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sábado, 15 de agosto de 2009

Luiz Carlos Azenha: leitura pente fino na ideologia da direita no Brasil

Dois bons textos que fazem uma leitura crítica com muita propriedade, analisando como a mídia e o jogo político eleitoral trabalham de mãos dadas.

Aproveitem, o que Luiz Carlos Azenha faz nestes dois artigos: é decupagem da ideologia da mídia corporativa,
travestida de jornalismo.

Kamel descobre Lula. Com vinte anos de atraso

15 de agosto de 2009

por Luiz Carlos Azenha

Ali Kamel acaba de lançar o Dicionário Lula.

Pelo que li em seis páginas dedicadas ao livro na revista Veja -- precedidas por duas páginas de propaganda da Globo, que ninguem é de ferro --, Kamel descobriu uma ferramenta bacana para analisar textos e, aparentemente sem ter o que fazer, decidiu aplicá-la. Em quem? Em declarações de Lula. São 672 páginas de declarações de Lula.

Como é provável que ninguem vá ler, Kamel facilita nossa vida e resume Lula: "Um brasileiro médio, mais ou menos crente em Deus e que se vê como o proponente de uma sociedade capitalista onde haja mais harmonia entre os pobres e ricos".

Notem como ele faz questão de hierarquizar: coloca os pobres adiante dos ricos, como se no Brasil do Kamel os ricos não estivessem por cima -- bem protegidos, alimentados e educados -- e os pobres não estivessem por baixo, se possível além-túnel. Pobre do Kamel, afinal, é pobre de novela da Globo: pobre limpinho, que aspira estudar e é bem comportado.

Como Kamel não faz nada sem tramar muito bem, o livro pode ser visto de muitas formas: um agrado no ego de Lula, que sabe que Kamel esteve por trás das tentativas globais de derrotá-lo em 2006 de forma, vamos dizer assim, maquiavélica; o livro pode ser também uma tentativa de reinterpretar Lula.

Fico mais com a segunda, já que Kamel é dado a grandes pretensões jornalísticas e intelectuais. Ele não se contenta em ser um reles diretor da Globo. Kamel tem uma missão na terra: a de reescrever a História.

Assim sendo, depois de provar que Não Somos Racistas, Kamel agora se dedica a provar que Lula não é Lula. O que ele quer dizer com sua definição é que Lula não é um "esquerdista radical tresloucado", visão que ele, Kamel, provavelmente tinha de Lula.

Quem conhece o presidente do Brasil na intimidade sabe que Lula nunca foi marxista, não se diz de esquerda e sempre foi conciliador.

Por que Kamel precisa de 672 páginas para provar o que já sabemos?

Porque, na verdade, quem está descobrindo isso agora é o diretor da Globo. O curioso é que ninguem colaborou mais para criar a imagem de Lula "bicho papão" que a própria Globo, na campanha eleitoral de 1989.

Fernando Collor de Melo, que a Globo ajudou a criar e a derrubar, fez campanha como antítese de Lula: em vez de vermelho, verde-amarelo; em vez de rude, elegante; em vez de ignorante, poliglota; radical, sim, mas no "bom sentido", o de caçador de marajás.

É como se Kamel estivesse tentando repetir, agora, o exercício de quem realmente mandava, Roberto Marinho.

Só que o exercício do diretor da Globo é distinto do executado pelo patrão: Kamel, que não conseguiu "desfazer" Lula em 2006, tenta "refazê-lo", agora em novo sabor: um Lula cordial e conciliador, com o qual a elite brasileira aceitará conviver -- especialmente depois que ele deixar o Planalto.

Mas, sendo Kamel quem é, não poderia deixar de nos oferecer diversão. "Mais ou menos crente em Deus", que é como ele define Lula, é o mesmo que dizer que uma mulher é meio virgem.

PS1: Se Lula se comportar bem, depois que a candidata dele for derrotada em 2010 o "ex-presidente" será convidado para ser consultor da Globo. O círculo estará fechado.

PS2: Para descobrir o que Kamel descobriu sobre Lula, não seria mais fácil perguntar ao presidente? Mas o "jornalismo" de Kamel prefere caminhos, vamos dizer assim, mais tortuosos.


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Serra e o desespero em campanha

por Luiz Carlos Azenha


Existe um princípio do marketing eleitoral nos Estados Unidos segundo o qual você precisa definir o seu adversário antes que ele consiga se definir diante da opinião pública.

Como os EUA são a fonte onde bebem os marqueteiros do Brasil, deve ter nascido aí a estratégia de José Serra para chegar ao Planalto, aliada às ferramentas das quais ele já se utilizou em 2002 para matar a candidatura de Roseana Sarney no berço: o trabalho de agentes públicos que dão um ar oficial aos dossiês, devidamente divulgados pela mídia. O padrão dos "assassinatos de reputação" está de volta.

Dilma, a terrorista, foi obra da Folha de S. Paulo. É uma espécie de pedágio que o jornal pagou, no rodízio que os órgãos da propaganda eleitoral de Serra fazem. Uma hora é a Folha que denuncia, repercutida pela Globo. Outra hora é a Veja que denuncia, repercutida pelo Estadão. De outra feita a Globo denuncia e os jornais correm atrás. É um ciclo de retroalimentação, sempre com objetivos políticos. Informações são misturadas a boatos e ilações. Em um fato real são penduradas dezenas de suposições. A estratégia pressupõe que o eleitor é estúpido, que o leitor, o telespectador e o ouvinte jamais saberão discernir o real do imaginado.

Finalmente, nessa estratégia, as pesquisas eleitorais medem os resultados. Peças da narrativa que não deram certo são descartadas. E é assim que a campanha é calibrada. Dilma a terrorista deu para trás.

Agora passamos a uma nova fase: Dilma, a mentirosa aliada de gente financiada por narcotraficantes.

Para estudar esse fenômeno eleitoral, a edição da revista Veja que chegou às bancas é um primor. Revela uma sofisticação inédita. Na capa, anuncia o confronto Dilma x Lina [a ex-secretária da Receita Federal que acusou Dilma de ter pedido a ela agilidade nas investigações sobre a família Sarney em encontro que a ministra nega].

"Cabe à acusadora mostrar as provas contra a ministra", diz o título. No índice, a chamada é outra: "Dilma: uma rebelião surda contra sua candidatura". Finalmente, na reportagem, o título: "Quem está dizendo a verdade?" O texto é um maravilhoso exemplo de como encher espaço com absolutamente nada.

Começa com uma pensata pretensiosa sobre o uso da mentira na política. Sugere descontentamento entre petistas com a candidatura de Dilma Rousseff. Alinhava "fatos e versões", com os títulos de "o fato", "o que disse a ministra" e "o que foi comprovado". Sugere, sem dizer isso escancaradamente, que Dilma é mentirosa. Ou, pelo menos, que não dá para confiar nela. "Se o rótulo de mentirosa colar na ministra, será muito difícil superar isso em uma campanha", diz o texto. Bastante sugestivo isso, especialmente quando impresso na Veja.

Mas a Veja não seria a Veja sem Diogo Mainardi. Depois de, sob o título de "O Dízimo do Tráfico", especular que dinheiro de narcotraficantes colombianos teria sido investido na Igreja Universal, ele escreve:

"A Igreja Universal, nos últimos dias, atrelou sua imagem à de Lula. É a mesma estratégia empregada por José Sarney. Um apoia o outro. Um defende o outro. Edir Macedo está com Lula e com Dilma Rousseff. Agora e em 2010. Se a Igreja Universal tem um Diploma de Dizimista, assinado pelo Senhor Jesus Cristo, Dilma Rousseff tem um Diploma de Mestrado da Unicamp, supostamente assinado pelo senhor Espírito Santo. O senhor Edir Macedo e o senhor Lula se entendem. Eles sabem capitalizar a fé".

O bom do Diogo Mainardi é que ele facilita sobremaneira o nosso trabalho. Em apenas um parágrafo conseguiu ilustrar a campanha de José Serra ao Planalto melhor que qualquer um faria. Juntou em apenas um parágrafo Lula mentiroso, Lula explorador da fé pública e José Sarney. Por associação, coloca no mesmo saco Dilma, Lula e gente que teria recebido financiamento de narcotraficantes colombianos. Só faltou juntar as FARC e o Fidel Castro.

Mas não se encerra por aí o primor desta edição imperdível. Tem mais. Tem seis páginas dedicadas ao novo e magistral livro de Ali Kamel sobre... Lula. Ou sobre as declarações de Lula. É curiosa essa obsessão do diretor de Jornalismo da TV Globo com aquele que ele, Kamel, tentou desesperadamente derrotar em 2006.

Depois de provar que não somos racistas, Kamel gasta 672 páginas para provar que... Lula não é Lula.

"Um brasileiro médio, mais ou menos crente em Deus e que se vê como proponente de uma sociedade capitalista onde haja mais harmonia entre pobres e ricos". É assim que Kamel define Lula. Sobre isso, leia aqui.

Para terminar, a verdadeira piada de Veja: precedendo as seis páginas dedicadas a Kamel, duas páginas de propaganda da Globo sobre o Criança Esperança. Poderia ser um pouco menos explícito?

PS: Não percam, neste sábado, o Jornal Nacional repercutindo a capa da Veja. Estamos de volta a 2006.

PS2: A simbiose entre Veja, Globo, Kamel e Mainardi se estende aos políticos que alimentam e prestam serviço a ambos. O compadrio entre a elite brasileira é coisa antiga.

terça-feira, 3 de março de 2009

A escolinha do professor Kamel

Este artigo do jornalista Luiz Carlos Azenha, publicado no Vi o mundo dia 02/03/2009, juntamente com os transcritos neste blog faz o que todo bom jornalista que não abre mão da função social do jornalismo deve fazer: análise crítica dos fatos.

A tentativa da Folha de S. Paulo de reescrever a História não é um episódio isolado. A socióloga Maria Victoria Benevides, na entrevista que deu à jornalista Conceição Lemes, disse que tem ouvido aqui e ali tentativas de "reler" o regime militar como algo menos perverso do que de fato foi.

Na turma da "releitura" cabe muita gente. Há os que cometeram crimes e não querem pagar por eles. Há os que genuinamente acreditam que o regime militar foi benéfico. Há os que foram cúmplices e, portanto, precisam reinventar a História.

Mais de quatro décadas depois do golpe, os arquivos da ditadura ainda não foram escancarados. O Brasil é o único país da região que não acertou plenamente as contas com seu próprio passado. Enquanto isso, os oportunistas de plantão tentam rearranjar a História para apagar sua cumplicidade, tirando proveito para isso do poder que lhes foi conferido pela própria ditadura militar.

Sim, meus caros, o que têm em comum os donos dos meios de comunicação que apoiaram a implantação da ditadura militar? Todos cresceram com benesses obtidas a partir dessa prestação de serviço. O golpe de 64 privilegiou os grupos que o apoiaram ao mesmo tempo em que provocou a falência de empresários ligados ao regime constitucional de João Goulart. Essa ainda é uma história mal contada.

A da TV Globo é melhor conhecida. A da Folha de S. Paulo permanece obscura, embora a ajuda da família Frias à Operação Bandeirantes -- o "teste" da repressão financiado por empresários paulistas que precedeu a formalização do sistema de torturas do DOI-CODI -- começou a ser desvendada pela historiadora Beatriz Kushnir.

Clique aqui para ouvir uma entrevista com a Beatriz.

Na TV Globo, Ali Kamel participou do trabalho de "reescrever" a História da emissora, com o objetivo de apagar o passado. O livro oficial que conta a história do Jornal Nacional, por exemplo, sustenta que a TV Globo fez bom jornalismo na cobertura do comício das eleições diretas, em 1984, em São Paulo. Na maior cara de pau.

Ali Kamel escreveu um texto em O Globo sustentando sua tese.

Foi rebatido por Mário Sergio Conti, com esse artigo.

E foi desmentido pelo José Bonifácio de Oliveira, o Boni, ex-dirigente da Globo, em entrevista a Roberto D'Ávila que foi ao ar na TV Cultura.

A própria Folha de S. Paulo registrou o desmentido de Boni.

Curiosamente, a Folha parece inclinada a fazer o que condena na Globo.

A biografia de Octavio Frias de Oliveira passa quase batido pelas relações entre o empresário e o regime militar.

E o editor do jornal Meio&Mensagem, que trouxe de volta o assunto, foi sumariamente demitido.

Agora veio a "ditabranda".

Que já tinha um precedente: editorial assinado por Octavio Frias Filho, em 2004, dizendo que o regime, afinal, não foi tão mau assim.

No atual episódio, embora discordando da "ditabranda", um colunista da Folha de S. Paulo, espantosamente, escreveu que o jornal teve "se não me falha a memória, papel importante na luta contra o regime militar". Nada sobre a Folha da Tarde. Ou a Operação Bandeirantes. Ignorância, má fé ou puxa-saquismo?

O que me espanta é eles imaginarem que ninguém está prestando atenção. Ou que todo mundo é bobo.