o posto final de uma carreira de sucesso na CIA, dirigida por Helms durante quase sete anos, antes dos três que passou no Irã.

Com a contribuição do deputado Charlie Wilson, anticomunista meio fanático, o capítulo Afeganistão-Paquistão foi ainda mais vivo, excitante e insólito – ou colorful, para usar adjetivo talvez mais apropriado à conduta do parlamentar, um playboy excêntrico que quando não estava “salvando o mundo” da “ameaça vermelha” dedicava-se ao consumo de álcool e drogas com prostitutas de luxo.

Ele ficou obviamente encantado com os relatos do livro e do filme (no cartaz, ao lado, o trio central: Wilson, a namorada e o homem da CIA) que o tornaram celebridade. Seu papel pode ter sido singular pelo conhecimento de sutilezas do processo legislativo na Câmara, onde integrava a comissão de verbas (appropriations) e sua subcomissão sobre operações no exterior – além de cultivar contatos na comissão que supervisiona a espionagem.

Não só estava familiarizado com mecanismos e artifícios para ocultar a destinação de recursos. Também revelara-se mestre na troca de favores com colegas interessados em abocanhar verbas para projetos de seus distritos eleitorais. Certos especialistas acham que hoje teria mais dificuldades: o processo legislativo sofreu reformas depois, reduzindo – em nome da transparência – a prática do sigilo (saiba mais AQUI).

Forçando a URSS a invadir o Afeganistão

O fato é que Wilson começou por canalizar uma verba de US$ 5 milhões para os radicais afegãos. E no fim da década de 1980 aqueles recursos elevavam-se a nada menos de US$ 750 milhões por ano. Pode ter sido ajudado por pertencer ao partido da oposição (democrata) numa década dominada por governos republicanos (Reagan e Bush I) obstinados em estender ainda mais as ações militares dos EUA pelo mundo.

No Afeganistão e Paquistão, sabe-se hoje, a lambança foi bipartidária – devido a armadilha do governo do presidente democrata Jimmy Carter. Seu assessor de segurança nacional na Casa Branca, Zbigniew Brzezinski (a foto ao lado é dos dois), confessaria 20 anos depois ter atraído a URSS para a idéia de invadir o Afeganistão. A invasão veio a 24 de dezembro de 1979, após seis meses de ajuda crescente da CIA aos rebeldes radicais.

Em entrevista à Nouvel Observateur de Paris em 1998 (leia AQUI), Brzezinski vangloriou-se de seu papel: “Carter assinou a 3 de julho de 1979 a primeira diretiva (à CIA) para a ajuda secreta aos opositores do regime pro-soviético de Kabul. Naquele dia eu tinha enviado nota ao presidente na qual expliquei que, na minha opinião, tal ajuda americana iria levar a uma intervenção militar soviética”.

Quando o jornalista perguntou se a ação clandestina dos EUA tivera a intenção de provocar a invasão russa, Brzezinski amenizou: “Não provocamos os russos para que invadissem, mas ampliamos conscientemente a probabilidade de que isso viesse a ocorrer”. No dia em que os russos cruzaram a fronteira, disse, escreveu de novo a Carter: “Agora temos a oportunidade de dar aos soviéticos o Vietnã deles”.

Brzezinski contestou, assim, a tese republicana que atribui a Reagan a glória pelo fim da URSS. “Durante quase 10 anos a URSS amargou guerra insuportável – um conflito que trouxe a desmoralização e, afinal, a dissolução do império soviético”, alegou. Mas o exagero é comparável ao do mérito republicano. O desfecho, após meio século, deveu-se aos dois partidos e muita gente mais – inclusive os que erraram tanto na URSS.

De “combatentes da liberdade” a “terroristas”

As avaliações atuais tentam ignorar os efeitos negativos das ações da espionagem. Ao financiar, treinar e armar (até com mísseis Stinger, capazes de destruir aviões em vôo) os radicais que batizou de “combatentes da liberdade” a CIA extremou as ambições deles. Hoje ela os repudia como “terroristas”, indiferente ao fato de que são os mesmos – e aprenderam o que sabem na CIA, em especial a pensar o impensável, como atacar o coração do império americano.

Com os russos fora do Afeganistão os EUA deixaram o país para os radicais que a CIA diplomou em terrorismo. Com armas como o Stinger, os talibãs tomaram o poder e ficaram até 2001 (hoje lutam contra tropas da OTAN). Bin Laden, saudita de nascimento, ainda dirige de lá a al-Qaeda, que opera no mundo a partir do território afegão. A CIA ainda tenta “recomprar” Stinger mas nem sabe quantos distribuiu – a estimativa vai de 500 a 2.000.

O deputado Wilson, ao invés de herói, foi cúmplice das trapalhadas. Livro e filme dizem que agia com assistência da CIA. A culpa dos EUA e sua agência ia mais longe na relação promíscua com o general-ditador paquistanês Zia-ul-Haq, que em troca do apoio à operação na fronteira afegã obteve luz verde e deu carta branca ao construtor da bomba atômica islâmica, o cientista Abdul Qadeer Khan.

No desdobramento, a receita da bomba-A do Paquistão (saiba mais sobre ela AQUI) foi parar no Irã, Coréia do Norte, Líbia e talvez outros. Assim, além de fazer a “guerra (sem fronteiras) ao terrorismo” e lutar no Afeganistão contra os que antes chamava de “combatentes da liberdade”, os EUA hoje têm de vigiar o Dr. Khan, o serviço secreto (ISI) do Paquistão, os progressos nucleares do Irã e da Coréia do Norte e sabe-se-lá-mais-o-que.

A própria CIA adotou a expressão blowback para designar os efeitos opostos ao que pretendia em cada uma de suas operações clandestinas. A palavra (usada no título do livro da capa ao lado, no qual Chalmers Johnson analisou os custos e consequências do império americano) apareceu pela primeira vez em relatório secreto de 1954 sobre o golpe da CIA no Irã (leia explicação do autor AQUI). O blowback da derrubada de Mossadegh foi a tirania de 25 anos e a revolução (antiamericana) dos aiatolás. Já em relação ao Afeganistão, os ataques do 11/9 nos EUA tendem a ficar na história como o efeito mais devastador.

(Clique abaixo para saber mais sobre o Irã desde o golpe de 1953)



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

"As ações dos EUA falam mais alto que suas palavras"

Aiatolá Ali-Akbar Hashemi-Rafsanjani, Iran-2009:


O Aiatolá Ali-Akbar Hashemi-Rafsanjani, em entrevista exclusiva a Press TV, fala sobre a Revolução Islâmica do Iran, sobre a questão nuclear, sobre as próximas eleições e sobre o futuro das relações EUA-Iran.

Por mais de 30 anos, o Aiatolá Rafsanjani esteve na linha de frente da política iraniana. Foi deputado-portavoz do Parlamento (Majlis)[1] iraniano de 1980 a 1989. E foi presidente do Iran de 1989 a 1997. Atualmente, é Líder da Assembléia dos Anciãos e do "Expediency Council"[2] do Iran.

Press TV: Gostaríamos de saber o que o senhor pensa sobre por que os iranianos optaram por uma Revolução Islâmica, em vez de tentarem reformar o sistema monárquico anterior, do Xá.

Rafsanjani: Bem, o movimento popular no Iran começou porque o povo exigia reformas. Por algum tempo, só se falou de reformas, mas o regime do Xá manteve-se surdo. Em vez de ouvir as críticas, recorreu à violência e foi-se tornando cada vez mais tirânico. Assim chegamos à conclusão de que a crítica não funcionaria e que o problema estava no próprio regime.

Press TV: Como se sabe, tem havido muita hostilidade entre Teeran e Washington. Do seu ponto de vista, que passos são necessários para melhorar o relacionamento e o que levou à situação atual? Parece-lhe possível, hoje, consertar essas relações?

Rafsanjani: Depois da vitória da Revolução, por mais que os EUA tenham tido participação ativa no que o Xá fez, não nos interessa nenhum confronto com os EUA. Os conselheiros norte-americanos que viviam aqui jamais foram expulsos. Partiram porque decidiram partir.

A embaixada dos EUA permaneceu em pleno funcionamento em Teeran, mas, aos poucos, a embaixada foi sendo convertida num centro de atividade anti-revolucionária. Tantas fizeram que o povo, afinal, se enfureceu.

Os EUA fizeram campanha militar em Tabas, outro fato que, outra vez, enfureceu o povo. Pouco depois disso, tentaram um golpe; o golpe Nojeh (11/7/1980)[3] foi orquestrado pelos norte-americanos. Investigamos tudo e há indícios eloquentes do envolvimento dos EUA.

Depois, fomos arrastados à guerra. Os EUA apoiaram Saddam, quando atacou o Iran. Os EUA sempre apoiaram o regime de Saddam Hussein.

Se se combinam todos esses fatores, e se se considera o ressentimento popular em relação às políticas norte-americanas antes da Revolução, não é difícil entender por que as relações chegaram ao ponto em que estão.

Por exemplo, se os EUA agissem conforme nossos acordos anteriores, de Haia, teriam contribuído para melhorar, não para azedar cada vez mais, nossas relações.

Press TV: Há alguma possibilidade de acertar as diferenças que separam Iran e EUA? O que deve ser feito?

Rafsanjani: Quando fui presidente, anunciei que, se os EUA demonstrassem boa-vontade e concluíssemos que queriam trabalhar como aliados, sem qualquer fantasia de colonizar o Iran, haveria possibilidade de negociação.

Por exemplo: o Iran tem fundos que foram (e assim permanecem até hoje) ilegalmente congelados nos EUA. Se liberarem o nosso dinheiro, será evidência clara de que estão seriamente empenhados em melhorar as relações conosco. Tomaremos o descongelamentos daqueles fundos como gesto de boa-vontade e abriremos negociações. Mas até agora ainda não há qualquer sinal nessa direção.

Todos que ocuparam a presidência depois de mim disseram a mesma coisa: se o EUA manifestarem boa-vontade em relação ao Iran, estaremos abertos a conversações.

Press TV: Há alguma abertura hoje? O senhor acredita que a posse do presidente Barack Obama faz aumentar a possibilidade de melhores relações?

Rafsanjani: Tem-se falado muito sobre isso e o presidente Obama tem usado vocabulário diferente do presidente Bush. Isso posto, também é verdade que não recebemos, até hoje, nenhum novo sinal claro dos norte-americanos. Os funcionários iranianos estão à espera, para saber o que o presidente Obama fará, na prática, e se há verdadeira boa-vontade. Ações sempre falam mais alto que palavras.

Press TV: Analisando em retrospectiva os 30 últimos anos, vê-se que a República Islâmica avançou muito. Gostaria que o senhor comentasse, por favor, o que o senhor mais lastima, desses anos; e o que considera a principal realização, desde a Revolução?

Rafsanjani: São conquistas todos os objetivos que lutamos para alcançar e alcançamos. Por exemplo, a revolução visava a tornar o Iran independente, porque não queríamos continuar a depender de países estrangeiros.

Os europeus e outros países ocidentais sempre controlaram o Iran. Um dos objetivos da Revolução foi pôr fim à interferência estrangeira e tornar o Iran independente. Não esqueçamos que, sob o regime tirânico de Pahlavi, o povo reivindicava o direito de eleger representantes – exigência que a Revolução Islâmica também encampou.

O fato de os iranianos serem crentes da religião islâmica também teve muito a ver com o sucesso da Revolução Islâmica. Os iranianos queriam que se implantasse a lei Islâmica. Nisso, os iranianos não mudaram nem de opinião nem de ideais.

Depois da Revolução, tentamos dar traços de governo islâmico ao governo iraniano. Não se pode aprovar nenhuma lei que contrarie a lei islâmica. E fizemos o melhor possível para reconstruir o país, de modo a aumentar nossa independência em relação a nações estrangeiras.

Alcançamos sucessos importantes no campo científico e tecnológico e aumentamos os índices educacionais. Reconstruímos a infra-estrutura do país e revolucionamos nossa indústria de defesa. Na minha opinião, são conquistas muito importantes.

Contudo, embora nosso sistema de governo tenha sido bem-sucedido, houve coisas que não deveríamos ter feito. Acontece sempre, em todos os governos, porque as coisas nunca são simples.

Tenho certeza de que também temos nossa quota de erros e de que não alcançamos plenamente todas as nossas metas. Ainda há muito trabalho a ser feito. Há também o problema do embargo, que tornou mais lento o progresso em algumas áreas.

Essa Revolução é vitoriosa e prosperou. Em 30 anos, não se afastou do caminho original e manteve-se fiel aos ideais originais.

Press TV: E quanto ao status econômico dos iranianos. Como o senhor vê as reformas econômicas do presidente Ahmadinejad?

Rafsanjani: Nossa principal questão hoje é enfrentar a questão econômica e reformar o sistema de subsídios, que não é eficiente na forma que tem hoje.

Por exemplo, o subsídio ao combustível e à energia não é o que deve ser, porque os ricos têm-se beneficiado mais com o tipo de subsídio que há, do que os pobres. Parte importante da população não está recebendo subsídios, que são necessários e são direito dos iranianos. Essa é uma das questões que estão em discussão no Majlis [Parlamento].

O Majlis ocupa-se atualmente com o orçamento, o plano de reforma econômica e as políticas gerais do quinto plano de desenvolvimento apresentado pelos legisladores ao "Expediency Council". Estamos trabalhando no quinto plano de desenvolvimento econômico, que nos ajudará a alcançar todas as nossas metas.

Press TV: Gostaria de pensar um pouco sobre as eleições presidenciais aqui na República Islâmica. O que o senhor pensa sobre as próximas eleições? O senhor tem candidato ou grupo preferencial?

Rafsanjani: Não. Não tenho opinião específica sobre nenhum dos candidatos já conhecidos ou que apareçam. Estou esperando que a lista completa e final de candidatos seja oficialmente anunciada, para decidir em quem votar.

O mais importante para mim é que as eleições sejam organizadas e feitas de modo a assegurar que o maior número possível de eleitores manifestem seu voto. Esperamos que muitos acorram às cabines de votação e votem.

Press TV: Quais os principais desafios que a República Islâmica enfrenta hoje?

Rafsanjani: A questão nuclear é importante questão internacional em que o Iran está envolvido e também envolve os EUA. Também é preocupante a presença de exércitos estrangeiros no Iraque, Afeganistão, na região do Golfo Persa e ao norte do Iran.

Num nível doméstico, há a questão dos subsídios, que ainda não está resolvida e continua a criar sérios problemas para nossa economia.

A maior parte da economia iraniana ainda é estatal, e é preciso começar a agir para separar o Estado da atividade econômica e direcionar a economia iraniana na direção da privatização.

Press TV: O senhor acaba de mencionar a questão nuclear, como um dos desafios. O quanto o Iran está disposto a mostrar-se flexível, se os EUA condicionarem a reaproximação com o Iran ao fim de todo o programa nuclear iraniano? A República Islâmica está disposta a ceder, na questão nuclear?

Rafsanjani: Estamos completamente preparados para cooperar, nos termos da legislação e das normas internacionais. O Iran é membro da agência nuclear internacional (International Atomic Energy Agency, IAEA), cujas regras são muito claras. Todos os países membros da IAEA têm direito de construir tecnologia nuclear para fins pacíficos. Evidentemente, a filiação à IAEA proíbe todos os membros de desenvolverem programas nucleares para fins militares – disposição com a qual o Iran concorda e acordo que subscrevemos integralmente.

Ao mesmo tempo, esperamos que a IAEA coopere e trabalhe conosco em tudo que tenha a ver com a questão nuclear. Essa é a única reivindicação que o Iran fez e continua a fazer.

Mas, sim, há países que têm tentado nos enganar. Repetem que seria perigoso desenvolver a tecnologia de enriquecimento [do urânio]. Não podemos aceitar esse tipo de restrição. Buscar recursos tecnológicos para o enriquecimento de urânio é direito assegurado a todos os Estados-membros da IAEA, nos termos da legislação e das normas internacionais. [NAT/AR/SME/HGH]



[1] Sobre isso, ver http://en.wikipedia.org/wiki/Majlis_of_Iran: O Majlis do Iran, lit. "Assembléia Islâmica Consultiva", também chamada de "Parlamento Iraniano", é o corpo nacional legislativo do Iran. Há hoje no Majlis 290 representantes, 20 a mais, depois da eleição de 18/2/2000. Atualmente, o líder do Parlamento é Ali Larijani.

[2] Sobre isso, ver http://www.iranonline.com/iran/iran-info/Government/Expediency.html: O "Expediency Discernment Council of the System (EDCS)" foi criado em 6/2/1988, por decisão do Aiatolá Ruhollah Khomeini, com a função de conciliar divergências que surjam entre a Assembléia Islâmica Consultiva e o Conselho dos Guardiães (ou dos Sábios, ou dos Anciãos – e encontram-se todas essas traduções)."

[3] Sobre o golpe Nojeh, ver http://en.wikipedia.org/wiki/Nojeh_Coup: "Golpe tentado por um grupo de oficiais e soldados da infantaria, força aérea, exército e serviço secreto, sob a liderança de um ex-ministro do Xá, Shapour Bakhtiar, que operava do exílio, em Bagdá, desde que a Revolução Islâmica, com Khomeini, tomou o poder no Iran. Investigações posteriores comprovaram que Zbigniew Brzezinski, conselheiro de segurança nacional do governo Carter, de 1977 a 1981, encontrava-se regularmente com os golpistas."


10/2/2009, Marzieh Hashemi, Press TV, Teeran - http://www.presstv.ir/detail.aspx?id=85294&sectionid=3510302


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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Revolução Islâmica do Irã: Resolução para 2009

DOCUMENTO:

Irã: Resolução para 2009

10/2/2009

Em nome de Alá, o generoso, o misericordioso,

O povo do Iran Islâmico, inspirado no sagrado Corão, na pura prática de vida do Profeta Maomé (que a paz esteja com ele) e nos ensinamentos do lar do Profeta, festeja o 30º aniversário do triunfo glorioso da Revolução Islâmica com grande fervor e entusiasmo.

Pela forte presença popular nas cerimônias que marcam a "primavera da liberdade" e porque confiam em Deus Todo-poderoso, o Iran, com calor e grandes esperanças, dá as boas-vindas à quarta década da nova história dessa terra tão antiga. É o aniversário de 30 anos da vida abundante da revolução da nação muçulmana do Iran, durante os quais se aprofundaram as raízes desse movimento genuíno no coração dos que amam a liberdade e a justiça em todo o mundo.

As mensagens da maior revolução popular em marcha no mundo conquistam o coração dos que buscam verdade e igualdade e justiça. Três décadas se passaram desde que emergiu a figura sempre presente na história mundial contemporânea do abençoado arquiteto da Revolução Islâmica. A memória daquela grande fonte de inspiração vive no coração e no pensamento dos iranianos de todas as ideologias cujas inclinações incluam o amor à liberdade, à justiça e a decisão de lutar contra a tirania.

Sem dúvida, a memória daquele líder bem-amado permanecerá impressa na mente da nação iraniana. A revolução ter passado incólume por tempos tão difíceis é prova, mais uma vez, de que a divina providência entregou a liderança dessa grande revolução, depois do falecido Iman, às mãos de outro grande homem, cujas palavras e cuja visão são as palavras e a visão do falecido Imam.

Ao comemorar o 30º aniversário da vitória da Revolução Islâmica, no ano que nosso líder chamou de "o ano da inovação e do florescer", o povo revolucionário do Iran, agradecido pelas infinitas bênçãos de Deus Todo-poderoso por ter-nos dado viver 30 anos de vida honrada, mais uma vez renova o compromisso de fidelidade ao falecido Imam, aos mártires e ao líder da Revolução Islâmica e aqui enuncia seus compromisso, como seguem:

1. Sua preciosa independência, a glória sempre crescente, a inegável influência nos desenvolvimentos regionais e mundiais, associadas às grandes realizações em todas as áreas, atribuem à Revolução Islâmica do Iran, que chega aos 30 anos, um novo papel exemplar para os povos do mundo.

Esses grandes sucessos foram alcançados por a República do Iran ser essencialmente "Islâmica" e "República" e apontam para o fato de que o caminho dos iranianos crentes é o único capaz de salvar as comunidades islâmicas e de resolver seus problemas. A teoria do falecido Imam Khomeini sobre "governar pela jurisprudência religiosa", cujos pilares são os pilares do governo Islâmico, é a única doutrina que leva à dignidade, à honra e ao progresso.

2. Cremos profundamente que "a unidade islâmica e a solidariedade nacional" gerarão ainda mais energia na direção das sublimes aspirações da Revolução Islâmica, como viu-se acontecer nos últimos 30 anos. Assim sendo, consideramos que a unidade e o acordo nacional são as exigências mais significativas para a quarta década da revolução. Conclamos todos, sejam quais forem suas inclinações e gostos políticos, a buscar e a fortalecer a unidade.

3. Graças à divina providência e aos líderes sagazes, até os mais ferrenhos inimigos já se renderam à influência iluminadora e ao poder da Revolução Islâmica no mundo islâmico e em regiões estratégicas como o Oriente Médio, África e América Latina, contra todas as conspirações atentadas contra ela.

Consideramos a onda favorável ao Islam e o despertar das comunidades islâmicas a prova de que se semearam bem os ideais e as aspirações da revolução. Obedientes à palavra do falecido Imam e do líder da Revolução Islâmica, insistimos em oferecer apoio continuado a todos os oprimidos e a todos os movimentos de resistência à opressão em todo o mundo.

4. O povo do Iran, sob o slogan "Nós podemos!" orgulha-se das conquistas dos últimos 30 anos no campo das ciências, da tecnologia, da medicina e da defesa e festeja, especialmente, o lançamento do satélite Omid, posto em órbita como resultado de termos observado os princípios do Islam de Maomé, as linhas-guia do pensamento do falecido Imam e as do líder da Revolução Islâmica, autoconfiança, talento, planejamento atento e todo o empenho dos jovens cientistas e especialistas. Apreciamos os esforços de todos os que se dediquem empenhadamente a promover o conhecimento no Iran e, mais uma vez, enfatizamos o indiscutível direito de o Iran construir competências de know how nuclear para fins pacíficos.

5. Condenamos a nova onda de perseguição contra grupos étnicos e grupamentos no mundo do Islam e destacamos a necessidade de observar os avisos prudenciais do líder da Revolução Islâmica, para convocar líderes mundiais comprometidos, intelectuais comprometidos e a elite comprometida, assim como a mídia, no mundo islâmico, para que efetivamente confrontem, enfrentem e derrotem essas conspirações; que o item primeiro de todas as suas agendas seja manter a unidade entre Xiitas e Sunitas.

6. O governo dos EUA não poupou esforços para enfraquecer o governo Islâmico, ao longo dos últimos 30 anos. Nas palavras do falecido Imam, os EUA ficaram conhecidos na literatura iraniana como "o Grande Satã".

O desespero que os levou a desafiar o povo iraniano, à ocupação do Iraque e do Afeganistão, à intervenção no Oriente Médio, tanto quanto a ambição desmedida de políticas expansionistas, acabou por levar os EUA a adotar o slogan da "mudança". É indispensável resistir a todos os golpes e complôs, sejam suaves sejam os mais duros, e jamais relaxar a vigilância e o exame atento de todas as políticas do "Grande Satã".

O slogan da "mudança" só se provará certo quando tiverem fim todas as ocupações e toda a tirania no mundo, e quando os direitos do povo do Iran – inclusive seu direito de construir competências nucleares – forem reconhecidos, quando seus bens forem descongelados, quando se levantarem todas as sanções e bloqueios e quando diminuir a pressão política contra o Iran.

7. Nos últimos 30 anos, sempre destacamos a necessidade de se libertarem os santos Quds e o povo palestino oprimido. Vemos o crescente poder da resistência Islâmica, ao derrotar o exército sionista e seus apoiadores nos 33 dias da guerra no Líbano e nos 22 dias do massacre de Gaza como indicações da divina providência e auxílio, na direção de alcançar aquele objetivo sagrado. Saudamos os dignos homens que comandam os grupos da resistência Islâmica no Líbano e na Palestina, especialmente o governo popular de Ismail Haniya, damos-lhes nosso mais empenhado apoio e apreciamos todos os esforços do grande líder da Revolução Islâmica para auxiliar o povo de Gaza. Apreciamos a opinião pública mundial que apoiou os habitantes de Gaza e condenamos o pouco empenho de vários países árabes que pouco ou nada fizeram em relação às catástrofes em Gaza.

8. O povo do Iran, que também é vítima do terrorismo internacional, condena veementemente a União Européia por ter excluído de sua lista de organizações terroristas o grupo chamado "People's Mujahedin of Iran" (MKO). E conclamamos a União Européia a revisar essa decisão.

9. O povo do Iran tem sido alvo de uma onda de atentados, conspirações e golpes movidos pela arrogância da mídia, nos últimos 30 anos. Agora, no início da quarta década da Revolução Islâmica, reforçamos a necessidade de que a opinião pública mundial seja esclarecida, mediante a distribuição de informação acurada sobre os fundamentos justos da Revolução Islâmica e os valores e os atos dignos e decentes da nação iraniana.

10. A presença vigilante e determinada do povo, para enfrentar os golpes e conspirações e ameaças é o único segredo do crescente poder do Iran Islâmico. Esses fatores determinantes, que são signos de democracia religiosa, viverão graças à intuição profunda dos iranianos, que os faz fiéis leais às aspirações do falecido Imam Khomeini e do Fundador da Revolução Islâmica, Aiatolá Khamenei, nas áreas de política, sociais, culturais, econômicas e de defesa.

Dadas as atuais circunstâncias, as eleições presidenciais de 2009 no Iran terão proporções épicas e manifestarão que a nação iraniana está decidida a ser, ela, senhora de seu próprio destino. O número muito alto de votos na eleição presidencial mais uma vez fará prova do verdadeiro conceito de democracia religiosa.

11. Famílias dos bem-amados mártires, renovamos nossa fidelidade às aspirações dos mártires e reverenciamos todos os que deram a vida à causa da revolução.

12. Os iranianos crêem que, para alcançar os pontos mais altos de honra, na quarta década da Revolução Islâmica, descrita pelo Líder como "a década da justiça e do progresso", é indispensável o planejamento atento e toda a atenção à exigência de que se faça justiça social em todas as áreas.

Por esse documento, reconhecemos e agradecemos os inestimáveis serviços prestados pelo governo, todos os esforços do Executivo, Legislativo e Judiciário, o trabalho de todos os órgãos, para implementação precisa das políticas propostas no extenso plano de desenvolvimento que o Líder expôs, no contexto da avaliação dos 20 anos da República Islâmica do Iran.

Teeran, Bahman 22, 1387
Teeran, Fevereiro, 10, 2009


Artigo, em inglês no Press TV

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Irã lança seu primeiro satélite artificial de fabricação própria

Do Arabesq.com

Teerã anunciou o lançamento do seu primeiro satélite artificial de fabricação própria, dedicado para fins pacíficos. A notícia gerou grande preocupação nas autoridades francesas.

O Ministro das Relações Exteriores do Irã, Manouchehr Mottaki, disse que "a tecnologia dos satélites iranianos é para fins plenamente pacíficos, e satisfaz as necessidades do país”.

"os satélites são instrumentos necessários para a coleta de dados ambientais, climáticas e muitas das informações necessárias que precisamos para os projetos de caráter tecnológico, agrícola e econômico.", disse Mottaki durante da cúpula da União Africana, em Adis Abeba

"A diferença entre nós e alguns países que têm essa capacidade está na nossa crença de que a ciência pertence à humanidade, enquanto alguns acreditam que a tecnologia avançada é limitada apenas a certos países”, defendeu Mottaki.

Segundo o Irã, o satélite foi colocado em órbita baixa, entre 250 e 500 Km da superfície terrestre, com a ajuda do foguete Safir-2. Caso seja confirmada a entrada em órbita do satélite, batizado de Omid (esperança, em farsi), o Irã será o segundo país da região, depois de Israel, com capacidade para lançar satélites.

Um canal de TV iraniano exibiu imagens do presidente Ahmadinejad dando a ordem para o lançamento do foguete. De acordo com a agência Isna, a primeira operação do satélite foi difundir uma mensagem do presidente.

"Querido povo iraniano, vossos filhos enviaram seu primeiro satélite de fabricação nacional, que foi colocado na órbita da Terra, em nome de Deus e do 12º imã do xiismo", afirma a mensagem, ainda segundo a Isna. "A presença oficial da República Islâmica do Irã no espaço entrou para a história para reforçar a fé em Deus, na justiça e na paz."

Preocupações

O Ministério de Relações Exteriores da França afirmou nesta terça-feira que está preocupado com o feito iraniano. O porta-voz Eric Chevallier disse que a tecnologia usada neste satélite é "muito parecida com a que possui potencial balístico". "Não podemos deixar de ligar isso às fortes preocupações do desenvolvimento de um potencial nuclear para fins militares."

As principais preocupações européias, americanas e israelenses são relativas à capacidade do Irã de coletar informações de inteligência dos países ocidentais e Israel. Alem do desenvolvimento da capacidade de usar o mesmo míssil do lançamento do satélite para carregar armamentos nucleares que podem ser desenvolvidos pelo país no futuro.

O ex-presidente da Agência Espacial israelense, Isaac Ben-Israel, declarou que os veículos que carregam satélites podem ter utilizações militares.

"Se eles [iranianos] são capazes de lançar um satélite no espaço, isso significa que eles podem também alcançar a Europa Ocidental”, alertou Issac.

Segundo Mottaki, a capacidade militar iraniana é simplesmente defensiva. "Na história do Irã, nos últimos cem anos, você não pode apontar uma agressão do Irã contra qualquer nação. O povo iraniano ama a paz. queremos a paz com todos os países do mundo", disse Mottaki. O chanceler também garantiu, em diferentes ocasiões, que o programa nuclear iraniano é somente para fins pacíficos, de acordo com o direito da nação que ratificou o tratado de não proliferação de armas nucleares. O ministro ainda acusou Israel de ser a única nação no Oriente Médio que tem armas nucleares, sem objeção ocidental.

O lançamento do satélite foi um dos eventos em comemoração ao 30º aniversário da Revolução Islâmica de 1979.

com agências internacionais