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quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Sírio Possenti: Da arte de chutar

Quinta, 12 de novembro de 2009

Sírio Possenti*
de Campinas (SP)

Lembrei uma entrevista de Michel Foucault que li há algumas décadas, supostamente na mesma época em que Caetano Veloso lia Lévi-Strauss, por causa da seguinte passagem: "Nós os franceses temos uma consciência hexagonal da cultura que faz com que paradoxalmente De Gaulle possa passar por um intelectual...".

Se Foucault vivesse entre nós, ficaria espantado com "nossos" intelectuais. Um dos mais notáveis é Caetano Veloso, nosso Aristóteles - ele opina sobre tudo. Aparece em todos os meios de comunicação - mostrando seu banheiro em Caras ou depondo sobre a importância de Lévi-Strauss na Folha de S. Paulo (o que é também uma ilustração de como a Folha explica).

A melhor demonstração de como Caetano (não) leu o antropólogo não aparece em sua resenha (ele já o tinha citado - mais ou menos como Gil citou a física quântica - em uma de suas letras). A prova de que Caetano, se leu, não entendeu nada de Levi-Strauss não é sua entrevista, embora patética. É sua declaração sobre a gramática de Lula.

Não discuto sua avaliação política, que esta, evidentemente, é livre, e ninguém precisa ser letrado nem ter lido O cru e o cozido para expressá-la, nas democracias. Desastrosas, analfabetas, são suas declarações sobre língua. Agora ele disse ao Estadão (sim os dois jornalões lhe deram espaço ¿ o que, nas democracias é proibido proibir, mas se pode lamentar -, elogiando Marina Silva, mas também Mangabeira Unger, e exatamente por seu ¿pensamento¿ sobre a Amazônia) que ela ¿é Lula e é Obama ao mesmo tempo. Ela é meio preta, é uma cabocla. É inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula, que não sabe falar" (Estadão de 6/11/2009). Bem, se elogia Marina e Unger, então também pode ter lido Lévi-Strauss, isto é, passado os olhos nas página de seus livros, e dizer o contrário de tudo o que ele diria. Ou não, acrescentaria Gilberto Gil, provavelmente achando que isso é que é dialética.

Como disse, a opinião é obviamente livre. Mas pode ser burra. De fato, "burro" não é antônimo de "livre", e, assim, os dois predicados podem coexistir. Se Caetano tivesse arranhado Lévi-Strauss, ou mesmo se só tivesse lido alguma coisa sobre o tipo de pensamento a que deu consistência ímpar, teria podido aprender que a maior novidade do pensamento do antropólogo é exatamente que não há culturas (portanto, línguas) erradas ou mesmo inferiores. Ou seja, não leu.

Se leu, não entendeu nada, ou pensa que Lévi-Strauss só se aplica aos índios - outra forma de não entender nada. Sua leitura do antropólogo deve ter sido como a que fez de Saussure, segundo informou em seu Obraemprogresso há algum tempo.

Uma das melhores piadas que já li é de Woody Allen. Conta que está fazendo um curso de leitura dinâmica: "Li Guerra e Paz em 2º minutos. Fala da Rússia". É o método Caetano de ler Lévi-Strauss.

Se aplicasse ao que faz profissionalmente os critérios que aplica à língua, ele teria que dizer que não sabe fazer música. Que faz música errada.

PS - Caetano mandou carta ao Estadão que foi comentada como "esclarecendo" sua entrevista. No que se refere a meu tema (Lula não sabe falar), nada muda. Não discuto a avaliação política que faz de Lula ou de Marina ou de FHC. Só discuto essa frase. E ela é de que não sabe...

Intelectuais, ainda

FHC desovou falação em que manifesta preocupações com o governo Lula, ou com o "lulismo", com o que ele acha que é autoritarismo. O Globo publicou o artigo, e a ilustração era um grande STOP. O que foi interpretado como insinuação golpista.

Duas coisas são curiosas no artigo: FHC diz que Lula escolheu a candidata à sucessão com um "dedaço". A avaliação, vinda de um tucano (lembram daquele jantar a quatro?), é de doer, independentemente do que se pense de Lula, de Dilma e de sua indicação. Compara o lulismo com o peronismo. Não sei se é detalhe ou não - acho que não é - mas agora é o sociólogo que está em questão. Não é análise sofisticada, nem do lulismo, nem do peronismo.

Diversos artigos leram o texto de FHC como golpista. Não seria a primeira vez. FHC já teve seus tempos de Zelaya, e foi bem sucedido: fez sua própria reeleição, um óbvio golpe, pelo menos para quem acha que Chávez e outros são golpistas. Agora, parece querer dias de Micheletti...

*Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso e Questões para analistas de discurso.

Original publicado em Terra Maganize

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A teoria do medo ou um discurso antigo da direita reacionária

02 de novembro de 2009 às 12:13

Wild Tales From the Reactionary Right

Conspiracy, Inc.

por ANTHONY DiMAGGIO, no
Counterpunch

A extensão completa da radicalização do movimento conservador está se tornando aparente depois de nove meses de governo Obama. Crescentemente, os comentaristas reacionários da mídia e muitos dos filiados do Partido Republicano estão levando a direita americana por um caminho perigoso, marcado pela abundância de teorias conspiratórias dirigidas contra o Partido Democrata e os liberais centristas.

Autores proeminentes vem alertando faz tempo sobre a ascensão da direita reacionária ao palco nacional. Thomas Frank lidera essas acusações com seus livros bestsellers como The Wrecking Crew: How Conservatives Rule e What’s the Matter with Kansas: How Conservatives Won the Heart of America. Os alertas de Frank são particularmente interessantes à luz da ascensão das teorias conspiratórias da direita.

Uma teoria conspiratória é definida como um plano secreto de autoridades poderosas para praticar alguma ação que seria rejeitada pelo público se o plano fosse divulgado. Teorias conspiratórias são tremendamente perigosas porque elas abandonam análises institucionais em favor de descrições exóticas do comportamento governamental. Em nenhum outro lugar esse extremismo é visto tão bem quanto no movimento "Verdade do 11 de Setembro". Em sala de aula eu tenho uma resposta padrão para alunos que querem saber sobre as teorias conspiratórias do 11 de setembro. Eu digo que a diferença entre um argumento e uma conspiração é crucial: a existência de provas. Qualquer grande teoria conspiratória requer uma falta completa de provas tangíveis, já que conspirações são por definição armações "secretas" sobre as quais o público não sabe quase nada. Essa falta de provas é mais uma razão para rejeitar essas conspirações como algo desprovido de seriedade e de rigor intelectual.

Muitos conservadores, sem dúvida motivados pelo racismo, pela xenofobia e pelo desprezo pela política multipartidária, usaram essas teorias conspiratórias em tentativas de abalar o governo Obama. Além disso, as teorias conspiratórias agora são um dos meios primários -- talvez o meio primário -- pelo qual os conservadores tentam desacreditar seus oponentes políticos. Uma avaliação das conspirações mais importantes coloca a radicalização do movimento conservador em perspectiva:

A tentativa de Limbaugh de comprar os Rams

Rush Limbaugh [porta-voz da extrema direita estadunidense] foi recentemente excluído da disputa para comprar o time de futebol americano St. Louis Rams. A tentativa de Limbaugh de se tornar parte da NFL [liga estadunidense] causou apreensão nos dirigentes, já que ela é 75% afroamericana e à luz da história de racismo de Limbaugh. Não é difícil de entender porque o público acharia Limbaugh racista considerando seus comentários:

-- "Bem, deixe-me colocar da seguinte forma: a NFL parece sempre um jogo entre os Bloods e os Crips sem usar armas. Pronto, falei". [Nota do Viomundo: Bloods and Crips são duas gangues americanas, cujos integrantes são predominantemente negros].

-- A NAACP deveria ensaiar quebra-quebras. Deveria comprar uma loja de bebidas e praticar assaltos". [Nota do Viomundo: A sigla significa Associação Nacional pelo Desenvolvimento das Pessoas de Cor].

Limbaugh gosta de cantar uma música que tem o nome "Barack, o Negro Mágico" em seu programa de rádio, embora ele se diga fortemente ressentido contra aqueles que concluem que a letra é racista. Ainda assim, acusações de racismo acabaram com o papel de Rush como comentarista da ESPN em 2003 quando ele sugeriu que o jogador Donovan McNabb, do Filadélfia Eagles, não era tudo isso e só mantinha o emprego porque a NFL queria o sucesso de jogadores negros na posição de quarterback.

Os comentários não foram aceitos no mundo do esporte, que imediatamente reconheceu que a tática de Limbaugh de gritar "racismo reverso" é, em si, racista. Presumivelmente, Limbaugh quer nos fazer acreditar que existe alguma conspiração corporativa contra jogadores brancos, apesar do fato de os afroamericanos representarem 19% dos quarterbacks [a posição de lançador, a mais importante do jogo] mas 75% do total de jogadores.

As conspirações de Limbaugh não ficam só nas acusações de racismo reverso. Quando os investidores resolveram excluí-lo do grupo, Limbaugh respondeu que o incidente era um exemplo "dos Estados Unidos de Obama". Naturalmente não há provas de alguma conspiração contra Limbaugh da parte da NFL, nem que Obama ou seus assessores tenham pressionado os investidores a tirar Limbaugh do grupo.

Longe de ser um bastião liberal dos Estados Unidos, a NFL é conhecida como uma liga politicamente conservadora. Os donos de times da NFL, por exemplo, deram duas vezes mais dinheiro em contribuições de campanha a republicanos do que a democratas nas eleições de 2008. A real razão para a rejeição de Limbaugh não tem nada a ver com uma conspiração pró-Obama, mas com o fato de que Limbaugh representa um rosto controverso para uma liga interessada em maximizar lucros e minimizar controvérsias.

É difícil fazer isso servindo a racistas quando a maioria dos jogadores da NFL é de negros. O dirigente da NFL Roger Goddell, por exemplo, explicou que a decisão da liga de rejeitar Limbaugh é resultado de seus comentários "polarizadores" sobre afroamericanos feitos no passado. O diretor executivo dos jogadores, DeMaurice Smith, explicou que a NFL "é melhor quando unifica, dando a todos nós motivo para celebrar, e quando transcende. Nosso esporte faz exatamente isso quando supera divisões e rejeita discriminação e ódio".

Obama o queniano, terrorista muçulmano

A propaganda racista sobre a cidadania de Obama e suas ligações com terrorismo radical persiste. O movimento "birther" [de birth, nascimento] ganhou grande visibilidade pública este ano -- seus membros apareceram em manifestações alegando que Obama não é cidadão dos Estados Unidos e que é um fundamentalista islâmico fanático. A atenção dada pela mídia aos integrantes do movimento conspiratório foram particularmente danosos para a imagem de Obama, como as estatísticas sugerem:

-- Antes das eleições de 2008, quase 80% dos estadunidenses tinham ouvido rumores de que Obama era muçulmano. Um em dez acreditava que Obama era muçulmano, enquanto um em três dizia não saber qual era a crença dele.

-- Em 2009, os conservadores acreditam que Obama é muçulmano 2,5 vezes mais que os democratas. Mais da metade dos republicanos acredita que Obama não é cidadão dos Estados Unidos ou está incerta sobre a cidadania do presidente.

O movimento birther ganhou fôlego em programas da mídia como Lou Dobbs Tonight e na emissora Fox News e recebeu ênfase no Congresso por parte da republicana Michelle Bachmann. O absurdo do movimento birther foi demonstrado diversas vezes, já que os documentos de Obama foram divulgados publicamente pelo estado do Havaí e verificados por grupos apartidários como o Factcheck.org.

Outros ataques contra Obama não dizem explicitamente que ele é muçulmano; eles apenas indiretamente associam Obama ao fundamentalismo islâmico. Essa tática favorita da direita reacionária foi recentemente utilizada por Sean Hannity [apresentador da Fox] que atacou Obama depois que o presidente fez um discurso no Egito sobre os ataques terroristas de 11 de setembro.

Hannity atacou Obama por "dar aos simpatizantes do 11 de setembro uma voz no palco mundial" depois que o presidente disse que "estava consciente de que ainda existe gente que questiona ou mesmo justifica o 11 de setembro. Mas sejamos claros: a al Qaeda matou quase 3 mil pessoas naquele dia. As vítimas eram homens, mulheres e crianças inocentes dos Estados Unidos e de muitas outras nações que não haviam causado dano a qualquer pessoa... Isso não é opinião a ser debatida, mas são fatos com os quais devemos lidar".

Os leitores tem razão se ficaram confusos para entender como Hannity concluiu o que concluiu, considerando as palavras de Obama. Quando alguém enxerga o mundo pelos olhos de um teórico da conspiração, os fatos são maleáveis e existem para ser manipulados com o objetivo de aprofundar preconceitos pré-existentes.

Obama, ACORN e a crise econômica

A organização que John McCain de forma conspiratória atacou como "destruidora da fábrica da democracia" não sai das manchetes da Fox News. O caso mais recente foi no programa de Glenn Beck [apresentador da Fox News] do dia 28 de outubro, na qual a ACORN [Associação de Organizações Comunitárias por Reforma Já] foi acusada por causar o colapso econômico e a recessão de 2008. O poder dos teóricos da conspiração conservadores foi demonstrado plenamente pelos comentários de Beck, reproduzidos abaixo:

"Um ano atrás, tivemos problemas com os bancos, porque as pessoas fizeram muitos empréstimos sem condições. Mas eram as casas e os automóveis pelos quais não podíamos pagar que haviam nos sido prometidos por gente de Washington. 'Não se preocupe, compre tudo. Você pode comprar esta casa. Por que viver numa casa ruim, você deveria viver nessa casa com dois carros, não seria ótimo?'. Quem disse isso? Essas pessoas [o governo] e o povo da ACORN, ok? Eles pressionaram os bancos a fazer empréstimos a gente que não podia pagar por eles, e assim tudo acabou derretendo, já que os bancos disseram às pessoas, 'não, não, essas pessoas não podem pagar suas casas'".

À luz da alegada resistência dos bancos em dar empréstimos, Beck conclui que os protestos dos "interesses especiais" representados pela ACORN foram suficientes para colocar Wall Street de joelhos, forçando os bancos a emprestar para clientes que em outras condições seriam rejeitados.

De novo, os leitores devem ser perdoados se ficarem confusos com a lógica bizarra de Beck. Qualquer pessoa que tiver familiaridade com reformas das políticas públicas sabe que a crise imobiliária de 2008 não foi resultado de alguma conspiração na qual a ACORN e o governo forçaram os bancos a emprestar para clientes ruins. Ao contrário, o governo ficou sem ação ao repelir qualquer restrição legal a empréstimos e repelir a regulamentação sobre emprestadores, enquanto o Congresso repeliu limites às fusões e aquisições bancárias (para mais sobre isso, consulte a derrubada do Glass Steagall Act de 1999) que permitiram associação entre bancos especuladores e bancos engajados em empréstimos menos arriscados.

Essa retirada da regulamentação governamental permitiu ao banqueiros de Wall Street se engajar em empréstimos sub-prime (sem monitoramento do governo sobre os papéis derivativos), que eventualmente contribuiram para o colapso financeiro e a recessão de 2008. Beck, no entanto, prefere culpar a ACORN e não os banqueiros que fizeram fortuna com empréstimos predadores a pobres -- aqueles que realisticamente nunca poderiam pagar a casa própria sem entrada e com taxas de juros flutuantes.

Obama, o Socialista

Provavelmente a teoria conspiratória mais popular é a alegação de que Obama é um socialista no armário. É claramente a mais ofensiva e absurda contra um presidente que liderou o resgate para salvar o capitalismo americano do capitalismo americano. Obama tem prometido reerguer os bancos americanos, as firmas de investimento e a indústria imobiliária de seus próprios investimentos destrutivos e especulativos. Obama deu centenas de bilhões de dólares em dinheiro público e prometeu outro trilhão de dólares em dinheiro para que bancos e financeiras limpem seus balanços dos papéis tóxicos. Nada disso é suficiente para os conservadores, que se penduram no apoio tímido de Obama à "opção pública" na reforma do sistema de saúde como prova de seu socialismo secreto.

Aliás, a opção pública [permitiria ao usuário comprar um plano de saúde organizado pelo governo federal] não tem nada a ver com socialismo, considerando que cobriria apenas aqueles indivíduos não cobertos pela indústria privada de seguros de saúde. A opção pública é tão socialista quanto qualquer outro serviço público que não dá lucro, como a educação pública, as estradas públicas, as forças policiais, os bombeiros e as bibliotecas públicas. Todos esses serviços públicos coexistem com educação, estradas e segurança privadas sem ameaçar as fundações do capitalismo. Ainda assim, esses serviços "socialistas" sempre foram alvo dos conservadores, que preferem negar acesso aos pobres em nome do "direito" ao lucro privado. Não é surpreendente, portanto, quando ouvimos sobre as ameaças "socialistas" contra o cérebro de crianças em bibliotecas públicas, assim como os ataques à "tirania" de organizações que oferecem educação pública aos desvalidos.

Há muitas outras teorias conspiratórias conservadores que podemos citar: os "campos de concentração" da FEMA [a Defesa Civil americana teria 800 campos de prisioneiros prontos para usar nos Estados Unidos] divulgados por Glenn Beck, os "comitês da morte" na reforma do sistema de saúde denunciados por Sarah Palin [vice na chapa republicana derrotada por Barack Obama, Palin sustentou que na reforma seriam instituídos comitês estatais para decidir quais pacientes teriam atendimento e quais poderiam morrer] e a maior de todas -- a alegação de que o Iraque ameaçava os Estados Unidos com a posse de armas de destruição em massa e tinha ligações com a al Qaeda.

Todas as teorias acima tem uma coisa em comum: elas capitalizam na desconfiança do público sobre o governo de maneira a desviar a atenção da análise institucional. Elas são particularmente perigosas ao convencer americanos a atacar fantasmas falsos, ao alegar que a liberdade está sob assalto por conspirações secretas planejadas e implementadas pelo Partido Democrata.

Subscrever a teorias como essas torna o discurso civilizado literalmente impossível, como qualquer pessoa que tenha discutido com um teórico da conspiração de 11 de setembro sabe. Em seu livro "Em Guerra com a Metáfora: Mídia, Propaganda e Racismo na Guerra contra o Terror" [At War With Metaphor: Media, Propaganda, and Racism in the War on Terror], Erin Steuter e Deborah Wills argumentam que a propaganda ajuda a construir inimigos imaginários.

Os autores dizem que a "propaganda não está preocupada em disseminar informação mas em provocar emoção... o intuito da propaganda não é educar mas gerar emoção e dirigir emoção, ferver o sangue para garantir que a emoção pública domine as discussões". É fácil ver como a propaganda coloca em risco o diálogo público à luz das conspirações ideológicas incoerentes que dizem que Obama é socialista, nazista ou terrorista islâmico. Ao empregar propaganda alarmista, os ativistas conservadores promovem o pior dos medos -- completamente divorciado de provas factuais de qualquer tipo.

As análises de Steuter e Will nos ajudam a entender a propaganda das teorias conspiratórias dos conservadores. O Partido Republicano e o movimento conservador tem se movido à direita por décadas e o extremismo que isso causou (muito dele guiado pela religião) é crescentemente relevante nos debates públicos e na retórica vitriólica dirigida contra a aliança democrata que está no poder em Washington.

Jacob Hacker e Paul Pierson analisam como funciona o extremismo em seu trabalho Off Center: The Republican Revolution and the Erosion of American Democracy. Eles relembram aos leitores que os ativistas do Partido Republicano se caracterizam como duas vezes mais crentes que os democratas. Além disso, a guinada à direita dos conservadores aconteceu num ritmo duas vezes maior entre os anos 60 e 2000 do que a dos liberais democratas à esquerda. O liberalismo dos ativistas democratas cresceu mais vagarosamente e declinou significativamente desde o fim dos anos 80 até o período pós-2000. Em outras palavras, os ativistas republicanos se tornaram cada vez mais reacionários em anos recentes, enquanto os democratas se tornaram centristas em sua ideologia. Diante dessa polarização, os teóricos conservadores da conspiração se tornaram cada vez mais proeminentes. Deveríamos considerar isso ao avaliar a qualidade de nossa democracia hoje e no futuro.

Anthony DiMaggio é professor de política na Illinois State University. Ele é autor de Mass Media, Mass Propaganda (2008) e When Media Goes to War (2010). Responde no e-mail adimagg@ilstu.edu

Nota do Viomundo: Na minha primeira análise do recente artigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso notei isso. O texto me pareceu ilógico, mas cheio de referências a um poder difuso, obscuro, de bastidores, que teria contaminado o governo e o Estado brasileiros. O próprio presidente Lula seria, na visão de FHC, possível vítima desse "vírus". FHC fala em um subperonismo lulista mas é incapaz de narrar quais são os fatos objetivos que o levaram a concluir pela existência dele. Lula tentou a reeleição, fechou o Congresso, amordaçou a mídia? Como nota o autor do artigo que reproduzi acima, em relação aos Estados Unidos, também notei no novo discurso do ex-presidente. Ele fala à emoção das pessoas, ao preconceito existente contra sindicalistas ou petistas como se fossem vírus corrompedores da democracia brasileira. A adesão de um ex-presidente da República, intelectual de renome, a esse tipo de discurso, diz muito sobre a degradação do ambiente político brasileiro.

Reproduzido de: A lógica bizarra de FHC e as teorias conspiratórias da direita americana

Nota do história em projetos: Azenha fez outro artigo analítico de primeiríssima linha sobre o artigo do sociólogo FHC e analisou com primazia a ilustração de O Globo para o referido artigo. Luis Nassif comentou o episódio aqui e aqui e Rodrigo Vianna fez um post bem humorado a respeito do descabido artigo do ex-presidente.
E na opinião deste autora o caminho traçado por FHC é perigoso, a analogia é descabida, comparar um governo democrático com alguma tendência social ao período de censura, tortura, perseguições políticas, prisões arbitrárias, fechamento de Congresso, AI-5 e afins é esquecer todas as bases da teoria política da sociologia ou praticar má-fé.

sábado, 1 de agosto de 2009

Boaventura de Sousa Santos: A esquerda é burra?

1 DE AGOSTO DE 2009

Por Boaventura de Sousa Santos


A frase ''a esquerda é burra'' é de autoria de Fernando Henrique Cardoso (FHC), sociólogo de renome internacional e Presidente do Brasil entre 1995 e 2003. Ficou famosa pelo simplismo com que desqualificava os adversários das políticas neoliberais do seu governo. Curiosamente tais políticas desqualificavam tudo o que ele antes tinha escrito enquanto sociólogo, o que o levou a pronunciar outra frase que ficou igualmente famosa: “esqueçam tudo o que eu escrevi”.

Tive ocasião de discutir com ele o significado da frase sobre a esquerda. Discordava do seu sentido mais óbvio e intrigava-me a sua arrogância. Para FHC a frase tinha vários significados: a esquerda ainda não entendera que o neoliberalismo era a única solução para a economia mundial e a melhor garantia contra as propaladas crises do capitalismo; o principal líder da esquerda, Inácio Lula da Silva, era um operário ignorante e sem preparação para governar o país; a esquerda estava minada pelo fraccionismo e nunca se uniria (ao contrário da direita) para assumir o poder. Tragicamente para FHC e seus aliados a frase mostrou-se errada em todos os seus significados desde a eleição de Lula até à crise do agora defunto (ressuscitará?) neoliberalismo.

Mas, apesar disso, a frase ficou como um fantasma da esquerda brasileira, como se a esquerda tivesse de demonstrar a cada momento que não era burra e como se o mesmo ônus não impendesse, por outras razões mas com a mesma justificação, sobre a direita, ela sim, afinal perdedora. É sabido que os fantasmas, tal como os espíritos, atravessam tempos e fronteiras. Tal como discordei da caracterização simplista da esquerda brasileira, discordaria dela se aplicada à esquerda portuguesa. Apesar disso, ante os atos eleitorais que se aproximam, pergunto-me se, a título preventivo e como dúvida metódica, não fará sentido pôr a questão: será a esquerda portuguesa burra? Ou melhor: nos próximos atos eleitorais quem se revelará menos burra, a esquerda ou a direita?

Ao contrário dos confusionistas do costume, dou de barato que há esquerda e direita. Tanto uma como outra são plurais, estão divididas em vários partidos e em várias tendências dentro de cada partido. Se tomarmos como referência as últimas eleições para o parlamento europeu e talvez a maioria dos actos eleitorais desde o 25 de Abril de 1974, os portugueses votam majoritariamente à esquerda. De algum modo, a ideia de solidariedade social tem-se sobreposto à de darwinismo social, a ideia de um Estado protetor à ideia de um Estado predador, a ideia do bem público à ideia do interesse privado. E se é verdade que a esquerda governante tem frustrado consistentemente as expectativas que decorrem destas ideias, não é menos verdade que os portugueses têm teimado em crer que tal não é uma fatalidade e que a direita não oferece uma alternativa exceto em desespero de causa.

Daí que as frustrações com a esquerda governante se tenham traduzido, menos no crescimento da direita, do que no crescimento de opções pela esquerda até agora não governante, um fenômeno inédito na Europa de hoje. Em face disto, e a menos que os portugueses se sintam numa situação de desespero de causa, podemos concluir que, se nos próximos atos eleitorais a direita ganhar, a esquerda é mais burra que a direita.

Nas condições portuguesas, a esquerda corre o risco de ser mais burra que a direita por duas razões principais: confundir-se com a direita; dividir-se ao ponto de não poder unir-se no principal: impedir a eleição de um governo de direita. Pelo que disse acima, quando a direita tenta se confundir com a esquerda (o que tem acontecido frequentemente) corre sempre menos riscos que a esquerda quando esta se confunde com a direita. Por outro lado, a direita tem uma história unitária muito mais consistente que a esquerda. Para que estes riscos se não concretizem, as esquerdas têm de mostrar aos portugueses que o coração da esperança continua a bater mais fortemente que o coração do desespero. Não é tarefa fácil mas não é impossível. E isto que é válido para as eleições legislativas é igualmente válido para as eleições autárquicas. No que respeita a estas últimas, o caso de Lisboa será paradigmático. Parece óbvio que só por desespero se pode votar no candidato da direita. Por sua vez, o candidato principal da esquerda é um dos mais brilhantes políticos da nova geração de líderes de esquerda, só comparável ao líder da esquerda mais inovadora da última década. Se ele sair derrotado nas próximas eleições, obviamente a esquerda é burra. Espero vivamente que tal não seja o caso.

Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).


Fonte: Correio do Brasil, reproduzida em O terror do Nordeste

terça-feira, 3 de março de 2009

2005: FHC inicia o "revisionismo" tucano

FHC chama Kissinger de "meu velho amigo"

Artigo originalmente publicado em Voltaire.net.org

por Marco Aurélio Weissheimer*



Em uma conferência em Washington, Fernando Henrique Cardoso saudou Henry Kissinger como um velho amigo que ajudou a mudar o mundo. Entre as obras do “velho amigo” está o golpe que derrubou e matou Salvador Allende, presidente de um país que acolheu FHC em dias difíceis.





Dia 1° de março de 2005. Tabaré Vázquez assume a presidência do Uruguai, constituindo o primeiro governo de esquerda da história do país. Um dia de festa popular em Montevidéu e de encontro de várias gerações da esquerda latino-americana.

Os presidentes do Brasil, Argentina, Chile e Venezuela, entre outras lideranças políticas do continente, participam da cerimônia de posse e reafirmam sua disposição de fortalecer o projeto do Mercosul e, de um modo mais amplo, o da integração política, econômica e cultural da América Latina. Após décadas de ditaduras militares e governos conservadores, apoiados pelos Estados Unidos, os principais países latino-americanos começam a tentar trilhar outros rumos e as referências começam a mudar. No lugar dos economistas e intelectuais ligados à Escola de Chicago e, mais tarde, ao Consenso de Washington, ganham espaço os nomes de Artigas, Simon Bolívar e Salvador Allende, entre outros.

Dia 2 de março de 2005. O colunista Nelson de Sá, do jornal Folha de São Paulo, anuncia que já está disponível na internet a palestra que o ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso fez dias atrás em Washington, a convite do ex-secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger. Segundo o colunista, FHC agradeceu a presença do ex-secretário e chamou-o de “meu velho amigo”. O ex-presidente acrescentou, referindo-se a Kissinger: “sua produção acadêmica só encontra paralelo na contribuição à política externa dos EUA, ajudando a mudar o mundo, especialmente nos anos 70”. É verdade. Kissinger teve um papel decisivo na implementação da política externa norte-americana nos anos 70, particularmente na América Latina. O “velho amigo de FHC” teve, por exemplo, uma participação direta no golpe de Estado que depôs e assassinou o presidente eleito do Chile, Salvador Allende, no dia 11 de setembro de 1973, levando o general Augusto Pinochet ao poder.

Um homem de pensamento e ação
Anos 60. Após o golpe que instaurou uma ditadura militar no Brasil, também apoiado pelo governo dos EUA, o então professor Fernando Henrique Cardoso resolve se auto-exilar no Chile, onde fica até 1973, deixando o país após o golpe que derrubou Allende. Neste país, estuda e dá aulas naquele país. Juntamente com outros intelectuais de orientação marxista como o sociólogo Enzo Falleto, o atual presidente chileno Ricardo Lagos, Vilmar Faria e outros, Fernando Henrique colabora com a Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais (Flacso), instituição idealizada pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Anos mais tarde, FHC escreveria um prefácio ao livro “Allende, um mundo possible”, do jornalista hispano-argentino, Tigo Drago. Considerando as relações históricas de FHC com o Chile e com o período Allende, suas afirmações elogiosas à trajetória de Kissinger podem causar espanto e incredulidade. O texto da conferência proferida pelo ex-presidente em Washington, como parte das “Henry Kissinger Lectures in Foreign Policy and International Relations”, ajuda a dirimir essas dúvidas.

Logo no início de sua conferência, FHC afirma: “A combinação entre pensamento é ação é algo que sempre admirei em qualquer pessoa. Henry Kissinger é um homem de alto intelecto. E ele é, inegavelmente, um homem de ação. Ele é uma dessas raras espécies de homens que podem traduzir pensamento estratégico em políticas públicas e medidas concretas, de um modo exitoso. Sua produção acadêmica só encontra paralelo na contribuição à política externa dos EUA, ajudando a mudar o mundo, especialmente nos anos 70”.

No texto, disponível em inglês no site do Instituto Fernando Henrique Cardoso , não aparece a referência ao “velho amigo Kissinger”. Quem quiser ver a saudação deve ir ao site do “The John W. Kluge Center”, da Livraria do Congresso dos EUA, onde a íntegra da conferência de Fernando Henrique Cardoso está disponível em vídeo. Logo no início, ele saúda Kissinger, “um velho amigo meu e de todos vocês”.

Um pensamento internacionalista
Seja como for, o que é importante aqui não é a saudação em si. Cada um tem o direito de ter os amigos que quer e o dever de assumir a responsabilidade por essas amizades. Além disso, a admiração do ex-presidente brasileiro pela obra e trajetória de Kissinger não é exatamente uma novidade. Ele bem que tentou homenageá-lo quando ocupou a presidência da República. Em fevereiro de 2002, Kissinger desistiu de viajar a São Paulo, onde receberia de Fernando Henrique Cardoso a medalha da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul (condecoração destinada a estrangeiros que se tenham tornados dignos do reconhecimento da Nação brasileira), após a divulgação de um abaixo-assinado de repúdio à visita e da convocação de um ato de protesto.

Do ponto de vista da movimentação política do ex-presidente o que importa é entender as razões que alimentam suas velhas e novas amizades. Na conferência proferida em Washington, Fernando Henrique criticou o unilateralismo que marca a administração Bush, dizendo que ele “representa a negação de todos os mecanismos e leis existentes para enfrentar as ameaças à paz e à segurança internacionais”. “Esses mecanismos”, acrescentou, “foram criados após a Segunda Guerra Mundial, sob a liderança dos Estados Unidos, e serviram muito bem aos interesses americanos no passado, inclusive durante a primeira Guerra do Golfo, em 1991”. “Parece que não há herdeiros deste patrimônio deixado por extraordinárias gerações de líderes americanos que tinham um pensamento internacionalista, a exemplo de Kissinger e de ex-presidentes como Bill Clinton, Ronald Reagan e George Bush (pai)”, concluiu o ex-presidente.

A democracia e a memória
Além de criticar o unilateralismo de Bush filho e de exaltar o “pensamento internacionalista” de Kissinger, Clinton, Reagan e Bush pai, reafirmou suas preocupações com o futuro da democracia no mundo e na América Latina em particular. Esse tema, aliás, vem sendo motivo de intensa movimentação por parte de FHC que lidera um grupo, sediado em Washington, para acompanhar a situação da democracia na América Latina que estaria ameaçada pela proliferação de governos de esquerda e de centro-esquerda, especialmente pelo governo de Hugo Chávez, na Venezuela. No Brasil, Fernando Henrique também vem falando de riscos para a democracia, que estariam associados à prática política do governo Lula.

Em um esforço para neutralizar esses riscos, FHC trabalhou pela eleição do deputado Severino Cavalcanti (PP-PE) para a presidência da Câmara Federal. O que chama a atenção em tudo isso é que as referências políticas e amizades do líder tucano (Severino Cavalcanti, Henry Kissinger, Bill Clinton, Ronald Reagan e George Bush pai) andam na contramão das referências que vem ganhando espaço na América Latina.

Sua assídua presença em Washington, seja proferindo conferências ou participando de grupos especiais, apontam para um movimento mais amplo que o distancia cada vez mais das razões que, aparentemente, o levaram a deixar o Brasil após o golpe militar de 1964 e a buscar refúgio no Chile de Salvador Allende. E esse distanciamento assume uma forma bizarra, para dizer o mínimo. Por um lado, apresenta-se como guardião da democracia, no Brasil, na América Latina e no mundo. Por outro, associa-se com nomes e setores políticos que não cansaram de pisotear a democracia na América Latina. O que interessa, na saudação a Kissinger, é o desprezo pela memória que ela revela. O ex-guerrilheiro tupamaro e novo ministro da Pecuária, Agricultura e Pesca do Uruguai, José Pepe Mujica costuma dizer que “quem não cultiva a memória, não desafia o poder”.

A afirmação cai como uma luva para o caso em questão. A relação de Fernando Henrique com o poder não é definida exatamente pela palavra desafio. Deslumbramento parece melhor. Vale a pena ver o início de sua conferência em Washington, quando ele é apresentado como uma estrela do pensamento político global e entra triunfalmente no auditório com um sorriso de criança entrando em confeitaria. É impagável e imperdível.

A obra de um velho amigo
Nosso ex-presidente anda pelos corredores do poder com elegância e desenvoltura. É um homem que sabe se portar e se vestir. E sabe, como ninguém, desprezar a memória, essa incômoda companheira. Entre as palavras que vem ganhando renovada força na América Latina, a memória ocupa um lugar especial, como reafirmou Tabaré Vázquez, em seu discurso de posse, em Montevidéu. Há zonas sombrias que devem ser iluminadas, para o bem da democracia, defendeu o novo presidente uruguaio. E essas zonas sombrias se espalham por praticamente toda a América Latina. Estão presentes no Chile, por exemplo, país que acolheu Fernando Henrique em dias difíceis.

No dia 11 de setembro de 1973, o compositor e cantor Victor Jara foi preso na universidade onde trabalhava, juntamente com cerca de 600 estudantes, e levado para o Estádio Nacional do Chile, em Santiago. Neste mesmo dia, é torturado e assassinado por militares que o retiraram de uma fila de prisioneiros que iam ser transferidos. Dias depois, seu corpo fuzilado, com as mãos amputadas, é identificado em um necrotério por sua esposa, a bailarina inglesa Joan Jara. Uma das tantas contribuições do pensamento internacionalista do “velho amigo” de FHC, que ajudou a mudar o mundo nos anos 70.

Marco Aurélio Weissheimer, jornalista brasileiro.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Um olhar histórico sobre a cobertura da mídia há 12 anos

Um dia depois da publicação do resultado da pesquisa CNT/Sensus que destaca que em plena crise econômica a popularidade do presidente Lula (84% de aprovação) continua crescendo e bate recorde histórico, lembrei-me deste artigo aqui de Guilherme Scalzilli. Muito a calhar.




É delicioso resgatar os argumentos lançados pela mídia em 1997, em favor da reeleição de FHC. Comparados com a grita contra um terceiro mandato de Lula, eles revelam a tendência a adaptar-se às circunstâncias, típica do camaleão. Mesmo que, confirmando sua essência, ele finja ser outro animal...


Guilherme Scalzilli

(13/09/2008)

Os governos Lula suscitaram extensas discussões sobre a compatibilidade entre discurso ético e pragmatismo político-eleitoral. Talvez para dissociar-se dos defensores do presidente e estigmatizar seu constrangimento relativista sobre o assunto, a imprensa oposicionista lançou-se numa cruzada de ultralegalismo cívico, que logo receberia colorações partidárias.

Um dos aspectos negativos dessa vertente “cidadã” de tolerância zero é, paradoxalmente, sua permissividade conceitual. A abrangência normativa permite a assimilação de uma grande variedade de preceitos, entre os quais aqueles que aspiram a certa superioridade moral, mas não passam de enunciados discutíveis, contraditórios ou apenas tolos, que a ortodoxia acrítica transforma em dogmas sobrenaturais.

O fetichismo da conduta ideal do administrador revela então seu caráter artificial e ideológico, permitindo a deterioração da moralidade (sistema pessoal de valores) em moralismo oportunista, alimentado para enquadrar adversários e isentar aliados em tempos pré-eleitorais. A manipulação da subjetividade “transcendental” dos princípios morais confere imanência atemporal e incontestável a repertórios de condutas engendrados circunstancialmente, sujeitos às conveniências de seus formuladores.

Analisemos, como exemplo, as reações ao suposto terceiro mandato de Lula.

Hoje parece consensual que mudar as regras eleitorais para favorecer governantes em exercício significa uma afronta aos princípios que regem (ou deveriam reger) a conduta do homem público. A simples hipótese de permitir a Lula candidatar-se em 2010 suscitou indignação uníssona. Os precedentes plebiscitários utilizados por Hugo Chávez e Evo Morales rondam as redações como fantasmas hostis arrastando picaretas. Editoriais e colunas horrorizados defendem a alternância de poder e vociferam que nada justifica a perpetuação de governantes.

Mas não foi sempre assim.

Lembremos a fatídica noite de 28 de janeiro de 1997: por volta das nove horas, o presidente da Câmara dos Deputados, Luís Eduardo Magalhães (PFL-BA), decretou a primeira vitória da emenda que permitia a reeleição para cargos executivos. Gritos de “Uh, tererê!” soaram no plenário. Luís Eduardo foi abraçado pelo pai, o senador Antônio Carlos Magalhães, em prantos. Meia hora depois, através do porta-voz Sérgio Amaral, o presidente Fernando Henrique Cardoso rejubilava-se por saber que o Congresso votara “em sintonia com a opinião pública”.

Ressalte-se que a decisão dos deputados, depois confirmada pelos senadores, era juridicamente problemática. Segundo certas interpretações, a reeleição de mandatários em pleitos subseqüentes significava alteração de cláusula pétrea da Constituição de 1988 (Direitos e Garantias Fundamentais), que teoricamente só poderia ser realizada por Assembléia Constituinte. Também o artigo 5º da Carta (Isonomia) teria sido aviltado.

O governo FHC desfrutava de amplo apoio midiático. A popularidade do presidente bastava para legitimar uma discutível intervenção legislativa e até o recurso extremo do referendo – expedientes que, naquele momento, soavam “democráticos”

Desde a proposição da mudança, dois anos antes, a imprensa debatia quase diariamente o tema. Alheios à controvérsia legal, todos os grandes veículos defenderam a reeleição, com destaque para o jornal Folha de São Paulo. Editorial de 8 de novembro de 1985 já afirmava “não haver maiores inconvenientes em defender a reeleição.” Depois (5/1/1996), o editorial “Reeleição popular” comemorou pesquisa de opinião sobre o tema: “a população vê com bons olhos a chance de renovar os mandatos dos que vêm a se mostrar bons governantes. (...) Entre a candidatura e a renovação do mandato estará sempre o democrático e o inquestionável veredicto das urnas.”

O Tribunal Superior Eleitoral, presidido pelo ministro Ilmar Galvão, atestou que os ocupantes de cargos executivos não precisariam se desincompatibilizar para disputar suas reeleições. Diversos juristas renomados, como Miguel Reali Júnior, apoiaram a decisão. Os analistas concordaram: “Não é o caso de defender que o presidente também se desincompatibilize”, escreveu Valdo Cruz, entre muitos, na Folha (3/2/97).

Mas será que aqueles argumentos não corroborariam a tese do terceiro mandato de Lula? No parecer que permitiu aos mandatários continuarem em seus cargos, os ministros do TSE entenderam que a emenda da reeleição pressupunha o direito do eleitor optar pela continuidade administrativa (daí a desincompatibilização ser desnecessária). Ora, seguindo rigorosamente essa abordagem doutrinária, o número de reeleições jamais poderia ser limitado.

A mesma preferência popular pela manutenção do administrador, soberana e legítima, poderia ser estendida para novos mandatos, além do segundo. O eleitor, que possui prerrogativas para instituir (e eventualmente depor) governantes, também é capaz de decidir por quanto tempo ficarão no poder. Seria antidemocrático frustrar o “inquestionável veredicto das urnas” também quanto ao terceiro mandato.

Para dirimir possíveis questionamentos sobre a vontade popular, a Constituição Federal prevê o instrumento do plebiscito, um dos pilares da democracia participativa. Aliás, foi justamente a consulta popular que a Folha e outros veículos defenderam em 97, para evitar o fisiologismo nas decisões do Congresso.

Se há algum vestígio de golpismo ou manobra casuística nesses argumentos, devemos então creditá-los ao egrégio TSE, à Carta Magna e aos apologistas da reeleição. Acontece que, há onze anos, o governo FHC desfrutava de amplo apoio midiático. A execução de seu programa reformista e a sobrevivência do Plano Real pareciam depender da continuidade reeleitoral, ostensivamente defendida por editoriais e colunas políticas. A popularidade do presidente bastava para legitimar uma discutível intervenção legislativa e até o recurso extremo do referendo – expedientes que, naquele momento, soavam “democráticos”.

Mudaram os fundamentos do Estado de Direito ou mudou a imprensa? Pergunta retórica. A permanência dos primeiros independe das conveniências dos grupos momentaneamente hegemônicos. Quanto à flagrante incoerência jornalística, ela apenas evidencia um padrão de comportamento: adaptar-se às circunstâncias define a própria natureza do camaleão. Mesmo que ele, confirmando sua essência, finja ser outro animal.


Leia mais:

“A imprensa escrita na era FHC”, de Rodrigo de Carvalho.

“A agenda da mídia na campanha presidencial de 1998”, de Fernando Antônio Azevedo.

“Reflexões acerca do instituto da reeleição”, de Moacir Mendes Souza.


terça-feira, 25 de novembro de 2008

Não diga bobagem, Fernando Henrique

Atribuindo a Lula um suposto alheamento da crise econômica, o ex-presidente tenta ser irônico ao chamar seu sucessor de "grande economista". Falta um amigo que, em ocasiões como essa, lhe sussurre discretamente: "Não diga bobagem, Fernando Henrique, você continua nu".

Gilson Caroni Filho
, na Carta Maior

A psiquiatria define obsessão como idéias ou imagens que ocorrem repetidamente e parecem estar fora de controle. A compulsão surge, então, para aliviar a angústia que essas idéias e imagens provocam. As últimas críticas de Fernando Henrique Cardoso ao presidente Lula estão inseridas em recorrentes esforços de apagar e reescrever a triste história dos seus dois mandatos sucessivos.

Ao aproveitar um encontro com prefeitos eleitos pelo PSDB paulista para atacar o atual governo, FHC comporta-se como uma pessoa que apresenta duas ou mais personalidades, sendo que a função de uma delas é dissimular seu verdadeiro estado, escondendo-se do mundo exterior, de sua própria realidade. Curiosamente, parece viver somente agora o seu verdadeiro exílio. Aquele que o distancia do que foi - e ainda é - para aproximá-lo do que gostaria de ter sido. No imaginário se reconcilia com a imagem cultivada à sombra das ilusões uspianas e escapa da pequenez política que adquiriu.

Atribuindo a Lula um suposto alheamento da crise econômica, o ex-presidente tenta ser irônico ao chamar seu sucessor de "grande economista". O tom jocoso presente em "veste a roupa, rei. Pare de falar bobagem", resvala para o patético quando afirma que "aqui não é marola, não. Vai perguntar pra quem está perdendo o emprego hoje, que é mineiro da Vale, se é marola. Não é marola. Marola é quando você não é afetado. Está afetando."

Provavelmente estamos diante de um lapso. O "conselheiro" do presidente parece ter apagado da memória que, em seu governo, o país se superou em matéria de malversação do dinheiro público, socialização de prejuízos e entrega do patrimônio nacional. Que foram oito anos de securitização de dívidas de latifundiários inadimplentes (o "agrobusiness") com o Banco do Brasil. Oito anos de crescimento mínimo e endividamento externo máximo.

Esquece também que, como em nenhuma outra, sua gestão promoveu a dependência do país ao capital especulativo, sucateou a Previdência, jogou o país na recessão, e submeteu o destino da nação aos ditames do FMI para conseguir empréstimos de socorro. A nudez presidencial nunca foi tão escandalosa como no período compreendido entre 1994 e 2002.

O tucanato no poder, e é bom que nunca esqueçamos disso, fez das teses monetaristas uma religião. Seu legado foi uma inflação camuflada, desequilíbrios imensos tanto no plano interno quanto no externo. A desnacionalização de partes substantivas da produção e serviços nacionais foi a tônica de uma época que insiste em se apresentar como a "era da estabilidade".

Aumento do desemprego, congelamento - ou irrisórios reajustes salariais dos servidores públicos - e uma escalada sem precedentes da violência urbana foram algumas das obras marcantes de FHC. Esse mesmo que, em tom professoral, pretende ensinar ao presidente como se comportar em uma crise.

Segundo o economista M. Pochmann, comparando-se os dados do Censo Demográfico de 2000 com os de 1994, encontrava-se um adicional fantástico de sete milhões de novos desempregados gerados durante sete anos. Quantos destes foram ouvidos pelo presidente tucano? Perto da política arrasada do neoliberalismo, o que temos hoje ainda é marola, sim.

Talvez fosse conveniente o ex-presidente ler publicações antigas. Na IstoÉ, de 20 de junho de 2002, o industrial Eugênio Staub, da Gradiente afirmava: "Estamos no sétimo ano de um governo que, em 2002, entregará um país em piores condições do que recebeu. O responsável pela situação atual não é o pobre, nem o americano, nem o militar, somos nós, a elite brasileira". Segundo Staub, a única saída era "a eleição de um líder que fosse capaz de mobilizar a força transformadora". Em suma, alguém capaz de consertar os estragos deixados pelo "grande sociólogo". O ex-presidente que, ao deitar falação, reaviva a memória de quais foram as vestes usadas em seu reinado.

Falta um amigo que, em ocasiões como essa, lhe sussurre discretamente: "Não diga bobagem, Fernando Henrique, você continua nu".

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Observatório da Imprensa.