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quarta-feira, 15 de abril de 2009

Queridos leitores o blog Maria Frô e também o blog História em Projetos andam abandonados devido a minha imensa correria e mergulho em um novo e decisivo projeto. Nos próximos 12 meses as postagens serão mais ao estilo slow blogging, ou seja, bem mais comedidas para que eu possa continuar postando e ao mesmo tempo possa desenvolver o meu trabalho que muito está me absorvendo.

Virei aqui e no blog da HP para informar ou discutir eventos importantes, mas longe do que de fato eu gostaria de produzir. Continuo conectada em todas as outras vias de acesso virtua msn, talk, skype, mail e twitter. Qualquer coisa gritem :)

Abaixo segue um informativo da ADUSP- Associação dos Docentes da USP- sobre o lançamento do novo número de sua revista que ocorrerá juntamente com uma mesa-redonda com a presença ilustre do professor Fábio Konder Comparato e da professora Maria Victoria Benevides. Estarei lá!


Lançamento da Revista ADUSP 44, sobre a ditadura militar e Mesa-redonda: "A Ditadura Militar morreu?"

ditadura


DATA: 16/04/09;

HORÁRIO: 18 hs.

LOCAL: Auditório Abrahão de Moraes do Instituto de Física, Rua do Matão, Travessa R, 187 - Cidade Universitária - São Paulo/SP

Entidade responsável: ADUSP - Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo


COMO CHEGAR:

Debatedores:

Fábio Konder Comparato (Faculdade de Direito/USP)
Gerhard Malnic (Instituto de Ciências Biomédicas/USP)
Maria Victória Benevides (Faculdade de Educação/USP)
Moderador: João Zanetic (Instituto de Física/USP)

A edição 44 da Revista Adusp será lançada no dia 16/4, às 18 horas, no auditório Abrahão de Moraes do Instituto de Física, com debate sobre o tema A Ditadura militar morreu? Os professores Fábio Konder Comparato (FD/USP), Gerhard Malnic (ICB/USP) e Maria Victoria Benevides (FE/USP) serão os debatedores, cabendo a coordenação ao professor João Zanetic (IF/USP).

O título do debate é o mesmo da revista, que aponta, em diversas reportagens artigos, uma série de legados problemáticos da Ditadura militar (1964-1985), desde a impunidade dos agentes da repressão política até a mentalidade da cúpula das Forças Armadas, a qual não hesita em colocar-se acima da socie­dade, ignorando decisões judiciais, resistindo ao poder civil e insistindo em manter sob tutela partes do Estado brasileiro, como assinala o editorial da edição 44.

A reportagem sobre a perseguição da Aeronáutica aos controladores militares de vôo que realizaram uma greve de zelo em 2007, perseguição que se traduziu em prisões, condenações e expulsões, é um dos pontos fortes da edição. Outros destaques: o reencontro de ex-alunos da USP, quarenta anos após a invasão do Crusp por tropas do Exército e da Força Pública; a homenagem da Faculdade de Medicina a oito professores que foram exonerados ou perseguidos pelo regime militar; a entrevista com o ministro Paulo Vannucchi, da Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH).

Outras matérias da revista registram a movimentação existente na sociedade brasileira, nos dias de hoje, realizada por ex-presos políticos e por familiares de mortos e desaparecidos (e que encontra acolhida em alguns setores do Estado), em busca de punição para torturadores e assassinos; de reparações para as vítimas; e do direito à memória, para que se conheça a realidade do período ditatorial.

Debatedores

O professor Comparato é ativo protagonista desse movimento por justiça e verdade, entre outros motivos por atuar como um dos advogados da família de Luis Eduardo Merlino (jovem jornalista assassinado pelo DOI-CODI em 1971), em processo judicial para que o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra seja declarado torturador.

A professora Maria Victória, por sua vez, é uma ativista da educação em direitos humanos. Integra o Comitê Nacional de Educação em Direitos Humanos, ligado à SEDH, e faz parte da diretoria da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Direitos Humanos.

Recentemente, ao contestarem editorial da Folha de S. Paulo que qualificava o regime militar brasileiro como ditabranda, os professores Comparato e Maria Victoria foram alvo de ofensas do jornal. Ao atacar docentes de grande

prestígio acadêmico e reconhecida dedicação à luta democrática, a Folha deu um mau passo que mais tarde tentou desfazer, ao admitir parcialmente seu erro, após manifestação de protesto à sua porta.

O professor Malnic não se envolveu diretamente com política nos chamados anos de chumbo, mas foi esse distanciamento que lhe permitiu ajudar pessoas que eram caçadas pela repressão política. Entre elas, o então estudante de medicina Paulo Vannuchi.

Espera-se, assim, que o debate de 16/4 traga variadas contribuições, não só a partir da rica experiência pessoal de Comparato, Maria Victória e Malnic, mas também do público.

Data: 16 de abril de 2009 (quinta-feira)
Horário: 18h
Local: Anfiteatro Abrahão de Moraes - Instituto de Física/USP - Rua do Matão, Travessa R, 187 - Cidade Universitária - São Paulo/SP
Entidade responsável: ADUSP - Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo
Fones: (11) 3813-5573 / (11) 3091-4465 / (11) 3091-4466
E-mail: adusp@adusp.org.br

segunda-feira, 16 de março de 2009

Uol quer se diferenciar da Folha e dá destaque para o encontro de ex-presos políticos

Os jornalistas Luiz Carlos Azenha no Viomundo e Rodrigo Vianna no Escrevinhador vêm fazendo a melhor cobertura sobre o caso 'ditabranda', por isso compartilho com vocês as matérias que considero de suma importância para reunir subsídios para as aulas sobre ditadura militar no Brasil e sobre os riscos do revisionismo iniciado pela Folha de São Paulo em seu edital de 17/03/2009 [entenda o caso aqui]

Observem o vídeo abaixo e depois leiam o artigo do Rodrigo Vianna publicado em seu blog.



Na luta por indenizações reparatórias e punição aos torturadores, perseguidos da ditadura militar (1964-1985) fazem encontro semanal e relembram as histórias dos anos de chumbo no Brasil (clique aqui e leia reportagem).

Ditabranda: Grupo "Folha" tenta limpar a barra no UOL

Mais um indício de que o editorial da "ditabranda", na "Folha", seguido da resposta desastrada aos professores que "ousaram" contestar o texto, gerou mal-estar no Grupo "Folha".

Primeiro, Otavinho Frias foi obrigado a reconhecer o erro (isso só após um abaixo-assinado contra o jornal, e uma manifestação que reuniu algumas centenas de pessoas em frente à "Folha" no dia 7 de março). Mas manteve o tom arrogante, seguindo nas críticas a quem ousou contestá-lo.

Depois, começaram a chegar informações de que leitores cancelaram em massa assinaturas da "Folha". A notícia saiu no blog do Sakamoto, e foi reproduzida aqui no "Escrevinhador".

Agora, nesta segunda-feira, abro o UOL (provedor da internet mantido pela família Frias) e vejo uma reportagem, como segunda manchete do dia, sobre encontro de ex-perseguidos políticos. A reportagem, diga-se, é honesta [Leia a matéria completa aqui]. O repórter foi ao encontro, ouviu gente que foi presa, torturada.... Contou histórias.

O UOL abriu espaço para enquetes em que os leitores podem debater a ditadura. E incluiu na reportagem até uma foto da manifestação contra o jornal.

Hum...

Perguntei ao povo que reúne os perseguidos políticos da ditadura se alguma vez o UOL já tinha estado por lá. "Nunca", me responderam.

Hum...

Informação: o UOL é dirigido por Luís Frias, irmão mais novo de Otavinho. Luís Frias, talvez, tenha percebido que enveredar por um caminho de extrema-direita seria ruim para o Portal. Otavinho aderiu à moda neo-com, na linha de "Veja".

Dizem que os dois irmãos não se entendem muito ultimamente. A reportagem do UOL talvez seja um recado na luta interna do grupo "Folha", do tipo: "Otavio, não faça mais essas bobagens".

Vale ressaltar que nada disso teria ocorrido se a sociedade, especialmente através da internet, não tivesse se manifestado, protestando, cancelando assinaturas, divulgando histórias nebulosas sobre o o passado de colaboração do grupo "Folha" com a ditadura.

A reportagem do UOL, portanto, é uma derrota para a direita burra que quer reescrever a história do país, usando a mídia para esse intento. Se tentarem fazer isso, enfrentarão resistência. E sentirão as consequências no bolso e na imagem de seus já combalidos veículos de comunicação.

sexta-feira, 13 de março de 2009

A grande mídia e o golpe de 64

Por Venício A. de Lima da Agência Carta Maior

Ao se aproximar os 45 anos do 1º de abril de 1964 e diante de tentativas recentes de revisar a história da ditadura e reconstruir o seu significado através, inclusive, da criação de um vocabulário novo, é necessário relembrar o papel – para alguns, decisivo – que a grande mídia desempenhou na preparação e sustentação do golpe militar. A análise é de Venício A. de Lima.

No debate contemporâneo sobre a relação entre história e memória, argumenta-se com propriedade que a história não só é construída pela ação de seres humanos em situações específicas como também por aqueles que escrevem sobre essas ações e dão significado a elas. Sabemos bem disso no Brasil.

Ao se aproximar os 45 anos do 1º de abril de 1964 e diante de tentativas recentes de revisar a história da ditadura e reconstruir o seu significado através, inclusive, da criação de um vocabulário novo, é necessário relembrar o papel – para alguns, decisivo – que a grande mídia desempenhou na preparação e sustentação do golpe militar.

Referência clássica
A participação ativa dos grandes grupos de mídia na derrubada do presidente João Goulart é fato histórico fartamente documentado. Creio que a referência clássica continua sendo a tese de doutorado de René A. Dreifuss (infelizmente, já falecido), defendida no Institute of Latin American Studies da University of Glasgow, na Escócia, em 1980 e publicada pela Editora Vozes sob o título “1964: A Conquista do Estado” (7ª. edição, 2008).

Através das centenas de páginas do livro de Dreifuss o leitor interessado poderá conhecer quem foram os conspiradores e reconstruir detalhadamente suas atividades, articuladas e coordenadas por duas instituições, fartamente financiadas por interesses empresariais nacionais e estrangeiros (“o bloco multinacional e associado”): o IBAD, Instituto Brasileiro de Ação Democrática e o IPES, Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais.

No que se refere especificamente ao papel dos grupos de mídia, sobressai a ação do GOP, Grupo de Opinião Pública ligado ao IPES e constituído por importantes jornalistas e publicitários. O capítulo VI sobre “a campanha ideológica”, traz ampla lista de livros, folhetos e panfletos publicados pelo IPES e uma relação de jornalistas e colunistas a serviço do golpe em diferentes jornais de todo o país. Além disso, Dreyfuss afirma (p. 233):

O IPES conseguiu estabelecer um sincronizado assalto à opinião pública. Através de seu relacionamento especial com os mais importantes jornais, rádios e televisões nacionais, como: os Diários Associados, a Folha de São Paulo, o Estado de São Paulo (...) e também a prestigiosa Rádio Eldorado de São Paulo. Entre os demais participantes da campanha incluíam-se (...) a TV Record e a TV Paulista (...), o Correio do Povo (RS), O Globo, das Organizações Globo (...) que também detinha o controle da influente Rádio Globo de alcance nacional. (...) Outros jornais do país se puseram a serviço do IPES. (...) A Tribuna da Imprensa (Rio), as Notícias Populares (SP).

Vale lembrar às gerações mais novas que o poder relativo dos Diários Associados no início dos anos 60 era certamente muito maior do que o das Organizações Globo neste início de século XXI. O principal biógrafo de Assis Chateaubriand afirma que ele foi “infinitamente mais forte do que Roberto Marinho” e “construiu o maior império de comunicação que este continente já viu”.

A visão do USIA
Há outro estudo, menos conhecido, que merece ser mencionado. Trata-se de pesquisa realizada por Jonathan Lane, Ph. D. em Comunicação por Stanford, ex-funcionário da USIA, United States Information Agency no Brasil, publicado originalmente no Journalism Quarterly, (hoje Journalism & Mass Communication Quarterly), em 1967, e depois no Boletim n. 11 do Departamento de Jornalismo da Bloch Editores, em 1968, (à época, editado por Muniz Sodré) sob o título “Função dos Meios de Comunicação de Massas na Crise Brasileira de 1964”.

Lane enfatiza a liberdade de imprensa existente no país e a pressão exercida pelo governo sobre os meios de comunicação utilizando os recursos a seu dispor (empréstimos, licenças para importação de equipamentos, publicidade, concessões de radiodifusão e “recursos de partidos comunistas”). A grande mídia, no entanto, resiste, até porque “o governo não é a única fonte de subsídio com que contam os jornais. Existem outras, interesses conservadores, econômicos e políticos que controlam bancos ou dispõem de outros capitais para influenciar os jornais” (p. 7).

O autor, curiosamente, não menciona o IBAD ou o IPES e conclui que as ações do governo João Goulart e da “esquerda” retratadas nos meios de comunicação provocaram um “desgaste da antiga ordem baseada na hierarquia e na disciplina” que se tornou “psicologicamente insuportável” para os chefes militares e para a elite política, levando, então, ao golpe.

O artigo de Lane, no entanto, traz um importante conjunto de informações para se identificar a atuação da grande mídia. Tomando como exemplo a cidade do Rio de Janeiro - “o centro de comunicações mais importante” – afirma:

“Apesar das armas à disposição do governo, Goulart passou um mau bocado com a maior parte da imprensa. A maioria dos proprietários e diretores dos jornais mais importantes são homens (e mulheres) de linhagem e posição social, que freqüentam os altos círculos sociais de uma sociedade razoavelmente estratificada. Suas idéias são classicamente liberais e não marxistas, e seus interesses conservadores e não revolucionários” (p. 7).

No que se refere aos jornais, Lane chama atenção para a existência dos “revolucionários”, de circulação reduzida, como Novos Rumos, Semanário e Classe Operária (comunistas) e Panfleto (Brizolista). O mais importante jornal de “propaganda esquerdista” era Última Hora, “porta-voz do nacionalismo-esquerdista desde o tempo de Vargas”. Já “no centro, algumas apoiando Jango, outras censurando-o, estavam os influentes Diário de Notícias e Correio da Manhã”. E continua:

“Enfileirados contra (Jango) razoavelmente e com razoável (sic) constância, encontravam-se O Jornal, principal órgão da grande rede de publicações dos Diários Associados; O Globo, jornal de maior circulação da cidade; e o Jornal do Brasil, jornal influente que se manteve neutro por algum tempo, porém opondo forte resistência a Goulart mais para o fim. A Tribuna da Imprensa, ligada ao principal inimigo político de Goulart, o governador Carlos Lacerda, da Guanabara (na verdade, a cidade do Rio de Janeiro), igualmente se opunha ferrenhamente a Goulart” (pp. 7-8).

Quanto ao rádio e à televisão, Lane explica:

“Cerca de metade das estações de televisão do país são de propriedade da cadeia dos Diários Associados, que também possui muitas emissoras radiofônicas e jornais em várias cidades. (...) Os meios de comunicação dos Diários Associados, inclusive rádio e tevê, empenharam-se numa campanha coordenada contra a agitação esquerdista, embora não contra Goulart pessoalmente, nos últimos meses que antecederam ao golpe” (p. 8).

Participação ativa
A pequena descrição aqui esboçada de dois estudos que partem de perspectivas teóricas e analíticas radicalmente distintas não deixa qualquer dúvida sobre o ativo envolvimento da grande mídia na conspiração golpista de 1964.

A relação posterior com o regime militar, sobretudo a partir da vigência da censura prévia iniciada com o AI-5, ao final de 1968, é outra história. Recomendo os estudos de Beatriz Kushnir, “Cães de Guarda – Jornalistas e censores do AI-5 à Constituição de 1988” (Boitempo, 2004) e de Bernardo Kucinski, “Jornalistas e Revolucionários nos tempos da imprensa alternativa” (EDUSP, 2ª. edição 2003).

As Organizações Globo merecem, certamente, um capítulo especial. Elio Gaspari refere-se ao “mais poderoso conglomerado de comunicações do país” como “aliado e defensor do regime” (Ditadura Escancarada, Cia. das Letras, 2004; p. 452).

Em defesa da democracia
Não são poucos os atores envolvidos no golpe de 1964 – ou seus herdeiros – que continuam vivos e ativos. A grande mídia brasileira, apesar de muitas e importantes mudanças, continua basicamente controlada pelos mesmos grupos familiares, políticos e empresariais.

O mundo mudou, o país mudou. Algumas instituições, no entanto, continuam presas ao seu passado. Não nos deve surpreender, portanto, que eventualmente transpareçam suas verdadeiras posições e compromissos, expressos em editoriais, notas ou, pior do que isso, disfarçados na cobertura jornalística cotidiana.

Tudo, é claro, sempre feito “em nome e em defesa da democracia”.

Por todas essas razões, lembrar e discutir o papel da grande mídia na preparação e sustentação do golpe de 1964 é um dever de todos nós.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Aton Fon: "Hay que endurecer, pero perder lá ternura JAMÁS!"

Pela importância do Ato, das entidades apoiadoras e dos cidadãos presentes, replico aqui, minha singela homenagem ao Aton Fon, publicado originalmente no Maria Frô.

Depoimento do ex-preso político e torturado Aton Fon Filho, advogado, ativista dos Direitos Humanos


(Vídeo produzido por Andrea VG, documentarista que veio de Brasília especialmente para registrar o ato em repúdio à Folha de São Paulo. Ontem este vídeo esteve entre os 10 mais vistos do Youtube)

Cada vez que eu vejo este vídeo, eu me emociono. Fon é o exemplo mais puro que conheço do "Hay que endurecer, pero perder lá ternura JAMÁS!"

Barbaramente torturado, 11 anos de sua vida ceifados pelo cárcere e Fon prossegue, lutando por Justiça Social e pelos Direitos Humanos.

Fiquei muito feliz quando ele decidiu ir ao ato em Repúdio ao Editorial da Folha de São Paulo que afirmou no dia 17/02 que o Brasil não experenciou uma Ditadura, mas uma 'ditabranda'. Ele enfrentou a dor que manifestações como estas provocam nas pessoas violentadas pelas torturas, ele mais uma vez enfrentou as feridas profundas que carrega dentro de si, porque sabia que era importante estar ali.

(Meu amigo e eu, fotografados por Susana, sua esposa)

Agradeço imensamente ao universo por ele ter resistido à barbárie deste período horripilante da história brasileira e que espero, com a força de todos nós, ao mantermos viva na memória a idéia de que não é possível aceitar um Estado torturador, algo semelhante jamais volte a se repetir em nosso país.

Agradeço, porque pude ainda bem jovem desfrutar da convivência com este ser de muita luz e luta. Quando o conheci em fins dos anos 80, início dos anos 90 e passávamos longas horas no Lago di Garda na Vila Madá, ele cultivava violetas, pregava botões e chegou a ter relógios até mesmo no banheiro: Menina já perdi muito tempo na vida, não posso mais perder um segundo sequer. Mas o tempo de Fon, não tem nada a ver com o tempo útil capitalista, é o tempo pela vida, na luta para que todos possam saborear a dignidade.

Acho que somos a somatória dos encontros com pessoas especiais como o Fon: lúcidas, generosas, conscientes, que vêem muito longe e carregam um sabedoria imensa sobre o viver genuinamente: a vida é preciosa e, acima de tudo, deve ser vivida com dignidade.

Obrigada, meu amigo, por você ter sobrevivido e continuar fiel aos princípios de defesa à vida, à liberdade, à dignidade, à Justiça social.

domingo, 8 de março de 2009

Jânio de Freitas responde a Marco Villa: Historiador à brasileira

Hoje, depois que mais de 300 pessoas, em sua maioria representando inúmeras entidades da sociedade civil brasileira, manifestaram-se em um ato público que durou mais de duas horas, diante da Folha de São Paulo, ela resolveu dar o ar da graça. Em seu Editorial assinado pelo proprietário do jornal, Otávio Frias Filho, o jornal reconhece o erro de ter denominado a ditadura militar no país, instaurada com o golpe de 1964 de 'ditabranda'. Entretanto, o dito continua pernosticamente a insistir no argumento de que intelectuais brasileiros como Maria Victoria Benevides e Fábio Konder Comparato não têm 'moral' para criticar a Folha.
(Ato em Repúdio contra o editorial da Folha de São Paulo. 07/03/2009. Foto de Pablo Simpson, gentilmente cedida para o Planeta Agregador Ditabranda)


No ato havia um fotógrafo da Folha, o único com uma escadinha e que tinha visão panorâmica do espaço. Além dele, havia mais dois jornalistas da Folha cobrindo o evento. Tudo isto para produzirem este tipo de cobertura
aqui.

(A escadinha da Folha: dela se viu tudo, mas não se contou nada. Deve ser pra não perder o costume do dito jornal...)

Felizmente existe a rede e não precisamos mais da grande mídia para mostrar a nossa perspectiva sobre os fatos. Para acompanhar o que foi o ato, acesse o Planeta Agregador Ditabranda.

Por fim, parece que ainda restaram alguns jornalistas que não se esqueceram de seu papel e compromisso com a notícia. Destaco o artigo crítico de Jânio de Freitas sobre a sofrível análise de Marco Antonio Villa que também foi discutido
aqui.

JANIO DE FREITAS

História à brasileira

Historiadores à brasileira não sabem que ditaduras vão até onde lhes é vitalmente necessário, e enquanto podem


UMA VERGONHA , ao menos uma, o Brasil tem. É um tal de esconder ou falsificar a própria história, que este vício passa, ele próprio, a ser história. Só agora, passados 70 anos, liberam-se atas de reuniões do Conselho de Segurança Nacional da década de 30 -mas depois de extirpar-lhes mais de 400 linhas. As linhas encobertas são os esconderijos das verdades que mais importam para o conhecimento das posições, circunstâncias e decisões do momento em questão.

Na entrega das atas, que vão de 1935 a 88, o seu guardião nos últimos anos, ministro de Segurança Institucional, general Jorge Felix, deu a justificativa oficial para os vetos: "Os povos são muito emocionais. Poderíamos ter constrangimentos com países vizinhos por declarações feitas nos anos 30". Na prática, desde então são passadas três gerações. Como os demais países, o Brasil atual pode, eventualmente, explicar declarações (no caso, em reuniões fechadas) do passado, pode desautorizá-las, mas não pode responder por elas. Mesmo que expressem, mais do que opiniões pessoais, propósitos hostis. Como foi o caso do ministro da Justiça que propôs, na década de 60, a criação de um episódio bélico com o Paraguai (começava o assunto Itaipu), como pretenso recurso para unir a opinião pública brasileira em torno dos militares.

Os aspectos mais decisivos no desencadear do golpe de 64 tornam-se progressivamente disponíveis graças à abertura de arquivos dos Estados Unidos. O embaixador Lincoln Gordon, até hoje vendido aqui como pessoa íntegra e bem intencionada em relação ao Brasil, já em seu primeiro encontro com Kennedy, na Casa Branca, propôs um golpe aqui. Isso se sabe por recentes liberações de documentos nos EUA, onde já o governo Kennedy está escancarado e até material do pequeno Bush começa a estar ao alcance público.

O que já era o cofre inexpugnável da documentação brasileira, ganhou de Fernando Henrique um reforço de obscurantismo estarrecedor. O "intelectual príncipe da sociologia" passou a duração do sigilo de documentos oficiais, de 20, 30 anos, para três gerações nos casos mais brandos e, em outros, até a infinidade dos tempos. Já no governo Lula, Fernando Henrique quis explicar-se com a afirmação de que assinou o ato "sem medir as consequências".Esquecido do que disse então, Fernando Henrique traz nova narrativa, reproduzida por Fernanda Krakovics e Luiza Damé no "Globo": assinou o decreto como ato "de rotina", ao recebê-lo "da secretaria que tratava de assuntos militares", o que caracterizou, "seja um descuido burocrático, seja má-fé de alguém não especificado".

Não especificado? Pois sim. O tempo não diminuiu a inverdade de Fernando Henrique para livrar a sua face comprometida como nenhuma outra. É grosseiramente claro que nenhum professor de sociologia, história ou afins deixaria de perceber as consequências óbvias da ampliação de sigilos documentais. Nem assinou como ato de "rotina" que, por descuido ou má-fé, o pegou desprevenido.

Tão logo o decreto obscurantista foi divulgado, ex-colegas de Fernando Henrique na universidade e muitos outros, inclusive no exterior, reagiram pelos meios de comunicação. Se vítima de inadvertência, Fernando Henrique teria emitido novo ato, com a correção do anterior, como fez inúmeras vezes.

Pressionado, Lula afinal se dispôs a alterar a regra de Fernando Henrique. Só, porém, para dizer que a alterara, porque até o sigilo infinito permaneceu.

Não é por acaso que um professor universitário de história faça a afirmação, por exemplo, de que "não é possível chamar de ditadura o período 1964-1968 (até o AI-5), com toda a movimentação político-cultural". Deu-se no artigo "Ditadura à brasileira", de Marco Antonio Villa, Folha de 5.mar.09.

Os militares derrubam um governo constitucional, prendem aos milhares pelo país afora, cassam mandatos parlamentares legítimos nas três instâncias legislativas; impõem ao Congresso subjugado a escolha entre três ou quatro generais, para figurar como presidente; governam por ato institucional e decreto-lei; extinguem os partidos; excluem do serviço público, das autarquias e estatais os opositores reais ou supostos, e, para não ir mais longe, instituem a espionagem no país todo. E, fato muito esquecido hoje em dia, iniciam a tortura nos quartéis e os assassinatos. Início bem comprovado, por exemplo, pela foto de Gregório Bezerra puxado por corda no pescoço em Recife. Ou pela celebridade de pessoas como o capitão Zamith, acusado da morte por tortura de um estudante de medicina na Vila Militar do Rio (tema da edição mais importante, até hoje, de "Veja"), e do sargento Raimundo, torturado no Exército e jogado no rio em Porto Alegre, morto ou para morrer.
Mas "não é possível chamar de ditadura" ao domínio do país por tal regime. Então só pode ser "a democracia" dos historiadores à brasileira. Até por ter "movimentação político-cultural", permitida entre 64-68 quando não incomodava o regime, servindo mesmo como válvula de escape, e reprimida com vigor quando incomodava.

Os historiadores à brasileira não sabem que as ditaduras vão até onde lhes é vitalmente necessário, e enquanto podem fazê-lo. A diferença entre elas não é a sua essência, nem a sua prática: é a medida do necessário.