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domingo, 21 de fevereiro de 2010

O legado da CIA no Irã, Afeganistão e Paquistão

Do blog do Argemiro Ferreira

A imagem do herói no cavalo branco a salvar a mocinha das garras do vilão, seja este assaltante de banco ou índio em defesa de suas terras invadidas, é recorrente na ficção de Hollywood. O deputado Charlie Wilson (o da foto acima, entre os radicais afegãos em 1987) morreu, aos 76 anos, no dia 10 de fevereiro, certo de que era herói na vida real (mais sobre ele AQUI). Motivo: no Congresso injetou bilhões de dólares para financiar os que lutavam contra os russos no Afeganistão.

Ao morrer do coração Wilson já estava aposentado. Mas ele representou o Texas por 14 mandatos sucessivos na Câmara. Um livro (Charlie Wilson’s War – The Extraordinary Story of the Largest Covert Operation in History, de George Crile) e um filme (Charlie Wilson’s War, de Mike Nichols, com Tom Hanks no papel-título) o retrataram como herói.

A semana marcou ainda o 31° aniversário da revolução dos aiatolás do Irã, ocorrida apenas alguns meses antes da invasão do Afeganistão. Os iranianos derrubaram o regime do xá Reza Pahlevi, instalado em 1953 graças a golpe planejado pela mesma CIA que usou as verbas secretas do deputado Wilson para recrutar e armar os radicais islâmicos do lado paquistanês da fronteira com o Afeganistão.

O mínimo que se pode dizer é que no Irã, Afeganistão e Paquistão os EUA colhem hoje o que a CIA plantou com a colaboração de gente como o deputado Wilson (na foto, exibindo uma arma em seu gabinete – e, ao lado, a capa do livro que celebrou a “guerra de Charlie Wilson”). Osama Bin Laden foi treinado pela CIA para atacar os russos; gostou e atacou depois o World Trade Center em Nova York. E as bombas atômicas do Paquistão (real) e do Irã (hipotética) devem-se, ao menos em parte, a igual cortesia da CIA.

Um quarto de século para os donos do petróleo

A lambança atual no Afeganistão (largamente nas mãos dos radicais islâmicos usados pela CIA a partir de 1979), no Paquistão (onde a CIA instalou acampamentos para os ataques aos russos no país vizinho e encorajou o sonho paquistanês da bomba nuclear islâmica) e no Irã (que se nega hoje a abandonar o enriquecimento de urânio) reflete o passado irresponsável da espionagem dos EUA.

No Irã o golpe da CIA instalou o xá (foto ao lado – e mais sobre a trajetória dele AQUI) no lugar do premier nacionalista Mohamed Mossadegh, anulou a nacionalização do petróleo e com faustosa coroação em 1967 impôs a ficção do “trono de 2.500 anos”. As corporações anglo-americanas ganharam mais um quarto de século para explorar o petróleo do Irã, já que para isso a CIA também concebeu a tenebrosa Savak, serviço secreto celebrizado pelas câmaras de tortura.

Ainda naquela década de 1950 o Irã foi premiado pelo governo do presidente Eisenhower com relações muito especiais – que incluiram “acordo de cooperação nuclear para fins pacíficos”, deixando o país com alguma base para, em seguida à revolução dos aiatolás, assustar os EUA com a disposição de ampliar o programa nuclear e rumar para o enriquecimento de urânio.

Para o Irã submisso de Reza Pahlevi, nada era bom demais: além de favorecer o desenvolvimento nuclear, Washington ainda dotou o país de armas sofisticadas e modernizou a máquina da repressão – tudo pago com a receita do petróleo, que regalou nos EUA as indústrias de armas, aeronáutica, nuclear e de segurança. Só que hoje, tomado pelos rebeldes radicalizados nas câmaras de tortura, o Irã é outro.

Helms & Pahlevi: a intimidade promíscua

De tal forma o Irã do xá era criatura da CIA que no final de 1973 o presidente Nixon concluiu que ninguém melhor para ser embaixador em Teerá do que o próprio diretor da central de espionagem, Richard Helms – “dada a intimidade dele com o xá”, explicou (veja-o ao lado na capa da revista Time em 1967). Como se fosse o posto final de uma carreira de sucesso na CIA, dirigida por Helms durante quase sete anos, antes dos três que passou no Irã.

Com a contribuição do deputado Charlie Wilson, anticomunista meio fanático, o capítulo Afeganistão-Paquistão foi ainda mais vivo, excitante e insólito – ou colorful, para usar adjetivo talvez mais apropriado à conduta do parlamentar, um playboy excêntrico que quando não estava “salvando o mundo” da “ameaça vermelha” dedicava-se ao consumo de álcool e drogas com prostitutas de luxo.

Ele ficou obviamente encantado com os relatos do livro e do filme (no cartaz, ao lado, o trio central: Wilson, a namorada e o homem da CIA) que o tornaram celebridade. Seu papel pode ter sido singular pelo conhecimento de sutilezas do processo legislativo na Câmara, onde integrava a comissão de verbas (appropriations) e sua subcomissão sobre operações no exterior – além de cultivar contatos na comissão que supervisiona a espionagem.

Não só estava familiarizado com mecanismos e artifícios para ocultar a destinação de recursos. Também revelara-se mestre na troca de favores com colegas interessados em abocanhar verbas para projetos de seus distritos eleitorais. Certos especialistas acham que hoje teria mais dificuldades: o processo legislativo sofreu reformas depois, reduzindo – em nome da transparência – a prática do sigilo (saiba mais AQUI).

Forçando a URSS a invadir o Afeganistão

O fato é que Wilson começou por canalizar uma verba de US$ 5 milhões para os radicais afegãos. E no fim da década de 1980 aqueles recursos elevavam-se a nada menos de US$ 750 milhões por ano. Pode ter sido ajudado por pertencer ao partido da oposição (democrata) numa década dominada por governos republicanos (Reagan e Bush I) obstinados em estender ainda mais as ações militares dos EUA pelo mundo.

No Afeganistão e Paquistão, sabe-se hoje, a lambança foi bipartidária – devido a armadilha do governo do presidente democrata Jimmy Carter. Seu assessor de segurança nacional na Casa Branca, Zbigniew Brzezinski (a foto ao lado é dos dois), confessaria 20 anos depois ter atraído a URSS para a idéia de invadir o Afeganistão. A invasão veio a 24 de dezembro de 1979, após seis meses de ajuda crescente da CIA aos rebeldes radicais.

Em entrevista à Nouvel Observateur de Paris em 1998 (leia AQUI), Brzezinski vangloriou-se de seu papel: “Carter assinou a 3 de julho de 1979 a primeira diretiva (à CIA) para a ajuda secreta aos opositores do regime pro-soviético de Kabul. Naquele dia eu tinha enviado nota ao presidente na qual expliquei que, na minha opinião, tal ajuda americana iria levar a uma intervenção militar soviética”.

Quando o jornalista perguntou se a ação clandestina dos EUA tivera a intenção de provocar a invasão russa, Brzezinski amenizou: “Não provocamos os russos para que invadissem, mas ampliamos conscientemente a probabilidade de que isso viesse a ocorrer”. No dia em que os russos cruzaram a fronteira, disse, escreveu de novo a Carter: “Agora temos a oportunidade de dar aos soviéticos o Vietnã deles”.

Brzezinski contestou, assim, a tese republicana que atribui a Reagan a glória pelo fim da URSS. “Durante quase 10 anos a URSS amargou guerra insuportável – um conflito que trouxe a desmoralização e, afinal, a dissolução do império soviético”, alegou. Mas o exagero é comparável ao do mérito republicano. O desfecho, após meio século, deveu-se aos dois partidos e muita gente mais – inclusive os que erraram tanto na URSS.

De “combatentes da liberdade” a “terroristas”

As avaliações atuais tentam ignorar os efeitos negativos das ações da espionagem. Ao financiar, treinar e armar (até com mísseis Stinger, capazes de destruir aviões em vôo) os radicais que batizou de “combatentes da liberdade” a CIA extremou as ambições deles. Hoje ela os repudia como “terroristas”, indiferente ao fato de que são os mesmos – e aprenderam o que sabem na CIA, em especial a pensar o impensável, como atacar o coração do império americano.

Com os russos fora do Afeganistão os EUA deixaram o país para os radicais que a CIA diplomou em terrorismo. Com armas como o Stinger, os talibãs tomaram o poder e ficaram até 2001 (hoje lutam contra tropas da OTAN). Bin Laden, saudita de nascimento, ainda dirige de lá a al-Qaeda, que opera no mundo a partir do território afegão. A CIA ainda tenta “recomprar” Stinger mas nem sabe quantos distribuiu – a estimativa vai de 500 a 2.000.

O deputado Wilson, ao invés de herói, foi cúmplice das trapalhadas. Livro e filme dizem que agia com assistência da CIA. A culpa dos EUA e sua agência ia mais longe na relação promíscua com o general-ditador paquistanês Zia-ul-Haq, que em troca do apoio à operação na fronteira afegã obteve luz verde e deu carta branca ao construtor da bomba atômica islâmica, o cientista Abdul Qadeer Khan.

No desdobramento, a receita da bomba-A do Paquistão (saiba mais sobre ela AQUI) foi parar no Irã, Coréia do Norte, Líbia e talvez outros. Assim, além de fazer a “guerra (sem fronteiras) ao terrorismo” e lutar no Afeganistão contra os que antes chamava de “combatentes da liberdade”, os EUA hoje têm de vigiar o Dr. Khan, o serviço secreto (ISI) do Paquistão, os progressos nucleares do Irã e da Coréia do Norte e sabe-se-lá-mais-o-que.

A própria CIA adotou a expressão blowback para designar os efeitos opostos ao que pretendia em cada uma de suas operações clandestinas. A palavra (usada no título do livro da capa ao lado, no qual Chalmers Johnson analisou os custos e consequências do império americano) apareceu pela primeira vez em relatório secreto de 1954 sobre o golpe da CIA no Irã (leia explicação do autor AQUI). O blowback da derrubada de Mossadegh foi a tirania de 25 anos e a revolução (antiamericana) dos aiatolás. Já em relação ao Afeganistão, os ataques do 11/9 nos EUA tendem a ficar na história como o efeito mais devastador.

(Clique abaixo para saber mais sobre o Irã desde o golpe de 1953)



terça-feira, 3 de março de 2009

O Afeganistão pelo olhar do escritor Khaled Hosseini

Hosseini, das pipas às burcas

Por Antonio Gonçalves Filho publicado em O Estado de São Paulo, Sábado, 25 de Agosto de 2007

Autor de O Caçador de Pipas fala do livro A Cidade do Sol, sobre a opressão da mulher no Afeganistão


Lançado há pouco mais de duas semanas no Brasil, o segundo livro do médico e escritor afegão Khaled Hosseini, A Cidade do Sol, já chegou ao primeiro lugar na lista dos mais vendidos, repetindo o êxito de seu livro de estréia, O Caçador de Pipas, que vendeu 8 milhões de exemplares em todo o mundo (mais de 1 milhão só no Brasil). Assim como O Caçador de Pipas, cuja versão cinematográfica estréia em novembro nos EUA - e em janeiro, no Brasil -, A Cidade do Sol já teve os direitos vendidos para o cinema e deve estrear em 2009. Hosseini, que concedeu, por telefone, da Califórnia, uma entrevista ao Estado, está, obviamente, muito feliz com a repercussão dos dois livros. Mais ainda por considerar que tanto um como outro estão ajudando o mundo a entender um pouco da cultura do Afeganistão, vítima, diz ele, da miopia ocidental que confunde seu país com a doutrina do Taleban.

Khaled Hosseini defende que não se pode ignorar o conflito entre a Cabul liberal e reformista e as forças mais reacionárias do Afeganistão rural, em especial as regiões que fazem fronteira com o Paquistão, onde as mulheres sofrem a perda da autonomia e ainda são submetidas à opressão masculina, bem anterior à emergência do regime Taleban em seu país (em 1996). A Cidade do Sol, aliás, dedica-se a explorar esse abismo ideológico que existe entre a realidade tribal e patriarcal do Afeganistão e o mundo moderno. Ao eleger como heroínas mulheres maltratadas por um mesmo homem, um sapateiro rude de nome Rashid, Hosseini presta homenagem a todas as mulheres humilhadas e ofendidas em nome de uma tradição canhestra. ''''A história só tomou forma depois de uma viagem a Cabul, em 2003, onde ouvi o relato de uma mulher espancada na rua por um taleban'''', conta.

Quando O Caçador de Pipas foi publicado, muitos leitores que nada sabiam do Afeganistão ficaram tão emocionados com a história que lhe escreveram perguntando como podiam ajudar seu país. O que aconteceu com o lançamento de A Cidade do Sol? Você acredita que seus livros possam ajudar as pessoas no Ocidente a se livrar da visão estereotipada que elas têm dos afegãos?

Imediatamente após o lançamento de O Caçador de Pipas passei a receber uma média de 16 mensagens diárias pelo correio eletrônico, a maioria delas escrita por pessoas que tinham pouca ou nenhuma informação sobre o Afeganistão além de que foi um país invadido primeiro pelos soviéticos e, depois, pelos americanos. Grande parte dessas mensagens, curiosamente, vinha de crianças ou de mulheres, tocadas pelo drama vivido por seu semelhantes no Afeganistão. Resolvi, então, servir de ponte para ajudar meus compatriotas, disponibilizando o endereço de entidades que recebiam doações.

Edward Said disse há 30 anos, em Orientalismo, que o Ocidente criou uma visão deturpada do Oriente como o ''''outro'''', o antípoda, numa estratégia de diferenciação que perpetua os estereótipos colonialistas. Qual a sua opinião sobre a observação de Said?

Concordo com Said quando analisa a visão que o mundo ocidental tem do Oriente, mais especificamente do mundo árabe, visto como uma massa homogênea quando é uma cultura rica e diversificada. Estamos tratando de mais de 1 bilhão de pessoas que falam línguas diferentes e de uma região com grande diversidade étnica e cultural. Quando vejo, por exemplo, o Afeganistão retratado nos noticiários e programas de televisão, fico escandalizado com os inúmeros equívocos de interpretação do universo cultural afegão.

Em sua opinião, qual é o mais chocante desses equívocos?

Considerando as mensagens eletrônicas enviadas por meus leitores , o equívoco maior é o de considerar que o povo afegão é antiamericano e favorável ao regime repressor do Taleban, o que nem de longe corresponde à realidade. Prova disso são os milhões de refugiados que deixaram o país quando o Taleban tomou o poder há 11 anos.

O Caçador de Pipas, aliás, é bastante crítico com relação ao regime do Taleban, embora deixe de lado a situação da mulher sob o tacão dos radicais, preferindo falar do universo masculino. Esse foi o motivo de ter escrito A Cidade do Sol como uma espécie de ''''mea-culpa'''' por ter falado tão pouco da condição feminina no Afeganistão?

Bem, devo admitir que não foi uma decisão consciente escrever sobre a condição feminina sob o regime taleban. Em O Caçador de Pipas estava certo de que essa seria a história de dois pequenos amigos, um que enfrentaria o conflito interno de sua omissão e outro que permaneceria fiel e íntegro à amizade, mas, no caso de A Cidade do Sol, não tinha personagens em mente. Havia ainda a questão da paternidade no primeiro livro e pensei que seria interessante tratar, desta vez, da relação entre mãe e filha. Já pensava nisso ao fazer a revisão final de O Caçador de Pipas, mas a história só tomou forma depois de uma viagem a Cabul, onde ouvi a história de uma mulher espancada na rua por um taleban. Percebi que o drama da opressão feminina precisava ser tratado com certa urgência e foi daí que surgiu Mariam, obrigada a casar com um homem rude, criada para servir o marido e usar a burca.

Então houve um incidente que inspirou A Cidade do Sol como o do garoto Moussa, seu vizinho pobre de Cabul, adotado como modelo do Hassan de O Caçador de Pipas?

Não diria que foi um incidente, mas o conjunto de depoimentos que tomei das mulheres durante a viagem que fiz ao Afeganistão em 2003. Elas me levaram a escrever o livro, numa tentativa de mostrar como a realidade pode mudar de uma hora para a outra, especialmente para as mulheres, que exerciam profissões liberais e foram obrigadas a se anular e voltar para casa por conta da opressão do Taleban e da guerra.

Qual é a lembrança mais remota que você tem do Afeganistão, uma vez que deixou o país quando seu pai diplomata decidiu buscar o refúgio europeu após a invasão soviética?

Era apenas uma criança de 11 anos quando deixamos Cabul, quatro anos antes da invasão soviética, em 1979. Minhas memórias são de um garoto daquela idade - bastante seletivas, portanto. Não comportam julgamentos morais ou políticos. Lembro-me que vivíamos numa Cabul calma, silenciosa, mas não posso julgar pelos outros, porque era um garoto da alta classe média e vivia uma realidade diferente, embora tivesse amigos pobres.

Você costuma dizer que Cabul não é o Afeganistão - ou pelo menos não era antes da invasão soviética ou da tomada do poder pelos fundamentalistas islâmicos. Você defende que a Cabul reformista e liberal foi atropelada pelo reacionarismo dos camponeses do resto do país, orientados pelas forças talebans. Há alguma chance de mudar essa cultura sem uma ação política agressiva por parte do Estado, como, por exemplo, foi a abolição da burca, em 1920, por ordem do rei Amanullah?

Acho que esse tipo de ação drástica é inoperante, porque são séculos e séculos de condicionamento cultural, uma ordem que mantém as mulheres fragilizadas diante dos homens. Mulheres que eram advogadas ou professoras foram obrigadas pelos fundamentalistas a abjurar suas profissões e nada indica que uma simples lei possa, num passe de mágica, resgatar a dignidade delas. Acho que as mudanças devem se dar lentamente, por meio das organizações formadas para lutar pelos direitos civis, porque ainda existe um abismo entre o que deseja a liberal Cabul e o que prescrevem as forças reacionárias do Afeganistão rural. Há uma resistência muito grande dos tradicionalistas e poucos sinais que indiquem uma mudança nessa mentalidade. Uma regressão é sempre possível.

Voltando ao seu primeiro sucesso, O Caçador de Pipas, o filme baseado em seu livro e dirigido por Mark Foster deve estrear em novembro, nos EUA, e em janeiro, no Brasil. Você aprova a adaptação?

Coloquei-me à disposição dos produtores do filme para servir como consultor e, de fato, dei muitos conselhos sobre figurinos, locações, costumes e modo de falar dos afegãos. Mas não me envolvi diretamente com a produção por estar, na época, ocupado com A Cidade do Sol. O filme resultou muito fiel ao livro e, diria, é bem emocionante.

Apesar disso, o filme já está sendo parodiado no YouTube mesmo antes de sua estréia. Você fica chateado quando vê essas paródias distorcendo a relação de amizade entre Amir e Hassan?

Faz parte da cultura americana. Acho que é uma herança pop essa de tratar temas sérios de forma paródica. Quando se atinge um certo nível de sucesso, vira-se alvo dessas brincadeiras e paródias. Acho engraçado.

Às vezes as críticas vêem de forma mais ácida, como a resenha de A Cidade do Sol assinada por Michiko Kakutani e publicada pelo New York Times em maio, que classifica o livro de programático e melodramático, acusando-o ainda de ser dualista e lidar com emoções baratas. Isso não o perturba?

Fui incrivelmente abençoado pela vasta maioria das resenhas que consegui ler sobre meus dois livros. A alguém que classifica o livro de melodramático aconselharia uma viagem ao Afeganistão para ver realmente o que significa a palavra drama. Aconselharia ainda a falar com as mulheres em Cabul, que continuam a ter uma vida muito parecida com a de Mariam. De resto, considero uma tarefa dificílima escrever melodrama sobre o Afeganistão porque, não importa o que se diga ou escreva, a realidade sempre será mais dramática do que suportaria a imaginação de alguém. Gostaria apenas de lembrar que críticos que viveram no Afeganistão atestam tratar-se de uma novela consistente.

Como você espera que os leitores recebam seu novo livro, que já é o primeiro dos mais vendidos no Brasil?

Espero que encontrem nele uma boa história e bons personagens, porque, afinal, trata-se de uma novela que pretende estabelecer uma ligação emocional com os leitores. Espero também que eles entendam a situação das mulheres no Afeganistão, que é trágica e não resulta apenas de um conflito bélico, mas de uma guerra moral contra o patriarcalismo. O futuro do Afeganistão, afinal, depende delas.

Você já vendeu os direitos para o cinema de A Cidade do Sol?

Sim, para o produtor Scott Rudin (de As Horas, Closer, A Rainha e Notas sobre um Escândalo). Não há ainda um roteiro, mas o filme deverá ser lançado em 2009.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Estados Unidos aumentará prisão no Afeganistão

Do Vermelho.org

20 DE FEVEREIRO DE 2009 - 09h38

As forças armadas dos Estados Unidos estão próximas de completar a expansão da prisão da base aérea de Bagram, no Afeganistão, onde estão detidas 600 pessoas, denominadas "combatentes inimigos" pelas tropas de ocupação do país. O custo da expansão é calculado em US$ 60 milhões.


A quase duplicação da prisão ocorre ao mesmo tempo que o secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, prepara uma "redefinição" da posição americana em relação ao uso de Bagram e outras instalações, inclusive o campo de concentração instalado na base ilegal de Guantânamo.


Gates, junto com Eric Holder, o secretário de Justiça dos EUA, foi encarregado de fazer um relatório para determinar o destino dos detidos em instalações americanas.


O presidente americano Barack Obama foi bastante elogiado por ordenar, assim que foi empossado, o fechamento do campo de concentração construído na base americana de Guantânamo, que ocupa ilegalmente o território de Cuba.


Mas com a sua ordem de redirecionar 17 mil militares do Iraque para o Afeganistão, no sentido de reforçar a presença militar no país, a prisão de Bagram parece ser agora mais visível e polêmica.


Rumi Nielson-Green, uma das porta-vozes das forças armadas americanas, disse à rede catariana de televisão al-Jazira que os detidos na prisão de Bagram são "combatentes inimigos fora da lei".


"São indivíduos que foram retirados dos campos de batalha porque são perigosos para nossas forças e nossos parceiros na coalizão", disse ela.


Direitos básicos


A organização Anistia Internacional exigiu que Obama continue rompendo com a "política de detenções ilegais" de seu predecessor, assegurando que "todas as detenções americanas no Afeganistão cumpram com as leis internacionais" e que dê aos detidos acesso aos tribunais americanos para que possam defender-se de suas acusações.


"Uma revisão judicial é uma salvaguarda básica contra abusos e uma proteção contra detenções arbitrárias e secretas, torturas e outros tratamentos nefastos, assim como transferências ilegais de uma país ou governo para outro", insistiu o grupo de defesa dos direitos humanos.


"Na ausência de supervisão judicial, os detidos em Bagram, assim como em Guantânamo, foram submetidos a tais abusos — sendo que até mesmo crianças não foram poupadas", destaca.


A organização afirma que mais de 615 pessoas que estão detidas em Bagram, sem acesso a tribunais ou dispositivos legais, são afeganis e alguns deles estão detidos há anos.


Embora a administração Obama tenha prometido resolver o caso dos pouco mais de 240 detidos em Guantânamo, nada disse sobre o que pretende fazer em Bagram.


John Bates, juiz de uma corte distrital dos EUA que recebeu processos abertos por quatro detidos de Bagram que estão na prisão há anos, deu à administração Obama até esta sexta-feira para "revisar" sua posição sobre o uso da base aérea de Bagram como instalação prisional e se acredita que os detidos ali podem acionar a justiça americana para rever suas prisões.


A administração Bush, anterior a Obama, argumentava que, como "combatentes inimigos", os detidos em Bagram não tinham o direito de acionar a justiça americana, argumento também utilizado em relação aos detidos em Guantânamo.


Mesmo assim, a suprema corte dos EUA determinou, no ano passado, que os prisioneiros de Guantânamo têm o direito de serem julgados pelos tribunais do país, algo que os grupos de direitos humanos querem agora para os detidos da base aérea de Bagram.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Os atrasados mentais de Washington

À beira do abismo
por Paul Craig Roberts [*]

Existirá vida inteligente em Washington, DC? Nem pó.

A economia americana está em implosão, e Obama está a ser arrastado pelo seu governo de neoconservadores e de agentes israelenses para um pântano no Afeganistão que acabará num confronto dos EUA com a Rússia, e possivelmente com a China, o maior credor dos americanos.

O desemprego nos EUA.

Os números dos salários pagos em Janeiro revelam que, no mês passado, perderam os seus empregos 20 mil americanos por dia.

Para além disso, as perdas de emprego em Dezembro foram rectificadas em 53 mil postos de trabalho, de 524 mil para 577 mil. Esta revisão eleva a perda de postos de trabalho nos dois meses para 1 175 000. Se isto continuar, os três milhões de novos postos de trabalho prometidos por Obama serão anulados pela perda de postos de trabalho.

O especialista em estatística John Williams ( shadowstats.com ) considera que este número gigantesco é calculado por defeito. Williams faz notar que influências intrínsecas nos factores de ajustamento sazonal provocaram uma subavaliação das perdas de empregos em Janeiro em 118 mil, o que eleva a perda de empregos real em Janeiro para 716 mil postos de trabalho.

A análise da lista de pagamentos conta o número de postos de trabalho, e não o número de pessoas com trabalho, visto que algumas pessoas têm mais do que um emprego. O Household Survey conta o número de pessoas que têm trabalho. O Household Survey mostra que em Janeiro perderam os seus empregos 832 mil pessoas e em Dezembro 806 mil, o que totaliza uma redução de 1 638 000 de americanos com trabalho.

A taxa de desemprego anunciada nos meios de comunicação americanos é uma falsificação. Williams relata que através de alterações feitas a partir de 1980, principalmente na era Clinton, "os trabalhadores desencorajados que desistiram de procurar emprego porque não havia trabalho, foram reclassificados de modo a apenas serem considerados se tivessem 'perdido a coragem' há menos de um ano. Esta classificação de acordo com o tempo pôs de lado o grosso dos trabalhadores desencorajados. Se voltássemos a incluí-los no total dos desempregados, o desemprego real [segundo a metodologia da taxa de desemprego utilizada em 1980] subiria para 17,5% em Dezembro e 18% em Janeiro".

Por outras palavras, sem todas estas manipulações dos dados, a taxa de desemprego dos EUA já atingiu níveis de depressão.

Como é que poderia ser diferente, dada a enorme perda de postos de trabalho provocada pelos postos de trabalho além fronteiras. É impossível que um país crie postos de trabalho quando as suas empresas deslocam a produção destinada ao mercado consumidor americano para fora do país. Quando deslocam a produção para fora do país, desviam o PIB americano para outros países. O défice comercial dos EUA durante os últimos dez anos reduziu o seu PIB em 1,5 milhões de milhões de dólares. Significa uma quantidade enorme de postos de trabalho.

Há anos que ando a denunciar que graduados universitários têm sido forçados a aceitar empregos de criados de mesa e de empregados de bares. À medida que os consumidores super endividados vão perdendo os seus empregos, passam a ir menos frequentemente a restaurantes e bares. Por conseguinte, os que têm graus universitários vão deixar de ter emprêgo a servir à mesa e a misturar bebidas.

Os políticos americanos têm ignorado o facto de que a procura do consumidor no século XXI tem sido motivada, não pelo aumento das receitas reais, mas por um crescente endividamento do consumidor. Este facto torna inútil tentar estimular a economia socorrendo os bancos para que eles possam emprestar mais aos consumidores. Os consumidores americanos já não têm capacidade para pedir mais empréstimos.

Perante o declínio do valor dos seus principais valores patrimoniais – as casas – perante a destruição de metade dos seus activos de pensões, e perante o espectro da falta de trabalho, os americanos não podem e não continuarão a gastar.

Porque é que se socorre a GM e o Citibank, se estas empresas andam a transferir para além-fronteiras todas as operações que podem?

Grande parte da infra-estrutura americana está em mau estado e precisa de ser renovada. No entanto, os postos de trabalho nas infra-estruturas não produzem bens nem serviços que possam ser vendidos no estrangeiro. Um empenhamento maciço na infra-estrutura não contribui para ajudar os EUA a reduzir o seu enorme défice comercial, cujo financiamento se está a tornar num problema crucial. Além disso, quando os projectos de infra-estruturas acabarem, o mesmo acontecerá com os postos de trabalho.

Na melhor das hipóteses, partindo do princípio que os imigrantes mexicanos não vão ocupar a maior parte dos postos de trabalho na construção, o mais que o programa de estímulo de Obama pode fazer é reduzir temporariamente o número de desempregados
A não ser que seja possível exigir que as empresas americanas utilizem mão-de-obra americana para produzir os bens e serviços que vão vender nos mercados americanos, não há esperança para a economia americana. Ninguém na administração Obama tem lucidez para tratar deste problema. Portanto, a economia vai continuar a implodir.

A acrescentar ao desastre em fermentação, Obama foi induzido pelos seus conselheiros militares e neoconservadores a expandir a guerra no Afeganistão, um país enorme e montanhoso. Obama tenciona utilizar a retirada dos soldados americanos do Iraque para enviar mais 30 mil efectivos americanos para o Afeganistão. Isto elevaria as forças americanas para 60 mil – 600 mil a menos do que é definido nas linhas de orientação contra-revolução do Marine Corps americano e do Exército americano como o número mínimo de soldados necessários para ter êxito no Afeganistão – e menos de metade das forças de um exército que não conseguiu ocupar o Iraque.

Os iranianos tiveram que socorrer o regime Bush refreando os seus aliados xiitas e encorajando-os a recorrer às urnas para conquistar o poder e expulsar os americanos. No Iraque as tropas americanas apenas tiveram que combater uma pequena rebelião sunita surgida duma minoria da população. Mesmo assim, os EUA "ganharam" colocando os rebeldes na lista de pagamentos dos EUA e pagando-lhes para eles não combaterem. O acordo de retirada foi ditado pelos xiitas. Não era o que o regime Bush pretendia.

Poder-se-ia pensar que a experiência com o "passeio" no Iraque faria com que os EUA hesitassem em tentar ocupar o Afeganistão, um empreendimento que exige que os EUA ocupem áreas do Paquistão. Os EUA tiveram muita dificuldade em manter 150 mil efectivos no Iraque. Onde é que Obama vai arranjar mais meio milhão de soldados para juntar aos 150 mil a fim de pacificar o Afeganistão?

Uma das respostas é o desemprego maciço nos EUA, em crescimento galopante. Os americanos preferirão alistar-se para irem matar no estrangeiro do que ficarem na sua terra, sem casa e com fome.

Mas isto só resolve metade do problema. De onde vem o dinheiro para alimentar um exército de 650 mil efectivos no terreno, um exército 4,3 vezes maior do que as forças americanas no Iraque, uma guerra que já custou 3 milhões de milhões de dólares desembolsados ou já comprometidos em despesas futuras. Este dinheiro terá que ser arranjado para além dos 3 milhões de milhões de dólares do défice orçamental dos EUA, défice este resultante da operação de salvamento de Bush ao sector financeiro, do pacote de estímulo de Obama e da rápida queda da economia. Quando as economias estagnam, conforme está a acontecer com a americana, caem as receitas fiscais. Os milhões de americanos desempregados não estão a pagar a Segurança Social, os Cuidados Médicos e os impostos sobre rendimentos. As lojas e negócios que vão fechando deixam de pagar impostos sobre rendimentos, federais e estatais. Os consumidores sem dinheiro nem crédito para gastos não estão a pagar impostos sobre vendas.

Os Atrasados Mentais de Washington, e são mesmo atrasados mentais, não pensaram como vão financiar um défice fiscal de cerca de dois ou três milhões de milhões de dólares no orçamento do ano 2009.

A taxa de poupanças americana, praticamente inexistente, não poderá financiá-lo.

Os excedentes comerciais dos nossos parceiros comerciais, como a China, o Japão e a Arábia Saudita, não podem financiá-lo.

O governo dos EUA só tem de facto duas possibilidades para financiar o seu défice orçamental. Uma delas é um segundo colapso no mercado de acções, que fará com que os investidores sobreviventes acorram, com o que lhes restar, aos títulos do Tesouro americanos, considerados "seguros". A outra é que o Federal Reserve monetarize a dívida do Tesouro.

Monetarizar a dívida significa que, quando ninguém está disposto ou tem capacidade para comprar os títulos do Tesouro, é o Federal Reserve que os compra criando depósitos bancários na conta do Tesouro.

Por outras palavras, o Fed "imprime dinheiro" com que compra os títulos do Tesouro.

Quando isto acontecer, o dólar americano deixará de ser a divisa de reserva.
Além disso, a China, o Japão e a Arábia Saudita, países que detêm quantidades enormes da dívida do Tesouro dos EUA, para além de outros activos em dólares americanos, irão vendê-los, na esperança de se livrarem deles antes de outros.

O dólar americano deixará de ter valor, passará a divisa de uma república de bananas.

Os EUA deixarão de poder pagar as importações, um problema grave para um país dependente das importações para a energia, bens manufacturados e produtos de tecnologia avançada.

Os conselheiros keynesianos de Obama aprenderam com uma lição vingativa de Milton Friedman que a Grande Depressão foi consequência de o Federal Reserve ter permitido uma contracção do fornecimento de dinheiro e de crédito. Na Grande Depressão as dívidas boas foram destruídas pela contracção monetária. Hoje, são as dívidas más que estão a ser aguentadas pela expansão do dinheiro e do crédito, e o Tesouro dos EUA está a pôr em perigo a sua posição de crédito e a posição do dólar como divisa de reserva com os enormes leilões trimestrais de títulos, conforme estamos a assistir.

Entretanto, os russos, a transbordar de recursos energéticos e minerais, e sem dívidas, perceberam que o governo dos EUA não é de fiar. A Rússia assistiu à tentativa dos sucessores de Reagan para virar clientelas da União Soviética em estados marionetas dos EUA com bases militares americanas. Os EUA estão a tentar cercar a Rússia com mísseis que neutralizem a dissuasão estratégica da Rússia.

Putin entendeu bem o "camarada lobo". Conseguiu que o presidente do Quirguistão, uma antiga república da União Soviética, desalojasse os EUA da sua base militar. Esta base é essencial para a capacidade de a América abastecer os seus soldados no Afeganistão.

Para impedir a intromissão da América na esfera de influência da Rússia, o governo russo criou uma organização de aliança de segurança colectiva formada pela Rússia, Arménia, Bielorrússia, Cazaquistão, Quirguistão e Tajiquistão. O Uzbequistão é participante parcial.
Por outras palavras, a Rússia organizou a Ásia Central contra a penetração dos EUA.

A que agenda é que o Presidente Obama está a ficar amarrado? Num artigo na versão de língua inglesa do jornal suíço Zeit-Fragen, Stephen J. Sniegoski assinala que as figuras de proa da conspiração neoconservadora – Richard Perle, Max Boot, David Brooks, e Mona Charen – ficaram em êxtase com as nomeações de Obama. Não encontram qualquer diferença entre Obama e Bush/Cheney.

Não são só os homens nomeados por Obama que o estão a empurrar para uma guerra alargada no Afeganistão, o poderoso lóbi israelense também está a empurrar Obama para uma guerra com o Irão.

É difícil de acreditar no irrealismo com que o governo dos EUA está a manobrar. Um governo na falência, que não consegue pagar as contas sem imprimir dinheiro, está a correr precipitadamente para guerras no Afeganistão, Paquistão e Irão. Segundo o Centro de Análise Estratégica e Orçamental, o custo para os contribuintes americanos de enviar um só soldado para combater no Afeganistão ou no Iraque é de 775 mil dólares por ano!

A guerra de Obama no Afeganistão é o Chá do Chapeleiro Maluco [1] . Após sete anos de conflito, ainda não há qualquer missão definida nem cenário de fim de jogo para as forças americanas no Afeganistão. Quando lhe perguntaram qual era a missão, um militar americano disse à NBC News, "Francamente, não temos nenhuma". A NBC noticia: "estão a trabalhar nela".

Ao falar na Câmara dos Democratas em 5 de Fevereiro, o presidente Obama reconheceu que o governo americano não sabe qual é a sua missão no Afeganistão e que para evitar "o arrastamento de uma missão sem parâmetros claros", os EUA "necessitam de uma missão clara".

Gostariam de ser enviados para uma guerra, cuja intenção ninguém conhece, incluindo o comandante do estado-maior que vos envia para matar ou ser morto? Caros contribuintes, gostam de estar a pagar o custo enorme em enviar soldados para uma missão indefinida enquanto a economia desaba?

09/Fevereiro/2009

[1] Em 'Alice no País das Maravilhas', o Chapeleiro Maluco apresenta uma adivinha: "Em que é que se parece um corvo com uma escrivaninha?". Quando Alice desiste, o Chapeleiro reconhece que também não sabe a resposta (N.T.)

[*] Paul Craig Roberts foi secretário Auxiliar do Tesouro na administração Reagan. É co-autor de 'The Tyranny of Good Intentions'.

O original encontra-se em Counterpunch. Tradução de Margarida Ferreira.

Este artigo encontra-se em: Resistir info.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Os desafios de Obama Iraque, Paquistão, Afeganistão


(Noam Chomsky)

As guerras e conflitos militares no Iraque, Afeganistão, Paquistão, Oriente Médio e África farão parte da pauta de debates do Fórum Social Mundial. Em artigo, Noam Chomsky* analisa um dos atores centrais destes conflitos, os Estados Unidos. Ao comentar o futuro da política externa de Washington, ele lança uma interrogação: "A boa vontade de Barack Obama para "falar com o inimigo" foi um dos temas que definiu sua campanha à presidência. Pode Obama estar à altura dessa promessa?"

A diplomacia é a única alternativa sã ao ciclo de violência desde o Oriente Médio até a Ásia Central, que ameaça devorar o mundo. Um corolário é reconhecer que a violência só engendra violência. Também ajudaria se a administração de Obama e o Ocidente enfrentassem tópicos que impulsionam a política na região.

Iraque
O governo do Iraque forjou um Acordo sobre o Status das Forças de Ocupação que Washington aceitou com resistência. O acordo tem como objetivo terminar com a presença militar dos Estados Unidos na nação árabe. O acordo é o último passo no processo de resistência massiva não-violenta que obrigou Washington, passo a passo, a aceitar as eleições e o aumento da independência do país ocupado.

Um porta-voz iraquiano disse que o acordo tentado “se ajusta à visão do presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama”. A “visão” de Obama não está claramente definida, mas ele provavelmente aceitará, de alguma maneira, as demandas do governo iraquiano. Se é assim, isso exigirá reformas nos planos dos Estados Unidos de assegurar o controle sobre as enormes reservas de petróleo do Iraque, enquanto estabelece as bases para reforçar seu domínio na mais importante região de produção de energia do mundo.

É bom assinalar que pesquisas recentes em nível mundial mostram uma forte oposição à existência de bases navais dos Estados Unidos no Golfo Pérsico. A oposição é muito forte dentro da região.
A perspectiva de trasladar as forças do Iraque para o Afeganistão fez com que o The Washington Post assinalasse num editorial: “Mesmo que os Estados Unidos tenham interesse em evitar o ressurgimento do talibã afegão, a importância estratégica do país empalidece diante da do Iraque, que repousa no centro político do Oriente Médio e contém algumas das maiores reservas de petróleo do mundo”. Este é um reconhecimento da realidade. Os pretextos sobre a segurança e a promoção da democracia não podem seguir ocultando as reais intenções e interesses.

O comando da Otan também está começando a reconhecer os temas cruciais da energia. Em junho de 2007, o secretário geral da Organização do Atlântico Norte, Jaap de Hoop Scheffer, informou que “as tropas da Otan têm de cuidar dos oleodutos que transportam petróleo e gás até o Ocidente”. Também necessitam proteger as rotas marítimas usadas pelos petroleiros e outra “crucial” infraestrutura do sistema energético, disse o funcionário da Otan.

A tarefa poderia incluir o oleoduto projetado Tapi, que será construído a um custo de 7,6 bilhões de dólares e enviaria gás natural do Turcomenistão até o Paquistão e Índia, atravessando a província de Kandahar, no Afeganistão, onde estão situadas as tropas canadenses.

O objetivo é “bloquear um oleoduto competitivo que traria gás até o Paquistão e a Índia, a partir do Irã” e “diminuir o domínio da Rússia sobre as exportações de energia da Ásia Central”, informou The (Toronto) Globe and Mail, esboçando de uma maneira verossímel alguns dos contornos do novo “Grande Jogo” (quando Grã Bretanha e Rússia competiam pela influência na Ásia Central durante o século 19).

Paquistão
Obama respaldou a política de George W. Bush de atacar supostos líderes da Al Qaeda em países que os EUA ainda não tinha invadido. Em particular, não criticou as incursões de aviões Predator guiados por controle remoto que têm matado muitos civis no Paquistão.

Neste momento se está levando a cabo uma impiedosa miniguerra numa área tribal de Bajaur, no Paquistão, próxima à fronteira com o Afeganistão. A BBC descreve uma conseqüente destruição por causa dos combates. “Muitos em Bajaur consideraram que as origens do levante provêm de um suposto ataque de mísseis norteamericanos contra um seminário islâmico, ou medrassa, em novembro de 2006, que matou em torno de 80 pessoas”.

O ataque foi denunciado na imprensa do Paquistão pelo respeitado físico dissidente paquistanês Pervez Hoodbhoy, mas ignorado nos EUA. As coisas parecem diferentes quando apertam do outro lado do garrote.

Hoodbhoy assinalou que o resultado usual desses tipos de ataques “tem sido casas arrasadas, crianças mortas e mutiladas, e uma crescente população local que busca vingança contra o Paquistão e os EUA”.

Bajaur permite ilustrar o círculo vicioso de ataques e represálias com que Obama não parece desejar romper.

Em 3 de novembro o general David Petraeus, recentemente designado chefe do comando central das forças armadas dos EUA que cobre o Oriente Médio teve sua primeira reunião com o presidente paquistanês Asif Ali Zardari, com o chefe do exército general Ashfaq Parvez Kayani, e com outros funcionários.

A preocupação principal dos funcionários paquistaneses foi “os contínuos ataques com aviões manejados por controles remotos em nosso território, que causam a perda de vidas preciosas e de propriedades, são contraproducentes e difíceis de explicar por parte de um governo eleito de maneira democrática”, disse Zardaria a Petraeus. O governo de Islamabad, disse Zardari, está “sendo pressionado para reagir com mais agressividade” frente aos ataques. Isto poderia conduzir a uma “repercussão negativa contra os EUA”, que já é profundamente impopular no Paquistão.

Petraeus disse que tinha escutado a mensagem e que “nós temos de tomar medidas que a levem em conta (a opinião paquistanesa)” quando os ataques forem lançados. Trata-se de um requisito prático, sem dúvida alguma, se leva-se em conta que mais de 80% das provisões para a guerra que os EUA e a Otan dirigem no Afeganistão passa pelo Paquistão.

O modo como a opinião paquistanesa foi “levada em conta” só foi revelado duas semanas mais tarde, no The Washington Post. O diário informou que os EUA e o Paquistão chegaram a um “acordo tácito em setembro (de 2008) sobre uma política de não perguntar nem dizer. Isso permite atacar objetivos de supostos terroristas” no Paquistão com o avião Predator, disseram os funcionários de ambos os países que pediram para não serem identificados. “Os funcionários descreveram o acordo no qual o governo dos EUA se nega a reconhecer publicamente os ataques, enquanto o governo do Paquistão continua deles se queixando ruidosamente”, já que acarretam riscos de instabilidade interna.

Um dia antes de ser publicado o informe sobre o “acordo tácito”, um ataque suicida na conflitiva zona tribal próxima da fronteira com o Afeganistão matou 8 soldados paquistaneses. Isso em represália ao ataque de um Predator no qual 20 pessoas morreram, entre elas dois líderes do Talibã. O parlamento paquistanês exigiu que se iniciasse um diálogo com o Talibã. Ecoando essa resolução, o ministro do Exterior do Paquistão, Shah Mehmood Qureshi disse: “Há uma compreensão cada vez maior de que o uso exclusivo da força não pode produzir os resultados desejados”.

Afeganistão
A primeira mensagem do presidente afegão Hamid Karzai ao presidente eleito Obama foi muito similar à que os líderes paquistaneses formularam a Petraeus: “Acabar com os bombardeios aéreos dos Estados Unidos que provocam baixas entre os civis”. Sua mensagem foi enivada pouco depois de as tropas da coalizão bombardearem uma festa de casamento na província de Kandahar, matando 40 pessoas, segundo informes da imprensa. Não há indicações de que a opinião dos afegãos “tenha sido levada em conta”.

O comando britânico tinha advertido que não há uma solução militar para o conflito no Afeganistão. Segundo o The Financial Times, o comando militar disse que é preciso entabular as negociações com o Talibã. Isso pode levar a um desacordo entre Grã Bretanha e EUA.
Os temas já estão sobre a mesa, escreve Jason Burke, um correspondente do The Observer com vasta experiência na região: “O talibã tem estado envolvido em conversações secretas sobre o fim do conflito no Afeganistão e num 'processo de paz' de largo alcance patrocinado pela Arábia Saudita e apoiado pela Grã Bretanha”.

Alguns militantes pacifistas afegãos levantaram suas reservas em relação a esse enfoque. Preferem uma solução sem interferência externa. Uma rede crescente de ativistas pela paz está convocando negociações e a reconciliação com o Talibã na Jirga Nacional da Paz, uma grande assembléia de afegãos, formada em maio de 2008.

Numa reunião em maio em apoio a Jirga, 3 mil políticos e intelectuais afegãos, principalmente entre os pashtuns, o maior grupo étnico, criticaram “a campanha militar internacional contra os militantes islâmicos no Afeganistão e convocou ao diálogo para terminar a luta”, informou a agência France Press.

Bakhtar Aminzai, presidente interino da Jirga Nacional da Paz, “disse na reunião de abertura que o conflito atual não pode ser resolvido por meios militares e que somente as conversações trariam uma solução”.

Um líder do Despertar da Juventude, um proeminente grupo afegão que se opõe à guerra, disse que “nós devemos terminar o 'afeganicídio', o assassinato do Afeganistão”.

Uma sondagem num Afeganistão destroçado pela guerra é difícil de fazer, mas os resultados merecem ser levados em conta. Uma pesquisa feita por canadenses apurou que os afegãos são favoráveis à presença de soldados canadenses e de outros países (resultado que ocupou o título de primeira página, no Canadá). Outros achados devem se examinados com minúcia.

Só 20% dos afegãos entrevistados “pensam que o Talibã prevalecerá uma vez as tropas estrangeiras se retirem”. Três quartos apoiam as negociações entre o governo de Karzai e o Talibã. E mais da metade são a favor de um governo de coalizão. Por conseguinte, a imensa maioria tem uma posição discrepante do enfoque dos EUA e da OTAN, para militarizar ainda mais o conflito, e parece crer que a paz é possível se houver negociações.

Um estudo sobre os milicianos talibãs realizado pelo periódico canadense The Globe and Mail, ainda que não seja uma pesquisa científica, como assinala o periódico, oferece contudo dados consideráveis. Todos eles são afegãos pashtuns, da área de Kandahar. Consideram-se “mujahedins”, guerreiros santos, e seguem a antiga tradição de expulsar os invasores. Quase um terço informou que ao menos um membro de sua família tinha morrido em bombardeios aéreos em anos recentes. Muitos disseram que combatiam para defender aldeias afegãs dos ataques aéreos das tropas invasoras. Poucos afirmaram estar lutando numa guerra santa global, ou serem leais ao líder talibã Mullah Omar. A maioria disse que combatia por defenderem o estabelecimento de um governo islãmico, não por um líder.

Novamente esses resultados sugerem possibilidades de um acordo negociado de paz, sem interferência externa.
Na revista Foreign Affairs, Barnett Rubin e Ahmed Rashid recomendam que a estratégia dos Estados Unidos na região se desloque de mais tropas e ataques no Paquistão para uma “grande convenção diplomática forjando um compromisso com os insurgentes e encarando um arranjo das rivalidades e inseguranças regionais”.
O foco atual na ação militar “e o terrorismo subseqüente”, advertem, poderia conduzir ao colapso do Paquistão, um país com armas nucleares – com sequelas de graves conseqüências. Esses autores recomendam ao futuro governo dos Estados Unidos “pôr fim à dinâmica cada vez mais destrutiva do Grande Jogo na região”. Isso se pode conseguir através de negociações que reconheçam os interesses das partes envolvidas dentro do Afeganistão, bem como do Paquistão e Irã, mas também da Índia, China e Rússia que “tem reservas a respeito de uma base da OTAN dentro de suas esferas de influência” e estão preocupados com as ameaças “levantadas pelos Estados Unidos e OTAN” como também pela Al Qaeda e o Talibã.

O próximo presidente dos Estados Unidos, escrevem Rubin e Rashid, deve terminar com a "busca da vitória" de Washington como solução para todos os problemas, e com a renúncia dos Estados Unidos a envolver a diplomacia com competidores, opositores e inimigos”.

Em data próxima, a administração Obama poderia atuar para romper esse calamitoso ciclo de violência, em qualquer dessas regiões.

* Noam Chomsky, 80 é linguista estadunidense, professor emérito do Massachussets Institute of Technology e ativista de esquerda, sem partido; texto publicado no SinPermiso, dia 18, e tomado da http://www.cartamaior.com.br

domingo, 25 de janeiro de 2009

It really is a new day?


Em Karachi, simpatizantes do partido islâmico Jamaat-e-Islami protestam contra os ataques estadunidenses em região do Paquistão próxima ao Afeganistão, encarados como "primeiro presente" de Obama ao país. Milhares de paquistaneses foram às ruas contra os ataques que mataram 22 pessoas no dia 23/1. Foto: Rehan


Enquanto isso, em Gaza....
Mulher palestina observa a destruição de casas em Jebaliya, no norte da Faixa de Gaza. Organizações internacionais e as Nações Unidas disseram que a prioridade no momento é buscar um acordo que abra Gaza para ações humanitárias e reconstrução da região Anja Niedringhaus/AP


Até aqui, Obama continua errando, no caso de Gaza... [e no Afeganistão]

Robert Fisk: The Independent, UK, 22/1/2009



Teria sido útil se Obama tivesse tido coragem para falar sobre o que todos falam, no Oriente Médio. Não, ninguém no OM fala sobre a retirada dos EUA, do Iraque. Sobre isso, já sabem. Todos esperavam o início do fim de Guantanamo, e a provável nomeação de George Mitchell, como enviado especial ao OM, foi apenas o mínimo que esperavam que acontecesse. Claro, Obama falou de "inocentes massacrados", mas não dos "inocentes massacrados" nos quais os árabes pensam, dia e noite.

Ontem, Obama telefonou a Máhmude Abbas. Talvez suponha que tenha conversado com o líder dos palestinos. Não. Todos os árabes sabem, exceto talvez o próprio Abbas, que Abbas é chefe de um governo fantasma, um já quase cadáver, mantido vivo à custa de transfusões de sangue que lhe chegam como apoio internacional e sob a forma da "parceria plena" que Obama aparentemente lhe ofereceu, e não se sabe o que significaria "plena". E ninguém se surpreendeu com o telefonema protocolar, para os israelenses.

Mas, para o povo do OM, a ausência da palavra "Gaza" – de fato, também da palavra "Israel" – foi como uma sombra tétrica sobre o discurso de posse de Obama. Será que não está preocupado? Está com medo?

Será que o jovem escrevedor de discursos de Obama não sabe que falar sobre direitos dos negros – muitos pais de negros podem não ter trabalhado em restaurantes há 60 anos – só faria chamar a atenção sobre o destino de um povo que só há três anos obteve o direito de votar, mas, então, imediatamente, o mesmo povo passou a ser castigado porque votou no candidato errado? Nem foi o caso do elefante na loja de porcelanas. O problema é a horrível pilha de cadáveres amontoados no chão da loja de porcelanas.

É fácil, sim, ser cínico. A retórica árabe tem alguma semelhança com os clichês de Obama: "trabalho duro e honestidade, coragem e respeito às regras do jogo... lealdade e patriotismo".

Mas por maior que seja a distância que o novo presidente queira interpor entre ele e o governo vicioso que está substituindo, o 11/9 paira como nuvem sobre New York. Obama teve de relembrar "a coragem dos bombeiros que subiram escadas tomadas de fumaça".

De fato, para os árabes, ouvir que "nossa nação está em guerra contra uma distante rede de violência e ódio" foi como ouvir a voz de Bush; a única referência a "terror", a palavra do eterno medo em Bush e nos israelenses, foi preocupante sinal de que a Casa Branca ainda não captou a mensagem. E mais uma vez, agora Obama, falando sobre os grupos islâmicos como se fosse o Taliban quem estivesse "massacrando inocentes" mas "não nos derrotará".

Quanto, no discurso, aos que são corruptos e cuja "silenciosa oposição", presumivelmente o governo iraniano, a maioria dos árabes leu aí referência a práticas habituais do presidente Hosni Mubarak do Egito (o qual, é claro, também recebeu telefonema de Obama, ontem), do rei Abdullah da Arábia Saudita e de outros autocratas e degoladores que se supõe que sejam amigos dos EUA no Oriente Médio.

Hanan Ashrawi[1] foi quem mais acertou. As mudanças no Oriente Médio – justiça para os palestinos; segurança para os palestinos tanto quanto para os israelenses, e fim da construção ilegal de colônias ilegais pra judeus e só judeus, em terra árabe; fim de toda a violência, não só da modalidade 'árabe' – têm de vir logo, "imediatas", como disse ela, já. Se a nomeação do gentil George Mitchell visava a responder a essas exigências, o discurso de posse (no máximo, discurso nota B-), nem isso fez.

A amigável mensagem aos muçulmanos, "um novo caminho, baseado nos interesses mútuos e em mútuo respeito", simplesmente não tomou conhecimento das fotos da chacina de Gaza que o mundo está vendo com vergonha e horror. Sim, os árabes e muitas outras nações muçulmanas e, é claro, quase todo o mundo, podem festejar que o horrendo Bush foi-se. Guantanamo, também, parece estar-se indo. Mas os torturadores que torturaram por ordem de Bush e de Rumsfeld serão punidos? Ou serão silenciosamente promovidos para cargos nos quais não se use água para torturar nem se dispam as pessoas nem se ouçam gemidos humanos?

Sim, sim, dê-se uma chance ao homem. É possível que George Mitchell reúna-se com o Hamás – ele é homem capaz de tentar esse encontro –, mas o que dirão os fracassados de sempre, como Denis Ross e Rahm Emanuel e, de fato, Robert Gates e Hillary Clinton?

O discurso de posse de Obama foi mais sermão que discurso de posse. Até os palestinenses em Damasco ouviram, gritante, a ausência de duas palavras: Palestina e Israel. Palavras escaldantes, num dia gelado em Washington. Obama ainda nem vestiu as luvas.

[1] Sobre ela, ver: Wikipédia Hanan Ashrawi

terça-feira, 1 de julho de 2008

Um caminho para Guantánamo

Publicada em 01/07- Atualizada em 02/07

Assisti ontem ao documentário Caminho para Guantánamo (The Road to Guantanamo) de Michael Winterbottom, Inglaterra, 2006. Seu diretor trabalha com depoimentos de três jovens britânicos que ficaram anos presos, acusados de terrorismo pelos EUA, quando esses em represália ao 11 de setembro atacaram o Afeganistão.

A ida dos jovens para o Paquistão foi motivada pelo casamento de um deles e os amigos o seguiram para a cerimônia. Ao chegarem ao Paquistão, estimulados por um líder religioso, decidiram ir até o Afeganistão para prestarem ajuda humanitária, quando foram presos.

É um filme imperdível. Após assistirmos passamos a nos questionar como é possível o imenso silêncio que se faz desse tema no nosso país.

Em outubro de 2006 Mariana Vidal escreveu sobre sua experiência ao ver este documentário:


O CAMINHO PARA GUANTÁNAMO

Por Mariana Vidal - vidal@fazendomedia.com 17.10.2006

"Temos que fazer alguma coisa pra mudar. Não acredito que isto existe". Foram essas as primeiras palavras que ouvi de uma moça sentada na fileira de trás, assim que acabou o filme. Mas foi só acenderem as primeiras luzes do Estação Paissandu e via-se que o sentimento era geral. A sala estava cheia e ninguém saiu de lá imune.

Uns paravam no meio do caminho para tomar fôlego, outros se juntavam em grupos para comentar aquele absurdo, mas a vontade era mesmo de denunciar, de parar os carros na Rua Senador Vergueiro e avisar às pessoas que não estavam naquele cinema, que campo de concentração ainda existe e não é fruto de uma Alemanha nazista, é do atual governo dos EUA.

O filme "O Caminho para Guantánamo" é belíssimo, é vivo; daqueles que você não consegue se desvencilhar da tela um minuto. Não por acaso os ingleses Michael Winterbottom e Mat Whitecross ganharam o Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim deste ano.

Trata-se da história real de quatro amigos britânicos de origem paquistanesa que decidem sair da Inglaterra e voltar ao Paquistão para celebrarem o casamento de um deles. Numa mesquita do Paquistão, eles são convencidos pelo líder religioso de que deveriam ir ao Afeganistão prestar ajuda humanitária aos irmãos muçulmanos. No Afeganistão são feitos reféns pelo regime talibã e, posteriormente, três deles são capturados pelas tropas estadunidenses, que os mandam para Guantánamo, onde são torturados por dois anos.

Mas apesar da sensação de impotência que se segue à vontade de "fazer alguma coisa pra mudar" e do choque que muitos levaram ao ver "O Caminho para Guantánamo", felizes são aqueles que viram este filme, pois muitos ali sequer sabiam da existência dessas bases militares que os EUA mantém em Cuba.

Nossa mídia não divulga quase nada sobre Guantánamo ou sobre outro crime de guerra dos EUA (e exemplo é o que não falta). Livros como "Guantánamo - Prisionero 325, Campo Delta" (Editora EDAF), testemunho escrito pelo ex-prisioneiro Nizar Sassi, chegam em Porto Rico, Chile, Argentina, Espanha e México, mas não são lançados no Brasil.

E até mesmo esse filme só foi possível ser visto no Festival do Rio 2006 (já que ele não tem previsão de chegar às telas do grande circuito), com poucas sessões, sem direito ao "última chance" (espécie de repescagem, quando alguns filmes são selecionados para exibição após o término do Festival) e sem figurar na lista dos mais vistos no Festival.

Depois de reclamar sobre a ausência na mídia brasileira sobre as torturas em Guantánamo,, vejo publicada hoje esta tradução do The New York Times

02/07/2008
EUA usaram métodos chineses de tortura em interrogatórios de Guantánamo
Scott Shane
Em Washington


Os instrutores militares que seguiram para a Baía de Guantánamo em dezembro de 2002 basearam uma aula inteira sobre interrogatórios em uma cartilha que mostrava os efeitos das "Técnicas de Gerenciamento Coercivo" para uma possível utilização em prisioneiros, incluindo "Privação de Sono", "Imobilização Prolongada" e "Exposição ao Frio".

O que os instrutores não disseram - e pode ser que não soubessem - foi que a cartilha era uma cópia literal de um estudo feito pela Força Aérea dos Estados Unidos, em 1957, sobre as técnicas comunistas chinesas utilizadas durante a Guerra da Coréia para obter confissões, muitas delas falsas, de prisioneiros norte-americanos.

A cartilha reciclada é a última e a mais vívida evidência da forma como os métodos comunistas de interrogatório que os Estados Unidos descreveram por muito tempo como sendo tortura tornaram-se a base dos interrogatórios realizados tanto pelas forças armadas em Guantánamo quanto pela Agência Central de Inteligência (CIA).

Alguns métodos foram aplicados em um pequeno número de prisioneiros de Guantánamo antes de 2005, quando o Congresso proibiu o uso da coerção pelas forças armadas. A CIA ainda conta com a autorização do presidente Bush para utilizar vários métodos secretos "alternativos" de interrogatório. Diversos documentos de Guantánamo, incluindo a cartilha que descreve os métodos coercivos, foram divulgados em uma audiência do Comitê do Senado Sobre as Forças Armadas em 17 de junho, que analisou como foi que tais táticas passaram a ser empregadas.

Mas os investigadores do comitê não sabiam que a origem da cartilha estava no artigo publicado há meio século em um periódico militar, uma conexão que foi divulgada ao "New York Times" por um especialista em interrogatórios independente, que falou sob a condição de que o seu nome não fosse revelado.

O artigo de 1957 do qual a cartilha foi copiada tem o título "Communist Attempts to Elicit False Confessions From the Air Force Prisoners of War" ("Tentativas Comunistas de Obter Falsas Confissões de Prisioneiros de Guerra Membros da Força Aérea"), e foi escrito por Alfred D.

Biderman, um sociólogo que servia na Força Aérea, e que morreu em 2003.

Biderman entrevistou ex-prisioneiros norte-americanos que retornaram da Coréia do Norte, alguns dos quais foram filmados pelos seus interrogadores chineses confessando ter praticado guerra bacteriológica e outras atrocidades.

Essas confissões orquestradas geraram alegações de que os prisioneiros norte-americanos tinham sofrido "lavagem cerebral", e motivaram as forças armadas a intensificar o seu treinamento no sentido de proporcionar a alguns dos seus membros um sabor dos métodos duros dos inimigos, a fim de evitar que eles capitulassem rapidamente caso fossem capturados.

Em 2002, o programa de treinamento, conhecido como SERE (acrônimo em inglês para Sobrevivência, Evasão, Resistência e Fuga), transformou-se em uma fonte de métodos de interrogatório tanto para a CIA quanto para as forças armadas. Naquilo que os críticos descrevem como um caso notável de amnésia histórica, as autoridades que recorreram ao programa SERE parecem não ter tido consciência de que ele foi criado como resultado da preocupação quanto às falsas confissões feitas pelos prisioneiros norte-americanos.

O senador Carl Levin, democrata pelo Estado de Michigan, presidente do Comitê do Senado Sobre as Forças Armadas, disse, após examinar o artigo de 1957, que "todo norte-americano ficaria chocado" com a origem do documento de treinamento.

"O que faz com que este documento seja duplamente chocante é o fato de que essas eram técnicas usadas para a obtenção de falsas confissões", afirma Levin. "As pessoas dizem que precisamos de informações de inteligência, e elas estão certas. Mas não necessitamos de falsas informações de inteligência".

O tenente-coronel Patrick Ryder, um porta-voz do Departamento de Defesa, disse que não poderia fazer comentários a respeito da cartilha de treinamento utilizada em Guantánamo. "Não posso especular a respeito de decisões anteriores que podem ter sido tomadas antes da atual política do Departamento de Defesa para interrogatórios", disse Ryder. "Posso afirmar a vocês que a atual política do Departamento de Defesa é clara - nós tratamos todos os detentos humanamente".

O artigo escrito por Biderman em 1957 descrevia "uma forma de tortura" usada pelos chineses que consistia em obrigar os prisioneiros norte-americanos a "ficar de pé por períodos excessivamente longos", às vezes em condições de "frio extremo". Ele escreveu que tais métodos passivos eram mais comuns do que a violência física direta. Obrigar os prisioneiros a ficar de pé por longos períodos e expô-los ao frio foram técnicas utilizadas pelos interrogadores norte-americanos militares e da CIA contra os suspeitos de serem terroristas.

A cartilha também descreve outras técnicas utilizadas pelos chineses, incluindo "fome parcial", "exploração de ferimentos" e "ambientes sujos e infestados", bem como os efeitos provocados por tais métodos: "Tornam a vítima dependente do interrogador", "Enfraquecem a Capacidade de Resistência Mental e Física" e "Reduzem o Prisioneiro a Preocupações de 'Nível Animal'".

A única modificação feita na cartilha apresentada em Guantánamo foi a retirada do título original: "Métodos Coercivos Comunistas para Gerar a Colaboração Individual".

Os documentos divulgados no mês passado incluem uma mensagem de e-mail de dois instrutores de SERE, relatando o período que passaram em Guantánamo, de 29 de dezembro de 2002 a 4 de janeiro de 2003. Segundo a mensagem, o objetivo era apresentar aos interrogadores "a teoria e a aplicação das pressões físicas utilizadas durante o nosso treinamento".

De acordo com a mensagem, as sessões incluíram "uma aula profunda sobre os Princípios Biderman", em uma referência à cartilha baseada no artigo de Biderman publicado em 1957. Versões da mesma cartilha, identificada com freqüência como "Cartilha de Coerção de Biderman", circulam em sites na Internet contrários às seitas baseadas no fanatismo religioso. Os métodos da cartilha são utilizados por esses sites para demonstrar como tais seitas controlam os seus membros.

O psiquiatra Robert Jay Lifton, que estudou prisioneiros que retornaram de guerras, e escreveu um artigo na mesma edição de 1957 do periódico "The Bulletin of the New York Academy of Medicine", disse em uma entrevista que ficou perturbado ao saber que os métodos chineses foram reciclados e ensinados em Guantánamo.

"Isso me entristece", afirmou Lifton, que em 1961 escreveu um livro sobre aquilo que os chineses chamavam de "reforma do pensamento", e que se tornou conhecido na linguagem popular norte-americana como lavagem cerebral. Ele classificou a utilização de técnicas chinesas por interrogadores norte-americanos em Guantánamo de "uma virada de 180º".

O interrogatório mais brutal ocorrido em Guantánamo do qual se tem conhecimento foi o de Mohammed al-Qahtani, um membro da Al Qaeda suspeito de ser o "20º seqüestrador" nos ataques de 11 de setembro de 2001. Os interrogatórios de Al Qahtani envolveram privação de sono, posições estressantes, exposição ao frio e outros métodos também usados pelos chineses.

As acusações de terrorismo contra al-Qahtani foram retiradas inesperadamente em maio deste ano. As autoridades informaram que as acusações poderiam ser feitas novamente mais tarde, e recusaram-se a dizer se a decisão foi influenciada por preocupações quanto ao tratamento a que al-Qahtani foi submetido.

Bush defendeu o uso de métodos brutais, alegando que estes ajudam a fornecer informações críticas de inteligência e a prevenir novos ataques terroristas. Mas a questão continua a complicar os processos há muito atrasados, que agora estão em andamento em Guantánamo.

Abd al-Rahim al-Nashiri, um membro da Al Qaeda acusado de desempenhar um papel importante no ataque a bomba contra o destróier norte-americano "Cole" no Iêmen, em 2000, foi acusado na segunda-feira de assassinato e outros crimes. Em audiências anteriores, al-Nashiri, que foi submetido ao "waterboarding" (técnica de tortura conhecida como "afogamento"), afirmou ter confessado falsamente a sua participação no ataque porque estava sendo torturado.



Relações: a Guerra e a Mídia estadunidense

O IMPACTO DAS MENTIRAS DA MÍDIA
(Luiz Carlos Azenha)

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Rupert Murdoch ajudou George W. Bush a tomar de assalto a mídia americana, depois da eleição do republicano em 2000. O magnata da mídia australiano, maior publisher em língua inglesa do mundo, fez isso usando suas emissoras de tevê americanas, principalmente a Fox News, concorrente da CNN. Fez isso abrindo espaço para uma campanha de intimidação contra jornalistas que não concordavam com a política externa de Bush, especialmente depois dos ataques de 11 de setembro de 2001.

Antes que a ocupação americana do Iraque se tornasse um inferno, os neocons haviam conseguido implantar o pensamento único na grande mídia. Roger Ailes, um publicitário historicamente ligado a políticos republicanos, foi o encarregado de "repaginar" a Fox no formato que serviu a Bush. "Nós divulgamos, você decide" foi um dos bordões usados pela emissora. O domínio do governo Bush sobre a grande mídia foi tamanho que acabou resultando numa revolução silenciosa, com o surgimento de meios alternativos de comunicação, notadamente na internet. Surgiram dezenas de documentários, livros-reportagem, sites e centenas de grupos de pressão. Um deles recorreu à FCC (Federal Comission of Communications) para impedir que a Fox use o slogan "equilibrada e justa". Também foram organizados boicotes aos patrocinadores da Fox.

Ainda hoje a cobertura do desembarque dos corpos dos soldados americanos mortos no Iraque é banida pelo Pentágono. A cobertura da mídia americana sobre a guerra teve um impacto impressionante na opinião pública, especialmente nos meses seguintes à ocupação. O apoio ao presidente Bush para que ele mantivesse sua política externa agressiva diminuiu gradativamente, resultando na perda do controle das duas casas do Congresso pelos republicanos nas eleições do início de novembro de 2006.

Um resumo editado do que escreveu Jim Lobe, da Inter Press Service, sobre as pesquisas que mediram o impacto da mídia na opinião pública, feitas alguns meses depois da ocupação do Iraque (o que aparece entre colchetes é meu):

"Quanto mais tevê comercial você assiste, maior é o risco de ter informações errôneas sobre questões-chave ligadas à invasão do Iraque e à ocupação americana, mostra um estudo divulgado em Washington. Quanto mais você assiste ao canal Fox News, de Rupert Murdoch, maior é a chance de ter percepções errôneas sobre a guerra, acrescenta o relatório do Programa de Opinião sobre Política Internacional, PIPA, da Universidade de Maryland.

Baseada em várias pesquisas de opinião nacionais, conduzidas pela Rede do Conhecimento, da Califórnia, a PIPA revelou que 48% dos entrevistados acreditam que tropas americanas descobriram ligações sólidas entre o governo de Saddam Hussein e a rede terrorista Alcáida, 22 por cento acreditam que foram encontradas armas de destruição em massa no Iraque e 25% acreditam que a opinião pública mundial apoiou a invasão americana. [As três afirmações são falsas]

O estudo pode incentivar o debate público e profissional sobre as razões que levaram a grande mídia americana, especialmente as emissoras de rádio e tevê, a não avaliarem com cuidado as alegações do governo Bush, feitas antes da guerra, especialmente sobre a existência de armas de destruição em massa no Iraque e sobre as ligações do país com a Alcáida.

Um de cada cinco entrevistados disse acreditar que os iraquianos usaram armas químicas ou biológicas contra tropas americanas, durante a ocupação. Para cada uma das percepções errôneas, o estudo descobriu grande diferença entre os telespectadores da Fox e os da Rádio Pública Nacional (NPR) e Sistema Público de Televisão (PBS).

Oitenta por cento dos telespectadores da Fox tinham pelo menos uma percepção errônea sobre a guerra, comparado com 23% dos ouvintes e telespectadores da NPR/PBS. Dos consumidores da mídia impressa, 47% tinham pelo menos uma percepção errônea.

Quarenta e cinco por cento dos telespectadores da Fox tinham as três percepções errôneas [que o Iraque tinha ligações com a Alcáida, que tinha armas de destruição em massa e que a opinião pública mundial apoiou os Estados Unidos]. Enquanto isso, entre os telespectadores das três redes [CBS, ABC e NBC] o número ficou entre 12 e 16%. Apenas 9% dos leitores de jornal acreditam nas três falsidades, enquanto só 4% dos ouvintes e telespectadores da NPR/PBS estão triplamente enganados.

Dos eleitores de George Bush, 78% dos que assistem a Fox acreditam na existência de ligações diretas entre o Iraque e a Alcáida, número que caiu para 50% entre os eleitores do presidente que se informaram pela NPR/PBS. Dados da pesquisa demonstram que as percepções errôneas sobre a guerra foram maiores justamente entre aqueles que tiveram maior acesso à mídia".

(Luiz Carlos Azenha) Publicado originalmente em 22 de novembro de 2006, atualizado em 11 de abril de 2008.