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sábado, 6 de dezembro de 2008

Livro resgata as primeiras imagens de professores e alunos negros

(Marta Reis)

RIO - Foi estudando para sua tese de doutorado em Educação, concluída na UFRJ, que a pedagoga Maria Lúcia Rodrigues teve a sorte de esbarrar com fotos do fim do século XIX e início do XX, que comprovavam - ao contrário do que pensavam alguns estudiosos - que a inclusão de professores negros nas escolas aconteceu bem antes de 1960. Lúcia não consegue precisar exatamente quando isso de fato ocorreu, mas assegura que tenha sido antes mesmo do fim da escravidão. As imagens guardadas pela pesquisadora ao longo de dez anos foram transformadas no livro "A cor da Escola - Imagens da Primeira República" (Ed.UFMT / Estrelinhas), Entre 1910 e 1930 ocorreu um processo de branqueamento das posições de prestígio e das salas de aula.

O exemplar é recheado de 54 fotos raras e inúmeros textos que contam a história dos primeiros professores e alunos negros nas escolas da Primeira República (1889 a 1930), nos estados do Rio de Janeiro e Mato Grosso. De acordo com Lúcia, naquela época os negros ocupavam cargos de destaque nas escolas públicas - eram diretores, por exemplo - e representavam boa parte do quadro de docentes. Da mesma forma, alunos brancos e negros dividiam a mesma sala de aula, em semelhante proporção.

- Escrevi diversos artigos sobre o assunto e as pessoas diziam que eu era louca, que os negros só começaram a estudar para ser professor na década de 1960. Então, me senti desafiada a provar aquilo. Demorou dez anos, desde o dia que achei a primeira foto, mas aí está o resultado - comemora Lúcia, que é pesquisadora associada do Programa de Educação sobre o Negro na Sociedade Brasileira, da UFF, e professora da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT).


Reforma educacional afasta os negros das escolas


Segundo a pesquisadora, mesmo antes do fim da escravidão, o Brasil tinha milhares de negros livres que se preocupavam com a educação de seus filhos ou se destacavam no magistério. No entanto, como comprovam as imagens do livro, eles foram desaparecendo aos poucos, até se tornarem uma pequena minoria nas escolas públicas da época.

- Entre 1910 e 1930 ocorreu um processo de branqueamento das posições de prestígio e das salas de aula. Muitos intelectuais achavam que a solução para o desenvolvimento do Brasil era a imigração da população européia. Então, foram criadas regras para afastar os negros.

As normas fizeram parte de uma reforma educacional brasileira do início do século passado, que no Rio aconteceu em 1927. Pelas regras implementadas, professores com mais de quatro obturações dentárias, sem algum dos dentes, ou não nascidos na cidade do Rio de Janeiro não eram aceitos nas escolas. Além disso, foi criado um programa de estímulo à aposentadoria, conta Lúcia.

- Com os alunos, o processo foi parecido. Eles precisavam preencher um formulário escolar que mais parecia uma ficha médica, que acabava por discriminar os mais pobres, em sua maioria negros.


Cotas contribuem para a formação de uma elite negra, dia Lúcia


O resultado dessa política, a professora acredita, é sentido ainda hoje no reduzido número de negros no magistério - apenas 4,3%, segundo dados do último Censo - e nas universidades. Para resolver o problema, ela se diz a favor da reserva de vagas para estudantes negros, adotada por algumas instituições, entre elas a Uerj.

- Pesquisas já comprovaram que os cotistas não diminuíram a qualidade do ensino dessas universidades. Pelo contrário, eles são os mais esforçados. As políticas afirmativas são essenciais para que criemos uma elite negra no país. Se elas não são a solução definitiva, são pelo menos a temporária - defende.

O Globo, 5 dez. 2008, algumas fotos do livro estão disponíveis aqui


Veja também:


DIPLOMA DE BRANCURA


POLÍTICA SOCIAL E RACIAL NO BRASIL, 1917-1945

AUTOR(ES):
D'ÁVILA, JERRY
TRADUTOR(ES):
CLAUDIA SANT'ANA MARTINS


SINOPSE:


"A preocupação é mostrar como os formuladores de políticas e os educadores conceberam valores raciais e aplicaram-nos como práticas racializadas. Em outras palavras, como os valores de raça e lugar social funcionam quando não irrompem no tipo raro de debate público que cercou a experiência de Jacyra? Nesta análise não há dialética entre opressores e resistência, e nenhuma dicotomia entre discussões específicas de ações racializadas e discussões mais gerais do sistema educacional do Rio de Janeiro. Este não é um estudo do comportamento social nem do embate de idéias. Este texto trata das formas muitas vezes efêmeras como os educadores transformaram um discurso sobre raça e independência nacional em práticas cotidianas em que a raça não era normalmente evidente, mas sempre importante. Uma crença central desta análise é a de que a ideologia racial é uma metanarrativa, ou seja, um complexo de valores e categorias conceituais que dirigiu as formas como os educadores projetavam as instituições e práticas." O autor analisa o período de 1917 a 1945. Professor associado e coordenador de graduação do Departamento de História da Universidade de Carolina do Norte em Charlotte e membro da Commissão Executiva do Brazilian Studies Association nos EUA.

ORELHAS:

Nas sociedades em que vive a diáspora africana, a desigualdade racial é uma constante.

No Brasil, o cruzamento entre experiências locais e circulação global de valores rendeu, na primeira metade do século XX, a adaptação da eugenia como meio de
interpretar a nação e de guiar crescentes intervenções do Estado sobre a sociedade. Em outras partes do mundo, o eugenismo "extirpava" grupos considerados inferiores. No
Brasil, ele pretendia "salvá-los".

A nova concepção não abandonou antigas hierarquias de raça e de classe. Ao contrário, renovou-as com respaldo científico e inspirou medidas que pretendiam
redimiro "degenerado".

Este livro analisa a aplicação dessa concepção nas políticas de expansão e reforma educacional no Rio de Janeiro e revela um paradoxo essencial: por um lado, a lógica
eugênica muniu os promotores do ensino com ferramentas para universalizar a educação; por outro, instalou práticas e valores que reproduziam a desigualdade racial e social.
As tensões decorrentes desse quadro revelam a complexidade, a presença constante e a centralidade da questão da raça na educação.


Relações raciais e educação. Juntos, os temas vibram e tornam-se pontos referencias para entender os vínculos entre as políticas públicas e a desigualdade social. Diploma
de brancura traz um olhar histórico ao papel do pensamento racial na reforma e na expansão do ensino brasileiro. O autor examina a maneira pela qual leituras científicas
sobre a sociedade definiam negros e carentes como deficientes e como essa concepção passou a influenciar as práticas educacionais. Enfocando a primeira metade do século
XX, esta obra nos mostra as profundas raízes dos desafios sociais ligados às questões raciais.


Sobre o autor

O historiador porto-riquenho Jerry Dávila é professor associado na Universidade da Carolina do Norte em Charlotte. Tem lecionado na Universidade de São Paulo e na PUC-Rio
sobre relações raciais no Brasil e nos Estados Unidos.

SUMÁRIO:
Prefácio à edição brasileira
Introdução

1. Construindo o "homem brasileiro"
2. Educando o Brasil
3. O que aconteceu com os professores de cor do Rio?
4. Educação elementar
5. A Escola Nova no Estado Novo
6. Comportamento branco: As escolas secundárias do Rio

Epílogo: O persistente fascínio brasileiro pela raça
Lista de abreviaturas e siglas
Bibliografia
Índice remissivo

Um comentário:

Eduardo Vieira Sabino disse...

Impressionante este trabalho. Parabenizo este trabalho diligente desta que, a partir de hoje, é mais uma que entra no meu rol de heroínas autênticas deste país.
Parabéns professora.