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segunda-feira, 17 de maio de 2010

Israel barra entrada de Chomsky nos territórios palestinos


O Ministério do Interior de Israel quer aprovar entrada do professor norte-americano só para a Cisjordânia; grupos de direitos humanos dizem que a decisão é característica de regime totalitário. O professor Noam Chomsky, linguista e ativista de esquerda teve a entrada em Israel e na Cisjordânia negadas, neste domingo. Funcionários disseram a Chomsky que ele escrevia coisas de que o governo de Israel não gostava”. “Eu sugeri que eles encontrassem algum governo no mundo que gostasse das coisas que eu escrevo”, disse o linguista.

O professor Noam Chomsky, linguista e ativista de esquerda teve a entrada a Israel e a Cisjordânia negadas, neste domingo (16 de maio). Inicialmente nenhuma razão foi dada para explicar a decisão, mas o Ministério do Interior mais tarde disse que os oficiais da imigração na fronteira da Ponte Allenby sobre o Rio Jordão entenderam mal as intenções de Chomsky, achando que ele também visitaria Israel.

Chomsky, que está dando uma série de palestras na região, foi convidado para falar na Universidade Bir Zeit, na Cisjordânia, na Segunda-feira.

A porta-voz do Ministério do Interior Sabine Haddad disse que os oficiais estavam tentando obter esclarecimentos do Exército Israelense, que controla o acesso a Cisjordânia, para permitir a entrada de Chomsky no território palestino.

“Estamos tentando contatar os militares para esclarecer as coisas e se eles não tiverem objeções não vemos razão por que ele não seja autorizado a entrar”, disse Haddad

Chomsky disse que os inspetores carimbaram as palavras “entrada negada” em seu passaporte, enquanto ele tentava atravessar o Rio Jordão pela Ponte Allenby. Quando ele perguntou ao inspetor israelense por que não tinha obtido permissão, foi-lhe dito que uma explicação seria enviada por escrito a Embaixada dos EUA. “Eles aparentemente não gostaram do fato de que eu estava indo dar uma palestra numa universidade palestina e não em Israel”, disse Chomsky a Reuters, por telefone, de Aman, na Jordânia.

Chomsky chegou na Ponte Alleny 13:30h e foi levado para interrogatório até ser liberado de volta a Aman, por volta de 16: 30h . Numa entrevista por telefone ao Canal 10, ele disse que os interrogadores tinham lhe dito que ele escrevia coisas de que o governo de Israel não gostava”. “Eu sugeri que eles encontrassem algum governo no mundo que gostasse das coisas que eu escrevo”, disse o linguista.

Chomsky é professor no Massachusetts Institute of Technology (MIT) e é considerado um dos maiores intelectuais do mundo. Ele se identifica com a esquerda radical e é crítico frequente tanto das políticas estadunidenses como da israelense. Ele disse que sua última visita a Israel e a Cisjordânia foi em 1997, quando deu uma palestra na Universidade Ben-Gurion e também na Bir Zeit e que todas as suas visitas anteriores a Cisjordânia tinham sido parte de viagens a Israel.

Seu anfitrião palestino, Mustapha Barghouti, chamou a decisão de “uma ação fascista, que visa à supressão da liberdade de expressão”.

A Associação pelos Direitos Civis em Israel acusou o Ministério do Interior de “usar a detenção e a deportação para impedir que um homem expresse sua opinião”, chamando a isso de “característico de um regime totalitário”

“Um país democrático em que a liberdade de expressão é um princípio fundamental não se fecha a críticas ou diante de idéias que não lhe são confortáveis e não nega entrada a visitantes só porque não aceita suas opiniões. Ao contrário, lida com essas opiniões através da discussão pública”, disse a ACRI, numa declaração.

Othiel Schneller, do Kadima, por outro lado, aprovou a medida. “É bom que Israel não permita que seus acusadores não entrem em seu território”, disse. “Eu recomendo a Chomsky que tente usar os túneis que conectam Gaza ao Egito”.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: Carta Maior

segunda-feira, 16 de março de 2009

Israel: “O mundo inteiro está contra nós. Não importa.”

Por Michael Warschawski, Alternative Information Center (AIC)

16/3/2009

Resultado de recentes eleições nacionais em Israel, os partidos Likud, de Benjamin Netanyahu e Israel Beitaynu, de Avigdor Lieberman, constituíram uma frente de governo de extrema direita. Há um mês, milhões tomaram as ruas para manifestar-se contra o ataque militar a Gaza, e em todos os continentes ouviu-se um mesmo protesto contra a matança de palestinos.

A maioria, em Israel, esquerda e direita, respondeu: "Lutamos pela nossa existência e pouco importa o que pensem os não-judeus. O mundo, afinal, sempre foi anti-semita." Daí em diante, prevaleceu o apoio – ou, pelo menos, a omissão ou as evasivas de sempre – de EUA, Europa e dos Estados árabes, dentre os quais, sobretudo, o Egito.

O governo eleito em Israel consagra a indiferença à lei e às regras do mundo civilizado, aceita e prega comportamento bárbaro, e o Ocidente calou-se. Assim Israel afasta-se deliberadamente de todos, isola-se. Isso exatamente, na semana passada, também EUA e Egito constataram, pela via mais difícil.

O chefe da Inteligência do Egito, General Omar Suleiman, trabalhou muito para construir o caminho para constituir um governo palestino de unidade nacional. Conseguiu fazer parar os foguetes contra o sul de Israel, mas, sobretudo, conseguiu salvar o governo do Fatah na Cisjordânia. Também trabalhou muito para obter a libertação do soldado Gilad Shalit, prisioneiro de guerra, preso pelos palestinos. Pois em Israel, onde todos – de Olmert a Livni –, só pensavam em inventar algum 'novo' governo, ignorou-se completamente o trabalho de Suleiman, o destino de Gilad Shalit e até, de fato, o destino de Máhmude Abbas.

E até para a Turquia, seu mais importante aliado na Região, os líderes israelenses conseguiram criar problemas. Como se o único discurso de Israel fosse "pouco importa o que pensem nossos amigos e nossos inimigos. Fizemos e faremos as coisas à nossa maneira. Quem não gostar... lembre Gaza e o que somos capazes de fazer, quando resolvemos 'enlouquecer' e desrespeitar todas as leis!”

Que ninguém se engane: está em andamento uma política insana, que só atrairá desastre para Israel, e em futuro próximo.

Quando se implanta numa sociedade a ideia de que o mundo está contra ela, e que seu único meio de defesa é o exército e o ataque sem limites, quando nem a oposição em Israel tem forças para dizer "parem imediatamente essa loucura, que disso só nascerá guerra e mais guerra e será o fracasso de anos de tentativas para construir a paz para todos, aqui e em todo o mundo”, pode-se dizer que a contagem regressiva já começou.

É insanidade. É loucura. A loucura do poder parece ter tomado toda a sociedade israelense, e não só a dupla Liberman-Netanyahu, na qual é muito fácil projetar todos os nossos medos.

Se todos os israelenses fossem imbecis, seria o caso de sugerir que lessem sobre o destino dos impérios que acreditaram cegamente na própria capacidade de ser indiferente ao mundo, de sonhar com estabelecer reinos de mil anos, com manter para sempre colônias por ocupação militar. Quem lembra do império francês na África, além dos filhos dos mortos? Quem lembra do império britânico no sul da Ásia? Quem lembra da Indochina francesa?

Rir da Turquia, desmoralizar os serviços de inteligência do Egito, enfurecer o enviado dos EUA por causa de um carregamento de massa (de macarrão. Aconteceu exatamente isso!) para Gaza – todos esses são sinais de que a loucura implantou-se. Os três grandes partidos israelenses (se o Labor Party ainda puder ser dito 'grande partido') são parceiros nessa loucura — e isso, ainda sem considerar que esses partidos receberam a maioria dos votos.

O que mais assusta é haver consenso nacional de apoio à loucura bélica direitista em Israel. Poucas vozes reagiram. E, mesmo essas, só fazem falar sobre "outra Israel", como tantos já fizeram em 1982, na guerra do Líbano e na primeira Intifada.

É claro que há outros israelenses, mas desgraçadamente não há outra Israel, só há uma. E essa Israel é um Estado constituído por governo de criminosos de guerra e pela sociedade que lhe dá apoio e o elege.

Traduzido e enviado via mail por Caia Fittipaldi, o artigo original, em inglês, pode ser encontrado aqui


domingo, 25 de janeiro de 2009

(Israel) Do lado errado (da História)

Poema visual de Al Chaer: Jogo da Velha Faixa de Gaza

Do lado errado*

Uri Avnery, 24/1/2009

De todas as belas frases do discurso de posse de Barack Obama, as palavras que me ficaram na cabeça foram: "Vocês estão do lado errado da história."

Falava dos regimes tirânicos do mundo. Mas os israelenses também devem pensar sobre essas palavras.

Nos últimos dias, tenho ouvido muitas declarações de Ehud Barak, Tzipi Livni, Binyamin Netanyahu e Ehud Olmert. E, cada vez que as ouço, voltam-me à cabeça, para me assustar, aquelas palavras: "Vocês estão do lado errado da história."

Obama falou como homem do século 21. Em Israel, os líderes falam língua do século 19. São como os dinossauros, que tanto medo espalharam à sua volta e nem perceberam que seu tempo havia acabado.

DURANTE a emocionante cerimônia de posse, várias vezes falou-se do quadro multicolorido que é a família do novo presidente.

Todos os 43 presidentes, antes de Obama, foram brancos e protestantes, exceto John Kennedy, branco e católico. 38 deles são descendentes de imigrados das ilhas britânicas. Dos outros cinco, três são descendentes de holandeses (Theodor e Franklin D. Roosevelt e Martin van Buren) e dois, de alemães (Herbert Hoover e Dwight Eisenhower.)

A face da família Obama é muito diferente. Na família estendida há brancos e descendentes de escravos negros, africanos do Quênia, indonésios, chineses do Canadá, cristãos, muçulmanos e até um judeu (afro-norte-americano e judeu convertido). Os dois primeiros nomes do presidente, Barack Hussein, são árabes.

Essa é a face da nova nação norte-americana – uma mistura de raças, religiões, países de origem e cores de pele, uma sociedade aberta e diversa, de cujos cidadãos espera-se que sejam iguais e que se identifiquem com os "pais fundadores". O americano Barack Hussein Obama, filho de pai nascido numa vila do Quênia, pode falar com orgulho de "George Washington, pai de nossa nação", da "Revolução Americana" (a guerra de independência contra os ingleses) e lembrar o exemplo dos "nossos ancestrais" – os pioneiros brancos e os escravos negros que “suportaram o golpe do chicote". Essa é a percepção de uma nação moderna, multicultural e multirracial: todos os cidadãos norte-americanos são herdeiros de toda essa história.

Israel é produto do nacionalismo estreito do século 19, um nacionalismo fechado e excludente, baseado na origem étnica e racial, em sangue e terra. Israel é um "Estado judeu" e só é judeu quem nasça judeu ou converta-se conforme a lei judaica (Halakha). Como o Paquistão e a Arábia Saudita, Israel é um Estado cujo mundo mental é, em larga medida, limitado pela religião, pela raça e pela origem étnica.

Quando Ehud Barak fala sobre o futuro, fala a língua do passado, em termos de força bruta e ameaças brutais, com os exércitos como solução para todos os problemas. Essa foi também a língua do George W. Bush que semana passada desapareceu de Washington, língua que ainda soa nos ouvidos ocidentais, como eco de um passado velho.

As palavras do novo presidente vibram no ar: “Nosso poder, só ele, não pode proteger-nos, nem nos autoriza a fazer como queiramos.” As palavras-chave foram “humildade e moderação”.

Em Israel, os líderes vociferam sobre o que fizeram na guerra de Gaza, na qual Israel usou força sem qualquer moderação, intencionalmente, contra população civil, homens, mulheres e crianças, com o objetivo declarado de "manifestar poder de contenção". Na era que começou 3ª-feira passada, essas expressões só geram desmoderação.

ENTRE Israel e os EUA abriu-se uma ravina essa semana, ainda estreita, quase invisível – mas que pode alargar-se e converter-se em abismo.

Os primeiros sinais ainda são fracos. No discurso de posse, Obama disse que "Somos uma nação de cristãos, muçulmanos, judeus e indus – e de não-crentes."

Desde quanto? Desde quando os muçulmanos aparecem antes dos judeus? O que aconteceu com a "herança judaico-cristã"? (Expressão completamente falsa, para começar, porque o judaísmo é muito mais aparentado com o islamismo do que com o cristianismo. Por exemplo: judaísmo e islamismo não pregam a separação entre religião e Estado.)

Na manhã seguinte, Obama telefonou para vários líderes do Oriente Médio. Decidiu fazer um gesto inusitado: o primeiro telefonema foi para Máhmude Abbas, só depois telefonou a Olmert. A mídia israelense não consegue digerir isso. O Haaretz, por exemplo, ativamente falsificou a notícia e escreveu – não só uma, mas duas vezes na mesma edição – que Obama telefonou a “Olmert, Abbas, Mubarak e ao rei Abdallah” (nessa ordem).

Em vez do grupo de judeus norte-americanos que sempre foram encarregados do conflito Israel-Palestina durante os dois últimos governos, de Clinton e de Bush, Obama, logo no primeiro dia de governo, nomeou um árabe-norte-americano, George Mitchell, filho de mãe libanesa que chegou aos EUA com 18 anos; e o próprio Mitchell, órfão de pai irlandês, foi criado por uma família de cristãos maronitas libaneses.

Nenhuma dessas é boa notícias para os líderes israelenses. Nos últimos 42 anos, mantiveram uma política expansionista, de ocupação, e construíram colônias em estreita cooperação com Washington. Confiaram no apoio ilimitado dos EUA, do massivo aporte de dinheiro e de armas ao veto no Conselho de Segurança da ONU. Esse apoio sempre foi essencial para a política israelense. Esse apoio pode estar chegando ao limite.

Claro que as coisas acontecerão gradualmente. O lobby pró-Israel em Washington continuará a impor o medo de Deus, no Congresso. Um navio imenso, como os EUA, só muito lentamente pode alterar o próprio rumo, tem de fazer curvas suaves. Mas os procedimentos para manobrar o navio começaram logo no primeiro dia do governo Obama.

Nada disso aconteceria se os EUA, eles mesmos, não tivessem mudado. Não se trata apenas da mudança política. Há mudança na visão de mundo, no arranjo mental, nos valores. Um certo mito americano, muito semelhante ao mito sionista, foi substituído por outro mito americano. Não por acaso, Obama devotou parte tão grande do discurso a esse tema (mas o discurso, vale lembrar, não inclui uma única palavra sobre o extermínio dos nativos americanos).

A guerra de Gaza, quando dezenas de milhões de norte-americanos assistiram à horrível carnificina na Faixa de Gaza (apesar de a rigorosa autocensura só ter mostrado uma parte ínfima do que realmente houve), acelerou o processo da separação. Israel, a valente irmãzinha, aliada leal na "Guerra ao Terror" de Bush, foi mostrada como a Israel violenta, ensandecida, mostro sem compaixão, assassina de mulheres, crianças, feridos e doentes. E quando sopram esses ventos, o lobby perde peso.

Os líderes israelenses da Israel oficial nada perceberam. Não sentem que Obama implanta novo contexto, não sentem que "o chão deslizou sob seus pés". Pensam que seja questão política momentânea, à qual darão jeito com a ajuda do lobby e dos congressistas servis.

Os líderes israelenses ainda estão intoxicados pela guerra, embriagados de violência. Reescreveram a frase famosa do general prussiano, Carl von Clausewitz. Para eles: “A guerra é a continuação de uma campanha eleitoral, por outros meios.” Competem entre eles com empenho de se autovangloriar, cada um por seu quinhão de "crédito".

Tzipi Livni, que não pode disputar com os homens a coroa de senhor-da-guerra, tenta superar os homens em dureza, secura, belicosidade, fúria, impiedade.

De todos, o mais brutal é Ehud Barak. Uma vez, eu o chamei de "criminoso de paz", porque levou ao fracasso a conferência de Camp David em 2000 e destroçou o campo da paz israelense. Agora, devo chamá-lo de "criminoso de guerra", porque foi quem planejou a guerra de Gaza sabendo que assassinaria civis em massa.

Aos olhos dele e aos olhos de muitos, na opinião pública em Israel, a guerra foi operação militar digna de elogios. Os conselheiros de Barak também apostaram em que a guerra o elegeria. O partido Labor, que durante décadas foi o maior partido no Parlamento israelense, chegara nas pesquisas a 12, até a 9 cadeiras, de 120. Com a ajuda das atrocidades em Gaza, subiu agora para 16 cadeiras, ou próximo disso. Não é grande sucesso e nada garante que não volte a afundar.

Qual foi o erro de Barak? Simples: as guerras sempre ajudam a direita. A guerra, por sua própria natureza, desperta na população as emoções mais primitivas – ódio e medo, medo e ódio. A direita cavalga sobre essas emoções há séculos. Mesmo que alguma "esquerda" inicie uma guerra, ainda assim a direita sempre ganha mais. Em estado de guerra, a população vota antes em qualquer direita 'audaz' do que em alguma 'esquerda' cenográfica.

Essa, aliás, é a segunda vez que Barak comete o mesmo erro. Quando, em 2000, disseminou a cantilena do "Revirei cada pedra, no caminho da paz, / Ofereci aos palestinos o que jamais alguém lhes oferecera. / Rejeitaram tudo. / Não temos parceiro para construir a paz" –, Barak conseguiu não só reduzir a esquerda a frangalhos como, também abriu o caminho para a ascensão de Ariel Sharon nas eleições de 2001. Agora, está pavimentando a estrada para Binyamin Netanyahu (com a esperança bem evidente de ser seu ministro da Defesa).

E Barak não pavimenta a estrada apenas para Binyamin Netanyahu. O verdadeiro vencedor nessa guerra é um homem que nem participou dela: Avigdor Liberman.

O partido de Liberman, que em qualquer país normal seria identificado como partido fascista, cresce nas pesquisas eleitorais. Por quê? Porque Liberman fala como Mussolini, oferece a imagem de um Mussolini israelense, odeia árabes, é capaz de todas as brutalidades. Comparado a Liberman, Netanyahu é um doce. Grande parte dos mais jovens, criados ao longo de anos de ocupação, matança e destruição, depois de duas guerras atrozes, vê em Netanyahu o seu líder.

AO MESMO TEMPO em que os EUA dão passo de gigante na direção da esquerda, Israel está à beira de afundar-se na direita.

Quem tenha visto os milhões que acorreram para assistir à posse de Obama em Washington sabe que Obama não fala só em seu nome. Ali, manifestavam-se aspirações de um povo, outra visão de mundo.

Entre o mundo mental de Obama e o mundo mental de Liberman e Netanyahu não há ponte possível. Entre Obama, e Barak e Livni, também, há um abismo. A Israel pós-eleitoral talvez acorde para descobrir que entrou em rota de colisão com os EUA pós-eleitorais.

Onde estão os judeus norte-americanos? A grande maioria deles votou em Obama. Estarão entre a espada e a caldeirinha – entre a natural adesão a Israel e seu governo. É razoável supor que daí virá alguma pressão de baixo para cima, sobre os 'líderes' dos judeus-norte-americanos os quais, vale também anotar, jamais foram eleitos, e sobre organizações como o AIPAC. O porrete com o qual os líderes israelenses estão habituados a contar nas horas de aperto pode estar reduzido a cabo-de-vassoura quebrado.

A Europa tampouco permanece intocada pelos novos ventos. É verdade, sim, que ao final da guerra, vimos os líderes europeus – Sarkozy, Merkel, Browne e Zapatero – sentados como meninos de escola, ouvindo respeitosamente a escandalosa arrogância de Ehud Olmert, citando-se e recitando-se. Pareciam aprovar as atrocidades da guerra, falando em Qassams e apagando a ocupação, o bloqueio e a construção de colônias. Não porão na parede de seus gabinetes presidenciais aquela foto.

Mas durante a guerra de Gaza, as ruas européias encheram-se de manifestantes, que gritavam contra aqueles horrores. As mesmas multidões saudaram a posse de Obama.

É um novo mundo. Em Israel, os líderes políticos devem estar sonhando com um novo slogan: "Parem o mundo, que eu quero descer!" Não há outro mundo.

SIM, Israel está do lado errado da história.

Felizmente, há também outra Israel. Não aparece na ribalta e sua voz só pode ser ouvida por quem a procure. É uma Israel racional, sadia, que olha o futuro, que quer progresso e paz. Nas eleições de fevereiro, mal se ouvirá sua voz, porque os velhos partidos lá estão, com os pés pregados no mundo velho.

Mas o que houve nos EUA influenciará profundamente o que aconteça em Israel. A enorme maioria dos israelenses sabe que Israel não sobrevive sem laços estreitos com os EUA. Obama é agora o líder do mundo e todos vivemos no mesmo mundo. Se Obama promete trabalhar "agressivamente" pela paz entre israelenses e palestinos, essa é a palavra de ordem, para Israel.

Israel quer estar do lado certo da história. Levará meses, talvez anos, mas tenho certeza de que conseguirá. A hora de pôr-se a andar é hoje.

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* Uri Avnery, 24/1/2009, "On The Wrong Side", em Gush Shalon [Grupo da Paz]. Tradução de Caia Fittipaldi. Tradução autorizada pelo autor.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Olhares judeus de pura razão e humanismo para enfrentar o sionismo



Reproduzo aqui do Vi o mundo os seguintes artigos: "O próximo passo" de Gideon Levy, jornalista israelense que escreve no Haaretz, Telavive e "Israel x Gaza. Como incendiar o mundo muçulmano" do historiador Gabriel Kolko.
Todas as charges fazem parte da exposição ocorrida recentemente na Jordânia, intilulada Gaza Cartoons.
Não deixe de ler também no Vi o mundo a interessante análise de Fisk sobre as relações entre o novo presidente dos EUA e o Oriente Médio, AQUI.


Mais uma vez choro, o texto de Levy condensa o dossiê da barbárie registrada em fotografias que decidi publicar hoje aqui no blog da História em Projetos. Por mais chocante que seja ver o horror ao vivo e a cores, seria hipocrisia poupar nossos olhos, precisamos olhar com olhos de ver, para parar de naturalizar a violência e ficarmos imóvel diante de tanto horror.

Que a visão humanista destes poucos israelenses prevaleça sobre a barbárie. Que os facínoras que provocaram tanta destruição sejam julgados e paguem efetivamente por desumanizar a vida na Palestina.


O próximo passo

Gideon Levy, 23/1/2009, Haaretz, Telavive



A vasta maioria festejou aos gritos, uma minoria muito pequena gritou em silêncio, como um assovio na escuridão. A imensamente dominante maioria só queria mais e mais, a minoria muito pequena só queria que aquilo parasse. A absoluta maioria gargalhou, encomendou pizzas e filmes com cenas dos bombardeios, e muitos subiram aos telhados próximos à fronteira de Gaza, com os filhos, para assistir ao massacre com seus próprios olhos. Uma mínima maioria tentou protestar, encolhida de vergonha e de culpa, a cada nova imagem que chegava de Gaza.

Nunca antes, desde o verão de 1967, viu-se tão eficaz lavagem cerebral, e tal coro tão uniformemente manipulado – e voltou então o coro nacionalista bestial, insensível, cego. Mas agora, a poeira baixou nas ruínas, e não há bandagem suficiente para cobrir todas as chagas; os cemitérios cheios, os hospitais lotados; os feridos, os quebrados, os incapacitados, os amputados, os aleijados, os traumatizados, os enlutados, os milhares de feridos e as dezenas de milhares de novos desabrigados e sem-teto tentam reabilitar o que possam. Agora, é tempo de elaborar sobre alguma alternativa à guerra mais brutal e mais cruel de toda a história de Israel, e a mais completamente desnecessária.

Primeiro, há caminho que Israel jamais quis trilhar. Nem Oslo nem a retirada de 2005 foram suficientes. Sendo a guerra sempre o meio preferido e a violência sem freio, Israel praticamente sempre falou pela força, só a violência, como única linguagem. Pela força e por golpes, Israel fez a guerra, mais uma guerra. A força veio do exército; os golpes, da imprensa. Qualquer via alternativa foi sempre condenada.

Segundo, nunca é possível reconstruir, seja o que for, a partir só do que se ouve num determinado instante. Temos de lembrar o contexto, e o contexto sempre foi distorcido, a ponto de ter-se tornado irreconhecível.

O cessar-fogo com o Hamás foi firmado dia 19/6/2008. Foi recebido com frieza em Israel e com o azedume com que se recebem movimentos políticos. Ehud Olmert disse que seria "frágil e de curto-prazo", como profecia feita para se autocumprir. Nos meses seguintes, Israel foi intoxicada pelos mais aterrorizantes relatórios e análises dos serviços de segurança, sobre o quanto o Hamás se estaria armando, sobre os danos causados pelo cessar-fogo, pelos perigos que ameaçavam os israelenses por causa do cessar-fogo e sobre o quanto o Hamás, só o Hamás, beneficiava-se com o cessar-fogo. Apagou-se do mundo o fato de que os moradores do sul de Israel viveram tempos de sossego, praticamente sem nenhum Qassam. As centenas de túneis em Rafah, a maiorias dos quais traziam oxigênio para Gaza sitiada – à qual, mesmo quando se abriam os postos de fronteira, Israel sempre proibiu a chegada dos bens indispensáveis à vida, cadernos para as crianças, cimento para construir – foram descritos em Israel como se existissem exclusivamente para o contrabando de armas: túneis demoníacos, pelos quais teria passado tudo que, de algum modo, se assemelhasse a armas nucleares.

A nua verdade sobre o que estava sendo contrabandeado pelos túneis só foi conhecida na guerra: pouca, parca, fraca munição.

O acordo de cessar-fogo, é preciso lembrar, incluía que Israel abriria os postos de fronteira. Depois de assinado o acordo, Israel decidiu que os postos de fronteira permaneceriam fechacos, porque a passagem de Karni seria "inadequada".

Depois, começou o método "zipper": fechavam-se os postos de passagem depois de cada rojão Qassam, o velho método do chicote-e-cenoura. Sim, claro que houve Qassams e morteiros – poucos, desnecessários, improdutivos, errados, estéreis – que deveriam ter sido relevados com sabedoria. A cada evento, uma nova e maior violação do acordo de cessar-fogo, por Israel, que incluiu invasão por terra, dia 4/11/2008, para explodir uma casa e um túnel e para assassinar seis homens do Hamás – e que foi completamente ato de guerra de Israel a Gaza.

Depois disso, tudo se deteriorou muito rapidamente, como Israel previa, como Israel aparentemente quis que acontecesse.

Ainda que não se incluísse na discussão uma única palavra sobre o contexto amplo, histórico – os refugiados que vivem em Gaza desde 1948, o que os torna refugiados de guerra e os 40 anos de ocupação em Gaza, desde 1967 – o contexto a ser considerado hoje tem de incluir, necessariamente, o sítio e o boicote que Israel e a comunidade internacional impuseram (i) ao Hamás, partido que chegou ao poder mediante eleições perfeitamente democráticas, em janeiro de 2006; e (ii) também contra o governo palestino de unidade nacional estabelecido em março de 2007.

Tudo isso aconteceu antes de o Hamás assumir o controle de Gaza, pela força, por golpe, depois de não conseguir instituir-se como poder democrático, nascido de eleições democráticas, pelo tipo de oposição que lhe fez o partido Fatah. Todo esse curso de eventos teria de ter sido conduzido de outro modo, mas, então, o leite e o sangue já estavam derramados.

Nem o Hamás deveria ter sido boicotado, nem Gaza deveria ter sido sitiada. Israel nada ganhou nem com o boicote nem com o bloqueio. O resultado está aí, a vista de todos: estamos olhando para ele.

Desde a questão com a OLP (Organização de Libertação da Palestina), há anos, o rejeicionismo israelense nada trouxe de bom; só trouxe mais e mais violência, novos ciclos de violência e de radicalização, tanto dos palestinos quanto dos israelenses.

Hoje, o Hamás é mais forte do que era antes da guerra; a guerra sempre fortalece os extremismos, de todos os lados, o deles e o nosso. Depois a OLP converteu-se em Hamás e hoje é Jihad Mundial. Gaza não se tornou "moderada", como interessaria a Israel; está sangrando, devastada, e Israel nada lhe ofereceu, até hoje.

O sítio de Gaza fracassou, o bloqueio só trouxe danos, mesmo que se ignorem todos os seus aspectos ilegais e imorais. Agora, em vez de bloqueio – que a legislação internacional define como "castigo coletivo" e considera crime –, Israel está obrigada a abrir todas as passagens de fronteira. Abri-las, não fechá-las. Abri-las para a passagem de artigos de primeira necessidade, é claro, sim, e abri-las para a passagem de pessoas. Hoje. Abertura controlada, como em todas as fronteiras do mundo, mas abri-las.

Gaza precisa de uma passagem para o mundo, e essa passagem tem de passar por Israel. Israel não pode continuar a fingir que não ocupa Gaza há 40 anos, como se a ocupação não tivesse jamais existido e, agora, 'entregar' Gaza aos egípcios. O destino de Gaza é responsabilidade de Israel.

Passagens de fronteira desimpedidas e uma via livre de acesso aos territórios ocupados da Cisjordânia e com o mundo é um dos direitos básicos dos habitantes de Gaza.

Hoje, o primeiro-ministro de Israel, qualquer primeiro-ministro, todos os primeiros-ministros, têm de abrir diálogo com a Palestina, com toda a nação palestinense. Não apenas mais um diálogo, diálogo por diálogo, como o escritor David Grossman sugeriu essa semana no Haaretz – Israel já consumiu sua quota de falsos diálogos – mas negociações práticas, com objetivo, determinadas, com o claro e declarado objetivo de pôr fim à ocupação. Assim se demonstraria o "poder de contenção", a mais importante de todas as promessas e de todas as soluções.
As negociações, agora, têm de visar ao estabelecimento de um Estado Palestino, nas fronteiras de 1967, que são as máximas fronteiras legais de Israel e as fronteiras mínimas, legais, da Palestina. Deve parar hoje a construção de qualquer colônia. Devem-se tomar as medidas necessárias para evacuar todas as colônias da face da terra.

Basta de conversas rasas e ocas sobre se Israel estaria "preparada" para a Solução dos Dois Estados. Basta de exibir pesquisas que mostram que isto ou aquilo seria "o que a maioria dos israelenses" deseja ou não deseja. Basta de repetir o que tantos políticos e diplomatas teriam algum dia dito, contra ou a favor do Estado da Palestina. É hora de fazer acontecer o Estado da Palestina.

De nada adianta falar com o presidente Máhmude Abbas (Abu Mazen) e, ao mesmo tempo, prosseguir a construção de mais uma colônia em Modi'in Ilit. É impossível continuar a falar só com Máhmude Abbas, porque ele é ontem, é o homem de ontem para os palestinos e só representa uma pequena parte dos palestinos.

Hoje, Israel tem de falar com o Hamás. Imediatamente. Pelo menos, tem de tentar falar com o Hamás.

Também no Hamás há homens prontos a por de lado sonhos de ontem e visões do futuro, em nome de construir um presente melhor.

É hora de libertar os prisioneiros, as centenas de prisioneiros, uns prisioneiros políticos, outros prisioneiros de guerra. Eles também têm de poder manifestar suas esperanças nacionais, hoje.

E também, imediatamente, Israel tem de dizer "Sim" à Síria, imediatamente, antes de que também esse momento propício seja desperdiçado: a paz, em troca das colinas de Golan. Hoje. É possível fazer a paz com a Síria, mediante negociações.

Ao mundo árabe, Israel tem de dizer: queremos discutir a iniciativa saudita.

À comunidade internacional e aos próprios israelenses, Israel deve declarar: erramos; cometemos o pecado de matar, por arrogância, nessa guerra; e pedimos perdão, do fundo do coração. Mas nem isso adiantará, se Israel não mudar, radicalmente, a direção do seu modo de pensar e de operar no mundo.

Precisamente a partir dessa guerra horrenda, Israel pode começar a mudar. A partir do luto, das ruínas, dos feridos. Basta.

Israel já provou seu prodigioso – talvez prodigioso demais – poder militar, inúmeras vezes, prodígio sobre prodígio, e o quanto Israel não tem nenhum poder de autocontenção.

Israel já provou que "o meu é maior", mais violento, mais mortífero. É possível mudar de direção agora, depois dessa guerra terrível, horrenda, tanto quanto, depois da Guerra do Yom Kippur foi possível fazer a paz com o Egito (paz que também poderia ter sido alcançada sem guerra).

Mas Israel sempre se repete: concessões, se alguma, só depois de banhos de sangue.

Levantar o sítio de Gaza, pôr fim ao bloqueio, dialogar com o Hamás, paz com a Síria, aceitar a iniciativa árabe – esses são passos práticos.

Mas, antes disso, tem de acontecer uma mudança de fundo, em Israel. Depois de décadas de demonização e desumanização dos árabes, é tempo, hoje, de reconhecer que são como nós, exatamente como nós, iguais a nós. Têm sentimentos, sonhos e direitos. Essa consciência humana basal é que foi apagada em Israel. Sem ela, Israel fracassará; com ela, tudo voltará a ser muito mais alcançável.

Por anos, a direita israelense banqueteou-se de palavras ocas e nada respondeu à mais simples das perguntas: Então, o que fazer?

Como estarão as coisas daqui a 20, 30 ou 50 anos? Então, os palestinos já serão maioria "entre o rio e o mar".

E a direita de Israel nada tem a dizer ou fazer. Nada, nenhuma resposta que não seja a guerra.

A esquerda tem resposta – que aqui escrevi. E os israelenses da "opinião pública" voltarão a condenar a esquerda ao ostracismo, ridícula esquerda, vão ignorá-la, vão acusá-la de ser "ingênua" ou acusarão a esquerda de "traição".

Que pelo menos ninguém diga que a esquerda de Israel não sabe o que propor, que não vê caminho e que não tenha posto o pé na rua, no caminho que vê – o caminho da paz, não da guerra – completa e sinceramente.


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Israel x Gaza. Como incendiar o mundo muçulmano

Gabriel Kolko, 21/1/2009, Counterpunch


Gabriel Kolko é o mais renomado historiador contemporâneo especialista em história das guerras contemporâneas. É autor dos clássicos Century of War: Politics, Conflicts and Society Since 1914, Another Century of War? e The Age of War: the US Confronts the World . É autor também da melhor história da Guerra do Vietnã, Anatomy of a War: Vietnam, the US and the Modern Historical Experience. Seu livro mais recente é After Socialism.

Como a história falará da guerra contra os palestinos em Gaza? Outro holocausto, dessa vez perpetrado pelos filhos das vítimas do anterior? Um golpe eleitoral, montado por ambiciosos políticos israelenses, para ganhar votos nas eleições do dia 10/2 próximo? Um teste para os novos modelos de armamento fabricados pelos EUA? Ou como uma tentativa de encurralar o novo governo Obama, numa posição anti-Irã? Ou como tentativa para estabelecer a "credibilidade" [aspas no original] do exército de Israel, depois da vergonhosa derrota na guerra contra o Hizbóllah no Líbano em 2006? Tudo isso provavelmente. E muito mais.

Mas uma coisa é certa. Israel matou pelo menos 100 palestinos para cada uma das baixas noticiadas, desproporção tão imensa, que causou horror em quase todo o mundo e criou nova causa que já mobilizou um número praticamente incalculável de pessoas – provavelmente, uma oposição tão forte quanto a que se uniu contra a guerra do Vietnã. Israel autoconverteu-se em nação pária – exceto do ponto de vista dos EUA e de um pequeno grupo de outros países. O mais terrível de tudo: Israel incendiou o mundo muçulmano.

Como Bruce Riedel, um “falcão” que foi alto funcionário da CIA por quase 30 anos e é hoje um dos muitos conselheiros do presidente Obama, escreveu há pouco tempo: “o conflito Israel-Palestina é a principal questão que alimenta a al-Quaeda", e “os muçulmanos tem convicção muito funda quanto ao que, para eles, foi erro: a criação de Israel; essa convicção contamina todos os aspectos do que eles pensam e fazem e é o argumento-chave para convencer a Ummah* da correção da luta da al-Quaeda.” Isso, antes de Gaza. Grande parte do mundo hoje odeia Israel e demorará anos, antes de que as atrocidades praticadas em Gaza sejam esquecidas ou, pelo menos, razoavelmente apagadas. Os extremistas muçulmanos tornar-se-ão muito mais fortes.

Os israelenses estão sendo acusados – e com muitas razões – por crimes de guerra. Muitos dos acusados são filhos de famílias que sofreram nas mãos dos nazistas há mais de 60 anos e vivem hoje de repetir que o Holocausto foi a única tragédia que jamais houve – como se o número de mortos não-judeus, no mundo, depois de 1945 não existisse.

A ONU e grupos de Direitos Humanos já exigem que Israel seja julgada por crimes de guerra, pelo número oficial de 1.300 mortos em Gaza, assassinados por descomunal poder de fogo e com munição, como as bombas de fósforo, proibida e ilegal. Israel já avisou seus principais oficiais para que se preparem para defenderem-se contra a acusação de prática de crime de guerra. O Procurador Geral de Israel, General Menahem Mazuz, disse que o governo já espera "uma onda de processos internacionais."

Daqui em diante, Israel terá de viver com as consequências geopolíticas do que fez, na Região.

É provável que Israel tenha destruído, talvez de modo irreparável, qualquer possibilidade de estabelecer relações tranquilas com seus vizinhos árabes mais próximos e outras nações muçulmanas – o Catar e a Mauritania já suspenderam relações diplomáticas com Israel –, menos porque as camadas governantes dessas nações desejem castigar Israel, mas porque as massas de eleitores, ou, em geral, das populações, exigem que Israel seja punida; e esse desejo popular implica grave risco para a estabilidade dos regimes na Região.

Talvez ainda mais importante: os EUA sempre apoiaram lealmente Israel durante décadas, com um dilúvio de armas moderníssimas e com total proteção diplomática; mas os EUA enfrentam hoje enormíssima crise econômica e precisam do dinheiro árabe (para não falar do petróleo), como jamais antes precisaram. A estabilidade da aliança crucial de EUA e Israel está mais pressionada hoje, do que jamais, no passado.

Desde o início, um culto machista – chamado "autodefesa" – foi traço sempre encontrado no sionismo; apesar da opinião de alguns idealistas, como A. D. Gordon, a tendência dominante em Israel sempre acolheu sem protesto as respostas violentas contra os árabes circunjacentes. Os militares sempre foram glorificados por isso, inclusive esquerdistas de fachada, como David Ben Gurion. De tal modo, que Israel converteu-se numa Esparta regional, armada com armamento moderníssimo e bombas atômicas, o que lhe assegurou um monopólio virtual sobre uma vasta região. Esse monopólio também será inevitavelmente desafiado.

Uri Avnery, importante ativista dos movimentos pela paz, escreveu, há poucos dias, que “centenas de milhões de árabes que cercam Israel nessa parte do mundo verão os combatentes do Hamás como heróis da nação árabe e, além disso, também verão seus próprios governos nacionais em plena nudez, como são: criminosos, venais, corruptos e traiçoeiros. (...) Nos próximos anos, todos verão com clareza a absoluta loucura que foi a guerra de Gaza." (Leia aqui no blog um dos texto do Uri Avnery "O comandante-em-chefe enlouqueceu", 17/1/2009).

Estamos vivendo outra grande tragédia, e as tragédias são insumo básico na história do mundo, há séculos. Dessa vez, as vítimas de ontem e seus filhos são os carrascos de hoje.

Nota: *Ummah- palavra árabe que significa comunidade/união das nações (no caso dos países árabes), no islamismo o termo se refere à diáspora do mundo muçulmano.

Olhe com olhos de ver, indigne-se e não permita que isso se repita



Há alguns dias eu recebi este link AQUI. Após chorar, revoltar-me e sentir raiva de tanta loucura, armazenei o endereço no Delicius.

Hesitei em publicá-lo, porque realmente eu não gostaria que outras pessoas sofressem tanto quanto eu ao ver o dossiê fotográfico que ele traz.

Hoje decidi publicá-lo e de lá reproduzir algumas imagens, pois avaliei que isso não é explorar a morte, isto é tentar fazer com que as pessoas busquem valorizar a vida não permitindo que loucos como os responsáveis por este genocídio fiquem impunes.

Eu não ganho um tostão com isso, não vendo jornais, este blog não tem um único anunciante sequer.

Avaliei que essas fotos são o registro mais cruel de um Estado cínico e criminoso de guerra que não pode continuar a praticar essas ações genocidas. Talvez as histórias registradas nestas imagens tire-nos, por um instante deste conformismo, desta banalização diante da morte e naturalização da violência, talvez ela nos indigne ao ponto de não aceitarmos mais que esse horror se repita.

O Estado sionista de Israel não pode isolar um povo, humilhá-lo, retirar sua humanidade, ceifar a vida que ainda está sendo gestada no ventre das mães palestinas e jogar a fatura no colo do Hamás. Se você ficou indignado, ASSINE A PETIÇÃO para que os crimes de Estado de Israel sejam julgados e seus criminosos recebam a devida punição.
(Caminho alternativo para aderir à campanha: clique AQUI e ao abrir o site escolha campanha, é a campanha 10)

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Sobre as fotos que destaquei a Cora Ronai provavelmente tratará com cinismo ímpar como o fez em seu último texto igualando no mesmo cadinho as estatísticas tão desiguais das baixas entre Gaza e Israel, entre civis e soldados e acusando os palestinos de exploram a morte.

Por isso, não falo para pessoas como a Cora Ronai, na verdade todas as fotos das vítimas de Gaza falam por si: a primeira mostra uma criança incinerada (Israel usou vários tipos de bombas proibidas como tungstênio e fósforo, veja aqui e aqui); a segunda foi a que mais me desumanizou: ver o rombo nas costas deste bebê que teve ceifado o seu direito de nascer, já que a bala atravessou a barriga de sua mãe, fez-me sentir envergonhada de pertencer a espécie humana, capaz de atrocidades como esta.




segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Documentário Occupation 101: Vozes da Maioria Silenciada


Recebi do amigo blogueiro Kauê da Bodega Cultural a dica do documentário Occupation 101: Vozes da Maioria Silenciada, 2006.

Este documentário, dirigido por Sufyan Omeish e Abdallah Omeish, e narrado por Alison Weir, fundadora do If Americans Knew,
aborda a questão Israel-Palestina, discutindo os eventos a partir do surgimento do movimento Sionista até a segunda Intifada,. Trata de temas polêmicos que por vezes nos recusamos a aceitar como existentes: limpeza étnica, genocídio do povo palestino, as relações entre Israel e Estados Unidos, as violações dos direitos humanos e abusos cometidos por colonos e soldados israelenses contra os Palestinos.

Para assistir clique
aqui

Atualização 19:42:

Outros blogueiros fizeram a chamada para este contundente documentário. É do blog do João Villaverde que reproduzo alguns dos diálogos do doc. Occupation 101. O que mais me chamou a atenção foi a fala da menininha palestina, é simplemente impressionante como uma criança tão pequena consegue ter tanta clareza do absurdo cotidiano que a ocupação militar e colonial sionista impõe à sua pequena vida:

Narração inicial:

"O campo dos refugiados mesmo sem conflito com Israel é humanamente horrível. É superpopuloso. São de 14 a 25 pessoas vivendo num mesmo espaço. Não há espaço para crianças ficarem. Não há ruas, mas pequenas passagens, não há árvores, nada."

Legenda:

"Muitas gerações de palestinos cresceram e continuam vivendo em campos de refugiados pelo região. Em 1948 eram 700 mil palestinos...hoje, aqueles que continuam vivendo em campos de refugiados são 4.225,110."

Menino:

"Você conseguiria viver aqui? Conseguiria? Você não conseguiria porque as condições aqui são horríveis. E você ficaria aterrorizado sempre que os mísseis caem e as paredes começam a ruir!"

Menina:

"O foguete destruiu a janela, quebrando tudo e colocando fogo em todas as coisas. Porque eles quebraram as minhas coisas? Eu perdi muitas das minhas coisas. Nós jogamos tudo no lixo. Nós também perdemos nossas roupas, nós imploramos aos nossos vizinhos por roupas para usar. A comida que comemos cheira a gás. Nós não queremos nos livrar de nossas roupas, mesmo com elas cheirando a gás. Apenas se você cheirasse as nossas roupas! Que os israelenses venham e cheirem nossas roupas e vejam nossas casas... sempre que queremos tomar banho ou fazer qualquer coisa em casa o cheiro de gás nos sufoca até a morte! Venha e veja minhas roupas. Cheire elas...é gás! O que eu posso fazer? Eu não pude nem aproveitar os óculos de sol que meu pai me deu, ou os braceletes e o lenço para pescoço que minha mãe me deu. Eu não brinquei nem com meus anéis. Como eu posso aproveitar tudo que me pertence? Como? Aproveitar minhas coisas com o que?!"

Mãe:

"Nossas crianças não conseguem nem viver... nós não sabemos nem como viver. Vivem com medo constante. Eu vivo com medo e terror."

Menina:

"E no meu caminho à escola eu ouço tiros. Eu fico com tanto medo dos tiros que meu corpo todo começa a tremer."

Homem segurando balas:

"Isso é o que tem sido usado nessa região. Estamos numa área de civis, não há soldados aqui. Não há base militar por aqui. Se trata de tiros de civis para afastar as pessoas da fronteira para que os tanques israelenses possam se movimentar normalmente. Eles querem essas pessoas (palestinos) fora dessa área. É simples assim. E é uma maneira de humilhar as pessoas."

Mulher:

"Em Gaza você pode ver a situação terrível, pode ver melhor do que na Cisjordânia (onde outra parcela dos palestinos vivem). Bairros inteiros foram destruídos. Centenas de pessoas não têm mais casas porque elas estão próximas da fronteira. Isso, claro, é uma clara violação de regras humanitárias, em todos os sentidos.

Homem segurando balas:

"As pessoas não tem a chance de retirar seus bens pessoais de dentro das suas casas, não tem chance de pedir ajuda e aqui é muito longe da maioria da mídia. Você (se referindo ao homem com a câmera) está entre os poucos que conseguiram ver isso. Jornalistas europeus ou americanos não estiveram aqui porque as pessoas tem medo de vir ou porque é muito difícil chegar."


Os entrevistados:

Dr. Albert Aghazarian
Director of Public Relations at Bier Ziet University. He is the most prominent Palestinian Armenian figure -- Headed press centre during Madrid conference.
Ambassador James Akins
Former (1963-1965) Attache at the US Embassy in Baghdad; Former (1973-1975) US Ambassador to Saudi Arabia.
Rabbi Arik Ascherman
Executive Director of Rabbis for Human Rights - an organization of Israeli rabbis committed to defending the human rights of all people in Israel and in the territories under Israeli control.
Dr. William Baker
Former Professor of Ancient History and Biblical studies. Founder of Christians and Muslims for Peace.
Bishop Allen Bartlett, Jr.
Assisting Bishop (2001-2004) of the Diocese of Washington. The Episcopal Diocese of Washington comprises 93 Episcopal congregations in the District of Columbia and the Maryland counties of Montgomery, Prince George's, Charles and Saint Mary's.
Phyllis Bennis
Fellow at the Institute for Policy Studies. An author, analyst, and activist on Middle East and UN issues. Helped found and co-chairs the U.S. Campaign to End Israeli Occupation.

Peter Boukaert

Director of Emergencies at Human Rights Watch -- the largest human rights organization based in the United States. He has conducted extensive fact-finding investigations into human rights abuses in the West Bank (Israeli Occupied Territory).
Sharon Burke
Former Advocacy Director with Amnesty International -- a Nobel Prize-winning grassroots activist organization with over 1.8 million members worldwide. Amnesty International undertakes research and action focused on preventing and ending grave human rights abuses worldwide.
Noam Chomsky
Institute Professor Emeritus of linguistics at the Massachusetts Institute of Technology. An Author and Analyst of Global Affairs including, US foreign Policy, and the Israeli-Palestinian Conflict. Author of "The fateful triangle: the United States, Israel, and the Palestinians."
Father Drew Christiansen
Former director of the Office of International Justice and Peace, United States Catholic Conference (91-98) and served as counselor on international affairs from (98-04). He traveled to the Holy Land numerous times to investigate the on-the-ground reality facing the Palestinian Christian community.
Cindy and Craig Corrie
Parents of late peace activist Rachel Corrie -- who was killed by an Israeli Bulldozer while protesting the destruction of a Palestinian doctor's home. Founders of the Rachel Corrie Foundation for Peace and Justice.
Douglas Dicks
Visitor Outreach program director Catholic Relief Services in Jerusalem. His work brings him in direct contact with patriarchs and priests as well as with elected government officials, human rights groups, and prominent members of both Palestinian and Israeli societies
Richard Falk
Served on the United Nations Human Rights Fact-finding Commission (2001) to investigate international law violations and human rights abuses in the West Bank and Gaza. Author and former Professor of International Law at Princeton University.
Paul Findley
United States Congressman (1961-1983). Founder and Chairman of the Council for the National Interest. Author of "They Dare to Speak Out" and other books.
Thomas Getman
He served as director of World Vision's programs in Jerusalem, the West Bank and the Gaza Strip (1997-2001). Currently, he is director of humanitarian affairs and international relations -- and is responsible for diplomatic relations with UN government member missions in Geneva.
Neta Golan
Israeli peace activist and co-founder of the International Solidarity Movement. A peace movement committed to resisting the Israeli occupation of Palestinian land using nonviolent, direct-action methods and principles.
Jeff Halper
Co-founder of the Israeli Committee Against House Demolitions and a Professor of Anthropology at Ben Gurion University. He has researched and written extensively on Israeli society and Israel's occupation of Palestinian lands.
Amira Hass
Israeli Journalist living and working in the occupied territories, she writes for Ha'aretz -- an Israeli daily newspaper. She is the author of "Drinking the Sea at Gaza: Days and Nights in a Land under Siege."
Doug Hostetter
He worked as an Interfaith Peacebuilder for the Fellowship of Reconciliation and took part in delegations to Israel/Palestine to learn from Palestinian and Israeli peace activists and experience directly the situation of Palestinians living under military occupation.
Kathy Kamphoefner
She worked with the Christian Peacemaker Team in Hebron (West Bank) -- which embraces the vision of unarmed intervention waged by committed peacemakers ready to risk injury and death in bold attempts to transform lethal conflict through nonviolent means.
Adam Keller
Spokesperson of Gush Shalom -- an Israeli Peace Group which has played a leading role in determining the moral and political agenda of the peace forces in Israel, as well as in breaking the so-called "national consensus" based on misinformation.
Hava Keller
Israeli peace activist and founder of Women's Organization for Political Prisoners -- established with the objective of helping female political prisoners who struggle against Israel's occupation of Palestinian territory. She was also a soldier who served during the 1948 Arab-Israeli War.
Rashid Khalidi
Director of the Middle East Institute - School of International and Public Affairs/Columbia University. Author of "Palestinian Identity: The Construction of Modern National Consciousness" and "British Policy towards Syria and Palestine" -- among other books.
Peretz Kidron
Spokesperson of Yush Gvul -- an Israeli peace group campaigning against the occupation by backing soldiers who refuse duties of a repressive or aggressive nature. He is an Israeli peace activist, freelance journalist, and author of "Refusenik!: Israel's Soldiers of Conscience."
Rabbi Michael Lerner
Rabbi of Beyt Tikkun and editor of TIKKUN magazine -- A Bimonthly Jewish Critique of Politics, Culture and Society. In 2002, He founded The Tikkun Community which brought hundreds of people to Washington, D.C. to a Teach-In to Congress on Middle East Peace.
Rabbi Rebecca Lillian
The spiritual leader of Temple Beth Or in Miami, FL. She was previously co-chair of the Jewish Peace Forum and, under its auspices, organized Jewish peace delegations to Israel and the West Bank. She is currently on the Rabbinic Cabinet of the Jewish Alliance for Justice and Peace.
Roger Normand
Roger Normand is co-founder and executive director of the Center for Economic and Social Rights in New York, and has led recent human rights missions to Iraq, Afghanistan and Israel and Palestine.
Allegra Pacheco
She is an American-born Israeli attorney who works on the front lines and defends Palestinians in Israeli courts against house demolitions, land confiscations, torture, and illegal detentions. Her litigation won an Israeli Supreme Court banning certain torture methods in Israel.
Ilan Pappe
An Israeli-born lecturer from Haifa University. Through his life experiences and scholarly research he came to challenge the common historical narrative of his state. He is one of the so called 'New Historians' who in the late 1980s exposed the 1948 ethnic cleansing Israel carried out in Palestine.
Dr. Iyad Sarraj
A prominent Palestinian psychiatrist who has undergone extensive research about the mental health condition of children living and Gaza. He is the director of the Gaza Community Mental Health Program.
Yael Stien
Research director of B'Tselem, an Israeli human rights group -- established in 1989 by a group of prominent academics, attorneys, journalists, and Knesset members. It endeavors to document and educate the Israeli public and policymakers about human rights violations in the Occupied Territories.
Gila Svirsky
An Israeli peace campaigner for more than 15 years, lives in Jerusalem. She is a founding member of the Coalition of Women for a Just Peace, a grouping of eight Israeli and Palestinian women's peace organizations.
Ambassador Edward Walker
His diplomatic career includes positions as US Ambassador to Israel (1997-1999), the Arab Republic of Egypt (1994-1997), and the United Arab Emirates (1989-1992). He also served as Assistant Secretary of State for Near Eastern Affairs under the Clinton administration.

Alison Weir
American freelance journalist who has traveled independently throughout the West Bank and Gaza Strip. She founded If Americans Knew and frequently lectures throughout the United States to misinformed and uninformed citizens on one of the most significant issues affecting them today.