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domingo, 26 de setembro de 2010

A MÍDIA COMERCIAL EM GUERRA CONTRA LULA E DILMA

por Leonardo Boff

Sou profundamente a favor da liberdade de expressão em nome da qual fui punido com o “silêncio obsequioso”pelas autoridades do Vaticano. Sob risco de ser preso e torturado, ajudei a editora Vozes a publicar corajosamente o “Brasil Nunca Mais” onde se denunciavam as torturas, usando exclusivamente fontes militares, o que acelerou a queda do regime autoritário.

Esta história de vida, me avalisa fazer as críticas que ora faço ao atual enfrentamento entre o Presidente Lula e a midia comercial que reclama ser tolhida em sua liberdade. O que está ocorrendo já não é um enfrentamento de idéias e de interpretações e o uso legítimo da liberdade da imprensa. Está havendo um abuso da liberdade de imprensa que, na previsão de uma derrota eleitoral, decidiu mover uma guerra acirrada contra o Presidente Lula e a candidata Dilma Rousseff. Nessa guerra vale tudo: o factóide, a ocultação de fatos, a distorção e a mentira direta.

Precisamos dar o nome a esta mídia comercial. São famílias que, quando vêem seus interesses comerciais e ideológicos contrariados, se comportam como “famiglia” mafiosa. São donos privados que pretendem falar para todo Brasil e manter sob tutela a assim chamada opinião pública. São os donos do Estado de São Paulo, da Folha de São Paulo, de O Globo, da revista Veja na qual se instalou a razão cínica e o que há de mais falso e xulo da imprensa brasileira. Estes estão a serviço de um bloco histórico, assentado sobre o capital que sempre explorou o povo e que não aceita um Presidente que vem deste povo. Mais que informar e fornecer material para a discusão pública, pois essa é a missão da imprensa, esta mídia empresarial se comporta como um feroz partido de oposição.

Na sua fúria, quais desesperados e inapelavelmente derrotados, seus donos, editorialistas e analistas não têm o mínimo respeito devido à mais alta autoridade do pais, ao Presidente Lula. Nele vêem apenas um peão a ser tratado com o chicote da palavra que humilha.

Mas há um fato que eles não conseguem digerir em seu estômago elitista. Custa-lhes aceitar que um operário, nordestino, sobrevivente da grande tribulação dos filhos da pobreza, chegasse a ser Presidente. Este lugar, a Presidência, assim pensam, cabe a eles, os ilustrados, os articulados com o mundo, embora não consigam se livrar do complexo de vira-latas, pois se sentem meramente menores e associados ao grande jogo mundial. Para eles, o lugar do peão é na fábrica produzindo.

Como o mostrou o grande historiador José Honório Rodrigues (Conciliação e Reforma) “a maioria dominante, conservadora ou liberal, foi sempre alienada, antiprogresssita, antinacional e nãocontemporânea. A liderança nunca se reconciliou com o povo. Nunca viu nele uma criatura de Deus, nunca o reconheceu, pois gostaria que ele fosse o que não é. Nunca viu suas virtudes nem admirou seus serviços ao país, chamou-o de tudo, Jeca Tatu, negou seus direitos, arrasou sua vida e logo que o viu crescer ela lhe negou, pouco a pouco, sua aprovação, conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que contiua achando que lhe pertence (p.16)”.

Pois esse é o sentido da guerra que movem contra Lula. É uma guerra contra os pobres que estão se libertando. Eles não temem o pobre submisso. Eles tem pavor do pobre que pensa, que fala, que progride e que faz uma trajetória ascedente como Lula. Trata-se, como se depreende, de uma questão de classe. Os de baixo devem ficar em baixo. Ocorre que alguém de baixo chegou lá em cima. Tornou-se o Presidene de todos os brasileiros. Isso para eles é simplesmente intolerável.

Os donos e seus aliados ideológicos perderam o pulso da história. Não se deram conta de que o Brasil mudou. Surgiram redes de movimentos sociais organizados de onde vem Lula e tantas outras lideranças. Não há mais lugar para coroneis e de “fazedores de cabeça” do povo. Quando Lula afirmou que “a opinião pública somos nós”, frase tão distorcida por essa midia raivosa, quis enfatizar que o povo organizado e consciente arrebatou a pretensão da midia comercial de ser a formadora e a porta-voz exclusiva da opinião pública. Ela tem que renunciar à ditadura da palavra escrita, falada e televisionada e disputar com outras fontes de informação e de opinião.

O povo cansado de ser governado pelas classes dominantes resolveu votar em si mesmo. Votou em Lula como o seu representante. Uma vez no Governo, operou uma revolução conceptual, inaceitável para elas. O Estado não se fez inimigo do povo, mas o indutor de mudanças profundas que beneficiaram mais de 30 milhões de brasileiros. De miseráveis se fizeram pobres laboriosos, de pobres laboriosos se fizeram classe média baixa e de classe média baixa de fizeram classe média. Começaram a comer, a ter luz em casa, a poder mandar seus filhos para a escola, a ganhar mais salário, em fim, a melhorar de vida.

Outro conceito innovador foi o desenvolvimento com inclusão soicial e distribuição de renda. Antes havia apenas desenvolvimento/crescimento que beneficiava aos já beneficiados à custa das massas destituidas e com salários de fome. Agora ocorreu visível mobilização de classes, gerando satisfação das grandes maiorias e a esperança que tudo ainda pode ficar melhor. Concedemos que no Governo atual há um déficit de consciência e de práticas ecológicas. Mas importa reconhecer que Lula foi fiel à sua promessa de fazer amplas políticas públicas na direção dos mais marginalizados.

O que a grande maioria almeja é manter a continuidade deste processo de melhora e de mudança. Ora, esta continuidade é perigosa para a mídia comercial que assiste, assustada, o fortalecimento da soberania popular que se torna crítica, não mais manipulável e com vontade de ser ator dessa nova história democrática do Brasil. Vai ser uma democracia cada vez mais participativa e não apenas delegatícia. Esta abria amplo espaço à corrupção das elites e dava preponderância aos interesses das classes opulentas e ao seu braço ideológico que é a mídia comercial. A democracia participativa escuta os movimentos sociais, faz do Movimento dos Sem Terra (MST), odiado especialmente pela VEJA faz questão de não ver, protagonista de mudanças sociais não somente com referência à terra mas também ao modelo econômico e às formas cooperativas de produção.

O que está em jogo neste enfrentamento entre a midia comercial e Lula/Dilma é a questão: que Brasil queremos? Aquele injusto, neocoloncial, neoglobalizado e no fundo, retrógrado e velhista ou o Brasil novo com sujeitos históricos novos, antes sempre mantidos à margem e agora despontando com energias novas para construir um Brasil que ainda nunca tínhamos visto antes.

Esse Brasil é combatido na pessoa do Presidente Lula e da candidata Dilma. Mas estes representam o que deve ser. E o que deve ser tem força. Irão triunfar a despeito das má vontade deste setor endurecido da midia comercial e empresarial. A vitória de Dilma dará solidez a este caminho novo ansiado e construido com suor e sangue por tantas gerações de brasileiros.

*teólogo, filósofo, escritor e representante da Iniciativa Internacional da Carta da Terra e nestas eleições declarou voto à Marina Silva
Este artigo foi reproduzido do Blog do Jornalista Rodrigo Vianna, O Escrevinhador

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Moore: O sonho americano mudou de endereço

29 de abril de 2010 às 11:33

Tradução do texto publicado pela revista Time, que colocou o presidente brasileiro no topo da lista das pessoas mais influentes na política mundial (PS: A revista esclareceu posteriormente que não se trata de um ranking, mas de uma lista das pessoas mais influentes do mundo):

Luiz Inácio Lula da Silva
By Michael Moore Thursday, Apr. 29, 2010

da revista Time

Quando os brasileiros primeiro elegeram Luiz Inácio Lula da Silva presidente, em 2002, os barões do país [robber barons] checaram o tanque de combustível de seus jatos privados. Eles haviam tornado o Brasil um dos países mais desiguais da terra e então parecia ter chegado a hora da “vingança”. Lula, 64, era um filho genuíno da classe trabalhadora da América Latina — na verdade, um membro fundador do Partido dos Trabalhadores — que tinha sido preso por liderar uma greve.

Quando Lula finalmente conquistou a presidência, depois de três tentativas fracassadas, ele era uma figura familiar na vida nacional. Mas o que levou à política? Foi seu conhecimento pessoal do quanto é duro para muitos brasileiros trabalhar para sobreviver? Ser forçado a deixar a escola na quinta série para ajudar a família? Trabalhar como engraxate? Ter perdido um dedo em um acidente de trabalho?

Não, foi quando aos 25 anos de idade ele viu a esposa Maria morrer durante o oitavo mês de gravidez, junto com o filho, por não poderem pagar um tratamento médico decente.

Há uma lição aqui para os bilionários do mundo: deixem as pessoas terem bom atendimento médico e elas vão causar muito menos problemas para vocês.

E aqui há uma lição para o resto de nós: a grande ironia da presidência de Lula — ele foi eleito para um segundo mandato em 2006 e vai servir até o fim do ano — é de que quando ele tenta colocar o Brasil no Primeiro Mundo com programas sociais como o Fome Zero, desenhado para acabar com a fome, e com planos para melhorar a educação disponível para os trabalhadores do Brasil, faz os Estados Unidos parecerem cada vez mais um país do velho Terceiro Mundo.

O que Lula quer para o Brasil é o que um dia chamamos de Sonho Americano. Nós, nos Estados Unidos, onde o 1% no topo da escala tem mais riqueza financeira que os 95% da base combinados, estamos vivendo em uma sociedade que está ficando rapidamente cada vez mais parecida com a do Brasil.

Fonte da tradução: Viomundo

A lista da Time está aqui.

O texto, em inglês, aqui.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A teoria do medo ou um discurso antigo da direita reacionária

02 de novembro de 2009 às 12:13

Wild Tales From the Reactionary Right

Conspiracy, Inc.

por ANTHONY DiMAGGIO, no
Counterpunch

A extensão completa da radicalização do movimento conservador está se tornando aparente depois de nove meses de governo Obama. Crescentemente, os comentaristas reacionários da mídia e muitos dos filiados do Partido Republicano estão levando a direita americana por um caminho perigoso, marcado pela abundância de teorias conspiratórias dirigidas contra o Partido Democrata e os liberais centristas.

Autores proeminentes vem alertando faz tempo sobre a ascensão da direita reacionária ao palco nacional. Thomas Frank lidera essas acusações com seus livros bestsellers como The Wrecking Crew: How Conservatives Rule e What’s the Matter with Kansas: How Conservatives Won the Heart of America. Os alertas de Frank são particularmente interessantes à luz da ascensão das teorias conspiratórias da direita.

Uma teoria conspiratória é definida como um plano secreto de autoridades poderosas para praticar alguma ação que seria rejeitada pelo público se o plano fosse divulgado. Teorias conspiratórias são tremendamente perigosas porque elas abandonam análises institucionais em favor de descrições exóticas do comportamento governamental. Em nenhum outro lugar esse extremismo é visto tão bem quanto no movimento "Verdade do 11 de Setembro". Em sala de aula eu tenho uma resposta padrão para alunos que querem saber sobre as teorias conspiratórias do 11 de setembro. Eu digo que a diferença entre um argumento e uma conspiração é crucial: a existência de provas. Qualquer grande teoria conspiratória requer uma falta completa de provas tangíveis, já que conspirações são por definição armações "secretas" sobre as quais o público não sabe quase nada. Essa falta de provas é mais uma razão para rejeitar essas conspirações como algo desprovido de seriedade e de rigor intelectual.

Muitos conservadores, sem dúvida motivados pelo racismo, pela xenofobia e pelo desprezo pela política multipartidária, usaram essas teorias conspiratórias em tentativas de abalar o governo Obama. Além disso, as teorias conspiratórias agora são um dos meios primários -- talvez o meio primário -- pelo qual os conservadores tentam desacreditar seus oponentes políticos. Uma avaliação das conspirações mais importantes coloca a radicalização do movimento conservador em perspectiva:

A tentativa de Limbaugh de comprar os Rams

Rush Limbaugh [porta-voz da extrema direita estadunidense] foi recentemente excluído da disputa para comprar o time de futebol americano St. Louis Rams. A tentativa de Limbaugh de se tornar parte da NFL [liga estadunidense] causou apreensão nos dirigentes, já que ela é 75% afroamericana e à luz da história de racismo de Limbaugh. Não é difícil de entender porque o público acharia Limbaugh racista considerando seus comentários:

-- "Bem, deixe-me colocar da seguinte forma: a NFL parece sempre um jogo entre os Bloods e os Crips sem usar armas. Pronto, falei". [Nota do Viomundo: Bloods and Crips são duas gangues americanas, cujos integrantes são predominantemente negros].

-- A NAACP deveria ensaiar quebra-quebras. Deveria comprar uma loja de bebidas e praticar assaltos". [Nota do Viomundo: A sigla significa Associação Nacional pelo Desenvolvimento das Pessoas de Cor].

Limbaugh gosta de cantar uma música que tem o nome "Barack, o Negro Mágico" em seu programa de rádio, embora ele se diga fortemente ressentido contra aqueles que concluem que a letra é racista. Ainda assim, acusações de racismo acabaram com o papel de Rush como comentarista da ESPN em 2003 quando ele sugeriu que o jogador Donovan McNabb, do Filadélfia Eagles, não era tudo isso e só mantinha o emprego porque a NFL queria o sucesso de jogadores negros na posição de quarterback.

Os comentários não foram aceitos no mundo do esporte, que imediatamente reconheceu que a tática de Limbaugh de gritar "racismo reverso" é, em si, racista. Presumivelmente, Limbaugh quer nos fazer acreditar que existe alguma conspiração corporativa contra jogadores brancos, apesar do fato de os afroamericanos representarem 19% dos quarterbacks [a posição de lançador, a mais importante do jogo] mas 75% do total de jogadores.

As conspirações de Limbaugh não ficam só nas acusações de racismo reverso. Quando os investidores resolveram excluí-lo do grupo, Limbaugh respondeu que o incidente era um exemplo "dos Estados Unidos de Obama". Naturalmente não há provas de alguma conspiração contra Limbaugh da parte da NFL, nem que Obama ou seus assessores tenham pressionado os investidores a tirar Limbaugh do grupo.

Longe de ser um bastião liberal dos Estados Unidos, a NFL é conhecida como uma liga politicamente conservadora. Os donos de times da NFL, por exemplo, deram duas vezes mais dinheiro em contribuições de campanha a republicanos do que a democratas nas eleições de 2008. A real razão para a rejeição de Limbaugh não tem nada a ver com uma conspiração pró-Obama, mas com o fato de que Limbaugh representa um rosto controverso para uma liga interessada em maximizar lucros e minimizar controvérsias.

É difícil fazer isso servindo a racistas quando a maioria dos jogadores da NFL é de negros. O dirigente da NFL Roger Goddell, por exemplo, explicou que a decisão da liga de rejeitar Limbaugh é resultado de seus comentários "polarizadores" sobre afroamericanos feitos no passado. O diretor executivo dos jogadores, DeMaurice Smith, explicou que a NFL "é melhor quando unifica, dando a todos nós motivo para celebrar, e quando transcende. Nosso esporte faz exatamente isso quando supera divisões e rejeita discriminação e ódio".

Obama o queniano, terrorista muçulmano

A propaganda racista sobre a cidadania de Obama e suas ligações com terrorismo radical persiste. O movimento "birther" [de birth, nascimento] ganhou grande visibilidade pública este ano -- seus membros apareceram em manifestações alegando que Obama não é cidadão dos Estados Unidos e que é um fundamentalista islâmico fanático. A atenção dada pela mídia aos integrantes do movimento conspiratório foram particularmente danosos para a imagem de Obama, como as estatísticas sugerem:

-- Antes das eleições de 2008, quase 80% dos estadunidenses tinham ouvido rumores de que Obama era muçulmano. Um em dez acreditava que Obama era muçulmano, enquanto um em três dizia não saber qual era a crença dele.

-- Em 2009, os conservadores acreditam que Obama é muçulmano 2,5 vezes mais que os democratas. Mais da metade dos republicanos acredita que Obama não é cidadão dos Estados Unidos ou está incerta sobre a cidadania do presidente.

O movimento birther ganhou fôlego em programas da mídia como Lou Dobbs Tonight e na emissora Fox News e recebeu ênfase no Congresso por parte da republicana Michelle Bachmann. O absurdo do movimento birther foi demonstrado diversas vezes, já que os documentos de Obama foram divulgados publicamente pelo estado do Havaí e verificados por grupos apartidários como o Factcheck.org.

Outros ataques contra Obama não dizem explicitamente que ele é muçulmano; eles apenas indiretamente associam Obama ao fundamentalismo islâmico. Essa tática favorita da direita reacionária foi recentemente utilizada por Sean Hannity [apresentador da Fox] que atacou Obama depois que o presidente fez um discurso no Egito sobre os ataques terroristas de 11 de setembro.

Hannity atacou Obama por "dar aos simpatizantes do 11 de setembro uma voz no palco mundial" depois que o presidente disse que "estava consciente de que ainda existe gente que questiona ou mesmo justifica o 11 de setembro. Mas sejamos claros: a al Qaeda matou quase 3 mil pessoas naquele dia. As vítimas eram homens, mulheres e crianças inocentes dos Estados Unidos e de muitas outras nações que não haviam causado dano a qualquer pessoa... Isso não é opinião a ser debatida, mas são fatos com os quais devemos lidar".

Os leitores tem razão se ficaram confusos para entender como Hannity concluiu o que concluiu, considerando as palavras de Obama. Quando alguém enxerga o mundo pelos olhos de um teórico da conspiração, os fatos são maleáveis e existem para ser manipulados com o objetivo de aprofundar preconceitos pré-existentes.

Obama, ACORN e a crise econômica

A organização que John McCain de forma conspiratória atacou como "destruidora da fábrica da democracia" não sai das manchetes da Fox News. O caso mais recente foi no programa de Glenn Beck [apresentador da Fox News] do dia 28 de outubro, na qual a ACORN [Associação de Organizações Comunitárias por Reforma Já] foi acusada por causar o colapso econômico e a recessão de 2008. O poder dos teóricos da conspiração conservadores foi demonstrado plenamente pelos comentários de Beck, reproduzidos abaixo:

"Um ano atrás, tivemos problemas com os bancos, porque as pessoas fizeram muitos empréstimos sem condições. Mas eram as casas e os automóveis pelos quais não podíamos pagar que haviam nos sido prometidos por gente de Washington. 'Não se preocupe, compre tudo. Você pode comprar esta casa. Por que viver numa casa ruim, você deveria viver nessa casa com dois carros, não seria ótimo?'. Quem disse isso? Essas pessoas [o governo] e o povo da ACORN, ok? Eles pressionaram os bancos a fazer empréstimos a gente que não podia pagar por eles, e assim tudo acabou derretendo, já que os bancos disseram às pessoas, 'não, não, essas pessoas não podem pagar suas casas'".

À luz da alegada resistência dos bancos em dar empréstimos, Beck conclui que os protestos dos "interesses especiais" representados pela ACORN foram suficientes para colocar Wall Street de joelhos, forçando os bancos a emprestar para clientes que em outras condições seriam rejeitados.

De novo, os leitores devem ser perdoados se ficarem confusos com a lógica bizarra de Beck. Qualquer pessoa que tiver familiaridade com reformas das políticas públicas sabe que a crise imobiliária de 2008 não foi resultado de alguma conspiração na qual a ACORN e o governo forçaram os bancos a emprestar para clientes ruins. Ao contrário, o governo ficou sem ação ao repelir qualquer restrição legal a empréstimos e repelir a regulamentação sobre emprestadores, enquanto o Congresso repeliu limites às fusões e aquisições bancárias (para mais sobre isso, consulte a derrubada do Glass Steagall Act de 1999) que permitiram associação entre bancos especuladores e bancos engajados em empréstimos menos arriscados.

Essa retirada da regulamentação governamental permitiu ao banqueiros de Wall Street se engajar em empréstimos sub-prime (sem monitoramento do governo sobre os papéis derivativos), que eventualmente contribuiram para o colapso financeiro e a recessão de 2008. Beck, no entanto, prefere culpar a ACORN e não os banqueiros que fizeram fortuna com empréstimos predadores a pobres -- aqueles que realisticamente nunca poderiam pagar a casa própria sem entrada e com taxas de juros flutuantes.

Obama, o Socialista

Provavelmente a teoria conspiratória mais popular é a alegação de que Obama é um socialista no armário. É claramente a mais ofensiva e absurda contra um presidente que liderou o resgate para salvar o capitalismo americano do capitalismo americano. Obama tem prometido reerguer os bancos americanos, as firmas de investimento e a indústria imobiliária de seus próprios investimentos destrutivos e especulativos. Obama deu centenas de bilhões de dólares em dinheiro público e prometeu outro trilhão de dólares em dinheiro para que bancos e financeiras limpem seus balanços dos papéis tóxicos. Nada disso é suficiente para os conservadores, que se penduram no apoio tímido de Obama à "opção pública" na reforma do sistema de saúde como prova de seu socialismo secreto.

Aliás, a opção pública [permitiria ao usuário comprar um plano de saúde organizado pelo governo federal] não tem nada a ver com socialismo, considerando que cobriria apenas aqueles indivíduos não cobertos pela indústria privada de seguros de saúde. A opção pública é tão socialista quanto qualquer outro serviço público que não dá lucro, como a educação pública, as estradas públicas, as forças policiais, os bombeiros e as bibliotecas públicas. Todos esses serviços públicos coexistem com educação, estradas e segurança privadas sem ameaçar as fundações do capitalismo. Ainda assim, esses serviços "socialistas" sempre foram alvo dos conservadores, que preferem negar acesso aos pobres em nome do "direito" ao lucro privado. Não é surpreendente, portanto, quando ouvimos sobre as ameaças "socialistas" contra o cérebro de crianças em bibliotecas públicas, assim como os ataques à "tirania" de organizações que oferecem educação pública aos desvalidos.

Há muitas outras teorias conspiratórias conservadores que podemos citar: os "campos de concentração" da FEMA [a Defesa Civil americana teria 800 campos de prisioneiros prontos para usar nos Estados Unidos] divulgados por Glenn Beck, os "comitês da morte" na reforma do sistema de saúde denunciados por Sarah Palin [vice na chapa republicana derrotada por Barack Obama, Palin sustentou que na reforma seriam instituídos comitês estatais para decidir quais pacientes teriam atendimento e quais poderiam morrer] e a maior de todas -- a alegação de que o Iraque ameaçava os Estados Unidos com a posse de armas de destruição em massa e tinha ligações com a al Qaeda.

Todas as teorias acima tem uma coisa em comum: elas capitalizam na desconfiança do público sobre o governo de maneira a desviar a atenção da análise institucional. Elas são particularmente perigosas ao convencer americanos a atacar fantasmas falsos, ao alegar que a liberdade está sob assalto por conspirações secretas planejadas e implementadas pelo Partido Democrata.

Subscrever a teorias como essas torna o discurso civilizado literalmente impossível, como qualquer pessoa que tenha discutido com um teórico da conspiração de 11 de setembro sabe. Em seu livro "Em Guerra com a Metáfora: Mídia, Propaganda e Racismo na Guerra contra o Terror" [At War With Metaphor: Media, Propaganda, and Racism in the War on Terror], Erin Steuter e Deborah Wills argumentam que a propaganda ajuda a construir inimigos imaginários.

Os autores dizem que a "propaganda não está preocupada em disseminar informação mas em provocar emoção... o intuito da propaganda não é educar mas gerar emoção e dirigir emoção, ferver o sangue para garantir que a emoção pública domine as discussões". É fácil ver como a propaganda coloca em risco o diálogo público à luz das conspirações ideológicas incoerentes que dizem que Obama é socialista, nazista ou terrorista islâmico. Ao empregar propaganda alarmista, os ativistas conservadores promovem o pior dos medos -- completamente divorciado de provas factuais de qualquer tipo.

As análises de Steuter e Will nos ajudam a entender a propaganda das teorias conspiratórias dos conservadores. O Partido Republicano e o movimento conservador tem se movido à direita por décadas e o extremismo que isso causou (muito dele guiado pela religião) é crescentemente relevante nos debates públicos e na retórica vitriólica dirigida contra a aliança democrata que está no poder em Washington.

Jacob Hacker e Paul Pierson analisam como funciona o extremismo em seu trabalho Off Center: The Republican Revolution and the Erosion of American Democracy. Eles relembram aos leitores que os ativistas do Partido Republicano se caracterizam como duas vezes mais crentes que os democratas. Além disso, a guinada à direita dos conservadores aconteceu num ritmo duas vezes maior entre os anos 60 e 2000 do que a dos liberais democratas à esquerda. O liberalismo dos ativistas democratas cresceu mais vagarosamente e declinou significativamente desde o fim dos anos 80 até o período pós-2000. Em outras palavras, os ativistas republicanos se tornaram cada vez mais reacionários em anos recentes, enquanto os democratas se tornaram centristas em sua ideologia. Diante dessa polarização, os teóricos conservadores da conspiração se tornaram cada vez mais proeminentes. Deveríamos considerar isso ao avaliar a qualidade de nossa democracia hoje e no futuro.

Anthony DiMaggio é professor de política na Illinois State University. Ele é autor de Mass Media, Mass Propaganda (2008) e When Media Goes to War (2010). Responde no e-mail adimagg@ilstu.edu

Nota do Viomundo: Na minha primeira análise do recente artigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso notei isso. O texto me pareceu ilógico, mas cheio de referências a um poder difuso, obscuro, de bastidores, que teria contaminado o governo e o Estado brasileiros. O próprio presidente Lula seria, na visão de FHC, possível vítima desse "vírus". FHC fala em um subperonismo lulista mas é incapaz de narrar quais são os fatos objetivos que o levaram a concluir pela existência dele. Lula tentou a reeleição, fechou o Congresso, amordaçou a mídia? Como nota o autor do artigo que reproduzi acima, em relação aos Estados Unidos, também notei no novo discurso do ex-presidente. Ele fala à emoção das pessoas, ao preconceito existente contra sindicalistas ou petistas como se fossem vírus corrompedores da democracia brasileira. A adesão de um ex-presidente da República, intelectual de renome, a esse tipo de discurso, diz muito sobre a degradação do ambiente político brasileiro.

Reproduzido de: A lógica bizarra de FHC e as teorias conspiratórias da direita americana

Nota do história em projetos: Azenha fez outro artigo analítico de primeiríssima linha sobre o artigo do sociólogo FHC e analisou com primazia a ilustração de O Globo para o referido artigo. Luis Nassif comentou o episódio aqui e aqui e Rodrigo Vianna fez um post bem humorado a respeito do descabido artigo do ex-presidente.
E na opinião deste autora o caminho traçado por FHC é perigoso, a analogia é descabida, comparar um governo democrático com alguma tendência social ao período de censura, tortura, perseguições políticas, prisões arbitrárias, fechamento de Congresso, AI-5 e afins é esquecer todas as bases da teoria política da sociologia ou praticar má-fé.

sábado, 17 de outubro de 2009

Bolsa Família contribui para o crescimento da escolaridade no Brasil

Meio milhão de jovens e adultos beneficiários do Programa Bolsa Família - do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) - ou que estão no Cadastro Único foram alfabetizados em 2006 e 2007. O percentual de pessoas cadastradas atendidas por programas de alfabetização aumentou de 21,9%, em 2006, para 33,8% em 2007. A articulação do MDS com o Programa Brasil Alfabetizado (PBA), do Ministério da Educação, possibilitou que essas pessoas iniciassem os estudos ou voltassem às salas de aula, uma ação fundamental para aumentar as oportunidades de inclusão social, produtiva e cidadã da população pobre. Os dados evidenciam a contribuição do Bolsa Família para o crescimento da escolaridade no Brasil.

Dos 536.289 alfabetizados no período, 379.465 são atendidos pelo programa de transferência de renda do governo federal. A parceria entre os ministérios e os municípios está reduzindo o analfabetismo entre a parcela mais pobre da população. Em Belo Horizonte (MG), a beneficiária Renata Rodrigues da Silva, de 26 anos, está no grupo que voltou à escola neste ano. Pressionada pelo pai, ela parou de estudar aos 10 anos, ainda quando morava no município de Santa Maria do Suaçuí (MG). Mudou-se para BH, teve uma filha e acabou indo morar na rua. Foi acolhida por uma família que ofereceu o barraco dos fundos para Renata morar - já então com três filhos.

Atualmente, a renda da família de Renata é o Bolsa Família. Às vezes, ela trabalha como diarista, mas não tem com quem deixar os filhos. Ela cursa a 2ª série do Ensino Fundamental. “É muito bom voltar a estudar. Não sabia escrever o nome da minha filha”, diz. Renata quer ter uma profissão no futuro. “Se a gente não tiver estudo não é nada. Não posso fazer os cursos que estão dando aí, porque não sei ler”, reconhece.

Além de transferir renda a 11,9 milhões de famílias, o Bolsa Família promove a inclusão dos beneficiários em ações complementares a fim de desenvolver suas capacidades. Dentre elas, está o programa de microcrédito do Banco do Nordeste do Brasil (BNB) que emprestou, entre janeiro e maio deste ano, R$ 215 milhões a 225 mil beneficiários. Há também a qualificação profissional, com o programa Próximo Passo, em parceria com o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Essas iniciativas abrem novas perspectivas de vida para milhares de brasileiros que viviam à margem das políticas públicas.

Compromisso com a educação - A ligação do Bolsa Família com a educação está no desenho do programa. Os beneficiários precisam manter os filhos na escola e cumprir a agenda de saúde. O objetivo é estimular o acesso da população pobre aos serviços básicos de educação e saúde para melhorar as condições de vida desse público. Análise do Bolsa Família, da Secretaria Nacional de Renda de Cidadania do MDS, aponta que o Nordeste - região com os maiores índices de analfabetismo (24% dos beneficiários) - está investindo mais na educação de seus habitantes. A região responde por 88% dos beneficiários alfabetizados nos dois anos.

Programa inclui novos beneficiários - Outubro vai ser um mês especial para 500 mil famílias pobres de todo o País. A partir desta segunda-feira (19/10), elas começam a receber os benefícios do Bolsa Família, programa do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS). A inclusão dos novos beneficiários faz parte da expansão do Programa, que cumpre a última etapa prevista para 2009. A ampliação foi planejada para atender a estimativa feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com base no Mapa de Pobreza.

A expansão começou em maio, quando foram beneficiadas 300 mil novas famílias. Em agosto, outras 500 mil passaram a fazer parte do Programa. No total, 1,3 milhão de novos domicílios foram incluídos no Bolsa Família que já atende atualmente a 11,9 milhões de lares. A expectativa do MDS é chegar 12,9 milhões de famílias em 2010.

FONTE: Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, Nº 912 - Brasília, 16 de Outubro de 2009

domingo, 4 de outubro de 2009

Lula e a importância do Brasil no cenário político internacional


Sim, nós podemos

Por Luis Nassif

Do Último Segundo Coluna Econômica – 04/10/2009

Estava almoçando com um amigo banqueiro quando veio a notícia de que o Rio de Janeiro havia sido escolhido cidade-sede das próximas Olimpíadas. Mandou abrir um vinho em comemoração. De manhã, um funcionário dele, em Copenhagem, mandou email informando que na cidade só se falava em Lula, uma euforia completa apenas pela presença de Lula por lá.

No restaurante, as mesas comemoraram pedindo vinhos e champagnes. Nas ruas, uma população orgulhosa do feito brasileiro. No Blog, centenas de comentários de leitores orgulhosos de serem brasileiros, finalmente orgulhosos de serem brasileiros, repito.

Chego no escritório, ligo a Internet e procuro o vídeo com o discurso de Lula, defendendo a candidatura do Rio e, depois, com Lula com os olhos marejados falando de sua maior especialidade: o modo de ser brasileiro. Tecendo loas ao Brasil, ao Rio, à ginga, à alma brasileira.

E me espanto de como é possível que parte da opinião pública ainda não tenha se dado conta da dimensão política global de Lula. Ele se tornou um dos governantes paradigmáticos do maior processo de transformações que a humanidade atravessa desde o pós-guerra.

***

A população pobre, que era custo, hoje se tornou o grande ativo dos emergentes China, Índia e Brasil. Lula representa não apenas a história de sucesso do operário que chegou a presidente. O polonês Lech Walesa também teve esse papel e não passou de mera curiosidade histórica. Já Lula tem desempenhado um papel civilizatório inimaginável.

Assumiu um país exaurido pela insensibilidade social, liderando um continente propenso a exageros populistas históricos, como contraposição aos exageros liberais. Globalmente, o fracasso das políticas neoliberais projetou uma sombra de xenofobia, intolerância e radicalização sobre todos os continentes.

Foi nesse ambiente propício à radicalização que Lula projetou sua imagem de pacificador, de agente do processo civilizatório mundial.

Com a mesma bonomia com que trata seus adversários políticos no Brasil, ou como tratava os peões de fábrica no ABC, ajudou a criar uma alternativa democrática no continente, orientando Evo Morales, contendo os arroubos de Hugo Chávez, tornando-se a esperança do Ocidente de manter uma porta aberta com o Irã.

Quando leva Obama para uma sala para explicar, em um bate-papo, como agir no caso do Irã, o severino retirante se despe de toda liturgia do cargo, dos tremeliques da diplomacia, usa a linguagem tosca e direta com que as pessoas normais se comunicam e ajuda a desenhar a nova diplomacia mundial. E com a cara do Brasil, a afetividade do Brasil, alisando as pessoas, tratando-as com o carinho brasileiro.

Na coletiva que deu após a escolha do Rio, a profissão de fé no Brasil entrará para a história. O orgulho de ser brasileiro, o “sim, nós podemos” entra definitivamente para o repertório brasileiro do século 21, do mesmo modo que JK empurrou o país com seu otimismo e sua genuína crença no valor do brasileiro.

Daqui a vinte anos, quando o país estiver definitivamente entronizado no panteão dos grandes países do mundo, será mais fácil avaliar a verdadeira dimensão de Lula, como o grande timoneiro dessa travessia.

Leia também: Yes, we creu, Rio 2016

terça-feira, 8 de setembro de 2009

7 de setembro e o Pré-sal

Pronunciamento à nação do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, em cadeia nacional de rádio e televisão, por ocasião do 187º aniversário da Independência do Brasil



Brasília-DF, 06 de setembro de 2009


Queridas Brasileiras e Queridos Brasileiros,

É comum que o 7 de setembro sirva para a gente enaltecer o passado e pensar o presente. Desta vez é diferente: este é o 7 de setembro do Brasil festejar o futuro. De celebrar uma nova independência.

Esta nova independência tem nome, forma e conteúdo. Seu nome é pré-sal; seu conteúdo são as gigantescas jazidas de petróleo e gás descobertas nas profundezas do nosso mar; sua forma é o conjunto de projetos de lei que enviamos, há poucos dias, ao Congresso Nacional. E que vai garantir que esta riqueza seja corretamente utilizada para o bem do Brasil e de todos os brasileiros.

Peço a cada um de vocês que acompanhe passo a passo as discussões destas leis no Congresso. Que se informe, reflita, e entre de corpo e alma nesse debate tão importante para os destinos do Brasil e para o futuro de nossos filhos e netos.

Posso resumir em duas frases a proposta do governo: de um lado, ela garante que a maior parte da riqueza do pré-sal fique nas mãos dos brasileiros; de outro, ela impede que qualquer governante gaste de forma irresponsável estes recursos. E mais: obriga que este dinheiro seja aplicado em educação, ciência e tecnologia, cultura, defesa do meio-ambiente e combate à pobreza.

Minhas amigas e meus amigos,

O pré-sal é uma das maiores descobertas de todos os tempos. Ainda não se pode dizer, com exatidão, quantos bilhões de barris de petróleo existem nele. Mas já se pode garantir, com toda segurança, que ele colocará o Brasil entre os países com maiores reservas de petróleo e gás do mundo.
Elas se espalham por uma área de 149 mil quilômetros quadrados, que começa no litoral do Espírito Santo e termina no de Santa Catarina. É uma área do tamanho do estado do Ceará.

As jazidas ficam debaixo de uma lâmina de água e de camada de sal, que, em alguns pontos, correspondem a dez morros do corcovado empilhados.

Minhas amigas e meus amigos,

O que deve fazer um povo livre, responsável e soberano ao receber tamanha dádiva de Deus? Garantir que esta riqueza não escape de suas mãos, buscar os meios mais eficientes de explorá-la e modernizar suas leis para não repetir os erros de outros países.

A história tem mostrado que a riqueza do petróleo é uma faca de dois gumes. Quando bem explorada, traz progresso para o povo. Quando mal explorada, ela traz conflitos, desperdícios, agressão ao meio-ambiente, desorganização da economia e privilégios para uns poucos. Assim, alguns países pobres, ricos em petróleo, não conseguiram jamais sair da miséria.

Por isso, dei orientações bem claras aos ministros. Primeira: o petróleo e o gás pertencem ao povo brasileiro. Como no pré-sal, os possíveis sócios terão poucos riscos, eles não podem ficar com a parte da renda. Ela tem que ser do povo. Segunda orientação: o Brasil não pode ser um mero exportador de óleo cru. Vamos agregar valor aqui dentro, exportando derivados, como gasolina, diesel e produtos petroquímicos, que valem muito mais. Vamos construir uma poderosa indústria de equipamentos e serviços e gerar milhares e milhares de empregos brasileiros. Terceira orientação: não vamos nos deslumbrar e sair por aí, como novos ricos, torrando dinheiro em bobagens. O pré-sal é um passaporte para o futuro. Vamos investir seus recursos naquilo que temos de mais precioso e promissor: nossos filhos, nossos netos, nosso futuro.

Minhas amigas e meus amigos,

Os ministros seguiram estas diretrizes e honraram o compromisso com o povo brasileiro. A principal mudança que estamos propondo é que, nas áreas ainda não exploradas do pré-sal, passe a vigorar o modelo de partilha. Quase todos os países que têm grandes reservas e baixo risco de exploração adotam este sistema. Ele garante que o estado e o povo continuem donos da maior parte do óleo e do gás mesmo depois de sua extração.

O modelo de concessão, que foi adotado em 97, não se adapta a nova situação. Seria um erro mantê-lo no pré-sal. Um erro grave. Ele foi implantado quando não sabíamos da existência de grandes reservas e o País não tinha recursos para explorar seu petróleo.

Estamos propondo, também, que a Petrobras seja a operadora de toda área. Ou seja, exerça atividades de exploração e produção, com uma participação mínima de 30% em todos os blocos.

Não podia ser diferente. Afinal, temos dentro de casa uma das maiores, melhores e mais respeitadas empresas de petróleo do mundo. Assim saberemos tudo sobre as reservas, aperfeiçoaremos nossa tecnologia e faremos da Petrobras uma empresa ainda mais forte.

Este trabalho será complementado pela Petro-sal, uma nova empresa estatal, enxuta e altamente qualificada, que vai gerir os contratos de partilha e os de comercialização. Ela não vai concorrer com a Petrobras. Sua função é outra - a de ser o olho do povo na fiscalização de toda operação.

Minhas amigas e meus amigos,

Hoje o Brasil tem todas as condições políticas, econômicas e tecnológicas para enfrentar este desafio. A economia do Brasil vive um novo momento. De 2003 a 2008, crescemos em média, 4,1% ao ano. Nos últimos dois anos, mais que 5%. O país gerou cerca de onze milhões de empregos com carteira assinada. O desemprego caiu fortemente, de 11,7% em 2003, para 8% hoje. As taxas de juros são as menores das últimas décadas.

Não só pagamos a dívida externa, como acumulamos reservas de 215 bilhões de dólares. E mais: reduzimos a miséria e as desigualdades. Mais de 30 milhões de brasileiros saíram da linha da pobreza. E destes, 20 milhões ingressaram na nova classe média, fortalecendo o mercado interno e dando vigoroso impulso à nossa economia.

O fato é que hoje temos uma economia organizada e em crescimento, que foi testada na mais grave crise internacional desde 29 e saiu-se muito bem. Não só não quebramos, como fomos um dos últimos países a entrar na crise e estamos sendo um dos primeiros a sair dela. Antes, éramos alvo de chacotas e de imposições. Hoje, nossa voz é ouvida lá fora com atenção e respeito.

A Petrobras de hoje é a cara deste novo Brasil. É a oitava maior empresa do mundo. Não existe nenhuma empresa, na Europa, do tamanho dela. Nas Américas, fica atrás apenas de três gigantes norte-americanas. E é a segunda empresa em lucratividade. E, entre as petroleiras, a segunda em valor de mercado no mundo.

A Petrobras chegou aí, entre outros motivos, porque este governo acreditou e investiu, dando condições para que ela aumentasse a produção, encomendasse plataformas, sondas, modernizasse e ampliasse refinarias, treinasse e contratasse funcionários. Além de construir uma grande infra-estrutura de gás natural e entrar na área de biocombustíveis.

O coroamento deste esforço foi exatamente a descoberta, pela própria Petrobras, das reservas do pré-sal. Um feito extraordinário, que encheu de admiração o mundo e de orgulho os brasileiros.

Minhas amigas e meus amigos,

Este é um governo que acredita no Brasil e no que ele tem de mais rico: o seu povo.

É por isso que propomos que os recursos do pré-sal sejam colocados em um fundo social, controlado pela sociedade, e que será aplicado, majoritariamente, em desenvolvimento humano. De um lado, o novo fundo será uma mega-poupança, um passaporte para o futuro, que nos ajudará, entre outras coisas, a pagar a imensa dívida que o País tem com a educação e a pobreza.

De outro lado, funcionará, também, como um dique contra a entrada desordenada de dinheiro externo, evitando seus efeitos nocivos e garantindo que nossa economia siga saudável, forte e baseada no trabalho e no talento de nossa gente.

Todos estes temas estão agora em discussão no Congresso Nacional e eu sei que contaremos, mais uma vez, com o apoio livre e soberano do Legislativo na construção deste novo Brasil.

Uma ação desta amplitude só pode ocorrer, de forma saudável, em um ambiente democrático. A democracia é o ambiente mais saudável para o crescimento.

O embate e a paixão política fazem parte do universo democrático, mas não podemos deixar que interesses menores retardem ou desviem a marcha do futuro.

Uma democracia só se fortalece com a participação da sociedade. Por isso se mobilize, converse com seus amigos, escreva pra seu deputado, seu senador, pra que eles apoiem o que é melhor para o Brasil.

O Brasil não tem medo de crescer, nem de buscar os melhores caminhos. Não vai ficar preso a dogmas, a modelos fechados ou a falsas verdades.

O Brasil acredita no livre mercado mas também no papel do estado como indutor do desenvolvimento. E saberá sempre buscar o equilíbrio que garanta o melhor para seu povo.

Queridas brasileiras e queridos brasileiros,

É tempo de ampliarmos, ainda mais, a nossa esperança no Brasil. A independência não é um quadro na parede nem um grito congelado na história. A independência é uma construção do dia-a-dia. A reinvenção permanente de uma nação. A caminhada segura e soberana para o futuro.

Viva o 7 de setembro! Boa noite!

Fonte: Blog do Planalto

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

No Ar, o Blog do Planalto!

Convido os professores e demais leitores deste blog a conhecer o blog do planalto, que foi ao ar nesta madrugada.

É uma ferramenta histórica no sentido de que podemos acompanhar os passos do presidente Lula e dos próximos/as presidentes/as. Podemos concordar ou discordar, com a diferença de poer ler informações vindas diretamente da fonte, sem passar pela mediação e deformação que quase sempre vemos na mídia.

A grande discussão de hoje no país foi o pré-sal, reproduzo na íntegra o discurso do presidente Lula, vale leitura. E para quem desejar ouvi-lo, vá conhecer o blog do Planalto

Discurso de Lula sobre o pré-sal, reproduzido de Vermelho:

Minha querida companheira Marisa Letícia,
Excelentíssimo senhor presidente do Senado, José Sarney,
Excelentíssimo presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer,
Ministra Dilma Roussef, ministra-chefe da Casa Civil da Presidência da República; ministro Edison Lobão, de Minas e Energia, em nome dos quais cumprimento todos os ministros aqui presentes,
Quero cumprimentar todos os governadores que vieram ao lançamento do pré-sal,
Quero cumprimentar as autoridades dos Superiores Tribunais aqui de Brasília,
Quero cumprimentar os nossos amigos senadores e deputados que estão presentes,
Quero cumprimentar os membros do corpo diplomático,
Quero cumprimentar os prefeitos aqui presentes,
Em nome dos empresários eu gostaria de cumprimentar o nosso companheiro José Sérgio Gabrielli, presidente da nossa gloriosa Petrobras,
E o Luciano Coutinho, presidente do BNDES,

Minhas amigas e meus amigos,

Hoje é um dia histórico.

O governo está enviando ao Congresso Nacional sua proposta do marco regulatório para a exploração de petróleo e gás no chamado pré-sal.

Estou seguro de que, nos próximos meses, os deputados e senadores, recolhendo também as contribuições de governadores e prefeitos, aperfeiçoarão as propostas do governo, trabalhando com responsabilidade, espírito público, compromisso com o país e, sobretudo, muita visão de futuro.

Estou seguro também de que o povo brasileiro entrará de corpo e alma nesse debate tão importante para o destino do Brasil e para o futuro dos nossos filhos.

Porque esse não é um assunto apenas para os iniciados e especialistas. Nem é tampouco um tema que deva ficar restrito somente ao parlamento. Ao contrário, ele interessa a todos e depende de todos.

Por isso mesmo, quero convocar cada brasileiro e cada brasileira a participar desse grande debate. Trabalhadores, donas de casa,
lavradores, empresários, intelectuais, cientistas, estudantes, servidores públicos, todos podem e devem contribuir para que tomemos as melhores decisões.

Minhas amigas e meus amigos,

O chamado pré-sal contém jazidas gigantescas de petróleo e gás, situadas entre cinco e sete mil metros abaixo do nível do mar, sob uma camada de sal que, em certas áreas, alcança mais de 2 mil metros de espessura.

Não se pode ainda dizer, com certeza, quantos bilhões de barris o pré-sal acrescentará às reservas brasileiras. Mas já se pode dizer, com toda segurança, que ele colocará o Brasil entre os países com maiores reservas de petróleo do mundo.

Trata-se de uma das maiores descobertas de petróleo de todos os tempos. E em condições extremamente importantes: as reservas encontram-se num país de grandes dimensões, de grande população e de abundantes recursos naturais. Um país que conta com um regime político estável e instituições democráticas em pleno funcionamento. Um país pacífico que faz questão de viver em paz com seus vizinhos. Um país que possui uma economia sofisticada, com um parque industrial diversificado, uma agropecuária de ponta e um setor de serviços moderno. Um país que, tendo dado passos importantes na superação das desigualdades sociais, encontrou seu caminho e está maduro para dar um salto no desenvolvimento.

Como já disse em outra oportunidade, o pré-sal é uma dádiva de Deus. Sua riqueza, bem explorada e bem administrada, pode impulsionar grandes transformações no Brasil, consolidando a mudança de patamar de nossa economia e a melhoria das condições de vida de nosso povo.

Mas o pré-sal também apresenta perigos e desafios. Se não tomarmos as decisões acertadas, aquilo que é um bilhete premiado pode transformar-se em fonte de enormes problemas. países pobres que descobriram muito petróleo, mas não resolveram bem essa questão, continuaram pobres.

Outros caíram na tentação do dinheiro fácil e rápido. Passaram a exportar a toque de caixa todo o óleo que podiam e foram inundados por moedas estrangeiras. Resultado: quebraram suas indústrias e desorganizaram suas economias. E, assim, o que era uma dádiva transformou-se numa verdadeira maldição.

Para evitar esse risco, desde o primeiro instante, determinei à comissão de ministros que preparou o marco regulatório do pré-sal que trabalhasse em cima de três diretrizes básicas.

Primeira: o petróleo e o gás pertencem ao povo e ao Estado, ou seja, a todo o povo brasileiro. E o modelo de exploração a ser adotado, num quadro de baixo risco exploratório e de grandes quantidades de petróleo, tem de assegurar que a maior parte da renda gerada permaneça nas mãos do povo brasileiro.

A segunda diretriz é de que o Brasil não quer e não vai se transformar num mero exportador de óleo cru. Ao contrário, vamos agregar valor ao petróleo aqui dentro, exportando derivados, como gasolina, óleo diesel e produtos petroquímicos, que valem muito mais. Vamos gerar empregos brasileiros e construir uma poderosa indústria fornecedora dos equipamentos e dos serviços necessários à exploração do pré-sal.

A terceira diretriz: não vamos nos deslumbrar e sair por aí, como novos ricos, torrando dinheiro em bobagens. O pré-sal é um passaporte para o futuro. Sua principal destinação deve ser a educação das novas gerações, a cultura, o meio ambiente, o combate à pobreza e uma aposta no conhecimento científico e tecnológico, por meio da inovação. Vamos investir seus recursos naquilo que temos de mais precioso e promissor: nossos filhos, nossos netos, nosso futuro.

Ao examinar os projetos de lei que estamos enviando hoje ao Congresso, depois de tanto trabalho e estudo, vejo com satisfação que eles estão em perfeita sintonia com essas diretrizes.

Minhas amigas e meus amigos,

Uma mudança importante no marco regulatório será a adoção do modelo de partilha de produção no pré-sal e em outras áreas de potencial e características semelhantes. É uma mudança absolutamente necessária e justificada.

Estamos vivendo hoje um cenário totalmente diferente daquele que existia em 1997, quando foi aprovada a Lei 9.478, que acabou com o monopólio da Petrobras na exploração do petróleo e instituiu o modelo de concessão.

Naquela época, o mundo vivia um contexto em que os adoradores do mercado estavam em alta e tudo que se referisse à presença do Estado na economia estava em baixa. Vocês devem se lembrar como esse estado de espírito afetou o setor do petróleo no Brasil. Altas personalidades naqueles anos chegaram a dizer que a Petrobras era um dinossauro – mais precisamente, o último dinossauro a ser desmantelado no país. E, se não fosse a forte reação da sociedade, teriam até trocado o nome da empresa. Em vez de Petrobras, com a marca do Brasil no nome, a companhia passaria a ser a Petrobrax – sabe-se lá o que esse xis queria dizer nos planos de alguns exterminadores do futuro.

Foram tempos de pensamento subalterno. O país tinha deixado de acreditar em si mesmo. Na economia, campeava o desalento. O Brasil não conseguia crescer, sofria com altas taxas de juros, de desemprego, e juros estratosféricos, apresentava dívida externa elevadíssima e praticamente não tinha reservas internacionais. Volta e meia quebrava, sendo obrigado a pedir ao FMI ajuda, que chegava sempre acompanhada de um monte de imposições.

Além disso, não produzíamos o petróleo necessário para nosso consumo. Ferida, desestimulada e desorientada, a Petrobras vivia um momento muito difícil. Tinha dificuldades de captação externa e não contava com recursos próprios para bancar os investimentos. Nessa época, é bom lembrar – e a Dilma já falou – o preço do barril do petróleo estava em torno de US$ 19.

Hoje, nós vivemos um quadro é inteiramente diferente. Em primeiro lugar, os países e os povos descobriram na recente crise financeira internacional que, sem regulação e fiscalização do Estado, o deus-mercado é capaz de afundar o mundo num abrir e fechar de olhos. O papel do Estado, como regulador e fiscalizador, voltou, portanto, a ser muito valorizado.

A economia do Brasil vive também um novo momento. De 2003 a 2008, crescemos em média, 4,1% ao ano. Nos últimos dois anos, nosso crescimento foi superior a 5%. Nesse período, o país gerou cerca de onze milhões de empregos com carteira assinada. O desemprego caiu de 11,7% para 8%, em 2008. Hoje, as taxas de juros atuais são as menores de muitas décadas em nosso país.

Não só pagamos a dívida externa pública, como acumulamos reservas superiores a US$ 215 bilhões. E mais: reduzimos de modo consistente a miséria e as desigualdades sociais. Mais de 30 milhões de brasileiros saíram da linha da pobreza e 2 milhões ingressaram... e 20 milhões ingressaram na nova classe média, fortalecendo o mercado interno e dando vigoroso impulso à nossa economia.

O fato é que hoje temos uma economia organizada, pujante e voltada para o crescimento. Uma economia que foi testada na mais grave crise internacional desde 1929 e saiu-se muito bem na prova. Não só não quebramos, como fomos um dos últimos países a entrar na crise e estamos sendo um dos primeiros a sair dela. Antes, éramos alvo de chacotas e de imposições. Hoje, nossa voz, a voz do Brasil, é ouvida lá fora com muita atenção e com muito respeito.

Meus queridos companheiros e companheiras,

Desde o primeiro instante, meu governo deu toda força à Petrobras. Passamos a cuidar com muito carinho do nosso querido dinossauro. Os recursos da empresa destinados à pesquisa e ao desenvolvimento deram um salto de US$ 201 milhões, em 2003, para R$ 960 milhões, em 2008.

A companhia voltou a investir, aumentou a produção, abriu concursos para contratação de funcionários, encomendou plataformas, modernizou e ampliou refinarias, além de construir uma grande infra-estrutura de gás natural e entrar também na era de biocombustíveis.

Deixamos claro que nossa política era fortalecer, e não debilitar, a Petrobras. E a companhia – estimulada, recuperada e bem comandada – reagiu de forma impressionante.

Resultado: a Petrobras vive hoje um momento singular. É o orgulho do país. É a maior empresa do Brasil. É a quarta maior companhia do mundo ocidental. Entre as grandes petroleiras mundiais, é a segunda em valor de mercado. É um exemplo em tecnologia de ponta. Descobriu as reservas do pré-sal, um feito extraordinário, que encheu de admiração o mundo e de muito orgulho os brasileiros. É uma empresa com crédito e autoridade internacionais. Tanto que, nos últimos meses, levantou cerca de US$ 31 bilhões em empréstimos. Seus investimentos previstos até 2013 somam US$ 174 bilhões.

E ainda para ajudar, para completar, o preço do barril de petróleo oscila hoje em torno de US$ 65, mais do triplo do que em 1997.

Em suma, os tempos e o ambiente no mundo são outros. A situação da economia brasileira é outra. O Brasil e o prestígio do Brasil são outros. A Petrobras é outra. E outra também é a situação do mercado do petróleo.

Minhas amigas e meus amigos,

Também não há termos de comparação entre as áreas que vinham sendo exploradas até agora e as áreas do pré-sal.

No pré-sal, os riscos exploratórios são baixíssimos. A taxa de sucesso dos poços operados pela Petrobras na área é de 87%, sendo que nos blocos situados na Bacia de Santos ela é de 100%. Foram 13 poços perfurados. E nos 13 comprovou-se a existência de grandes quantidades de óleo e gás, com excelentes perspectivas de viabilidade econômica.

Nessas circunstâncias, seria um grave erro manter na área do pré-sal, de baixíssimo risco e grande rentabilidade, o modelo de concessões, apropriado apenas para blocos de grande risco exploratório e baixa rentabilidade.

No modelo de concessões, a União, proprietária do subsolo, permite que as companhias privadas procurem petróleo, mediante o pagamento de uma taxa chamada bônus de assinatura. Se elas encontrarem óleo ou gás, podem extraí-lo e comercializá-lo como quiserem. São donas do petróleo arrancado das entranhas da terra, porque, a partir da boca do poço, a União perde os direitos de propriedade, recebendo apenas uma parcela pequena da renda do petróleo, na forma de royalties e participações especiais.

Já no modelo de partilha, que prevalece em todo o mundo em áreas de baixo risco exploratório e grande rentabilidade, a União continuará dona da maior parte do petróleo e do gás mesmo depois de sua extração. Nesse modelo, o Estado não transfere toda a propriedade do óleo para grupos privados, mas fecha contratos para a exploração e a produção em determinada área – diretamente com a Petrobras ou, mediante licitação, no caso de outras companhias.

No modelo de partilha, as empresas são remuneradas com uma parcela do óleo extraído, suficiente para cobrir seus custos e investimentos e ainda proporcionar uma rentabilidade adequada ao risco do projeto. Já o Estado fica com a maior parte dos lucros da exploração e produção de petróleo, parte esta bem superior ao que recebe hoje no regime de concessão. A regra do modelo de partilha é clara: nas licitações, vence a empresa que oferecer a maior parcela do lucro da operação para o Estado e para o povo brasileiro.

Amigas e amigos,

Como no modelo de partilha a maior parte do petróleo, mesmo depois de extraído, continuará a pertencer ao Estado, ela controlará o processo de produção. Assim, ela poderá definir claramente o ritmo de extração, calibrando-o de acordo com os interesses nacionais, sem se subordinar às exigências do mercado. Dessa maneira, ficará mais fácil para o Brasil contornar os riscos inerentes à produção excessiva, que poderia inundar o país de dinheiro estrangeiro, desorganizando nossa economia – aquilo que os especialistas chamam de doença holandesa.

Além disso, poderemos produzir petróleo nas condições que mais convêm ao país. E desse modo poderemos aproveitar a riqueza do petróleo, que Deus nos deu, para produzir mais riqueza ainda com o nosso trabalho.

Dessa forma, consolidaremos uma poderosa e sofisticada indústria petrolífera, promoveremos a expansão da nossa indústria naval e converteremos o Brasil num dos maiores pólos mundiais da indústria petroquímica do mundo.

Trabalhando com essa perspectiva, encomendaremos – e produziremos aqui dentro – milhares e milhares de equipamentos, gerando emprego, salário e renda para milhões de brasileiros.

Minhas amigas e meus amigos,

Para gerir os contratos de partilha e os contratos de comercialização de petróleo e gás, zelando pelos interesses do Estado e do povo brasileiro, estamos criando uma nova empresa estatal na área do petróleo, a Petrosal.

Ela não concorrerá com a Petrobras, já que não participará da prospecção ou da exploração de petróleo e gás. Sua missão é inteiramente diferente. A nova estatal será, isso sim, a representante dos interesses do Estado brasileiro, o olho atento do povo brasileiro, acompanhando e fiscalizando a execução dos contratos firmados na área do pré-sal.

Será uma empresa enxuta, com corpo técnico altamente qualificado, formado por profissionais com experiência comprovada. Em vários países que adotaram o modelo de partilha, empresas com esse caráter revelaram-se imprescindíveis para defender os interesses públicos e nacionais nas negociações e na gestão de contratos e processos complexos e sofisticados como os que caracterizam a indústria petrolífera.

Minhas amigas e meus amigos,

Se vocês estão cansados, imaginem eu. Outra novidade importante é a criação do Fundo Social. Ele será responsável pela administração da renda do petróleo e pela sua aplicação em investimentos seguros e de boa rentabilidade, tanto no Brasil como no exterior.

De um lado, o novo fundo será uma mega-poupança, um passaporte para o futuro, que preservará e incrementará a renda do petróleo por muitas e muitas décadas. Os rendimentos do fundo serão canalizados, prioritariamente, para a educação, a cultura, o meio ambiente, a erradicação da pobreza e a inovação tecnológica. Vamos aproveitá-los para pagar a imensa dívida que o país tem com a educação e para permitir que a aplicação do conhecimento científico seja, na verdade, a nossa maior garantia do nosso futuro.

De outro lado, o novo fundo funcionará, também, como um dique contra a entrada desordenada de dinheiro externo, evitando seus efeitos nocivos e garantindo que nossa economia siga saudável, forte e baseada no trabalho e no talento dos milhões e milhões de brasileiros.

Assim, a renda gerada pela produção do pré-sal será administrada de forma planejada e inteligente. E seu ingresso na economia nacional será dosado de modo a fortalecê-la e a impulsioná-la, jamais a desorganizá-la.
Minhas amigas e meus amigos,

Não poderia deixar de prestar aqui uma sincera homenagem à Petrobras, a sua diretoria e a todo o seu corpo de funcionários.

A descoberta do pré-sal, que coloca o Brasil num novo patamar no cenário mundial, não foi fruto do acaso ou de um golpe de sorte. Ao contrário, ela só foi possível graças ao talento, à competência e à determinação da Petrobras. E também, é claro, graças ao revigoramento da empresa nos últimos anos, à recuperação da sua autoestima e aos investimentos crescentes em pesquisa e prospecção.

Poucas empresas no mundo têm hoje a experiência da Petrobras na exploração de petróleo em águas profundas e ultraprofundas. E nenhuma empresa petrolífera conhece e é capaz de obter resultados tão expressivos em nossa plataforma submarina como ela. Trata-se de um ativo, de um patrimônio de enorme valor, que deve ser bem e de forma extraordinária aproveitado.

Por isso mesmo, a Petrobras terá um status especial no marco regulatório do pré-sal. Será a única empresa operadora nessa província. Outras empresas poderão ter participação, inclusive majoritária, nos consórcios que explorarão os blocos contratados. Mas a operação – vale dizer, a exploração, o desenvolvimento, a produção e a desativação das instalações – estará sempre a cargo da nossa querida e orgulhos Petrobras.

Além disso, as reservas do pré-sal, que pertencem ao Estado e ao povo brasileiro, oferecem uma excelente oportunidade para que a União fortaleça a Petrobras para enfrentar os novos desafios. Nesse sentido, estamos enviando projeto de lei ao Congresso Nacional autorizando a União a promover aumento de capital da companhia. O valor total do aumento de capital será aquilo que a ministra Dilma já falou, de até cinco bilhões de barris equivalentes de petróleo, obviamente, relativos às jazidas contíguas às áreas que a empresa já detém no pré-sal.

Nos termos da lei, os acionistas minoritários que desejarem participar dessa chamada de capital poderão adquirir ações da companhia, o que contribuirá para reforçar economicamente nossa maior empresa nesse momento decisivo.

Se os acionistas minoritários não exercerem integralmente seus direitos de opção, a capitalização promovida pela União implicará aumento da participação do povo brasileiro no capital total da Petrobras.

Minhas amigas e meus amigos,

Nesse momento em que o Brasil discute o melhor caminho para se tornar um grande produtor mundial de petróleo, quero render minhas homenagens a todos os brasileiros que lutaram para que este sonho se transformasse em realidade.

Em primeiro lugar, homenageio os que acreditaram quando era mais fácil descrer. E não deram ouvidos às aves de mau agouro que, durante décadas, apregoaram aos quatro ventos que o Brasil não tinha petróleo. Foram, por isso, chamados de fanáticos e maníacos. Ainda bem que houve fanáticos que nos ensinaram a duvidar dos preconceitos e a ter fé em nossas próprias forças.

Rendo minha homenagem também aos que se insurgiram contra a ladainha que proclamava que, mesmo que o Brasil tivesse petróleo, não teria competência para explorá-lo. E que deveria deixar essa tarefa para o capital estrangeiro. Muitos foram tachados de lunáticos, prisioneiros de uma idéia fixa, como o grande e saudoso Monteiro Lobato, porque teimaram em lutar para que o Brasil explorasse suas riquezas. Benditos lunáticos que ensinaram o país a enxergar longe, em tempos de escuridão, e iluminaram os caminhos dos que vieram depois.

Rendo minha homenagem ainda aos que saíram às ruas em todo o país na campanha do “O Petróleo é nosso”, levando o presidente Getúlio Vargas a instituir o monopólio estatal do petróleo e a criar a Petrobras. Foi uma batalha travada em condições duríssimas. Basta ler os jornais da época, alguns em circulação até hoje, que ridicularizavam a campanha nacionalista. E eu digo: bendito nacionalismo, que permitiu que as riquezas da nação permanecessem em nossas mãos.

Rendo homenagem muito especial, por fim, a todos os que defenderam a Petrobras quando ela foi atacada ao longo de sua história – e ainda hoje – e aos funcionários e petroleiros que se mantiveram de pé quando a empresa passou a ser tratada como uma herança maldita do período jurássico. Benditos amigos e companheiros do dinossauro, que sobreviveu à extinção, deu a volta por cima, mostrou o seu valor. E descobriu o pré-sal – patrimônio da União, riqueza do Brasil e passaporte para o nosso futuro.

Olho para trás e vejo que há algo em comum em todos esses momentos, algo que unifica e dá sentido a essa caminhada, algo que nos trouxe até aqui e ao dia de hoje: é, sinceramente, a capacidade do povo brasileiro de acreditar em si mesmo e no nosso país. Foi em meio à descrença de tantos que querem falar em seu nome... O povo – principalmente ao povo – devemos esse momento atual.

É como se houvesse uma mão invisível – não a do mercado, da qual já falaram tanto, mas outra, bem mais sábia e permanente, a mão do povo – tecendo nosso destino e construindo nosso futuro. Não creio que seja uma coincidência o fato de a Petrobras ter descoberto as grandes reservas do pré-sal justamente num momento da vida política nacional em que o povo também descobriu em si mesmo grandes reservas de energia e de esperança. Num momento em que o país, deixando para trás o complexo de inferioridade que lhe inculcaram durante séculos, aprendeu como é bom andar de cabeça erguida e olhar com confiança para o futuro.

Muito obrigado, companheiros.

sábado, 15 de agosto de 2009

Luiz Carlos Azenha: leitura pente fino na ideologia da direita no Brasil

Dois bons textos que fazem uma leitura crítica com muita propriedade, analisando como a mídia e o jogo político eleitoral trabalham de mãos dadas.

Aproveitem, o que Luiz Carlos Azenha faz nestes dois artigos: é decupagem da ideologia da mídia corporativa,
travestida de jornalismo.

Kamel descobre Lula. Com vinte anos de atraso

15 de agosto de 2009

por Luiz Carlos Azenha

Ali Kamel acaba de lançar o Dicionário Lula.

Pelo que li em seis páginas dedicadas ao livro na revista Veja -- precedidas por duas páginas de propaganda da Globo, que ninguem é de ferro --, Kamel descobriu uma ferramenta bacana para analisar textos e, aparentemente sem ter o que fazer, decidiu aplicá-la. Em quem? Em declarações de Lula. São 672 páginas de declarações de Lula.

Como é provável que ninguem vá ler, Kamel facilita nossa vida e resume Lula: "Um brasileiro médio, mais ou menos crente em Deus e que se vê como o proponente de uma sociedade capitalista onde haja mais harmonia entre os pobres e ricos".

Notem como ele faz questão de hierarquizar: coloca os pobres adiante dos ricos, como se no Brasil do Kamel os ricos não estivessem por cima -- bem protegidos, alimentados e educados -- e os pobres não estivessem por baixo, se possível além-túnel. Pobre do Kamel, afinal, é pobre de novela da Globo: pobre limpinho, que aspira estudar e é bem comportado.

Como Kamel não faz nada sem tramar muito bem, o livro pode ser visto de muitas formas: um agrado no ego de Lula, que sabe que Kamel esteve por trás das tentativas globais de derrotá-lo em 2006 de forma, vamos dizer assim, maquiavélica; o livro pode ser também uma tentativa de reinterpretar Lula.

Fico mais com a segunda, já que Kamel é dado a grandes pretensões jornalísticas e intelectuais. Ele não se contenta em ser um reles diretor da Globo. Kamel tem uma missão na terra: a de reescrever a História.

Assim sendo, depois de provar que Não Somos Racistas, Kamel agora se dedica a provar que Lula não é Lula. O que ele quer dizer com sua definição é que Lula não é um "esquerdista radical tresloucado", visão que ele, Kamel, provavelmente tinha de Lula.

Quem conhece o presidente do Brasil na intimidade sabe que Lula nunca foi marxista, não se diz de esquerda e sempre foi conciliador.

Por que Kamel precisa de 672 páginas para provar o que já sabemos?

Porque, na verdade, quem está descobrindo isso agora é o diretor da Globo. O curioso é que ninguem colaborou mais para criar a imagem de Lula "bicho papão" que a própria Globo, na campanha eleitoral de 1989.

Fernando Collor de Melo, que a Globo ajudou a criar e a derrubar, fez campanha como antítese de Lula: em vez de vermelho, verde-amarelo; em vez de rude, elegante; em vez de ignorante, poliglota; radical, sim, mas no "bom sentido", o de caçador de marajás.

É como se Kamel estivesse tentando repetir, agora, o exercício de quem realmente mandava, Roberto Marinho.

Só que o exercício do diretor da Globo é distinto do executado pelo patrão: Kamel, que não conseguiu "desfazer" Lula em 2006, tenta "refazê-lo", agora em novo sabor: um Lula cordial e conciliador, com o qual a elite brasileira aceitará conviver -- especialmente depois que ele deixar o Planalto.

Mas, sendo Kamel quem é, não poderia deixar de nos oferecer diversão. "Mais ou menos crente em Deus", que é como ele define Lula, é o mesmo que dizer que uma mulher é meio virgem.

PS1: Se Lula se comportar bem, depois que a candidata dele for derrotada em 2010 o "ex-presidente" será convidado para ser consultor da Globo. O círculo estará fechado.

PS2: Para descobrir o que Kamel descobriu sobre Lula, não seria mais fácil perguntar ao presidente? Mas o "jornalismo" de Kamel prefere caminhos, vamos dizer assim, mais tortuosos.


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Serra e o desespero em campanha

por Luiz Carlos Azenha


Existe um princípio do marketing eleitoral nos Estados Unidos segundo o qual você precisa definir o seu adversário antes que ele consiga se definir diante da opinião pública.

Como os EUA são a fonte onde bebem os marqueteiros do Brasil, deve ter nascido aí a estratégia de José Serra para chegar ao Planalto, aliada às ferramentas das quais ele já se utilizou em 2002 para matar a candidatura de Roseana Sarney no berço: o trabalho de agentes públicos que dão um ar oficial aos dossiês, devidamente divulgados pela mídia. O padrão dos "assassinatos de reputação" está de volta.

Dilma, a terrorista, foi obra da Folha de S. Paulo. É uma espécie de pedágio que o jornal pagou, no rodízio que os órgãos da propaganda eleitoral de Serra fazem. Uma hora é a Folha que denuncia, repercutida pela Globo. Outra hora é a Veja que denuncia, repercutida pelo Estadão. De outra feita a Globo denuncia e os jornais correm atrás. É um ciclo de retroalimentação, sempre com objetivos políticos. Informações são misturadas a boatos e ilações. Em um fato real são penduradas dezenas de suposições. A estratégia pressupõe que o eleitor é estúpido, que o leitor, o telespectador e o ouvinte jamais saberão discernir o real do imaginado.

Finalmente, nessa estratégia, as pesquisas eleitorais medem os resultados. Peças da narrativa que não deram certo são descartadas. E é assim que a campanha é calibrada. Dilma a terrorista deu para trás.

Agora passamos a uma nova fase: Dilma, a mentirosa aliada de gente financiada por narcotraficantes.

Para estudar esse fenômeno eleitoral, a edição da revista Veja que chegou às bancas é um primor. Revela uma sofisticação inédita. Na capa, anuncia o confronto Dilma x Lina [a ex-secretária da Receita Federal que acusou Dilma de ter pedido a ela agilidade nas investigações sobre a família Sarney em encontro que a ministra nega].

"Cabe à acusadora mostrar as provas contra a ministra", diz o título. No índice, a chamada é outra: "Dilma: uma rebelião surda contra sua candidatura". Finalmente, na reportagem, o título: "Quem está dizendo a verdade?" O texto é um maravilhoso exemplo de como encher espaço com absolutamente nada.

Começa com uma pensata pretensiosa sobre o uso da mentira na política. Sugere descontentamento entre petistas com a candidatura de Dilma Rousseff. Alinhava "fatos e versões", com os títulos de "o fato", "o que disse a ministra" e "o que foi comprovado". Sugere, sem dizer isso escancaradamente, que Dilma é mentirosa. Ou, pelo menos, que não dá para confiar nela. "Se o rótulo de mentirosa colar na ministra, será muito difícil superar isso em uma campanha", diz o texto. Bastante sugestivo isso, especialmente quando impresso na Veja.

Mas a Veja não seria a Veja sem Diogo Mainardi. Depois de, sob o título de "O Dízimo do Tráfico", especular que dinheiro de narcotraficantes colombianos teria sido investido na Igreja Universal, ele escreve:

"A Igreja Universal, nos últimos dias, atrelou sua imagem à de Lula. É a mesma estratégia empregada por José Sarney. Um apoia o outro. Um defende o outro. Edir Macedo está com Lula e com Dilma Rousseff. Agora e em 2010. Se a Igreja Universal tem um Diploma de Dizimista, assinado pelo Senhor Jesus Cristo, Dilma Rousseff tem um Diploma de Mestrado da Unicamp, supostamente assinado pelo senhor Espírito Santo. O senhor Edir Macedo e o senhor Lula se entendem. Eles sabem capitalizar a fé".

O bom do Diogo Mainardi é que ele facilita sobremaneira o nosso trabalho. Em apenas um parágrafo conseguiu ilustrar a campanha de José Serra ao Planalto melhor que qualquer um faria. Juntou em apenas um parágrafo Lula mentiroso, Lula explorador da fé pública e José Sarney. Por associação, coloca no mesmo saco Dilma, Lula e gente que teria recebido financiamento de narcotraficantes colombianos. Só faltou juntar as FARC e o Fidel Castro.

Mas não se encerra por aí o primor desta edição imperdível. Tem mais. Tem seis páginas dedicadas ao novo e magistral livro de Ali Kamel sobre... Lula. Ou sobre as declarações de Lula. É curiosa essa obsessão do diretor de Jornalismo da TV Globo com aquele que ele, Kamel, tentou desesperadamente derrotar em 2006.

Depois de provar que não somos racistas, Kamel gasta 672 páginas para provar que... Lula não é Lula.

"Um brasileiro médio, mais ou menos crente em Deus e que se vê como proponente de uma sociedade capitalista onde haja mais harmonia entre pobres e ricos". É assim que Kamel define Lula. Sobre isso, leia aqui.

Para terminar, a verdadeira piada de Veja: precedendo as seis páginas dedicadas a Kamel, duas páginas de propaganda da Globo sobre o Criança Esperança. Poderia ser um pouco menos explícito?

PS: Não percam, neste sábado, o Jornal Nacional repercutindo a capa da Veja. Estamos de volta a 2006.

PS2: A simbiose entre Veja, Globo, Kamel e Mainardi se estende aos políticos que alimentam e prestam serviço a ambos. O compadrio entre a elite brasileira é coisa antiga.