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sexta-feira, 14 de maio de 2010

Estudos sobre o arquivo Deops-SP revelam como funcionava a lógica da repressão nos tempos da ditadura


A arca documental dos anos de chumbo

Estudos sobre o arquivo Deops-SP revelam como funcionava a lógica da repressão nos tempos da ditadura

Por Carlos Haag

Edição Impressa 171 - Maio 2010

À primeira vista de um leigo nada parece ser mais modorrento do que um arquivo cheio de antigos documentos. O desinteresse se converte rapidamente em debate apaixonado quando esse arquivo guarda a história de violações e repressão da ditadura militar e, em muitas instituições, está fechado a sete chaves para a sociedade civil apesar do interesse do seu conteúdo e do tempo passado. Basta ver a expectativa da ratificação no Senado após sua recente aprovação no Congresso da nova lei de direito de acesso a informações públicas, que inclui os arquivos da repressão, idealizada para diminuir os prazos de sigilo de documentos e informações guardados pelo poder público e estabelecer procedimentos para acesso a esses dados, colocando fim ao sigilo eterno anteriormente fixado. Se aprovado, o novo texto estabelece que documentos ultrassecretos podem ser classificados por até 25 anos com uma única renovação possível.

“Felizmente algumas luzes como essa iluminam esse nosso labirinto dos ‘arquivos da repressão’, que são também arquivos-símbolos da resistência. Esses documentos permitem, com certeza, reconstituirmos e reavaliarmos as circunstâncias em que as violações ocorreram, identificarmos os agentes da repressão e recuperarmos, nas entrelinhas, os vestígios deixados pelos torturadores. Mas é preciso que os arquivos não fiquem presos na engrenagem jurídica e venham à luz em todo o Brasil para serem estudados”, explica a historiadora e professora da Universidade de São Paulo (USP) Maria Luiza Tucci Carneiro, coordenadora do projeto temático apoiado pela FAPESP Arquivos da repressão e resistência, história e memória: mapeamento e análise da documentação do Deops, que conta com a participação de nove professores doutores, além da equipe de bolsistas, para averiguar os meandros da repressão policial entre 1955 e 1983, com destaque para o período da ditadura militar. “Os familiares dos mortos e desaparecidos e o povo brasileiro, na sua totalidade, têm direito à informação, à verdade e à memória. Essa questão não é página virada da história e muito menos ‘referência histórica’, pois ela ainda é fato, ainda é história em movimento”, diz a pesquisadora. O temático dá continuidade a outro, anterior, de 1999, também apoiado pela FAPESP, que originou o Proin (Projeto Integrado Arquivo do Estado -Universidade de São Paulo) e resultou na organização da documentação do período entre 1924 e 1954.

Além da abertura dos arquivos, a sua análise por pesquisadores é fundamental para que a nova lei do sigilo de informações não passe de letra morta jurídica. “Quando os documentos são liberados ainda se depende de pesquisas sistemáticas dedicadas a identificar as violações dos direitos humanos perpetrados pelo Estado. Localizar documentos que comprovem as prisões arbitrárias, a tortura, os assassinatos não é tarefa fácil. Mas, felizmente, existe uma ordem por procedência e data que, cruzada com testemunhos orais, pode nos aproximar dos mandantes dos crimes. Temos que aprender a ‘ler nas entrelinhas’ em busca de indícios e sinais”, analisa Maria Luiza. Assim, por exemplo, se alguém que era do movimento estudantil de resistência à ditadura foi preso junto com o jornalista Vladimir Herzog durante a ditadura pode ter o seu prontuário de prisão catalogado, segundo a lógica militar, em “movimento estudantil”, e não entre outros tantos prontuários de prisão daquele dia, o que dificulta bastante para a família localizar os dados do desaparecido político. “Daí a importância e a necessidade de digitalizar todo o arquivo para poder acessar sua totalidade e cruzar dados e informações que levem ao paradeiro de um nome na multidão. No caso desse estudante fictício, por exemplo, ele pode ter o seu prontuário esvaziado e a parte referente à sua prisão ir parar em outros dossiês temáticos, algo que, creio, pode ter sido uma estratégia policial para dispersar as informações e dificultar o acesso de propósito”, afirma a pesquisadora.

O resultado é um novo quadro do que foi a lógica da repressão. “Os relatórios de investigação e as fichas de investigação que compõem esses processos documentam décadas de violência e terrorismo de Estado. A primeira sensação que temos é de que a sociedade brasileira foi, durante décadas, mapeada, invadida no seu cotidiano, estuprada. A ditadura militar não foi tão ‘branda’ como alguns querem fazer acreditar.” Havia, segundo ela, “o grande olho do Deops [Departamento Estadual de Ordem Política e Social] sobre São Paulo”. Ao mesmo tempo, para um historiador, essa invasão não deixa de ser, a contrapelo, uma dádiva, pois reúne uma documentação minuciosa sobre toda e qualquer resistência, chegando aos grupos anônimos que foram ocupando as ruas. “Eles confiscavam arquivos e a vida do cidadão para provar que havia subversão e assim criaram, para a posteridade, arquivos do que foi a resistência surgida a partir dessa repressão. Daí o nome do nosso projeto temático”, explica. Nos vários dossiês sobre a USP, que chegam a somar 151 volumes, por exemplo, há dados precisos sobre as aulas de professores vistos como suspeitos, como Florestan Fernandes, e mesmo a bibliografia indicada que podia, inclusive, ser anexada ao processo em forma de livro. “Temos uma mistura da história da vigilância com a história do impresso revolucionário e a história da leitura. Pode-se hoje saber o que um operário lia, pois ao invadir sua casa seus livros e escritos eram confiscados e anexados aos dossiês. Há mesmo casos belos de manuscritos de poemas e romances inéditos que foram roubados pela polícia e agora podem vir novamente à luz. Recupera-se com a repressão a história da repressão.” Era a obsessão pela vigilância.

Persecutório - “Essa obsessão como forma de prevenir a atuação ‘subversiva’ acabava por gerar uma lógica da suspeita ou ethos persecutório. Os milhares de agentes envolvidos, funcionários públicos ou delatores cooptados, eram regidos por essa lógica e, ao incorporá-la, acabavam produzindo um fenômeno típico de regimes autoritários: mais importante do que a produção da informação em si era a produção da suspeita”, analisa o historiador Marcos Napolitano, da Universidade Federal do Paraná, que trabalha sobre os arquivos do Deo­ps para sua pesquisa Políticas culturais e resistência democrática no Brasil nos anos 1970, apoiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). “Esse conjunto de documentos tinha a clara função de peças acusatórias, em eventuais processos ou punições mais direcionadas, prontos para ser acionados a qualquer momento. Além de registrar palavras e atitudes, os textos revelam as inferências dos agentes, no sentido de apontar a existência de uma conspiração perpétua, orquestrada por grupos políticos ‘subversivos’. Uma simples observação, contida num registro sobre as atividades do suspeito poderia tornar-se mais destacada em futuros relatórios produzidos pelos organismos, numa técnica de reiteração crescente que agravava o grau de suspeição sobre os vigiados.” Algo que poderia acontecer, por vezes, num espaço de dias. Num interrogatório de um aluno sobre o professor Warvick Estevam Kerr, geneticista e ex-diretor científico da FAPESP, grafado das formas mais esdrúxulas pelo escrevente, há uma mudança notável diante do terror. “Que ignora se professor Warckis Kerr da Faculdade de Ribeirão Preto seja de esquerda”, no dia 22 de junho de 1971; “Seus contatos com o professor Warvick Koer, da cadeira de genética da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, eram de caráter estritamente funcional. O declarante desconhece a ideologia política do citado professor”, no dia 23 de junho; “Que acredita que o professor seja realmente um elemento ativo na política de esquerda; que espera ao terminar de responder as acusações que ora lhe são imputadas continuar seu curso de medicina e nunca mais se envolver em política”, no dia 25 de junho daquele ano.

“O controle do cidadão é realizado pelo Estado, que procura obter a adesão do cidadão ao regime político por meio da repressão e da censura. Por meio da geopolítica do controle, o Estado procura inibir os atos de protesto e as rebeliões populares apoiados por legislação específica. Nesse contexto, a domesticação das massas depende da vigilância sistemática da aplicação legal do conceito de crime político e do controle da informação, ações que implicam a privação progressiva da cidadania”, explica Maria Luiza. Para conseguir vigiar o cidadão, é preciso acumular nos arquivos o máximo de informações, registros obtidos por investigadores treinados em detectar suspeitos e criminosos políticos que se infiltravam nos grupos avaliados como subversivos e os observavam. As informações, continua a pesquisadora, iam sendo acumuladas de forma a subsidiar a acusação, na maior parte das vezes arbitrária, do crime político. Afinal, o paradoxal nas ações dos Estados, mesmo as mais secretas ou realizadas em períodos de exceção, é que elas são, pela dinâmica burocrática, registradas. “É preciso lembrar que o crime político é um crime de ideias que, para ser comprovado, deve ser materializado através de provas confiscadas dos acusados. Essas provas eram anexadas aos prontuários nominais ou institucionais que serviam para a ‘construção’ da acusação.” “A prisão do grupo da Ala Vermelha em Embu-Guaçu, confirma mais uma vez a participação de estudantes no processo subversivo-terrorista em curso em São Paulo. Os jovens secundaristas e universitários estão sendo ‘trabalhados’ intensamente pelas organizações subversivas e muitos deles, despreparados e sem orientação dos pais e mestres, estão aderindo, endossando as fileiras das referidas organizações”, afirmava um Relatório Especial de Informações de 1969.

“O discurso da ordem assume um tom acusatório ao apontar para o inimigo cuja imagem negativa vai sendo construída a partir de provas recolhidas junto aos espaços da sedição (daí os autos de busca e apreensão e os relatórios de investigação). Nesse caso quem ‘constrói’ parte da história oficial e a verdade aparente é a autoridade policial que, com base na observação e na materialização do crime (provas concretas), interfere na realidade. Estas provas, ao serem julgadas pelas instâncias superiores e propagadas junto à grande imprensa, através de notícias preparadas pela Agência Nacional, tornam-se consenso, legitimando a repressão”, avalia Maria Luiza. Nem sempre, porém, os agentes tiveram sucesso. “Achamos que o declarante não possui o mínimo de conhecimento político-partidário, desconhecendo mesmo até o que seja AP (Ação Popular). Da mesma forma revelou desconhecer quais as atividades de uma organização terrorista. Foi convidado para trabalhar contra a ‘ditadura’, termo este que não sabe o que significa ao certo, julgando tratar de um governo que manda através de um presidente cujo povo pretende derrubar. Concluindo o declarante revelou um baixo nível intelectual e completa ignorância sobre assuntos políticos e ideológicos”, afirmava um interrogatório preliminar. Em outro, o preso declarou que “reconhece ter sido ‘imbecil’ ao guardar o material explosivo sem saber do que se tratava. Que não é membro de qualquer organização clandestina e desconhece nomes de guerra, sendo Lou um apelido familiar do amigo. Que foi totalmente iludido pelo amigo e que não tem tempo para pensar em política, não tem qualquer livro de ideologia comunista em sua residência”.

“Esses interrogatórios refletem a tentativa de impor determinada ordem do discurso, na qual os valores e princípios do governo militar eram reafirmados em detrimento das concepções políticas dos interrogados”, observa a historiadora Mariana Joffily, autora da tese de doutorado No centro da engrenagem, orientada por Maria Aparecida de Aquino e defendida em 2008 na USP. “O depoente é cínico e mentiroso, omitindo detalhes de sua participação no POC, bem como esclarecer elementos que atualmente encontram-se militando, só abrindo ex-militantes e pessoas que se encontram foragidas do país”, dizia um interrogatório. “O depoente é frio e calculista, limitando-se a prestar declarações dos fatos que ocorreram estritamente com sua pessoa, negando peremptoriamente a mencionar os nomes das pessoas que militaram com sua pessoa na organização. Fez uma apologia da Revolução Armada, referindo às autoridades do país como por exemplo: gorilões, milicos, pseuda (sic) Revolução, etc.” Outros registros do Deops podem até causar um riso incontido como a carta enviada ao então governador de São Paulo, Paulo Egydio Martins, em razão do show realizado no Ginásio do Ibirapuera, sob patrocínio da administração estadual, em que a cantora Mercedes Sosa cantara a música Somos todos hermanos, o que permitiu ao público gritar palavras de ordem contra a ditadura. “Como isso pode ter ocorrido num show promovido pelo próprio Estado?”, pergunta a carta do chefe do SNI ao governador.

Sigiloso - Outras não são tão risíveis. Em 1969, o então reitor da USP encaminhou ao Deops a relação dos funcionários aprovados em concurso com a observação de que “face à crescente anormalidade nos meios universitários pediu-se o reitor para que todos os concursados sejam triados neste departamento em caráter urgente e sigiloso”. Da lista, 19 dos aprovados tiveram algum reparo do Deops por serem mencionados em algum tipo de investigação em curso registrada nos arquivos. Há mesmo a preocupação de infiltração comunista nos arquivos do Deops sobre a escola de samba Vai Vai, já que esta começava a ser visitada por elementos de esquerda como Ruth Escobar e Ricardo Zaratini. Presidenciá­veis não escaparam do rigor do Deops e estão registrados nos arquivos. “Uma das cabeças da revolução comunista. Ele tem sido um grande agitador e causador de problemas desde que era presidente da UNE. Um experimentado doutrinador da ideologia marxista, ele dita normas de conduta para todas as organizações estudantis”, diz o prontuário de José Serra. “Ela já está presa”, afirma uma nota escrita a lápis sobre a ficha de Dilma Rousseff nos arquivos, encaminhada aos Deops estaduais.

O arquivo Deops-SP, sobre o qual se debruça o temático, é uma grande exceção graças à postura do governo paulista, que, em 1994, liberou totalmente a consulta aos documentos do fundo sob guarda do Arquivo do Estado. O regime militar, através dos “governadores biônicos” em fim de mandato, extinguiu os Deops paulista e carioca e transferiu seus arquivos para as dependências da Polícia Federal. “Em outros estados houve ocultação ou destruição de arquivos, como em Minas Gerais, onde a polícia alega ter incinerado a documentação original do Deops. Em 1991 teve início o processo de recolhimento da documentação da polícia política para os Arquivos Públicos, a primeira etapa no caminho do franqueamento desses documentos ao público”, conta o historiador Rodrigo Patto Sá Motta, professor da Universidade Federal de Minas Gerais e autor de Em guarda contra o perigo vermelho (Editora Perspectiva). “Na Região Sul, apenas no Paraná os documentos do Deops foram recolhidos integralmente. Em Santa Catarina, o Arquivo Público desconhece a localização da documentação e no Rio Grande do Sul apenas parte do arquivo foi recolhida. A melhor situação está no Sudeste, pois em seus quatro estados os documentos estão nos respectivos arquivos”, afirma. “No Centro-Oeste, o único arquivo Deops aberto à consulta é o de Goiás, sob a custódia da Biblioteca Central da Universidade Federal de Goiás. Na Região Nordeste estão nos respectivos Arquivos Públicos os documentos dos Deops pernambucano, cearense, potiguar e sergipano. Na Bahia e na Paraíba, os Arquivos Públicos desconhecem o paradeiro dos documentos. Em 11 estados da federação, de um total de 20, os arquivos Deops foram recolhidos e preservados. O que se conseguiu ainda é insatisfatório.”

“Dar acesso a essa documentação deve fazer parte de um processo mais amplo de reparação, verdade e justiça. Mas não é um conjunto de documentos que qualquer cidadão tem condições de interpretar como documentos de um museu. É um conjunto que precisa ser intermediado por pesquisadores e professores. O alvo de nossas políticas de divulgação é esse e deve ser de financiamento público para o desenvolvimento de pesquisas e produtos acadêmicos. Parece-me o melhor jeito de garantir a capilaridade desta matéria na sociedade”, explica Rodolfo Peres Rodrigues, responsável pelo arquivo Deops de Goiás, sob a guarda da Universidade Federal de Goiás no Centro de Informação, Documentação e Arquivo. “O acesso a tais documentos representa a ampliação da cidadania, já que possibilita às pessoas que tanto sofreram com a repressão que tenham a chance de reivindicar seus direitos. Além disso, é importante que o período militar possa ser revisitado em seus pormenores institucionais registrados na atuação da polícia política em Minas Gerais. A divulgação do acervo significou a abertura de novos campos de pesquisa dada a dificuldade em se conseguir fontes que não haviam passado pelo filtro da censura no período. Apesar disso, há a possibilidade de que os microfilmes que recebemos sejam apenas parte dos documentos do Deops-MG e que a polícia possa ter retido parte substancial dos arquivos”, afirma Maria Eugênia Lage, superintendente do Arquivo Público mineiro.

O Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro trabalha com a coleção mais completa de imprensa alternativa desde 1960 e é dirigido pela historiadora Beatriz Kushnir. “Não basta apenas os historiadores pesquisarem sobre os arquivos, mas as informações precisam chegar até os estudantes secundaristas por meio dos professores de primeiro e segundo graus. Eles desconhecem essa documentação e precisamos quebrar essa distância. Daí a importância real de se abrir de uma vez os arquivos do aparelho do Estado, que precisa devolver à sociedade civil o que ele levou das pessoas”, afirma Beatriz.

Fonte: FAPESP

terça-feira, 3 de março de 2009

2005: FHC inicia o "revisionismo" tucano

FHC chama Kissinger de "meu velho amigo"

Artigo originalmente publicado em Voltaire.net.org

por Marco Aurélio Weissheimer*



Em uma conferência em Washington, Fernando Henrique Cardoso saudou Henry Kissinger como um velho amigo que ajudou a mudar o mundo. Entre as obras do “velho amigo” está o golpe que derrubou e matou Salvador Allende, presidente de um país que acolheu FHC em dias difíceis.





Dia 1° de março de 2005. Tabaré Vázquez assume a presidência do Uruguai, constituindo o primeiro governo de esquerda da história do país. Um dia de festa popular em Montevidéu e de encontro de várias gerações da esquerda latino-americana.

Os presidentes do Brasil, Argentina, Chile e Venezuela, entre outras lideranças políticas do continente, participam da cerimônia de posse e reafirmam sua disposição de fortalecer o projeto do Mercosul e, de um modo mais amplo, o da integração política, econômica e cultural da América Latina. Após décadas de ditaduras militares e governos conservadores, apoiados pelos Estados Unidos, os principais países latino-americanos começam a tentar trilhar outros rumos e as referências começam a mudar. No lugar dos economistas e intelectuais ligados à Escola de Chicago e, mais tarde, ao Consenso de Washington, ganham espaço os nomes de Artigas, Simon Bolívar e Salvador Allende, entre outros.

Dia 2 de março de 2005. O colunista Nelson de Sá, do jornal Folha de São Paulo, anuncia que já está disponível na internet a palestra que o ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso fez dias atrás em Washington, a convite do ex-secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger. Segundo o colunista, FHC agradeceu a presença do ex-secretário e chamou-o de “meu velho amigo”. O ex-presidente acrescentou, referindo-se a Kissinger: “sua produção acadêmica só encontra paralelo na contribuição à política externa dos EUA, ajudando a mudar o mundo, especialmente nos anos 70”. É verdade. Kissinger teve um papel decisivo na implementação da política externa norte-americana nos anos 70, particularmente na América Latina. O “velho amigo de FHC” teve, por exemplo, uma participação direta no golpe de Estado que depôs e assassinou o presidente eleito do Chile, Salvador Allende, no dia 11 de setembro de 1973, levando o general Augusto Pinochet ao poder.

Um homem de pensamento e ação
Anos 60. Após o golpe que instaurou uma ditadura militar no Brasil, também apoiado pelo governo dos EUA, o então professor Fernando Henrique Cardoso resolve se auto-exilar no Chile, onde fica até 1973, deixando o país após o golpe que derrubou Allende. Neste país, estuda e dá aulas naquele país. Juntamente com outros intelectuais de orientação marxista como o sociólogo Enzo Falleto, o atual presidente chileno Ricardo Lagos, Vilmar Faria e outros, Fernando Henrique colabora com a Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais (Flacso), instituição idealizada pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Anos mais tarde, FHC escreveria um prefácio ao livro “Allende, um mundo possible”, do jornalista hispano-argentino, Tigo Drago. Considerando as relações históricas de FHC com o Chile e com o período Allende, suas afirmações elogiosas à trajetória de Kissinger podem causar espanto e incredulidade. O texto da conferência proferida pelo ex-presidente em Washington, como parte das “Henry Kissinger Lectures in Foreign Policy and International Relations”, ajuda a dirimir essas dúvidas.

Logo no início de sua conferência, FHC afirma: “A combinação entre pensamento é ação é algo que sempre admirei em qualquer pessoa. Henry Kissinger é um homem de alto intelecto. E ele é, inegavelmente, um homem de ação. Ele é uma dessas raras espécies de homens que podem traduzir pensamento estratégico em políticas públicas e medidas concretas, de um modo exitoso. Sua produção acadêmica só encontra paralelo na contribuição à política externa dos EUA, ajudando a mudar o mundo, especialmente nos anos 70”.

No texto, disponível em inglês no site do Instituto Fernando Henrique Cardoso , não aparece a referência ao “velho amigo Kissinger”. Quem quiser ver a saudação deve ir ao site do “The John W. Kluge Center”, da Livraria do Congresso dos EUA, onde a íntegra da conferência de Fernando Henrique Cardoso está disponível em vídeo. Logo no início, ele saúda Kissinger, “um velho amigo meu e de todos vocês”.

Um pensamento internacionalista
Seja como for, o que é importante aqui não é a saudação em si. Cada um tem o direito de ter os amigos que quer e o dever de assumir a responsabilidade por essas amizades. Além disso, a admiração do ex-presidente brasileiro pela obra e trajetória de Kissinger não é exatamente uma novidade. Ele bem que tentou homenageá-lo quando ocupou a presidência da República. Em fevereiro de 2002, Kissinger desistiu de viajar a São Paulo, onde receberia de Fernando Henrique Cardoso a medalha da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul (condecoração destinada a estrangeiros que se tenham tornados dignos do reconhecimento da Nação brasileira), após a divulgação de um abaixo-assinado de repúdio à visita e da convocação de um ato de protesto.

Do ponto de vista da movimentação política do ex-presidente o que importa é entender as razões que alimentam suas velhas e novas amizades. Na conferência proferida em Washington, Fernando Henrique criticou o unilateralismo que marca a administração Bush, dizendo que ele “representa a negação de todos os mecanismos e leis existentes para enfrentar as ameaças à paz e à segurança internacionais”. “Esses mecanismos”, acrescentou, “foram criados após a Segunda Guerra Mundial, sob a liderança dos Estados Unidos, e serviram muito bem aos interesses americanos no passado, inclusive durante a primeira Guerra do Golfo, em 1991”. “Parece que não há herdeiros deste patrimônio deixado por extraordinárias gerações de líderes americanos que tinham um pensamento internacionalista, a exemplo de Kissinger e de ex-presidentes como Bill Clinton, Ronald Reagan e George Bush (pai)”, concluiu o ex-presidente.

A democracia e a memória
Além de criticar o unilateralismo de Bush filho e de exaltar o “pensamento internacionalista” de Kissinger, Clinton, Reagan e Bush pai, reafirmou suas preocupações com o futuro da democracia no mundo e na América Latina em particular. Esse tema, aliás, vem sendo motivo de intensa movimentação por parte de FHC que lidera um grupo, sediado em Washington, para acompanhar a situação da democracia na América Latina que estaria ameaçada pela proliferação de governos de esquerda e de centro-esquerda, especialmente pelo governo de Hugo Chávez, na Venezuela. No Brasil, Fernando Henrique também vem falando de riscos para a democracia, que estariam associados à prática política do governo Lula.

Em um esforço para neutralizar esses riscos, FHC trabalhou pela eleição do deputado Severino Cavalcanti (PP-PE) para a presidência da Câmara Federal. O que chama a atenção em tudo isso é que as referências políticas e amizades do líder tucano (Severino Cavalcanti, Henry Kissinger, Bill Clinton, Ronald Reagan e George Bush pai) andam na contramão das referências que vem ganhando espaço na América Latina.

Sua assídua presença em Washington, seja proferindo conferências ou participando de grupos especiais, apontam para um movimento mais amplo que o distancia cada vez mais das razões que, aparentemente, o levaram a deixar o Brasil após o golpe militar de 1964 e a buscar refúgio no Chile de Salvador Allende. E esse distanciamento assume uma forma bizarra, para dizer o mínimo. Por um lado, apresenta-se como guardião da democracia, no Brasil, na América Latina e no mundo. Por outro, associa-se com nomes e setores políticos que não cansaram de pisotear a democracia na América Latina. O que interessa, na saudação a Kissinger, é o desprezo pela memória que ela revela. O ex-guerrilheiro tupamaro e novo ministro da Pecuária, Agricultura e Pesca do Uruguai, José Pepe Mujica costuma dizer que “quem não cultiva a memória, não desafia o poder”.

A afirmação cai como uma luva para o caso em questão. A relação de Fernando Henrique com o poder não é definida exatamente pela palavra desafio. Deslumbramento parece melhor. Vale a pena ver o início de sua conferência em Washington, quando ele é apresentado como uma estrela do pensamento político global e entra triunfalmente no auditório com um sorriso de criança entrando em confeitaria. É impagável e imperdível.

A obra de um velho amigo
Nosso ex-presidente anda pelos corredores do poder com elegância e desenvoltura. É um homem que sabe se portar e se vestir. E sabe, como ninguém, desprezar a memória, essa incômoda companheira. Entre as palavras que vem ganhando renovada força na América Latina, a memória ocupa um lugar especial, como reafirmou Tabaré Vázquez, em seu discurso de posse, em Montevidéu. Há zonas sombrias que devem ser iluminadas, para o bem da democracia, defendeu o novo presidente uruguaio. E essas zonas sombrias se espalham por praticamente toda a América Latina. Estão presentes no Chile, por exemplo, país que acolheu Fernando Henrique em dias difíceis.

No dia 11 de setembro de 1973, o compositor e cantor Victor Jara foi preso na universidade onde trabalhava, juntamente com cerca de 600 estudantes, e levado para o Estádio Nacional do Chile, em Santiago. Neste mesmo dia, é torturado e assassinado por militares que o retiraram de uma fila de prisioneiros que iam ser transferidos. Dias depois, seu corpo fuzilado, com as mãos amputadas, é identificado em um necrotério por sua esposa, a bailarina inglesa Joan Jara. Uma das tantas contribuições do pensamento internacionalista do “velho amigo” de FHC, que ajudou a mudar o mundo nos anos 70.

Marco Aurélio Weissheimer, jornalista brasileiro.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

FOLHA AFIRMA EM EDITORIAL: NO BRASIL NÃO HOUVE DITADURA MAS “DITABRANDA”

ABI, intelectuais, leitores e blogueiros criticam duramente posicionamento do jornal.

por Conceição Lemes*

Em editorial publicado na terça-feira, 17 de fevereiro, criticando a vitória do presidente Hugo Chavéz no referendo, a Folha de S. Paulo classificou a ditadura militar brasileira (1964 a 1985) como “ditabranda”

Está no quarto parágrafo:


Mas, se as chamadas "ditabrandas" -- caso do Brasil entre 1964 e 1985 -- partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça-, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso. O líder eleito mina as instituições e os controles democráticos por dentro, paulatinamente.“Branda para quem, cara pálida?” questionou ontem cedo Cristóvão Feil, blog Diário Gauche no post Jornal serrista diz que não houve ditadura, mas ditabranda
Cristóvão Feil argumenta:

1) Quando o próprio Departamento de Estado dos EUA e vários jornais conservadores norte-americanos consideram e reconhecem o caráter popular-democrático dos processos em curso na Venezuela, Bolívia e Equador, o jornal tucano-serrista Folha de S. Paulo – o mesmo que emprestava veículos da sua frota para operações inconfessadas dos órgãos de repressão da ditadura civil-militar de 1964-85 – continua insistindo com a sua cruzada contra Hugo Chávez e outros governantes sul-americanos que estão cortando os laços do Estado com as oligarquias locais.

2) Como se não bastasse, criou um neologismo infame para reconceituar a ditadura brasileira que golpeou Goulart em 1964. Segundo a Folha, nós experimentamos uma “ditabranda”, e alinha motivos de ficção para por de pé esse re-conceito mole e insustentável.

3) Para o jornal da família Frias deve ter sido mesmo uma situação branda, já que se pode imaginar as contrapartidas que o regime de repressão e arbítrio deve ter concedido ao grupo Folha, antes de 1964, editores de um obscuro diário da cidade de São Paulo.

ABI CRITICA DURAMENTE A FOLHA

Mais à tarde, a Associação Brasileira de Imprensa deixou de lado a passividade dos últimos tempos e criticou duramente o posicionamento do jornal. Em entrevista ao Comunique-se, Maurício Azêdo, presidente da ABI, diz que, em sua opinião, a Folha, num só parágrafo, alinha uma série de "equívocos de caráter político e histórico".

"Ao dizer que é uma ‘ditabranda', o jornal esquece, por certo, das mortes ocorridas durante a ditadura. Esquece dos milhares que tiveram seus direitos políticos cassados, que tiveram que se exilar, sem contar os torturados nas masmorras da ditadura. É lamentável que se proceda a uma revisão histórica dessa natureza. O que era negativo passa a ser positivo, dando absolvição àqueles que violaram os direitos constitucionais e cometeram crimes, como o assassinato do jornalista Vladimir Herzog nos porões do Doi-Codi", diz Azêdo.

O presidente da ABI lembra também que o direito ao habeas-corpus foi suspenso durante o regime militar: "Dizer que houve acesso à Justiça é uma falsidade de caráter histórico que deveria causar vergonha à Folha de S. Paulo”. Procurados pelo Comunique-se, o diretor de redação da Folha, Otávio Frias Filho, e o ombudsman do jornal, Carlos Eduardo Lins da Silva, não retornaram os telefonemas até o fechamento da matéria.

“UM TAPA NA CARA DA HISTÓRIA DA NAÇÃO”

Na verdade, o primeiro a repelir publicamente o posicionamento da Folha foi o leitor Sérgio Pinheiro Lopes (São Paulo, SP). Em carta publicada no dia 19 de fevereiro, ele afirma:

"Golpe de Estado dado por militares derrubando um governo eleito democraticamente, cassação de representantes eleitos pelo povo, fechamento do Congresso, cancelamento de eleições, cassação e exílio de professores universitários, suspensão do instituto do habeas corpus, tortura e morte de dezenas, quiçá de centenas, de opositores que não se opunham ao regime pelas armas (Vladimir Herzog, Manuel Fiel Filho, por exemplo) e tantos outros muitos desmandos e violações do Estado de Direito.

Li no editorial da Folha de hoje que isso consta entre "as chamadas ditabrandas -- caso do Brasil entre 1964 e 1985" (sic). Termo este que jamais havia visto ser usado.
A partir de que ponto uma "ditabranda", um neologismo detestável e inverídico, vira o que de fato é? Quantos mortos, quantos desaparecidos e quantos expatriados são necessários para uma "ditabranda" ser chamada de ditadura? O que acontece com este jornal? É a "novilíngua"? Lamentável, mas profundamente lamentável mesmo, especialmente para quem viveu e enterrou seus mortos naqueles anos de chumbo.
É um tapa na cara da história da nação e uma vergonha para este diário."

A Nota da Redação da Folha: “Na comparação com outros regimes instalados na região no período, a ditadura brasileira apresentou níveis baixos de violência política e institucional”.

COMPARATO E BENEVIDES CHAMADOS DE CÍNICOS E MENTIROSOS

Ontem, no Painel, mais repúdios de leitores.

MAURICIO CIDADE BROGGIATO (Rio Grande, RS), diz:
"Lamentável o uso da palavra "ditabranda" no editorial "Limites a Chávez" (Opinião, 17/2) e vergonhosa a Nota da Redação à manifestação do leitor Sérgio Pinheiro Lopes ("Painel do Leitor", ontem). Quer dizer que a violência política e institucional da ditadura brasileira foi em nível "comparativamente baixo'? Que palhaçada é essa? Quanto de violência é admissível? No grande "Julgamento em Nuremberg" (1961), o personagem de Spencer Tracy diz ao juiz nazista que alegava que não sabia que o horror havia atingido o nível que atingira: "Isso aconteceu quando você condenou à morte o primeiro homem que você sabia que era inocente". A Folha deveria ter vergonha em relativizar a violência. Será que não é por isso que ela se manifesta de forma cada vez maior nos estádios, nas universidades e nas ruas?"

LUIZ SERENINI PRADO (Goiânia, GO), afirma:

"Inacreditável. A Redação da Folha inventou um ditadômetro, que mede o grau de violência de um período de exceção. Funciona assim: se o redator foi ou teve vítimas envolvidas, será ditadura; se o contrário, será ditabranda. Nos dois casos, todos nós seremos burros."

MARIA VICTORIA DE MESQUITA BENEVIDES , professora da Faculdade de Educação da USP (São Paulo, SP), horroriza-se:

"Mas o que é isso? Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da repressão de "ditabranda'? Quando se trata de violação de direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem comparar "importâncias" e estatísticas. Pelo mesmo critério do editorial da Folha, poderíamos dizer que a escravidão no Brasil foi "doce" se comparada com a de outros países, porque aqui a casa-grande estabelecia laços íntimos com a senzala -- que horror!"

FÁBIO KONDER COMPARATO, professor universitário aposentado e advogado (São Paulo, SP), vai fundo:

"O leitor Sérgio Pinheiro Lopes tem carradas de razão. O autor do vergonhoso editorial de 17 de fevereiro, bem como o diretor que o aprovou, deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro, cuja dignidade foi descaradamente enxovalhada. Podemos brincar com tudo, menos com o respeito devido à pessoa humana."

Nota da Redação: “A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua ‘indignação’ é obviamente cínica e mentirosa”.

A Folha não consegue conviver com o contraditório? Incomoda ver que leitores como Sérgio Pinheiro Lopes, Maurício Cidade Broggiato e Luiz Seredini Prado pensam com as próprias cabeças, não se rendendo a uma possível tentativa de reescrever a história do Brasil e do jornal?

Quanto aos professores Fábio Comparato e Maria Victória Benevides, por que tanta indelicadeza com eles? Será por que obrigaram o jornal enxergar no espelho uma cara que não querem ver? Ou por que, de repente, fizeram a Folha de S.Paulo se relembrar dos tempos em que colaborava com ditadura militar, e sua frota de veículos ficava à disposição do DEOPS?

*Conceição Lemes é jornalista investigativa, especialista em saúde, com trabalhos importantes sobre o fumo, células-tronco, aids, e anemia falciforme. Recentemente tem produzido matérias de denúncia e esclarecimentos sobre a relação entre a indústria do amianto e câncer.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

REFLEXÕES SOBRE CRIMES IMPRESCRITÍVEIS

Temos uma ferida aberta, provocada pelas dores do período da ditadura militar. Temos grandes dificuldades para lidar com a memória e a história daquele período, pois muitos dos protagonistas estão vivos.

Mas não podemos nos furtar de discutir esse período, principalmente, o estabelecimento do Estado de Terror que fez uso da tortura contra seus inimigos políticos, os cidadãos brasileiros que se opuseram aos militares.

No vídeo abaixo que registra a manifestação de estudantes e do grupo Tortura Nunca Mais em frente ao Clube Militar no Rio de Janeiro, preste atenção na fala final do deputado
federal Jair Bolsonaro (PP) que afirma: "O erro foi torturar e não matar" A reação para lá de desrespeitosa diante dos familiares dos desaparecidos deste deputado mostra como se consideram inatingíveis.




Mario Augusto Jakobsind*

No momento em que no Brasil se discute a questão da punição ou não de torturadores dos anos de chumbo, sobretudo em função dos recentes pronunciamentos dos Ministros Tarso Genro, da Justiça, e Paulo Vanucchi, da Secretaria dos Direitos Humanos, e a contrapartida em uma reunião de antigos apoiadores militares do golpe de 64, vale a pena saber o que está acontecendo entre os vizinhos do Cone Sul.

Na Argentina nestes dias, por exemplo, foi preso, na província de Buenos Aires, um cidadão de nome Nelson Bardesio, um ex-policíal, agente da CIA estadunidense e integrante do esquadrão da morte uruguaio, que agia no início dos anos 70, responsável por vários assassinatos, torturas, desaparecimentos e atentados. A Justiça uruguaia que investiga o desaparecimento do jovem Héctor Castagnetto, no início de 1972, pediu a extradição de Bardesio.

Para se ter uma idéia dos antecedentes deste personagem, vale lembrar que no início dos anos 70 ele tinha sido pego pelo grupo armado uruguaio Tupamaros e, depois de interrogado, confessou uma série de crimes cometidos. Os Tupamaros então tornaram públicas as confissões e o libertaram.

Além de integrar os esquadrões da morte, que funcionavam coordenados com a polícia, e na qualidade de fotógrafo da corporação, Bardesio agia no Aeroporto de Carrasco tirando fotos de viajantes suspeitos de serem de esquerda. O material recolhido era encaminhado ao escitório da CIA em Montevidéu, onde circulou também um tal de Dan Mitrione, agente estadunidense especializado em torturas* que acabou sendo julgado e condenado a morte pelos Tupamaros.

Documentos da CIA recentemente tornados públicos, além de confirmarem o que Bardesio tinha confessado aos Tupamaros, mostraram também que os esquadrões da morte contaram com a colaboração de policiais uruguaios e dos serviços de inteligência de Argentina, Brasil e Paraguai, na chamada Operação Cóndor. Os documentos evidenciam ainda que vários outros policiais dos esquadrões da morte eram também agentes da CIA e que os Estados Unidos financiavam o grupo terrorista institucional.

A CIA deu proteção a Bardesio levando-o para os Estados Unidos, onde se manteve praticamente oculto todos estes anos. Imaginando que a impunidade prevaleceria, sobretudo depois de mais de 30 anos de atividades criminosas, Bardesio viajou para a Argentina, onde acabou sendo descoberto por uma equipe de jornalistas investigativos do semanário uruguaio Brecha.

Neste momento, está para ser decidida a extradição deste ex-membro dos esquadrões da morte para o Uruguai, porque a Justiça daquele país considera que crimes como os que foram cometidos pelo ex-agente da CIA são imprescritíveis. Ou seja, devem ser julgados em qualquer época, independente de quando as violações dos direitos humanos tenham sido cometidas.

Protegido que foi pela CIA, Bardesio conseguiu a cidadania estadunidense, mas a legislação uruguaia confirma a nacionalidade dos que tenham nascido no país, independente se adquiriram outra nacionalidade. A questão está sendo analisada no pedido de extradição e dependerá da intepretação da Justiça argentina, cuja legislação prevê também que a nacionalidade se define onde o cidadão nasceu.

É isso aí, enquanto no Uruguai, na Argentina e no Chile a Justiça julga crimes de assassinatos e torturas cometidas por civis e militares naquele período ditatorial, nas terras brasileiras, além de a discussão sobre crimes imprescritíveis estar praticamente começando, em vez de se mostrar que as histórias hediondas daquele período não foram fatos isolados ou de responsabilidade de “gente que se excedeu”, como querem alguns, é preciso deixar claro que o sistema implantado pelos militares, com apoio de empresários e políticos, foi o responsável pelo que aconteceu. Ou seja, este mecanismo, como no Chile, na Argentina e no Uruguai, teve a responsabilidade de altas patentes, sejam militares ou civis, que geriam o sistema implantado pela força. O julgamento da história deve ser implacável. Mas nada de punir ou julgar os peixes pequenos e deixar soltos os que ordenararam as torturas e assassinatos.

Em suma: a tortura era uma política de Estado que teve apoio da CIA e não ocorreu por excessos individuais.

(*) Mitrione foi condecorado pela polícia de Belo Horizonte onde ensinou a torturar presos políticos


*Mario Augusto Jakobsind: É correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor de Internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do semanário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América Que não Está na Mídia, Dossiê Tim Lopes- Fantástico/Ibope.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Lições das mães da 'praça de maio'

Cantadas e celebradas pelo U2, as heroínas da resistência da ditadura militar argentina - as mães da Praça de maio- já criaram associação, rádio, editora, arquivo dos anos de chumbo e agora voltam seus esforços e lições de vida para a periferia de Buenos Aires. Vale a pena conhecer o trabalho dessas jovens senhoras que estão na casa dos 80 anos.
Um dos mais importantes movimentos contra o regime militar da Argentina, as "Mães da praça de Maio" ficam internacionalmente conhecidas por sua peregrinação diária à praça localizada no centro de Buenos Aires,levando cartazes com nomes e fotos de seus filhos desaparecidos durante o regime militar.Até hoje a cena se repete, com as mães exigindo do governo uma resposta ao desaparecimento de mil de 30 mil jovens.

Mães da Praça de Maio se voltam para a periferia de Buenos Aires
Christine Legrand
Correspondente em Buenos Aires.

Aos 79 anos, Hebe de Bonafini trocou o seu tradicional lenço branco por um capacete de plástico amarelo. A presidente da associação das Mães da Praça de Maio assumiu a coordenação de um vasto programa de urbanização de uma dezena de favelas de Buenos Aires. Andando em passos firmes, desafiando as crises de asma e de diabete, a senhora Bonafini, que perdeu dois filhos durante a ditadura militar (1976-1983), caminha para cima e para baixo no labirinto de terra batida de Ciudad Oculta, uma das maiores favelas do país, situada a oeste da capital. O projeto prevê a construção de 900 alojamentos. Ela aponta com orgulho para várias casas de dois andares, de cores vivas, que já estão sendo habitadas.

















Cristina Kirchner cumprimenta Hebe de Bonafini, da Mães da Praça de Maio


Uma imensa construção que se encontra abandonada há mais de meio século vai ser reformada para receber apartamentos, um hospital, escolas, centros de convivência infantis, um centro de lazer e uma biblioteca. Batizado ironicamente de "o elefante branco", o edifício foi construído durante os anos 1950 pelo então presidente e general Juan Domingo Perón, que queria fazer dele o hospital mais moderno da Argentina."São 24 hectares no total, e nesta área uma verdadeira cidade vai ser construída", explica o arquiteto Eduardo Crivos. Uma equipe de 23 profissionais está trabalhando a serviço da Fundação das Mães da Praça de Maio.


"Nós somos a maior empresa de construção civil do país",
declara com orgulho Hebe de Bonafini.
As habitações não são construídas com tijolos, e sim com ajuda de painéis móveis que permitem uma edificação rápida. De origem italiana, estes painéis são fabricados numa usina que as próprias Mães da Praça de Maio mandaram construir no bairro popular de La Boca. Uma amiga de longa data de Fidel Castro, mas também do presidente venezuelano, Hugo Chávez, Hebe de Bonafini declara igualmente a sua simpatia para com os Kirchner. O casal presidencial reivindica o seu passado de militantes peronistas de esquerda durante os anos 1970 e fez dos direitos humanos uma prioridade dos seus governos sucessivos.

"A tarefa das Mães não é mais de resistir à repressão do regime", comenta a
senhora Bonafini. "A presidente Cristina Kirchner está mostrando competência no
que faz e nós somos solidárias com o atual governo. Os nossos filhos morreram
por um ideal, nós estamos dando continuidade ao seu combate contra as injustiças
sociais", acrescenta.


Daquelas que os militares haviam batizado de "as loucas da Praça de Maio", hoje não sobraram mais de vinte. A sua idade varia entre 76 e 94 anos. Depois de trinta anos de luta, elas não se contentam mais com a sua manifestação semanal, sempre às quintas-feiras, em frente à Casa Rosada, o palácio presidencial. Elas fundaram uma universidade popular, um jornal, uma rádio, uma empresa de tipografia, além da sua própria editora. Elas também conseguiram montar uma central de arquivos únicos, voltados para os "anos de chumbo" (como é chamado o período da ditadura).



Além do mais, elas também contam com o apoio financeiro oferecido pelo governo peronista no quadro do plano federal de habitação. O prefeito de Buenos Aires, o homem de negócios Mauricio Macri (de direita), um adversário político dos Kirchner, não esconde a sua contrariedade com a situação. As Mães invadiram o seu território e cabe à prefeitura a tarefa de encaminhar para a sua organização os créditos que vêm sendo alocados pelo governo. No final de janeiro, Hebe de Bonafini organizou a ocupação da catedral para protestar contra a lentidão da burocracia da capital.Algumas horas mais tarde, os fundos haviam sido desbloqueados. As Mães são populares e aliadas incondicionais dos Kirchner.

"Elas estão fazendo um bom trabalho", admite a adjunta do prefeito, Gabriela
Michetti. "Contudo, nós lamentamos que não haja uma maior transparência nas suas atividades".
"Macri não tem experiência alguma no que diz respeito à
problemática social", rebate o advogado Sergio Schoklender. Um braço-direito de
Hebe de Bonafini, ele considera que "companhias privadas não poderiam trabalhar
nas favelas como as Mães vêm fazendo".

"Nós adotamos uma abordagem global da realidade social, o que
nos permite eliminar com uma só cajadada a delinqüência, o tráfico de drogas e a
prostituição. São os próprios moradores das favelas, homens e mulheres, que
constroem o seu alojamento após terem recebido formações específicas", explica o
advogado, que também acrescenta: "A maioria dentre eles nunca havia trabalhado
em toda a sua vida; numa proporção de 80%, eles eram "cartoneros" (pobres que
vivem do que eles encontram no lixo). Eles têm carteira de trabalho assinada,
recebem bons salários, contribuem para a sua aposentadoria, recebem os
benefícios da Seguridade Social, as férias remuneradas. Além disso, nunca houve
nenhum acidente nos canteiros de obra".
A pedido do governo Kirchner, o programa de urbanização que as Mães da Praça de Maio estão conduzindo será estendido para outras províncias do país.

Tradução: Jean-Yves de Neufville
02/04/2008 Le Monde

domingo, 16 de março de 2008

"Foi um tempo sem sorrisos": Repressão e Ditadura Militar

Publicado em 2007 pela Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República o livro Direito à verdade e à memória: comissão especial sobre mortos e desaparecidos políticos pode ser baixado aqui.

É um relatório de fôlego do trabalho de pesquisa de onze anos feito pela Comissão Especial Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, traz uma síntese sobre a repressão durante a ditadura militar, com a biografia dos mortos e desaparecidos políticos. Conhecer essas páginas sombrias de nossa história é preciso para que nunca mais elas venham a ser escritas, para que o respeito aos Direitos Humanos seja uma realidade concreta em nosso país.

Vale a pena ler o artigo do jornalista Urariano Mota, quando do lançamento desta importante publicação. Destacamos um pequeno trecho:

(...)

"Maria Auxiliadora Lara Barcellos (1945-1976)

Maria das Dores atirou-se nos
trilhos de um trem na estação de metrô Charlottenburg, em Berlim... tinha sido
presa 7 anos antes, Nunca mais conseguiu se recuperar plenamente das profundas
marcas psíquicas deixadas pelas sevícias e violências de todo tipo a que foi
submetida. Durante o exílio registrou num texto... 'Foram intermináveis dias de
Sodoma. Me pisaram, cuspiram, me despedaçaram em mil cacos. Me violentaram nos
cantos mais íntimos. Foi um tempo sem sorrisos. Um tempo de esgares, de gritos
sufocados, de grito no escuro'....

(...)

Como vêem, difícil é manter a serenidade, a frieza, um ar
apolíneo, razoável, sensato, diante desse mundo que se encontra submerso, mas
jamais superado, morto, vencido. Eu, que não sabia como começar, confesso que
também não sei como pôr fim a estas linhas. Eu havia escrito antes notas,
reflexões, coisas digamos mais sociológicas, dignas de tese, que iludem toda a
gente, que pode nos tomar como um ser culto, inteligente, sábio, espirituoso.
Basta de falsidade, porque

" - Teu nome completo é Mário Alves de Souza Vieira?
-
Vocês já sabem.
- Você é o secretário-geral do comitê central do PCBR?
-
Vocês já sabem.
- Será que você vai dar uma de herói? ...

Horas de espancamentos com cassetetes de borracha,
pau-de-arara, choques elétricos, afogamentos. Mário recusou dar a mínima
informação e, naquela vivência da agonia, ainda extravasou o temperamento
através de respostas desafiadoras e sarcásticas. Impotentes para quebrar a
vontade de um homem de físico débil, os algozes o empalaram usando um cassetete
de madeira com estrias de aço. A perfuração dos intestinos e, provavelmente, da
úlcera duodenal, que suportava há anos, deve ter provocado hemorragia interna".

É terrível que a importância de um livro, que a importância da palavra escrita, se dê em relatos tão cruéis. Mas a realidade não se escolhe.
Quem toca nesse livro, toca em destinos."

Trecho do artigo "Direito à memória da ditadura", setembro de 2007, de Urariano Mota, escritor, jornalista pernambucano, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance Os corações futuristas, cujo cenário é o período da ditadura Médici.