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domingo, 21 de fevereiro de 2010

O legado da CIA no Irã, Afeganistão e Paquistão

Do blog do Argemiro Ferreira

A imagem do herói no cavalo branco a salvar a mocinha das garras do vilão, seja este assaltante de banco ou índio em defesa de suas terras invadidas, é recorrente na ficção de Hollywood. O deputado Charlie Wilson (o da foto acima, entre os radicais afegãos em 1987) morreu, aos 76 anos, no dia 10 de fevereiro, certo de que era herói na vida real (mais sobre ele AQUI). Motivo: no Congresso injetou bilhões de dólares para financiar os que lutavam contra os russos no Afeganistão.

Ao morrer do coração Wilson já estava aposentado. Mas ele representou o Texas por 14 mandatos sucessivos na Câmara. Um livro (Charlie Wilson’s War – The Extraordinary Story of the Largest Covert Operation in History, de George Crile) e um filme (Charlie Wilson’s War, de Mike Nichols, com Tom Hanks no papel-título) o retrataram como herói.

A semana marcou ainda o 31° aniversário da revolução dos aiatolás do Irã, ocorrida apenas alguns meses antes da invasão do Afeganistão. Os iranianos derrubaram o regime do xá Reza Pahlevi, instalado em 1953 graças a golpe planejado pela mesma CIA que usou as verbas secretas do deputado Wilson para recrutar e armar os radicais islâmicos do lado paquistanês da fronteira com o Afeganistão.

O mínimo que se pode dizer é que no Irã, Afeganistão e Paquistão os EUA colhem hoje o que a CIA plantou com a colaboração de gente como o deputado Wilson (na foto, exibindo uma arma em seu gabinete – e, ao lado, a capa do livro que celebrou a “guerra de Charlie Wilson”). Osama Bin Laden foi treinado pela CIA para atacar os russos; gostou e atacou depois o World Trade Center em Nova York. E as bombas atômicas do Paquistão (real) e do Irã (hipotética) devem-se, ao menos em parte, a igual cortesia da CIA.

Um quarto de século para os donos do petróleo

A lambança atual no Afeganistão (largamente nas mãos dos radicais islâmicos usados pela CIA a partir de 1979), no Paquistão (onde a CIA instalou acampamentos para os ataques aos russos no país vizinho e encorajou o sonho paquistanês da bomba nuclear islâmica) e no Irã (que se nega hoje a abandonar o enriquecimento de urânio) reflete o passado irresponsável da espionagem dos EUA.

No Irã o golpe da CIA instalou o xá (foto ao lado – e mais sobre a trajetória dele AQUI) no lugar do premier nacionalista Mohamed Mossadegh, anulou a nacionalização do petróleo e com faustosa coroação em 1967 impôs a ficção do “trono de 2.500 anos”. As corporações anglo-americanas ganharam mais um quarto de século para explorar o petróleo do Irã, já que para isso a CIA também concebeu a tenebrosa Savak, serviço secreto celebrizado pelas câmaras de tortura.

Ainda naquela década de 1950 o Irã foi premiado pelo governo do presidente Eisenhower com relações muito especiais – que incluiram “acordo de cooperação nuclear para fins pacíficos”, deixando o país com alguma base para, em seguida à revolução dos aiatolás, assustar os EUA com a disposição de ampliar o programa nuclear e rumar para o enriquecimento de urânio.

Para o Irã submisso de Reza Pahlevi, nada era bom demais: além de favorecer o desenvolvimento nuclear, Washington ainda dotou o país de armas sofisticadas e modernizou a máquina da repressão – tudo pago com a receita do petróleo, que regalou nos EUA as indústrias de armas, aeronáutica, nuclear e de segurança. Só que hoje, tomado pelos rebeldes radicalizados nas câmaras de tortura, o Irã é outro.

Helms & Pahlevi: a intimidade promíscua

De tal forma o Irã do xá era criatura da CIA que no final de 1973 o presidente Nixon concluiu que ninguém melhor para ser embaixador em Teerá do que o próprio diretor da central de espionagem, Richard Helms – “dada a intimidade dele com o xá”, explicou (veja-o ao lado na capa da revista Time em 1967). Como se fosse o posto final de uma carreira de sucesso na CIA, dirigida por Helms durante quase sete anos, antes dos três que passou no Irã.

Com a contribuição do deputado Charlie Wilson, anticomunista meio fanático, o capítulo Afeganistão-Paquistão foi ainda mais vivo, excitante e insólito – ou colorful, para usar adjetivo talvez mais apropriado à conduta do parlamentar, um playboy excêntrico que quando não estava “salvando o mundo” da “ameaça vermelha” dedicava-se ao consumo de álcool e drogas com prostitutas de luxo.

Ele ficou obviamente encantado com os relatos do livro e do filme (no cartaz, ao lado, o trio central: Wilson, a namorada e o homem da CIA) que o tornaram celebridade. Seu papel pode ter sido singular pelo conhecimento de sutilezas do processo legislativo na Câmara, onde integrava a comissão de verbas (appropriations) e sua subcomissão sobre operações no exterior – além de cultivar contatos na comissão que supervisiona a espionagem.

Não só estava familiarizado com mecanismos e artifícios para ocultar a destinação de recursos. Também revelara-se mestre na troca de favores com colegas interessados em abocanhar verbas para projetos de seus distritos eleitorais. Certos especialistas acham que hoje teria mais dificuldades: o processo legislativo sofreu reformas depois, reduzindo – em nome da transparência – a prática do sigilo (saiba mais AQUI).

Forçando a URSS a invadir o Afeganistão

O fato é que Wilson começou por canalizar uma verba de US$ 5 milhões para os radicais afegãos. E no fim da década de 1980 aqueles recursos elevavam-se a nada menos de US$ 750 milhões por ano. Pode ter sido ajudado por pertencer ao partido da oposição (democrata) numa década dominada por governos republicanos (Reagan e Bush I) obstinados em estender ainda mais as ações militares dos EUA pelo mundo.

No Afeganistão e Paquistão, sabe-se hoje, a lambança foi bipartidária – devido a armadilha do governo do presidente democrata Jimmy Carter. Seu assessor de segurança nacional na Casa Branca, Zbigniew Brzezinski (a foto ao lado é dos dois), confessaria 20 anos depois ter atraído a URSS para a idéia de invadir o Afeganistão. A invasão veio a 24 de dezembro de 1979, após seis meses de ajuda crescente da CIA aos rebeldes radicais.

Em entrevista à Nouvel Observateur de Paris em 1998 (leia AQUI), Brzezinski vangloriou-se de seu papel: “Carter assinou a 3 de julho de 1979 a primeira diretiva (à CIA) para a ajuda secreta aos opositores do regime pro-soviético de Kabul. Naquele dia eu tinha enviado nota ao presidente na qual expliquei que, na minha opinião, tal ajuda americana iria levar a uma intervenção militar soviética”.

Quando o jornalista perguntou se a ação clandestina dos EUA tivera a intenção de provocar a invasão russa, Brzezinski amenizou: “Não provocamos os russos para que invadissem, mas ampliamos conscientemente a probabilidade de que isso viesse a ocorrer”. No dia em que os russos cruzaram a fronteira, disse, escreveu de novo a Carter: “Agora temos a oportunidade de dar aos soviéticos o Vietnã deles”.

Brzezinski contestou, assim, a tese republicana que atribui a Reagan a glória pelo fim da URSS. “Durante quase 10 anos a URSS amargou guerra insuportável – um conflito que trouxe a desmoralização e, afinal, a dissolução do império soviético”, alegou. Mas o exagero é comparável ao do mérito republicano. O desfecho, após meio século, deveu-se aos dois partidos e muita gente mais – inclusive os que erraram tanto na URSS.

De “combatentes da liberdade” a “terroristas”

As avaliações atuais tentam ignorar os efeitos negativos das ações da espionagem. Ao financiar, treinar e armar (até com mísseis Stinger, capazes de destruir aviões em vôo) os radicais que batizou de “combatentes da liberdade” a CIA extremou as ambições deles. Hoje ela os repudia como “terroristas”, indiferente ao fato de que são os mesmos – e aprenderam o que sabem na CIA, em especial a pensar o impensável, como atacar o coração do império americano.

Com os russos fora do Afeganistão os EUA deixaram o país para os radicais que a CIA diplomou em terrorismo. Com armas como o Stinger, os talibãs tomaram o poder e ficaram até 2001 (hoje lutam contra tropas da OTAN). Bin Laden, saudita de nascimento, ainda dirige de lá a al-Qaeda, que opera no mundo a partir do território afegão. A CIA ainda tenta “recomprar” Stinger mas nem sabe quantos distribuiu – a estimativa vai de 500 a 2.000.

O deputado Wilson, ao invés de herói, foi cúmplice das trapalhadas. Livro e filme dizem que agia com assistência da CIA. A culpa dos EUA e sua agência ia mais longe na relação promíscua com o general-ditador paquistanês Zia-ul-Haq, que em troca do apoio à operação na fronteira afegã obteve luz verde e deu carta branca ao construtor da bomba atômica islâmica, o cientista Abdul Qadeer Khan.

No desdobramento, a receita da bomba-A do Paquistão (saiba mais sobre ela AQUI) foi parar no Irã, Coréia do Norte, Líbia e talvez outros. Assim, além de fazer a “guerra (sem fronteiras) ao terrorismo” e lutar no Afeganistão contra os que antes chamava de “combatentes da liberdade”, os EUA hoje têm de vigiar o Dr. Khan, o serviço secreto (ISI) do Paquistão, os progressos nucleares do Irã e da Coréia do Norte e sabe-se-lá-mais-o-que.

A própria CIA adotou a expressão blowback para designar os efeitos opostos ao que pretendia em cada uma de suas operações clandestinas. A palavra (usada no título do livro da capa ao lado, no qual Chalmers Johnson analisou os custos e consequências do império americano) apareceu pela primeira vez em relatório secreto de 1954 sobre o golpe da CIA no Irã (leia explicação do autor AQUI). O blowback da derrubada de Mossadegh foi a tirania de 25 anos e a revolução (antiamericana) dos aiatolás. Já em relação ao Afeganistão, os ataques do 11/9 nos EUA tendem a ficar na história como o efeito mais devastador.

(Clique abaixo para saber mais sobre o Irã desde o golpe de 1953)



terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Os desafios de Obama Iraque, Paquistão, Afeganistão


(Noam Chomsky)

As guerras e conflitos militares no Iraque, Afeganistão, Paquistão, Oriente Médio e África farão parte da pauta de debates do Fórum Social Mundial. Em artigo, Noam Chomsky* analisa um dos atores centrais destes conflitos, os Estados Unidos. Ao comentar o futuro da política externa de Washington, ele lança uma interrogação: "A boa vontade de Barack Obama para "falar com o inimigo" foi um dos temas que definiu sua campanha à presidência. Pode Obama estar à altura dessa promessa?"

A diplomacia é a única alternativa sã ao ciclo de violência desde o Oriente Médio até a Ásia Central, que ameaça devorar o mundo. Um corolário é reconhecer que a violência só engendra violência. Também ajudaria se a administração de Obama e o Ocidente enfrentassem tópicos que impulsionam a política na região.

Iraque
O governo do Iraque forjou um Acordo sobre o Status das Forças de Ocupação que Washington aceitou com resistência. O acordo tem como objetivo terminar com a presença militar dos Estados Unidos na nação árabe. O acordo é o último passo no processo de resistência massiva não-violenta que obrigou Washington, passo a passo, a aceitar as eleições e o aumento da independência do país ocupado.

Um porta-voz iraquiano disse que o acordo tentado “se ajusta à visão do presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama”. A “visão” de Obama não está claramente definida, mas ele provavelmente aceitará, de alguma maneira, as demandas do governo iraquiano. Se é assim, isso exigirá reformas nos planos dos Estados Unidos de assegurar o controle sobre as enormes reservas de petróleo do Iraque, enquanto estabelece as bases para reforçar seu domínio na mais importante região de produção de energia do mundo.

É bom assinalar que pesquisas recentes em nível mundial mostram uma forte oposição à existência de bases navais dos Estados Unidos no Golfo Pérsico. A oposição é muito forte dentro da região.
A perspectiva de trasladar as forças do Iraque para o Afeganistão fez com que o The Washington Post assinalasse num editorial: “Mesmo que os Estados Unidos tenham interesse em evitar o ressurgimento do talibã afegão, a importância estratégica do país empalidece diante da do Iraque, que repousa no centro político do Oriente Médio e contém algumas das maiores reservas de petróleo do mundo”. Este é um reconhecimento da realidade. Os pretextos sobre a segurança e a promoção da democracia não podem seguir ocultando as reais intenções e interesses.

O comando da Otan também está começando a reconhecer os temas cruciais da energia. Em junho de 2007, o secretário geral da Organização do Atlântico Norte, Jaap de Hoop Scheffer, informou que “as tropas da Otan têm de cuidar dos oleodutos que transportam petróleo e gás até o Ocidente”. Também necessitam proteger as rotas marítimas usadas pelos petroleiros e outra “crucial” infraestrutura do sistema energético, disse o funcionário da Otan.

A tarefa poderia incluir o oleoduto projetado Tapi, que será construído a um custo de 7,6 bilhões de dólares e enviaria gás natural do Turcomenistão até o Paquistão e Índia, atravessando a província de Kandahar, no Afeganistão, onde estão situadas as tropas canadenses.

O objetivo é “bloquear um oleoduto competitivo que traria gás até o Paquistão e a Índia, a partir do Irã” e “diminuir o domínio da Rússia sobre as exportações de energia da Ásia Central”, informou The (Toronto) Globe and Mail, esboçando de uma maneira verossímel alguns dos contornos do novo “Grande Jogo” (quando Grã Bretanha e Rússia competiam pela influência na Ásia Central durante o século 19).

Paquistão
Obama respaldou a política de George W. Bush de atacar supostos líderes da Al Qaeda em países que os EUA ainda não tinha invadido. Em particular, não criticou as incursões de aviões Predator guiados por controle remoto que têm matado muitos civis no Paquistão.

Neste momento se está levando a cabo uma impiedosa miniguerra numa área tribal de Bajaur, no Paquistão, próxima à fronteira com o Afeganistão. A BBC descreve uma conseqüente destruição por causa dos combates. “Muitos em Bajaur consideraram que as origens do levante provêm de um suposto ataque de mísseis norteamericanos contra um seminário islâmico, ou medrassa, em novembro de 2006, que matou em torno de 80 pessoas”.

O ataque foi denunciado na imprensa do Paquistão pelo respeitado físico dissidente paquistanês Pervez Hoodbhoy, mas ignorado nos EUA. As coisas parecem diferentes quando apertam do outro lado do garrote.

Hoodbhoy assinalou que o resultado usual desses tipos de ataques “tem sido casas arrasadas, crianças mortas e mutiladas, e uma crescente população local que busca vingança contra o Paquistão e os EUA”.

Bajaur permite ilustrar o círculo vicioso de ataques e represálias com que Obama não parece desejar romper.

Em 3 de novembro o general David Petraeus, recentemente designado chefe do comando central das forças armadas dos EUA que cobre o Oriente Médio teve sua primeira reunião com o presidente paquistanês Asif Ali Zardari, com o chefe do exército general Ashfaq Parvez Kayani, e com outros funcionários.

A preocupação principal dos funcionários paquistaneses foi “os contínuos ataques com aviões manejados por controles remotos em nosso território, que causam a perda de vidas preciosas e de propriedades, são contraproducentes e difíceis de explicar por parte de um governo eleito de maneira democrática”, disse Zardaria a Petraeus. O governo de Islamabad, disse Zardari, está “sendo pressionado para reagir com mais agressividade” frente aos ataques. Isto poderia conduzir a uma “repercussão negativa contra os EUA”, que já é profundamente impopular no Paquistão.

Petraeus disse que tinha escutado a mensagem e que “nós temos de tomar medidas que a levem em conta (a opinião paquistanesa)” quando os ataques forem lançados. Trata-se de um requisito prático, sem dúvida alguma, se leva-se em conta que mais de 80% das provisões para a guerra que os EUA e a Otan dirigem no Afeganistão passa pelo Paquistão.

O modo como a opinião paquistanesa foi “levada em conta” só foi revelado duas semanas mais tarde, no The Washington Post. O diário informou que os EUA e o Paquistão chegaram a um “acordo tácito em setembro (de 2008) sobre uma política de não perguntar nem dizer. Isso permite atacar objetivos de supostos terroristas” no Paquistão com o avião Predator, disseram os funcionários de ambos os países que pediram para não serem identificados. “Os funcionários descreveram o acordo no qual o governo dos EUA se nega a reconhecer publicamente os ataques, enquanto o governo do Paquistão continua deles se queixando ruidosamente”, já que acarretam riscos de instabilidade interna.

Um dia antes de ser publicado o informe sobre o “acordo tácito”, um ataque suicida na conflitiva zona tribal próxima da fronteira com o Afeganistão matou 8 soldados paquistaneses. Isso em represália ao ataque de um Predator no qual 20 pessoas morreram, entre elas dois líderes do Talibã. O parlamento paquistanês exigiu que se iniciasse um diálogo com o Talibã. Ecoando essa resolução, o ministro do Exterior do Paquistão, Shah Mehmood Qureshi disse: “Há uma compreensão cada vez maior de que o uso exclusivo da força não pode produzir os resultados desejados”.

Afeganistão
A primeira mensagem do presidente afegão Hamid Karzai ao presidente eleito Obama foi muito similar à que os líderes paquistaneses formularam a Petraeus: “Acabar com os bombardeios aéreos dos Estados Unidos que provocam baixas entre os civis”. Sua mensagem foi enivada pouco depois de as tropas da coalizão bombardearem uma festa de casamento na província de Kandahar, matando 40 pessoas, segundo informes da imprensa. Não há indicações de que a opinião dos afegãos “tenha sido levada em conta”.

O comando britânico tinha advertido que não há uma solução militar para o conflito no Afeganistão. Segundo o The Financial Times, o comando militar disse que é preciso entabular as negociações com o Talibã. Isso pode levar a um desacordo entre Grã Bretanha e EUA.
Os temas já estão sobre a mesa, escreve Jason Burke, um correspondente do The Observer com vasta experiência na região: “O talibã tem estado envolvido em conversações secretas sobre o fim do conflito no Afeganistão e num 'processo de paz' de largo alcance patrocinado pela Arábia Saudita e apoiado pela Grã Bretanha”.

Alguns militantes pacifistas afegãos levantaram suas reservas em relação a esse enfoque. Preferem uma solução sem interferência externa. Uma rede crescente de ativistas pela paz está convocando negociações e a reconciliação com o Talibã na Jirga Nacional da Paz, uma grande assembléia de afegãos, formada em maio de 2008.

Numa reunião em maio em apoio a Jirga, 3 mil políticos e intelectuais afegãos, principalmente entre os pashtuns, o maior grupo étnico, criticaram “a campanha militar internacional contra os militantes islâmicos no Afeganistão e convocou ao diálogo para terminar a luta”, informou a agência France Press.

Bakhtar Aminzai, presidente interino da Jirga Nacional da Paz, “disse na reunião de abertura que o conflito atual não pode ser resolvido por meios militares e que somente as conversações trariam uma solução”.

Um líder do Despertar da Juventude, um proeminente grupo afegão que se opõe à guerra, disse que “nós devemos terminar o 'afeganicídio', o assassinato do Afeganistão”.

Uma sondagem num Afeganistão destroçado pela guerra é difícil de fazer, mas os resultados merecem ser levados em conta. Uma pesquisa feita por canadenses apurou que os afegãos são favoráveis à presença de soldados canadenses e de outros países (resultado que ocupou o título de primeira página, no Canadá). Outros achados devem se examinados com minúcia.

Só 20% dos afegãos entrevistados “pensam que o Talibã prevalecerá uma vez as tropas estrangeiras se retirem”. Três quartos apoiam as negociações entre o governo de Karzai e o Talibã. E mais da metade são a favor de um governo de coalizão. Por conseguinte, a imensa maioria tem uma posição discrepante do enfoque dos EUA e da OTAN, para militarizar ainda mais o conflito, e parece crer que a paz é possível se houver negociações.

Um estudo sobre os milicianos talibãs realizado pelo periódico canadense The Globe and Mail, ainda que não seja uma pesquisa científica, como assinala o periódico, oferece contudo dados consideráveis. Todos eles são afegãos pashtuns, da área de Kandahar. Consideram-se “mujahedins”, guerreiros santos, e seguem a antiga tradição de expulsar os invasores. Quase um terço informou que ao menos um membro de sua família tinha morrido em bombardeios aéreos em anos recentes. Muitos disseram que combatiam para defender aldeias afegãs dos ataques aéreos das tropas invasoras. Poucos afirmaram estar lutando numa guerra santa global, ou serem leais ao líder talibã Mullah Omar. A maioria disse que combatia por defenderem o estabelecimento de um governo islãmico, não por um líder.

Novamente esses resultados sugerem possibilidades de um acordo negociado de paz, sem interferência externa.
Na revista Foreign Affairs, Barnett Rubin e Ahmed Rashid recomendam que a estratégia dos Estados Unidos na região se desloque de mais tropas e ataques no Paquistão para uma “grande convenção diplomática forjando um compromisso com os insurgentes e encarando um arranjo das rivalidades e inseguranças regionais”.
O foco atual na ação militar “e o terrorismo subseqüente”, advertem, poderia conduzir ao colapso do Paquistão, um país com armas nucleares – com sequelas de graves conseqüências. Esses autores recomendam ao futuro governo dos Estados Unidos “pôr fim à dinâmica cada vez mais destrutiva do Grande Jogo na região”. Isso se pode conseguir através de negociações que reconheçam os interesses das partes envolvidas dentro do Afeganistão, bem como do Paquistão e Irã, mas também da Índia, China e Rússia que “tem reservas a respeito de uma base da OTAN dentro de suas esferas de influência” e estão preocupados com as ameaças “levantadas pelos Estados Unidos e OTAN” como também pela Al Qaeda e o Talibã.

O próximo presidente dos Estados Unidos, escrevem Rubin e Rashid, deve terminar com a "busca da vitória" de Washington como solução para todos os problemas, e com a renúncia dos Estados Unidos a envolver a diplomacia com competidores, opositores e inimigos”.

Em data próxima, a administração Obama poderia atuar para romper esse calamitoso ciclo de violência, em qualquer dessas regiões.

* Noam Chomsky, 80 é linguista estadunidense, professor emérito do Massachussets Institute of Technology e ativista de esquerda, sem partido; texto publicado no SinPermiso, dia 18, e tomado da http://www.cartamaior.com.br

domingo, 25 de janeiro de 2009

It really is a new day?


Em Karachi, simpatizantes do partido islâmico Jamaat-e-Islami protestam contra os ataques estadunidenses em região do Paquistão próxima ao Afeganistão, encarados como "primeiro presente" de Obama ao país. Milhares de paquistaneses foram às ruas contra os ataques que mataram 22 pessoas no dia 23/1. Foto: Rehan


Enquanto isso, em Gaza....
Mulher palestina observa a destruição de casas em Jebaliya, no norte da Faixa de Gaza. Organizações internacionais e as Nações Unidas disseram que a prioridade no momento é buscar um acordo que abra Gaza para ações humanitárias e reconstrução da região Anja Niedringhaus/AP


Até aqui, Obama continua errando, no caso de Gaza... [e no Afeganistão]

Robert Fisk: The Independent, UK, 22/1/2009



Teria sido útil se Obama tivesse tido coragem para falar sobre o que todos falam, no Oriente Médio. Não, ninguém no OM fala sobre a retirada dos EUA, do Iraque. Sobre isso, já sabem. Todos esperavam o início do fim de Guantanamo, e a provável nomeação de George Mitchell, como enviado especial ao OM, foi apenas o mínimo que esperavam que acontecesse. Claro, Obama falou de "inocentes massacrados", mas não dos "inocentes massacrados" nos quais os árabes pensam, dia e noite.

Ontem, Obama telefonou a Máhmude Abbas. Talvez suponha que tenha conversado com o líder dos palestinos. Não. Todos os árabes sabem, exceto talvez o próprio Abbas, que Abbas é chefe de um governo fantasma, um já quase cadáver, mantido vivo à custa de transfusões de sangue que lhe chegam como apoio internacional e sob a forma da "parceria plena" que Obama aparentemente lhe ofereceu, e não se sabe o que significaria "plena". E ninguém se surpreendeu com o telefonema protocolar, para os israelenses.

Mas, para o povo do OM, a ausência da palavra "Gaza" – de fato, também da palavra "Israel" – foi como uma sombra tétrica sobre o discurso de posse de Obama. Será que não está preocupado? Está com medo?

Será que o jovem escrevedor de discursos de Obama não sabe que falar sobre direitos dos negros – muitos pais de negros podem não ter trabalhado em restaurantes há 60 anos – só faria chamar a atenção sobre o destino de um povo que só há três anos obteve o direito de votar, mas, então, imediatamente, o mesmo povo passou a ser castigado porque votou no candidato errado? Nem foi o caso do elefante na loja de porcelanas. O problema é a horrível pilha de cadáveres amontoados no chão da loja de porcelanas.

É fácil, sim, ser cínico. A retórica árabe tem alguma semelhança com os clichês de Obama: "trabalho duro e honestidade, coragem e respeito às regras do jogo... lealdade e patriotismo".

Mas por maior que seja a distância que o novo presidente queira interpor entre ele e o governo vicioso que está substituindo, o 11/9 paira como nuvem sobre New York. Obama teve de relembrar "a coragem dos bombeiros que subiram escadas tomadas de fumaça".

De fato, para os árabes, ouvir que "nossa nação está em guerra contra uma distante rede de violência e ódio" foi como ouvir a voz de Bush; a única referência a "terror", a palavra do eterno medo em Bush e nos israelenses, foi preocupante sinal de que a Casa Branca ainda não captou a mensagem. E mais uma vez, agora Obama, falando sobre os grupos islâmicos como se fosse o Taliban quem estivesse "massacrando inocentes" mas "não nos derrotará".

Quanto, no discurso, aos que são corruptos e cuja "silenciosa oposição", presumivelmente o governo iraniano, a maioria dos árabes leu aí referência a práticas habituais do presidente Hosni Mubarak do Egito (o qual, é claro, também recebeu telefonema de Obama, ontem), do rei Abdullah da Arábia Saudita e de outros autocratas e degoladores que se supõe que sejam amigos dos EUA no Oriente Médio.

Hanan Ashrawi[1] foi quem mais acertou. As mudanças no Oriente Médio – justiça para os palestinos; segurança para os palestinos tanto quanto para os israelenses, e fim da construção ilegal de colônias ilegais pra judeus e só judeus, em terra árabe; fim de toda a violência, não só da modalidade 'árabe' – têm de vir logo, "imediatas", como disse ela, já. Se a nomeação do gentil George Mitchell visava a responder a essas exigências, o discurso de posse (no máximo, discurso nota B-), nem isso fez.

A amigável mensagem aos muçulmanos, "um novo caminho, baseado nos interesses mútuos e em mútuo respeito", simplesmente não tomou conhecimento das fotos da chacina de Gaza que o mundo está vendo com vergonha e horror. Sim, os árabes e muitas outras nações muçulmanas e, é claro, quase todo o mundo, podem festejar que o horrendo Bush foi-se. Guantanamo, também, parece estar-se indo. Mas os torturadores que torturaram por ordem de Bush e de Rumsfeld serão punidos? Ou serão silenciosamente promovidos para cargos nos quais não se use água para torturar nem se dispam as pessoas nem se ouçam gemidos humanos?

Sim, sim, dê-se uma chance ao homem. É possível que George Mitchell reúna-se com o Hamás – ele é homem capaz de tentar esse encontro –, mas o que dirão os fracassados de sempre, como Denis Ross e Rahm Emanuel e, de fato, Robert Gates e Hillary Clinton?

O discurso de posse de Obama foi mais sermão que discurso de posse. Até os palestinenses em Damasco ouviram, gritante, a ausência de duas palavras: Palestina e Israel. Palavras escaldantes, num dia gelado em Washington. Obama ainda nem vestiu as luvas.

[1] Sobre ela, ver: Wikipédia Hanan Ashrawi