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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Conheça a história da participação feminina no processo eleitoral brasileiro

Todos os direitos autorais deste vídeo são reservados ao TSE. Cópias e edição são proibidas.

Descrição do vídeo em destaque:

Da década de 30 para cá, quando a mulher exerceu pela primeira vez o voto diante das urnas, a participação feminina na vida política do país vem ganhando espaço paulatinamente. Celina Guimarães Viana, a primeira eleitora, deu o passo inicial para alavancar de vez a democracia brasileira: atualmente há cinco milhões a mais de eleitoras, se comparado ao número do eleitorado masculino. Passados 80 anos, desde a participação feminina nas urnas, o Brasil elege a primeira mulher a ocupar o cargo de Presidente da República. Acompanhe na reportagem de Sônia Campos a evolução das mulheres no processo eleitoral brasileiro.

Informações sobre o vídeo:

Categoria : Reportagens ( 553 vídeos )
Data: 16 de dezembro de 2010
Duração: 03:02 min
Tamanho: 8.6 MB
Produzido por: TSE

terça-feira, 4 de maio de 2010

Entre a Namíbia e o Brasil, “o mundo”

4 de maio de 2010 às 1:12

por Luiz Carlos Azenha, em seu blog

O Milton Hayek* deixou um comentário dia desses sobre a formação de fuzileiros navais da Namíbia por instrutores da Marinha brasileira. Não consegui encontrar o link, mas estou certo de que ele deixará o caminho nos comentários. Antes de avançar no tema, acho importante situar geograficamente a Namíbia (ao sul de Angola), para quem tem pouca familiaridade com a África:

Geograficamente, a Namíbia tem um papel importante no Atlântico Sul. Um papel que deve se tornar ainda mais importante no futuro. Deste lado do Atlântico, temos as grandes reservas do pré-sal. Do outro lado, há também grandes reservas de petróleo em exploração na costa de Angola e da Nigéria e a expectativa de futuras descobertas especialmente em torno de São Tomé e Príncipe.

A essa altura já não é novidade o crescente papel que a diplomacia chinesa tem jogado no continente africano. A China importa cerca de 1/3 de todo o petróleo que consome de países africanos, especialmente de Angola. Os Estados Unidos, de olho no futuro, buscam multiplicar os seus fornecedores e reduzir a dependência do Oriente Médio. Não é por acaso que os Estados Unidos criaram um comando militar exclusivamente para “cuidar” da África. A cooperação militar chinesa se dá sobretudo em países como o Sudão, onde Beijing tem grandes investimentos públicos e privados na produção de petróleo. Faz sentido, já que a distância geográfica é bem menor. A relação da China com múltiplos parceiros africanos se baseia na implantação de projetos de engenharia de impacto social (uns mais, outros menos), no acesso aos mercados locais para a venda de produtos chineses e na presença física de milhares de chineses, que atuam especialmente no comércio.

Nem o Brasil, nem os Estados Unidos tem algo parecido no conjunto da África. A Líbia em uma ponta e a África do Sul em outra financiam projetos de desenvolvimento na vizinhança. A presença da Índia é crescente, tirando proveito da existência de comunidades hindus, a maior delas em Durban, na África do Sul.

Fala-se muito em um novo “Scramble for Africa”, parecido com o processo que levou à divisão do continente em esferas de influência dos poderes europeus no fim do século 19. É o forte apetite dos chineses por matérias primas (petróleo, minério e madeira) que guia esse processo, seja lá qual o nome que se dê a ele.

Algumas grandes empresas brasileiras, especialmente a Petrobras, a Vale (em Moçambique) e a Odebrecht (em Angola) tem uma presença importante no continente.

Como vocês sabem, é difícil falar em uma África. São muitas. As desigualdades regionais, a falta de infraestrutura e as diferenças culturais são barreiras fortes a um espaço econômico integrado, que ofereça possibilidade de escala aos exportadores. A China resolveu isso exportando… empreendedores chineses.

Por isso, quando se fala em um mercado com 900 milhões de consumidores há um certo exagero. Algumas empresas resolveram isso redesenhando seus produtos, para torná-los mais baratos. Desenvolveram redes locais e informais de distribuição (mais ou menos como a Nestle fez no Nordeste brasileiro). Grosso modo, os africanos dependem da agricultura para acumular renda. Nas regiões onde as chuvas são irregulares, a produção é incerta. Faltam represas e dinheiro para montar sistemas de irrigação.

Por isso, me parece bastante adequado que a ofensiva brasileira se dê em duas frentes: 1) apoiando a reivindicação dos africanos pela redução das barreiras alfandegárias, fitossanitárias e outras que reduzem o potencial de exportação agrícola (com o potencial de aumentar a renda e o consumo locais); 2) oferecendo apoio técnico através da Embrapa (especialmente das tecnologias para melhorar a produtividade da savana, como aconteceu com o cerrado brasileiro).

É nesse contexto multipolar que precisamos considerar a atuação do IBAS, o fórum que reúne Índia, Brasil e África do Sul. Como vocês sabem, Índia e China travam uma guerra surda na Ásia por influência regional. Embora o trio não se choque diretamente com a China na África, não deixa de oferecer uma alternativa a governos locais. Neste mundo crescentemente multipolar, há circunstâncias que unirão no continente Brasil e Estados Unidos; Brasil e França; Brasil e China; Brasil, Índia e África do Sul; Brasil e Namíbia (os países costeiros da África, cujos recursos marítimos são enormes, são as grandes vítimas de frotas internacionais de pesqueiros que atuam de forma predatória).

Isso requer cálculos políticos e movimentos diplomáticos que superem o pensamento binário dos tempos da guerra fria. Requer que a Argentina seja considerada mais que um destino comercial do Mercosul: com a África do Sul, a Namíbia e Angola, a Argentina é parceira estratégica para garantir que o Atlântico Sul, onde estão as duas principais cidades brasileiras, não fique subordinado a interesses contrários aos do Brasil. Um dia o Atlântico será apenas um rio a nos separar da África, como já foi no passado colonial (pensem no potencial que isso tem para a indústria naval brasileira).

A quem se interessa pelo assunto, recomendo a leitura deste artigo da Foreign Affairs (com a visão que os Estados Unidos tem da presença chinesa) e do livro A Biography of Africa, de John Reader.

O que me leva à notícia que recebi hoje, por e-mail:

Brasília, 3 de maio de 2010.

Universidade Brasil-África é prioridade do governo esta semana

O projeto que cria a Universidade Luso-Afro-Brasileira (Unilab) é uma das prioridades do governo na Câmara esta semana. O líder do Governo, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), afirmou que o presidente Lula considera o PL 2891/08 muito importante “do ponto de vista político, quanto às relações com o continente africano, e também por uma questão de justiça com povos que foram escravizados durante séculos”. A instituição, de acordo com o projeto, deve ser instalada em Redenção (CE), município onde foi registrada a primeira ocorrência de tráfico negreiro.

“O presidente Lula falou sobre esse projeto comigo quando me convidou para ser líder do governo”, enfatizou. Segundo Vaccarezza, a intenção do presidente é sancionar a proposta em quinze dias, antes da chegada ao Brasil de uma delegação de chefes de Estado africanos.

A proposta havia sido aprovada em caráter conclusivo na Comissão de Constituiçaõ e Justiça da Câmara, mas terá de ir a plenário por ter sido objeto de recurso do líder do PSDB, deputado João Almeida (BA). “Ele [Almeida] defende que a Unilab vá para a Bahia, mas por esse argumento – local de grande influência da cultura africana – poderia ser Rio de Janeiro ou União dos Palmares (AL)”, disse Vaccarezza, adiantando que vai conversar com Almeida para a votação ser agilizada na Câmara e seguir para o Senado.

Uma das finalidades da Unilab é promover intercâmbio cultural com o continente africano e incentivar estudos que tenham como foco o desenvolvimento de ciência e tecnologia.

***

“Reconhecer” a África, portanto, atende a interesses políticos, econômicos e históricos de toda a população brasileira. Quem sabe a Copa do Mundo da África do Sul seja uma boa oportunidade para acelerar o processo.

Para quem quer conhecer um pouquinho dos desafios diante da África, um pequeno trecho da entrevista que o programa Nova África fez com a prêmio Nobel Wangari Maathai, no Quênia:


Wangari Maathai from Baboon Filmes on Vimeo.

*Links sugeridos pelo leitor do Azenha

Brasil com um pé na África
Marinha do Brasil forma Primeira Turma de Soldados Fuzileiros Navais da Namíbia
Infantaria de Fuzileiros Navais da Namíbia inicia suas atividades
Instituto de Pesquisas da Marinha na Ilha do Governador
Revisão do TNP

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Brasil tem condição de vencer a pobreza extrema até 2016

Fonte IPEA: (11/01/2010 - 14:48)

Comunicado da Presidência nº 38, apresentado em São Paulo, analisa a melhoria nos indicadores

Fotos de: Luciana Pierre
O Brasil encontra-se diante da oportunidade histórica de praticamente erradicar a pobreza extrema até 2016 e obter o menor índice de desigualdade de renda desde que os registros começaram a ser feitos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 1960. Para atingir esses resultados, o País precisa manter o ritmo de melhorias sociais observado nos últimos cinco anos, segundo o Comunicado da Presidência nº 38, apresentado nesta terça-feira, 12, em São Paulo.

O estudo, intitulado Pobreza, desigualdade e políticas públicas, foi detalhado pelo presidente do Instituto, Marcio Pochmann, no auditório da Superintendência da Caixa Econômica na Praça da Sé. O documento mostra que, entre 2003 e 2008, a queda média anual na taxa nacional de pobreza extrema (até ¼ de salário mínimo per capita) foi de 2,1%. Já a queda média anual na taxa de pobreza absoluta (até meio salário mínimo per capita) foi de 3,1%.

Caso o desempenho do período 2003-2008 seja projetado para 2016, o Brasil chegará ao ano da Olimpíada no Rio de Janeiro com indicadores sociais próximos aos dos países desenvolvidos, aponta o Comunicado da Presidência. O índice de Gini (uma das mais conhecidas medidas de desigualdade de renda), por exemplo, atingiria 0,488 naquele ano, ante 0,544 em 2008. Quanto mais próximo de 1, mais desigual é o país. A Itália tem, atualmente, um índice de 0,33, enquanto nos Estados Unidos ele é de 0,46, e na Alemanha, de 0,26.

"Se em 2008 a taxa de pobreza absoluta era de 28,8%, em 2016 pode chegar a 4%. Da mesma forma, a pobreza extrema pode ser reduzida a 0%", afirmou Pochmann, ressaltando que acabar definitivamente com a pobreza é um desafio que nem países altamente desenvolvidos conseguem superar. O presidente do Ipea declarou que o intervalo de 2003 a 2008 foi o melhor período de redução da pobreza no País.

Entre os motivos para essa melhoria, Pochmann destacou a maneira como o Estado se estruturou, desde a Constituição de 1988, para lidar com a problemática da pobreza. "Até 1988, o Estado atendia a população de maneira quase filantrópica, ou não atendia. As grandes estruturas de atendimento armadas desde a Constituição estão em sintonia com aquelas existentes em países desenvolvidos", disse.

"A despeito do crescimento econômico pequeno nos anos 1990, as mudanças evitaram que pudéssemos ter desestruturação social", continuou o presidente do Ipea, que mencionou ainda a descentralização das políticas públicas (com papel maior assumido pelos municípios) e a maior participação da sociedade na conformação e gestão das políticas sociais como fatores preponderantes para os avanços.

Segundo Pochmann, o Instituto divulgará em breve uma outra pesquisa com a mesma temática, analisando a mudança do perfil dos pobres no Brasil nas últimas quatro décadas.

Leia a íntegra do Comunicado da Presidência nº 38

sábado, 17 de outubro de 2009

Bolsa Família contribui para o crescimento da escolaridade no Brasil

Meio milhão de jovens e adultos beneficiários do Programa Bolsa Família - do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) - ou que estão no Cadastro Único foram alfabetizados em 2006 e 2007. O percentual de pessoas cadastradas atendidas por programas de alfabetização aumentou de 21,9%, em 2006, para 33,8% em 2007. A articulação do MDS com o Programa Brasil Alfabetizado (PBA), do Ministério da Educação, possibilitou que essas pessoas iniciassem os estudos ou voltassem às salas de aula, uma ação fundamental para aumentar as oportunidades de inclusão social, produtiva e cidadã da população pobre. Os dados evidenciam a contribuição do Bolsa Família para o crescimento da escolaridade no Brasil.

Dos 536.289 alfabetizados no período, 379.465 são atendidos pelo programa de transferência de renda do governo federal. A parceria entre os ministérios e os municípios está reduzindo o analfabetismo entre a parcela mais pobre da população. Em Belo Horizonte (MG), a beneficiária Renata Rodrigues da Silva, de 26 anos, está no grupo que voltou à escola neste ano. Pressionada pelo pai, ela parou de estudar aos 10 anos, ainda quando morava no município de Santa Maria do Suaçuí (MG). Mudou-se para BH, teve uma filha e acabou indo morar na rua. Foi acolhida por uma família que ofereceu o barraco dos fundos para Renata morar - já então com três filhos.

Atualmente, a renda da família de Renata é o Bolsa Família. Às vezes, ela trabalha como diarista, mas não tem com quem deixar os filhos. Ela cursa a 2ª série do Ensino Fundamental. “É muito bom voltar a estudar. Não sabia escrever o nome da minha filha”, diz. Renata quer ter uma profissão no futuro. “Se a gente não tiver estudo não é nada. Não posso fazer os cursos que estão dando aí, porque não sei ler”, reconhece.

Além de transferir renda a 11,9 milhões de famílias, o Bolsa Família promove a inclusão dos beneficiários em ações complementares a fim de desenvolver suas capacidades. Dentre elas, está o programa de microcrédito do Banco do Nordeste do Brasil (BNB) que emprestou, entre janeiro e maio deste ano, R$ 215 milhões a 225 mil beneficiários. Há também a qualificação profissional, com o programa Próximo Passo, em parceria com o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Essas iniciativas abrem novas perspectivas de vida para milhares de brasileiros que viviam à margem das políticas públicas.

Compromisso com a educação - A ligação do Bolsa Família com a educação está no desenho do programa. Os beneficiários precisam manter os filhos na escola e cumprir a agenda de saúde. O objetivo é estimular o acesso da população pobre aos serviços básicos de educação e saúde para melhorar as condições de vida desse público. Análise do Bolsa Família, da Secretaria Nacional de Renda de Cidadania do MDS, aponta que o Nordeste - região com os maiores índices de analfabetismo (24% dos beneficiários) - está investindo mais na educação de seus habitantes. A região responde por 88% dos beneficiários alfabetizados nos dois anos.

Programa inclui novos beneficiários - Outubro vai ser um mês especial para 500 mil famílias pobres de todo o País. A partir desta segunda-feira (19/10), elas começam a receber os benefícios do Bolsa Família, programa do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS). A inclusão dos novos beneficiários faz parte da expansão do Programa, que cumpre a última etapa prevista para 2009. A ampliação foi planejada para atender a estimativa feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com base no Mapa de Pobreza.

A expansão começou em maio, quando foram beneficiadas 300 mil novas famílias. Em agosto, outras 500 mil passaram a fazer parte do Programa. No total, 1,3 milhão de novos domicílios foram incluídos no Bolsa Família que já atende atualmente a 11,9 milhões de lares. A expectativa do MDS é chegar 12,9 milhões de famílias em 2010.

FONTE: Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, Nº 912 - Brasília, 16 de Outubro de 2009

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Relator da ONU: "O Brasil é liderança mundial no direito à alimentação e tem excelentes oportunidades de se superar"


16.10.2009


O Relator Especial das Nações Unidas para o Direito à Alimentação, Olivier De Schutter, está atualmente em visita ao Brasil para avaliar a realização progressiva do direito à alimentação adequada no país. Em entrevista a jornalistas em Brasília, ele apresentou suas primeiras conclusões.

"Minha visita ao Brasil foi uma das mais inspiradoras que já fiz. O Brasil avançou muitíssimo desde 2002, e, no entanto, alguns desafios profundos permanecem, e os bolsões persistentes de pobreza e de fome são inaceitáveis. O Brasil tem oportunidades extraordinárias de acelerar a mudança para melhor. Para tanto, o país deve se comprometer a reforçar políticas que não apenas aumentem a produção de alimentos, mas que também melhorem a situação dos grupos mais vulneráveis, entre os quais os pequenos agricultores e os sem-terra".

O relator encontrou-se com mais de cem pessoas durante a missão, entre as quais os ministros Celso Amorim, Patrus Ananías e Guilherme Cassel; representantes da Casa Civil; os presidentes das duas Casas do Congresso Nacional, José Sarney e Michel Temer, assim como os representantes das instituições encarregadas de segurança alimentar e do direito à alimentação no Brasil, e em especial o Consea, a Caisan e várias organizações da sociedade civil.

"Qualquer candidato às próximas eleições presidenciais deveria assumir compromissos no sentido de reforçar e institucionalizar os programas sociais, intensificar o apoio à agricultura familiar, alocar recursos produtivos prioritariamente para modos de produção sustentáveis e combater a excessiva concentração de terra por meio da reforma agrária", afirmou De Schutter, sabendo que seu relatório será publicado em ano de eleição.

Detalhou, a seguir, três objetivos centrais. "Primeiramente, os programas ligados ao Fome Zero devem ser consolidados em lei, com orçamento próprio, para que não possam facilmente retroceder, criando assim uma dinâmica permanente de progresso e desenvolvimento", disse o Prof. De Schutter, que participou de seminário internacional sobre mecanismos de exigibilidade em Brasília. "É preciso aperfeiçoar os mecanismos de exigibilidade para as pessoas a quem tenha sido negado acesso a estes programas. Os cidadãos tem direitos, o Estado tem obrigações, e o cumprimento destas obrigações cria um efeito muito positivo para o desenvolvimento socioeconômico amplo."

Em segundo lugar, o Relator especial observou que a Agricultura Familiar é absolutamente vital para a economia brasileira. De acordo com informações recebidas, a agricultura familiar representa 70% da produção de alimentos no Brasil, cria mais empregos e gera mais valor por hectare. "É disso que os países precisam em tempos de crise. A lei recente determinando que o PNAE compre de assentamentos da reforma agrária e da agricultura familiar pelo menos 30% dos alimentos usados na merenda escolar é, na verdade, uma das melhores alavancas de que o governo brasileiro dispõe para realizar o direito à alimentação para todos", acrescentou o professor, que leciona nas Universidades de Lovaina, na Bélgica, e Columbia, nos EUA. " O mundo todo está observando este programa, ele não pode fracassar".

"Terceiro, o Brasil deve pensar em adotar o mais rápido possível as melhores abordagens de agricultura sustentável, de forma a se tornar uma fonte de inspiração holística e duradoura para o mundo. De fato, há um enorme potencial inexplorado de práticas agroecológicas inovadoras, tais como a agro-silvicultura, e isso poderia ser ampliado", disse o especialista da ONU, que sugeriu uma avaliação participativa em âmbito nacional dos méritos respectivos da agricultura familiar, da agroecologia e da agricultura destinada à exportação.


Fonte: Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento

terça-feira, 26 de maio de 2009

O MONOPÓLIO ESTATAL DO PETRÓLEO NO BRASIL

A CRIAÇÃO DA PETROBRÁS

Por Wladmir Tadeu Silveira Coelho*


O Estatuto do Petróleo


As ideologias constitucionalmente adotadas nas constituições de 1934, 1937 e 1946 possibilitaram ao Estado brasileiro a execução de políticas econômicas que incluíssem a criação de empresas estatais e o monopólio de qualquer setor da economia. No caso específico da Constituição de 1946 esta possibilidade - presente em seu artigo 146 - somava-se ao poder do Estado em oferecer concessões para exploração mineral (artigo 153) a empresas constituídas no país.

Utilizando este elemento ideológico presente na Constituição o presidente Eurico Dutra envia ao Congresso Nacional, em 1947, o anteprojeto do Estatuto do Petróleo. A leitura do citado documento permite observar a preocupação do governo em manter a política econômica do petróleo nas mesmas bases observadas a partir do final do Estado Novo, ou seja, garantir a presença do capital estrangeiro na exploração do petróleo e regulamentar o abastecimento interno.

Como justificativa para ampliação da abertura do setor petrolífero ao capital internacional o governo Dutra utiliza como argumento a necessidade de "colaboração" externa para o desenvolvimento deste ramo da indústria no Brasil cuja ação estaria impedida em função da legislação instituida a partir da Constituição de 1937.

Desta forma em mensagem que acompanhava o Estatatuto do Petróleo afirmava o ex-ministro da Guerra do Estado Novo:

É fora de dúvida que a legislação ainda em vigor, resultante dos princípios exageradamente contrários ao capital estrangeiro contidos na Lei Magna de 1937, tem sido o grande obstáculo a antepor-se ao desenvolvimento da indústria de refinados no Brasil, por isso que não permite a colaboração desse capital em atividade dessa natureza. Indispensável se torna a remoção de embaraços legais que até aqui têm impossibilitado a conjugação de capitais e esforços de brasileiros e estrangeiros, particularmente se atentarmos no espiritoo liberal da Constituição de 1946 (DUTRA apud VICTOR 1991).

O argumento da necessidade de liberalização da exploração petrolífera no Brasil - com destaque para as atividades relacionadas ao refino - coincidem com a modificação da prática das empresas estadunidenses que, diante do aumento da oferta e facilidades de transporte, optam pela criação de refinarias nas áreas produtoras como forma de baratear o combustível. Orell (1973).

O governo brasileiro busca, deste modo, adequar a legislação ao cenário econômico do pós-guerra associando ao "espirito liberal" as garantias intervencionistas necessárias á sua concretização. Assim utilizando o artigo 146 da Constituição determina no texto do anteprojeto do Estatuto do Petróleo em seu artigo 60, que:

A União poderá construir e manter em funcionamento usinas para refinação de petróleo e tratamento de gases naturais, bem como redes de condutos e frotas de navios-tanques para o transporte de petróleo e derivados, seja por administração direta ou contratada ou por via de concessões na forma da lei (SMITH 1978).

O envio ao Congresso Nacional de um anteprojeto, cuja principal característica seria a manutenção de uma política econômica do petróleo, marcada pela abertura ao capital externo - ficando o Estado como elemento regulamentador do abastecimento- apresenta como efeito a reação dos setores nacionalistas que passam a defender uma política econômica amparada no principio do monopólio estatal.


A Campanha do Petróleo é Nosso: O nacionalismo de Arthur Bernardes


Encontraremos na figura do Deputado Arthur Bernardes uma das primeiras vozes a defender, no Congresso Nacional, a instituição do monopólio estatal do petróleo. Através de seus discursos Bernardes incluía, na pauta do legislativo, o debate em torno de um modelo de política energética ainda não experimentado no Brasil, além de abrir a Câmara dos Deputados para entidades - em principio distanciadas umas das outras - como União Nacional dos Estudantes (UNE), grupos de militares nacionalistas, associações de empresários dentre outros.

A postura nacionalista do ex-presidente da república acabou por conduzi-lo à condição de principal opositor , na Câmara dos Deputados, ao anteprojeto do Estatuto do Petróleo afirmando:

Todos os brasileiros devem tomar vivo interesse pelo destino que se possa dar ao nosso petróleo, para que não se consinta que ele caia, total ou parcialmente, em mãos de trustes estrangeiros, através de 'testas de ferro' que os mesmos possuem em toda parte, inclusive no Brasil (BERNARDES apud VICTOR 1991).

Ao realizar esta afirmativa o deputado republicano proporcionava um entendimento do conflito de interesses existente no período quando observa-se - por parte dos trustes internacionais do petróleo - a elaboração de meios que possibilitavam a continuidade do controle deste setor da economia, mesmo com a existência de uma legislação com apelo "nacionalista".

No legislativo brasileiro estes meios ficam evidentes considerando-se a influência que exercia - principalmente - a Standard Oil sobre grande parte dos deputados e senadores cujo mandato era financiado de forma direta pela companhia estadunidense. Fonseca (1955). Considerando esta realidade uma parcela importante dos parlamentares brasileiros manifestavam o seu apoio à apresentação de propostas cujo conteúdo evidenciava a liberalização do setor petrolífero. No sentido contrário às propostas originárias da sociedade civil - em oposição à postura governamental - tornam-se objeto de perseguições e passam a ser tratadas como ameaça à segurança nacional.


A segurança continental de Juarez Távora


O General Juarez Távora destacou-se na defesa da tese que associava a política nacionalista (monopólio estatal) à idéia de isolamento político e comercial, características que - segundo o ex-ministro da agricultura - ampliariam o atraso social brasileiro possibilitando o surgimento de "esquemas políticos e econômicos-sociais estranhos" (TÁVORA 1955).

Estava criada a associação entre defesa do monopólio estatal do petróleo e comunismo, fator suficiente para iniciar a perseguição aos defensores da estatização do mineral. Estes - por sua vez - apareciam classificados em graus diferenciados como "perigosos", "inocentes" ou "apaixonados" atribuindo aos defensores da idéia do monopólio estatal um caráter de desordem e carência de fundamento teórico. Na posição contrária, os defensores da abertura ao capital estrangeiro eram apresentados como brasileiros de pensamentos "lúcidos", "sadios" ou "modernos" (Fonseca 1955).

A forma de legitimação desta estratégia era muito simples e, ao contrário da fórmula utilizada desde o século XIX, admitia a existência de petróleo no Brasil, mas apontava para as dificuldades de sua exploração que incluíam aspectos financeiros, técnicos e, principalmente, os problemas geográficos responsáveis pela inacessibilidade das áreas com potencial presença petrolífera.

Considerando estes pontos o General Juarez Távora passa a defender - como membro da comissão responsável pela elaboração do anteprojeto do Estatuto do Petróleo - o mapeamento das áreas sedimentares com a divisão destas em províncias sedimentares classificadas de 1 (provincia produtora) a 4 (provincias com menores possibilidades) de acordo com o potencial de produção. Estas áreas seriam subdivididas em quadriculas de 1grau de latitude por 1grau de longitude e posteriormente oferecidas - em forma de concessão - aos grupos privados interessados em sua exploração.

Em conferência realizada no Clube Naval em 1947 Távora acaba por apontar o real objetivo do Estatuto do Petróleo, ou seja, a abertura da exploração aos interesses dos Estados Unidos afirmando:

(...) Os nossos irmãos do continente - especialmente os norte-americanos, dispondo de amplos recursos e interessados, como nós mesmos, nesse reforço da segurança continental - devem ajudar-nos em nossas necessidades iniciais, proporcionando-nos, sem preocupações de imperialismo ou de monopólio, os capitais, os equipamentos de que necessitamos, para cumprir, com oportunidade e eficiência, a tarefa nacional e continental que nos cabe (TÁVORA 1955).

Completando seu pensamento o General Távora defendia uma maior flexibilidade por parte dos trustes estadunidenses que deveriam "aceitar" a presença do Estado brasileiro no setor de refino e distribuição do combustível. Este aspecto caracterizaria - no entendimento do General - uma renúncia dos trustes aos propósitos monopolistas e imperialistas.

Távora vislumbrava um futuro sombrio para a economia e a paz continental caso o modelo de exploração petrolífera proposto pelo governo não lograsse êxito. Desta forma anunciava como efeito:

Uma possível diminuição, no tempo de paz, da facilidade de crédito para o desenvolvimento rápido de nossa economia; e, na eventualidade de nova guerra, uma severa restrição, ou mesmo a supressão de racionamento de combustíveis para atender às nossas necessidades internas (TÁVORA 1955).

Conforme podemos observar, a proposta do Estatuto do Petróleo apresentou-se como um elemento a mais de subordinação do Brasil à condição de economia periférica. Diante do discurso liberal o país voltava-se para o principio determinista que tanto agrada suas elites desde o período colonial, mantendo-se estas em sua postura preguiçosa diante de qualquer atitude que implique na mínima possibilidade de modificação da estrutura social.

A manutenção do modelo de fundamentação "colonial" assume no Brasil uma postura quase sagrada da qual tomam parte diferentes instituições que, em nome da "liberdade", passam a defender - apoiadas no discurso da tradição - a continuidade de um processo natural de crescimento cujo resultado chegaria em seu devido tempo.

Considerando estas observações seria importante destacar a ação dos defensores do monopólio estatal do petróleo para a quebra do paradigma naturalista predominante até então no pensamento econômico brasileiro.


A Campanha do petróleo é nosso nas ruas


O rompimento com este paradigma - conforme demonstramos neste trabalho - apresenta como elemento detonador uma reação à radicalização dos trustes internacionais do petróleo cujo objetivo - desde o final do século XIX - estava em controlar o maior número possível de áreas com potencial produtivo.

O predomínio desta prática, seguida do estabelecimento do oligopólio no setor petrolífero, apresenta-se como principal elemento para fundamentação do discurso nacionalista na defesa da intervenção do Estado como forma de garantir a criação de uma política econômica para a energia.

O anteprojeto do Estatuto do Petróleo apresenta-se- neste contexto - como uma proposta de regulamentação das relações do Estado brasileiro com os trustes internacionais - prática predominante desde o Código de Minas de 1934 - estando os setores nacionalistas preocupados em estabelecer uma política objetivando a auto-suficiência.

A concretização deste objetivo determinaria a necessidade de entender o petróleo como um bem natural e econômico da nação, ponto omitido pela Constituição de 1946, mas defendido por diferentes setores sociais. Este aspecto pode ser verificado através da posição adotada pela União Estadual dos Estudantes de Minas Gerais que publica - em 1948 - a seguinte nota:

A Comissão Estudantil de Defesa do Petróleo, composta por representantes de todas as escolas superiores e entidades estudantis, integrada no movimento da União Estadual dos Estudantes, hipoteca o seu integral apoio à campanha em defesa do petróleo, lançada em nome da União Nacional dos Estudantes, por seu presidente, e lavra o seu veemente protesto contra o "Estatuto do Petróleo", o recente e antipatriótico projeto de lei encaminhado ao Congresso Nacional pelo Presidente da República (Jornal Geração 1948).

Na publicação dos estudantes mineiros o petróleo é claramente entendido como um bem a ser defendido, ficando os propositores da abertura do setor petrolífero ao capital internacional classificados como antipatriotas. Neste ponto a campanha do "Petróleo é Nosso" apresenta o fundamento que vai garantir a sua unidade - ou seja - a defesa dos interesses e dos bens brasileiros.

A leitura da proclamação dos estudantes também aponta uma associação de conteúdo nitidamente econômico a idéia de "patriotismo" oferecendo a possibilidade de pensar o Brasil a partir de suas características particulares buscando - ao modo proposto por List - um modelo de crescimento amparado na proteção de seus recursos minerais.

A campanha do Petróleo é Nosso marca também o estabelecimento de uma disputa de caráter ideológico ao propor a restrição da livre iniciativa através da instituição do monopólio estatal. A repercussão desta medida implicaria, necessariamente, em um choque com as empresas petrolíferas e os países que as utilizavam como meio de internacionalizar a sua política econômica.

Acrescenta-se, assim, ao debate, mais um aspecto ideológico fundamentado, desta vez, em torno da "soberania nacional" considerando a hipótese de modificação na política econômica brasileira como um fator de desequilíbrio internacional – seguindo o pensamento de Adam Smith justificando uma ação do país mais forte em defesa da "natureza" da economia.

A campanha em defesa do monopólio na imprensa


No caso brasileiro a ação em defesa de "uma natureza da economia" e restritiva da soberania nacional pode ser observada com clareza a partir da postura adotada pela imprensa. O deputado Arthur Bernardes entendia que esta postura não resultava somente de uma opção ideológica dos meios de comunicação e afirmava:

A imprensa, em tese, vive ao serviço dos trustes do petróleo. O jornal é uma empresa que se funda para explorar a indústria de publicidade, e tem a publicidade quem pode pagá-la. A nação fica prejudicada na defesa de suas riquezas naturais porque nós que a defendemos contamos com o silêncio da imprensa (..) Por isso todo dia os trustes mandam anunciar que o Brasil precisa desenvolver-se, que precisamos do auxílio do capital estrangeiro etc. São os próprios interessados que assim agem para criar entre nós uma falsa opinião pública (BERNARDES 1977 p. 277).

A influência dos trustes do petróleo na imprensa também pode ser notada no setor radiofônico quando a Companhia Esso de Petróleo cria em 1941 um informativo cuja redação funcionava nas dependências de sua empresa de publicidade. O Repórter Esso - título do jornal radiofônico - aplicava a mesma metodologia utilizada pela empresa no setor petrolífero - ou seja- buscava monopolizar a informação ocupando espaços em diferentes emissoras nos estados mais importantes do território nacional. Para legitimação de suas notícias criou-se em torno do programa uma mística (fruto de uma bem montada campanha publicitária) segundo a qual : "se o Repórter Esso ainda não deu, não deve ser verdade. Vamos aguardar". (TAVARES 1997).

A campanha do Petróleo é Nosso foi solenemente ignorada pelos redatores do Repórter Esso mas tornou-se - assim mesmo - uma verdade. Uma pesquisa pelos jornais da época indicam a mesma postura em torno do tema confirmando, deste modo, a denúncia de Arthur Bernardes.

Fechadas as portas da imprensa a discussão em torno do Monopólio do Petróleo continua ganhando força nos meios acadêmicos, militares e empresariais. Neste último setor a questão recebe uma atenção especial por parte de uma entidade de classe, a Federação das Associações Comerciais de Minas Gerais que posiciona-se favorável ao monopólio estatal do petróleo através da elaboração da Tese Mineira do Petróleo.


A TESE MINEIRA DO PETRÓLEO

A Federação das Associações Comerciais de Minas Gerais e o projeto de lei número 1516

A pressão dos movimentos organizados contra o anteprojeto do Estatuto do Petróleo consegue impedir a sua aprovação. Surge assim a necessidade de uma nova proposta para organização do setor , desta vez a partir de um novo governo que havia assumido em campanha o compromisso de nacionalizar e estatizar o petróleo nacional.

Em 6 de dezembro de 1951 o Presidente Getúlio Vargas envia ao Congresso Nacional os projetos 1516, criando a Sociedade por Ações Petróleo Brasileiro S.A. (PETROBRÁS) e o 1517, apontando as formas de financiamento do setor petrolífero. A proposta do governo possibilita ao Estado tomar parte em uma sociedade de capital aberto, que controlaria todo o processo de exploração do petróleo desde a pesquisa à comercialização.

No citado projeto, registra-se como diferencial, a criação de uma empresa mista para imediata exploração do petróleo nacional, entretanto, a estrutura de controle acionário permite observar a manutenção da tradicional política de regulação, transferindo para a empresa a ser criada, inclusive a pesquisa, esvaziando o poder de intervenção estatal efetivada através do Conselho Nacional do Petróleo cuja função passaria a ser - aprovado o projeto - de mero emissor de autorizações e concessões.

A proposta governamental também desconsiderava a principal reivindicação dos grupos nacionalistas, ou seja, a instituição do monopólio estatal do petróleo criando dúvidas a respeito do compromisso de Vargas com o desenvolvimento de uma indústria petrolífera nacional. Entretanto, na mensagem que acompanha o citado projeto, afirmava o presidente:

O governo e o povo brasileiro desejam a cooperação da iniciativa estrangeira no desenvolvimento econômico do país, mas preferem reservar à iniciativa nacional o campo de petróleo, sabido que a tendência monopolística internacional dessa indústria é de molde a criar focos de atrito entre povos e entre governos. Fiel, pois, ao espírito nacionalista da vigente legislação do petróleo, será essa empresa genuinamente brasileira, com capital e administração nacionais (VARGAS apud VICTOR 1991 p. 299).

Em Belo Horizonte o presidente da Federação das Associações Comerciais de Minas Gerais - Renato Falci - observa a incoerência entre o conteúdo da mensagem presidencial e, principalmente, a alínea IV do artigo 13 do projeto de criação Petróleo Brasileiro S.A. que autorizava a participação - na administração da empresa - de pessoas jurídicas de direito privado "brasileiras" abrindo assim a possibilidade de intervenção dos chamados "testas-de-ferro", além da ausência de qualquer referência ao monopólio estatal ( O Globo - 3/10/1973 p.22).

Temos assim uma curiosa situação na qual uma associação representativa de empresários - do conservador estado de Minas Gerais - critica uma proposta de lei - de um governo considerado nacionalista - por este não incluir, no texto, limitações a liberdade de livre iniciativa.

De forma concreta a Federação das Associações Comerciais de Minas Gerais - através de seu departamento de Estudos Econômicos dirigidos pelo professor Washington Peluso Albino de Souza - elabora um projeto propondo a estatização de todo processo de exploração e comercialização do petróleo brasileiro através de um documento denominado de "Tese Mineira do Petróleo".


A proposta dos empresários mineiros

A proposta da Associação Comercial de Minas Gerais foi apresentada publicamente durante a realização da "IV Reunião Nacional da Federação das Associações Comerciais do Brasil" realizada no Rio de Janeiro durante os dias 24, 25 e 26 de março de 1952.

O conteúdo da Tese Mineira do Petróleo apresentava uma nítida preocupação com a questão da auto-suficiência do petróleo, ponto negligenciado pelos projetos governamentais desde 1934, e entendia esta condição como fundamental para a construção de uma soberania econômica. A proposta dos empresários mineiros amparava-se na intervenção do Estado na economia, entendendo este não somente como uma entidade controladora dos órgãos burocráticos de regulação, mas como um agente econômico podendo apresentar ação direta na economia.

Para a concretização deste princípio o Conselho Nacional do Petróleo seria fortalecido, tornando-se o órgão direcionador da política econômica do petróleo estabelecendo - dentre outras funções - o levantamento e mapeamento das províncias com potencial petrolífero definindo, inclusive, a quem entregar as áreas para lavra, pois entendiam os defensores do projeto que: (grifo original): "Todo trabalho de pesquisa deva competir exclusivamente a iniciativa estatal" (FEDERAÇÃO DAS ASSOCIAÇÕES COMERCIAIS DE MINAS GERAIS 1952 p.2).

Na fase da lavra o Estado também assumiria mais uma tarefa no setor produtivo através de uma grande "companhia estatal de propriedade da União, Estados e Municípios destinada a figurar nas demais sociedades como a maior acionista" (FEDERAÇÃO DAS ASSOCIAÇÕES COMERCIAIS DE MINAS GERAIS 1952 p.3). Estas sociedades, ao contrário da proposta governamental, seriam integralmente nacionais não admitindo - inclusive - a participação de empresas nacionalizadas.

A criação de uma companhia com a responsabilidade de iniciar, em termos comerciais, a exploração do petróleo brasileiro naturalmente esbarra na questão relativa à forma de financiamento. No projeto governamental criava-se a abertura ao capital externo - art. 13 do projeto de lei 1516 - optando-se assim pela clássica prática de "abertura ao capital internacional" entretanto, basta uma simples leitura do documento elaborado pela Federação das Associações Comerciais de Minas Gerais para perceber que esta condição foi descartada.


O tributo como elemento financiador da política de auto-suficiência do petróleo.


Quebrando com a tradição liberal de entendimento do tributo como forma de aumento de custo os empresários mineiros defendiam a idéia de retribuição dos usuários do petróleo entendendo que a nacionalização deste seria responsável pela estabilidade do abastecimento e redução futura de seu preço. Para legitimar este pensamento afirmavam que a tributação proposta encontrava-se:

(...) em termos superiores ao da esfera imediata dos interesses particulares dos homens de negócios, transferindo-a para o plano mais elevado da necessidade de garantir a soberania nacional e de oferecer às classes produtoras brasileiras uma posição real de independência na sua missão de trabalhar pelo fortalecimento econômico do país (FEDERAÇÃO DAS ASSOCIAÇÕES COMERCIAIS DE MINAS GERAIS 1952 p.6).

A proposta da classe empresarial - como é possível concluir - caracteriza-se pela defesa de uma unidade produtiva nacional tendo como elemento direcionador a política econômica estatal fundamentada, em grande parte, na utilização do poder econômico do petróleo.

A cobrança de tributos justificar-se-ia como garantia para o financiamento desta estratégia, estabelecendo a proteção do elemento econômico "recurso mineral" cuja utilização seria ordenada de acordo com as necessidades da produção nacional. Ousavam os defensores da Tese Mineira do Petróleo ao propor um rompimento com a tradição colonialista de um modo ainda não experimentado no Brasil combinando elementos estatizantes com a livre iniciativa na qual o Estado apresenta-se também como ente produtivo.


A Tese Mineira do Petróleo e a consolidação da PETROBRÁS

A fórmula utilizada para a fundação da Petrobrás - lei 2004 de 3 de outubro de 1953 - não seguiu a estrutura na qual criava-se uma empresa estatal como controladora de companhias mistas para exploração de petróleo, modelo aliás, implantado neste início de século XXI na Venezuela e Bolívia. Todavia a preocupação em garantir a utilização do bem natural petróleo através da instituição do monopólio exercido a partir de uma empresa nacional com participação estatal foi vitoriosa.

Assim a lei 2004 utilizava a possibilidade prevista desde a Constituição de 1934 e determinava:

Art 1º Constituem monopólio da União:

I - a pesquisa e a lavra das jazidas de petróleo e outros hidrocarbonetos fluidos e gases raros, existentes no território nacional;

II - A refinação do petróleo nacional e estrangeiro;

III - O transporte marítimo do petróleo bruto de origem nacional ou de derivados de petróleo bruto e seus derivados, assim como de gases raros de qualquer origem (BRASIL 1954).

Vitoriosa a tese de nacionalização do petróleo, através da promulgação da Lei 2004, torna-se necessária a criação dos meios para a implementação de uma política econômica do petróleo pautada pelo uso deste bem natural como elemento propulsor da economia.

A consolidação da Petrobrás torna-se, deste modo, o principal objetivo dos grupos nacionalistas e constitui outro elemento pouco explorado na literatura relativa ao tema. Uma simples análise dos discursos das lideranças contrárias à nacionalização permite observar a intenção de criar obstáculos para a continuidade da empresa associando a sua criação a interesses ideológicos "estranhos" ao Brasil ou mesmo antecipando o fracasso diante - e exatamente por isso - da impossibilidade da presença do capital estrangeiro.

O General Juarez Távora, em conferência na Escola Superior de Guerra em 4 de junho de 1954, resume bem esta postura afirmando:

[O] monopólio estatal e imediato , suprimindo-se qualquer participação da iniciativa e do capital privados, nacionais ou estrangeiros, nas explorações petrolíferas (...) é a fórmula preconizada por alguns nacionalistas jacobinos, com o aplauso dos comunistas, e já adotada com a Petrobrás (TÁVORA 1955 p.300).

Temos neste ponto a clara resistência dos defensores da abertura ao capital estrangeiro ao monopólio estatal do petróleo. Esta postura determina uma ação voltada para cobrança do inicio imediato da produção criando uma sensação de inoperância da Petrobrás justificando a necessidade de mudanças na estrutura econômica da empresa. Como "porta-voz" desta corrente continuava o General Juarez Távora:

(...) se tal solução [ a criação da Petrobrás] não puder proporcionar-nos, em tempo útil e em proporções satisfatórias [o petróleo] tenhamos dobrada autoridade para reclamar do poder público que adote outro caminho, mais consetâneo com os interesses superiores do Brasil (TÁVORA 1955 p.302).

A postura do General Távora, quanto à Petrobrás, pode ser interpretada como uma posição do próprio governo tendo em vista a influência que este militar exerceu no período posterior ao suicídio de Vargas. Esta afirmativa recebe maior nitidez diante da posição do então Ministro da Fazenda, Eugênio Gudin, que afirmava à revista Time: "o maior flagelo do Brasil, depois da inflação, é o nacionalismo" (FONSECA 1955 p.71).

Estava clara a linha do governo Café Filho quanto á política econômica, ficando a Petrobrás como a personificação do "flagelo". Diante deste quadro a postura da Federação das Associações Comerciais de Minas Gerais surge como um importante elemento em defesa do cumprimento da lei 2004.

Através do jornal Informador Comercial a Associação coloca novamente nas ruas a defesa do monopólio estatal, tendo o artigo "maus brasileiros conspiram contra a nossa independência econômica", publicado em 21 de setembro de 1954, provocado reação da direção da Petrobrás.

Em carta ao representante dos empresários mineiros - Renato Falci - o presidente da Petrobrás, coronel Arthur Levy, reconhecia a importância da Federação Mineira para o processo que culminou na criação da empresa petrolífera e procura tranqüilizar os empresários afirmando: "A Petrobrás, cumprindo o desejo do governo e do povo do Brasil, tudo fará para solucionar, nas bases nacionalistas da lei que a criou, o importante e sempre momentoso problema do nosso petróleo."

A disputa entre nacionalistas e defensores da abertura ao capital externo para a exploração petrolífera no Brasil - como foi possível observar - não encontrou na promulgação da Lei 2004 o seu encerramento. Após 1953 a defesa e consolidação da Petrobrás, como empresa nacional e responsável pela concretização do projeto de auto-suficiência, transforma-se na principal bandeira de luta dos setores nacionalistas.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BERNARDES, Arthur da Silva. Discursos e pronunciamentos políticos. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1977.
BRASIL, Constituição (1946) Constituição dos Estados Unidos do Brasil: Brasília, Câmara dos Deputados, 1961.
BRASIL. Lei nº 2004. 03 out. 1953. Estabelece a politica nacional do petróleo. Coleção das Leis. Rio de Janeiro, p.13-23, 1954.
FONSECA, Gondin da. Que sabe você sobre petróleo ? Rio de Janeiro: Livraria São José, 1955.
LIST, Friedrich. Sistema nacional de economía política. Cidade do México: Editora Fondo de Cultura, 1997.
ODEL, Peter. Petróleo a mola do mundo. São Paulo: Record, 1974
SMITH, Adam. Inquérito sobre a natureza e a causa da riqueza das nações. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1999.
SMITH, Peter Seaborn. Petróleo e política no Brasil moderno. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1978.
TAVARES, Reynaldo. Histórias que o rádio não contou. São Paulo: Negócio Editora, 1997.
TÁVORA, Juarez. Petróleo para o Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1955.
VICTOR, Mário. A batalha do petróleo brasileiro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.



Wladmir Tadeu Silveira Coelho*: Mestre em Direito, Historiador, Conselheiro da Fundação Brasileira de Direito Econômico


Este texto foi gentilmente enviado pelo autor para a publicação no blog História em Projetos.


sexta-feira, 22 de maio de 2009

O MODELO NORUEGUÊS E A PETROBRÁS

Wladmir Coelho, no site da AEPET

O governo brasileiro anuncia a elaboração de estudos visando à implantação de uma nova política econômica do petróleo cuja base seria o modelo regulatório norueguês adotado pelos nórdicos a partir de 2002. Naquele ano a empresa estatal de exploração petrolífera (Statoil) abriu o seu capital e recebeu a incorporação da divisão de petróleo e gás da Nork Hidro (empresa mista com atuação principal no setor de alumínio) perdendo também a exclusividade na administração dos recursos petrolíferos continentais que foram repassados à nova estatal denominada Petoro.

Estas transformações ocorreram durante o processo de incorporação da Noruega ao Espaço Econômico Europeu - na prática uma adesão `branca` à União Européia como forma de contornar a rejeição manifestada nos plebiscitos de 1972 e 1994 - e aprofundamento da disputa pelo controle do petróleo do Ártico pleiteado pela Rússia, Estados Unidos, Canadá, Dinamarca e a própria Noruega, cujas reservas no Mar do Norte apresentam sinais de declínio e, como sabemos, a economia norueguesa encontra-se extremamente dependente do petróleo, setor responsável pelo desenvolvimento econômico nacional e no qual está ancorado o seu modelo de estado de bem estar social.

Assim é possível compreender a abertura comercial dos campos petrolíferos noruegueses como uma estratégia daquele governo para garantir a ampliação da exploração - inclusive - em áreas de litígio transformadas a partir deste fato em regiões de interesse da política econômica européia de energia, cuja execução encontra-se sob controle dos tradicionais oligopólios do setor.

Desta forma a simples aplicação do modelo norueguês no Brasil - como pretendem setores do governo - certamente resultaria em prejuízos para os interesses nacionais e lucro para os oligopólios internacionais, pois desconsidera as diferenças econômicas, jurídicas, culturais e históricas existentes entre os dois países ocultando, por exemplo, que o estado de bem estar social do qual desfrutam os nórdicos foi implantado a partir de uma política econômica do petróleo na qual o Estado atuava diretamente controlando todo o processo de exploração e comercialização do mineral.

Neste ponto passamos a entender a razão da frase: `segundo um ministro que prefere não ser identificado`, observadas em jornais brasileiros, sempre que o tema da nova estatal surge na imprensa como confissão do erro - ou seria da farsa? - que oculta da população a importância da Petrobrás fortalecida para a implementação das bases de uma política desenvolvimentista utilizando o poder econômico do petróleo em benefício dos interesses do Brasil.

Torna-se necessário lembrar aos ministros anônimos que a criação da Petrobrás resultou de ampla movimentação dos brasileiros, tendo envolvido desde setores conservadores como a Associação Comercial de Minas Gerais (através da Tese Mineira do Petróleo), militares das três armas, partidos políticos, estudantes, sindicatos dentre outros grupos que defendiam a necessidade de uma empresa estatal para o setor petrolífero.

Este ponto - criação de uma empresa estatal do petróleo - tornou-se imprescindível para o Brasil dos anos de 1950 desejoso de uma política voltada para o crescimento econômico cujo gargalo encontrava-se nos obstáculos levantados pelos oligopólios internacionais, com praticas nada democráticas envolvendo desde a negação da existência de petróleo em nosso território ao impedimento físico das pesquisas.

A criação da Petrobrás representou o mais significativo rompimento de nossa história com a tradição colonial, aspecto lamentavelmente ignorado por muitos de nossos governantes. Para garantir este rompimento concordamos com a necessidade de modificações na legislação ligada ao petróleo, mas ao contrário da entrega dos recursos nacionais aos oligopólios, devemos defender o respeito ao artigo 20 da Constituição Federal que inclui entre os bens da União os recursos naturais do subsolo e plataforma continental, e retomar a propriedade do bem econômico petróleo através do retorno do texto original do artigo 177 da Constituição de 1988.

Wladmir Coelho, mestre em Direito, historiador e membro do Conselho Curador da Fundação Brasileira de Direito Econômico.

Publicado originalmente: Tribuna da Imprensa (21/08/2008)

terça-feira, 31 de março de 2009

Olhos azuis, olhos castanhos poder e etnicidade em jogo

Semana passada o presidente Lula ao falar dos países que com suas políticas irresponsáveis arrastaram o mundo para uma crise global, na qual mais uma vez os países pobres são os mais vitimados usou a metáfora étnica, atribuindo a responsabilidade da crise aos banqueiros brancos (anglo-saxônicos de olhos azuis, dizendo que não conhecia banqueiros negros e indígenas/indianos que determinassem a política econômica global).

Aqui no Brasil, rapidamente a elite branca com ou sem olhos azuis se indignou, o jornalista barrigueiro Noblat, mais conhecido como Noblabát abriu logo um post pra criticar o "presidente sem noção", mal sabia ele que a imprensa mundial, aquela que esses jornalistazinhos da imprensa tupiniquim querem tanto imitar deu uma trela danada ao presidente Lula e vários jornais noticiaram de modo simpático e com abordagens que reafirmam a metáfora do presidente ex-metalúrgico. Segue dois textos nesta linha.
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Cobiça de olhos azuis?*

por MAUREEN DOWD, no New York Times, 29/03/2009

WASHINGTON -- Quando se fala em eventos lunáticos internacionais, é duro bater o papa que disse que camisinhas espalham AIDS. Mas o presidente do Brasil, conhecido simplesmente por Lula, tentou. Numa entrevista coletiva quinta-feira com o primeiro-ministro britânico Gordon Brown -- que tem talento para se colocar em situações difíceis -- Lula começou por engasgar com um pão de queijo que havia engulido. Então ele se tornou acusador. "Essa crise foi causada pelo comportamento irracional de gente branca de olhos azuis, que antes da crise parecia saber de tudo e agora demonstra que não sabe de nada", acusou o presidente socialista, barbudo e de olhos castanhos.

Enquanto Brown, de olhos castanhos, assumia um novo tom de palidez, Lula martelou o ponto óbvio de que os pobres do mundo estão sofrendo no crash global por causa dos ricos. "Eu não conheço nenhum banqueiro negro ou indígena", disse Lula. [Nota do site: Lula falou em indiano, "indian", não em indígena]. Ele também disse à CNN que trataria deste assunto na reunião do G-20 em Londres nessa semana. Ele disse que seu passado como pobre, faminto e desempregado dá a ele uma visão especial. "Vivi em casas que sofriam enchentes", ele disse, acrescentando, "algumas vezes, eu precisava lutar por espaço com ratos e baratas e lixo entrava em casa quando enchia".

O "lulu de Lula", pelo "nut do Brasil" [doido brasileiro], como batizou o New York Post, se tornou notícia importante justamente quando o presidente Obama se encontrava na Casa Branca com Vikram Pandit e uma turma de banqueiros que aceitaram o resgate -- alguns dos quais, como Jamie Dimon, tem distintos olhos azuis. E é verdade, naturalmente, que os líderes anglo-saxões da casta superior que permitiram que os mercados financeiros americanos se tornassem um cassino, George W. Bush e Dick Cheney, eram homens brancos, bem brancos, de olhos azuis. Como o Who cantava: "Ninguem sabe o que é ser um homem mau, ser o homem triste por trás dos olhos azuis. Ninguem sabe o que é ser odiado, o que é ter como destino contar apenas mentiras".

Todas as vezes que Cheney olha para uma câmera com aqueles olhos azuis gelados e diz que o presidente Obama está nos tornando menos seguros, soa como se ele secretamente estivesse desejando um novo ataque contra os Estados Unidos apenas para provar que Obama é fraco, mesmo que no processo ele também vire fumaça. (Quando fui checar a cor dos olhos de Cheney, a filha dele, Liz Cheney, de gozação me mandou um e-mail de volta, "Desculpe, mas essa informação é confidencial").

Antes do presidente Obama, cujos olhos castanhos são opacos se você olhar diretamente neles, os presidentes ficaram mais conhecidos por ter olhos azuis. Aqueles que tinham olhos castanhos, Richard Nixon e LBJ, foram um punhado. Através da história, seja na imagem de Cristo que não parece originário do Oriente Médio ou nas Barbies que não são étnicas, olhos azuis e pele branca serem foram pintados como ideais. Paul Newman com seus olhos celestiais certa vez predisse seu epitáfio: "Aqui jaz Paul Newman, que morreu fracassado porque seus olhos se tornaram castanhos".

Pesquisas mostram que pessoas de olhos azuis são mais inteligentes, atraentes e sociáveis. Um estudo de 2007 da Universidade de Louisville concluiu que pessoas de olhos azuis são melhores planejadores e pensadores estratégicos -- superiores em coisas como golfe, corrida cross-country e na preparação para exames --, enquanto as pessoas de olhos castanhos tem melhores reflexos e são bons em hóquei e futebol americano.

A fala de Lula reflete uma rivalidade antiga. Quando eu era pequena, crescendo numa casa onde eram mostrados de forma proeminente um Jesus de olhos azuis e um JFK de olhos azuis, eu sentia que meus olhos castanhos eram muito menos atraentes que os olhos azuis de meu irmão. Eu fui tão obcecada por isso que recortei a foto de um modelo de olhos castanhos e colei em meu caderno, levando minha mãe a finalmente garantir: "Você olha para olhos azuis. Você olha dentro de olhos castanhos". Mais tarde, naturalmente, houve o excitação de ouvir o Van Morrison cantando para a "Menina de olhos castanhos".

Antes de Barack Obama, quando eu entrevistei filhos de imigrantes que estavam pensando em concorrer à presidência, Mario Cuomo e Colin Powell, eles pareciam em dúvida quanto a se atirar na campanha, dado que já tinham avançado muito em relação aos próprios pais. Eu perguntei ao governador Cuomo se ele estava deixando o campo aberto "para os privilegiados anglo-saxões de olhos azuis" como Bush pai e Dan Quayle, que achavam que tinham direito natural a isso e nunca se preocuparam com seu próprio valor. Barack Obama e sua família já tiveram um profundo efeito na cultura em termos do que é a beleza. Rostos negros estão aparecendo em todo tipo de propaganda agora -- vestindo roupas chiques em anúncios da Ralph Lauren. Com Michelle pedindo aos estudantes que busquem tirar 10 e Obama prometendo que vai tornar as escolas "cool", os olhos castanhos podem finalmente -- e com todo direito -- ultrapassar os azuis como as "janelas dos vencedores".

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A reputação manchada dos Estados Unidos*

PAUL KRUGMAN, no New York Times, 29/03/2009

Dez anos atrás a capa da revista Time mostrou Robert Rubin, então secretário do Tesouro, Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve e Lawrence Summers, então subsecretário do Tesouro. A Time os definiu como "o comitê para salvar o mundo", dando a eles crédito por liderar o sistema financeiro global através de uma crise que parecia terrível na época, embora um pequeno abalo comparada com a que estamos atravessando agora.

Os três homens naquela capa eram norte-americanos, mas ninguem considerou aquilo estranho. É que em 1999 os Estados Unidos eram inquestionavelmente líderes na resposta global à crise. Aquele papel de liderança era apenas parcialmente baseado na riqueza norte-americana; era também, num grau importante, reflexo do papel dos Estados Unidos como modelo. Os Estados Unidos, todos pensavam, eram o país que sabia como fazer "finanças" corretamente.

Como os tempos mudaram.

Deixemos de lado o fato de que dois membros daquele comitê desde então sucumbiram à maldição da capa, a perda de reputação que geralmente sucede àqueles bajulados pela mídia. (O sr. Summers, agora chefe do Conselho Econômico Nacional, ainda está forte). Muito mais importante é como nossas alegações de estabilidade financeira -- normalmente invocadas quando cobravamos mudanças em outros países -- se provaram ocas.

De fato, nos dias de hoje, os Estados Unidos parecem o Bernie Madoff das economias: por muitos anos tiveram respeito, mesmo admiração, mas agora se revelam uma fraude.

É doloroso ler agora uma palestra que o sr. Summers deu no início de 2000, quando a crise econômica dos anos 90 estava terminando. Discutindo as causas da crise, o sr. Summers apontou coisas que os países em crise não tinham -- e, por implicação, que os Estados Unidos tinham. Essas coisas incluíam "bancos bem capitalizados e supervisionados" e contabilidade corporativa transparente e confiável. Quem diria.

Um dos analistas citados pelo sr. Summers na palestra, aliás, é o economista Simon Johnson. Em um artigo na edição atual da revista The Atlantic, o sr. Johnson, que foi economista-chefe do FMI e agora é professor do MIT, declara que as atuais dificuldades dos Estados Unidos são "chocantemente reminiscentes" das crises em lugares como a Rússia e a Argentina -- inclusive o papel-chave de capitalistas embusteiros.

Nos Estados Unidos, como no terceiro mundo, ele escreve, "interesses de negócios da elite -- financeira, no caso dos Estados Unidos -- tiveram um papel central na criação da crise, fazendo jogadas cada vez maiores, com apoio implícito do governo, até o inevitável colapso. Mais alarmante, eles agora usam sua influência para evitar precisamente o tipo de reformas necessárias, rapidamente, para tirar a economia de seu mergulho".

Não admira, assim, que num artigo de ontem do Times sobre o tipo de resposta que o presidente Obama receberá na Europa o título era "Capitalismo-que fala-inglês em julgamento".

Para fazer justiça, devemos dizer que os Estados Unidos estão longe de ser a única nação em que os bancos endoidaram. Muitos líderes europeus se negam a admitir os problemas econômicos e financeiros do continente, tão profundos quanto os nossos -- embora a rede de seguridade social muito mais forte lá significa que vamos experimentar muito mais sofrimento humano. De qualquer forma, é um fato que a crise custou aos Estados Unidos muito da sua credibilidade, e com isso muito de sua capacidade de liderar.

E isso é muito ruim.

Como muitos outros economistas, tenho revisitado a Grande Depressão procurando lições que podem nos ajudar a evitar uma repetição de performance. E uma coisa que chama a atenção na história do início dos anos 30 é como a resposta do mundo foi abalada pela inabilidade das maiores economias do mundo de cooperar.

Os detalhes de nossa crise atual são muito diferentes, mas a necessidade de cooperação não é menor. O presidente Obama acertou na semana passada quando declarou: "Todos nós temos de dar passos para levantar a economia. Não queremos uma situação em que alguns países fazem esforço extraordinário e outros não".

Ainda assim esta é a situação em que estamos. Não acredito que mesmo os esforços econômicos dos Estados Unidos são adequados, mas são muito maiores que os que outros países ricos estão dispostos a fazer. E, por direito, essa cúpula do G-20 é a ocasião para que o sr. Obama cobre de líderes europeus, em particular, que usem todo seu peso.

Mas nos dias de hoje os líderes estrangeiros não estão dispostos a aceitar lições de autoridades americanas, mesmo quando -- como é o caso -- elas estão certas.

A crise financeira teve muitos custos. E um destes custos é o dano à reputação dos Estados Unidos, um bem que perdemos justamente quando nós e o mundo mais precisamos dele.

*A tradução para o português de ambos os textos foi publicada no Vi o Mundo


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Documentário: A Escola das Américas

Documentário “Escola das Américas”, dirigido por John Smilhula


A partir de entrevistas com diversas autoridades, o cineasta Smilhula revela o funcionamento do centro de treinamento, por onde passaram mais de 62 mil oficiais militares latino-americanos, entre os quais torturadores que violaram direitos humanos em países como Brasil, Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai.

O filme conta a história desse centro de especialização de técnicas de tortura, desde sua criação no Panamá, em 1946, até a transferência, em 1977, para o Fort Benning, na Geórgia, onde recebeu a denominação de Instituto de Cooperação para a Segurança Hemisférica.


O documentário traz também comentários de Noam Chomsky, Eduardo Galeano, Michael Parenti e outros, sobre a política externa americana na América do Sul e América Latina, abordando a militarização, globalização, segurança nacional e o chamado terrorismo internacional.

Apresenta depoimentos pessoais de vítimas da violência e da repressão na América Latina e levanta questões e preocupações referentes aos verdadeiros objetivos da política externa americana na América do Sul e Latina.

Co-produzido por Andrés Thomas Conteris que por mais de 25 anos viaja através das Américas do Sul e Central em luta pela proteção de Direitos Humanos na região e contra as estratégias americanas de desestabilização política da região. Em Janeiro de 2005, recebeu o prêmio de Direitos Humanos pelas organizações de Honduras pelo seu trabalho denunciando o envolvimento de oficiais e políticos americanos nos esquadrões da morte em Honduras.

Em 2007, Conteris compareceu a Reunião do Senado americano para protestar contra a confirmação de John Negroponte como vice-Secretário de Estado. John Negroponte era no referido período Vice-Secretário de Estado, o segundo no comando de Condoleezza Rice no Departamento de Estado ds EUA. Seu cargo anterior no governo Bush havia sido o de Diretor de Inteligência Americana.

A participação de Negroponte na América do Sul e Central está diretamente ligada as atividades dos esquadrões do chamado Projeto Condor, responsável pelo assassinato de centenas de participantes de movimentos de esquerda na região. Também ligado a Escola da Américas, onde são treinados paramilitares envolvidos na tortura e assassinato de dissidentes. Recentemente a Escola das Amíricas mudou seu nome para “The Western Hemisphere Institute for Security Cooperation”.

Contribuição de Telma Alencar (Canadá).

Fonte Blog Controvérsias e Tita Ferreira

Leia também no site da Tita: Brasileiros graduados em tortura pela Escola da Américas

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Glauber: "Maranhão 66"serve como o melhor resumo do poder do discurso.

O velho e o novo

Por João Villaverde

Em 1965, José Sarney vencia sua primeira eleição majoritária, alcançando o governo do estado do Maranhão. Naqueles tempos, de revoluções, guerra fria e golpes militares, Sarney representava o "Novo", que volta e meia aparece no cenário político, visando empunhar uma bandeira de confronto contra o "tradicional e arcaico", ocupando um espaço muito bem avaliado pelas sociedades em geral.

Sarney queria ser visto, queria ser conhecido, queria ser pop. Por meio de amigos de amigos contactou Luiz Carlos Barreto, que despontava como um dos maiores produtores de cinema do Brasil que se descobria para as artes. As décadas passadas, 30, 40, 50 e a então década de 60 haviam descoberto gerações e gerações de artistas brasileiros. Pintores, desenhistas, músicos, compositores, dançarinos, cineastas, atores, produtores, jornalistas, polemistas. Luiz Carlos Barreto, o Barretão, ficou encarregado de convocar um amigo para filmar a posse de Sarney.

Chamou Glauber Rocha.

Glauber, em 1966, já era o mais inventivo cineasta do mundo. Já havia dirigido dois filmes, "Barravento" (62) e "Deus e o Diabo na Terra do Sol" (64). Este último, seguramente, um dos maiores filmes de toda a história do rico cinema brasileiro. Em 1966, Glauber começaria a viver seus primeiros problemas com a ditadura, instaurada no Brasil desde 01 de abril de 1964, 13 dias depois da estréia de Deus e o Diabo nos cinemas. O cineasta baiano era marxista, revolucionário, ligado aos cubanos e aos ideias de guerrilha. O cinema era sua arma. E a ditadura, que começava a endurecer, logo perceberia o problema.

Glauber tinha um projeto em 1966: filmar "Terra em Transe" (67). Mas para isso precisava de dinheiro. Acabou aceitando o pedido de seu amigo Barretão. Pegou sua equipe de cinema novo, no máximo dez pessoas e uma câmera, e foi ao Maranhão. A ideia era filmar outro projeto: o de José Sarney, que tomaria posse no início de 66.

O filme acabou virando curta-metragem. Mas teve pouco espaço. Sarney não gostou da ideia de Glauber de contrapor as imagens de Sarney durante seu discurso com imagens capturadas nas casas da população do estado. Ficava feio, diziam. O argumento de Glauber é que o documentário mostrava justamente a situação que Sarney se propunha a mudar. A situação que ele jurou mudar. Afinal, tinha sido eleito para isso.

O documentário, "Maranhão 66", foi censurado e só foi ser difundido recentemente. Ainda hoje, serve como o melhor resumo do poder do discurso.

Na segunda-feira, José Sarney foi eleito pela terceira vez o presidente do Senado federal, 54 anos depois de vencer as eleições para o governo do Maranhão.