"O mundo é um mosaico de pontos de vista. Aprendemos muito com os pontos de vista dos outros, e perder nem que seja um pedaço desse mosaico é uma perda para todos nós. David Crystal (A revolução da linguagem,2004:69).
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Por: FÁTIMA OLIVEIRA*, no jornal O Tempo em: 04/05/2010
“Formação de Professores e Religiões de Matrizes Africanas: um Diálogo Necessário”, livro do sacerdote da religião de matriz africana, professor Erisvaldo Pereira dos Santos, da Universidade Federal de Ouro Preto, preenche uma lacuna, pois a bibliografia na área é escassa e a implementação da lei nº 10.639/03 e das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afrobrasileira exigem suporte acadêmico confiável para enfrentar ignorâncias e preconceitos contra as religiões de tradição oral, como as expressas no candomblé das nações ketu, efon, ijexá e xambá, que cultuam orixás; e angola e jeje, que, respectivamente, veneram inquices e voduns. Logo, os candomblés são muitos.
O vocábulo candomblé é de origem bantu: ca = uso, costume + ndomb = negro, preto + lê = lugar, casa, terreiro e/ou pequeno atabaque, significando “lugar de costume dos negros”. Candomblé é religião e um terreiro de candomblé é um templo, um local sagrado. Num contexto de recrudescimento de intolerância religiosa, é louvável um livro que aborda a tolerância religiosa como a valorização do sagrado do outro. Um ponto fascinante é a abordagem da oralidade, “uma marca das culturas de raízes africanas”, que para Juana Elbein dos Santos, autora de “Os Nàgó e a Morte”, é mais que uma pedagogia: “é instrumento a serviço da estrutura dinâmica nagô”.
E o autor acrescenta: “Mesmo reconhecendo o valor da importância da oralidade no processo de transmissão dos conteúdos sobre as heranças africanas, assumi o desafio de contribuir mais efetivamente para a formação de professores, através da escrita (…), em prol do respeito, do diálogo e do acolhimento à diversidade religiosa brasileira”.
O livro do pai de santo Erisvaldo – Babá Mejeuí, “Erisvaldo d’Ogum”, filho da yalorixá Lídia de Oxalá – é significativo para quaisquer comunidades religiosas, pois, como ele diz, “não é possível construir atitudes de respeito e valorização do sagrado do outro sem que se conheça a história, os valores e o sentido inerentes à experiência de sagrado presente na religião. O êxito dessa tarefa está relacionado a dois fatores significativos: o primeiro é uma formação de professores com sólidos embasamentos teóricos e comprometidos com os objetivos de uma educação democrática e republicana, fundada em princípios éticos. O segundo diz respeito ao exercício do ofício das lideranças religiosas, no sentido de contribuir para a construção de convivência respeitosa e pacífica entre adeptos de diferentes crenças”. Ah, o livro é da Editora Nandyala Livros e Serviços Ltda, de Belo Horizonte!
Admiradora do patrimônio cultural do povo de santo, sou figurinha fácil nas festas do Ilê Axé Ogunfunmilayo – Casa de Cultura e Tradição Afrobrasileira de Minas Gerais, no Quintas Coloniais, em Contagem. É um deslumbre religioso e gastronômico o Caruru de Cosme e Damião, no dia consagrado a eles, 27 de setembro. Uma festa linda e doce – uma vitrine do sincretismo religioso, como fala Lecticia Cavalcanti: “A devoção nos foi trazida pelo colonizador português, tendo sido a primeira igreja, em honra deles, construída em Igaraçu-PE (1530). Os escravos que aqui vieram, todos da África Ocidental (Angola, Costa do Marfim, Guiné e Congo), mantiveram os rituais religiosos e a fé nos deuses de sua terra distante. Inclusive nos orixás-meninos (ibejis). Mas aprenderam a sincretizar com os santos católicos, cujos cultos lhes eram impostos”.
Fátima de Oliveira é médica, contato: fatimaoliveira@ig.com.br
Cada módulo tem um total de 16h. Os módulos podem ser cursados de forma independente.
As aulas acontecem aos sábados, das 9h às 13h, com intervalo de 15 minutos para pequeno lanche.
Valor da inscrição por módulo: R$ 150,00
Professores e estudantes (mediante comprovação) têm 20% de desconto na inscrição em quatro módulos.
A inscrição pode ser realizada pessoalmente e por e-mail.
Ficha de inscrição e demais instruções para pagamento são enviadas mediante solicitação.
Certificado emitido mediante comparecimento em 75% das aulas.
COORDENAÇÃO/FORMADORES
Acácio Almeida - Doutor em Sociologia pela USP; membro fundador e vice-coordenador da Casa das Áfricas; professor do Depto. de Antropologia da PUC/SP, membro fundador da Rede Internacional de Pesquisadores SSIM- Southern Space In Movement.
"Salloma" Salomão Jovino da Silva - Músico, educador, historiador, designer de instrumentos musicais. Doutor em História pela PUC-São Paulo, estagiou no Instituto de Ciências Socais da Universidade de Lisboa. Desenvolve projetos de consultoria e formação de educadores; pesquisa musicalidades africanas e afro-brasileira em perspectiva histórica e etnomusicológica. Produtor cultural, é sócio da Aruanda Mundi e coordena o Projeto Arca de Ébano.
Minha querida amiga e excelente pesquisadora Heloisa Pires Lima me encaminhou hoje pela manhã esta brilhante análise sobre um artigo que Mia Couto publicou há cerca de um mês e que eu reproduzi neste blog, juntamente com um artigo de contraponto intitulado E se Obama fosse europeu.
Compartilho com vocês:
E SE OBAMA FOSSE BRASILEIRO?
por Heloisa Pires Lima*
"E como lá no fundo o privilégio seleciona muito bem o que reconhecer na realidade, é recorrente surgir em momentos de inversão de poder certas associações que desqualificam, quase imperceptivelmente, a conquista. O texto de Mia Couto traz para a comemoração o imaginário de uma África incapaz para a democracia. De certa forma, a vinculação com sinais negativos retoma a descrença para o filho de africano negro. Mas como a história é implacável em suas dinâmicas, Obama não está fora do lugar que lhe é de direito e de vontade pois expressa a face de uma demanda coletiva. Talvez por isso se cerque de toda a simbologia que o legitima."
E então me chega às mãos um texto de um escritor moçambicano, Mia Couto, intitulado: " E se Obama fosse africano?" (veja aqui). O panorama que o meu colega aponta, retoma uma crítica severa aos governos totalitários, vigorosos, indubitavelmente, no continente do autor. Li e reli até identificar no mote de idéias que relaciona o eleito Obama e a África algo que me incomodou.
Compartilho com a afirmativa do autor; o mundo rejubilou-se com a vitória de Obama. Mais do que a realidade política presente no evento, ou mesmo o desempenho futuro, foi a simbologia incrustada no candidato, a grande vencedora. Parte da emoção envolvida na torcida pareceu a daqueles que assistem a uma virada de séculos de racismo, como se testemunhassem a reparação de uma injustiça, ou presenciassem o instante de uma transformação. Prevalesce a tendência de opiniões satisfeitas com o resultado, como se uma brisa de legitimade, tão rara, ressurgisse na face da História. Certamente, muitos o festejaram sentindo o mesmo poder representado por Obama. Tenha sido eleitor negro ou não, foi expressiva a vibração pelo franzino, porém elegante negro. E não foram poucos. A bandeira do "nós podemos" pareceu bastante eficaz pelo "Nós" e pelo poder assim redistribuído. Afinal o eleito conseguiu representar o estarmos todos Unidos? Não apenas internamente mas até na possibilidade de uma reconstrução da imagem americana.
E o mundo parece ter melhorado com o feito de uma família negra na Casa Branca. Como a saga do herói que carrega o trauma da própria história para superar, dessa vez o protagonista produziu uma narrativa mítica de dimensão planetária. Reconheçamos o mérito da empreitada. Trata-se do triunfo de um candidato negro mas não qualquer candidato. Foi toda a peculiaridade de Barack Hussein Obama II que ofereceu aos inúmeros aspectos da campanha eleitoral, muitos inovadores, as explicações para a medida certa que angariou confiança e expandiu o eleitorado. A cada desafio, ele se mostrou competente assegurando os objetivos, ou seja, a vitória. Até mesmo administrar a rejeição maior: o medo e a culpa de gerações descendentes dos que sofreram e causaram o martírio africano.
Mas retomemos a indagação central de Mia Couto. E se Obama fosse africano? Pois ele é africano por descendência direta. E esta origem, ou mesmo a indagação do escritor, foi nuança relevante no mosaico formado pela história de Obama. Há como elementos dessa simbologia, uma paternidade ausente que imediatamente remete ao percurso singular de mães americanas, européias ou de outros continentes que assumiram os filhos gestados fora da África. Na trajetória dos migrantes africanos protegidos pelo feminismo a associação foi adquirindo contornos geracionais como vestir-se de hippie, intelectual de esquerda, até a face do chamado empoderamento conquistador de acessos sociais, inclusive o de ser a versão negra de um modelo Kenediano para a América.
E então, o que provocou meu incômodo no texto de Mia Couto que também compõe este momento? Justamente o que ele seleciona para seus comentários acerca do evento na América cujo protagonismo de um descendente de africano lhe inspirou. Trata-se de um texto entre tantos que circulam na internet sobre a eleição. Este, acredito estar entre os que buscam associar a conquista de Obama a algo que, subliminarmente, a desqualifica.
Vejamos:
1. Ao se referir ao canditado que se tornou presidente dos EUA, o autor elenca uma série de governos e situações eleitorais em África. Ao citar as trágicas ditaduras espalhadas pelo continente, Mia Couto privilegia a exposição de certa vertente entre os sistemas instaurados. Da leitura saímos com a idéia reforçada de uma África incapaz politicamente. É fato a correspondência com a realidade das nações ainda se constituindo em África. Todavia, parte dela. Por que cristalizar a imagem de ser assim o todo? Pois, a despeito de um período curto das independências há processos de transição bem sucedidos. O argumento ao tornar homogênea uma "evidência" africana esconde outra. Afinal há diferenças no bloco. Mesmo Moçambique é um país que tem conseguido assegurar certa recuperação econômica e reconciliação política depois de uma prolongada guerra civil. Senegal também não tem história recente fundada em golpe militar. Botswana nunca assistiu a um golpe de Estado e tem realizado eleições multipartidárias regulares desde a independência em 1966. E a importância de Alpha Omar Konare para o Mali?
Estas são algumas soberanias tão reais quanto os totalitarismos enfatizados por Mia Couto. Outro dado a considerar, são os resultados do inquérito, que decorreu entre 1999 e 2006, em 18 países, divulgados no âmbito das comemorações do mais recente Dia de África. Nos últimos oito anos, segundo o informe, registaram-se nos 18 países analisados quatro tentativas de alterações constitucionais para permitir a prorrogação de mandatos presidenciais, e que apenas na Namíbia tiveram sucesso. Na Zâmbia (2001), Malaui (2002) as tentativas também fracassaram. Realizado em parceria com o Instituto para a Democracia na África do Sul (IDASA), o Centro para o Desenvolvimento Democrático do Gana (CDD-Gana), e a Universidade do Estado do Michigan (MSU), nos Estados Unidos, o estudo aferiu, ainda, que mais de 90% dos africanos rejeitam a autocracia, ou seja, são avessos a governos anti-constitucionais. E transições atualíssimas como a que ocorreu em Gana? Em dois turnos, o resultado do primeiro deu o candidato governista, Nana Akufo-Addo, com 49,13% dos votos tendo Atta Mills na disputa com 47,92%. A pequena diferença levou a corte eleitoral a recomendar um segundo turno, o que foi considerado impecável pelos observadores internacionais. Não estou aqui questionando a sensibilidade e os motivos do brilhante autor mas, procurando chamar a atenção ao que se dá visibilidade quando a referência é a África. A articulação da notícia e da análise, nessa circunstância os comentários de Mia Couto, me exigem a observação do visível e invisível que também atribui qualificações ou desqualificação ao avaliarem os processos na região. A linha de pensamento do texto me leva a perceber uma dupla desqualificação: reiterar uma incapacidade africana e alertar para os corruptos e autoritários que, de certa forma, retiram parcela da confiança alastrada por Obama. É como comer um doce ouvindo a pecha de vai engoradar.
2. Mia não esquece mas, é sempre bom enfatizar a aula de gestão política proferida no modelo de democracia de Nelson Mandela. E não apenas para a África. Quantos anos teve Mandela que lutar contra o regime britânico e de outras histórias políticas européias em seu território? Mesmo retomando a sempre urgente condenação das elites africanas que usurpam o poder, não se pode esquecer o processo de terem sido colocadas por sistemas imperialistas, escravagistas e formas inescrupulosas entre setores que regem as economias. Senão, acabamos induzindo a percepção de serem exclusivamente de responsabilidade africana. Veja o caso do relacionamento político e economico entre o conflito em Darfur; armas em troca do petróleo sudanês para a China, tão evidente e exemplar das atuais formas globalizadas de relações de força.
3. A questão da democracia africana com toda a complexidade que o tema pode oferecer tem algumas verdades incondicionais à reflexão: a institucionalização recente das "nações" africanas. As tragédias políticas não são exclusividades do continente negro. E, especialmente há processos que mereceriam mais aliados na divulgação de suas lutas em prol do bem comum. Por que é recorrente esquecer a vitalidade de muitos contextos africanos? Há para memória a militância da queniana Wangari Maathai, que recebeu o prêmio Nobel da Paz em 2004, como ativista política e ambiental. Assim como ela, quantos acertos não poderiam ser fortalecidos caso fossem notados por grandes intelectuais? Todos sabemos da força de imaginários sociais sobre as identidades. Ressaltar apenas uma ou outra condição, dificulta a compreensão da densidade desses processos. E evidenciar apenas uma delas pode fazer a diferença naquela realidade.
4. E já que o texto de Mia Couto procura elucidar a cor de Obama, recaíndo na disputa entre ser negro ou mulato em África, retomaria no merito do candidato a realização de uma das travessias mais brilhantes e talvez decisiva para o que conquistou. Na narrativa que construiu para si, não coube o discurso xenofobista polarizado em brancos e negros. Aliás, o cerne das mensagens fizeram prevalecer a lógica da aliança entre as partes; aquela que projeta o engrandecimento do todo. Esta é uma sapiência atemporal e capítulo dos ensinamentos acerca das relações de poder. Aliás, foi esta a estratégia política dos antigos dielis do império do Mali, uma espécie de conselheiros dos soberanos que obtiveram sucesso com experiências "confederadas" antes do século XVI, em África. Pois é, a mesma África possui dinâmicas próprias de representatividade muito pouco rememoradas.
Mas ainda salientando a cor de Obama, não houve jornal no mundo que não desse na capa a manchete: o primeiro presidente negro dos EUA. Obama é negro para todo o mundo. Já ele mesmo, durante toda a campanha, menos apontou as nuanças de pele e sim promoveu uma afirmação muito mais significativa: ele é sua família negra (que a mulher e as filhas são negras, ninguém tem dúvida).
Se Obama não falou em seus discursos da condição particular de ser negro, os gestos, conduzidos com astúcia, afirmaram muito mais sua negritude. Entre ser americano e ser negro americano e ainda no território das simbologias, nesse momento, a América enfrenta a própria decadência como ícone. Na definição interna, os mesmos yankee sentiram a vida se voltar para a crença de serem os salvadores do planeta, justamente com a onda Obama. Remédio talvez amargo para alguns, pois assistimos a vitória só se definir no finalzinho da campanha. Mas Obama se mostrou o tempo todo americano. O empreendedorismo contido na biografia do eleito reforçou o mito tão singular àquela cultura. Porém, sem esquecer história racista daquele país.
6. Ele não se apresentou como candidato com foco exclusivo na população negra, o que daria incoerência a lucidez política que acompanhamos. Mas, o gesto que arrematou o processo, o discurso da vitória, da escolha do local à sutileza que já lhe atribuiu ares de grande estadista, esteve em citar, na primeira apresentação pública após o pleito, Ann Nixon Cooper de 106 anos; conduzir a história geral e a particular sem negar uma ou outra é um princípio para ser evidenciado em análises, sejam sob as Américas, sejam sobre as Áfricas. Obama pontuou o fato da eleitora negra de Atlanta, ser de uma geração depois da escravidão, que não podia votar por ser mulher e pela cor de sua pele. Por meio dela também recordou os ônibus de Montgomery, as mangueiras de irrigação em Birmingham e o pregador de Atlanta. O discurso do Obama eleito por todos realizou um recorte sob a particular história negra norte-americana embora sempre complementado pelo bordão, nós podemos. Dessa vez o "nós" que promove uma reunião aponta para o enfrentamento de um ponto nevrálgico da história e cultura norte-americana. A escravidão africana é um transtorno para psiquismos de descendentes que se imaginam de escravizados a escravizadores, ou seja, de todos.
E para a superação desse trauma coletivo a aula e o legado das políticas afirmativas norte-americanas ajudaram a fortalecer a gramática dos direitos civis indo além de uma igualdade abstrata. A eleição de Obama auxilia no reconhecimento de processos de alternância de poder que não foram fruto do acaso e nem mudanças oficializadas como mérito de pequenos grupos. A história negra norte-americana expõe um debate lá publicizado mas que é desejado por muitos movimentos sociais de outras plagas. Há nesses argumentos algo que também faz sentido para demandas locais.
Por isso a vitória de Obama ao possibilitar uma alternância de poder, acena os estatutos de convivência no planeta para além da lógica do confronto insano entre diferentes. E até que ponto essa mensagem pode interferir em contextos africanos? Vamos acompanhar, já de imediato, o espaço que o continente receberá nas determinações da secretária Hilary Clinton. E, mais sutilmente se a representatividade da figura de Obama influenciará o jogo político do continente. Observemos o Quênia, por exemplo.
E, finalmente, parodiando Mia Couto em suas Inconclusivas conclusões:
Como a eleição de Barack Hussein Obama II remete a várias Áfricas? As da diáspora, ou seja, a dos africanos que lidam com a condição de migrantes. O nome muçulmano como tatuagem de uma história tão desafiadora do islamismo contemporâneo na região. O nós podemos talvez auxilie na urgência em se perceber uma África que produz suas próprias respostas na solução de seus próprios problemas. Todavia sem permanecer segregada de demais instâncias mundiais. De novo, é importante reverberar os instantes de vitória e não apenas e tão somente fracassos sob a égide da incapacidade determinista. Ao contrário, a urgência é destacar iniciativas em todos os aspectos da vida africana evidenciando os Obamas que reconstróem a própria história apesar do terror vivido pela região.
E como lá no fundo o privilégio seleciona muito bem o que reconhecer na realidade, é recorrente surgir em momentos de inversão de poder certas associações que desqualificam, quase imperceptivelmente, a conquista. O texto de Mia Couto traz para a comemoração o imaginário de uma África incapaz para a democracia. De certa forma, a vinculação com sinais negativos incentiva a descrença para o filho de africano negro. Mas como a história é implacável em suas dinâmicas, Obama não está fora do lugar que lhe é de direito e de vontade pois expressa a face de uma demanda coletiva. Talvez por isso se cerque de toda a simbologia que o legitima.
E por que não aproveitar o texto para perguntar: e se Obama fosse brasileiro? Vamos focar o ângulo das representação negra das instâncias políticas. Esta dimensão, porém, não é diferente de outras envolvendo a população descendente de africanos no Brasil. Os índices de pobreza, enfim, o avesso do poder, da mesma forma, por aqui tem rosto.
Critérios como salário no Brasil repetem a base da pirâmide com mulheres negras e o cume com homens brancos. Nem é preciso dizer da relação entre tais índices e a restrição de direitos, a vulnerabilidade à violência e etc, etc, etc.
Poderia haver um Obama brasileiro? Pensando na arquitetura simbólica à disposição por aqui, destacaria um aspecto do discurso que pleteia a superação das evidentes desigualdades sociais no país até para configurarmos a representação política dessa população. Porém, considerar o recorte racial em debates acerca das peculiares relações raciais no Brasil, com dados apontados em pesquisas que pautam índices raciais, paradoxalmente acabam julgados comoracialização do debate. É cobra engolindo o próprio rabo. De um lado, os discurso dos movimentos sociais ao expressarem suas reivindicações, se baseiam em dados, auferidos cientificamente, recortados pelo fator "racial". Por outro lado, uma corrente intelectual se escabela na tentativa de implodir a palavra "raça" sobretudo, quando toma a direção de fundamentar as "quase" políticas públicas. Basta anunciarmos alguma discussão sobre as práticas, os comportamentos, a questão dos acessos que atingem certa fenotipia para logo surgir o tema DNA no fato de sermos todos humanos com origens mescladas. Na tentativa de construir políticas para evitar que o tratamento recebido por uma pessoa varie na mesma escala de sua aparência sempre aparece aquele que irá evidenciar a exceção discriminatória. Diferentemente dos EUA, educar para a noção de direitos civis ainda é muito tênue no Brasil.
E é exatamente a insistente desqualificação que impede avanços na produção de políticas públicas visando alterar o quadro levantado por pesquisas diferenciadas. A repetição do impasse bem brasileiro refaz uma estratégia política conservadora. Pois, todo rigoroso cientista social não deveria buscar os sentidos envolvidos no uso de certa terminologia, sobretudo quando utilizada por movimentos sociais? No entanto, como explicar uma corrente de analistas que reduzem a discussão dos nossos dias como se o termo estivesse confinado aos sentidos Oitocentistas? E como não há termo algum, com significados absolutos há de se perguntar por que não sugerem o termo que orientaria a adequação? A dinâmica da nomenclatura racial é um fator a ser considerado no exame dos eventuais Obamas em nossa sociedade. O termo raça, que aparece mais do que o dado, não poderia ser compreendido como uma síntese que abarca índices de desigualdades evidentemente relacionadas ao biotipo das populações em convívio? Desvalorizar demandas concretas por utilizarem o termo "raça" é uma prática implicada nos impedimentos à mobilidade social e por sua vez, na manutenção de visões universalistas para implementação de políticas públicas.
Portanto, o Obama brasileiro teria ondas bastante conservadoras para superar, e, logicamente, a hegemônica mídia local. Acerca deste último detalhe, podemos focalizar a cobertura da vitória de Obama e do quanto foram raras as matérias que buscaram a opinião dos habitantes negros do país tropical. A não ocorrência foi tão natural como a ausência permanente em voz e imagem, só quebrada aliás, por produções norte-americanas que circulam em nossas tvs.
Tamanha invisibilidade não nos deixa notar contornos de um Obama brasileiro. E ainda no território das representações políticas, uma das primeiras assinaturas do governo Lula foi a Lei 10639/03 que vinha questionar a ausência de produção de conhecimento sobre África na escola. Tal naturalização em preservar ignorâncias, diagnosticadas como estimuladoras do racismos e preconceitos nos ambientes educativos, parecia ter revolucionariamente o apoio oficial. No entanto o atual ministro da educação não gostou da Lei, diminuindo sua importância como orientação politicamente negociada no início da gestão. Este é um dos aspectos a demonstrar que toda a iniciativa para um debate público que valorize a origem africana e afrodescendente como presença singular, todavia articulada a poderes de fato, faz emergir uma série de manobras que irão favorecer sua dispersão. A esperança será nos unirmos para quebrar essa lógica, até o momento, eficaz.
O texto de Mia Couto, e a leitura requintada associada a Obama conforme o ponto de vista que procurei defender, acabou tocando na minha sensibilidade para qualificações e desqualificações que encontramos nas análises acerca das dinâmicas sociais a nossa disposição. E a África como nervo nervoso! É apenas um ponto para a interlocução no diálogo público.
*Heloisa Pires Lima é gaúcha, doutora em antropologia social pela Universidade de São Paulo (2005). Tem priorizado, em sua produção, questões teóricas acerca das fronteiras entre as disciplinas História e Antropologia, na especificidade do tema das representações culturais, com ênfase em relatos de viagem e expressões plásticas. O período alvo de suas pesquisas tem sido o século XIX. Sua produção é marcadamente associada à atuação de entidades negras e outras anti-racistas. Criou a Selo Negro Edições, da qual foi editora. É autora de livros infanto-juvenis como Benjamin, o filho da felicidade. Histórias da Preta e O espelho dourado, A semente que veio da África e escreve artigos para vários periódicos.
Reconhecer os erros do passado é a única forma de acabar com o racismo, diz o autor canadense Paul Lovejoy
Entrevista
PAUL LOVEJOY
por Flávio Henrique Lino
Um dos maiores especialistas em escravidão da atualidade, o historiador americano naturalizado canadense Paul Lovejoy é referência certa quando se trata de estudar a ocorrência do fenômeno no próprio continente africano, antes da chegada dos europeus no século XV. Professor da Universidade de York, em Ontário, no Canadá, Lovejoy falou ao GLOBO sobre a escravidão do passado e suas implicações no presente.
O GLOBO: Qual foi a diferença básica entre a escravidão na África e nas Américas?
- PAUL LOVEJOY: Nas Américas, a distinção racial era um fator importante no controle das populações escravizadas, enquanto na África diferenças culturais e religiosas eram a base da exploração. Então é o racismo a diferença, o reconhecimento da identificação dos africanos porque eram negros, pessoas que podiam ser escravizadas. Não que outros povos não pudessem ser escravizados, porque no Brasil e em outros lugares os nativos também foram escravizados, mas, com o tempo, a associação entre negros e escravidão tornou-se muito próxima. Por isso, na América as distinções raciais são uma característica fundamental, enquanto na África a distinção usada para manter as pessoas escravizadas eram mais culturais e religiosas.
Pode-se dizer que a escravidão praticada entre os africanos foi de um tipo mais benigno do que a das Américas?
- LOVEJOY: Não creio. Pode parecer benigno para pessoas de fora, mas para quem é escravo não importa muito. A pessoa é sempre submetida a violência todo tempo, a discriminação de todos os tipos, restrições a seus direitos. Então, da perspectiva do escravo, não faz muita diferença onde você está.
Ninguém quer ser escravo.
Em seu livro “Transformações na escravidão” (de 1983), o senhor diz que embora a escravidão fosse uma instituição central em muitas partes da África, seu desenvolvimento foi fortemente influenciado por fatores externos, como o comércio transatlântico e o Islã. Mas até que ponto a Europa poderia ter montado uma empresa tão grande para levar milhões de pessoas da África para as Américas sem a conivência dos próprios africanos?
- LOVEJOY: Teria sido impossível.
Os mercadores e governantes africanos estavam fortemente envolvidos no tráfico de escravos na África, e sem essa cumplicidade o comércio de escravos teria sido impossível.
A escravidão continuou a existir na África muito depois de sua abolição no Ocidente.
Por quê?
- LOVEJOY: Porque a escravidão tornou-se muito comum na África e continuou sendo comum, só terminando, na maioria dos lugares, no século XX, sob diferentes regimes coloniais.
O fim ocorreu quando as metrópoles concluíram que outras formas de mobilização do trabalho eram mais importantes e decidiram usar trabalhadores migrantes e contratados.
Foi só aí que a escravidão terminou na África.
O legado da escravidão é diferente na África e na América contemporâneas?
- LOVEJOY: Sim, porque na África ela não foi baseada em distinções raciais, mas sobretudo em diferenças culturais. Por isso, muitas vezes quando vemos conflitos entre povos identificados às vezes como tribos ou grupos étnicos na África, eles são na realidade reflexo de padrões históricos em que povos escravizaram outros, e esse legado continua. Você vê isso na política da Nigéria, do Benin, de Angola e de toda a África.
As pessoas sabem quem foram escravos, sabem que outras pessoas diferentes delas no passado tiveram conflitos, e essas memórias não são facilmente apagadas.
Os Estados Unidos e o Brasil são países profundamente marcados pela experiência da escravidão. Que implicações isso teve na formação de nossas sociedades contemporâneas?
- LOVEJOY: Os Estados Unidos e o Brasil têm semelhanças e diferenças no que diz respeito à escravidão. Uma diferença grande é que quase a metade dos escravos que vieram para as Américas vieram para o Brasil, e menos de 5% foram para o que são agora os EUA. Embora as populações dos dois países em termos de pessoas que têm uma ascendência identificável de africanos possa ter o mesmo tamanho, talvez ela seja maior no Brasil de hoje. Outra diferença é que aqui as gradações raciais são mais complexas e dependem muito mais de fatores como se a pessoa era livre, das rendas, do nível educacional...
Nos EUA, qualquer um que fosse percebido como tendo ascendência africana sofria discriminação.
A coisa é muito mais em preto e branco. Nos EUA, houve formas mais sérias de racismo do que aqui no Brasil, mas nos dois países há muita negação, muita vergonha no que se refere à escravidão, uma recusa de muitas pessoas de reconhecerem que seus ancestrais estiveram envolvidos de uma forma ou outra (na escravidão).
É muito fácil para pessoas que não tiveram envolvimento direto esquecer. E o que as pessoas escolhem lembrar e esquecer é muito importante politicamente.
Como o historiador interfere nesse processo?
- LOVEJOY: Nosso trabalho como historiadores é nos certificarmos de que o que é lembrado é correto e entendermos por que certas coisas são esquecidas e quando é perigoso esquecer. Por isso, temos de trazer de volta a verdade para que as pessoas entendam que pertencemos todos a uma mesma raça, somos todos seres humanos, todos temos um legado que nos conecta direta ou indiretamente à escravidão, não importa de onde a pessoa seja.
Houve escravidão em todos os lugares, inclusive na Europa.
Não temos de conhecer a história dos negros porque é a história dos negros; na verdade é a nossa história porque somos todos seres humanos.
E, em última análise, a Humanidade saiu da África, todos viemos de lá. Então é só uma questão de quando e como as pessoas saíram de lá, um reconhecimento de que temos de compartilhar nossa humanidade e devolver a dignidade às pessoas que a tiveram solapada por causa da discriminação.
O senhor acredita que as pessoas já estão tendo uma percepção maior do que significou a escravidão?
- LOVEJOY: Sim, nas universidades há uma discussão crescente sobre a escravidão e seu legado, e a única forma de superar isso é não esquecendo, é confrontando esse legado.
Temos que entender o que a História é. Se não fizermos isso, vamos repetir os erros do passado. A única forma de superação é compreendermos como a escravidão foi penetrante e suas implicações.
Temos de ter uma discussão aberta para que as pessoas possam ter idéias, sentimentos e memórias que possam ser avaliados. É realmente animador que aqui no Brasil e em outras partes do mundo as pessoas estejam mais dispostas a conhecer esses assuntos e confrontá-los. As pessoas estão aprendendo mais sobre a História, de modo que não podem negar cumplicidade e envolvimento em erros do passado. Não vamos viver num mundo com uma humanidade comum e justiça para todos a menos que confrontemos o passado.
O Brasil está implementando atualmente políticas de cotas raciais como compensação pela escravidão. O senhor acha que essas políticas são um instrumento importante e eficiente para consertar erros do passado?
- LOVEJOY: Isso tem a ver com compensação, e reparação é tanto uma questão financeira como cultural e intelectual.
A reparação tem de incluir essa educação sobre como a influência africana é importante na nossa cultura, na nossa língua, na nossa arte, na nossa música. Mas há também um componente financeiro, e vou da rum exemplo de situações em que as reparações financeiras devem ser feitas. Por um século, de 1824 até a década de 1920, o Haiti pagou compensações à França pelo reconhecimento de Paris à sua independência. Isso é totalmente absurdo! Na minha opinião, todo esse dinheiro deveria ser devolvido ao Haiti.
O Globo, 1 dez. 2007. Suplemento Prosa & Verso.
O ´bruxo africano´ de Salvador
Biografia de negro alforriado que praticava o candomblé e morreu como católico é exemplar
(Mary Del Priore)
João José Reis não é apenas um historiador de imenso talento. É também um pesquisador completo. Com este seu magnífico “Domingos Sodré, um sacerdote africano”, consolida posição de destaque na constelação dos melhores estudiosos de nosso passado. Biografias de escravos e afro-descendentes no Brasil já foram feitas. Tanto as dos grandes personagens, abolicionistas, jornalistas e poetas negros quanto as dos anônimos da História, cujos registros são tão mais eloqüentes quanto tais atores são discretos. Este gênero narrativo está em crescente ascensão desde os anos 80. Nessa década, nomes como Georges Duby, Giovanni Levi ou Nathalie Davies convidaram-nos a pensar a biografia por um ângulo diferente. Enterrou-se a biografia positivista dos tempos de antanho, “superficial, anedótica e incapaz”, segundo Jacques Le Goff. A reabilitação da biografia histórica integrou, então, as aquisições da história social e cultural, oferecendo aos diferentes atores históricos uma importância diferenciada.
Não se tratava mais de fazer a história dos grandes nomes, em formato hagiográfico — quase uma vida de santo, sem máculas. Mas de examinar os atores, como testemunhas e como reveladores de uma época. Nada de heróis. Porém narrativas, capazes de tornar tangível a significação histórica de uma vida individual.
Alforriado, desenvolveu a fama de “papai de terreiro”
É o caso deste fascinante Domingos Sodré. Nascido no pequeno reino de Onim, atual Lagos, Domingos veio criança para a “cidade da Bahia”, no apogeu da produção açucareira. Começou a vida como escravo num engenho do Recôncavo de cujo dono herdou o sobrenome e era parte de uma comunidade de cativos da mesma nação: os nagô. Alforriado, desenvolveu a fama de “papai de terreiro” numa época em que a imprensa acusava a polícia e as autoridades de conivência com batuques e candomblés. Morador do sobrado no7, da íngreme ladeira de Santa Tereza, possuiu pelo menos seis escravos e foi casado duas vezes.
Foi, ainda, ativo membro de “juntas de alforria”, ou seja, uma instituição de crédito dedicada a libertar africanos escravizados. Recebia os clientes numa salinha recheada de santos católicos, enquanto o altar de candomblé, com seus “objetos de feitiçaria”, se abrigava num quarto próximo. Ali realizava obrigações religiosas e preparava ebós, amuletos e beberagens. Acusado de receber objetos roubados como forma de pagamento, Domingos deixou um processo que permitiu ao historiador a reconstituição minuciosa de sua vida.
Estes eram tempos em que os candomblés batiam seus tambores com força e recrutavam novos adeptos, enquanto a campanha repressiva, da qual Domingos foi vítima, prosseguia. Os jornais protestavam contra animais sacrificados e gritarias nos terreiros. Mas quem ouvia tais sons, não reclamava. Nem as freirinhas do convento vizinho, pois o rufar de atabaques atraíam inclusive, “pessoas de certa ordem”. A clientela era constituída por esposas que não queriam que seus maridos esquecessem os deveres conjugais, escravos desejosos de amansar senhores e negociantes em busca de bons negócios. Nesta época, brancos já integravam terreiros como médiuns e líderes.
Ao longo do livro desfilam chefes de polícia e delegados que achavam que os candomblés não passavam de “divertimentos”, perseguindo-os por “imorais e supersticiosos”. No fim da década de 1850, a linha dura contra candomblés começou a ser traçada, mas nem sempre foi obedecida. Por um lado, havia os que achavam que demonstravam a falta de controle dos escravos por seus senhores e que tais batuques impediam o florescimento da civilização em terras baianas. Por isso mesmo, além de dificultar suas vidas, as autoridades promoviam o retorno dos africanos à África. Por outro, havia os que conheciam e freqüentavam os “papais”, com profundo respeito e admiração.
Ativo dentro de uma rede social e religiosa africana, o liberto Domingos dava as cartas no candomblé oitocentista baiano. Apesar das pressões que sofria da sociedade e da polícia, tinha recursos e mobilidade social para organizar sua experiência ritual com autonomia. Egresso de uma vivência cosmopolita, Domingos soube também mixar suas práticas religiosas com aquelas dos dominantes. O poderoso “bruxo africano” morreu como católico, fazendo testamento e pedindo missas por sua alma. Ao longo da vida, batizou livres e escravos, assumindo compromissos de proteção de seus afilhados. Construiu assim vários tipos de alianças na sociedade baiana, sendo conhecido e respeitado numa elite de libertos
Obra merece se tornar leitura obrigatória
Mergulhado no Arquivo Público da Bahia, Reis escrutou centenas de documentos, uns levando a outros. Com cuidados de entomologista, rastelou informações e reconstituiu as múltiplas redes de relações de Domingos: amigos e senhores, vizinhos e desafetos. Iluminou também a vida de escravos: dos que viviam do aluguel de outros escravos. De escravos, traficantes de escravos. De escravos, donos de escravos, que maltratavam seus semelhantes. Um mundo fervilha nas informações cuidadosamente costuradas pelo autor.
Mapas apontam com nitidez os roteiros do bruxo e fotografias de época, apóiam as interpretações extraídas da documentação, reproduzida em cuidadosos anexos. Essa obra merece se tornar leitura obrigatória nos departamentos de história. Não só pela qualidade da narrativa e a importância do tema, mas pela eficiente demonstração do que seja o ofício do historiador: a exploração metódica nos fundos que não os marinhos, mas que exigem a mesma atenção de quem percorre as praias, depois de grandes marés. Ao definir o olhar que lançou sobre a massa documental e ao formular a interrogação que lhe permitiu captar mudanças no tempo, Reis nos legou um trabalho ímpar que, além de revelar um personagem, sua vida e o mundo em que se movia, colocou em evidência um método de trabalho que deveria se tornar imperativo.
Dialogando com a historiografia mais atualizada, evitou citar autores que nada têm a ver com o tema, mas que servem de suporte aos modismos das linhas de pesquisa acadêmica. Como já disse alguém: “é mania de brasileiro lançar de mão de Althusser para estudar a escravidão em Conceição do Mato Dentro”. Reis foge destas armadilhas e oferece aos historiadores uma verdadeira aula sobre como fazer História, enfrentando os arquivos e evitando escolhos teóricos. Seu livro é uma obra de mestre e por seu fascínio, por que não dizer, de bruxo, também.
Professores, não percam este excelente lançamento para aprimorar seus conhecimentos em relação à História da África e história e cultura afro-brasileira.
Revista Sankofa de História da África e de Estudos da Diáspora Africana foi lançada pelo NEACP - Núcleo de Estudos de África, Colonialidade e Cultura Política - que é formado por pesquisadores, mestrandos e doutorandos do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. O NEACP iniciou suas atividades em 2006 a partir da experiência de estudos em grupo sob orientação do Prof. Dr. Wilson do Nascimento Barbosa. Tal experiência foi ampliada com a participação de pesquisadores de outras áreas das Ciências Humanas.
A revista objetiva ser um elemento pedagógico na formação de pesquisadores, professores e alunos, e, contribuir com a divulgação de pesquisas acadêmicas sobre a temática.
O conceito de Sankofa (Sanko = voltar; fa = buscar, trazer) origina-se de um provérbio tradicional entre os povos de língua Akan da África Ocidental, em Gana, Togo e Costa do Marfim. Em Akan “se wo were fi na wosan kofa a yenki” que pode ser traduzido por “não é tabu voltar atrás e buscar o que esqueceu”. Como um símbolo Adinkra, Sankofa pode ser representado como um pássaro mítico que voa para frente, tendo a cabeça voltada para trás e carregando no seu bico um ovo, o futuro. Também se apresenta como um desenho similar ao coração ocidental. Os Ashantes de Gana usam os símbolos Adinkra para representar provérbios ou idéias filosóficas. Sankofa ensinaria a possibilidade de voltar atrás, às nossas raízes, para poder realizar nosso potencial para avançar.[1]
Sankofa é, assim, uma realização do eu, individual e coletivo. O que quer que seja que tenha sido perdido, esquecido, renunciado ou privado, pode ser reclamado, reavivado, preservado ou perpetuado. Ele representa os conceitos de auto-identidade e redefinição. Simboliza uma compreensão do destino individual e da identidade coletiva do grupo cultural. É parte do conhecimento dos povos africanos, expressando a busca de sabedoria em aprender com o passado para entender o presente e moldar o futuro.
Deste saber africano, Sankofa molda uma visão projetiva aos povos milenares e aqueles desterritorializados pela modernidade colonial do “Ocidente”. Admite a necessidade de recuperar o que foi esquecido ou renegado. Traz aqui, ao primeiro plano, a importância do estudo da história e culturas africanas e afro-americanas, como lições alternativas de conhecimento e vivências para a contemporaneidade. Desvela, assim, desde a experiência africana e diaspórica, uma abertura para a heterogeneidade real do saber humano, para que nos possamos observar o mundo de formas diferentes. Em suma, perceber os nossos problemas de outros modos e com outros saberes. Em tempos de homogeneização, está é a maior riqueza que um povo pode possuir. [1] Sobre a simbologia e imagens há informações disponíveis em http://www.africawithin.com/studies/sankofa.htm. Data de acesso: 01/02/2008. Ou http://www.tulsalibrary.org/aarc/sankofa.htm. Data de acesso: 05/02/2008.
Boa leitura!
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Parcerias- Escolas que apostam na História em Projetos