Bem-vindo/a ao blog da coleção de História nota 10 no PNLD-2008 e Prêmio Jabuti 2008.

Bem-vindos, professores!
Este é o nosso espaço para promover o diálogo entre as autoras da coleção HISTÓRIA EM PROJETOS e os professores que apostam no nosso trabalho.
É também um espaço reservado para a expressão dos professores que desejam publicizar suas produções e projetos desenvolvidos em sala de aula.
Clique aqui, conheça nossos objetivos e saiba como contribuir.
Mostrando postagens com marcador Folha de São Paulo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Folha de São Paulo. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 16 de março de 2009

Uol quer se diferenciar da Folha e dá destaque para o encontro de ex-presos políticos

Os jornalistas Luiz Carlos Azenha no Viomundo e Rodrigo Vianna no Escrevinhador vêm fazendo a melhor cobertura sobre o caso 'ditabranda', por isso compartilho com vocês as matérias que considero de suma importância para reunir subsídios para as aulas sobre ditadura militar no Brasil e sobre os riscos do revisionismo iniciado pela Folha de São Paulo em seu edital de 17/03/2009 [entenda o caso aqui]

Observem o vídeo abaixo e depois leiam o artigo do Rodrigo Vianna publicado em seu blog.



Na luta por indenizações reparatórias e punição aos torturadores, perseguidos da ditadura militar (1964-1985) fazem encontro semanal e relembram as histórias dos anos de chumbo no Brasil (clique aqui e leia reportagem).

Ditabranda: Grupo "Folha" tenta limpar a barra no UOL

Mais um indício de que o editorial da "ditabranda", na "Folha", seguido da resposta desastrada aos professores que "ousaram" contestar o texto, gerou mal-estar no Grupo "Folha".

Primeiro, Otavinho Frias foi obrigado a reconhecer o erro (isso só após um abaixo-assinado contra o jornal, e uma manifestação que reuniu algumas centenas de pessoas em frente à "Folha" no dia 7 de março). Mas manteve o tom arrogante, seguindo nas críticas a quem ousou contestá-lo.

Depois, começaram a chegar informações de que leitores cancelaram em massa assinaturas da "Folha". A notícia saiu no blog do Sakamoto, e foi reproduzida aqui no "Escrevinhador".

Agora, nesta segunda-feira, abro o UOL (provedor da internet mantido pela família Frias) e vejo uma reportagem, como segunda manchete do dia, sobre encontro de ex-perseguidos políticos. A reportagem, diga-se, é honesta [Leia a matéria completa aqui]. O repórter foi ao encontro, ouviu gente que foi presa, torturada.... Contou histórias.

O UOL abriu espaço para enquetes em que os leitores podem debater a ditadura. E incluiu na reportagem até uma foto da manifestação contra o jornal.

Hum...

Perguntei ao povo que reúne os perseguidos políticos da ditadura se alguma vez o UOL já tinha estado por lá. "Nunca", me responderam.

Hum...

Informação: o UOL é dirigido por Luís Frias, irmão mais novo de Otavinho. Luís Frias, talvez, tenha percebido que enveredar por um caminho de extrema-direita seria ruim para o Portal. Otavinho aderiu à moda neo-com, na linha de "Veja".

Dizem que os dois irmãos não se entendem muito ultimamente. A reportagem do UOL talvez seja um recado na luta interna do grupo "Folha", do tipo: "Otavio, não faça mais essas bobagens".

Vale ressaltar que nada disso teria ocorrido se a sociedade, especialmente através da internet, não tivesse se manifestado, protestando, cancelando assinaturas, divulgando histórias nebulosas sobre o o passado de colaboração do grupo "Folha" com a ditadura.

A reportagem do UOL, portanto, é uma derrota para a direita burra que quer reescrever a história do país, usando a mídia para esse intento. Se tentarem fazer isso, enfrentarão resistência. E sentirão as consequências no bolso e na imagem de seus já combalidos veículos de comunicação.

quinta-feira, 5 de março de 2009

"É possível contar um monte de mentiras, dizendo só a verdade"

Pela manhã recebo do @joildo via twitter o link para mais um artigo da Folha sobre a ditabranda. Fui ler, era o historiador Marco Antonio Villa.

Ao menos entre os historiadores respeitáveis de que tenho notícia revisionismos carregam uma conotação pejorativa, na medida em que os revisionistas retomam as fontes (se assim o fazem) para negar fatos, mesmo trabalhando com dados. Clássicos são os anti-semitas que negam o holocausto, ou os judeus que negam a Nakba palestina. Agora parece que estamos inaugurando o revisionismo tupiniquim: "não houve ditadura no Brasil". Torturas, assassinatos, prisões, censura, exílios e toda a ordem de ações de um regime que tomou o poder a partir de um golpe militar e governou por meio de Atos institucionais com cassações, fechamento de sindicatos e uma série de arbitrariedades é tudo miragem, delírio da esquerda 'petralha', como diria o suprassumo do neocon o tio 'rei' da Veja (mas não perca seu tempo).

A Folha após ser desmacarada por artigos críticos feito por jornalistas que tem vergonha na cara e honram a sua profissão, passou a recorrer aos seus historiadores neocons para sustentar sua 'ditabranda'.

Professora Benevides tem toda razão ao usar o adjetivo 'insidioso' pra qualificar o tipo de revisionismo da Folha, ele é perigosíssimo mesmo, é cínico e mentiroso, relativiza tanto um acontecimento que acaba por recriá-lo à sua imagem e semelhança.

Villa é professor da UFScar é mais velho que eu, quando nasci com o golpe, ele estava entrando na escola. Tem aasim, ao menos 7 anos de vantagem para lembrar sobre o que é viver e ser educado em uma sociedade sustentada pela premissa "Brasil ame-o ou deixe-o" (ou seja deixado à força). Não há justificativa para um sujeito que bem-informado, com formação na área de História e que viveu os anos de chumbo negar a fatura que pagamos até hoje pela censura e pela perseguição política dos anos de chumbo.

Pode-se fazer qualquer coisa com estatísticas, mas não se pode afirmar que houve expansão do ensino superior no Brasil e esquecer-se de que grande parte da intelectualidade acadêmica deste país foi calada à força, que fazer pesquisa naquela época era dificílimo, que muitos bons profissionais foram aposentados compulsoriamente.

Eu realmente espero que o neocon Villa com seu revisionismo insidioso não tenha muitos adeptos na academia. Mas insisto mais uma vez, aos historiadores que me lêem: já passou da hora da ANPUH se posicionar formalmente diante deste episódio. O malabarismo narrativo do Villa, ao meu ver, é auto-explicativo desta necessidade.

Associem a campanha irresponsável da Folha buscando antecipar as eleições de 2010, a onda conservadora no STF, no MP com a criminalização do MST e qualquer coisa que cheire a movimento social e nos vejo caminhando a passos largos para a história repetida como farsa, como diria o velho barbudo.

Para encerrar reproduzo o mail que recebi hoje do meu querido amigo Aton Fon, a quem a 'ditabranda' da Folha suprimiu 11 anos de vida, os melhores de sua juventude, além das torturas sofridas que, felizmente, sua doçura e caráter não permitiram que ele perdesse a ternura com a barbárie sofrida.

"Lembrei de uma propaganda da própria Folha em que mostra a foto do Hitler com grande aproximação, e ia fazendo um afastamento enquanto falava de realizações econômicas do governo nazista, para terminar com a seguinte frase: 'É possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade'.
Pedi a um amigo meu para fazer um vídeo a partir desse artigo do Villa. É o roteiro perfeito!!" Aton Fon
Leiam o artigo do Villa e relembrem da propaganda aí abaixo, troquem o texto de Hitler pela ditabranda do Villa/Folha e me digam: não foram feitos um para o outro?




E aqui, a pedido do Aton Fon, o vídeo feito pelo Justo, roteiro do professor Villa:


Leia também o excelente artigo de Mino Carta e o texto de Luis Nassif produzidos sobre o tema, reproduzi ambos do bloco de notas da história em projetos, acesse aqui

terça-feira, 3 de março de 2009

MANIFESTO DOS SEM-MÍDIA PARA O ATO CONTRA A DITABRANDA

Reproduzo do Cidadania.com o Manifesto dos Sem-Mídia, redigido por Eduardo Guimarães, presidente desta ONG. O documento será lido durante o ato em repúdio ao editorial da Folha de São Paulo no dia 07/03/2009, na Barão de Limeira, Centro, São Paulo.



Movimento dos Sem Mídia

Pela Justiça e pela Paz no Brasil

A Organização Não Governamental Movimento dos Sem Mídia – MSM, entidade de direito privado constituída juridicamente em 13 de outubro de 2007, chamou a si a responsabilidade de exortar a sociedade brasileira a repudiar a perniciosa e ameaçadora revisão histórica perpetrada recentemente por editorial do jornal Folha de São Paulo, texto que relativizou a gravidade de crimes cometidos pelo Estado brasileiro entre os anos de 1964 e 1985, período durante o qual a Nação brasileira sofreu usurpação de um golpe militar ilegal e inconstitucional que, por seu turno, gerou aos brasileiros conseqüências nefandas tais como censura à liberdade de pensamento e de expressão, prisões arbitrárias e crimes de tortura, de estupro e de morte, atos de terror que destruíram as vidas de milhões de brasileiros, muitos dos quais sobreviveram àquele terror e, assim, carregam até hoje seqüelas daquele período de trevas.

No âmbito desse repúdio, cumpre à nossa entidade tornar públicos os pontos daquele texto jornalístico que julgamos perniciosos e ofensivos às vítimas que tombaram e às que sobreviveram àquele regime de força.

O editorial do jornal Folha de São Paulo intitulado “Limites a Chávez” foi publicado em 17 de fevereiro deste ano. O veículo de comunicação exerceu um direito óbvio e que não se questiona, o direito de opinar. Criticar o resultado do plebiscito recente na Venezuela ou emitir qualquer outra opinião, portanto, jamais estimularia nossa Organização a protestar de forma tão solene e veemente se não fosse a tentativa de revisão histórica que afirmou que o regime dos generais-presidentes teria sido “brando”, pois tal afirmativa constituiu-se em dolorosa bofetada nos rostos dos que sobreviveram, em verdadeiro deboche dessas vítimas expresso por meio do termo jocoso “ditabranda”, corruptela do único termo possível para identificar aquele regime, o termo ditadura.

Em poucas palavras, a Folha de São Paulo atentou contra as instituições democráticas brasileiras na forma de condescendência com um regime que praticou os crimes supra mencionados. Além disso, o mesmo texto criou teorias novas, como se verá em trecho no qual reside todo seu veneno.
Disse a Folha de São Paulo: “As chamadas "ditabrandas" – caso do Brasil entre 1964 e 1985 – partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça”.

O perigo e a afronta residem no eufemismo. Com efeito, o diabo está nos detalhes. Diga-se essa barbaridade de “acesso controlado à Justiça” aos que ficaram pelo caminho da máquina opressora do Estado brasileiro de então, aos que sofreram tudo que foi acima enumerado. Diga-se a eles que tiveram acesso “controlado” para buscarem reparação pelas violências que sofreram e das quais há provas que, no dia incerto em que a Nação decidir higienizar seu passado, serão mais do que suficientes para condenar os criminosos, muitos dos quais ainda caminham livremente por essa mesma Nação. Achem um só que tenha encontrado guarida e reparação na Justiça, à época, pelas violências que sofreu. E mais: diga-se isso aos que não sobreviveram à sanha assassina daquele Estado ditatorial.

No conceito de nossa Organização, conceito este amparado no melhor Direito Universal, o que fez o jornal em questão foi dizer “brandos” aqueles crimes, abrindo espaço para a proliferação de mentalidades que ainda defendem publicamente métodos subumanos de “controle” da Cidadania e das próprias vidas dos cidadãos.

Dizem os defensores da usurpação do Estado Democrático de Direito que ocorreu naquele período obscuro de nossa história que havia então uma “guerra” no Brasil. Uma guerra em que tantos jovens idealistas, muitas vezes pouco mais do que imberbes, sucumbiram defendendo a Constituição, por sua vez violentada pelos desejos de poucos, que estupraram o desejo da maioria que delegou o Poder a um governo constitucional que a ditadura derrubou por meio de golpe de Estado.

O Brasil daquele 1964 tinha um governo eleito pelo voto. Não foi destituído por um processo democrático que se valeu dos mecanismos constitucionais que existiam e que poderiam ser usados se os que se opunham àquele governo acreditassem que tinham representatividade popular para fazer tais mecanismos prevalecerem. Não. Por não estarem amparados pela maioria dos brasileiros, os usurpadores do Poder de Estado legalmente constituído em eleições livres e democráticas trataram de usar a violência, a sedição e a ilegalidade para fazerem prevalecer suas visões, desejos e interesses minoritários, impondo-os sobre uma maioria que mais tarde seria amordaçada e ameaçada, de forma que não pudesse contestar a ruptura do Estado de Direito.

Equiparar o Estado àqueles que os defensores do regime de exceção diziam ser “terroristas”, era, é e sempre será uma aberração jurídica, para economizar palavras. Não cabe no conceito de democracia, de Estado de Direito, a hipótese de agentes do Estado imporem suplícios físicos desumanos e criminosos àqueles dos quais desconfiavam de que não compartilhavam suas idéias totalitárias.

O que torna mais dramática essa revisão afrontosa daquele período da história é que o jornal Folha de São Paulo não se contentou só com ela. Diante dos protestos de dois dos expoentes mais respeitados da intelectualidade brasileira tanto no Brasil quanto no exterior, a professora Maria Victória Benevides e o professor Fábio Konder Comparato, o jornal tratou de insultá-los de forma virulenta, qualificando-os como “cínicos e mentirosos”, claramente tripudiando da indignação dos justos ante absurdo tão rematado quanto o acima descrito.

Nem as poucas opiniões contrárias que o jornal permitiu que fossem vistas em suas páginas opinativas, sempre de forma tão “controlada” quanto afirmou antes que fazia a sua “ditabranda”, puderam minorar a dor dos sobreviventes dos Anos de Chumbo, e tampouco fizeram a justiça necessária à memória das vítimas fatais da ditadura cruel que vigeu naquele período triste da história deste País.

Tanta injustiça, desrespeito, deboche e ameaça às instituições democráticas, porém, encontra “explicação” quando se analisa o papel exercido pelo jornal contra o qual protestamos durante boa parte do tempo em que a ditadura militar oprimiu esta Nação.

Em obra literária de autoria de um colaborador desse meio de comunicação, do jornalista Elio Gaspari, intitulada “A Ditadura Escancarada”, figura acusação ao jornal Folha de São Paulo que este jamais rebateu de forma adequada e pública, a acusação de que cedeu veículos à sua “ditabranda” para o transporte de presos, muitos dos quais poderiam estar sendo levados para a morte.

Mas é em editorial desse grupo empresarial publicado em 22 de setembro de 1971, no auge da ditadura, que fica provado o colaboracionismo de um com a outra. Diz aquele editorial pretérito tão nefasto quanto o editorial mais recente, sendo ambos do grupo empresarial de comunicação da família Frias:

“Como o pior cego é o que não quer ver, o pior do terrorismo é não compreender que no Brasil não há lugar para ele. Nunca ouve. E de maneira especial não há hoje, quando um governo sério, responsável, respeitável e com indiscutível apoio popular, está levando o Brasil pelos seguros caminhos do desenvolvimento com justiça social - realidade que nenhum brasileiro lúcido pode negar, e que o mundo todo reconhece e proclama. O país, enfim, de onde a subversão - que se alimenta do ódio e cultiva a violência - está sendo definitivamente erradicada, com o decidido apoio do povo e da imprensa, que reflete o sentimento deste." Octávio Frias de Oliveira, 22 de setembro de 1971”.

Apesar desse documento histórico com dia, mês e ano, e que pode ser encontrado nos arquivos desse grupo empresarial de comunicação, apesar desse documento que mostra faceta do jornal Folha de São Paulo que ele teima em não reconhecer e que certamente não quer ver conhecido por seu público atual por ter vergonha de seu passado, sua alegação contemporânea é a de que “combateu” a ditadura que aquele editorial, assinado por seu proprietário de então, qualificava como “séria, responsável, respeitável e com indiscutível apoio popular”.

Não se consegue entender como a Folha de São Paulo, então, media o “apoio popular” à ditadura, pois não havia eleições livres ou mesmo pesquisas sobre a popularidade dos ditadores. Era, pois, uma invenção do jornal, tão mentirosa quanto a de que a ditadura estaria “levando o Brasil pelos seguros caminhos do desenvolvimento com justiça social”. Invenção mentirosa porque, à luz do conhecimento histórico daquele período, o que se sabe é que o que gerou foi concentração de renda, ou seja, empobrecimento dos mais pobres e enriquecimento dos mais ricos.

No dia em que o editorial profano mais recente foi lido pelos Sem Mídia, o que nos veio às mentes foram as palavras imortais do ativista negro norte-americano doutor Martin Luther King que pregaram, há tantas décadas, a conduta dos democratas diante dos violadores da democracia: “O que preocupa não são os gritos dos maus, mas o silêncio dos bons”. E é por isso que estamos aqui hoje, porque nossa Organização não aceita e não ficará inerte assistindo os defensores ardorosos da ditadura de ontem tentarem vender a mentira de que ela foi menos do que assassina, imoral e terrivelmente dura, tendo sido tudo, menos “branda”.

São Paulo, 7 de março de 2009

Eduardo Guimarães

Presidente

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

"Nunca houve censura"

Por Delton Unglaub

em Canal da Imprensa, sem data

Líbero Badaró chegou ao Brasil pregando a liberdade de expressão, mas partiu com uma bala no peito dizendo: "Morre um liberal, mas não morre a liberdade". Um funcionário do Judiciário imperial foi acusado como mandante do crime, mas como sempre acontece no Brasil, foi absolvido por falta de provas. Há especulações que a ordem poderia ser do próprio imperador dom Pedro I.

Quase um século e meio depois, a família Frias também reclamava pela liberdade de expressão: "Não há causa que justifique assaltos, assassínios e seqüestros, muitos deles praticados com requintes de crueldade". Entretanto, nesta história, ocorreu o contrário: o jornalista estava do lado do repressor e quem o ameaçava era o reprimido.

No dia 21 de setembro de 1971, a Ação Libertadora Nacional (ALN) incendiou camionetes da Folha que eram utilizadas para entregar jornais. Os responsáveis queriam matar o dono do jornal, Octavio Frias de Oliveira. Ele respondeu ao atentado publicando um editorial - incensurável - na primeira página do dia seguinte.

Apesar da resposta firme, o empresário tomou medidas de segurança. Mudou-se com a família para a sede do jornal. Carlos Caldeira - seu sócio - construiu um apartamento no oitavo andar. Agentes de segurança sugeriram que a família Frias se isolasse. Os vidros de seu apartamento foram vedados e os filhos aprenderam a usar armas.

Com o atentado, a ALN queria mostrar sua revolta contra a Folha da Tarde. Na época, a Folha da Tarde publicava constantemente manchetes como: "Lamarca, o louco, é o último chefe do terror". Com títulos como este, o atentado não deve ter sido surpresa.

No livro Notícias do Planalto, Mario Sergio Conti revela que "até o final de 1968 as organizações terroristas de esquerda destacaram alguns de seus militantes jornalistas para trabalhar na Folha da Tarde", e no "início dos anos 70 foi a vez de policiais dos órgãos de informação da ditadura se assenhorearem do jornal."

Conti ainda revela que houveram inúmeras notícias fraudulentas publicadas pela Folha da Tarde. O jornal noticiava a morte de "terroristas" em situações imaginárias - provavelmente por "jornalistas" formados na escola de Jornalismo do regime. Um exemplo foi o militante Joaquim Seixas, que em 16 de abril de 1970 estava preso, mas "morto" nas páginas da Folha. Agora poderia ser torturado à vontade até, realmente, morrer. Uma ferramenta bastante útil, aparentemente.

No editorial, Frias se indignava e se atemorizava com as ameaças.

"Os ataques do terrorismo não alterarão a nossa linha de conduta. Como o pior cego é o que não quer ver, o pior do terrorismo é não compreender que no Brasil não há lugar para ele. Nunca houve. E de maneira especial não há hoje, quando um governo sério, responsável, respeitável e com indiscutível apoio popular está levando o Brasil pelos seguros caminhos do desenvolvimento com justiça social-realidade que nenhum brasileiro lúcido pode negar, e que o mundo todo reconhece e proclama. [...] Um país, enfim, de onde a subversão -que se alimenta do ódio e cultiva a violência - está sendo definitivamente erradicada, com o decidido apoio do povo e da imprensa, que reflete os sentimentos deste. Essa mesma imprensa que os remanescentes do terror querem golpear."
(Editorial: Banditismo - publicado em 22 de setembro de 1971; Octavio Frias de Oliveira).

Realmente o "pior cego é aquele que não quer ver". E Frias não via que o lado que defendia agia, senão igual, pior. Tudo para alcançar seus objetivos.

Em defesa própria

Otavio Frias Filho, ainda na universidade, ouviu histórias sobre o envolvimento da empresa da família com os órgãos de repressão política. Numa destas conversas - de pai para filho - perguntou ao pai qual era a verdade. Naturalmente, o pai, "herói", respondeu que se houvesse uma colaboração, ele saberia: "Nunca me pediram isso", garantiu.

"A Folha de S. Paulo nunca foi censurada. Até emprestou uma C-14 [carro tipo perua, usado na distribuição do jornal] para recolher torturados ou pessoas que iriam ser torturadas na Oban [Operação Bandeirante]", afirma o também italiano - assim como Badaró - Mino Carta. Para Carta, quem sofreu com a censura foram apenas O Estado de S. Paulo e o Jornal da Tarde que tiveram de substituir artigos proibidos por poemas de Camões e receitas de bolo.

Na visão executiva da Folha, sua atuação no regime militar passou por diferentes fases. "No contexto da polarização da época, que dividia o País, a Folha aprovou a deposição do presidente Goulart. Esteve sob censura, entre 1969 e 1983, quando a supressão das liberdades públicas atingiu seu ponto máximo. A partir de 1974, o jornal foi uma das principais vozes a reivindicar a democratização do País", defendeu-se o veículo.

Não existem provas consistentes de que houve colaboração do grupo Folha com os órgãos repressores. No regime militar, o capitalismo não foi exatamente incentivado. O fato é que para sobreviver e prosperar neste período a opinião deveria ser volúvel. O grupo era, e é, uma empresa comercial que prosperou durante a ditadura porque não foi contra o poder vigente.

Ao contrário de outros veículos, a Folha não se fixou a uma ideologia. O que moveu este grupo foi o puro e simples capitalismo. A rentabilidade era a prioridade. Ou seja, quando se deparou em uma situação de represália, a Folha de S. Paulo parafraseou Badaró dizendo: "Morre um ideal, mas compra-se a liberdade."

A dica é do Vi o mundo

sábado, 21 de fevereiro de 2009

FOLHA AFIRMA EM EDITORIAL: NO BRASIL NÃO HOUVE DITADURA MAS “DITABRANDA”

ABI, intelectuais, leitores e blogueiros criticam duramente posicionamento do jornal.

por Conceição Lemes*

Em editorial publicado na terça-feira, 17 de fevereiro, criticando a vitória do presidente Hugo Chavéz no referendo, a Folha de S. Paulo classificou a ditadura militar brasileira (1964 a 1985) como “ditabranda”

Está no quarto parágrafo:


Mas, se as chamadas "ditabrandas" -- caso do Brasil entre 1964 e 1985 -- partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça-, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso. O líder eleito mina as instituições e os controles democráticos por dentro, paulatinamente.“Branda para quem, cara pálida?” questionou ontem cedo Cristóvão Feil, blog Diário Gauche no post Jornal serrista diz que não houve ditadura, mas ditabranda
Cristóvão Feil argumenta:

1) Quando o próprio Departamento de Estado dos EUA e vários jornais conservadores norte-americanos consideram e reconhecem o caráter popular-democrático dos processos em curso na Venezuela, Bolívia e Equador, o jornal tucano-serrista Folha de S. Paulo – o mesmo que emprestava veículos da sua frota para operações inconfessadas dos órgãos de repressão da ditadura civil-militar de 1964-85 – continua insistindo com a sua cruzada contra Hugo Chávez e outros governantes sul-americanos que estão cortando os laços do Estado com as oligarquias locais.

2) Como se não bastasse, criou um neologismo infame para reconceituar a ditadura brasileira que golpeou Goulart em 1964. Segundo a Folha, nós experimentamos uma “ditabranda”, e alinha motivos de ficção para por de pé esse re-conceito mole e insustentável.

3) Para o jornal da família Frias deve ter sido mesmo uma situação branda, já que se pode imaginar as contrapartidas que o regime de repressão e arbítrio deve ter concedido ao grupo Folha, antes de 1964, editores de um obscuro diário da cidade de São Paulo.

ABI CRITICA DURAMENTE A FOLHA

Mais à tarde, a Associação Brasileira de Imprensa deixou de lado a passividade dos últimos tempos e criticou duramente o posicionamento do jornal. Em entrevista ao Comunique-se, Maurício Azêdo, presidente da ABI, diz que, em sua opinião, a Folha, num só parágrafo, alinha uma série de "equívocos de caráter político e histórico".

"Ao dizer que é uma ‘ditabranda', o jornal esquece, por certo, das mortes ocorridas durante a ditadura. Esquece dos milhares que tiveram seus direitos políticos cassados, que tiveram que se exilar, sem contar os torturados nas masmorras da ditadura. É lamentável que se proceda a uma revisão histórica dessa natureza. O que era negativo passa a ser positivo, dando absolvição àqueles que violaram os direitos constitucionais e cometeram crimes, como o assassinato do jornalista Vladimir Herzog nos porões do Doi-Codi", diz Azêdo.

O presidente da ABI lembra também que o direito ao habeas-corpus foi suspenso durante o regime militar: "Dizer que houve acesso à Justiça é uma falsidade de caráter histórico que deveria causar vergonha à Folha de S. Paulo”. Procurados pelo Comunique-se, o diretor de redação da Folha, Otávio Frias Filho, e o ombudsman do jornal, Carlos Eduardo Lins da Silva, não retornaram os telefonemas até o fechamento da matéria.

“UM TAPA NA CARA DA HISTÓRIA DA NAÇÃO”

Na verdade, o primeiro a repelir publicamente o posicionamento da Folha foi o leitor Sérgio Pinheiro Lopes (São Paulo, SP). Em carta publicada no dia 19 de fevereiro, ele afirma:

"Golpe de Estado dado por militares derrubando um governo eleito democraticamente, cassação de representantes eleitos pelo povo, fechamento do Congresso, cancelamento de eleições, cassação e exílio de professores universitários, suspensão do instituto do habeas corpus, tortura e morte de dezenas, quiçá de centenas, de opositores que não se opunham ao regime pelas armas (Vladimir Herzog, Manuel Fiel Filho, por exemplo) e tantos outros muitos desmandos e violações do Estado de Direito.

Li no editorial da Folha de hoje que isso consta entre "as chamadas ditabrandas -- caso do Brasil entre 1964 e 1985" (sic). Termo este que jamais havia visto ser usado.
A partir de que ponto uma "ditabranda", um neologismo detestável e inverídico, vira o que de fato é? Quantos mortos, quantos desaparecidos e quantos expatriados são necessários para uma "ditabranda" ser chamada de ditadura? O que acontece com este jornal? É a "novilíngua"? Lamentável, mas profundamente lamentável mesmo, especialmente para quem viveu e enterrou seus mortos naqueles anos de chumbo.
É um tapa na cara da história da nação e uma vergonha para este diário."

A Nota da Redação da Folha: “Na comparação com outros regimes instalados na região no período, a ditadura brasileira apresentou níveis baixos de violência política e institucional”.

COMPARATO E BENEVIDES CHAMADOS DE CÍNICOS E MENTIROSOS

Ontem, no Painel, mais repúdios de leitores.

MAURICIO CIDADE BROGGIATO (Rio Grande, RS), diz:
"Lamentável o uso da palavra "ditabranda" no editorial "Limites a Chávez" (Opinião, 17/2) e vergonhosa a Nota da Redação à manifestação do leitor Sérgio Pinheiro Lopes ("Painel do Leitor", ontem). Quer dizer que a violência política e institucional da ditadura brasileira foi em nível "comparativamente baixo'? Que palhaçada é essa? Quanto de violência é admissível? No grande "Julgamento em Nuremberg" (1961), o personagem de Spencer Tracy diz ao juiz nazista que alegava que não sabia que o horror havia atingido o nível que atingira: "Isso aconteceu quando você condenou à morte o primeiro homem que você sabia que era inocente". A Folha deveria ter vergonha em relativizar a violência. Será que não é por isso que ela se manifesta de forma cada vez maior nos estádios, nas universidades e nas ruas?"

LUIZ SERENINI PRADO (Goiânia, GO), afirma:

"Inacreditável. A Redação da Folha inventou um ditadômetro, que mede o grau de violência de um período de exceção. Funciona assim: se o redator foi ou teve vítimas envolvidas, será ditadura; se o contrário, será ditabranda. Nos dois casos, todos nós seremos burros."

MARIA VICTORIA DE MESQUITA BENEVIDES , professora da Faculdade de Educação da USP (São Paulo, SP), horroriza-se:

"Mas o que é isso? Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da repressão de "ditabranda'? Quando se trata de violação de direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem comparar "importâncias" e estatísticas. Pelo mesmo critério do editorial da Folha, poderíamos dizer que a escravidão no Brasil foi "doce" se comparada com a de outros países, porque aqui a casa-grande estabelecia laços íntimos com a senzala -- que horror!"

FÁBIO KONDER COMPARATO, professor universitário aposentado e advogado (São Paulo, SP), vai fundo:

"O leitor Sérgio Pinheiro Lopes tem carradas de razão. O autor do vergonhoso editorial de 17 de fevereiro, bem como o diretor que o aprovou, deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro, cuja dignidade foi descaradamente enxovalhada. Podemos brincar com tudo, menos com o respeito devido à pessoa humana."

Nota da Redação: “A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua ‘indignação’ é obviamente cínica e mentirosa”.

A Folha não consegue conviver com o contraditório? Incomoda ver que leitores como Sérgio Pinheiro Lopes, Maurício Cidade Broggiato e Luiz Seredini Prado pensam com as próprias cabeças, não se rendendo a uma possível tentativa de reescrever a história do Brasil e do jornal?

Quanto aos professores Fábio Comparato e Maria Victória Benevides, por que tanta indelicadeza com eles? Será por que obrigaram o jornal enxergar no espelho uma cara que não querem ver? Ou por que, de repente, fizeram a Folha de S.Paulo se relembrar dos tempos em que colaborava com ditadura militar, e sua frota de veículos ficava à disposição do DEOPS?

*Conceição Lemes é jornalista investigativa, especialista em saúde, com trabalhos importantes sobre o fumo, células-tronco, aids, e anemia falciforme. Recentemente tem produzido matérias de denúncia e esclarecimentos sobre a relação entre a indústria do amianto e câncer.