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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Documentário: A Escola das Américas

Documentário “Escola das Américas”, dirigido por John Smilhula


A partir de entrevistas com diversas autoridades, o cineasta Smilhula revela o funcionamento do centro de treinamento, por onde passaram mais de 62 mil oficiais militares latino-americanos, entre os quais torturadores que violaram direitos humanos em países como Brasil, Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai.

O filme conta a história desse centro de especialização de técnicas de tortura, desde sua criação no Panamá, em 1946, até a transferência, em 1977, para o Fort Benning, na Geórgia, onde recebeu a denominação de Instituto de Cooperação para a Segurança Hemisférica.


O documentário traz também comentários de Noam Chomsky, Eduardo Galeano, Michael Parenti e outros, sobre a política externa americana na América do Sul e América Latina, abordando a militarização, globalização, segurança nacional e o chamado terrorismo internacional.

Apresenta depoimentos pessoais de vítimas da violência e da repressão na América Latina e levanta questões e preocupações referentes aos verdadeiros objetivos da política externa americana na América do Sul e Latina.

Co-produzido por Andrés Thomas Conteris que por mais de 25 anos viaja através das Américas do Sul e Central em luta pela proteção de Direitos Humanos na região e contra as estratégias americanas de desestabilização política da região. Em Janeiro de 2005, recebeu o prêmio de Direitos Humanos pelas organizações de Honduras pelo seu trabalho denunciando o envolvimento de oficiais e políticos americanos nos esquadrões da morte em Honduras.

Em 2007, Conteris compareceu a Reunião do Senado americano para protestar contra a confirmação de John Negroponte como vice-Secretário de Estado. John Negroponte era no referido período Vice-Secretário de Estado, o segundo no comando de Condoleezza Rice no Departamento de Estado ds EUA. Seu cargo anterior no governo Bush havia sido o de Diretor de Inteligência Americana.

A participação de Negroponte na América do Sul e Central está diretamente ligada as atividades dos esquadrões do chamado Projeto Condor, responsável pelo assassinato de centenas de participantes de movimentos de esquerda na região. Também ligado a Escola da Américas, onde são treinados paramilitares envolvidos na tortura e assassinato de dissidentes. Recentemente a Escola das Amíricas mudou seu nome para “The Western Hemisphere Institute for Security Cooperation”.

Contribuição de Telma Alencar (Canadá).

Fonte Blog Controvérsias e Tita Ferreira

Leia também no site da Tita: Brasileiros graduados em tortura pela Escola da Américas

sábado, 6 de setembro de 2008

Regime militar do Brasil não teve sequer sanção histórica

Valéria Nader entrevista o historiador Mário Maestri
02-Set-2008

As propostas de revisão da anistia aos agentes do Estado que cometeram crimes, como a tortura e execução a sangue frio de presos e resistentes durante a ditadura militar, têm sido uma das discussões permanentes da pauta política atual.

Muitas visões têm polarizado essa discussão, desde aquelas que defendem que a Lei da Anistia abrange apenas delitos políticos e não a tortura e execução, crimes contra a humanidade, até aquelas que propõem que a revisão da anistia "ampla, geral e irrestrita" comportaria igualmente a revisão da anistia dos resistentes e combatentes à ditadura militar. A idéia do ‘revanchismo’, para, em nome da busca da punição de torturadores, desabonar as ações das forças armadas, também está presente nesse debate.

Para o professor e historiador Mário Maestri, no Brasil, ao contrário de outros países da América Latina, não se puniram os criminosos de Estado e nem mesmo se reconheceu a dívida com a resistência – esta última, um direito e dever inalienável. Ao contrário, "pretende-se que a Lei da Anistia ditada pelo regime militar para encobrir seus crimes mantenha-se após a dissolução do regime ditatorial e ilegal!".

Para o historiador, lutar pela punição dos criminosos de Estado e pela reparação histórica da resistência é lutar pela implantação de ordem social e jurídica democrática e prevenir intervenções autoritárias futuras em um país que dá crescentes mostras de militarização de sua sociedade.

Confira abaixo:

Correio da Cidadania: Como você avalia as propostas de revisão da anistia aos agentes do Estado que cometeram crimes, como a tortura e execução a sangue frio de presos e resistentes durante a ditadura militar?

Mário Maestri: O julgamento e a punição dos crimes de agentes civis e militares do Estado, contra os resistentes à ditadura militar, em 1964-85, são essenciais para a efetiva democratização do Brasil. Porém, trata-se de questão em geral abordada de forma parcial e aproximativa. Primeiro, e sobretudo, não se trata de simplesmente punir crimes de Estado, mais ou menos hediondos, contra homens e mulheres que combateram a ditadura. Por além das violências individuais, o regime militar foi agressão sistemática contra a população como um todo, com profundas conseqüências conjunturais e permanentes.

A ditadura não ensejou apenas arrocho salarial, desemprego, perseguições, torturas, mortes. Promoveu e facilitou transformações estruturais ainda plenamente vigentes na sociedade brasileira – perdas de conquistas, degradação dos salários, privatização da saúde, educação, segurança etc. A reparação, mesmo tardia e parcial desses crimes contra a população, exige o resgate do sentido histórico da ditadura e da luta contra ela e a restauração das conquistas e direitos perdidos. A punição de crimes de Estado como a tortura e execução de prisioneiros, imprescritíveis segundo a própria legislação internacional, é parte urgente e inarredável dessa reparação geral.

CC: Defende-se a punição dos torturadores, pois a Lei da Anistia abrange apenas delitos políticos e não a tortura e execução, crimes contra a humanidade. Porém, alguns propõem que a revisão da Anistia "ampla, geral e irrestrita" comportaria igualmente a revisão da anistia dos resistentes e combatentes à ditadura militar.

MM: Essa correspondência é uma indecência. O amálgama do agressor e agredido, vitimador e vítima, violentador e violentado, busca escamotear as responsabilidades dos criminosos. Os combatentes contra a ditadura militar, armados ou desarmados, não necessitam de anistia. Na Alemanha, Itália, África do Sul etc., os combatentes do nazismo, fascismo, racismo, também denominados de terroristas, jamais foram anistiados. Tiveram simplesmente o reconhecimento, nem que fosse póstumo, do sentido do combate empreendido. Os responsáveis pelos crimes de Estado, esses sim, foram julgados e, em alguns casos, anistiados, com liberalidade não raro vergonhosa.

As leis nazistas, fascistas e racistas caducaram quando aqueles regimes anti-populares foram derrotados. No Brasil não! Pretende-se que lei de anistia ditada pelo regime militar (ou à sua sombra) para encobrir seus crimes e criminalizar - ao anistiar como delitos o direito e dever inalienáveis de resistência contra a opressão - mantenha-se após a dissolução daquele regime ditatorial e ilegal!

Na Argentina, a revogação das leis "Obediência Devida", "Ponto Final" e dos indultos menemistas registra a falsidade jurídica desses diplomas. No Brasil, não se puniram os criminosos de Estado, como sequer se reconheceu a dívida com a resistência. O regime militar permanece sem sanção mesmo histórica, sendo cultuado e defendido nas escolas militares, quartéis, publicações civis e militares, em verdadeira apologia ao crime de Estado. Compreende-se porque em uma cidade como Porto Alegre, governada por longos anos pelo PT, importante avenida porta normalmente o nome do liberticida Castelo Branco!

CC: Conservadores propõem ser essa discussão ‘revanchismo’ para, em nome da busca da punição de torturadores, desabonar as ações das forças armadas.

MM: A ditadura militar foi ação de parcela da oficialidade das Forças Armadas, em nome das classes proprietárias e do imperialismo, contra a população, com destaque para a trabalhadora. Ação que, para se materializar, agrediu violentamente os homens mais dignos de suas próprias fileiras. Especialmente soldados, marinheiros, suboficiais e oficiais do Exército, Marinha, Aeronáutica e das forças estaduais estiveram entre os cidadãos mais vilmente vitimadas pelos esbirros da ditadura.

Esses soldados, suboficiais e oficiais são figuras luminares de nossa história, que necessitam ser resgatadas, pela sociedade e, oficialmente, pelo Estado, pois demonstram a possibilidade de Forças Armadas comprometidas com os destinos da população e da nação, em contexto de democratização política e social efetiva. Muitos membros atuais das Forças Armadas são os mais interessados na punição dos criminosos que mancharam suas fardas com crimes abomináveis.

Sou de família de militares: meu avô Argemiro foi general, ativo na Revolução de 30 e 32. Meu tio Luís, da FAB, foi talvez o último piloto abatido na Itália na luta contra o nazi-fascismo. Seu irmão, o tio Oly, teve que deixar o Exército após 1964, devido a seus princípios nacionalistas. Arrepia-me pensar que homens como esses sejam confundidos com torturadores, estupradores, ladrões e assassinos, impunes por cometerem seus crimes a serviço de Estado anti-popular, anti-nacional e anti-social. Temos que dar fim a essa história. Soldado é soldado. Torturador é bandido.

CC: Setores progressistas que discordam da proposta de revanchismo consideram inoportuna a forma e intensidade dessa discussão, considerando-se temas mais prementes e carentes de atenção.

MM: A punição dos criminosos de Estado e resgate da memória da resistência é questão urgentíssima. O amálgama entre criminosos e vítimas empreendido pelo parlamento da ditadura, desde 1979, para proteger seus criminosos e criminalizar o direito e dever de luta e resistência, como assinalado, foi fundamental para transição que manteve intocada o essencial das modificações promovidas pela ditadura, ao serviço do grande capital e imperialismo. Metamorfose que manteve na ativa e impunes os quadros civis e militares que feriram duramente os direitos inalienáveis da população brasileira em forma conjuntural e permanente.

CC: O resgate desse lado terrível da história do Brasil e a punição dos responsáveis por crimes contra a humanidade não são também uma forma de desestimular as ações de tortura e corrupção atuais no Brasil?

MM: Na Colônia, Império, República, o direito de fato do qual gozam as forças policiais de torturarem e matarem segmentos populares, envolvidos ou não na criminalidade, constitui parte integrante das formas autoritárias de gestão de trabalhadores e populares pelas classes dominantes. Uma tradição de violência e arbítrio semi-institucionalizada que permite que tal tratamento seja estendido quase normalmente aos opositores, mesmo com raízes sociais não populares, que questionem a ordem vigente, como ocorreu em 1964-1985. Lutar pela punição dos criminosos de Estado e pela reparação histórica da resistência é lutar pela implantação de ordem social e jurídica democrática.

É prevenção e profilaxia contra intervenções autoritárias futuras. Não é por nada que o ministro Jobim lembra que não temos que mexer nessas coisas da ditadura militar, do passado, pensando e olhando no "futuro".

CC: A partir de atos aparentemente desconexos vislumbra-se cenário de ‘militarização’ da sociedade e ‘subserviência’ do governo a esse cenário - reuniões do Clube Militar; ações do Ministério Público no RS; defesa da presença das Forças Armadas na Amazônia etc. Isso seria medo infundado sobre avanço do autoritarismo ou algo que pode ter repercussões para a nação?

MM: Após o fim da ditadura, as classes dominantes e todos os governos que se seguiram encobriram as responsabilidades e crimes da alta oficialidade nos anos de violência anti-popular e anti-nacional. Ainda assim, a idéia da intervenção militar no mundo civil conheceu surdo e profundo descrédito, devido ao tratamento ministrado à população e ao desastre econômico legado pela ditadura ao país.

As classes dominantes têm se esforçado sobremaneira para recompor a visão das Forças Armadas como instituição de sentido social, capaz de intervir em nome dos direitos da nação e da população. Trata-se de recomposição estratégica das possibilidades de intervenção civil das forças armadas em defesa dos privilégios, como ocorreu amiúde na nossa história. Operação que se dá através da obliteração da memória sobre a ditadura e convocação das forças militares para desempenharem funções socialmente simpáticas, que não lhe cabem institucionalmente, como o combate à criminalidade e a proteção policial do território nacional. Essas intervenções materializam a proposta que problemas sociais podem e devem ser resolvidos com a força de violência tida como positiva.

Essas operações têm se multiplicado nos últimos anos, com destaque para o cerco das favelas durante os jogos Pan-americanos; a ocupação militar do morro da Providência; a convocação das forças militares para manter a tranqüilidade durante as eleições etc. A mais ambiciosa operação de glamourização da intervenção militar no mundo civil ocorre fora do Brasil, promovida pelo governo petista, através da participação das Forças Armadas nacionais na ocupação militar do Haiti e na repressão de sua população, em resposta a pedido de Bush e do imperialismo estadunidense.

CC: Existiria protagonismo político do ministro da Justiça Tarso Genro ao retomar a discussão sobre essa questão?

MM:Ter retomado essa discussão foi ação positiva, ainda que tardia e limitadamente. Certamente se deveu a sua consciência de que será chamado a explicar-se por ter comandado ministério da Justiça de governo que literalmente nada fez quanto a essa questão determinante, ainda mais tendo sido, no passado, homem de esquerda, militante da Ala Vermelha do PC do B e dirigente do Partido Revolucionário Comunista. Sua falta de decisão nesse relativo é ainda mais sentida na aceitação passiva dos verdadeiros massacres à população realizados especialmente no Rio de Janeiro e São Paulo.

Creio que a ação tímida e tardia de Tarso Genro deveu-se também à pressão exercida pelos sucessos da Argentina, onde dezenas de militares estão sendo condenados, não raro duramente, por crimes congêneres. Também na Argentina, o Estado, sob pressão popular, tem reconhecido, ainda que parcialmente, o sentido histórico da resistência, em atos como a transformação em Museu da Memória em 2004, e agora em Monumento Histórico, do prédio da Escola de Mecânica da Armada, terrível centro de tortura e extermínio. Por que o ministro e o governo Lula da Silva não fazem o mesmo com a sede da Oban e com o Presídio Tiradentes em São Paulo e à sede do Cenimar, no Rio de Janeiro?

CC: Para encerrarmos com uma trivial analogia: o governo Lula representou avanço nessa abertura dos arquivos da ditadura em relação ao governo FHC? Existem forças nesse governo efetivamente dispostas ao enfrentamento da temática?

MM: Não deve causar surpresa a ignominiosa determinação do senhor Lula da Silva de que o governo fique fora do debate e de iniciativas sobre a punição dos criminosos da ditadura, que corresponderiam apenas ao Poder Judiciário, prontamente aceita pelo ministro da Justiça. Enviar a iniciativa para a alçada da Justiça é enterrar a questão.

Apesar de não serem poucos juízes e magistrados preocupados com a Justiça, com a população e com a nação, não podemos e não devemos esperar nada do sistema judiciário como instituição enquanto não houver uma profunda democratização em seu sentido social.Na Colônia, Império e República, ela foi sempre instituição surda às necessidades e sofrimentos populares, a serviço das classes proprietárias e endinheiradas brasileiras.

Lula da Silva sequer tem memória a preservar, pois não mentiu quando, no início de seu governo, afirmou que "nunca" fora de "esquerda". Nos fatos, foi precisamente por jamais ter participado da resistência à ditadura que ele se encontrava à frente do Sindicato dos Metalúrgicos, em meados dos anos 1970, quando da reação do movimento sindical brasileiro. O atual governo, seu presidente e seus ministros, por além de questões de estilo e de intensidade, são gestores de Estado historicamente voltado aos interesses das classes proprietárias.

Seis anos após entronizado, o atual governo não fez nada de essencial no sentido da punição dos criminosos de Estado e da restauração da memória da resistência à ditadura do grande capital por vinte anos no Brasil, prosseguindo na manutenção do silêncio sobre o sentido da ditadura, de seus crimes, da continuidade de homens e de instituições nos dias de hoje.

Em um sentido social e histórico, as violências da ditadura contra o povo e a nação foram cometidas em defesa e obediência das mesmas forças que mantêm o poder e se mantêm no governo. Cabe ao povo e aos homens de bem a mobilização pela punição dos crimes de Estado, pelo desvelamento do sentido dos sucessos da ditadura e contra suas permanências no presente. A luta entre a impunidade e a reparação, entre a memória e o esquecimento, é luta pelos destinos de nossa sociedade e nação.

Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania.

domingo, 24 de agosto de 2008

Circo ou hospício? Ainda o debate sobre a lei da Anistia

(Quadrinho de Carlos Latuff, clique na imagem para ampliar)

Leandro Fortes, na CARTA CAPITAL

22/08/2008


Na tarde de 7 de agosto, a voz pastosa do general Gilberto Barbosa de Figueiredo pairou sobre a platéia de 600 espectadores espremidos no Salão Nobre do Clube Militar, no Rio de Janeiro. Presidente da entidade, Figueiredo havia organizado um ato em protesto contra a possibilidade de contestação da Lei da Anistia e abertura de processos contra os repressores da ditadura. Poucos dias antes, o ministro da Justiça, Tarso Genro, e o secretário especial de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, haviam defendido a punição a torturadores a serviço do Estado.

A primeira parte do convescote, com a apresentação do tema da discussão e a íntegra das falas de três palestrantes convidados, foi gravada pela direção do Clube Militar e, posteriormente, registrada em um CD com 133 minutos de duração. CartaCapital teve acesso a este material. Entre cômicas e trágicas, as intervenções ecoam aquele espírito que precedeu as casernas às vésperas do golpe de 1964.
(Cartum de Carlos Latuff)

Foi um festival de louvores ao autoritarismo, defesa explícita do golpismo e os mais rotos chavões a respeito do “perigo comunista”. Os palestrantes – um general, um pecuarista e um ex-ministro do Superior Tribunal de Justiça – conseguiram transformar a centenária confraria militar, instalada no número 251 da avenida Rio Branco, numa espécie de hospício para traumatizados da Guerra Fria.

Confira agora alguns trechos selecionados do discurso dos militares, que mostram o que a caserna brasileira pensa realmente sobre a abertura dos arquivos da ditadura e a punição aos torturadores.

“A anistia de 1979 não era para idealistas que rompiam com a legalidade na esperança de um país melhor. Era anistia para marxistas, marxistas-leninistas, revolucionários maus, perversos, que não perdoam a derrota”. (General Sérgio Augusto Coutinho, ex-chefe do CIE)

“O coronel Brilhante Ustra é o alvo enigmático (sic) da tortura no Brasil”. (General Coutinho)

“O revanchismo não é só um prazer de quem faz, porque esse prazer é de uma pessoa que é um revolucionário, que é um marxista-leninista, e, portanto, ele tem ainda um sonho, o sonho do socialismo do proletariado”. (General Coutinho, provavelmente se referindo ao ministro Tarso Genro ou ao presidente Lula)

“Mudar a cabeça dos nossos oficiais, acostumá-los a conviver com o contraditório, a adquirir o senso comum, a um passo, portanto, de fazer o consenso com a revolução socialista”. (General Coutinho, ao revelar o plano da esquerda, em andamento, para “permear” ideologicamente os militares brasileiros)

“O revanchismo satisfaz o ego do revanchista, mas, na verdade, está abrindo o caminho da revolução (socialista). Há, no Brasil, um processo revolucionário socialista em curso, sutil e mascarado, com aparência democrática, espalhando a violação dos princípios básicos do Direito”. (General Coutinho, ressurgido da Guerra Fria)

“Eleições são meros mecanismos de escolha, o Vaticano e o Comando Vermelho (organização criminosa dos morros cariocas) têm os seus. Eleições, isoladamente, não garantem a democracia”. (Antônio José Ribas Paiva, advogado da UDR, porta-voz civil do golpe, na reunião do Clube Militar)

“O pessoal que hoje se insurge contra a lei que os beneficiou estava fora do País, não estava nem trabalhando. Estavam (sic) vivendo às custas de dinheiro da conspiração internacional”. (Ribas Paiva, sobre o que ele alega ser a ingratidão da esquerda com a Lei da Anistia)

“A nação brasileira estava trabalhando e pensou neles: ‘será que esses brasileiros, (será) que talvez tenham se emendado?’. Talvez seja interessante a pacificação, a exemplo do que fazia Caxias. Mas hoje estão no Congresso nacional e não aprenderam nada. Desprezam o benefício que a nação lhes concedeu”. (Ribas Paiva, sobre os anistiados, atualmente, com mandato parlamentar)

“Quem coordenou a guerrilha e o terrorismo foi o ETA, único grupo terrorista especializado em guerrilha urbana; quem explodiu a sede do Ministério Público foi o IRA, que tem conhecimento de engenharia militar com nitroglicerina; e as Farc executaram as pessoas, as concentrações de tiros com armas automáticas evidenciam a experiência de combate. A esquerda radical e revolucionária no poder sentiu-se ameaçada por algum motivo, e lançou o terrorismo, novamente”. (Ribas Paiva, corrigindo a informação oficial de que, em maio de 2006, foi o governo federal, e não o PCC, o responsável pelos ataques à cidade de São Paulo)

“Ou ele desapeia do cavalo, ou monta direito, porque senão vamos tirá-lo de lá. Ou sai pelo voto, ou sai porque nós vamos para a praça pública, em frente ao Palácio do Planalto, fazer comício lá também, não é só sem-terra não. Vou levar o Rotary (Club), vou levar a maçonaria e gritar ‘fora com os golpistas, fora com os golpistas!’”. (Waldemar Zveiter, ex-ministro do STJ, sobre como pretende convencer o ministro da Justiça, Tarso Genro, a não mexer na Lei da Anistia)

“Na Polônia, elegeram um metalúrgico, fez (sic) a experiência. Mas os poloneses tiveram inteligência suficiente de elegê-lo uma única vez e nunca mais! Aqui, demos um exemplo magnífico para a história dos povos e elegemos um metalúrgico, inclusive com o charme de falar (sic) com quatro dedos. Não tivemos a sabedoria dos poloneses e o reelegemos. A culpa é nossa, temos que aturar. Mas o mandato é certo, no final, vão sair. O presidente, o ministério e toda a turma que subiu com ele vai ficar (sic) nos seus devidos lugares. Ele será, sem dúvida nenhuma, um excelente presidente de sindicato, isso, provavelmente, dos metalúrgicos. Se for dos professores, vai meter os pés pelas mãos, como está metendo no governo”. (Zveiter, tropeçando no português, zombando da deficiência física do presidente Lula e insuflando o preconceito de classe, sob aplausos e gargalhadas, no Clube Militar)

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Ronaldo Dutra Machado, presente!


História
Edileuza Pimenta
Flamenguista e mangueirense, nascido no Rio de Janeiro em 23 de agosto de 1948, Ronaldo Dutra Machado era um típico jovem carioca de classe média em 1964, quando houve o golpe civil-militar que mergulhou o país num período de vinte anos de censura, repressão, tortura e morte. Guerrilheiro da Ação Libertadora Nacional, organização de luta armada cujo maior líder foi Carlos Marighella, Ronaldo foi preso, vivenciou a tortura em sua forma mais brutal, sobreviveu ao cárcere, foi banido, experimentou um longo exílio, voltou ao país e, em sua morte, já no período supostamente democrático, foi enterrado como indigente, como se tivesse voltado aos velhos anos de chumbo, como se fosse vítima de um revanchismo por parte das Forças Armadas que no passado combatera.

Ronaldo era muito culto e desde cedo se considerava de esquerda. As manifestações de estudantes a partir de 1968 contribuíram para que ele se engajasse de forma definitiva na oposição contra o regime militar, tendo participado da segurança de muitas passeatas, como a dos cem mil, além de ter trabalhado na organização do Congresso de Ibiúna. Nesse período, estudava no Colégio Mallet Soares e tinha um grupo de amigos que se organizavam em torno de um jornal que denominavam "Verdade", uma homenagem a um veículo de nome correspondente, o Pravda, da URSS. Esse grupo era composto por Carlos Eduardo Fayal de Lira, Newton Leão Duarte, Paulo Henrique Oliveira da Rocha Lins, Flávio Molina, Frederico Eduardo Mayr, entre outros, que em pouco tempo se constituíram como um dos Grupos Táticos Armados (GTAs) da ALN no Rio de Janeiro, ao qual se integraram militantes como Jorge Raimundo Júnior. Segundo Newton Leão, nesse grupo "Ronaldo era a vanguarda, ele sempre foi o articulador, era uma liderança aglutinando aquele grupo". Quando veio o vestibular, Newton foi cursar Engenharia, Fayal, odontologia, cada um do grupo resolveu seguir uma carreira e Ronaldo escolheu História, chegando a ingressar na Universidade Federal Fluminense.

Com atuação destacada como guerrilheiro, Ronaldo foi designado pelo próprio Marighella para coordenar as ações da ALN no Nordeste, especialmente em Pernambuco, para onde foi deslocado em meados de 1969. Embora atuasse prioritariamente nesse estado desde então, Ronaldo também participou de ações armadas no Ceará e novamente no Rio de Janeiro. Foi preso em Recife, em março de 1970. As circunstâncias de sua prisão são inusitadas: Ronaldo contou a seu irmão, Alfredo Carlos, mais conhecido como Fadola, que estava almoçando em um bar sem perceber que as armas que carregava em seus bolsos traseiros estavam à mostra; o dono do estabelecimento, pensando que Ronaldo era um bandido, chamou a polícia; o guerrilheiro se fez passar por "puxador" de carros até descobrirem que ele portava um texto do Marighella em francês. Foi solto três meses depois, por estar entre os quarenta presos libertados em troca do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben, seqüestrado em junho daquele mesmo ano por um comando conjunto da ALN e da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).

Mais do que solto, Ronaldo foi banido e experimentou um longo exílio de dez anos. Primeiro foi para a Argélia, destino inicial dos quarenta, depois para Cuba, estabelecendo-se, por fim, no Chile de Salvador Allende. Como internacionalista que era, Ronaldo integrou-se ao MIR (Movimiento de Izquierda Revolucionário) chileno, e estava entre os que resistiram ao golpe de 11 de setembro de 1973, que matou o presidente da Unidade Popular e empossou o ditador Pinochet. Vencida a resistência ao golpe, Ronaldo pulou o muro da embaixada do Panamá, mas, como revolucionário incansável que era, partiu para Portugal em abril de 1974 tão logo recebeu a notícia da Revolução dos Cravos, pois também queria integrar esse processo.

O ano de 1974 foi quando a ALN vivia seu fim e Ronaldo foi começar a refazer sua vida pessoal, chegando a casar-se com uma portuguesa, mas nunca teve filhos. Ainda nesse país, em 1979, Ronaldo foi um dos signatários da Carta de Lisboa, que fundou o Partido Democrático Trabalhista (PDT), sendo célebre os fortes laços que manteve com Leonel Brizola.

Mesmo considerando-se que ficou preso por um curto período, Ronaldo foi submetido a bárbaras torturas, das quais nunca se recuperou. Além da questão física, com o agravamento, devido ao pau-de-arara, de problemas de coluna que ele carregava desde pequeno, Ronaldo passou a ser vítima de depressões profundas, quadro que se agravou mais nesse período, de fim do exílio; quando voltou ao Brasil, em 1980, ele não era mais o mesmo. Sua família e seus amigos mais próximos passaram grande parte da década tentando ajudá-lo a se recuperar de seus altos e baixos, que incluíam, até, alguns episódios em que ele achava que estava sendo perseguido. Ronaldo era o novo frei Tito, aparentemente menos dramático, mas tão afetado quanto, pelas torturas, com a diferença de que não pretendia tirar a própria vida, o que, entretanto, fazia lentamente, pois passou a fumar de forma compulsiva e não deixava de beber mesmo tomando uma série de remédios.

É nesse quadro que sua família recebeu com apreensão, em 1993, a notícia de que ele queria ir para Rondônia. Nessa época, Ronaldo trabalhava na Riotur, mas aceitou o convite de emprego de seu antigo companheiro, José Calistrato Cardoso Filho, também ex-guerrilheiro, que conheceu em Recife. Chegou - com muitos projetos - em Porto Velho, no mês de agosto, para conhecer o lugar onde pretendia se estabelecer.

Na tarde do dia 20 de setembro, Ronaldo Dutra Machado, também conhecido como "Maninho", passou mal na rua, tendo, provavelmente, sofrido um infarto, e foi socorrido por policiais que o encaminharam a um hospital, no qual veio a falecer na noite desse mesmo dia. Na manhã seguinte, seu corpo foi encaminhado à funerária Dom Bosco, cujos funcionários, analisando os documentos do recém-falecido, viram que sua carteira de identidade havia sido expedida pela Marinha do Brasil (o pai, Alfredo Machado, era capitão-de-fragata, tendo sido reformado em 1969).

Então, a providência da funerária foi comunicar o fato à Capitania dos Portos de Rondônia, que alega ter entrado em contato com a família e, por não ter encontrado nenhum responsável por Ronaldo, ordenou que o enterrassem como indigente. É evidente a ilegalidade, a negligência e a má fé do ato cometido pelos militares da referida Capitania: enterrou como indigente alguém que portava todos os seus documentos, registro do hotel em que estava hospedado e cartões de visita com endereço de várias pessoas daquela região, inclusive de Calistrato, acrescido do fato de que o enterro foi feito sem que o corpo antes passasse pelo IML.

Após alguns dias sem saber de seu paradeiro, registrou-se o desespero da família e dos companheiros do ex-guerrilheiro a fim de encontrá-lo, até receberem a revoltante notícia, a qual seguiu-se a correta identificação do corpo ainda em Porto Velho e uma corrida aos jornais, além de ofícios enviados a autoridades militares denunciando a situação absurda da qual foram vítimas.

Essa história está sendo contada porque dela tomei conhecimento recentemente, ao conhecer o irmão de Ronaldo, Fadola. A revolta diante dos militares, que mesmo num regime supostamente democrático continuam cometendo arbitrariedades, e o desejo e a necessidade de fazer justiça trazendo à memória das novas gerações a vida e a trajetória desse ex-guerrilheiro, trouxe à tona a idéia de fazer o translado de seus restos mortais para o Rio de Janeiro, acompanhado de uma cerimônia e de um ato de resistência no dia 23 de agosto, quando Ronaldo completaria 60 anos.

Mais uma vez, entretanto, ocultou-se, senão seu corpo, agora seus restos mortais. Cuidando dos procedimentos administrativos para o translado, Fadola descobriu, desafortunadamente, que os restos mortais de Ronaldo Dutra Machado foram exumados em 1998, levados para um ossário onde permaneceram por mais três anos e, depois, o cemitério, através de uma autorização judicial, doou-os para uma universidade de Medicina. Legalmente ou não, mais uma vez tudo ocorreu sem nenhum aviso à família.

Porém, Ronaldo permanece no meio de nós, por sua trajetória, que nunca deverá ser esquecida. Permanece no meio de nós pelo guerrilheiro firme e combativo que foi, imprimindo, de forma definitiva, sua importância à história da Ação Libertadora Nacional. Permanece no meio de nós pela herança de suas idéias, semeadas em todos os lugares pelos quais passou, pois sua vida sempre foi permeada pela máxima de Carlos Marighella de que não é preciso pedir licença para praticar atos revolucionários.

Ronaldo Dutra Machado, presente!

31-07-2008.

Edileuza Pimenta de Lima é historiadora.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

REFLEXÕES SOBRE CRIMES IMPRESCRITÍVEIS

Temos uma ferida aberta, provocada pelas dores do período da ditadura militar. Temos grandes dificuldades para lidar com a memória e a história daquele período, pois muitos dos protagonistas estão vivos.

Mas não podemos nos furtar de discutir esse período, principalmente, o estabelecimento do Estado de Terror que fez uso da tortura contra seus inimigos políticos, os cidadãos brasileiros que se opuseram aos militares.

No vídeo abaixo que registra a manifestação de estudantes e do grupo Tortura Nunca Mais em frente ao Clube Militar no Rio de Janeiro, preste atenção na fala final do deputado
federal Jair Bolsonaro (PP) que afirma: "O erro foi torturar e não matar" A reação para lá de desrespeitosa diante dos familiares dos desaparecidos deste deputado mostra como se consideram inatingíveis.




Mario Augusto Jakobsind*

No momento em que no Brasil se discute a questão da punição ou não de torturadores dos anos de chumbo, sobretudo em função dos recentes pronunciamentos dos Ministros Tarso Genro, da Justiça, e Paulo Vanucchi, da Secretaria dos Direitos Humanos, e a contrapartida em uma reunião de antigos apoiadores militares do golpe de 64, vale a pena saber o que está acontecendo entre os vizinhos do Cone Sul.

Na Argentina nestes dias, por exemplo, foi preso, na província de Buenos Aires, um cidadão de nome Nelson Bardesio, um ex-policíal, agente da CIA estadunidense e integrante do esquadrão da morte uruguaio, que agia no início dos anos 70, responsável por vários assassinatos, torturas, desaparecimentos e atentados. A Justiça uruguaia que investiga o desaparecimento do jovem Héctor Castagnetto, no início de 1972, pediu a extradição de Bardesio.

Para se ter uma idéia dos antecedentes deste personagem, vale lembrar que no início dos anos 70 ele tinha sido pego pelo grupo armado uruguaio Tupamaros e, depois de interrogado, confessou uma série de crimes cometidos. Os Tupamaros então tornaram públicas as confissões e o libertaram.

Além de integrar os esquadrões da morte, que funcionavam coordenados com a polícia, e na qualidade de fotógrafo da corporação, Bardesio agia no Aeroporto de Carrasco tirando fotos de viajantes suspeitos de serem de esquerda. O material recolhido era encaminhado ao escitório da CIA em Montevidéu, onde circulou também um tal de Dan Mitrione, agente estadunidense especializado em torturas* que acabou sendo julgado e condenado a morte pelos Tupamaros.

Documentos da CIA recentemente tornados públicos, além de confirmarem o que Bardesio tinha confessado aos Tupamaros, mostraram também que os esquadrões da morte contaram com a colaboração de policiais uruguaios e dos serviços de inteligência de Argentina, Brasil e Paraguai, na chamada Operação Cóndor. Os documentos evidenciam ainda que vários outros policiais dos esquadrões da morte eram também agentes da CIA e que os Estados Unidos financiavam o grupo terrorista institucional.

A CIA deu proteção a Bardesio levando-o para os Estados Unidos, onde se manteve praticamente oculto todos estes anos. Imaginando que a impunidade prevaleceria, sobretudo depois de mais de 30 anos de atividades criminosas, Bardesio viajou para a Argentina, onde acabou sendo descoberto por uma equipe de jornalistas investigativos do semanário uruguaio Brecha.

Neste momento, está para ser decidida a extradição deste ex-membro dos esquadrões da morte para o Uruguai, porque a Justiça daquele país considera que crimes como os que foram cometidos pelo ex-agente da CIA são imprescritíveis. Ou seja, devem ser julgados em qualquer época, independente de quando as violações dos direitos humanos tenham sido cometidas.

Protegido que foi pela CIA, Bardesio conseguiu a cidadania estadunidense, mas a legislação uruguaia confirma a nacionalidade dos que tenham nascido no país, independente se adquiriram outra nacionalidade. A questão está sendo analisada no pedido de extradição e dependerá da intepretação da Justiça argentina, cuja legislação prevê também que a nacionalidade se define onde o cidadão nasceu.

É isso aí, enquanto no Uruguai, na Argentina e no Chile a Justiça julga crimes de assassinatos e torturas cometidas por civis e militares naquele período ditatorial, nas terras brasileiras, além de a discussão sobre crimes imprescritíveis estar praticamente começando, em vez de se mostrar que as histórias hediondas daquele período não foram fatos isolados ou de responsabilidade de “gente que se excedeu”, como querem alguns, é preciso deixar claro que o sistema implantado pelos militares, com apoio de empresários e políticos, foi o responsável pelo que aconteceu. Ou seja, este mecanismo, como no Chile, na Argentina e no Uruguai, teve a responsabilidade de altas patentes, sejam militares ou civis, que geriam o sistema implantado pela força. O julgamento da história deve ser implacável. Mas nada de punir ou julgar os peixes pequenos e deixar soltos os que ordenararam as torturas e assassinatos.

Em suma: a tortura era uma política de Estado que teve apoio da CIA e não ocorreu por excessos individuais.

(*) Mitrione foi condecorado pela polícia de Belo Horizonte onde ensinou a torturar presos políticos


*Mario Augusto Jakobsind: É correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor de Internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do semanário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América Que não Está na Mídia, Dossiê Tim Lopes- Fantástico/Ibope.

sábado, 9 de agosto de 2008

O ACERTO DAS CONTAS DO PASSADO e outros textos sobre ditadura, repressão, anistia e reparação

Celso Lungaretti (*)

O mérito do audiência pública promovida no último dia 31 (julho de 2008) pelo Ministério da Justiça foi abrir o debate sobre a punição dos responsáveis pelas atrocidades cometidas na última ditadura.

Como sempre, há gente demais falando coisas demais ao mesmo tempo, o que acaba confundindo o cidadão comum. Vamos sistematizar a discussão:

· conspiradores militares e civis deram um golpe de estado contra o governo legítimo do presidente João Goulart em 1964, usurpando o poder e submetendo o Legislativo e o Judiciário à vontade do Executivo;

· a ditadura de 1964/85 foi responsável por arbitrariedades, truculência, torturas e assassinatos desde o início, mas em escala bem menor no período de 1964/67, até por não ter enfrentado, de imediato, uma resistência mais efetiva por parte da esquerda e dos democratas;

· a partir de 1968, quando ressurgem os movimentos de massa, a escalada repressiva foi se acentuando cada vez mais, com a generalização das torturas e o aumento dos casos de assassinato (repressão “oficial”), além das intimidações e atentados cometidos impunemente pelas organizações para-militares de extrema-direita (repressão “oficiosa”);

· em 1968, umas poucas dezenas de militantes de esquerda começaram a confrontar a ditadura por meio da luta armada, assaltando bancos, lojas de armas e pedreiras, cometendo atentados com explosivos, etc.;

· a assinatura do AI-5, em dezembro de 1968, radicalizou ao máximo o regime de exceção, concedendo ao aparato repressivo poderes ilimitados;

· com o País submetido ao terrorismo de estado, os movimentos de massas e outras formas de resistência pacífica se tornaram suicidas (para os que teimavam em continuar atuando de peito aberto), ou inócuas (caso, p. ex., do abandono de panfletos nos banheiros de locais de trabalho, escolas e casas de espetáculo);

· foi quando a luta armada passou para o primeiro plano na resistência à ditadura, com os partidos e organizações guerrilheiros recebendo a adesão de um considerável número de cidadãos antes dedicados aos movimentos de massa;

· ao final de 1970 a guerrilha já estava militar e politicamente derrotada, passando então a repressão a exterminar sistematicamente os últimos combatentes, inclusive prendendo-os com vida, levando-os a centros clandestinos de tortura, executando-os depois de arrancar-lhes as informações que possuíam (ou de concluírem que nada falariam) e dando sumiço em seus restos mortais;

· a Lei da Anistia de 1979, promulgada ainda sob regime de exceção, constituiu-se numa imposição dos vencedores aos vencidos, já que a contrapartida da libertação de presos políticos e da permissão de volta dos exilados foi a colocação das barbaridades praticadas pelos agentes do estado fora do alcance da Justiça.

Este é o tabuleiro. Vejamos, agora, os movimentos das peças.

A esquerda e uma ala do Governo Lula querem o levantamento do embargo às punições de torturadores. Mas, ainda não sabem exatamente como proceder: revogando ou contornando a anistia de 1979.

O ministro da Justiça Tarso Genro sustenta que tal lei cobriu apenas as práticas policiais legalizadas; quem torturou e executou resistentes, teria extrapolado os poderes que lhe foram concedidos pela própria legislação de exceção, cometendo crimes comuns pelos quais deve responder individualmente.

É uma tese conveniente, mas falaciosa. Evidentemente, o AI-5 não iria ao cúmulo de consignar que “ficam autorizados a tortura e o assassinato de subversivos”, mas era isto que se lia nas entrelinhas, começando pela suspensão dos habeas-corpus para os ditos “crimes políticos”.

Têm razão os militares que alegam ter cumprido ordens. Toda a cadeia de comando, desde o presidente da República até o mais ínfimo cabo da guarda, compactou com as práticas hediondas e com o extermínio de resistentes.

O contra-ataque dos militares da ativa e (principalmente) da reserva que, por terem cometido, endossado ou se omitido face às atrocidades, esforçam-se para mantê-las impunes, será óbvio: acusar de crimes comuns os ex-guerrilheiros, principalmente os que hoje integram o Governo Lula. É o que os sites de extrema-direita já vêm fazendo há tempos.

Então, se houver real empenho oficial no sentido de que o Brasil siga os passos da Argentina, Chile e Uruguai, de nada vai adiantar a tentativa de contornar a Lei da Anistia, pois acabaremos desembocando na mesma situação que se quer evitar. Melhor adotarmos logo a solução mais apropriada e digna: revogá-la.

É claro que tal decisão não poderá ser tomada pelos ministros da Justiça e dos Direitos Humanos, enquanto o da Defesa aglutina seus opositores. O Governo Lula, como um todo, deverá assumi-la e responder por ela.

REGRA, E NÃO EXCEÇÃO – E a quem, afinal, processar-se, se tais crimes eram regra e não exceção nos anos de chumbo?

Pinçar alguns torturadores-símbolo para pagarem por todos os criminosos têm o inconveniente maior de não passar realmente esse período a limpo. E o menor, mas não desprezível, de dar aos ditos cujos um poderoso argumento jurídico: o de estarem servindo como bodes expiatórios de algo que se constituiu, na verdade, numa política de estado. Será mais ou menos esta, aliás, a linha de defesa de Brilhante Ustra nas ações a que já está respondendo na Justiça Civil.

Aqui também a melhor opção é agirmos corretamente, como fizeram os países sul-americanos mais adiantados nesse acerto das contas do passado: levarmos aos tribunais não só os executores, mas também os mandantes.

Os ditadores do período já estão todos mortos, mas restam, seguramente, altos comandantes militares que, por decisão ou omissão, respaldaram a repressão bestial.

E não se pode esquecer que, se um Ustra ou um Curió são responsáveis respectivos pelos crimes cometidos num Estado e num palco de luta, os signatários do Ato Institucional nº 5 deram sinal verde para a totalidade dos crimes perpetrados em todo o território nacional, tendo responsabilidade imensa pelas atrocidades do período.

Quanto aos ex-guerrilheiros, é justo e praticamente inevitável que percam a proteção automática da Lei da Anistia. Mas, já não seria sem tempo uma definição inequívoca do Estado brasileiro acerca daqueles que exerceram, em nosso país, o direito milenar de resistência à tirania, travando uma luta heróica, em terrível desigualdade de forças.

A extrema-direita pretende, p. ex., que os assaltos a bancos e seqüestros de diplomatas, plenamente justificáveis numa luta de resistência (para prover os clandestinos dos recursos que não poderiam obter por vias legais e sem os quais seriam logo aniquilados, no primeiro caso; e para salvar os companheiros presos das torturas e de possíveis execuções, no segundo) sejam tipificados como crimes comuns. Isto deve ser enfatica e definitivamente rechaçado.

Quanto aos que incorreram em excessos inadmissíveis, como demonstrações gratuitas de força, devem, sim, responder por seus atos.

Mas, como os Inquéritos Policiais-Militares do período foram contaminados pela prática generalizada da tortura e as auditorias militares não passavam de tribunais de exceção aplicando uma legislação de exceção, todo esse acervo autoritário, à luz do Direito civilizado, só cabe num lugar: a lixeira da História.

Os acusados desses excessos têm o direito de se defenderem segundo as regras de uma democracia, com os processos começando do zero, pois nada do que foi feito durante a ditadura é juridicamente aceitável.

E, claro, as penas que quase todos já cumpriram terão de ser computadas.

O mais provável é que, passando isto também a limpo, só alguns gatos pingados sejam encarcerados, e por pouco tempo. Já os ganhos moral e político serão incomensuráveis.

Na Nova República, muito se falou em passar o Brasil a limpo, mas faltou vontade política (e – por que não dizer? – coragem) para tanto.

Temos agora uma nova oportunidade de fechar com dignidade essa página trágica de nossa História, para podermos seguir adiante sem sermos a cada momento assombrados pelos fantasmas do passado.

Mas, só a aproveitaremos se colocarmos nosso senso de Justiça acima dos receios, interesses, conveniências e cálculos mesquinhos.


CABO ANSELMO: “CACHORRO” FAZ JUS À ANISTIA?

Celso Lungaretti (*)

A Comissão de Anistia do Ministério da Justiça está às voltas com o processo mais rumoroso em seus sete anos de existência: o de José Anselmo dos Santos, conhecido como cabo Anselmo, embora tenha sido apenas marinheiro de primeira classe. Trata-se do mais célebre dos militantes da resistência à ditadura militar que, no jargão dos próprios órgãos de segurança, atuaram como cachorros da repressão, armando ciladas para os companheiros.

O cabo Anselmo foi o principal agitador da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil no período que antecedeu a quartelada de 1964. Depois do golpe, passou vários anos foragido, esteve em Cuba treinando guerrilha e, de regresso ao Brasil, militou na luta armada contra o regime militar, ao mesmo tempo em que colaborava sub-repticiamente com a repressão da ditadura, atraindo seus companheiros para emboscadas.

Eis como Élio Gaspari relatou, em A Ditadura Escancarada, uma de suas missões:
– A última operação de Anselmo, na primeira semana de janeiro de 1973, (...) resultou numa das maiores e mais cruéis chacinas da ditadura. Um combinado de oficiais do GTE e do DOPS paulista matou, no Recife, seis quadros da VPR. Capturados em pelo menos quatro lugares diferentes, apareceram numa pobre chácara da periferia. Lá, segundo a versão oficial, deu-se um tiroteio (...). Os mortos da VPR teriam disparado dezoito tiros, sem acertar um só. Receberam 26, catorze na cabeça. (...) A advogada Mércia de Albuquerque Ferreira viu os cadáveres no necrotério. Estavam brutalmente desfigurados.

Quando seu verdadeiro papel ficou evidenciado, ele passou a viver sob a proteção dos órgãos de segurança, que lhe proveram remuneração e fachada legal sob identidade falsa. De vez em quando, para aumentar os ganhos, concedia entrevistas que foram publicadas com destaque na grande imprensa e até viraram livros.

O processo do cabo Anselmo, que tramita desde 2004 na Comissão de Anistia, será julgado dentro de aproximadamente dois meses, segundo informação que a colunista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, colheu do presidente do colegiado Paulo Abrão Pires Jr.

Estigma da infâmia – O programa foi criado para oferecer reparações àqueles que sofreram danos físicos, psicológicos, morais e profissionais em decorrência do estado de exceção vigente no Brasil entre 1964 e 1985.

Conseqüentemente, caso o cabo Anselmo tenha sido um militante revolucionário até meados de 1971, só então mudando de lado, sua vida foi mesmo afetada pelo arbítrio instaurado no País, a despeito do juízo moral que façamos de quem chegou a se vangloriar de haver causado a morte de "cem, duzentos" idealistas que combatiam a ditadura e o tinham como companheiro.

Ou seja, se o poder não tivesse sido usurpado por um grupo de conspiradores em 1964, o cabo Anselmo continuaria presumivelmente servindo a Marinha, ao invés de se tornar um homem que há décadas carrega o estigma da infâmia e precisa viver escondido no próprio país. Daí o seu direito formal à reparação que está pleiteando.

No entanto, a anistia federal foi uma tentativa de re-equilibrar os pratos da balança, depois que a Lei da Anistia de 1979 passou uma borracha no passado, equiparando carrascos e vítimas.

Naquele momento, os vitoriosos impuseram aos vencidos as condições para a pacificação: libertariam presos políticos e deixariam os exilados retornarem ao País, desde que os assassinatos, torturas e atrocidades cometidos ou consentidos pela ditadura ficassem para sempre fora do alcance da Justiça.

O Governo FHC, não podendo ou não ousando remediar essa situação, resolveu, pelo menos, remendá-la, concedendo compensações financeiras aos humilhados e ofendidos.

Vilãos e vítimas – Daí o mal-estar causado pela impudência com que o cabo Anselmo pleiteou benefício de vítima, após ter sido um dos maiores vilãos do período. Do ponto-de-vista moral, é chocante vermos um ser tão decaído lado a lado com cidadãos dignos e sofridos; do ponto-de-vista legal, provavelmente não há como expulsar esse estranho do ninho.

A menos, claro, que se consiga comprovar a tese sustentada por vários de seus ex-colegas da Armada: a de que o cabo Anselmo desde o primeiro momento serviu à comunidade de informações, como agente infiltrado nos movimentos de esquerda.

Alegam, primeiramente, que ele tudo fez para radicalizar os movimentos dos subalternos das Forças Armadas – fator decisivo para que a oficialidade decidisse quebrar seu juramento de fidelidade à Constituição, passando a apoiar os conspiradores.

Logo após o golpe, Anselmo pediu asilo na embaixada mexicana. Mas, embora fosse uma das pessoas mais procuradas do País, resolveu sair andando de lá, sem ser detido.

Algum tempo depois foi preso, exibido como troféu pela ditadura... e logo transferido para uma delegacia de bairro, na qual, diz Gaspari, “Anselmo fazia serviços de telefonista, escrivão e assistente do único detetive do lugar”.

A situação carcerária do ex-marujo, continua Gaspari, não cessou de melhorar: “Com as regalias ampliadas, era-lhe permitido ir à cidade. Numa ocasião surpreendeu o ministro-conselheiro da embaixada do Chile, visitando-o no escritório e pedindo-lhe asilo. Quando o diplomata lhe perguntou o que fazia em liberdade, respondeu que tinha licença dos carcereiros. O chileno, estupefato, recusou-lhe o pedido”.

Finalmente, sem nenhuma dificuldade, Anselmo deixou a cadeia em abril de 1966. Nada houve que caracterizasse uma fuga: apenas constataram que o hóspede saíra e não voltara.

Foi para Cuba e só retornou ao Brasil em setembro de 1970, iniciando no ano seguinte sua trajetória de anjo exterminador.

Se ficar estabelecido que o Anselmo sempre foi um agente duplo, Anselmo não fará jus à anistia federal; mas, claro, os antigos comandantes do Cenimar, Deops e órgãos congêneres dificilmente atestarão que ele já estava na sua folha de pagamentos antes da quartelada de 1964.

Caso tenha realmente sido um perseguido político até 1971, seus direitos não são anulados pelas indignidades posteriores.

O certo é que as chamadas provas circunstanciais não bastam para privá-lo da reparação a que moralmente não faz jus.

Então, é provável que a Comissão de Anistia tenha de engolir esse sapo gigantesco: deferir o pedido de um indivíduo infame a ponto de causar a morte da companheira que engravidara (a paraguaia Soledad Barret Viedma), tendo considerado mais importante garantir o massacre de seis revolucionários do que salvar sua amante e a criança que ela concebia

O outono do torturador

Brilhante Ustra comandou, entre setembro/1970 e janeiro/1974, o DOI-Codi de São Paulo, o principal órgão de repressão aos grupos de esquerda que pegaram em armas contra a ditadura militar. Já foram apresentadas 502 denúncias de torturas referentes a esse período. Pelo menos 40 revolucionários foram assassinados no DOI-Codi, inclusive o jornalista Vladimir Herzog.

Celso Lungaretti (*)

O coronel reformado do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra está sendo julgado na 23ª Vara Cível do Estado de São Paulo por seqüestro e tortura praticados em 1972/73 contra o casal César Augusto/Maria Amélia Teles e três parentes. As testemunhas de acusação foram ouvidas no dia 9 de novembro, tendo a repercussão da audiência na mídia provocado uma ampla mobilização de militares da reserva, em apoio ao réu.

Brilhante Ustra comandou, entre setembro/1970 e janeiro/1974, o DOI-Codi de São Paulo, o principal órgão de repressão aos grupos de esquerda que pegaram em armas contra a ditadura militar. Já foram apresentadas 502 denúncias de torturas referentes a esse período. Pelo menos 40 revolucionários foram assassinados no DOI-Codi, inclusive o jornalista Vladimir Herzog.

O processo contra Brilhante Ustra é de natureza declaratória: não implicará prisão ou indenização, objetivando apenas o reconhecimento oficial de que ele foi um torturador. O que não é pouco, em termos morais.

Os ex-colegas de farda e a defesa de Brilhante Ustra alegam que a Lei da Anistia de 1979 tornou inimputáveis tanto os repressores quanto os revolucionários. Já a família Teles e as entidades de defesa dos direitos humanos argumentam que essa restrição se refere apenas aos crimes, não às ações de natureza civil; foi este, também, o entendimento do juiz da 23ª Vara.

Isto é o que qualquer um pode ler no noticiário. Vamos ao que a imprensa não diz.


LEI DA ANISTIA IGUALOU VÍTIMAS E CARRASCOS

A anistia recíproca de 1979 foi um sapo engolido pela sociedade civil, que abriu mão do ideal de justiça em troca da libertação da maioria dos presos políticos e da volta dos exilados. Os militares, conscientes de que haviam incidido nas mesmas práticas punidas exemplarmente no Julgamento de Nuremberg, fizeram uma barganha muito vantajosa: já que a redemocratização um dia acabaria ocorrendo, trataram de assegurar previamente a não-condenação de seus criminosos.

No fundo, tratou-se apenas da imposição da vontade do mais forte sobre o mais fraco. Tendo usurpado o poder em 1964, os militares governavam o País ilegalmente e sob terrorismo de estado há 15 anos. Usaram presos e exilados como moedas de troca para chantagear os oposicionistas, obrigando-os a aceitar uma solução que atou as mãos do Judiciário e o deixou impedido de cumprir seu papel.

Então, não é um acordo para ser respeitado, mas sim denunciado. E a iniciativa da família Teles poderá ser o primeiro passo nesta direção.

A ditadura militar foi responsável pela morte de mais de 400 revolucionários ou cidadãos suspeitos de sê-lo; pelo desaparecimento de 150 outros militantes, quase todos assassinados e sepultados em cemitérios clandestinos, como o que foi descoberto em Perus (SP); e pela tortura de milhares de brasileiros.

Brilhante Ustra e outros remanescentes dessa direita troglodita alegam, em contrapartida, que as organizações armadas de esquerda teriam vitimado 120 pessoas e ferido outras 330.

Não se trata, entretanto, de uma questão de números, embora o balanço continue sendo desfavorável à ditadura, por mais que seus apologistas distorçam fatos e manipulem estatísticas, em sites como o Terrorismo Nunca Mais e o Usina de Letras.

O Brasil e muitos outros países do 3º Mundo viveram, nas décadas de 1960 e 1970, a mesma situação dos países ocupados pelo nazi-fascismo durante a 2ª Guerra Mundial. O poder emanava das baionetas. Governos legítimos eram derrubados por conspiradores financiados e apoiados pelos Estados Unidos, como ficou evidenciado de forma cristalina no Brasil.

Em nosso país, a interferência começou com as pressões para que Getúlio Vargas deixasse o poder em 1945; continuaram com o incentivo aos golpistas da UDN, que só não conseguiram seu intento em 1954 porque a carta-testamento de Vargas provocou forte reação popular; e culminaram no apoio ao grupo militar castellista envolvido com a quartelada malograda de 1961 e responsável pela bem-sucedida de 1964.


CONFRONTO ENTRE CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE


Já não há dúvida nenhuma, para os historiadores dignos desse nome, de que não ocorreu aqui um “contragolpe preventivo”, como alegaram na época os militares, mas simplesmente uma conspiração urdida durante anos para a conquista do estado – que, aliás, depois serviria de modelo para a deposição de Salvador Allende no Chile.

No poder, os militares fecharam o Congresso Nacional sempre que lhes aprouve e suspenderam a vigência da Constituição, sobrepondo-lhes os famigerados atos institucionais que baixavam a bel-prazer; extinguiram partidos, sindicatos e entidades; cassaram os mandatos de representantes do povo; organizaram governos de fachada, “eleitos” por um Legislativo expurgado e intimidado; censuraram as artes e as comunicações; prenderam, baniram, torturaram, assassinaram, ocultaram cadáveres.

Na prática, comportaram-se como tropa de ocupação, tanto quanto os nazistas nas nações por eles conquistadas. E os cidadãos que ousaram enfrentá-los, apesar da terrível desigualdade de forças, equivalem em tudo e por tudo aos movimentos europeus de resistência da década de 1940.

A celebrada Resistência Francesa também atingiu vítimas inocentes em algumas ocasiões, mas a nenhum energúmeno ocorre hoje compará-la aos nazistas ou ao governo fantoche de Vichy.

Da mesma forma, devem-se reprovar alguns excessos cometidos pelos revolucionários brasileiros que combatiam de forma quase artesanal a poderosa engrenagem repressiva montada pelos militares e seus instrutores norte-americanos, mas é inaceitável e desonesto argüir uma pretensa equivalência dos crimes. Só um lado agrediu, continuada e sistematicamente, os valores mais sagrados da civilização.

Pois é disso que se tratou: um confronto entre civilização e barbárie.


A PENA DE BRILHANTE USTRA: EXECRAÇÃO PÚBLICA


Países como a Argentina e o Chile avançaram bem mais do que o Brasil na apuração dos crimes cometidos pelas ditaduras militares. Quanto à punição, ao contrário dessas nações que não relativizaram o sentimento de justiça e têm o mínimo respeito por seus mártires, continuamos na estaca zero.

Daí a importância de que Brilhante Ustra seja, como merece, exposto exemplarmente à execração pública.

Sua defesa alega que ele nada sabia das práticas cotidianas do órgão que comandava. Para tornar essa versão plausível, deveria ter anexado um atestado de surdez. Quem passou pelos porões da ditadura – ou, mesmo, morava nas redondezas – sabe quão inconfundível era a “trilha sonora” de uma sessão de tortura: os gritos raivosos dos torturadores e os urros inumanos dos torturados ao receberem choques elétricos; ruídos de socos, pontapés e objetos caindo.

Se hoje os comandantes fogem às suas responsabilidades, preferindo utilizar os comandados como biombo, bem diferente foi a atitude do general-presidente Geisel: ao tomar conhecimento do assassinato de Vladimir Herzog no DOI-Codi de Brilhante Ustra, não preferiu o caminho fácil da omissão, mas ordenou ao aparelho repressivo que evitasse uma repetição daquele fato; ao saber da morte de Fiel Filho nas mesmíssimas circunstâncias, não vacilou, extinguindo de imediato aquele órgão maldito e dispersando seus integrantes.

Um ditador podia ter, ao menos, dignidade pessoal. Um torturador, jamais. Nem antes, nem agora.

Quanto ao argumento de ordem humanitária – se não se puniu Brilhante Ustra (ou seu congênere chileno, Pinochet) no momento certo, não seria melhor agora deixar o ancião morrer em paz? – é respeitável. A prescrição dos delitos evita que cidadãos sejam punidos quando já não têm periculosidade, possibilidade de reincidir e, às vezes, nem mesmo discernimento para entenderem o porquê da punição.

A prática do estado de Israel de caçar criminosos de guerra nazistas no mundo inteiro, até seqüestrando-os para submetê-los a julgamento, chocou a consciência civilizada. Foi excessiva, além de haver incidido em novos crimes a pretexto de punir os crimes passados.

Não equilibraríamos os pratos da Justiça seguindo esse exemplo – nem, no outro extremo, simplesmente passando uma borracha em todas as atrocidades que foram cometidas durante a ditadura.

Para encontrarmos um ponto de equilíbrio, o caso de Brilhante Ustra é dos mais propícios. Primeiramente, porque não se pede sua prisão, mas, apenas, que lhe seja oficialmente imputada a responsabilidade moral por tudo aquilo que realmente fez.

E, tendo escrito dois livros de justificação dos crimes contra a humanidade que ele e outros torturadores cometeram, bem como de calúnias contra suas vítimas, mantém a periculosidade, já que tenta envenenar as novas gerações; reincide em seus crimes, na medida que defende as práticas da força contra o Direito; e prova que não perdeu o entendimento das coisas, embora a velhice não lhe tenha trazido lucidez nem arrependimento.

Não se trata de satisfazer desejos de vingança, mesmo que justificáveis. Mas, de sinalizar para os pósteros que certos limites jamais devem ser transpostos. Pois aqueles que os transpuserem não escaparão da punição, seja com as penas de morte e detenção decididas pelo tribunal de Nuremberg, seja com a marca da infâmia que, se a Justiça funcionar, deverá acompanhar Brilhante Ustra pelo resto dos seus dias.

* Celso Lungaretti, jornalista e escritor, é ex-preso político e autor do livro “Náufrago da Utopia”

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Balada para torturadores?

Bastou que dois procuradores da República pedissem à Justiça que responsabilizasse os acusados de tortura, mortes e desaparecimentos durante a ditadura militar, para a blindagem jurídico-midiática reaparecer com disposição conhecida e os argumentos recorrentes.

Gilson Caroni Filho

"A tortura política em nenhum caso é mero procedimento técnico, crispação de urgência numa corrida contra o tempo, destinada à coleta fulminante de informações. Expressão tenebrosa da patologia de todo um sistema social e político, ela visa à destruição do sujeito humano, na essência de sua carnalidade mais concreta."
Hélio Pellegrino

Volta e meia, como os personagens do romance "Incidente em Antares", os cadáveres insepultos dos porões voltam à cena para desespero dos coveiros em greve. Bastou que dois procuradores da República pedissem à justiça que responsabilizasse os acusados de tortura, mortes e desaparecimentos durante a ditadura militar, para a blindagem jurídico-midiática reaparecer com disposição conhecida e os argumentos recorrentes.

O apoio dos ministros da Justiça, Tarso Genro, e o da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, bem como os sólidos argumentos de ambos, foram imediatamente rechaçados pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Celso de Mello e por Nelson Jobim, ministro da Defesa para quem " a Lei da Anistia, de 1979, já atendeu a seus objetivos, já realizou seus efeitos e não pode ser alterada". Mas em que momento se pediu sua alteração? A alegação de Genro é que ela não contempla crimes de tortura.

Desnecessário dizer que o discurso da imprensa seguiu na mesma toada, como isolamento acústico de um tempo que só será superado quando revisitado a contento. Sombrias são as dúvidas que, episódios como esse, lançam sobre a democracia que desejamos ter. Há uma correlação de forças que impede a apuração de crimes ou vivemos a plenitude de um Estado Democrático de Direito? Há no comando das Forças Armadas alguém com as mãos sujas de repressão ou nossos oficiais, por estarem plenamente integrados a um regime democrático, nada têm a temer?

Há quatro anos, uma matéria publicada no Correio Braziliense gerou o mesmo tipo de reação. Vale a pena relembrar o fato para observarmos como os sofismas não se alteram, existindo apenas um rodízio de quem os enuncia. Em nome de quem? Em nome de quê?

A penúltima semana de outubro de 2004 começou com três fotos e um fato. Se a vítima das fotos não era, como se chegou a supor, o jornalista Vladimir Herzog, o fato não perdeu em densidade política e importância jornalística. Pelo contrário, a primeira nota emitida pelo Exército lhe servia como legenda em preto e branco. O que víamos, independentemente de quem era o homem humilhado, é a tortura em estado bruto. Crime tão imprescritível quanto perene é a convicção dos que o perpetram. Não pode ser objeto de esquecimento, pois, como destacou Herbert Marcuse, "esquecer é perdoar o que não poderia ser perdoado se a justiça e a liberdade prevalecessem".

O trabalho dos jornalistas Rudolfo Lago e Erica Andrade mereceu destaque pelo que representou. Em tempos de produção de esquecimento, a matéria do Correio Braziliense reafirmava a memória como instrumento indispensável à consolidação democrática. Não seria fechando os olhos a crimes documentados pelos órgãos de repressão da ditadura que estaremos livres de recaídas autoritárias.

Pelas reações causadas em diversos setores, uma certeza se impôs: é necessário investigar os arquivos dos porões. Tanto os que guardam registros do regime militar quanto os que, certos da impunidade, reiteram que "as medidas tomadas pelas Forças Legais foram uma legítima resposta à violência dos que recusaram o diálogo, optaram pelo radicalismo e pela ilegalidade e tomaram a iniciativa de pegar em armas e desencadear ações criminosas". O aspecto mais inquietante dessa nota diz respeito ao sensível ponto da hierarquia no estamento. Afinal, o comandante da arma, à epoca, general Francisco Albuquerque, foi conivente com seus autores ou por eles atropelado?

Muitos foram os temas levantados pela matéria. Se as fotos, e aqui pouco importa se de Herzog ou do padre canadense Leolpod D´Astous, foram garimpadas numa pasta que se encontrava dormitando havia sete anos na Comissão de Direitos Humanos da Câmara, qual a vontade política daquela Casa em apurar os fatos? Mais, por que não avançaram as investigações sobre a guerrilha do Araguaia? Parafraseando versos conhecidos: "Quantas guerras teremos que esquecer por um simulacro de paz?"

Preocupantes, também, foram as declarações do então presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Edson Vidigal, ao participar, sexta-feira (22/10), de cerimônia na Base Aérea de Brasília:

"Anistia é esquecimento. Não ajuda em nada agora mexer nessas fissuras. Essa história já foi sepultada. O povo foi às ruas, lutou pela anistia, pelo retorno dos brasileiros no exílio. A lei valeu para todo mundo. A agenda dos países é outra. Temos que avançar".

Será que o magistrado, assim como fazem agora os ministros da Defesa, Nélson Jobim, e do STF, Celso de Mello, julgava que a Lei de Anistia, de 1979, nada diz sobre tortura? E, como lembrou Paulo Sérgio Pinheiro, em seu artigo de quinta-feira (21/10), na Folha de S. Paulo, "para a Convenção Internacional contra a Tortura (da qual o Brasil é signatário) os crimes de tortura são imprescritíveis e a impunidade dos agentes de Estado torturadores e responsáveis por execuções sumárias pode a qualquer momento ser colocada em pauta".

Encontrará a interpretação do Sr. Celso de Mello, acolhimento entre seus pares? Eis uma questão da mais alta relevância.

Se for verdade que o diabo mora nos detalhes, nas redações jornalísticas, deve se sentir à vontade em editoriais ambíguos. Em sua edição de 21 de outubro de 2004, o jornal O Globo aconselhava em pouco mais de 550 caracteres, com espaço:

Fora do tempo
"Melhor teria sido que a primeira nota ficasse inédita. Já que foi divulgada, pelo menos o comandante do Exército, general Francisco Roberto de Albuquerque, colocou a questão nos devidos termos: a Força lamenta a morte de Vladimir Herzog e a nota, lembra que um alto oficial foi punido por causa do crime e reafirma o compromisso do Exército com a democracia. Merece aplausos. Não faz qualquer sentido voltar-se a um tempo que ficou na História. A agenda do país é outra e dela não consta o retorno à radicalização ideológica".

O que vem a ser uma agenda? Quem a define? E em que termos? Estes são pontos que precisavam, e ainda precisam, de melhor esclarecimento. Se os destinatários do artiguete são os autores da nota do Exército, o jornal manifestava sincera preocupação com movimentos antidemocráticos. Deveria, porém, tornar a interlocução mais clara para o público-leitor. Se o endereçava a grupos de direitos humanos desejosos em aprofundar a investigação, fazia papel de um conselheiro de passado suspeito. Por que não faria sentido acertar as contas com um período recente da história? Ao não fazê-lo, o jornal não continuaria excluindo do espaço discursivo os que foram massacrados na ditadura?

Certamente haveria receio fundamentado. Um retorno ao que aconteceu naquele período poderia revelar como o Globo agiu quando as liberdades civis foram suprimidas. É provável que, em papéis amarelados, reaparecessem editoriais raivosos contra os oponentes do regime militar. Imprecações contra o Comitê Brasileiro de Anistia. Condenações sumárias aos movimentos sindicais e estudantis. Era a "agenda" da época. E nela, as Organizações Globo transformaram o chumbo, elemento metálico azulado, no ouro do império. A grande imprensa foi pródiga em alquimias do gênero.

Parece que a concentração informativa leva ao monopólio da significação. Agenda, governabilidade, revanchismo são palavras de uma novilíngua. Ocultam a própria origem e substituem vocábulos incômodos. Como se vê, foram múltiplos os questionamentos produzidos a partir da matéria publicada pelo Correio Braziliense, naquele outubro de 2004 . Daria um amplo leque de sugestões de pauta.

É fato que veio a segunda nota do Exército. Nela lamentava-se a morte de Herzog e havia reconhecimento de que a nota anterior, publicada no domingo, não condizia com o momento histórico. Mas esta foi produto de pressão governamental. A primeira, sem dúvida, é mais significativa. Diz muito sobre as especificidades de nossa fauna. Se, em países frios, durante o inverno, animais que se alimentam de frutas e sementes entram em estado letárgico, aqui quem hiberna são os gorilas. E o fazem por mais de quatro décadas.

Já passou da hora de aprofundar o debate.


Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Observatório da Imprensa.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Um caminho para Guantánamo

Publicada em 01/07- Atualizada em 02/07

Assisti ontem ao documentário Caminho para Guantánamo (The Road to Guantanamo) de Michael Winterbottom, Inglaterra, 2006. Seu diretor trabalha com depoimentos de três jovens britânicos que ficaram anos presos, acusados de terrorismo pelos EUA, quando esses em represália ao 11 de setembro atacaram o Afeganistão.

A ida dos jovens para o Paquistão foi motivada pelo casamento de um deles e os amigos o seguiram para a cerimônia. Ao chegarem ao Paquistão, estimulados por um líder religioso, decidiram ir até o Afeganistão para prestarem ajuda humanitária, quando foram presos.

É um filme imperdível. Após assistirmos passamos a nos questionar como é possível o imenso silêncio que se faz desse tema no nosso país.

Em outubro de 2006 Mariana Vidal escreveu sobre sua experiência ao ver este documentário:


O CAMINHO PARA GUANTÁNAMO

Por Mariana Vidal - vidal@fazendomedia.com 17.10.2006

"Temos que fazer alguma coisa pra mudar. Não acredito que isto existe". Foram essas as primeiras palavras que ouvi de uma moça sentada na fileira de trás, assim que acabou o filme. Mas foi só acenderem as primeiras luzes do Estação Paissandu e via-se que o sentimento era geral. A sala estava cheia e ninguém saiu de lá imune.

Uns paravam no meio do caminho para tomar fôlego, outros se juntavam em grupos para comentar aquele absurdo, mas a vontade era mesmo de denunciar, de parar os carros na Rua Senador Vergueiro e avisar às pessoas que não estavam naquele cinema, que campo de concentração ainda existe e não é fruto de uma Alemanha nazista, é do atual governo dos EUA.

O filme "O Caminho para Guantánamo" é belíssimo, é vivo; daqueles que você não consegue se desvencilhar da tela um minuto. Não por acaso os ingleses Michael Winterbottom e Mat Whitecross ganharam o Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim deste ano.

Trata-se da história real de quatro amigos britânicos de origem paquistanesa que decidem sair da Inglaterra e voltar ao Paquistão para celebrarem o casamento de um deles. Numa mesquita do Paquistão, eles são convencidos pelo líder religioso de que deveriam ir ao Afeganistão prestar ajuda humanitária aos irmãos muçulmanos. No Afeganistão são feitos reféns pelo regime talibã e, posteriormente, três deles são capturados pelas tropas estadunidenses, que os mandam para Guantánamo, onde são torturados por dois anos.

Mas apesar da sensação de impotência que se segue à vontade de "fazer alguma coisa pra mudar" e do choque que muitos levaram ao ver "O Caminho para Guantánamo", felizes são aqueles que viram este filme, pois muitos ali sequer sabiam da existência dessas bases militares que os EUA mantém em Cuba.

Nossa mídia não divulga quase nada sobre Guantánamo ou sobre outro crime de guerra dos EUA (e exemplo é o que não falta). Livros como "Guantánamo - Prisionero 325, Campo Delta" (Editora EDAF), testemunho escrito pelo ex-prisioneiro Nizar Sassi, chegam em Porto Rico, Chile, Argentina, Espanha e México, mas não são lançados no Brasil.

E até mesmo esse filme só foi possível ser visto no Festival do Rio 2006 (já que ele não tem previsão de chegar às telas do grande circuito), com poucas sessões, sem direito ao "última chance" (espécie de repescagem, quando alguns filmes são selecionados para exibição após o término do Festival) e sem figurar na lista dos mais vistos no Festival.

Depois de reclamar sobre a ausência na mídia brasileira sobre as torturas em Guantánamo,, vejo publicada hoje esta tradução do The New York Times

02/07/2008
EUA usaram métodos chineses de tortura em interrogatórios de Guantánamo
Scott Shane
Em Washington


Os instrutores militares que seguiram para a Baía de Guantánamo em dezembro de 2002 basearam uma aula inteira sobre interrogatórios em uma cartilha que mostrava os efeitos das "Técnicas de Gerenciamento Coercivo" para uma possível utilização em prisioneiros, incluindo "Privação de Sono", "Imobilização Prolongada" e "Exposição ao Frio".

O que os instrutores não disseram - e pode ser que não soubessem - foi que a cartilha era uma cópia literal de um estudo feito pela Força Aérea dos Estados Unidos, em 1957, sobre as técnicas comunistas chinesas utilizadas durante a Guerra da Coréia para obter confissões, muitas delas falsas, de prisioneiros norte-americanos.

A cartilha reciclada é a última e a mais vívida evidência da forma como os métodos comunistas de interrogatório que os Estados Unidos descreveram por muito tempo como sendo tortura tornaram-se a base dos interrogatórios realizados tanto pelas forças armadas em Guantánamo quanto pela Agência Central de Inteligência (CIA).

Alguns métodos foram aplicados em um pequeno número de prisioneiros de Guantánamo antes de 2005, quando o Congresso proibiu o uso da coerção pelas forças armadas. A CIA ainda conta com a autorização do presidente Bush para utilizar vários métodos secretos "alternativos" de interrogatório. Diversos documentos de Guantánamo, incluindo a cartilha que descreve os métodos coercivos, foram divulgados em uma audiência do Comitê do Senado Sobre as Forças Armadas em 17 de junho, que analisou como foi que tais táticas passaram a ser empregadas.

Mas os investigadores do comitê não sabiam que a origem da cartilha estava no artigo publicado há meio século em um periódico militar, uma conexão que foi divulgada ao "New York Times" por um especialista em interrogatórios independente, que falou sob a condição de que o seu nome não fosse revelado.

O artigo de 1957 do qual a cartilha foi copiada tem o título "Communist Attempts to Elicit False Confessions From the Air Force Prisoners of War" ("Tentativas Comunistas de Obter Falsas Confissões de Prisioneiros de Guerra Membros da Força Aérea"), e foi escrito por Alfred D.

Biderman, um sociólogo que servia na Força Aérea, e que morreu em 2003.

Biderman entrevistou ex-prisioneiros norte-americanos que retornaram da Coréia do Norte, alguns dos quais foram filmados pelos seus interrogadores chineses confessando ter praticado guerra bacteriológica e outras atrocidades.

Essas confissões orquestradas geraram alegações de que os prisioneiros norte-americanos tinham sofrido "lavagem cerebral", e motivaram as forças armadas a intensificar o seu treinamento no sentido de proporcionar a alguns dos seus membros um sabor dos métodos duros dos inimigos, a fim de evitar que eles capitulassem rapidamente caso fossem capturados.

Em 2002, o programa de treinamento, conhecido como SERE (acrônimo em inglês para Sobrevivência, Evasão, Resistência e Fuga), transformou-se em uma fonte de métodos de interrogatório tanto para a CIA quanto para as forças armadas. Naquilo que os críticos descrevem como um caso notável de amnésia histórica, as autoridades que recorreram ao programa SERE parecem não ter tido consciência de que ele foi criado como resultado da preocupação quanto às falsas confissões feitas pelos prisioneiros norte-americanos.

O senador Carl Levin, democrata pelo Estado de Michigan, presidente do Comitê do Senado Sobre as Forças Armadas, disse, após examinar o artigo de 1957, que "todo norte-americano ficaria chocado" com a origem do documento de treinamento.

"O que faz com que este documento seja duplamente chocante é o fato de que essas eram técnicas usadas para a obtenção de falsas confissões", afirma Levin. "As pessoas dizem que precisamos de informações de inteligência, e elas estão certas. Mas não necessitamos de falsas informações de inteligência".

O tenente-coronel Patrick Ryder, um porta-voz do Departamento de Defesa, disse que não poderia fazer comentários a respeito da cartilha de treinamento utilizada em Guantánamo. "Não posso especular a respeito de decisões anteriores que podem ter sido tomadas antes da atual política do Departamento de Defesa para interrogatórios", disse Ryder. "Posso afirmar a vocês que a atual política do Departamento de Defesa é clara - nós tratamos todos os detentos humanamente".

O artigo escrito por Biderman em 1957 descrevia "uma forma de tortura" usada pelos chineses que consistia em obrigar os prisioneiros norte-americanos a "ficar de pé por períodos excessivamente longos", às vezes em condições de "frio extremo". Ele escreveu que tais métodos passivos eram mais comuns do que a violência física direta. Obrigar os prisioneiros a ficar de pé por longos períodos e expô-los ao frio foram técnicas utilizadas pelos interrogadores norte-americanos militares e da CIA contra os suspeitos de serem terroristas.

A cartilha também descreve outras técnicas utilizadas pelos chineses, incluindo "fome parcial", "exploração de ferimentos" e "ambientes sujos e infestados", bem como os efeitos provocados por tais métodos: "Tornam a vítima dependente do interrogador", "Enfraquecem a Capacidade de Resistência Mental e Física" e "Reduzem o Prisioneiro a Preocupações de 'Nível Animal'".

A única modificação feita na cartilha apresentada em Guantánamo foi a retirada do título original: "Métodos Coercivos Comunistas para Gerar a Colaboração Individual".

Os documentos divulgados no mês passado incluem uma mensagem de e-mail de dois instrutores de SERE, relatando o período que passaram em Guantánamo, de 29 de dezembro de 2002 a 4 de janeiro de 2003. Segundo a mensagem, o objetivo era apresentar aos interrogadores "a teoria e a aplicação das pressões físicas utilizadas durante o nosso treinamento".

De acordo com a mensagem, as sessões incluíram "uma aula profunda sobre os Princípios Biderman", em uma referência à cartilha baseada no artigo de Biderman publicado em 1957. Versões da mesma cartilha, identificada com freqüência como "Cartilha de Coerção de Biderman", circulam em sites na Internet contrários às seitas baseadas no fanatismo religioso. Os métodos da cartilha são utilizados por esses sites para demonstrar como tais seitas controlam os seus membros.

O psiquiatra Robert Jay Lifton, que estudou prisioneiros que retornaram de guerras, e escreveu um artigo na mesma edição de 1957 do periódico "The Bulletin of the New York Academy of Medicine", disse em uma entrevista que ficou perturbado ao saber que os métodos chineses foram reciclados e ensinados em Guantánamo.

"Isso me entristece", afirmou Lifton, que em 1961 escreveu um livro sobre aquilo que os chineses chamavam de "reforma do pensamento", e que se tornou conhecido na linguagem popular norte-americana como lavagem cerebral. Ele classificou a utilização de técnicas chinesas por interrogadores norte-americanos em Guantánamo de "uma virada de 180º".

O interrogatório mais brutal ocorrido em Guantánamo do qual se tem conhecimento foi o de Mohammed al-Qahtani, um membro da Al Qaeda suspeito de ser o "20º seqüestrador" nos ataques de 11 de setembro de 2001. Os interrogatórios de Al Qahtani envolveram privação de sono, posições estressantes, exposição ao frio e outros métodos também usados pelos chineses.

As acusações de terrorismo contra al-Qahtani foram retiradas inesperadamente em maio deste ano. As autoridades informaram que as acusações poderiam ser feitas novamente mais tarde, e recusaram-se a dizer se a decisão foi influenciada por preocupações quanto ao tratamento a que al-Qahtani foi submetido.

Bush defendeu o uso de métodos brutais, alegando que estes ajudam a fornecer informações críticas de inteligência e a prevenir novos ataques terroristas. Mas a questão continua a complicar os processos há muito atrasados, que agora estão em andamento em Guantánamo.

Abd al-Rahim al-Nashiri, um membro da Al Qaeda acusado de desempenhar um papel importante no ataque a bomba contra o destróier norte-americano "Cole" no Iêmen, em 2000, foi acusado na segunda-feira de assassinato e outros crimes. Em audiências anteriores, al-Nashiri, que foi submetido ao "waterboarding" (técnica de tortura conhecida como "afogamento"), afirmou ter confessado falsamente a sua participação no ataque porque estava sendo torturado.



Relações: a Guerra e a Mídia estadunidense

O IMPACTO DAS MENTIRAS DA MÍDIA
(Luiz Carlos Azenha)

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Rupert Murdoch ajudou George W. Bush a tomar de assalto a mídia americana, depois da eleição do republicano em 2000. O magnata da mídia australiano, maior publisher em língua inglesa do mundo, fez isso usando suas emissoras de tevê americanas, principalmente a Fox News, concorrente da CNN. Fez isso abrindo espaço para uma campanha de intimidação contra jornalistas que não concordavam com a política externa de Bush, especialmente depois dos ataques de 11 de setembro de 2001.

Antes que a ocupação americana do Iraque se tornasse um inferno, os neocons haviam conseguido implantar o pensamento único na grande mídia. Roger Ailes, um publicitário historicamente ligado a políticos republicanos, foi o encarregado de "repaginar" a Fox no formato que serviu a Bush. "Nós divulgamos, você decide" foi um dos bordões usados pela emissora. O domínio do governo Bush sobre a grande mídia foi tamanho que acabou resultando numa revolução silenciosa, com o surgimento de meios alternativos de comunicação, notadamente na internet. Surgiram dezenas de documentários, livros-reportagem, sites e centenas de grupos de pressão. Um deles recorreu à FCC (Federal Comission of Communications) para impedir que a Fox use o slogan "equilibrada e justa". Também foram organizados boicotes aos patrocinadores da Fox.

Ainda hoje a cobertura do desembarque dos corpos dos soldados americanos mortos no Iraque é banida pelo Pentágono. A cobertura da mídia americana sobre a guerra teve um impacto impressionante na opinião pública, especialmente nos meses seguintes à ocupação. O apoio ao presidente Bush para que ele mantivesse sua política externa agressiva diminuiu gradativamente, resultando na perda do controle das duas casas do Congresso pelos republicanos nas eleições do início de novembro de 2006.

Um resumo editado do que escreveu Jim Lobe, da Inter Press Service, sobre as pesquisas que mediram o impacto da mídia na opinião pública, feitas alguns meses depois da ocupação do Iraque (o que aparece entre colchetes é meu):

"Quanto mais tevê comercial você assiste, maior é o risco de ter informações errôneas sobre questões-chave ligadas à invasão do Iraque e à ocupação americana, mostra um estudo divulgado em Washington. Quanto mais você assiste ao canal Fox News, de Rupert Murdoch, maior é a chance de ter percepções errôneas sobre a guerra, acrescenta o relatório do Programa de Opinião sobre Política Internacional, PIPA, da Universidade de Maryland.

Baseada em várias pesquisas de opinião nacionais, conduzidas pela Rede do Conhecimento, da Califórnia, a PIPA revelou que 48% dos entrevistados acreditam que tropas americanas descobriram ligações sólidas entre o governo de Saddam Hussein e a rede terrorista Alcáida, 22 por cento acreditam que foram encontradas armas de destruição em massa no Iraque e 25% acreditam que a opinião pública mundial apoiou a invasão americana. [As três afirmações são falsas]

O estudo pode incentivar o debate público e profissional sobre as razões que levaram a grande mídia americana, especialmente as emissoras de rádio e tevê, a não avaliarem com cuidado as alegações do governo Bush, feitas antes da guerra, especialmente sobre a existência de armas de destruição em massa no Iraque e sobre as ligações do país com a Alcáida.

Um de cada cinco entrevistados disse acreditar que os iraquianos usaram armas químicas ou biológicas contra tropas americanas, durante a ocupação. Para cada uma das percepções errôneas, o estudo descobriu grande diferença entre os telespectadores da Fox e os da Rádio Pública Nacional (NPR) e Sistema Público de Televisão (PBS).

Oitenta por cento dos telespectadores da Fox tinham pelo menos uma percepção errônea sobre a guerra, comparado com 23% dos ouvintes e telespectadores da NPR/PBS. Dos consumidores da mídia impressa, 47% tinham pelo menos uma percepção errônea.

Quarenta e cinco por cento dos telespectadores da Fox tinham as três percepções errôneas [que o Iraque tinha ligações com a Alcáida, que tinha armas de destruição em massa e que a opinião pública mundial apoiou os Estados Unidos]. Enquanto isso, entre os telespectadores das três redes [CBS, ABC e NBC] o número ficou entre 12 e 16%. Apenas 9% dos leitores de jornal acreditam nas três falsidades, enquanto só 4% dos ouvintes e telespectadores da NPR/PBS estão triplamente enganados.

Dos eleitores de George Bush, 78% dos que assistem a Fox acreditam na existência de ligações diretas entre o Iraque e a Alcáida, número que caiu para 50% entre os eleitores do presidente que se informaram pela NPR/PBS. Dados da pesquisa demonstram que as percepções errôneas sobre a guerra foram maiores justamente entre aqueles que tiveram maior acesso à mídia".

(Luiz Carlos Azenha) Publicado originalmente em 22 de novembro de 2006, atualizado em 11 de abril de 2008.