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domingo, 10 de janeiro de 2010

Uri Avnery: O americano tranquilo

Por:Uri Avnery,
9/1/2010, Gush Shalom [Grupo da Paz], Israel
Tradudão: Caia.Fittipaldi



O AMERICANO TRANQUILO é o heroi do romance de Graham Greene sobre a primeira guerra do Vietnã, na qual os franceses foram derrotados.

Era um norte-americano jovem e ingênuo, filho de um professor, que fora bem educado em Harvard, um idealista com todas as melhores intenções. Quando chega como soldado ao Vietnã, queria ajudar os nativos a superar os dois principais males que via lá: o colonialismo francês e o comunismo. Sem saber coisa alguma sobre o país no qual estava, provocou um desastre. O romance termina num massacre – resultado dos esforços desorientados do “americano tranqüilo”. Comprovou-se a velha máxima: “A estrada para o inferno é pavimentada de boas intenções”.

Já se passaram 54 anos depois que esse livro foi escrito, mas parece que o americano tranquilo não mudou. Ainda é idealista (pelo menos, ele acredita que seja idealista), ainda deseja levar a redenção a povos estrangeiros distantes sobre os quais nada sabe; e ainda provoca desastres terríveis: aconteceu no Iraque, no Afeganistão e agora, parece, no Iêmen.

O exemplo do Iraque é o mais simples de todos.

Os soldados norte-americanos foram mandados ao Iraque para derrubar o regime tirano de Saddam Hussein. Havia, é claro, outros objetivos menos altruístas, como assumir o controle do petróleo iraquiano e instalar o exército dos EUA no coração da região petroleira do Oriente Médio. Mas a aventura foi apresentada ao público norte-americano como empreitada idealista contra um ditador sanguinário que ameaçava o mundo com bombas nucleares.

Isso, há seis anos, e a guerra prossegue. Barack Obama, que se opôs à guerra desde o início, prometeu tirar os norte-americanos de lá. Apesar de muita conversa, não há fim à vista.

Por quê? Porque os que realmente tomam decisões em Washington não têm nem ideia do que é o país que querem libertar e ajudar a viver feliz para sempre.

Desde o início, o Iraque foi Estado artificial. Os britânicos costuraram umas às outras várias províncias otomanas, considerando os seus, dos britânicos, interesses coloniais. Coroaram um árabe sunita como rei dos curdos, que não são árabes, e dos xiitas, que não são sunitas. Só uma sucessão de ditadores, cada um mais brutal que o antecessor, impediu que o Estado se esfacelasse.

Os planejadores em Washington não têm qualquer interesse na história, na demografia nem na geografia do país que invadiram com força brutal. O caso, olhado de Washington, pareceu bem simples: alguém teria de derrubar o tirano, estabelecer instituições democráticas à maneira dos EUA, fazer eleições livres... e tudo o mais entraria ‘naturalmente’ nos eixos.

Ao contrário das expectativas, os norte-americanos não foram recebidos com flores. Não encontrou-se lá a terrível bomba atômica de Saddam. Como o elefante na loja de porcelana do provérbio, quebraram tudo, destruíram o país e acabaram presos num pântano.

Depois de anos de operações militares sangrentas que levaram a parte alguma, encontraram afinal uma panaceia. Para o inferno o idealismo; para o inferno os altos ideais; para o inferno todas as doutrinas militares. – Hoje, os EUA não fazem outra coisa além de subornar os chefes tribais que, sim, são a realidade do Iraque.

O americano tranquilo não sabe como se safar de lá. Sabe que, se sair agora, há risco de o país se autodesintegrar em matança geral.

Dois anos antes de invadir o Iraque, os norte-americanos invadiram o Afeganistão.

Por quê? Porque uma organização chamada al-Qaeda (“a base”) declarara-se autora da destruição das Torres Gêmeas em New York. Os chefes da Al-Qaeda estavam no Afeganistão, lá estavam seus campos de treinamento. Para os norte-americanos, tudo pareceu simples – ninguém precisou pensar outra vez (de fato, parece, ninguém tampouco pensara antes).

Se os EUA conhecessem o país que decidiram invadir, talvez tivessem hesitado. O Afeganistão é um histórico cemitério de exércitos invasores. Grandes impérios saíram de lá escafedidos, com o rabo entre as pernas. Diferente do Iraque, que é plano, o Afeganistão é país montanhoso, um paraíso para a guerra de guerrilhas. Além de ser lar de vários povos e de incontáveis tribos, cada povo e cada tribo é furiosamente zeloso da própria independência.

Os estrategistas em Washington não tomaram conhecimento de nada disso. Para eles, parece, todos os países são idênticos, todas as sociedades são iguais. No Afeganistão, também, bastaria estabelecer uma democracia livre à moda dos EUA, com eleições à moda dos EUA e viva! – tudo daria certo e para sempre.

O elefante entrou na loja de porcelanas sem pedir licença e obteve vitória estrondosa. A Força Aérea ‘bombou’, o exército não encontrou obstáculos, a al-Qaeda sumiu como fantasma, os Talibã (“estudantes religiosos”) fugiram como coelhos. As mulheres poderiam voltar a andar pela rua sem véus, as meninas encheriam as escolas, os campos de ópio voltariam a florescer – e também floresceriam sem obstáculos os amigos de Washington em Cabul.

Contudo… a guerra prossegue, ano após ano, o número de norte-americanos mortos sobe inexoravelmente. Para quê? Ninguém sabe. É como se a guerra tivesse adquirido vida própria, sem quê nem por quê, sem objetivo, sem razão. Norte-americano que esteja no Afeganistão e olhe em volta, tem de perguntar-se: o que, diabos, estamos fazendo aqui?

O objetivo imediato, a expulsão da al-Qaeda do Afeganistão, foi ostensivamente alcançado. A al-Qaeda já não está lá – supondo-se que algum dia tenha estado.

Escrevi certa vez que a al-Qaeda é invenção dos EUA e que Osama Bin-Laden foi descoberto pela central de seleção de atores de Hollywood e mandado para fazer aquele papel. Osama Bin-Laden é perfeito demais para ser autêntico.

Claro, estou exagerando um pouco. Mas só um pouco. Os EUA vivem precisando de um inimigo universal. No passado, foi o Comunismo Internacional, cujos agentes eram vistos atrás de cada árvore, por baixo de cada tábua do assoalho. Infelizmente, já não há União Soviética, há falta de inimigo, alguém teria de preencher o papel. Foi quando acharam a jihad planetária, encarnada na al-Qaeda. Esmagar o “Terrorismo Universal” passou a ser a razão de ser de tudo que os EUA fazem.

Essa razão de ser não é razão; como objetivo, é irracional. O terrorismo é arma, instrumento de guerra. As mais diferentes organizações fazem uso do terror, há terror dos dois lados em luta nos mais diferentes países, cada lado com seu objetivo diferente e muitas vezes oposto a todos os demais; há terroristas de todos os lados. Fazer guerra universal contra “o terror internacional” é como fazer guerra a alguma “artilharia internacional” ou a alguma “marinha internacional”.

Não há, no planeta, nenhum movimento terrorista universal liderado por Osama Bin-Laden. Graças aos EUA, “al-Qaeda” tornou-se griffe prestigiada no mercado da guerrilha, assim como “McDonald” e “Armani”, no mundo do fast-food e da moda. Cada militante de organização islâmica pode hoje se apropriar da griffe, mesmo sem pagar royalties a Bin-Laden.

Os governos controlados pelos EUA, que sempre rotularam de “comunistas” os seus inimigos locais, para obter ajuda dos patrões norte-americanos, hoje rotulam os seus inimigos locais de “terroristas da al-Qaeda”.

Ninguém sabe onde está Bin-Laden – nem se existe ou está vivo. Ninguém sabe, sequer, se está no Afeganistão. Há quem diga que se mudou para o vizinho Paquistão. E mesmo que lá esteja: que fundamento há em alguém fazer guerra e matar milhares de homens, mulheres e crianças... para caçar um único homem?

Há os que dizem: OK, Bin-Laden não existe. Mas é preciso impedir a volta dos Talibã ao governo do Afeganistão. Por que, santo deus?! Quem são os norte-americanos que mandam no Afeganistão? Querem o quê? Pode-se ter todos os argumentos do mundo contra todos os fanáticos religiosos do mundo, e contra os Talibã especificamente e, mesmo assim... seria motivo para essa guerra interminável?

Se os afegãos preferem ser governados pelos Talibã, em vez dos mercadores de ópio que hoje estão no poder em Cabul... o problema é deles! E parece que, sim, que preferem os Talibã, dado que, como antes e até hoje, os Talibã outra vez controlam praticamente todo o país, ou quase isso. Nada justifica uma guerra como a do Vietnã, no Afeganistão. OK, mas... e como é que os EUA sairão de lá? Obama não sabe.

Durante a campanha eleitoral, Obama prometeu, com entusiasmo febril de candidato, que aprofundaria a guerra no Afeganistão, como uma espécie de ‘compensação’ pela retirada do Iraque. Hoje, está atolado no Iraque e no Afeganistão. Pior: está prestes a atolar-se, também, numa terceira guerra.

Durante os últimos dias, o nome do Iêmen está em todas as manchetes. Iêmen – um segundo Afeganistão, um terceiro Vietnã. O elefante está pronto para entrar em outra loja de porcelanas. Dessa vez, tampouco está preocupado com a porcelana.

Sei pouco sobre o Iêmen, mas sei o suficiente para entender que só doido teria qualquer interesse em deixar-se enredar lá. É mais um Estado artificial, composto de metades incompatíveis – o país de Sanaa no norte e o sul (ex-britânico). A maior parte do país é montanhoso, controlado por tribos belicosas que defendem todas, a própria independência. Como o Afeganistão, é um paraíso para especialistas locais em guerra de guerrilhas.

Lá também há um grupo que adotou a griffe “Al-Qaeda”: é a “Al-Qaeda da Península Arábica” (depois que os militantes iemenitas uniram-se aos irmãos sauditas). Mas seus chefes interessam-se muito menos pela revolução mundial do que pelas intrigas e batalhas das tribos entre elas e o governo ‘central’ – uma realidade com história de milhares de anos. Só doido absoluto poria a própria cabeça nesse travesseiro.

O nome Iêmen significa “a terra à direita”. (Se se olha para Mecca a partir do Oeste, o Iêmen fica à direita, com a Síria à esquerda.) A direita também conota felicidade; e o nome Iêmen é associado a al-Yamana, palavra em árabe para “estar feliz”. Os romanos chamavam aquela terra de Arabia Felix (“Arábia Feliz”), porque era terra próspera, que enriqueceu no comércio de especiarias.

(Aliás, por falar nisso, talvez interesse a Obama saber que outro líder de superpotência, César Augusto, tentou uma vez invadir o Iêmen e foi rechaçado.)

Se o americano tranquilo, na sua mistura de idealismo e ignorância, resolver levar para lá a democracia e as quinquilharias de sempre, porá fim a qualquer felicidade que lá ainda haja. Os EUA afundarão em outro pântano, dezenas de milhares de pessoas serão mortas. Tudo terminará em desastre.

É possível que o problema tenha raízes – inter alia – na arquitetura de Washington DC.

A cidade é tomada por prédios enormes, de ministérios e escritórios e serviços oficiais da única superpotência que há no mundo. As pessoas que trabalham lá sentem o poder tremendo daquele império. Olham para os chefes tribais do Afeganistão e do Iêmen como um rinoceronte olha as formigas que correm entre suas patas. O rinoceronte caminha sem ver por cima das formigas. Mas alguma formiga sempre sobrevive.

Além do mais, o americano tranquilo faz pensar também no Mefistófeles do Fausto, de Goethe, que se autodefine como a força que “sempre quer o mau e sempre cria o bom”. Só que ao contrário.

domingo, 7 de junho de 2009

"E enquanto Obama proclama o nascimento do século 21… o governo de Israel está voltando ao século 19."

Discurso de Obama: o tom e a música*

Por Uri Avnery
6/6/2009

Um homem falou ao mundo, e o mundo ouviu.

Subiu ao palco no Cairo, só, sem quem o recebesse e sem assessores, e pregou um sermão a uma platéia de bilhões. Egípcios e norte-americanos, israelenses e palestinos, judeus e árabes, sunitas e xiitas, coptas e maronitas – e todos o ouviram atentamente.

Desdobrou à frente de todos o mapa de um novo mundo, mundo diferente, sobre cujos valores e leis falou fala simples e clara – uma mistura de idealismo e política prática, visão e pragmatismo.

Barack Hussein Obama – como cuidou de dar-se nome, ele mesmo – é o homem de mais poder em toda a Terra. Cada palavra que diga é um fato político.

“Um discurso histórico", declararam comentadores, em uma centena de idiomas. Prefiro outro adjetivo.

O discurso foi correto.

Cada palavra em seu lugar, cada sentença, precisa; todos os tons em harmonia. A obra-prima de um homem trazendo nova mensagem ao mundo.

Desde a primeira palavra, todos os presentes na Universidade do Cairo e o resto do mundo sentiram a honestidade do homem; que coração e fala estavam em harmonia; que não é político à moda antiga – hipócrita, solene, calculista. A linguagem corporal e suas expressões faciais falavam claras.

Por isso o discurso foi tão importante. Uma nova integridade moral e um novo senso de honestidade aumentaram o impacto do conteúdo revolucionário. E não há dúvidas de que foi discurso revolucionário.

Em 55 minutos, não só varreu os oito anos de George W. Bush, mas também varreu boa parte de décadas anteriores, desde a II Guerra Mundial.

A nave norte-americana mudou de rota – não com o peso e a lentidão que se espera de um cargueiro, mas ágil como lancha a motor.

Isso implica muito mais que uma mudança política. Chega às raízes da consciência nacional norte-americana. O presidente falou a centenas de milhões de cidadãos norte-americanos, tanto quanto a um bilhão de muçulmanos.

A cultura norte-americana carrega o mito do Oeste Selvagem, com seus 'mocinhos' e seus 'bandidos', com justiça pela violência e duelos ao sol do meio-dia. Dado que a nação norte-americana é feita de imigrantes de todo o mundo, sua unidade parece sempre exigir um inimigo ameaçador que venha do mundo exterior – como os nazistas, os japoneses ou os comunistas. Depois do colapso do império soviético, o Islam assumiu o papel.

Cruel, fanático, sedento de sangue, aquele Islam; Islam como religião de morte e destruição; um Islam que quer o sangue de mulheres e crianças. Esse inimigo capturou a imaginação das massas e ofereceu material para a televisão e o cinema. Ofereceu temas para conferências e palestras de professores e letrados e inspiração renovada para autores mais populares. A Casa Branca foi ocupada por um néscio que declarou uma "Guerra ao Terror" em todo o planeta.

Agora, quando Obama destroi pela raiz esse mito, revoluciona a cultura norte-americana. Varre para o lixo o quadro do inimigo único, sem inventar outro inimigo que o substitua. Prega contra a própria atitude de adversário violento e trabalha para substituí-lo por uma cultura de parceria entre nações, civilizações e religiões.

Vejo Obama como o primeiro grande mensageiro do século 21. Filho de uma nova era, na qual a economia é global e toda a humanidade enfrenta risco de não sobreviver no planeta Terra. Uma era na qual a Internet conecta um rapaz na Nova Zelândia e uma moça na Namíbia, em tempo real; quando uma doença que surja numa vila mexicana espalha-se para todo o mundo em poucos dias.

Esse mundo exige uma lei mundial, uma ordem mundial, uma democracia mundial. Por isso o discurso foi realmente histórico: Obama traçou os contornos básicos de uma constituição mundial.

E enquanto Obama proclama o nascimento do século 21… o governo de Israel está voltando ao século 19.

O século 19 foi o século em que os nacionalismos mais estreitos, autocêntricos, agressivos, enraizaram-se em muitos países. Século que santificou a nação beligerante que oprime minorias e subjuga vizinhos. Século que fez nascer o moderno antissemitismo e a reação a ele: o moderno sionismo.

A visão de Obama não é antinacional. Ele fala com orgulho, da sua nação norte-americana. Mas o nacionalismo de Obama é de outro tipo: é nacionalismo inclusivo, multicultural e não-sexista; inclui todos os cidadãos de um país e respeita os demais países.

Esse é o nacionalismo do século 21, que inexoravelmente buscará estruturas supranacionais, regionais e mundiais.

Comparado a isso, como é miserável o mundo mental da direita israelense! Como é miserável o mundo violento, religioso-fanático dos colonizadores dos "assentamentos" – que são "colônias", não são "assentamentos" –, o ghetto chovinista de Netanyahu, Lieberman e Barak, o mundo racista-fascista fechado nele mesmo, de seus aliados Kahanistas!

É preciso entender a dimensão moral e espiritual do discurso de Obama, antes de considerar suas implicações políticas. Obama e Netanyahu estão em rota de colisão, sim, mas não só na esfera política. A colisão que está em processo é colisão entre dois mundos mentais, tão diferentes um do outro como o sol e a lua.

No mundo mental de Obama, não há lugar para a direita israelense, nem para seus equivalentes em outras partes do mundo. Nem para a terminologia da direita, nem para os "valores" da direita, nem, muito menos, para as ações da direita israelense.

Na esfera política, também, há uma ravina aberta a separar os governos de Israel e dos EUA.

Durante os últimos anos, sucessivos governos israelenses surfaram a onda da islamofobia que se espalhou pelo ocidente. O mundo islâmico foi posto como inimigo mortal, os EUA galopavam sombriamente rumo ao Choque de Civilizações; em cada muçulmano viu-se um terrorista potencial.

Os líderes da direita em Israel rejubilaram. Afinal, os palestinos são árabes; os árabes são muçulmanos; os muçulmanos são terroristas – e assim Israel garantia lugar de protagonista na guerra entre os Filhos da Luz contra os Filhos das Sombras.

Foi o Jardim do Éden dos demagogos racistas. Avigdor Lieberman pôde defender a expulsão dos árabes, de Israel; Ellie Yishai pôde propor leis para revogar a cidadania dos não-judeus. Membros obscuros do Parlamento chegaram às manchetes dos jornais, com leis que pareciam paridas em Nuremberg.

Esse Jardim do Éden acabou. As implicações disso apareçam logo, ou demorem mais para aparecer – têm direção óbvia. Se insistir no caminho em que está, Israel será convertida em colônia de leprosos.

O tom faz a música – o que se aplica também às palavras do presidente sobre Israel e Palestina. Falou longamente sobre o Holocausto – palavras sinceras e corajosas, cheias de empatia e compaixão, recebidas em silêncio pelos egípcios, mas com respeito. Destacou o direito de Israel à existência. E, sem pausa, falou sobre o sofrimento dos refugiados palestinos, a situação intolerável em que vivem os palestinos em Gaza, as aspirações dos palestinos, por um Estado deles.

Falou com respeito sobre o Hamás. Não mais uma "organização terrorista", mas parte do povo palestino. Exigiu que reconheçam Israel e parem a violência, mas também deixou claro que considerará bem-vindo um governo palestino de unidade nacional.

A mensagem política foi clara e inequívoca: a Solução dos Dois Estados tem de ser implantada. Obama pessoalmente se empenhará para que aconteça. A construção nas colônias tem de parar. Diferente dos antecessores, Obama não calou e pronunciou a palavra decisiva: "Palestina", nome de um território e de um Estado.

E não menos importante: a guerra do Iran foi excluída da agenda. O diálogo com Teeran, parte do novo mundo, não tem limite de tempo. De agora em diante, que ninguém, nem em sonho, espere algum "OK" dos EUA, para que Israel ataque o Iran.

COMO o governo de Israel respondeu? Primeiro, a reação foi de negação: "foi discurso sem importância". "Nada de novidade". Os comentaristas do establishment israelense selecionaram algumas poucas frases pró-Israel e ignoraram as demais. Afinal, "são só palavras. Ele fala. Nada acontecerá, de diferente."

Isso é nonsense. Palavras do presidente dos EUA jamais são "só palavras". São fatos políticos. Fazem mudar as percepções de centenas de milhões. O público muçulmano ouviu-as atentamente. O público norte-americano, também. É possível que a mensagem precise de algum tempo para reverberar.

Mas, depois desse discurso, o lobby pró-Israel jamais será o que foi antes do discurso. A era dos “foile shtik” (hídiche, "truques sujos") acabou. A desonestidade matreira de um Shimon Peres, o fingimento traiçoeiro de um Ehud Olmert, a conversa falsa de um Bibi Netanyahu – tudo isso é passado.

O povo de Israel, agora, tem de decidir: ou segue o governo de direita até a inevitável colisão com Washington – como os judeus fizeram há 1940 anos, quando seguiram os zelotes em guerra suicida contra Roma –, ou juntam-se à marcha de Obama rumo a um novo mundo.

* URI AVNERY, 6/6/2009, originalmente publicado em "The Tone and the Music", Gush Shalom [Grupo da Paz], Telavive.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

"Sob a bandeira preta da ilegalidade"


Uri Avnery, 1/2/2009



UM JUIZ ESPANHOL iniciou inquérito judicial em que acusa vários políticos, militares e personalidades israelenses por prática de crime de guerra e de crime contra a humanidade. Fato gerador: a bomba de uma tonelada lançada em 2002 sobre a casa de Salah Shehade, líder do Hamás. Além da vítima visada no atentado, foram mortas outras 14 pessoas, a maioria das quais, crianças.


Para os que tenham esquecido: o então comandante da Força Aérea de Israel, Dan Halutz, foi entrevistado, à época, sobre o que sentia quando bombardeava um prédio residencial. A resposta dele, inesquecível: "Uma leve trepidação na asa." Quando nós, do Gush Shalom [Movimento da Paz] o acusamos por crime de guerra, exigiu que fôssemos julgados, nós, acusados de traição. Com ele estava o primeiro-ministro, Ariel Sharon, que nos acusou de desejar "entregar os oficiais do exército de Israel ao inimigo". Fomos oficialmente notificados pelo Procurador Geral de que o Estado de Israel não investigaria o ataque à bomba.


Eu deveria estar feliz, portanto, que, depois de tanto tempo, alguém tenha decidido dar andamento àquele processo (por mais que pareça motivado por pressão política). Mas lamento que tenha acontecido na Espanha, não em Israel.


Os telespectadores em Israel têm sido brindados com imagens bizarras: os oficiais do exército mascarados, como criminosos comuns, porque a lei passou a proibir que sejam identificados. Como os pedófilos e os estupradores.


As ordens dos censores militares aplicam-se a todos os oficiais, de comandantes de batalhão para baixo e que tenham participado na guerra de Gaza. Dado que já se conhecem todas as caras dos comandantes de brigada para cima, o mascaramento obrigatório não os inclui.


Imediatamente depois do cessar-fogo, o ministro da Defesa, Ehud Barak, assinou lei especial que dá apoio e cobertura especiais do Estado a todos os soldados e oficiais que participaram da guerra de Gaza e que possam ser acusados, em qualquer lugar do mundo, por prática de crime de guerra. O que parece confirmar um ditado hebraico: "Em cabeça de ladrão, chapéu pega fogo."


NADA TENHO a objetar a esses processos fora de Israel. O que interessa é que os criminosos de guerra, como os piratas, sejam julgados. Não importa muito onde sejam presos. (Essa foi a regra aplicada pelo Estado de Israel quando sequestrou Adolf Eichmann na Argentina e o enforcou em Israel por crimes cometidos fora do território de Israel e, de fato, antes de Israel existir.)


Mas sou israelense e patriota e preferiria que israelenses suspeitos de crime de guerra fossem julgados em Israel. Porque é necessário, por respeito aos oficiais e soldados decentes do exército de Israel e para educar as futuras gerações de cidadãos e de soldados.


Não é preciso recorrer só às leis internacionais. O Estado de Israel tem leis contra crimes de guerra. Basta lembrar a sentença imortal cunhada por Binyamin Halevy, em função de juiz militar, no julgamento que condenou os policiais israelenses de fronteira, responsáveis, em 1956, pelo massacre em Kafr Kassem, quando dúzias de crianças, homens e mulheres foram assassinados por violar um toque de recolher que nem sabiam que houvesse sido implantado.


O juiz declarou que mesmo em tempos de guerra há ordens que carregam a "bandeira preta da ilegalidade". São ordens "manifestamente" ilegais – isso é, ordem que qualquer pessoa normal sabe que são ilegais, sem precisar consultar advogados.


Criminosos de guerra envergonham o exército cujo uniforme vistam – sejam generais ou soldados rasos. Como soldado combatente que eu era, no dia em que as Forças de Defesa de Israel, o exército de Israel, foi oficialmente criado, envergonho-me dos criminosos de guerra e exijo que sejam expulsos do exército e julgados em Israel.


Minha lista de suspeitos inclui políticos, soldados, rabinos e advogados.

NÃO HÁ nem sombra de dúvida de que, na guerra de Gaza, cometeram-se crimes de guerra. Falta determinar quem os cometeu e a extensão dos crimes.

Exemplo: soldados gritaram para os moradores de uma casa, que saíssem. Uma mulher e quatro crianças saíram, usando lenços como bandeiras de rendição. É absolutamente claro que não eram combatentes armados. Um soldado de um tanque próximo levantou-se, mirou e matou-os a queima-roupa. Segundo testemunhas das quais nada autoriza a duvidar, aconteceu mais de uma vez.


Outro exemplo: o bombardeamento da escola da ONU, repleta de refugiados, de onde não saiu um único tiro – o que até o exército já admitiu, depois de desmascaradas as desculpas iniciais.

Esses são casos "simples". Mas o espectro de casos é muito mais amplo. Uma investigação judicial criteriosa teria de começar por cima: pelos políticos e oficiais superiores que decidiram iniciar a guerra e autorizaram os planos; todos esses têm de ser investigados a partir das decisões que tomaram. Em Nuremberg fixou-se para sempre o entendimento de que é crime iniciar guerra de agressão.


Investigação objetiva tem de determinar se se justifica a decisão de iniciar a guerra de Gaza, ou se haveria outros meios para deter o lançamento de foguetes contra o território de Israel. Claro que país algum aceitaria que suas cidades e vilas fossem bombardeadas. Mas não haveria meio de evitar que fossem, no caso de Israel, mediante contato com as autoridades em Gaza? A verdadeira causa da guerra de Gaza foi a decisão, pelo governo de Israel, de boicotar o Hamás, vencedor de eleiçõs democráticas na Palestina? O bloqueio imposto a 1,5 milhão de habitante da Faixa de Gaza contribuiu para que começassem os ataques com Qassams? Em resumo: antes de decidir iniciar uma guerra brutal, o governo de Israel considerou devidamente todas as alternativas?


O plano de guerra incluiu ataque massivo contra a população civil na Faixa de Gaza. O real objetivo da guerra pode ser inferido, menos das declarações oficiais dos que a iniciaram e mais de suas ações. Se nessa guerra foram mortos cerca de 1.300 homens, mulheres e crianças, a maioria dos quais não eram combatentes; se cerca de 5.000 pessoas foram feridas, a maioria das quais, crianças; se mais de 2.500 residências foram destruídas total ou parcialmente; se a estrutura básica de vida foi totalmente demolida em Gaza – é evidente que nada disso aconteceria acidentalmente. Tudo isso tem, necessariamente, de ter sido parte do plano de guerra.


O que políticos e oficiais do exército de Israel declararam durante a guerra deixa claro que o plano de guerra visava a pelo menos dois objetivos; e ambos configuram crime de guerra:


(1) causar morte e destruição em larga escala, para "fixar um preço", "para marcar a fogo a consciência [do inimigo]", "para reforçar o poder de contenção" e, sobretudo – para levar a população a levantar-se contra o Hamás e derrubar o governo. Evidente que, em todos esses objetivos, o alvo sempre foi a população civil. E


(2) evitar baixas no exército de Israel a (literalmente) qualquer preço, destruindo tudo, prédios e vidas humanas nas áreas nas quais o exército de Israel se movesse, destruindo também casas habitadas e impedindo o socorro aos feridos, matando gente indiscriminadamente. Em alguns casos, os habitantes foram avisados de que fugissem, mas foi gesto para, apenas, contruir algum álibi: não havia para onde fugir e os fugitivos também foram fuzilados durante a fuga.


Uma corte independente terá de decidir se tal plano de guerra respeita a legislação nacional e internacional, ou se, desde o início, configura crime de guerra e crime contra a humanidade.

Foi guerra entre um exército regular com grande capacidade de ataque contra uma força de guerrilha. Mas nem em guerras assim tudo é permitido. Argumentos como "os terroristas do Hamás escondiam-se entre os civis" e "usaram a população como escudos humanos" servem talvez para propaganda, mas nada mudam, de substancial: é sempre assim em guerra de guerrilhas. E o grande risco de atingir civis tem de ser considerado na decisão de iniciar uma guerra sob essas condições.


Em Estado democrático, os militares são subordinados aos dirigentes políticos. OK. Mas isso não inclui obedecer ordens "manifestamente" ilegais, sobre as quais paire "a bandeira preta da ilegalidade". Desde os julgamentos de Nuremberg, já não se aceitam desculpas de "obedecer ordens".


É indispensável, portanto, examinar a responsabilidade pessoal de todos os envolvidos – do Chefe de Estado, do Comandante Militar, do Comandante de Operações e dos Comandantes de Divisão até o último soldado. Pode-se deduzir das declarações dos soldados que muitos acreditavam que o serviço era "matar a maior quantidade possível de árabes". Isso só significa uma coisa: não distinguir entre combatentes e não-combatentes. Essa ordem é completamente ilegal, seja explícita seja implícita numa piscadela ou num cutucão. Os soldados entenderam que esse era "o espírito do comandante".


DENTRE os suspeitos de crimes de guerra, os rabinos têm lugar de honra.

Todos os que incitaram a prática de crimes de guerra e conclamaram os soldados, direta ou indiretamente, a cometer crimes de guerra devem também ser julgados por crime de guerra.

Quando se fala de "rabinos", pensa-se em homens velhos, de longas barbas brancas e grandes chapéus, que dão voz a saberes veneráveis. Os rabinos que acompanharam os soldados de Israel são de espécie muito diferente.


Nas últimas décadas, a educação religiosa financiada pelo Estado, em Israel, tem formado "rabinos" que mais parecem padres católicos medievais do que os velhos sábios judeus poloneses ou marroquinos. Esse sistema de doutrinação massiva converte os jovens a uma espécie de culto tribal violento, totalmente etnocêntrico, que vê a história universal como uma história sem fim dos judeus vítimas eternas. É uma religião do Povo Eleito, indiferente a outros povos, uma religião sem compaixão por quem não seja judeu, que glorifica o genocídio decretado por Deus narrado na Bíblia, no Livro de Josué.


Os "rabinos" professores de educação religiosa dos mais jovens são os que resultam desse tipo de educação religiosa. Por influência deles, está em andamento um movimento para converter "por dentro" o exército de Israel. Oficiais que usam kippa substituíram os oficiais educados nos Kibbuts e que, até há pouco tempo, eram maioria no exército. Muitos dos oficiais das patentes médias e mais baixas do exército de Israel pertencem a esse grupo.


O exemplo mais destacado é o "Rabino Comandante", coronel Avichai Ronsky, que declarou que sua missão é reforçar "o espírito de combate" dos soldados. É homem de extrema direita, próximo do espírito do falecido rabino Meir Kahane, cujo partido foi tornado ilegal em Israel, por militância de ideologia fascista. Os soldados receberam brochuras patrocinadas pelo rabinato do exército, com artigos desses "rabinos" de extrema direita.


Esse material inclui incitamento político, a idéia de que a religião judaica proíbe "ceder um milímetro que seja da 'Grande Israel'"; que os palestinos, como os filistinos (nome étnico do qual deriva a palavra Palestina), são povo estrangeiro que invadiu Israel; e que ceder aos árabes (como se lê também no programa oficial do governo de Israel) seria pecado mortal. Desnecessário dizer que, evidentemente, a distribuição de propaganda política aos soldados viola, é claro, as leis militares.


Os rabinos pregaram aos soldados, abertamente, que fossem cruéis, impiedosos contra todos os árabes. Tratá-los com piedade seria – disseram eles –, "terrível, horrenda imoralidade". Esse material foi entregue aos soldados religiosos que partiam para combate. E isso ajuda a entender por que as coisas aconteceram como aconteceram.


QUEM PLANEJOU essa guerra sabia que a sombra dos crimes de guerra pairava sobre toda a operação que estava sendo planejada. Prova: o Procurador Geral (cujo título oficial é "Conselheiro Legal do Governo" [Legal Advisor to the Government] trabalhou no planejamento da guerra). Essa semana, o Advogado Geral do Exército, Coronel Avichai Mandelblut, revelou que seus funcionários trabalharam alocados em todos os comandos, durante toda a guerra, do Gabinete do Comandante do Estado-maior Geral do Exército, até os comandos de divisão.


Tudo isso leva à conclusão inescapável de que também os conselheiros para temas legais no governo de Israel são diretamente responsáveis pelas decisões tomadas, pelas ordens distribuídas e pelas ações executadas, do massacre dos formandos de uma escola de Polícia, assassinados durante a cerimônia de formatura, até o bombardeio de instalações da ONU. Todos os advogados que participaram das deliberações antes de as ordens serem expedidas são responsáveis pelas conseqüências das ordens, a menos que provem que apresentaram objeção formal.


O Advogado Geral do Exército, a quem cabe dar aconselhamento técnico, profissional e objetivo ao Exército de Israel, fala de um "inimigo monstruoso" e tem tentado justificar as ações do exército, dizendo que o exército de Israel enfrentava "inimigo sem freios, que declarara que 'ama a morte' e esconde-se atrás de mulheres e crianças". Essa linguagem, perdoável talvez nos discursos de algum soldado bêbado de violência e morte, como o chefe de batalhão que ordenou que seus soldados se suicidassem, se houvesse risco de serem capturados, é totalmente inadmissível no discurso do principal advogado-oficial conselheiro do Exército de Israel.


TEMOS DE SEGUIR os trâmites legais, todos eles, em Israel, e exigir investigação independente e lutar até que sejam indiciados todos os criminosos que cometeram crime de guerra, na guerra de Gaza. Temos de exigir que se cumpram esses imperativos de lei, ainda que as chances de que se venha a cumprir sejam, de fato, mínimas.


Se nossos esforços falharem, ninguém terá o que objetar se Israel for julgado em tribunais no exterior, seja em corte internacional seja em cortes nacionais de países que respeitam os direitos humanos e a lei internacional.


Até lá, Israel vive sob a bandeira preta da ilegalidade.


* URI AVNERY, 31/1/2009, "Black Flag", Gush Shalom [Grupo da Paz]: Tradução de Caia Fittipaldi, autorizada pelo autor.

sábado, 17 de janeiro de 2009

por Uri Avnery*

Cerca de 70 anos atrás, durante a II Guerra Mundial, foi cometido um crime odioso na cidade de Leninegrado. Durante mais de mil dias, uma gang de extremistas, chamada "Exército Vermelho" manteve como reféns os milhões de habitantes da cidade e provocou assim a retaliação da Wehrmacht alemã contra centros populacionais. Os alemães não tiveram outra alternativa senão: bombardear a população e impor um bloqueio total, o que provocou a morte centenas de milhares de pessoas.

Pouco antes, um crime semelhante foi cometido na Inglaterra. A gang de Churchill infiltrou-se entre os moradores de Londres, aproveitando-se de milhões de cidadãos como um escudo humano. Os alemães foram obrigados a enviar a sua Luftwaffe e com relutância reduziram a cidade a escombros. Chamaram a isso de "Blitz".

Esta é a descrição que apareceria hoje nos livros de história - se os alemães tivessem vencido a guerra.

Absurdo? Não mais absurdo do que as descrições diárias nos nossos media, que são repetidas ad nauseam: os terroristas do Hamás utilizam os habitantes de Gaza "reféns" e exploram as mulheres e crianças como "escudos humanos". Assim, não nos deixam outra alternativa senão executar bombardeamentos maciços, nos quais, para nosso profundo desgosto, milhares de mulheres, crianças e homens desarmados são mortos e mutilados.

O FOSSO NA GUERRA DE PROPAGANDA

Nesta guerra, como em qualquer guerra moderna, a propaganda desempenha um papel importante. A disparidade entre as forças, entre o exército israelense - com seus aviões, helicópteros com metralhadoras, drones [1] , navios de guerra, artilharia e tanques - e uns poucos milhares de combatentes do Hamas com armamento ligeiro é de um para mil, talvez de um para um milhão. Na arena política o fosso entre eles é ainda maior. Mas na guerra de propaganda, o fosso é quase infinito.

Quase todos os media ocidentais repetiram inicialmente a linha oficial da propaganda israelense. Ignoraram totalmente o lado palestino da história, muito menos as manifestações diárias dos pacifistas israelenses. A lõgica do governo israelense ("O Estado deve defender seus cidadãos contra os foguetes Qassam") foi aceite como a verdade total. A visão do outro lado, de que os Qassams são uma retaliação pelo sítio que esfaima um milhão e meio de habitantes da Faixa de Gaza,

O mundo aceitou como verdadeiro o argumento de propaganda do governo de Israel ("O Estado tem de defender os cidadãos contra os foguetes Qassam"). Nenhum jornal lembrou que os Qassams são reação ao sítio, cerco, bloqueio que mata de fome 1,5 milhão de seres humanos na Faixa de Gaza, nunca foi mencionada.
Só quando as cenas horríveis de Gaza começaram a aparecer nos écrans das TV ocidentais é que a opinião pública gradualmente começou a mudar.

É verdade, os canais de TV ocidentais e israelenses só mostraram uma minúscula fracção dos horrores que aparecem 24 horas por dia no Al-Jazeera, mas uma foto de um bebé morto nos braços de um pai aterrorizado é mais poderosa do que um milhar de frases construídas com elegância pelo porta-voz do exército israelense. E isto é que decisivo, afinal de contas.

A guerra - toda a guerra - está o âmago das mentiras. Quer seja chamada de propaganda ou de guerra psicológica, todos aceitam que está certo mentir por um país. Alguém que fale a verdade corre o risco de ser marcado como traidor.

O perturbante é que a propaganda é mais convincente para o próprio propagandista. E depois de alguém convencer-se de que uma mentira é a verdade, já não se pode tomar decisões racionais.

Um exemplo deste processo está na mais chocante atrocidade desta guerra, até agora: o bombardeamento da escola das Nações Unidas de Fakhura, no campo de refugiados Jabaliya.

Imediatamente depois de o incidente ficar conhecido no mundo todo, o exército "revelou" que combatentes do Hamas estiveram a disparar morteiros junto á entrada da escola. Como prova eles divulgaram uma foto aérea que na verdade mostrava a escola e o morteiro. Mas pouco tempo depois o oficial mentiroso do exército teve de admitir que a foto já tinha mais de um ano. Em resumo: uma falsificação.

Mais tarde o oficial mentiroso afirmou que "os nossos soldados foram alvejados de dentro da escola". Mal se passou um dia o exército teve de admitir ao pessoal da ONU que aquilo também era uma mentira. Ninguém atirou de dentro da escola, não havia quaisquer combatentes do Hamas dentro da escola, a qual estava cheia de refugiados aterrorizados.

Mas a admissão já não fazia grande diferença. Por essa altura, o publico israelense estava totalmente convencido de "eles atiraram de dentro da escola" e os locutores da TV declaravam isto como um simples facto.

O mesmo se passa com as outras atrocidades. Todo bebé metamorfose-ia-se, no acto de morrer, como terrorista do Hamas. Toda mesquita bombardeada instantaneamente torna-se uma base do Hamas, todo edifício de apartamento num esconderijo de armas, toda escola um posto de comando do terror, todo edifício civil um "símbolo do domínio do Hamas". Portanto, o exército israelense mantém a sua pureza como o "exército mais moral do mundo".

DOENÇA SOCIOPÁTICA

A verdade é que as atrocidades são um resultado directo do plano de guerra. Isto reflecte a personalidade de Ehud Barak - um homem cujo modo de pensar e cujas acções são a evidência clara do que se chama "insanidade moral", uma doença sociopática.

O objectivo real (além de ganhar cadeiras nas próximas eleições) é terminar o domínio do Hamas na Faixa de Gaza. Na imaginação dos planeadores, o Hamas é um invasor que tomou o controle de um país estrangeiro. A realidade, naturalmente, é inteiramente diferente.

O movimento Hamas ganhou a maioria dos votos nas eleições perfeitamente democráticas que se verificaram na Cisjordânia, em Jerusalém Leste e na Faixa de Gaza. Ganhou porque os palestinos chegaram à conclusão de que a abordagem pacífica do Fatah nada obtivera de Israel - nem um congelamento do assentamentos, nem a libertação dos prisioneiros, nem quaisquer passos significativos para acabar e ocupação e criar o Estado palestino. O Hamas está profundamente enraizado na população - não só como um movimento de resistência a combater o ocupante estrangeiro, como o Irgun e o Grupo Stern no passado - como também como um corpo político e religioso que proporciona serviços sociais, educacionais e médicos.

Do ponto de vista da população, os combatentes do Hamas não são um corpo estranho, mas filhos de toda a família da Faixa e de outras regiões palestinas. Eles não se "escondem por trás da população", a população encara-o como os seus únicos defensores.

Portanto, toda a operação está baseada em pressupostos errados. Ao tornar a vida da população num inferno isso não faz com que ela se levante contra o Hamas. Ao contrário, une-a por trás do Hamas e reforça a sua determinação de não se render. A população de Leninegrado não se levantou contra Staline, nem tão pouco os londrinos levantaram-se contra Churchill.

Ele, ao dar a ordem para esta guerra com estes métodos numa área densamente povoada, sabia que esta provocaria uma carnificina terrífica de civis. Aparentemente isto pouco lhe importava. Ou acreditava que "mudarão o seu modo de pensar" e "queimarão a sua consciência", de modo que no futuro não ousarão resistir a Israel.

Uma prioridade principal para os planeadores era a necessidade de minimizar baixas entre os solados, sabendo que o estado de espírito pró guerra de grande parte do público mudaria se chegassem relatos de baixas. Foi o que aconteceu na I e II Guerras do Líbano.

Esta consideração desempenhou um papel especialmente importante porque toda a guerra é parte da campanha eleitoral. Ehud Barak, que ganhava nos inquéritos efectuados nos primeiros dias da guerra, sabia que as suas classificações entrariam em colapso se fotos de soldados mortos enchessem os écrans das TV.

Portanto, foi aplicada uma nova doutrina: evitar perdas entre os nossos soldados através da destruição total de tudo o que estiver no seu caminho. Os planeadores estavam não só prontos para matar 80 palestinos para salvar um soldados israelense, como aconteceu, como também 800. A fuga a baixas do nosso lado é a ordem de comando predominante, a qual está a provocar números recorde de baixas civis do outro lado.

Isto significa a escolha consciente de uma espécie de guerra especialmente cruel - e isto tem o seu calcanhar de Aquiles.

Uma pessoa sem imaginação como Barak (seu slogan eleitoral: "Não um lindo rapaz, mas um líder") não pode imaginar como pessoas decentes por todo o mundo reagem a acções como a matança de famílias inteiras, a destruição de casas sobre a cabeças dos seus moradores, as fileiras de rapazes e moças em mortalhas brancas prontos para enterrar, os relatos acerca de pessoas a sangrarem até a morte durante dias porque não é permitido que as ambulâncias as recolham, a morte de médicos no seu caminho para salvar vidas, a morte de condutores da ONU que traziam comida. As fotos dos hospitais, com os mortos, os moribundos e os feridos a jazerem juntos sobre o chão por falta de espaço, chocaram o mundo. Nenhum argumento tem qualquer força após uma imagem de uma pequena menina a jazer no chão, torcendo-se com o sofrimento e a gritar: "Mamã! Mamã!"

Os planeadores pensavam que podiam impedir o mundo de ver estas imagens proibindo pela força a cobertura da imprensa. Os jornalistas israelenses, para sua vergonha, concordaram em satisfazer-se com os relatos e fotos providenciados pelo porta-vozes do Exército, como se fossem notícias autênticas, enquanto eles próprios permaneciam a milhas dos acontecimentos. Aos jornalistas estrangeiros tão pouco foi permitido o acesso, até que protestaram e foram levados em tours rápidos de grupos seleccionados e supervisionados. Mas numa guerra moderna, uma visão estéril fabricada não pode excluir totalmente todas as outras - as máquinas fotográficas estão dentro da faixa, no meio do inferno, e não podem ser controladas. A Aljazeera difunde as fotos o tempo todo e atinge todos os lares.

BATALHA PELOS ÉCRANS

A batalha pelo écran de TV é uma das batalhas decisivas da guerra.

Centenas de milhões de árabes, da Mauritania ao Iraque, mais de mil milhões muçulmanos desde a Nigéria até a Indonésia vêm as fotos e horrorizam-se. Isto tem um forte impacto sobre a guerra. Muito dos espectadores vêm os governantes do Egipto, da Jordânia e da Autoridade Palestina como colaboracionistas de Israel na execução destas atrocidades contra seus irmáos palestinos.

O serviços de segurança dos regimes árabes estão a registar uma perigosa fermentação entre os povos. Hosny Mubarak, o mais exposto dirigente árabe devido ao seu encerramento da passagem de Rafah diante de refugiados aterrorizados, começou a pressionar os decisores em Washington, que até então haviam bloqueado todos os apelos por um cessar fogo. Estes começaram a entender a ameaça a interesses americanos vitais no mundo árabe e subitamente mudaram a sua atitude - provocando consternação entre os satisfeitos diplomatas israelenses.

Pessoas com insanidade moral não podem realmente entender os motivos de pessoas normais e devem adivinhar as suas reacções. "Quantas divisões tem o Papa?", troçou Staline. "Quantas divisões há de pessoas com consciência?", poderá perguntar-se Ehud Barak.

Como se revela, há algumas. Não numerosas. Não muitas rápidas para reagir. Não muito fortes nem organizadas. Mas num certo momento, quando as atrocidades ultrapassam os limites e reúnem-se massas de protestantes, isso pode decidir uma guerra.

O HAMAS NÃO PODE PERDER A GUERRA

A incapacidade em apreender a natureza do Hamas provocou o não entendimento dos resultados previsíveis. Não só Israel é incapaz de vencer a guerra como o Hamas não pode perdê-la.

Mesmo se o exército israelense tivesse êxito em matar todo o combatente do Hamas até ao último homem, mesmo assim o Hamas venceria. Os combatentes do Hamas seriam vistos como os modelos da nação árabe, os heróis do povo palestino, modelos para a emulação por todos os jovens no mundo árabe. A Cisjordânia cairia nas mãos do Hamas como uma fruta madura, o Fatah afundar-se-ia num mar de desprezo, os regimes árabes estariam ameaçados de colapso.

Se a guerra terminar com o Hamas ainda de pé, ensanguentado mas não vencido, diante da poderosa máquina militar israelense, isto parecer-se-á como uma vitória fantástica, uma vitória do espírito sobre a matéria.

O que ficará gravado na consciência do mundo será a imagem de Israel como um monstro tinto de sangue, pronto a qualquer momento para cometer crimes de guerra e sem quaisquer restrições morais. Isto terá severas consequências para o nosso futuro a longo prazo, nossa posição no mundo, nossa oportunidade de alcançar paz e tranquilidade.

Em última análise, esta guerra é um crime também contra nós, um crime contra o Estado de Israel.

10/Janeiro/2009
[1] Drones: aparelhos voadores não tripulados.

Uri Avnery* Escritor israelense e activista da paz. Colaborou no livro The Politics of Anti-Semitism .

O original encontra-se em Counterpunch

Este artigo encontra-se em Resistir info.


terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Carta aberta de Uri Avnery a Barack Obama sobre a paz no Oriente Médio

Reproduzo do blog do professor Idelber Avelar a carta aberta de Uri Avnery militante judeu pela paz.

terça-feira, 30 de dezembro 2008

Carta aberta de Uri Avnery a Barack Obama

avnery-arafat.jpg As humildes sugestões que se seguem são baseadas nos meus 70 anos de experiência como combatente de trincheiras, soldado das forças especiais na guerra de 1948, editor-em-chefe de uma revista de notícias, membro do parlamento israelense e um dos fundadores do movimento pela paz:

1)No que se refere à paz israelense-árabe, o Sr. deve agir a partir do primeiro dia.

2)As eleições em Israel acontecerão em fevereiro de 2009. O Sr. pode ter um impacto indireto, mas importante e construtivo já no começo, anunciando sua determinação inequívoca de conseguir paz israelo-palestina, israelo-síria e israelo-pan-árabe em 2009.

3)Infelizmente, todos os seus predecessores desde 1967 jogaram duplamente. Apesar de que falaram sobre paz da boca para fora, e às vezes realizaram gestos de algum esforço pela paz, na prática eles apoiavam nosso governo em seu movimento contrário a esse esforço.

Particularmente, deram aprovação tácita à construção e ao crescimento dos assentamentos colonizadores de Israel nos territórios ocupados da Palestina e da Síria, cada um dos quais é uma mina subterrânea na estrada da paz.

4)Todos os assentamentos colonizadores são ilegais segundo a lei internacional. A distinção, às vezes feita, entre postos “ilegais” e os outros assentamentos colonizadores é pura propaganda feita para mascarar essa simples verdade.

5)Todos os assentamentos colonizadores desde 1967 foram construídos com o objetivo expresso de tornar um estado palestino – e portanto a paz – impossível, ao picotar em faixas o possível projetado Estado Palestino. Praticamente todos os departamentos de governo e o exército têm ajudado, aberta ou secretamente, a construir, consolidar e aumentar os assentamentos, como confirma o relatório preparado para o governo pela advogada Talia Sasson.

6)A estas alturas, o número de colonos na Cisjordânia já chegou a uns 250.000 (além dos 200.000 colonos da Grande Jerusalém, cujo estatuto é um pouco diferente). Eles estão politicamente isolados e são às vezes detestados pela maioria do público israelense, mas desfrutam de apoio significativo nos ministérios de governo e no exército.

7)Nenhum governo israelense ousaria confrontar a força material e política concentrada dos colonos. Esse confronto exigiria uma liderança muito forte e o apoio generoso do Presidente dos Estados Unidos para que tivesse qualquer chance de sucesso.

8)Na ausência de tudo isso, todas as “negociações de paz” são uma farsa. O governo israelense e seus apoiadores nos Estados Unidos já fizeram tudo o que é possível para impedir que as negociações com os palestinos ou com os sírios cheguem a qualquer conclusão, por causa do medo de enfrentar os colonos e seus apoiadores. As atuais negociações de “Annapolis” são tão vazias como as precedentes, com cada lado mantendo o fingimento por interesses politicos próprios.

9)A administração Clinton, e ainda mais a administração Bush, permitiram que o governo israelense mantivesse o fingimento. É, portanto, imperativo que se impeça que os membros dessas administrações desviem a política que terá o Sr. para o Oriente Médio na direção dos velhos canais.

10)É importante que o Sr. comece de novo e diga-o publicamente. Idéias desacreditadas e iniciativas falidas – como a “visão” de Bush, o “mapa do caminho”, Anápolis e coisas do tipo – devem ser lançadas à lata de lixo da história.

11)Para começar de novo, o alvo da política americana deve ser dito clara e sucintamente: atingir uma paz baseada numa solução biestatal dentro de um prazo de tempo (digamos, o fim de 2009).

12)Deve-se assinalar que este objetivo se baseia numa reavaliação do interesse nacional americano, de remover o veneno das relações muçulmano-americanas e árabe-americanas, fortalecer os regimes dedicados à paz, derrotar o terrorismo da Al-Qaeda, terminar as guerras do Iraque e do Afeganistão e atingir uma acomodação viável com o Irã.

13)Os termos da paz israelo-palestina são claros. Já foram cristalizados em milhares de horas de negociações, colóquios, encontros e conversas. São eles:

a) estabelecer-se-á um Estado da Palestina soberano e viável lado a lado com o Estado de Israel.
b) A fronteira entre os dois estados se baseará na linha de armistício de 1967 (a “Linha verde”). Alterações não substanciais poderão ser feitas por concordância mútua numa troca de territórios em base 1: 1.
c) Jerusalém Oriental, incluindo-se o Haram-al-Sharif (o “Monte do Templo”) e todos os bairros árabes servirão como Capital da Palestina. Jerusalém Ocidental, incluindo-se o Muro Ocidental e todos os bairros judeus, servirão como Capital de Israel. Uma autoridade municipal conjunta, baseada na igualdade, poderia se estabelecer por aceitação mútua, para administrar a cidade como uma unidade territorial.
d) Todos os assentamentos colonizadores de Israel – exceto aqueles que possam ser anexados no marco de uma troca consensual – serão esvaziados (veja-se o 15 abaixo)
e) Israel reconhecerá o princípio do direito de retorno dos refugiados. Uma Comissão Conjunta de Verdade e Reconciliação, composta por palestinos, israelesnses e historiadores internacionais estudará os fatos de 1948 e 1967 e determinará quem foi responsável por cada coisa. O refugiado, individualmente, terá a escolha de 1) repatriação para o Estado da Palestina; 2) permanência onde estiver agora, com compensação generosa; 3) retorno e reassentamento em Israel; 4) migração a outro país, com compensação generosa. O número de refugiados que retornarão ao território de Israel será fixado por acordo mútuo, entendendo-se que não se fará nada para materialmente alterar a composição demográfica da população de Israel. As polpuldas verbas necessárias para a implementação desta solução devem ser fornecidas pela comunidade internacional, no interesse da paz planetária. Isto economizaria muito do dinheiro gasto hoje militarmente e a partir de presentes dos EUA.
f) A Cisjordânia, Jerusalém Oriental e a Faixa de Gaza constituirão uma unidade nacional. Um vínculo extra-territorial (estrada, trilho, túnel ou ponte) ligará a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.
g) Israel e Síria assinarão um acordo de paz. Israel recuará até a linha de 1967 e todos os assentamentos colonizadores das Colinas de Golã serão desmantelados. A Síria interromperá todas as atividades anti-Israel, conduzidas direta ou vicariamente. Os dois lados estabelecerão relações normais.
h) De acordo com a Iniciativa Saudita de Paz, todos os membros da Liga Árabe reconhecerão Israel, e terão com Israel relações normais. Poder-se-á considerar conversações sobre uma futura União do Oriente Médio, no modelo da União Européia, possivelmente incluindo a Turquia e o Irã.

14)A unidade palestina é essencial. A paz feita só com um naco da população de nada vale. Os Estados Unidos facilitarão a reconciliação palestina e a unificação das estruturas palestinas. Para isso, os EUA terminarão com o seu boicote ao Hamas (que ganhou as últimas eleições), começarão um diálogo político com o movimento e sugerirão que Israel faça o mesmo. Os EUA respeitarão quaisquer resultados de eleições palestinas.

15)O governo dos EUA ajudará o governo de Israel a enfrentar-se com o problema dos assentamentos colonizadores. A partir de agora, os colonos terão um ano para deixar os territórios ocupados e voluntariamente voltar em troca de compensação que lhes permitirá construir seus lares dentro de Israel. Depois disso, todos os assentamentos serão esvaziados, exceto aqueles em quaisquer áreas anexadas a Israel sob o acordo de paz.

16)Eu sugiro ao Sr., como Presidente dos Estados Unidos, que venha a Israel e se dirija ao povo israelense pessoalmente, não só no pódio do parlamento, mas também num comício de massas na Praça Rabin em Tel-Aviv. O Presidente Anwar Sadat, do Egito, veio a Israel em 1977 e, ao se dirigir ao povo de Israel diretamente, mudou em tudo a atitude deles em relação à paz com o Egito. No momento, a maioria dos israelenses se sente insegura, incerta e temerosa de qualquer iniciativa ousada de paz, em parte graças a uma desconfiança de qualquer coisa que venha do lado árabe. A intervenção do Sr., neste momento crítico, poderia, literalmente, fazer milagres, ao criar a base psicológica para a paz.


(esta é uma carta aberta escrita por Uri Avnery, 85 anos, ex-deputado do Knesset, soldado que ajudou a fundar Israel em 1948 e que há décadas milita pela paz. A tradução ao português é de Idelber Avelar. O obrigado pelo envio do link vai ao Daniel do Amálgama. O pedido de divulgação vai a todos os que desejam uma paz duradoura, nos termos já reconhecidos pela comunidade internacional).