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sábado, 10 de julho de 2010

Momentos decisivos: Israel cede sob pressão da flotilha

Por: Phyllis Bennis, Nova York, no Opera Mundi

07/07/2010

Em toda campanha pelos direitos humanos e pela igualdade existem os famosos momentos da virada. Há alguns em que, antes mesmo da certeza da vitória, o efeito em campo é sentido imediatamente ou não, o discurso, as hipóteses, os termos de referência - não tanto para os defensores e oponentes quanto para aqueles que até então eram apenas observadores - são todos abalados. Esses momentos de virada, muito frequentes envolvem uma significativa escalada de violência, seja individual ou generalizada.

Mais do que mudar a realidade do movimento pró-direitos civis nos EUA, o assassinato de Emmett Till, o assassinato de três ativistas no Mississípi, e o atentado a bomba contra a Igreja Batista da Rua 16 em Atlanta transformaram a percepção pública e oficial do processo. O Massacre de Sharpeville e, sete anos mais tarde, o levante de Soweto tiveram globalmente o mesmo impacto sobre a luta dos sul-africanos contra o apartheid. A ofensiva do Tet no Vietnã e o assassinato do arcebispo Óscar Romero em El Salvador também tiveram efeitos transformadores.

A luta contra o apartheid israelense teve vários desses momentos, nos quais a percepção pública foi transformada. Talvez o mais importante tenha sido a intifada, na qual a imagem de crianças palestinas armadas, apenas com pedras, desafiando os tanques israelenses, reverteu muitas falsas suposições do Ocidente em relação a Israel: o Estado judeu deixou de ser o heroico Davi sob ataque de um Golias árabe. A ofensiva de 2008-09 contra Gaza aprofundou ainda mais essa nova compreensão.

A recente polêmica da flotilha, com muito menos impacto direto sobre os palestinos, pode ser um daqueles momentos em que a percepção pública, desta vez em âmbito internacional, é transformada. A crise mostrou que a sociedade civil é decisiva na luta contra a ocupação e o apartheid israelense e que a Turquia teve sucesso ao forçar Israel a recuar, enquanto as polidas solicitações de Washington fracassaram claramente. E ainda provou que os direitos humanos, e a lei internacional, continua sendo o começo para uma vitória.

O fato de tantos não-palestinos terem sido mortos pelos comandos israelenses, embora o foco normalmente intenso sobre qualquer norte-americano morto tenha sido amenizado porque Furkan Dogan possuía dupla cidadania, norte-americana e turca, sublinhou a disposição dos ativistas globais de correrem riscos em nome de direitos humanos que os governos e a ONU não queriam defender. Foi uma imagem poderosa de uma sociedade civil cada vez mais participativa com a capacidade de transformar os eventos diretamente. Apesar de nem todos os passageiros da flotilha aderissem princípios de não-violência, ficou claro que esta era, de longe, a característica dominante da mobilização. E isso reflete o crescente reconhecimento popular - certamente entre muitos palestinos, mas neste caso crucialmente entre seus simpatizantes - de que o uso da violência deixa Israel em seu melhor cenário, enquanto a resistência estratégica pacífica põe em questão a legitimidade das políticas de ocupação e apartheid de Israel - a batalha da legitimidade onde Israel está em sua posição mais fraca.

Repercussão

O episódio ofereceu uma imagem poderosa da distância entre o fracasso do presidente Obama na tentativa de deter a expansão das colônias israelenses na Jerusalém Oriental ocupada e o sucesso da Turquia ao desafiar o cerco e o bloqueio de Gaza por Israel apoiando a flotilha, o que foi especialmente importante à luz do sucesso da iniciativa turco-brasileira para o Irã, contrariando os EUA. Como observou Tony Karon na edição online da revista Time:

"A iniciativa marca o reconhecimento por parte de Israel de que sua estratégia em Gaza não atingiu o objetivo, e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu repudiou o bloqueio na segunda-feira (31/05), afirmando em declarações ao parlamento que se tratava de uma política herdada de seus antecessores. O fato de o bloqueio ter desmoronado sob pressão também é embaraçoso para o governo Obama, pois a objeção mais vigorosa da Turquia será vista em toda a região como uma atitude que forçou uma mudança de comportamento israelense, algo que as educadas súplicas de Obama não conseguiram fazer.

De fato, a série de respostas assertivas de Ancara ao ataque israelense contra o barco Mavi Marmara - incluindo a convocação de seu embaixador em Tel-Aviv, o cancelamento de exercícios militares com Israel , a forte linguagem não-diplomática de seus dirigentes e a insistência bem-sucedida na devolução de todos os ativistas capturados ou mortos no navio - ofereceu um exemplo de como potências de tamanho e nível médios podem desafiar Israel, resistir à pressão dos EUA e sair não só ilesas, mas com um enorme ganho de capital político tanto doméstica quanto internacionalmente.

Além disso, quem participou da flotilha e quem a defendeu ao redor do mundo o fez com base na lei internacional. Israel não foi condenado porque seus comandos agiram de modo vil e brutal, e sim porque o ataque ao Mavi Marmara, um barco civil que transportava bens comprovadamente humanitários em águas internacionais, foi uma violação da lei internacional. O ponto principal é que a flotilha pôs o próprio bloqueio de Gaza sob a luz da lei internacional - e mostrou sua irregularidade, forçando assim o governo de Israel a anunciar a intenção de "amezinar" o cerco.

Amenizando o bloqueio

Mas o que esse anúncio realmente significa? Como de costume, o alcance da decisão israelense varia, dependendo não só de sua implementação, mas também do ponto de vista de nossas análises.

Pelos meus cálculos, existem quatro níveis diferentes de significado. Do ponto de vista do poder crescente da pressão internacional, Israel cedeu. É algo extraordinário. Os tímidos pedidos de Obama a Israel em relação aos assentamentos, uma solução de dois Estados etc, tudo isso falhou - o que não surpreende, dado que os pedidos eram acompanhados pela continuação incólume da colaboração militar norte-americana com Israel, da proteção diplomática na ONU e em outros lugares e, crucialmente, das remessas da ajuda militar de 30 bilhões de dólares que o governo Obama concedeu ao Estado judeu.

Assim, em termos do impacto potencial sobre o discurso e a percepção, Israel cedeu. Ponto para a sociedade civil global e a Turquia, zero para Obama.

No entanto, do ponto de vista do real alívio da catástrofe humana diante dos 1,5 milhão de habitantes que permanecem confinados na prisão a céu aberto que é Gaza, a decisão israelense significa, na melhor das hipóteses, uma melhora mínima nas condições diárias de sobrevivência. Israel não tem a intenção de suspender o bloqueio - Gaza continuará sitiada, com Israel no controle das fronteiras, de todas as pessoas e bens que entram e saem (ou não), de todo o espaço aéreo, de todo o litoral e mais.

Ainda não está claro se será permitida a entrada de quantidades significativas de material de construção. Israel indicou que pode classificar o cimento e as barras de aço como itens de "duplo uso", potencialmente militar, e proibir sua entrada (se fizer isso, seguirá um poderoso legado deixado pelas sanções dos EUA contra o Iraque, nas quais lápis eram considerados de duplo uso por causa do grafite e equipamentos de tratamento de água e esterilização em hospitais eram banidos, entre outras coisas). Ou seja, víveres provavelmente poderão entrar, mas moradores de Gaza como Fida Qishta estão dizendo ao mundo: "Não precisamos de comida ou roupas. Não queremos dinheiro. Precisamos de liberdade para ir e vir. Precisamos sentir que somos humanos. As pessoas em Gaza não são de outro planeta."

Do ponto de vista das violações da lei internacional por parte de Israel, a decisão não muda nada. "Amenizar" um bloqueio ilegal não o torna legal. Enquanto não suspender o bloqueio, Israel continuará infringindo a lei. O Artigo 33 da Convenção de Genebra proíbe uma potência ocupante de usar a punição coletiva, sem exceções. E de acordo com o Manual de San Remo sobre Direito Internacional Aplicado a Conflitos Armados no Mar:

"A declaração ou o estabelecimento de um bloqueio são proibidos se: a) o único objetivo for deixar a população civil faminta ou negar-lhe outros bens essenciais para sua sobrevivência; ou b) os danos à população civil, conhecidos ou prováveis, forem excessivos em relação à vantagem militar concreta e direta prevista com o bloqueio."

Aumentar o número de itens alimentícios cuja entrada é permitida em Gaza, ou mesmo trocar uma lista do que é "permitido" por outra menos restritiva, do que é "proibido", não faz com que Israel pare de violar a lei.

Finalmente, pode-se dizer que, do ponto de vista, a longo prazo, do fim da ocupação israelense, o impacto da decisão de "amenizar" o bloqueio é pior do que nada. Se, por exemplo, Tony Blair, ex-primeiro-ministro britânico e hoje enviado ao Oriente Médio do chamado "Quarteto", continuar exercendo o papel de adulador e porta-voz do governo israelense, parte de seu plano será celebrar a decisão como um passo qualitativo em direção a uma solução de dois Estados. Israel merecerá tal apoio por ter dado um passo tão grande - e os palestinos, certamente, terão de retribuir esta "concessão" israelense, provavelmente com o retorno à mesa de negociação. Isso porque, como já vimos antes, para o governo Obama, quando se trata de Israel, as negociações - quaisquer negociações, por mais inúteis que sejam - são o substituto preferido à verdadeira responsabilidade.

Guerra da legitimidade

Os palestinos em Gaza provavelmente não verão uma mudança qualitativa imediata como uma consequência da crise da flotilha.

No entanto, em um prazo apenas ligeiramente mais longo, as mudanças deverão ser poderosas e duradouras. Mais governos perceberam que é possível desafiar as políticas de Israel, enfrentar seus protetores dos EUA e sair ileso e talvez mais popular que nunca. A Turquia está consolidando seu papel crescente de potência regional do Oriente Médio por mérito próprio, preocupando-se muito menos (tanto no nível governamental quanto no nível popular) em obter apoio para ingressar na União Europeia.

E a sociedade civil global venceu uma enorme batalha naquilo que Richard Falk, relator especial da ONU para os Direitos Humanos no Território Palestino Ocupado, chama de "guerra da legitimidade". O sucesso político - apesar do alto custo em vidas humanas - obtido pela flotilha do Movimento Gaza Livre fortalece não só o movimento internacional para romper o cerco a Gaza, mas também a campanha de BDS (boicote, desinvestimento e sanções) que, liderada pelos palestinos, espalha-se pelo mundo.

Como Falk escreveu no jornal Le Monde Diplomatique depois do ataque israelense a Gaza no ano passado:

"No fim das contas, a grande questão é saber se os temores de crimes de guerra motivados pelo comportamento de Israel em Gaza importam e, em caso positivo, como. Acredito que eles têm grande importância no que pode ser chamado de "segunda guerra" - a guerra de legitimidade que frequentemente acaba por determinar o desfecho político mais do que os resultados no campo de batalha. Os EUA venceram todas as batalhas no Vietnã e perderam a guerra; o mesmo aconteceu com a França na Indochina e na Argélia e com a União Soviética no Afeganistão. O xá do Irã caiu, assim como o regime do apartheid na África do Sul, por causa das derrotas na guerra da legitimidade. A meu ver, o surgimento de acusações criminais contra Israel durante e depois de seus ataques a Gaza resultaram em ganhos importantes para os palestinos na linha de frente da legitimidade. As percepções populares generalizadas da criminalidade de Israel, especialmente a impressão de uma guerra lançada contra uma população indefesa com armamentos modernos, levaram as pessoas ao redor do mundo a propor boicotes, desinvestimentos e sanções. Esta mobilização exerce pressão sobre governos e corporações para que abram mão de suas relações com Israel e lembra a campanha mundial antiapartheid, que fez muito para alterar o cenário político na África do Sul. A vitória na guerra da legitimidade não garante que a autodeterminação palestina será conquistada nos próximos anos. Mas muda a equação política."

A interação de governos com os ativistas da flotilha - não só Turquia e Irlanda, como também Malásia e outros países ofereceram apoio - significa que talvez vejamos outras nações na Assembleia Geral da ONU seguindo seus passos na defesa da lei internacional e dos direitos humanos. Talvez alguns lembrem os colegas de que a própria ONU apoiou campanhas de BDS no passado e algumas resoluções permanecem nos registros. Especificamente, em 1982 e 1983, durante a invasão e a ocupação do Líbano por Israel, a Assembleia aprovou duas resoluções pedindo que os membros:

"Abstenham-se de fornecer a Israel quaisquer armas e equipamentos relacionados e suspendam qualquer assistência militar que Israel receba deles; abstenham-se de adquirir quaisquer armas ou equipamentos militares de Israel; suspendam a assistência e a cooperação econômica, financeira e tecnológica com Israel; rompam as relações diplomáticas, comerciais e culturais com Israel."

Com a sociedade civil à frente e a Turquia servindo de exemplo, tal ação por parte dos Estados membros da ONU não parece tão impossível.


*Phyllis Bennis é membro do Instituto Transnacional (TNI) e do Instituto de Estudos de Política (IPS) em Washington, onde dirige o Projeto do Novo Internacionalismo. É especialista em política externa dos EUA, particularmente em relação ao Oriente Médio e à ONU. Artigo orignalmente publicado pelo The Huffington Post. Tradução: Alexandre Moschella.

domingo, 7 de junho de 2009

Uma outra visão sobre o discurso de Obama no Cairo

Mas... e fazemos o quê, do discurso dele?

7/6/2009
por Paul Craig Roberts*

O que fazemos, do discurso de Obama na Universidade do Cairo, no Egito?

Obama disse "Vim ao Cairo em busca de um recomeço, entre os EUA e os muçulmanos de todo o mundo; recomeço baseado em interesse mútuo e mútuo respeito."

Cairo é a capital do Egito, Estado-fantoche dos EUA, cujo governo reprime todas as aspirações dos muçulmanos egípcios e coopera com Israel no bloqueio de Gaza. Ao contrário da Universidade Islâmica de Al-Azhar, a Universidade do Cairo foi criada como universidade laica. A plateia que ouviu Obama na Universidade do Cairo foi plateia secular.

Seja como for, Obama disse palavras surpreendentes que soaram como palavras de esperança para muitos muçulmanos. Disse que o colonialismo e a Guerra Fria negaram direitos e oportunidades aos muçulmanos e resultaram em Estados muçulmanos serem tratados como fantoches, sem atenção às suas aspirações. Disso surgiram "extremistas violentos" que semearam medo e desconfiança entre os mundos ocidental e muçulmano. Falou do Corão, lembrou seu segundo nome e falou de conexões familiares com o Islam. Elogiou as contribuições do Islam para a civilização.

Também declarou sua "responsabilidade como presidente dos EUA, de lutar contra os estereótipos negativos do Islam, onde quer que apareçam.” Reconheceu a "responsabilidade que temos uns com os outros como seres humanos." Reconheceu o direito do Iran "de construir capacidade nuclear para fins pacíficos". Declarou que "nenhum sistema de governo pode ou deve ser imposto por uma nação a outra".

As palavras mais explosivas tiveram a ver com Israel e Palestina: "Os israelenses têm de reconhecer que, assim como não se pode negar o direito à existência de Israel, tampouco se pode negar o direito dos palestinos. Os EUA não aceitam a legitimidade da continuada construção de colônias israelenses."

Obama declarou que "a única solução possível para atender às aspirações dos dois lados é criarem-se dois Estados, nos quais israelenses e palestinos possam viver em paz e em segurança. Atende aos interesses de Israel e atende aos interesses dos palestinos; atende aos interesses dos EUA e atende aos interesses do mundo. Por isso me aplicarei pessoalmente para chegar a esse resultado, com a paciência que a tarefa exige. Os deveres acordados pelas duas partes no "Mapa do Caminho" são claros. Para que se faça a paz, é tempo de eles – e todos nós – fazermos o que é de nossa responsabilidade."

Para que se faça o que Obama se aplicará pessoalmente para que seja feito, Israel terá de devolver a terra roubada na Cisjordânia, derrubar o muro, aceitar o direito de retorno dos refugiados palestinos e libertar o 1,5 milhão de palestinos que vivem confinados no Ghetto de Gaza. Dado que essa é uma coleção de eventos todos altamente improváveis, a "Solução dos Dois Estados" que Obama endossa é solução que teremos de esperar para saber se algum dia acontecerá.

Depois que amainar a atenção eufórica à retórica idealista, Obama será criticado pelas palavras extravagantes que criam expectativas inalcançáveis.

Mas as palavras extravagantes terão sido alguma coisa além de um primeiro ato para engambelar os muçulmanos, para aquietar a Fraternidade Muçulmana no Egito, Estado-fantoche dos EUA, e para fazê-los engolir sem reclamar a agressão dos EUA ao Iraque, ao Afeganistão e ao Paquistão?

Obama prega mudança, mas continua a praticar o que diz que muda; invoca direitos humanos para ganhar a simpatia dos árabes seculares. Admite que o Iraque foi "guerra escolhida", mas que o 11/9 converteu o Afeganistão em guerra necessária.

Obama disse que "os eventos do 11/9" e a responsabilidade da Al Qaeda, não o desejo dos EUA de ter bases militares e de ser hegemônicos, são as razões pelas quais não diminuirá o empenho com que os EUA combatem o extremismo violento no Afeganistão.

Será que os muçulmanos não verão o quanto há de hipocrisia na defesa que Obama fez do extremismo violento dos EUA no Afeganistão e, agora, também no Paquistão?

Al Qaeda, diz Obama, "escolheu matar cruelmente" cerca de 3.000 pessoas no 11/9 "e mesmo hoje reafirma sua determinação para matar em escala massiva." Essas mortes são uma gota, no mar de sangue que as invasões norte-americanas criaram no mundo muçulmano. Mais: a esmagadora maioria dos muçulmanos que os EUA massacraram são civis, como são civis, também, os palestinos massacrados pelos israelenses que massacram com armas norte-americanas.

Contra a Al Qaeda, cujas "ações são irreconciliáveis com os direitos dos seres humanos", Obama invoca a proibição, no Corão, de matar um único inocente.

Obama não vê que as escrituras aplicam-se também aos EUA e à sua "coalizão de 46 países" em armas?

Todas as guerras dos EUA são guerras escolhidas. O mais de um milhão de mortos no Iraque não foram mortos pela Al Qaeda. Nem os quatro milhões de refugiados iraqueanos são refugiados por obra da Al Qaeda. Pois, para Obama, os iraqueanos estão em melhor situação hoje, com o país reduzido a ruínas e um quinto da população extraviada ou morta, porque se livraram de Saddam Hussein, governo secular.

Ninguém conhece o número exato dos mortos e refugiados produzidos pelos EUA no Afeganistão. Apesar disso, disse Obama, "a situação no Afeganistão comprova os objetivos dos EUA e a necessidade de trabalharmos juntos".

Nos 100 primeiros dias de governo, Obama já criou um milhão de refugiados paquistaneses. Israel precisou de 60 anos para criar 3,5 milhões de refugiados palestinos.

O que Obama realmente fez com seu discurso foi aceitar a responsabilidade por implantar a agenda dos neoconservadores, de ampliar a hegemonia ocidental mediante o extermínio dos "extremistas muçulmanos", quer dizer, muçulmanos que querem governar-se eles mesmos, seguindo o Islam como o entendem, não como alguma espécie secularizada e ocidentalizada de falso Islam.

Muçulmanos extremistas são criaturas criadas por décadas de colonização e secularização ocidentalizantes que criaram uma elite que só é muçulmana no nome, para governar povos religiosos e suprimir os saberes islâmicos. Todos os especialistas sabem disso, e a maioria deles saúda o projeto como meio para levar progresso e desenvolvimento ao mundo muçulmano.

Obama disse que "o progresso humano não pode ser negado", mas "não precisa haver contradição entre desenvolvimento e tradição.” Mas é o ocidente quem define desenvolvimento e educação. Essas palavras significam o que nelas lemos, só no ocidente. As mesmas palavras, para os muçulmanos extremistas, significam ameaça de extermínio do Islam.

De modo tipicamente norte-americano, Obama ofereceu dinheiro aos muçulmanos, "desenvolvimento tecnológico" e "centros de excelência científica".

Basta que os muçulmanos cooperem com os EUA e sejam pacíficos... e, então... os EUA respeitarão "a dignidade de todos os seres humanos".


Paul Craig Roberts* foi Secretário-assistente do Tesouro no governo Reagan.
É coautor de The Tyranny of Good Intentions. Recebe e-mails em PaulCraigRoberts@yahoo.com
Texto originalmente publicado em Counterpunch

"E enquanto Obama proclama o nascimento do século 21… o governo de Israel está voltando ao século 19."

Discurso de Obama: o tom e a música*

Por Uri Avnery
6/6/2009

Um homem falou ao mundo, e o mundo ouviu.

Subiu ao palco no Cairo, só, sem quem o recebesse e sem assessores, e pregou um sermão a uma platéia de bilhões. Egípcios e norte-americanos, israelenses e palestinos, judeus e árabes, sunitas e xiitas, coptas e maronitas – e todos o ouviram atentamente.

Desdobrou à frente de todos o mapa de um novo mundo, mundo diferente, sobre cujos valores e leis falou fala simples e clara – uma mistura de idealismo e política prática, visão e pragmatismo.

Barack Hussein Obama – como cuidou de dar-se nome, ele mesmo – é o homem de mais poder em toda a Terra. Cada palavra que diga é um fato político.

“Um discurso histórico", declararam comentadores, em uma centena de idiomas. Prefiro outro adjetivo.

O discurso foi correto.

Cada palavra em seu lugar, cada sentença, precisa; todos os tons em harmonia. A obra-prima de um homem trazendo nova mensagem ao mundo.

Desde a primeira palavra, todos os presentes na Universidade do Cairo e o resto do mundo sentiram a honestidade do homem; que coração e fala estavam em harmonia; que não é político à moda antiga – hipócrita, solene, calculista. A linguagem corporal e suas expressões faciais falavam claras.

Por isso o discurso foi tão importante. Uma nova integridade moral e um novo senso de honestidade aumentaram o impacto do conteúdo revolucionário. E não há dúvidas de que foi discurso revolucionário.

Em 55 minutos, não só varreu os oito anos de George W. Bush, mas também varreu boa parte de décadas anteriores, desde a II Guerra Mundial.

A nave norte-americana mudou de rota – não com o peso e a lentidão que se espera de um cargueiro, mas ágil como lancha a motor.

Isso implica muito mais que uma mudança política. Chega às raízes da consciência nacional norte-americana. O presidente falou a centenas de milhões de cidadãos norte-americanos, tanto quanto a um bilhão de muçulmanos.

A cultura norte-americana carrega o mito do Oeste Selvagem, com seus 'mocinhos' e seus 'bandidos', com justiça pela violência e duelos ao sol do meio-dia. Dado que a nação norte-americana é feita de imigrantes de todo o mundo, sua unidade parece sempre exigir um inimigo ameaçador que venha do mundo exterior – como os nazistas, os japoneses ou os comunistas. Depois do colapso do império soviético, o Islam assumiu o papel.

Cruel, fanático, sedento de sangue, aquele Islam; Islam como religião de morte e destruição; um Islam que quer o sangue de mulheres e crianças. Esse inimigo capturou a imaginação das massas e ofereceu material para a televisão e o cinema. Ofereceu temas para conferências e palestras de professores e letrados e inspiração renovada para autores mais populares. A Casa Branca foi ocupada por um néscio que declarou uma "Guerra ao Terror" em todo o planeta.

Agora, quando Obama destroi pela raiz esse mito, revoluciona a cultura norte-americana. Varre para o lixo o quadro do inimigo único, sem inventar outro inimigo que o substitua. Prega contra a própria atitude de adversário violento e trabalha para substituí-lo por uma cultura de parceria entre nações, civilizações e religiões.

Vejo Obama como o primeiro grande mensageiro do século 21. Filho de uma nova era, na qual a economia é global e toda a humanidade enfrenta risco de não sobreviver no planeta Terra. Uma era na qual a Internet conecta um rapaz na Nova Zelândia e uma moça na Namíbia, em tempo real; quando uma doença que surja numa vila mexicana espalha-se para todo o mundo em poucos dias.

Esse mundo exige uma lei mundial, uma ordem mundial, uma democracia mundial. Por isso o discurso foi realmente histórico: Obama traçou os contornos básicos de uma constituição mundial.

E enquanto Obama proclama o nascimento do século 21… o governo de Israel está voltando ao século 19.

O século 19 foi o século em que os nacionalismos mais estreitos, autocêntricos, agressivos, enraizaram-se em muitos países. Século que santificou a nação beligerante que oprime minorias e subjuga vizinhos. Século que fez nascer o moderno antissemitismo e a reação a ele: o moderno sionismo.

A visão de Obama não é antinacional. Ele fala com orgulho, da sua nação norte-americana. Mas o nacionalismo de Obama é de outro tipo: é nacionalismo inclusivo, multicultural e não-sexista; inclui todos os cidadãos de um país e respeita os demais países.

Esse é o nacionalismo do século 21, que inexoravelmente buscará estruturas supranacionais, regionais e mundiais.

Comparado a isso, como é miserável o mundo mental da direita israelense! Como é miserável o mundo violento, religioso-fanático dos colonizadores dos "assentamentos" – que são "colônias", não são "assentamentos" –, o ghetto chovinista de Netanyahu, Lieberman e Barak, o mundo racista-fascista fechado nele mesmo, de seus aliados Kahanistas!

É preciso entender a dimensão moral e espiritual do discurso de Obama, antes de considerar suas implicações políticas. Obama e Netanyahu estão em rota de colisão, sim, mas não só na esfera política. A colisão que está em processo é colisão entre dois mundos mentais, tão diferentes um do outro como o sol e a lua.

No mundo mental de Obama, não há lugar para a direita israelense, nem para seus equivalentes em outras partes do mundo. Nem para a terminologia da direita, nem para os "valores" da direita, nem, muito menos, para as ações da direita israelense.

Na esfera política, também, há uma ravina aberta a separar os governos de Israel e dos EUA.

Durante os últimos anos, sucessivos governos israelenses surfaram a onda da islamofobia que se espalhou pelo ocidente. O mundo islâmico foi posto como inimigo mortal, os EUA galopavam sombriamente rumo ao Choque de Civilizações; em cada muçulmano viu-se um terrorista potencial.

Os líderes da direita em Israel rejubilaram. Afinal, os palestinos são árabes; os árabes são muçulmanos; os muçulmanos são terroristas – e assim Israel garantia lugar de protagonista na guerra entre os Filhos da Luz contra os Filhos das Sombras.

Foi o Jardim do Éden dos demagogos racistas. Avigdor Lieberman pôde defender a expulsão dos árabes, de Israel; Ellie Yishai pôde propor leis para revogar a cidadania dos não-judeus. Membros obscuros do Parlamento chegaram às manchetes dos jornais, com leis que pareciam paridas em Nuremberg.

Esse Jardim do Éden acabou. As implicações disso apareçam logo, ou demorem mais para aparecer – têm direção óbvia. Se insistir no caminho em que está, Israel será convertida em colônia de leprosos.

O tom faz a música – o que se aplica também às palavras do presidente sobre Israel e Palestina. Falou longamente sobre o Holocausto – palavras sinceras e corajosas, cheias de empatia e compaixão, recebidas em silêncio pelos egípcios, mas com respeito. Destacou o direito de Israel à existência. E, sem pausa, falou sobre o sofrimento dos refugiados palestinos, a situação intolerável em que vivem os palestinos em Gaza, as aspirações dos palestinos, por um Estado deles.

Falou com respeito sobre o Hamás. Não mais uma "organização terrorista", mas parte do povo palestino. Exigiu que reconheçam Israel e parem a violência, mas também deixou claro que considerará bem-vindo um governo palestino de unidade nacional.

A mensagem política foi clara e inequívoca: a Solução dos Dois Estados tem de ser implantada. Obama pessoalmente se empenhará para que aconteça. A construção nas colônias tem de parar. Diferente dos antecessores, Obama não calou e pronunciou a palavra decisiva: "Palestina", nome de um território e de um Estado.

E não menos importante: a guerra do Iran foi excluída da agenda. O diálogo com Teeran, parte do novo mundo, não tem limite de tempo. De agora em diante, que ninguém, nem em sonho, espere algum "OK" dos EUA, para que Israel ataque o Iran.

COMO o governo de Israel respondeu? Primeiro, a reação foi de negação: "foi discurso sem importância". "Nada de novidade". Os comentaristas do establishment israelense selecionaram algumas poucas frases pró-Israel e ignoraram as demais. Afinal, "são só palavras. Ele fala. Nada acontecerá, de diferente."

Isso é nonsense. Palavras do presidente dos EUA jamais são "só palavras". São fatos políticos. Fazem mudar as percepções de centenas de milhões. O público muçulmano ouviu-as atentamente. O público norte-americano, também. É possível que a mensagem precise de algum tempo para reverberar.

Mas, depois desse discurso, o lobby pró-Israel jamais será o que foi antes do discurso. A era dos “foile shtik” (hídiche, "truques sujos") acabou. A desonestidade matreira de um Shimon Peres, o fingimento traiçoeiro de um Ehud Olmert, a conversa falsa de um Bibi Netanyahu – tudo isso é passado.

O povo de Israel, agora, tem de decidir: ou segue o governo de direita até a inevitável colisão com Washington – como os judeus fizeram há 1940 anos, quando seguiram os zelotes em guerra suicida contra Roma –, ou juntam-se à marcha de Obama rumo a um novo mundo.

* URI AVNERY, 6/6/2009, originalmente publicado em "The Tone and the Music", Gush Shalom [Grupo da Paz], Telavive.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Alisando nossos cabelos

Um texto para professores negros e brancos refletirem sobre como estamos tratando a estética dos nossos alunos negros, especialmente as meninas negras, reforçamos os preconceitos a partir de um modelo único de beleza ou não.
O texto de Bel Hooks é longo, mas garanto a vocês que vale a pena a leitura de cada vírgula.

Alisando o Nosso Cabelo

BELL HOOKS*

Apesar das diversas mudanças na política racial, às mulheres negras continuam obcecadas com os seus cabelos, e o alisamento ainda é considerado um assunto sério. Insistem em se aproveitar da insegurança que nós mulheres negras sentimos com respeito a nosso valor na sociedade de supremacia branca! Nas manhãs de sábado, nos reuníamos na cozinha para arrumar o cabelo, quer dizer, para alisar os nossos cabelos. Os cheiros de óleo e cabelo queimado misturavam-se com os aromas dos nossos corpos acabados de tomar banho e o perfume do peixe frito.

Não íamos ao salão de beleza. Minha mãe arrumava os nossos cabelos. Seis filhas: não havia a possibilidade de pagar cabeleireira. Naqueles dias, esse processo de alisar o cabelo das mulheres negras com pente quente (inventado por Madame C. J. Waler) não estava associado na minha mente ao esforço de parecermos brancas, de colocar em prática os padrões de beleza estabelecidos pela supremacia branca. Estava associado somente ao rito de iniciação de minha condição de mulher. Chegar a esse ponto de poder alisar o cabelo era deixar de ser percebida como menina (a qual o cabelo podia estar lindamente penteado e trançado) para ser quase uma mulher. Esse momento de transição era o que eu e minhas irmãs ansiávamos.

Fazer chapinha era um ritual da cultura das mulheres negras, um ritual de intimidade. Era um momento exclusivo no qual as mulheres (mesmo as que não se conheciam bem) podiam se encontrar em casa ou no salão para conversar umas com as outras, ou simplesmente para escutar a conversa. Era um mundo tão importante quanto à barbearia dos homens, cheia de mistério e segredo.

Tínhamos um mundo no qual as imagens construídas como barreiras entre a nossa identidade e o mundo eram abandonadas momentaneamente, antes de serem reestabelecidas. Vivíamos um instante de criatividade, de mudança.

Eu queria essa mudança mesmo sabendo que em toda a minha vida me disseram que eu era "abençoada" porque tinha nascido com "cabelo bom" – um cabelo fino, quase liso –, não suficientemente bom, mais ainda assim era bom. Um cabelo que não tinha o "pé na senzala", não tinha carapinha, essa parte na nuca onde o pente quente não consegue alisar. Mas esse "cabelo bom" não significava nada para mim quando se colocava como uma barreira ao meu ingresso nesse mundo secreto da mulher negra.

Eu regozijei de alegria quando a minha mãe finalmente decretou que eu poderia me somar ao ritual de sábado, não mais como observadora, mas esperando pacientemente a minha vez. Sobre este ritual escrevi o seguinte: Para cada uma de nós, passar o pente quente é um ritual importante. Não é um símbolo de nosso anseio em tornar-nos brancas. Não existem brancos no nosso mundo íntimo. É um símbolo de nosso desejo de sermos mulheres.

É um gesto que mostra que estamos nos aproximando da condição de mulher [...] Antes que se alcance a idade apropriada, usaremos tranças; tranças que são símbolo de nossa inocência, juventude, nossa meninice. Então, as mãos que separam, penteiam e traçam nos confortam. A intimidade e a sina nos confortam.

Existe uma intimidade tamanha na cozinha aos sábados quando se alisa o cabelo, quando se frita o peixe, quando se fazem rodadas de refrigerante, quando a música soul flutua sobre a conversa. É um instante sem os homens. Um tempo em que trabalhamos como mulheres para satisfazer umas as necessidades das outras, para nos proporcionarmos um bem-estar interior, um instante de alegrias e boas conversas. Levando em consideração que o mundo em que vivíamos estava segregado racialmente, era fácil desvincular a relação entre a supremacia branca e a nossa obsessão pelo cabelo. Mesmo sabendo que as mulheres negras com cabelo liso eram percebidas como mais bonitas do que as que tinham cabelo crespo e/ou encaracolado, isso não era abertamente relacionado com a idéia de que as mulheres brancas eram um grupo feminino mais atrativo ou de que seu cabelo liso estabelecia um padrão de beleza que as mulheres negras estavam lutando para colocar em prática.

Esse momento é um marco histórico e ideológico do qual emergiu o processo de alisamento do cabelo de mulheres negras. Esse processo foi ampliado de maneira tal que estabeleceu um espaço real de formação de íntimos vínculos pessoais da mulher negra mediante uma experiência ritualística compartilhada.

O salão de beleza era um espaço de aumento da consciência, um espaço em que as mulheres negras compartilhavam contos, lamúrias, atribulações, fofocas – um lugar onde se poderia ser acolhida e renovar o espírito.

Para algumas mulheres, era um lugar de descanso em que não se teria de satisfazer as exigências das crianças ou dos homens. Era a hora em que algumas teriam sossego, meditação e silêncio. Entretanto, essas implicações positivas do ritual do alisamento do cabelo ponderavam, mas não alteravam as implicações negativas. Essas existiam concomitantemente.

Dentro do patriarcado capitalista – o contexto social e político em que surge o costume entre os negros de alisarmos os nossos cabelos –, essa postura representa uma imitação da aparência do grupo branco dominante e, com freqüência, indica um racismo interiorizado, um ódio a si mesmo que pode ser somado a uma baixa auto-estima.

Durante os anos 1960, os negros que trabalhavam ativamente para criticar, desafiar e alterar o racismo branco, sinalavam a obsessão dos negros com o cabelo liso como um reflexo da mentalidade colonizada. Foi nesse momento em que os penteados afros, principalmente o black, entraram na moda como um símbolo de resistência cultural à opressão racista e fora considerado uma celebração da condição de negro(a).

Os penteados naturais eram associados à militância política. Muitos(as) jovens negros(as), quando pararam de alisar o cabelo, perceberam o valor político atribuído ao cabelo alisado como sinal de reverência e conformidade frente às expectativas da sociedade.

Entretanto, quando as lutas de libertação negra não conduziram à mudança revolucionária na sociedade, não se deu mais tanta atenção à relação política entre a aparência e a cumplicidade com o segregacionismo branco, e aqueles que outrora ostentavam os seus blacks começaram a alisar o cabelo.

Sem ficar atrás dessa manobra para suprimir a consciência negra e os esforços das pessoas negras por serem sujeitos que se autodefinem, as empresas brancas começaram a reconhecer os negros, e de maneira especialíssima, às mulheres negras, como consumidoras potenciais de produtos que poderiam ser subministrados, incluindo aqueles para os cuidados com o cabelo. Permanentes especialmente concebidos para as mulheres negras eliminaram a necessidade do pente quente e da chapinha. Esses permanentes não só custavam mais caro, mas também levavam todas as economias e ganâncias das comunidades negras, especificamente dos bolsos das mulheres negras que anteriormente colhiam benefícios materiais (ver Como o Capitalismo Desenvolveu a América Negra, de Manning Marable, South End Pree).

O contexto do ritual havia desaparecido, não haveria mais a formação de vínculos íntimos e pessoais entre as mulheres negras. Sentadas embaixo de secadores barulhentos, as mulheres negras perderam um espaço para o diálogo, para a conversa criativa.

Desposadas desses rituais de formação de íntimos vínculos pessoais positivos, que rodeavam tradicionalmente a experiência, o alisamento parecia cada vez mais um significante da opressão e da exploração da ditadura branca.

O alisamento era claramente um processo no qual as mulheres negras estavam mudando a sua aparência para imitar a aparência dos brancos. Essa necessidade de ter a aparência mais parecida possível à dos brancos, de ter um visual inócuo, está relacionada com um desejo de triunfar no mundo branco. Antes da integração, os negros podiam se preocupar menos sobre o que os brancos pensavam sobre o seu cabelo.

Em discussão sobre a beleza com mulheres negras em Spelman College , as estudantes falavam sobre a importância de ter o cabelo liso quando se procura um emprego. Estavam convencidas, e provavelmente com toda a razão, de que sua oportunidade de encontrar bons empregos aumentaria se tivessem cabelo alisado. Quando se pediam mais detalhes sobre essa assertiva, essas mulheres se concentravam na conexão entre as políticas radicais e os penteados naturais, seja com ou sem tranças. Uma jovem que tinha o cabelo natural e curto falava até mesmo em comprar uma peruca de cabelo liso e comprido na hora de procurar emprego.

Nenhuma das participantes pensava na possibilidade de que nós mulheres negras éramos livres para usar os nossos cabelos naturais sem refletir sobre as possíveis conseqüências negativas. Com freqüência, os adultos negros, os mais velhos, especialmente os pais, respondiam negativamente aos penteados naturais. Contei ao grupo que, quando cheguei em casa com o cabelo trançado logo após conseguir um emprego em Yale, os meus pais me disseram que eu tinha um aspecto desagradável.

Apesar das diversas mudanças na política racial, as mulheres negras continuam obcecadas com os seus cabelos, e o alisamento ainda é considerado um assunto sério. Por meio de diversas práticas insistem em se aproveitar da insegurança que nós mulheres negras sentimos a respeito de nosso valor na sociedade de supremacia branca. Conversando com grupos de mulheres em diversas cidades universitárias e com mulheres negras em nossas comunidades, parece haver um consenso geral sobre a nossa obsessão com o cabelo, que geralmente reflete lutas contínuas com a auto-estima e a auto-realização. Falamos sobre o quanto as mulheres negras percebem seu cabelo como um inimigo, como um problema que devemos resolver, um território que deve ser conquistado. Sobretudo, é uma parte de nosso corpo de mulher negra que deve ser controlado. A maioria de nós não foi criada em ambientes nos quais aprendêssemos a considerar o nosso cabelo como sensual, ou bonito, em um estado não processado. Muitas de nós falamos de situações nas quais pessoas brancas pedem para tocar o nosso cabelo natural e demonstram grande surpresa quando percebem que a textura é suave ou agradável ao toque.

Aos olhos de muita gente branca e outras não negras, o black parece palha de aço ou um casco. As respostas aos estilos de penteado naturais usados por mulheres negras revelam comumente como o nosso cabelo é percebido na cultura branca: não só como feio, como também atemorizante. Nós tendemos a interiorizar esse medo.O grau em que nos sentimos cômodas com o nosso cabelo reflete os nossos sentimentos gerais sobre o nosso corpo.

Em nosso grupo de apoio de mulheres negras, Irmãs do Yam, conversávamos sobre como não gostávamos de nossos corpos, especialmente nossos cabelos. Sugeri ao grupo que considerássemos o nosso cabelo como se ele não fizesse parte do nosso corpo, mas que se percebesse como algo separado, de novo um território que deve ser controlado, domado.

Para mim era importante que fosse vinculada a necessidade de controlar o cabelo com a repressão sexual. Tendo curiosidade sobre o que passavam as mulheres negras que faziam chapinha ou que fizessem amaciamento, permanente ou outras químicas, quando refletiam sobre a relação do cabelo alisado e a prática sexual, perguntei se as pessoas se preocupavam com o cabelo delas, se temiam que seus pares tocassem os seus cabelos. Sempre tive a impressão de que o cabelo alisado chama a atenção pelo desejo de que permaneça no mesmo lugar. Não foi surpreendente que muitas mulheres negras respondessem que se sentiam incomodadas se as pessoas se concentravam e davam muita atenção aos seus cabelos, sentiam como se o seu cabelo estivesse desordenado, fora de controle. Isso porque aquelas de nós que já liberaram o seu cabelo e deixamos que ele se movimente na direção que ele queira, freqüentemente, recebemos comentários negativos.

Olhando fotografias de mim mesma e das minhas irmãs de quando tínhamos o cabelo alisado no segundo grau, percebi que parecíamos ter mais idade do que quando deixamos o cabelo natural. É irônico viver em uma cultura que enfatiza tanto a necessidade das mulheres serem ou parecerem jovens, mas por outro lado incentiva as mulheres negras a mudarem os seus cabelos de maneira tal que parecemos ser mais velhas.

No último semestre, estávamos lendo O Olho mais azul, de Toni Morrison, em uma aula de Literatura. Pedi aos estudantes que escrevessem textos autobiográficos, que refletissem sobre o que eles pensavam sobre a relação entre raça e beleza física. Uma grande maioria das mulheres negras escreveu sobre os seus cabelos. Quando eu perguntei isoladamente a algumas delas porque continuavam alisando o cabelo, muitas atestaram que os penteados naturais não ficavam bonitos nelas, ou que demandavam muito trabalho. Emily, uma das minhas favoritas, de cabelo curto sempre alisava, e eu lhe questionava e desafiava, até que ela me explicou de maneira muito convincente que um penteado natural ficaria horrível no seu rosto, que ela não tinha a fronte nem a estrutura óssea apropriada.
No semestre seguinte, nos reencontramos e ela me contou que durante as férias tinha ido ao salão fazer o permanente e, enquanto esperava, pensou sobre as leituras e as discussões de sala de aula e percebeu que estava realmente muito incomodada e amedrontada com a idéia de que as pessoas achassem que ela não seria mais atraente se não alisasse o cabelo. Reconheceu que esse medo estava enraizado nos sentimentos de baixa auto-estima. Decidiu fazer uma mudança e se surpreendeu, pois estava linda e muito atraente. Conversamos bastante sobre como dói perceber a relação entre a opressão racista e os argumentos que usamos para convencer a nós mesmas e aos outros de que não somos belos ou aceitáveis como somos.

Em inúmeras discussões com mulheres negras sobre o cabelo, ficou constatado um manifesto de que um dos fatores mais poderosos que nos impedem de usarmos o cabelo sem química é o temor de perder a aprovação e a consideração das outras pessoas. As mulheres negras heterossexuais falaram sobre o quanto os homens negros respondem de forma mais favorável quando se tem um cabelo liso ou alisado. Entre as homossexuais, muitas afirmam que não alisavam o cabelo por uma reflexão de que esse gesto estaria vinculado à heterossexualidade e à necessidade de aprovação do macho.

Lembro-me de ter visitado uma amiga com seu par, um homem negro, em Nova York , faz anos, e tivemos uma intensa discussão sobre o cabelo. Ele se encarregou de me dizer que eu poderia ser uma irmã excelente (bonita) se fizesse algo ("dar um jeito") com o meu cabelo. Por dentro pensei que a minha mãe o tinha contratado. O que me lembro é do espanto quando com calma e entusiasmo garanti que eu gostava do tato no cabelo não processado.

Quando os estudantes lêem sobre raça e beleza física, várias mulheres negras descrevem fases da infância em que estavam atormentadas e obcecadas com a idéia de ter cabelos lisos, já que estavam tão associados à idéia de essas serem desejadas e amadas. Poucas mulheres receberam apoio de suas famílias, amigos(as) e parceiros(as) amorosos(as) quando decidiam não alisar mais o cabelo. E temos várias histórias para contar sobre os conselhos recebidos de todo o mundo, até mesmo de pessoas completamente estanhas, que se sentem gabaritadas para atestar que parecemos mais bonitas se "arrumamos" (alisamos) o cabelo.

Quando eu ia para a minha entrevista de emprego em Yale, conselheiras brancas que nunca haviam feito nenhum comentário sobre o meu cabelo me animaram para que eu não usasse tranças ou um penteado natural grande (black) na entrevista. Elas não disseram "alisa o seu cabelo", sugeriam que eu mudasse o meu estilo de cabelo de modo tal que parecesse ao máximo ao cabelo delas, indicando certo conformismo. Usei tranças e ninguém pareceu notar. Quando fui contratada, não perguntei se importava ou não que eu usasse tranças. Conto essa história aos meus alunos para que saibam que nem sempre temos de renunciar a nossa capacidade de ser pessoas que se autodefinem para ter sucesso no emprego.

Já percebi que o meu estilo de cabelo às vezes incomoda os estudantes durante as minhas conferências. Certa vez, em uma conferência sobre mulheres negras e liderança, entrei em um auditório repleto com o meu cabelo sem química, fora de controle e desordenado. A grande maioria das mulheres negras que ali estavam tinham o cabelo alisado. Muitas delas foram hostis com olhares de desdém. Senti como se estivesse sendo julgada, como uma marginal, indesejável. Tais julgamentos se fazem especialmente direcionado às mulheres negras nos Estados Unidos que resolvem usar dreads. São consideradas, com toda razão, da antítese do alisamento, o que torna o seu estilo uma decisão política. Freqüentemente, as mulheres negras expressam desprezo por aquelas de nós que escolhemos essa aparência.

Curiosamente, ao mesmo tempo em que o cabelo natural é um motivo de desatenção e desdém, somos testemunhas da volta da moda das pinturas, mechas loiras, cabelo comprido. Em seus escritos, minhas alunas negras descreveram o uso de mechas amarelas em suas cabeças quando eram meninas, para fingir ter o cabelo comprido e loiro. Recentemente as cantoras que estão trabalhando para ser atrativas para a platéia branca, para serem consideradas como artistas que ampliaram o público, usam implantes e apliques para conseguir cabelos compridos e lisos. Parece haver um nexo definido entre a popularidade de uma artista negra com auditórios brancos e o grau em que ela trabalha para parecer branca, ou para encarnar aspectos do estilo branco. Tina Tuner e Aretha Franklin foram percussoras dessa tendência, as duas pintavam o cabelo de loiro. Na vida cotidiana vemos cada vez mais mulheres usando cada vez mais químicas para ter cabelo liso e loiro.
Em uma de minhas conversas que se concentravam na construção social da identidade da mulher negra dentro de uma sociedade sexista e racista, uma mulher negra veio até mim no final da discussão e me contou que sua filha de sete anos de idade estava deslumbrada com a idéia do cabelo loiro, de tal forma que ela havia feito uma peruca que imitava os cachinhos dourados. Essa mãe queria saber o que estava fazendo de errado em sua tutela, já que sua casa era um lugar onde a condição de negro era afirmada e celebrada. Mas ela não havia considerado que o seu cabelo alisado era uma mensagem para a sua filha: nós mulheres negras não somos aceitas a menos que alteremos nossa aparência ou textura do cabelo.
Recentemente conversei com uma de minhas irmãs mais novas sobre o seu cabelo. Ela usa tintura de cores berrantes em diversos tons de vermelho. No que lhe diz respeito, essas escolhas de cabelo pintado e alisado estavam diretamente relacionadas com sentimentos de baixa auto-estima. Ela não gosta dos seus traços e acredita que o estilo de cabelo transforma a sua fisionomia. O que eu percebia era que a escolha dela na realidade chamava mais atenção para a sua fisionomia e era tudo o que ela pretendia ocultar.

Quando ela comentou que com essa aparência ela recebia mais atenção e elogios, sugeri que a reação positiva podia ser resposta direta da sua própria projeção de um alto nível de auto-satisfaçã o. As pessoas podem estar respondendo a isso e não à tentativa de ocultar ou mascarar o seu fenótipo. Conversamos sobre as mensagens que estava mandando para as suas filhas de pele escura: que elas certamente seriam aceitas se alisassem os seus cabelos!

Certo número de mulheres afirmou que essa é uma estratégia de sobrevivência: é mais fácil de funcionar nessa sociedade com o cabelo alisado. Os problemas são menores; ou, como alguns dizem, "dá menos trabalho" por ser mais fácil de controlar e por isso toma menos tempo. Quando respondi a esse argumento em uma discussão em Spelman College , sugeri que talvez o fato de gastar tempo com nós mesmas cuidando de nossos corpos é também um reflexo de uma sensação de que não é importante ou de que nós não merecemos tal cuidado. Nesse grupo e em outros, as mulheres negras falavam de ter sido criadas em famílias que ridicularizavam ou consideravam desperdício gastar muito tempo com a aparência.

Independentemente da maneira como escolhemos individualmente usar o cabelo, é evidente que o grau em que sofremos a opressão e a exploração racistas e sexistas afeta o grau em que nos sentimos capazes tanto de auto-amor quanto de afirmar uma presença autônoma que seja aceitável e agradável para nós mesmas. As preferências individuais (estejam ou não enraizadas na autonegação) não podem escamotear a realidade em que nossa obsessão coletiva com alisar o cabelo negro reflete psicologicamente como opressão e impacto da colonização racista.

Juntos racismo e sexismo nos recalcam diariamente pelos meios de comunicação. Todos os tipos de publicidade e cenas cotidianas nos aferem a condição de que não seremos bonitas e atraentes se não mudarmos a nós mesmas, especialmente o nosso cabelo. Não podemos nos resignar se sabemos que a supremacia branca informa e trata de sabotar nossos esforços por construir uma individualidade e uma identidade.

Como nas lutas organizadas que aconteceram nos anos 1960 e princípios da década de 1970, as mulheres negras, como indivíduos, devemos lutar sozinhas por adquirir a consciência crítica que nos capacite para examinar as questões de raça e beleza e pautar nossas escolhas pessoais de um ponto de vista político.

Existem momentos em que penso em alisar o meu cabelo só por capricho, aí me lembro que, mesmo que esse gesto pudesse ser simplesmente festivo para mim, uma expressão individual de desejo, eu sei que gesto semelhante traria outras implicações que fogem ao meu controle. A realidade é que o cabelo alisado está vinculado historicamente e atualmente a um sistema de dominação racial que é incutida nas pessoas negras, e especialmente nas mulheres negras de que não somos aceitas como somos porque não somos belas.

Fazer esse gesto como uma expressão de liberdade e opção individual me faria cúmplice de uma política de dominação que nos fere. É fácil renunciar a essa liberdade. É mais importante que as mulheres façam resistência ao racismo e ao sexismo que se dissemina pelos meios de comunicação, e tratarem para que todo aspecto da nossa auto-representação seja uma feroz resistência, uma celebração radical de nossa condição e nosso respeito por nós mesmas.

Mesmo não tendo usado o cabelo alisado por muito tempo, isso não significa que eu era capaz de desfrutar ou realmente apreciar meu cabelo em estado natural. Durante anos, ainda considerava isso um problema. Ele não era natural o suficiente, crespo o necessário para fazer um black interessante e decente, o cabelo era muito fino. Essas queixas expressavam a minha continua insatisfação. A verdadeira liberação do meu cabelo veio quando parei de tentar controlar em qualquer estado e o aceitei como era.

Só há poucos anos é que deixei de me preocupar com o quê os outros possam dizer sobre o meu cabelo. Só nesses últimos anos foi que eu sentir consecutivamente o prazer lavando, penteando e cuidando do meu cabelo. Esses sentimentos me lembram o aconchego e o deleite que eu sentia quando menina, sentada entre as pernas de minha mãe, sentindo o calor do seu corpo e do seu ser enquanto ela penteava e trançava o meu cabelo.

Em uma cultura de dominação e antiintimidade, devemos lutar diariamente por permanecer em contato com nos mesmos e com os nossos corpos, uns com os outros. Especialmente as mulheres negras e os homens negros, já que são nossos corpos os que freqüentemente são desmerecidos, menosprezados, humilhados e mutilados em uma ideologia que aliena. Celebrando os nossos corpos, participamos de uma luta libertadora que libera a mente e o coração.

*Bell Hooks, pseudônimo de Gloria Jean Watkins nascida em 25 de setembro de 1952. É escritora e ativista feminista. Seus estudos se concentram nas rlações entre raça, classe social e gênero, investigando o modo como estes fatores relacionados produzem e perpetuam sistemas de opressão e dominação. Tem cerca de 30 livros publicados além de numerosos artigos acadêmicos. Sua perspectiva tem sido associada ao pensamento denominado "feminismo posmoderno".

Publicado em: Revista Gazeta de Cuba – Unión de escritores y Artista de Cuba, janeiro-fevereiro de 2005. Tradução do espanhol: Lia Maria dos Santos.

a versão aqui reproduzida foi extraída de Coletivo Marias

terça-feira, 31 de março de 2009

Olhos azuis, olhos castanhos poder e etnicidade em jogo

Semana passada o presidente Lula ao falar dos países que com suas políticas irresponsáveis arrastaram o mundo para uma crise global, na qual mais uma vez os países pobres são os mais vitimados usou a metáfora étnica, atribuindo a responsabilidade da crise aos banqueiros brancos (anglo-saxônicos de olhos azuis, dizendo que não conhecia banqueiros negros e indígenas/indianos que determinassem a política econômica global).

Aqui no Brasil, rapidamente a elite branca com ou sem olhos azuis se indignou, o jornalista barrigueiro Noblat, mais conhecido como Noblabát abriu logo um post pra criticar o "presidente sem noção", mal sabia ele que a imprensa mundial, aquela que esses jornalistazinhos da imprensa tupiniquim querem tanto imitar deu uma trela danada ao presidente Lula e vários jornais noticiaram de modo simpático e com abordagens que reafirmam a metáfora do presidente ex-metalúrgico. Segue dois textos nesta linha.
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Cobiça de olhos azuis?*

por MAUREEN DOWD, no New York Times, 29/03/2009

WASHINGTON -- Quando se fala em eventos lunáticos internacionais, é duro bater o papa que disse que camisinhas espalham AIDS. Mas o presidente do Brasil, conhecido simplesmente por Lula, tentou. Numa entrevista coletiva quinta-feira com o primeiro-ministro britânico Gordon Brown -- que tem talento para se colocar em situações difíceis -- Lula começou por engasgar com um pão de queijo que havia engulido. Então ele se tornou acusador. "Essa crise foi causada pelo comportamento irracional de gente branca de olhos azuis, que antes da crise parecia saber de tudo e agora demonstra que não sabe de nada", acusou o presidente socialista, barbudo e de olhos castanhos.

Enquanto Brown, de olhos castanhos, assumia um novo tom de palidez, Lula martelou o ponto óbvio de que os pobres do mundo estão sofrendo no crash global por causa dos ricos. "Eu não conheço nenhum banqueiro negro ou indígena", disse Lula. [Nota do site: Lula falou em indiano, "indian", não em indígena]. Ele também disse à CNN que trataria deste assunto na reunião do G-20 em Londres nessa semana. Ele disse que seu passado como pobre, faminto e desempregado dá a ele uma visão especial. "Vivi em casas que sofriam enchentes", ele disse, acrescentando, "algumas vezes, eu precisava lutar por espaço com ratos e baratas e lixo entrava em casa quando enchia".

O "lulu de Lula", pelo "nut do Brasil" [doido brasileiro], como batizou o New York Post, se tornou notícia importante justamente quando o presidente Obama se encontrava na Casa Branca com Vikram Pandit e uma turma de banqueiros que aceitaram o resgate -- alguns dos quais, como Jamie Dimon, tem distintos olhos azuis. E é verdade, naturalmente, que os líderes anglo-saxões da casta superior que permitiram que os mercados financeiros americanos se tornassem um cassino, George W. Bush e Dick Cheney, eram homens brancos, bem brancos, de olhos azuis. Como o Who cantava: "Ninguem sabe o que é ser um homem mau, ser o homem triste por trás dos olhos azuis. Ninguem sabe o que é ser odiado, o que é ter como destino contar apenas mentiras".

Todas as vezes que Cheney olha para uma câmera com aqueles olhos azuis gelados e diz que o presidente Obama está nos tornando menos seguros, soa como se ele secretamente estivesse desejando um novo ataque contra os Estados Unidos apenas para provar que Obama é fraco, mesmo que no processo ele também vire fumaça. (Quando fui checar a cor dos olhos de Cheney, a filha dele, Liz Cheney, de gozação me mandou um e-mail de volta, "Desculpe, mas essa informação é confidencial").

Antes do presidente Obama, cujos olhos castanhos são opacos se você olhar diretamente neles, os presidentes ficaram mais conhecidos por ter olhos azuis. Aqueles que tinham olhos castanhos, Richard Nixon e LBJ, foram um punhado. Através da história, seja na imagem de Cristo que não parece originário do Oriente Médio ou nas Barbies que não são étnicas, olhos azuis e pele branca serem foram pintados como ideais. Paul Newman com seus olhos celestiais certa vez predisse seu epitáfio: "Aqui jaz Paul Newman, que morreu fracassado porque seus olhos se tornaram castanhos".

Pesquisas mostram que pessoas de olhos azuis são mais inteligentes, atraentes e sociáveis. Um estudo de 2007 da Universidade de Louisville concluiu que pessoas de olhos azuis são melhores planejadores e pensadores estratégicos -- superiores em coisas como golfe, corrida cross-country e na preparação para exames --, enquanto as pessoas de olhos castanhos tem melhores reflexos e são bons em hóquei e futebol americano.

A fala de Lula reflete uma rivalidade antiga. Quando eu era pequena, crescendo numa casa onde eram mostrados de forma proeminente um Jesus de olhos azuis e um JFK de olhos azuis, eu sentia que meus olhos castanhos eram muito menos atraentes que os olhos azuis de meu irmão. Eu fui tão obcecada por isso que recortei a foto de um modelo de olhos castanhos e colei em meu caderno, levando minha mãe a finalmente garantir: "Você olha para olhos azuis. Você olha dentro de olhos castanhos". Mais tarde, naturalmente, houve o excitação de ouvir o Van Morrison cantando para a "Menina de olhos castanhos".

Antes de Barack Obama, quando eu entrevistei filhos de imigrantes que estavam pensando em concorrer à presidência, Mario Cuomo e Colin Powell, eles pareciam em dúvida quanto a se atirar na campanha, dado que já tinham avançado muito em relação aos próprios pais. Eu perguntei ao governador Cuomo se ele estava deixando o campo aberto "para os privilegiados anglo-saxões de olhos azuis" como Bush pai e Dan Quayle, que achavam que tinham direito natural a isso e nunca se preocuparam com seu próprio valor. Barack Obama e sua família já tiveram um profundo efeito na cultura em termos do que é a beleza. Rostos negros estão aparecendo em todo tipo de propaganda agora -- vestindo roupas chiques em anúncios da Ralph Lauren. Com Michelle pedindo aos estudantes que busquem tirar 10 e Obama prometendo que vai tornar as escolas "cool", os olhos castanhos podem finalmente -- e com todo direito -- ultrapassar os azuis como as "janelas dos vencedores".

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A reputação manchada dos Estados Unidos*

PAUL KRUGMAN, no New York Times, 29/03/2009

Dez anos atrás a capa da revista Time mostrou Robert Rubin, então secretário do Tesouro, Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve e Lawrence Summers, então subsecretário do Tesouro. A Time os definiu como "o comitê para salvar o mundo", dando a eles crédito por liderar o sistema financeiro global através de uma crise que parecia terrível na época, embora um pequeno abalo comparada com a que estamos atravessando agora.

Os três homens naquela capa eram norte-americanos, mas ninguem considerou aquilo estranho. É que em 1999 os Estados Unidos eram inquestionavelmente líderes na resposta global à crise. Aquele papel de liderança era apenas parcialmente baseado na riqueza norte-americana; era também, num grau importante, reflexo do papel dos Estados Unidos como modelo. Os Estados Unidos, todos pensavam, eram o país que sabia como fazer "finanças" corretamente.

Como os tempos mudaram.

Deixemos de lado o fato de que dois membros daquele comitê desde então sucumbiram à maldição da capa, a perda de reputação que geralmente sucede àqueles bajulados pela mídia. (O sr. Summers, agora chefe do Conselho Econômico Nacional, ainda está forte). Muito mais importante é como nossas alegações de estabilidade financeira -- normalmente invocadas quando cobravamos mudanças em outros países -- se provaram ocas.

De fato, nos dias de hoje, os Estados Unidos parecem o Bernie Madoff das economias: por muitos anos tiveram respeito, mesmo admiração, mas agora se revelam uma fraude.

É doloroso ler agora uma palestra que o sr. Summers deu no início de 2000, quando a crise econômica dos anos 90 estava terminando. Discutindo as causas da crise, o sr. Summers apontou coisas que os países em crise não tinham -- e, por implicação, que os Estados Unidos tinham. Essas coisas incluíam "bancos bem capitalizados e supervisionados" e contabilidade corporativa transparente e confiável. Quem diria.

Um dos analistas citados pelo sr. Summers na palestra, aliás, é o economista Simon Johnson. Em um artigo na edição atual da revista The Atlantic, o sr. Johnson, que foi economista-chefe do FMI e agora é professor do MIT, declara que as atuais dificuldades dos Estados Unidos são "chocantemente reminiscentes" das crises em lugares como a Rússia e a Argentina -- inclusive o papel-chave de capitalistas embusteiros.

Nos Estados Unidos, como no terceiro mundo, ele escreve, "interesses de negócios da elite -- financeira, no caso dos Estados Unidos -- tiveram um papel central na criação da crise, fazendo jogadas cada vez maiores, com apoio implícito do governo, até o inevitável colapso. Mais alarmante, eles agora usam sua influência para evitar precisamente o tipo de reformas necessárias, rapidamente, para tirar a economia de seu mergulho".

Não admira, assim, que num artigo de ontem do Times sobre o tipo de resposta que o presidente Obama receberá na Europa o título era "Capitalismo-que fala-inglês em julgamento".

Para fazer justiça, devemos dizer que os Estados Unidos estão longe de ser a única nação em que os bancos endoidaram. Muitos líderes europeus se negam a admitir os problemas econômicos e financeiros do continente, tão profundos quanto os nossos -- embora a rede de seguridade social muito mais forte lá significa que vamos experimentar muito mais sofrimento humano. De qualquer forma, é um fato que a crise custou aos Estados Unidos muito da sua credibilidade, e com isso muito de sua capacidade de liderar.

E isso é muito ruim.

Como muitos outros economistas, tenho revisitado a Grande Depressão procurando lições que podem nos ajudar a evitar uma repetição de performance. E uma coisa que chama a atenção na história do início dos anos 30 é como a resposta do mundo foi abalada pela inabilidade das maiores economias do mundo de cooperar.

Os detalhes de nossa crise atual são muito diferentes, mas a necessidade de cooperação não é menor. O presidente Obama acertou na semana passada quando declarou: "Todos nós temos de dar passos para levantar a economia. Não queremos uma situação em que alguns países fazem esforço extraordinário e outros não".

Ainda assim esta é a situação em que estamos. Não acredito que mesmo os esforços econômicos dos Estados Unidos são adequados, mas são muito maiores que os que outros países ricos estão dispostos a fazer. E, por direito, essa cúpula do G-20 é a ocasião para que o sr. Obama cobre de líderes europeus, em particular, que usem todo seu peso.

Mas nos dias de hoje os líderes estrangeiros não estão dispostos a aceitar lições de autoridades americanas, mesmo quando -- como é o caso -- elas estão certas.

A crise financeira teve muitos custos. E um destes custos é o dano à reputação dos Estados Unidos, um bem que perdemos justamente quando nós e o mundo mais precisamos dele.

*A tradução para o português de ambos os textos foi publicada no Vi o Mundo


segunda-feira, 23 de março de 2009

A riqueza afetiva e cultural não dá dinheiro

A crise e os 700 bilhões do Obama.

Por Cezar Migliorin

22 de março de 2009, extraído do site Vi o mundo



A crise do capitalismo não deve ser comemorada por nós que nos últimos tempos louvamos a gratuidade e os valores imateriais?

A crise é fruto da mudança de paradigma do capitalismo. Todos os serviços, ciências e produtores de bens imateriais, culturais irão se acomodar, mas aqueles ligados ao capitalismo moderno sairão mal das pernas.

A raridade é o que está em crise. Quem demite é quem produz bens materiais, caros, poluentes, destruidores do meio ambiente. A incoerência do capitalismo contemporâneo abalou o centro do capitalismo. Não pagamos para nos comunicar, nos divertir, nos informar. Essa é a crise irreversível. Como disse o André Gorz, isso não é o capitalismo em crise, mas a crise do capitalismo, muito antes de novembro de 2008.

É risível ler que o congresso americano aprovou um plano de mais de 700 bilhões de dólares! Obama está vacilando. Ele tem a faca e o queijo para mudar o mundo, mas está optando em salvar o mundo velho. Na verdade está apenas adiando a morte desse capitalismo com uma retórica verde. Todo esse dinheiro deveria estruturar uma sociedade da gratuidade: comunicação, ciência, educação, cooperação, transporte limpo e público.

O capitalismo moribundo é do excesso material e protéico. Menos soja e menos ferro no mundo é ruim para a Vale e para o Mato Grosso, mas ótimo para a diversidade da Amazônia e para o engarrafamento da Marginal. O crescimento excepcional com o modelo atual em um mundo finito é inviável (as vezes é necessário dizer o óbvio). A crise é da riqueza.

A mudança de paradigma energético chegou com o colapso do sistema. Achávamos que teríamos que criar um novo modelo para fazer uma substituição, mas o colapso veio antes. Um novo paradigma energético, sustentável, se impõe. O momento é de inventar o novo e não gastar as reservas com o velho.

A política de muitos bilhões de dólares para salvar GM esquece que aqueles 47000 trabalhadores são desnecessários lá dentro, mas necessários para um mundo em que a GM não é o centro. Viva as demissões! Cada engenheiro deveria receber dinheiro para criar fora da GM, cada trabalhador para fazer o seu projeto com os amigos. Da GM poderiam sair 500 empresas incubadoras para mudar o mundo. Mas não, Obama erra, apóia a produção do que só alguns podem ter em detrimento do que é universal.

Os demitidos do capitalismo morto não são desempregados, mas emancipados. Evidentemente, na grande mídia, associada ao moribundo, ouviremos a história pessoal de José que trabalhava em uma empresa que fornecia borracha para a GM e agora está sem emprego. Sofremos por 3 segundos!

Ouviremos a história de Antonia que era doméstica na casa de José e foi dispensado. Sofremos por 2 segundos! Seremos bombardeados de narrativas pessoais tentando sustentar o moribundo. E os 700 bi? Porque a GM e não as pessoas, as verdadeiras potências de transformação? Elas não deixaram de ser produtivas porque não tem trabalho, pelo contrário.

Mais vale a empregada doméstica com os filhos ajudando na escola na hora da merenda ou fazendo o bolo dos aniversários do que passando 4 horas por dia em um velho trem com motor alemão. A riqueza que essa mulher gera na sua comunidade não pode ser medida com os mesmos termômetros utilizados pela Toyota e por Obama, e isso é insuportável, eles não entendem, para essa riqueza afetiva e cultural não há dinheiro. O capitalismo está sendo destruído pelas potências humanas, pelo o que podem os homens e as mulheres fora de uma fábrica.

Menos de 0.5% da população americana possui 56,2% dos meios de produção. Para quem estão indo os 700 bi? O José e a Antonia servem para convencer a opinião pública que essa ínfima parte da população deve ser salva pelos governos do mundo. O mesmo vale para Merkel, Zapatero, Sarkozy. José perdeu o emprego porque a apropriação privada que a empresa dele faz da borracha que ela exporta para a GM está morrendo. Mas para garantir esse modelo, Obama tem 700 bi.

A crise é salutar, expõe as entranhas de um mundo inviável e falido. Os valores de uso - simbólicos, imateriais, estéticos,intelectuais, comunicacionais, afetivos e gratuitos - tomam o lugar dos valores materiais - privados, poluentes. O que é material hoje custa pouco. Um celular é quase de graça, um computador custa menos que uma mensalidade escolar. O consumo de cultura nos países ricos supera o consumo material. Segundo Rifkin (A idade do Acesso), em 2050, apenas 5% da população mundial estará envolvida na produção de bens industriais como conhecemos.

No Brasil e nos países com carências básicas, em momento de crise e desemprego se constrói esgoto, no primeiro mundo se faz guerra, se consome balas, se gasta ferro, borracha e petróleo. Os 700 bi do Obama são necessários para o mesmo poder que faz a Guerra na Palestina. Viva o povo da Somália, Viva o Mali.


Cezar Migliorin é professor do departamento de Cinema e Vídeo da Universidade Federal Fluminense.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Lobby de Israel detonou Freeman

Do Vi o Mundo

Lobby de Israel-EUA detonou Freeman, indicado por Obama (e carta de Freeman)

Robert Dreyfuss, 13/3/2009, The Nation


A renúncia de Chas Freeman, do cargo de chefe do Conselho Nacional de Inteligência [National Intelligence Council], depois de duas semanas de ataques violentíssimos contra ele, pelo coro do lobby sionista norte-americano é uma ferida aberta no governo de Obama.

Como escrevi semana passada, quando começou a campanha contra Freeman, se Barack Obama não consegue manter-se em pé à frente de gente como Marty Peretz, Jonathan Chait, Steve Rosen e outros assemelhados, e se a Casa Branca não consegue defender um nome indicado em área crucial da inteligência, quando seu indicado é selvagemente atacado pelos tubarões republicanos que farejaram sangue na água, não sei como esperar que Obama mantenha-se em pé frente a Bibi Netanyahu e Avigdor Lieberman, ainda mais radical, quando discordarem de Obama em assuntos de políticas para o Oriente Médio.

É triste e preocupante.

Espere-se muito júbilo nas páginas de The New Republic, National Review, The Weekly Standard, no canal Fox News, nos corredores do American Enterprise Institute, no AIPAC, em toda a direita e nos blogs dos neocons.

Unidos no esquartejamento de Freeman estiveram (não sejamos hipócritas) os judeus linha-dura do Congresso Democrático, entre os quais o senador Charles Schumer de New York, o deputado Steve Israel (é, o nome dele é "Israel") de New York e, é claro, aquele ex-Democrata, Joe Lieberman – todos na fila do gargarejo para aplaudir o esquartejamento, ao lado do AIPAC.

O The Post, hoje cedo, comentando a oposição ao nome de Freeman manifestada por sete membros Republicanos da Comissão do Senado para Assuntos de Inteligência, citou Freeman, em 2007: "A brutal opressão dos palestinos pela ocupação israelense parece não ter fim. (...) A identificação dos EUA com Israel tornou-se total."

Aparentemente, todos devem saber só disso – e de mais nada.

Há cerca de quatro anos, entrevistei Freeman sobre a desastrosa indicação de Porter Goss para o cargo de diretor da CIA, ali posto pelo ex-presidente Bush como leão de chácara político numa agência da qual se deve esperar que informe ao poder a verdade dos fatos. Goss, Freeman disse-me então, foi mandado a Langley para "impor um modo de ver a CIA que os analistas e agentes da CIA simplesmente rejeitam, por não ter qualquer base na realidade." E Freeman prosseguiu. "É um ditador. Acabaremos por fazer da CIA uma agência ainda mais direitista, ainda mais conservadora e ainda mais incapaz de formar especialistas capazes de ter idéias novas, com competência para discordar e propor soluções originais."

Acho que agora todos estamos vendo que tampouco há lugar, hoje, para quem tenha competência para discordar e propor ideias novas, também na comunidade de inteligência.

No fim da tarde de 3ª-feira, Freeman distribuiu à imprensa a seguinte carta:

"A todos que me apoiaram e dirigiram-me palavras de encorajamento durante a discussão das duas últimas semanas, dedico-lhes minha gratidão e o meu respeito.

Agora, já terão tomado conhecimento, pelo Diretor dos Serviços Nacionais de Inteligência dos EUA, Dennis Blair, que desisti de aceitar o cargo para o qual havia sido indicado e que já aceitara, de chefe do Conselho Nacional de Inteligência dos EUA.

Cheguei à conclusão que a guerra de distorções criminosas sobre eventos do meu passado não cessaria nem depois de eu estar empossado. A decisão de me agredir e destruir minha reputação e credibilidade continuaria, talvez ainda mais feroz. Não me parece que o Conselho Nacional de Inteligência possa funcionar com eficácia, se o titular estiver ininterruptamente sob ataque de gente inescrupulosa, obcecadamente associada às ideias de uma facção política de uma nação estrangeira. Aceitei o convite para chefiar o Conselho Nacional de Inteligência dos EUA para fortalecê-lo e preservá-lo contra a politização, não para pô-lo a serviço de um grupo de interesses, determinado a controlá-lo mediante os recursos e formulações de uma campanha sórdida de difamação.

Como sabem todos os que me conhecem, tenho desfrutado muito bem a vida desde que me aposentei das funções de governo. Nada estava mais longe dos meus planos do que voltar ao serviço público.

Quando o Almirante Blair convidou-me a chefiar o Conselho Nacional de Inteligência, respondi que "entendia que eu estava sendo convidado a oferecer minha liberdade de falar, meu lazer, a maior parte dos meus ganhos, que me teria de submeter à colonoscopia mental de um detector de mentiras, que teria de aceitar voltar a sair para trabalhar horas incontáveis; e que teria de aceitar uma ração diária de desaforos políticos". Acrescentei que, isso dito, provavelmente ainda simplificara muito as dificuldades da missão para a qual estava sendo convidado.

Sei que ninguém é indispensável e não sou exceção. Precisei de semanas de reflexão para concluir que, dadas as circunstâncias sem precedentes, espantosamente difíceis, que nosso país enfrenta em casa e em terras distantes, não me restava alternativa senão aceitar a convocação de voltar ao serviço público. Agora, me retiro novamente de todas as posições e atividades nas quais então me engajei. Considero agora a possibilidade auspiciosa de voltar a vida privada, livre das obrigações que assumira.

Não sou tão pouco modesto a ponto de crer que essa polêmica tenha a ver comigo, mais do que com questões de política pública. Essas questões têm pouco a ver com o Conselho Nacional de Segurança e nada têm a ver com o que supus que pudesse oferecer, como contribuição, à qualidade das análises a serem apresentadas ao presidente Obama e ao seu governo.

Mesmo assim, entristece-me que a polêmica e o modo como o vitríolo usado pelos que se dedicam a manter a polêmica mostrem tão claramente o triste estado em que sobrevive hoje a sociedade civil norte-americana.

É evidente que nós, americanos, já não somos capazes de manter uma discussão pública a sério, nem podemos exercitar qualquer juízo independente sobre temas importantes para nosso país e para nossos aliados e amigos.

As calúnias que se publicaram contra mim e a trilha de e-mails facilmente rastreável mostram conclusivamente que há um poderoso lobby em atividade, determinado a evitar que se ventile qualquer opinião diferente da sua – sobretudo se tiver algo a ver com tendências e eventos no Oriente Médio.

As táticas do lobby de Israel atingem o fundo da falta de decência e de honra, e incluem a tentativa de assassinar minha reputação, citações de frases distorcidas, deliberada fraude em informações sobre meu currículo, mentiras, informações inventadas, em todos os casos sem qualquer respeito à verdade.

O lobby de Israel visa a controlar todo o processo político, mediante o controle do exercício de veto à indicação de servidores do governo dos EUA cujas opiniões não coincidam com os interesses do lobby; a substituir a correção política por opiniões parciais; e a cancelar toda e qualquer possibilidade de os norte-americanos e o governo dos EUA decidirem o que não interesse ao lobby.

Há especial ironia em eu ter sido acusado de manifestar viés de opinião, em relação a opiniões de governos e sociedades estrangeiras, por um grupo tão claramente decidido a impor aos EUA que aceite as políticas de um governo estrangeiro – nesse caso, do governo de Israel.

Creio que a incapacidade do público norte-americano para discutir – e do governo, para considerar – qualquer política alternativa para o Oriente Médio, e que se oponha ao grupo reinante hoje na política de Israel, deixa livre o terreno para que aquele mesmo grupo adote e defenda políticas que, de fato, ameaçam até a existência do Estado de Israel.

É proibido, nos EUA, para seja quem for, declarar isso. E não poder declará-lo não é tragédia apenas para os israelenses e seus vizinhos no Oriente Médio. Esse impedimento causa dano crescente à segurança nacional dos EUA.

A agitação inadmissível que se seguiu ao vazamento da notícia de que eu fora convidado levará a pensar que o governo Obama não consegue tomar decisões autônomas sobre o Oriente Médio e questões correlatas. Lamento que minha disposição de servir ao governo Obama tenha terminado por lançar dúvidas sobre a habilidade do próprio governo dos EUA considerar – e nem falo da capacidade para decidir – as políticas que mais bem atendam aos interesses dos EUA, do que atendam aos interesses de um lobby dedicado a impor aos EUA o desejo e os interesses de um governo estrangeiro.

No julgamento da opinião pública, diferente das cortes legais, o acusado é culpado até que prove a própria inocência. Os meus discursos dos quais se extraíram, distorcidos, os trechos que o lobby israelense fez publicar estão disponíveis para leitura dos que se interessem por conhecer a verdade. A injustiça das acusações feitas contra mim foi óbvia para os que tenham mente aberta. Os que trabalharam para me desmoralizar não estão interessados em qualquer tipo de discussão ou contra-argumentação que eu ou qualquer outro possamos oferecer.

Insisto, para os registros: Jamais procurei ou aceitei pagamento de qualquer governo estrangeiro, incluídos Arábia Saudita ou China, por qualquer tipo de serviço, nem jamais falei em defesa dos interesses de algum governo estrangeiro, em seu nome ou em nome de suas políticas. Jamais servi como lobbyista de qualquer grupo do governo dos EUA, nem em causas externas nem em causas domésticas. Sou homem que se defende só e, voltando agora à vida privada – com muito prazer – volto a ser completamente senhor de mim mesmo. Continuarei a falar como me pareça de deva falar, sobre questões que tenham a ver comigo e com os demais cidadãos dos EUA.

Mantenho integrais respeito e confiança no presidente Obama e no Diretor Blair. Nosso país enfrenta desafios terríveis em casa e em terras distantes. Como todos os norte-americanos patriotas, continuarei a pedir a Deus que nosso presidente consiga nos levar a superar todos esses desafios."

Tradução de Caia Fittipaldi

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Estados Unidos aumentará prisão no Afeganistão

Do Vermelho.org

20 DE FEVEREIRO DE 2009 - 09h38

As forças armadas dos Estados Unidos estão próximas de completar a expansão da prisão da base aérea de Bagram, no Afeganistão, onde estão detidas 600 pessoas, denominadas "combatentes inimigos" pelas tropas de ocupação do país. O custo da expansão é calculado em US$ 60 milhões.


A quase duplicação da prisão ocorre ao mesmo tempo que o secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, prepara uma "redefinição" da posição americana em relação ao uso de Bagram e outras instalações, inclusive o campo de concentração instalado na base ilegal de Guantânamo.


Gates, junto com Eric Holder, o secretário de Justiça dos EUA, foi encarregado de fazer um relatório para determinar o destino dos detidos em instalações americanas.


O presidente americano Barack Obama foi bastante elogiado por ordenar, assim que foi empossado, o fechamento do campo de concentração construído na base americana de Guantânamo, que ocupa ilegalmente o território de Cuba.


Mas com a sua ordem de redirecionar 17 mil militares do Iraque para o Afeganistão, no sentido de reforçar a presença militar no país, a prisão de Bagram parece ser agora mais visível e polêmica.


Rumi Nielson-Green, uma das porta-vozes das forças armadas americanas, disse à rede catariana de televisão al-Jazira que os detidos na prisão de Bagram são "combatentes inimigos fora da lei".


"São indivíduos que foram retirados dos campos de batalha porque são perigosos para nossas forças e nossos parceiros na coalizão", disse ela.


Direitos básicos


A organização Anistia Internacional exigiu que Obama continue rompendo com a "política de detenções ilegais" de seu predecessor, assegurando que "todas as detenções americanas no Afeganistão cumpram com as leis internacionais" e que dê aos detidos acesso aos tribunais americanos para que possam defender-se de suas acusações.


"Uma revisão judicial é uma salvaguarda básica contra abusos e uma proteção contra detenções arbitrárias e secretas, torturas e outros tratamentos nefastos, assim como transferências ilegais de uma país ou governo para outro", insistiu o grupo de defesa dos direitos humanos.


"Na ausência de supervisão judicial, os detidos em Bagram, assim como em Guantânamo, foram submetidos a tais abusos — sendo que até mesmo crianças não foram poupadas", destaca.


A organização afirma que mais de 615 pessoas que estão detidas em Bagram, sem acesso a tribunais ou dispositivos legais, são afeganis e alguns deles estão detidos há anos.


Embora a administração Obama tenha prometido resolver o caso dos pouco mais de 240 detidos em Guantânamo, nada disse sobre o que pretende fazer em Bagram.


John Bates, juiz de uma corte distrital dos EUA que recebeu processos abertos por quatro detidos de Bagram que estão na prisão há anos, deu à administração Obama até esta sexta-feira para "revisar" sua posição sobre o uso da base aérea de Bagram como instalação prisional e se acredita que os detidos ali podem acionar a justiça americana para rever suas prisões.


A administração Bush, anterior a Obama, argumentava que, como "combatentes inimigos", os detidos em Bagram não tinham o direito de acionar a justiça americana, argumento também utilizado em relação aos detidos em Guantânamo.


Mesmo assim, a suprema corte dos EUA determinou, no ano passado, que os prisioneiros de Guantânamo têm o direito de serem julgados pelos tribunais do país, algo que os grupos de direitos humanos querem agora para os detidos da base aérea de Bagram.

domingo, 25 de janeiro de 2009

It really is a new day?


Em Karachi, simpatizantes do partido islâmico Jamaat-e-Islami protestam contra os ataques estadunidenses em região do Paquistão próxima ao Afeganistão, encarados como "primeiro presente" de Obama ao país. Milhares de paquistaneses foram às ruas contra os ataques que mataram 22 pessoas no dia 23/1. Foto: Rehan


Enquanto isso, em Gaza....
Mulher palestina observa a destruição de casas em Jebaliya, no norte da Faixa de Gaza. Organizações internacionais e as Nações Unidas disseram que a prioridade no momento é buscar um acordo que abra Gaza para ações humanitárias e reconstrução da região Anja Niedringhaus/AP


Até aqui, Obama continua errando, no caso de Gaza... [e no Afeganistão]

Robert Fisk: The Independent, UK, 22/1/2009



Teria sido útil se Obama tivesse tido coragem para falar sobre o que todos falam, no Oriente Médio. Não, ninguém no OM fala sobre a retirada dos EUA, do Iraque. Sobre isso, já sabem. Todos esperavam o início do fim de Guantanamo, e a provável nomeação de George Mitchell, como enviado especial ao OM, foi apenas o mínimo que esperavam que acontecesse. Claro, Obama falou de "inocentes massacrados", mas não dos "inocentes massacrados" nos quais os árabes pensam, dia e noite.

Ontem, Obama telefonou a Máhmude Abbas. Talvez suponha que tenha conversado com o líder dos palestinos. Não. Todos os árabes sabem, exceto talvez o próprio Abbas, que Abbas é chefe de um governo fantasma, um já quase cadáver, mantido vivo à custa de transfusões de sangue que lhe chegam como apoio internacional e sob a forma da "parceria plena" que Obama aparentemente lhe ofereceu, e não se sabe o que significaria "plena". E ninguém se surpreendeu com o telefonema protocolar, para os israelenses.

Mas, para o povo do OM, a ausência da palavra "Gaza" – de fato, também da palavra "Israel" – foi como uma sombra tétrica sobre o discurso de posse de Obama. Será que não está preocupado? Está com medo?

Será que o jovem escrevedor de discursos de Obama não sabe que falar sobre direitos dos negros – muitos pais de negros podem não ter trabalhado em restaurantes há 60 anos – só faria chamar a atenção sobre o destino de um povo que só há três anos obteve o direito de votar, mas, então, imediatamente, o mesmo povo passou a ser castigado porque votou no candidato errado? Nem foi o caso do elefante na loja de porcelanas. O problema é a horrível pilha de cadáveres amontoados no chão da loja de porcelanas.

É fácil, sim, ser cínico. A retórica árabe tem alguma semelhança com os clichês de Obama: "trabalho duro e honestidade, coragem e respeito às regras do jogo... lealdade e patriotismo".

Mas por maior que seja a distância que o novo presidente queira interpor entre ele e o governo vicioso que está substituindo, o 11/9 paira como nuvem sobre New York. Obama teve de relembrar "a coragem dos bombeiros que subiram escadas tomadas de fumaça".

De fato, para os árabes, ouvir que "nossa nação está em guerra contra uma distante rede de violência e ódio" foi como ouvir a voz de Bush; a única referência a "terror", a palavra do eterno medo em Bush e nos israelenses, foi preocupante sinal de que a Casa Branca ainda não captou a mensagem. E mais uma vez, agora Obama, falando sobre os grupos islâmicos como se fosse o Taliban quem estivesse "massacrando inocentes" mas "não nos derrotará".

Quanto, no discurso, aos que são corruptos e cuja "silenciosa oposição", presumivelmente o governo iraniano, a maioria dos árabes leu aí referência a práticas habituais do presidente Hosni Mubarak do Egito (o qual, é claro, também recebeu telefonema de Obama, ontem), do rei Abdullah da Arábia Saudita e de outros autocratas e degoladores que se supõe que sejam amigos dos EUA no Oriente Médio.

Hanan Ashrawi[1] foi quem mais acertou. As mudanças no Oriente Médio – justiça para os palestinos; segurança para os palestinos tanto quanto para os israelenses, e fim da construção ilegal de colônias ilegais pra judeus e só judeus, em terra árabe; fim de toda a violência, não só da modalidade 'árabe' – têm de vir logo, "imediatas", como disse ela, já. Se a nomeação do gentil George Mitchell visava a responder a essas exigências, o discurso de posse (no máximo, discurso nota B-), nem isso fez.

A amigável mensagem aos muçulmanos, "um novo caminho, baseado nos interesses mútuos e em mútuo respeito", simplesmente não tomou conhecimento das fotos da chacina de Gaza que o mundo está vendo com vergonha e horror. Sim, os árabes e muitas outras nações muçulmanas e, é claro, quase todo o mundo, podem festejar que o horrendo Bush foi-se. Guantanamo, também, parece estar-se indo. Mas os torturadores que torturaram por ordem de Bush e de Rumsfeld serão punidos? Ou serão silenciosamente promovidos para cargos nos quais não se use água para torturar nem se dispam as pessoas nem se ouçam gemidos humanos?

Sim, sim, dê-se uma chance ao homem. É possível que George Mitchell reúna-se com o Hamás – ele é homem capaz de tentar esse encontro –, mas o que dirão os fracassados de sempre, como Denis Ross e Rahm Emanuel e, de fato, Robert Gates e Hillary Clinton?

O discurso de posse de Obama foi mais sermão que discurso de posse. Até os palestinenses em Damasco ouviram, gritante, a ausência de duas palavras: Palestina e Israel. Palavras escaldantes, num dia gelado em Washington. Obama ainda nem vestiu as luvas.

[1] Sobre ela, ver: Wikipédia Hanan Ashrawi