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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Olhares judeus de pura razão e humanismo para enfrentar o sionismo



Reproduzo aqui do Vi o mundo os seguintes artigos: "O próximo passo" de Gideon Levy, jornalista israelense que escreve no Haaretz, Telavive e "Israel x Gaza. Como incendiar o mundo muçulmano" do historiador Gabriel Kolko.
Todas as charges fazem parte da exposição ocorrida recentemente na Jordânia, intilulada Gaza Cartoons.
Não deixe de ler também no Vi o mundo a interessante análise de Fisk sobre as relações entre o novo presidente dos EUA e o Oriente Médio, AQUI.


Mais uma vez choro, o texto de Levy condensa o dossiê da barbárie registrada em fotografias que decidi publicar hoje aqui no blog da História em Projetos. Por mais chocante que seja ver o horror ao vivo e a cores, seria hipocrisia poupar nossos olhos, precisamos olhar com olhos de ver, para parar de naturalizar a violência e ficarmos imóvel diante de tanto horror.

Que a visão humanista destes poucos israelenses prevaleça sobre a barbárie. Que os facínoras que provocaram tanta destruição sejam julgados e paguem efetivamente por desumanizar a vida na Palestina.


O próximo passo

Gideon Levy, 23/1/2009, Haaretz, Telavive



A vasta maioria festejou aos gritos, uma minoria muito pequena gritou em silêncio, como um assovio na escuridão. A imensamente dominante maioria só queria mais e mais, a minoria muito pequena só queria que aquilo parasse. A absoluta maioria gargalhou, encomendou pizzas e filmes com cenas dos bombardeios, e muitos subiram aos telhados próximos à fronteira de Gaza, com os filhos, para assistir ao massacre com seus próprios olhos. Uma mínima maioria tentou protestar, encolhida de vergonha e de culpa, a cada nova imagem que chegava de Gaza.

Nunca antes, desde o verão de 1967, viu-se tão eficaz lavagem cerebral, e tal coro tão uniformemente manipulado – e voltou então o coro nacionalista bestial, insensível, cego. Mas agora, a poeira baixou nas ruínas, e não há bandagem suficiente para cobrir todas as chagas; os cemitérios cheios, os hospitais lotados; os feridos, os quebrados, os incapacitados, os amputados, os aleijados, os traumatizados, os enlutados, os milhares de feridos e as dezenas de milhares de novos desabrigados e sem-teto tentam reabilitar o que possam. Agora, é tempo de elaborar sobre alguma alternativa à guerra mais brutal e mais cruel de toda a história de Israel, e a mais completamente desnecessária.

Primeiro, há caminho que Israel jamais quis trilhar. Nem Oslo nem a retirada de 2005 foram suficientes. Sendo a guerra sempre o meio preferido e a violência sem freio, Israel praticamente sempre falou pela força, só a violência, como única linguagem. Pela força e por golpes, Israel fez a guerra, mais uma guerra. A força veio do exército; os golpes, da imprensa. Qualquer via alternativa foi sempre condenada.

Segundo, nunca é possível reconstruir, seja o que for, a partir só do que se ouve num determinado instante. Temos de lembrar o contexto, e o contexto sempre foi distorcido, a ponto de ter-se tornado irreconhecível.

O cessar-fogo com o Hamás foi firmado dia 19/6/2008. Foi recebido com frieza em Israel e com o azedume com que se recebem movimentos políticos. Ehud Olmert disse que seria "frágil e de curto-prazo", como profecia feita para se autocumprir. Nos meses seguintes, Israel foi intoxicada pelos mais aterrorizantes relatórios e análises dos serviços de segurança, sobre o quanto o Hamás se estaria armando, sobre os danos causados pelo cessar-fogo, pelos perigos que ameaçavam os israelenses por causa do cessar-fogo e sobre o quanto o Hamás, só o Hamás, beneficiava-se com o cessar-fogo. Apagou-se do mundo o fato de que os moradores do sul de Israel viveram tempos de sossego, praticamente sem nenhum Qassam. As centenas de túneis em Rafah, a maiorias dos quais traziam oxigênio para Gaza sitiada – à qual, mesmo quando se abriam os postos de fronteira, Israel sempre proibiu a chegada dos bens indispensáveis à vida, cadernos para as crianças, cimento para construir – foram descritos em Israel como se existissem exclusivamente para o contrabando de armas: túneis demoníacos, pelos quais teria passado tudo que, de algum modo, se assemelhasse a armas nucleares.

A nua verdade sobre o que estava sendo contrabandeado pelos túneis só foi conhecida na guerra: pouca, parca, fraca munição.

O acordo de cessar-fogo, é preciso lembrar, incluía que Israel abriria os postos de fronteira. Depois de assinado o acordo, Israel decidiu que os postos de fronteira permaneceriam fechacos, porque a passagem de Karni seria "inadequada".

Depois, começou o método "zipper": fechavam-se os postos de passagem depois de cada rojão Qassam, o velho método do chicote-e-cenoura. Sim, claro que houve Qassams e morteiros – poucos, desnecessários, improdutivos, errados, estéreis – que deveriam ter sido relevados com sabedoria. A cada evento, uma nova e maior violação do acordo de cessar-fogo, por Israel, que incluiu invasão por terra, dia 4/11/2008, para explodir uma casa e um túnel e para assassinar seis homens do Hamás – e que foi completamente ato de guerra de Israel a Gaza.

Depois disso, tudo se deteriorou muito rapidamente, como Israel previa, como Israel aparentemente quis que acontecesse.

Ainda que não se incluísse na discussão uma única palavra sobre o contexto amplo, histórico – os refugiados que vivem em Gaza desde 1948, o que os torna refugiados de guerra e os 40 anos de ocupação em Gaza, desde 1967 – o contexto a ser considerado hoje tem de incluir, necessariamente, o sítio e o boicote que Israel e a comunidade internacional impuseram (i) ao Hamás, partido que chegou ao poder mediante eleições perfeitamente democráticas, em janeiro de 2006; e (ii) também contra o governo palestino de unidade nacional estabelecido em março de 2007.

Tudo isso aconteceu antes de o Hamás assumir o controle de Gaza, pela força, por golpe, depois de não conseguir instituir-se como poder democrático, nascido de eleições democráticas, pelo tipo de oposição que lhe fez o partido Fatah. Todo esse curso de eventos teria de ter sido conduzido de outro modo, mas, então, o leite e o sangue já estavam derramados.

Nem o Hamás deveria ter sido boicotado, nem Gaza deveria ter sido sitiada. Israel nada ganhou nem com o boicote nem com o bloqueio. O resultado está aí, a vista de todos: estamos olhando para ele.

Desde a questão com a OLP (Organização de Libertação da Palestina), há anos, o rejeicionismo israelense nada trouxe de bom; só trouxe mais e mais violência, novos ciclos de violência e de radicalização, tanto dos palestinos quanto dos israelenses.

Hoje, o Hamás é mais forte do que era antes da guerra; a guerra sempre fortalece os extremismos, de todos os lados, o deles e o nosso. Depois a OLP converteu-se em Hamás e hoje é Jihad Mundial. Gaza não se tornou "moderada", como interessaria a Israel; está sangrando, devastada, e Israel nada lhe ofereceu, até hoje.

O sítio de Gaza fracassou, o bloqueio só trouxe danos, mesmo que se ignorem todos os seus aspectos ilegais e imorais. Agora, em vez de bloqueio – que a legislação internacional define como "castigo coletivo" e considera crime –, Israel está obrigada a abrir todas as passagens de fronteira. Abri-las, não fechá-las. Abri-las para a passagem de artigos de primeira necessidade, é claro, sim, e abri-las para a passagem de pessoas. Hoje. Abertura controlada, como em todas as fronteiras do mundo, mas abri-las.

Gaza precisa de uma passagem para o mundo, e essa passagem tem de passar por Israel. Israel não pode continuar a fingir que não ocupa Gaza há 40 anos, como se a ocupação não tivesse jamais existido e, agora, 'entregar' Gaza aos egípcios. O destino de Gaza é responsabilidade de Israel.

Passagens de fronteira desimpedidas e uma via livre de acesso aos territórios ocupados da Cisjordânia e com o mundo é um dos direitos básicos dos habitantes de Gaza.

Hoje, o primeiro-ministro de Israel, qualquer primeiro-ministro, todos os primeiros-ministros, têm de abrir diálogo com a Palestina, com toda a nação palestinense. Não apenas mais um diálogo, diálogo por diálogo, como o escritor David Grossman sugeriu essa semana no Haaretz – Israel já consumiu sua quota de falsos diálogos – mas negociações práticas, com objetivo, determinadas, com o claro e declarado objetivo de pôr fim à ocupação. Assim se demonstraria o "poder de contenção", a mais importante de todas as promessas e de todas as soluções.
As negociações, agora, têm de visar ao estabelecimento de um Estado Palestino, nas fronteiras de 1967, que são as máximas fronteiras legais de Israel e as fronteiras mínimas, legais, da Palestina. Deve parar hoje a construção de qualquer colônia. Devem-se tomar as medidas necessárias para evacuar todas as colônias da face da terra.

Basta de conversas rasas e ocas sobre se Israel estaria "preparada" para a Solução dos Dois Estados. Basta de exibir pesquisas que mostram que isto ou aquilo seria "o que a maioria dos israelenses" deseja ou não deseja. Basta de repetir o que tantos políticos e diplomatas teriam algum dia dito, contra ou a favor do Estado da Palestina. É hora de fazer acontecer o Estado da Palestina.

De nada adianta falar com o presidente Máhmude Abbas (Abu Mazen) e, ao mesmo tempo, prosseguir a construção de mais uma colônia em Modi'in Ilit. É impossível continuar a falar só com Máhmude Abbas, porque ele é ontem, é o homem de ontem para os palestinos e só representa uma pequena parte dos palestinos.

Hoje, Israel tem de falar com o Hamás. Imediatamente. Pelo menos, tem de tentar falar com o Hamás.

Também no Hamás há homens prontos a por de lado sonhos de ontem e visões do futuro, em nome de construir um presente melhor.

É hora de libertar os prisioneiros, as centenas de prisioneiros, uns prisioneiros políticos, outros prisioneiros de guerra. Eles também têm de poder manifestar suas esperanças nacionais, hoje.

E também, imediatamente, Israel tem de dizer "Sim" à Síria, imediatamente, antes de que também esse momento propício seja desperdiçado: a paz, em troca das colinas de Golan. Hoje. É possível fazer a paz com a Síria, mediante negociações.

Ao mundo árabe, Israel tem de dizer: queremos discutir a iniciativa saudita.

À comunidade internacional e aos próprios israelenses, Israel deve declarar: erramos; cometemos o pecado de matar, por arrogância, nessa guerra; e pedimos perdão, do fundo do coração. Mas nem isso adiantará, se Israel não mudar, radicalmente, a direção do seu modo de pensar e de operar no mundo.

Precisamente a partir dessa guerra horrenda, Israel pode começar a mudar. A partir do luto, das ruínas, dos feridos. Basta.

Israel já provou seu prodigioso – talvez prodigioso demais – poder militar, inúmeras vezes, prodígio sobre prodígio, e o quanto Israel não tem nenhum poder de autocontenção.

Israel já provou que "o meu é maior", mais violento, mais mortífero. É possível mudar de direção agora, depois dessa guerra terrível, horrenda, tanto quanto, depois da Guerra do Yom Kippur foi possível fazer a paz com o Egito (paz que também poderia ter sido alcançada sem guerra).

Mas Israel sempre se repete: concessões, se alguma, só depois de banhos de sangue.

Levantar o sítio de Gaza, pôr fim ao bloqueio, dialogar com o Hamás, paz com a Síria, aceitar a iniciativa árabe – esses são passos práticos.

Mas, antes disso, tem de acontecer uma mudança de fundo, em Israel. Depois de décadas de demonização e desumanização dos árabes, é tempo, hoje, de reconhecer que são como nós, exatamente como nós, iguais a nós. Têm sentimentos, sonhos e direitos. Essa consciência humana basal é que foi apagada em Israel. Sem ela, Israel fracassará; com ela, tudo voltará a ser muito mais alcançável.

Por anos, a direita israelense banqueteou-se de palavras ocas e nada respondeu à mais simples das perguntas: Então, o que fazer?

Como estarão as coisas daqui a 20, 30 ou 50 anos? Então, os palestinos já serão maioria "entre o rio e o mar".

E a direita de Israel nada tem a dizer ou fazer. Nada, nenhuma resposta que não seja a guerra.

A esquerda tem resposta – que aqui escrevi. E os israelenses da "opinião pública" voltarão a condenar a esquerda ao ostracismo, ridícula esquerda, vão ignorá-la, vão acusá-la de ser "ingênua" ou acusarão a esquerda de "traição".

Que pelo menos ninguém diga que a esquerda de Israel não sabe o que propor, que não vê caminho e que não tenha posto o pé na rua, no caminho que vê – o caminho da paz, não da guerra – completa e sinceramente.


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Israel x Gaza. Como incendiar o mundo muçulmano

Gabriel Kolko, 21/1/2009, Counterpunch


Gabriel Kolko é o mais renomado historiador contemporâneo especialista em história das guerras contemporâneas. É autor dos clássicos Century of War: Politics, Conflicts and Society Since 1914, Another Century of War? e The Age of War: the US Confronts the World . É autor também da melhor história da Guerra do Vietnã, Anatomy of a War: Vietnam, the US and the Modern Historical Experience. Seu livro mais recente é After Socialism.

Como a história falará da guerra contra os palestinos em Gaza? Outro holocausto, dessa vez perpetrado pelos filhos das vítimas do anterior? Um golpe eleitoral, montado por ambiciosos políticos israelenses, para ganhar votos nas eleições do dia 10/2 próximo? Um teste para os novos modelos de armamento fabricados pelos EUA? Ou como uma tentativa de encurralar o novo governo Obama, numa posição anti-Irã? Ou como tentativa para estabelecer a "credibilidade" [aspas no original] do exército de Israel, depois da vergonhosa derrota na guerra contra o Hizbóllah no Líbano em 2006? Tudo isso provavelmente. E muito mais.

Mas uma coisa é certa. Israel matou pelo menos 100 palestinos para cada uma das baixas noticiadas, desproporção tão imensa, que causou horror em quase todo o mundo e criou nova causa que já mobilizou um número praticamente incalculável de pessoas – provavelmente, uma oposição tão forte quanto a que se uniu contra a guerra do Vietnã. Israel autoconverteu-se em nação pária – exceto do ponto de vista dos EUA e de um pequeno grupo de outros países. O mais terrível de tudo: Israel incendiou o mundo muçulmano.

Como Bruce Riedel, um “falcão” que foi alto funcionário da CIA por quase 30 anos e é hoje um dos muitos conselheiros do presidente Obama, escreveu há pouco tempo: “o conflito Israel-Palestina é a principal questão que alimenta a al-Quaeda", e “os muçulmanos tem convicção muito funda quanto ao que, para eles, foi erro: a criação de Israel; essa convicção contamina todos os aspectos do que eles pensam e fazem e é o argumento-chave para convencer a Ummah* da correção da luta da al-Quaeda.” Isso, antes de Gaza. Grande parte do mundo hoje odeia Israel e demorará anos, antes de que as atrocidades praticadas em Gaza sejam esquecidas ou, pelo menos, razoavelmente apagadas. Os extremistas muçulmanos tornar-se-ão muito mais fortes.

Os israelenses estão sendo acusados – e com muitas razões – por crimes de guerra. Muitos dos acusados são filhos de famílias que sofreram nas mãos dos nazistas há mais de 60 anos e vivem hoje de repetir que o Holocausto foi a única tragédia que jamais houve – como se o número de mortos não-judeus, no mundo, depois de 1945 não existisse.

A ONU e grupos de Direitos Humanos já exigem que Israel seja julgada por crimes de guerra, pelo número oficial de 1.300 mortos em Gaza, assassinados por descomunal poder de fogo e com munição, como as bombas de fósforo, proibida e ilegal. Israel já avisou seus principais oficiais para que se preparem para defenderem-se contra a acusação de prática de crime de guerra. O Procurador Geral de Israel, General Menahem Mazuz, disse que o governo já espera "uma onda de processos internacionais."

Daqui em diante, Israel terá de viver com as consequências geopolíticas do que fez, na Região.

É provável que Israel tenha destruído, talvez de modo irreparável, qualquer possibilidade de estabelecer relações tranquilas com seus vizinhos árabes mais próximos e outras nações muçulmanas – o Catar e a Mauritania já suspenderam relações diplomáticas com Israel –, menos porque as camadas governantes dessas nações desejem castigar Israel, mas porque as massas de eleitores, ou, em geral, das populações, exigem que Israel seja punida; e esse desejo popular implica grave risco para a estabilidade dos regimes na Região.

Talvez ainda mais importante: os EUA sempre apoiaram lealmente Israel durante décadas, com um dilúvio de armas moderníssimas e com total proteção diplomática; mas os EUA enfrentam hoje enormíssima crise econômica e precisam do dinheiro árabe (para não falar do petróleo), como jamais antes precisaram. A estabilidade da aliança crucial de EUA e Israel está mais pressionada hoje, do que jamais, no passado.

Desde o início, um culto machista – chamado "autodefesa" – foi traço sempre encontrado no sionismo; apesar da opinião de alguns idealistas, como A. D. Gordon, a tendência dominante em Israel sempre acolheu sem protesto as respostas violentas contra os árabes circunjacentes. Os militares sempre foram glorificados por isso, inclusive esquerdistas de fachada, como David Ben Gurion. De tal modo, que Israel converteu-se numa Esparta regional, armada com armamento moderníssimo e bombas atômicas, o que lhe assegurou um monopólio virtual sobre uma vasta região. Esse monopólio também será inevitavelmente desafiado.

Uri Avnery, importante ativista dos movimentos pela paz, escreveu, há poucos dias, que “centenas de milhões de árabes que cercam Israel nessa parte do mundo verão os combatentes do Hamás como heróis da nação árabe e, além disso, também verão seus próprios governos nacionais em plena nudez, como são: criminosos, venais, corruptos e traiçoeiros. (...) Nos próximos anos, todos verão com clareza a absoluta loucura que foi a guerra de Gaza." (Leia aqui no blog um dos texto do Uri Avnery "O comandante-em-chefe enlouqueceu", 17/1/2009).

Estamos vivendo outra grande tragédia, e as tragédias são insumo básico na história do mundo, há séculos. Dessa vez, as vítimas de ontem e seus filhos são os carrascos de hoje.

Nota: *Ummah- palavra árabe que significa comunidade/união das nações (no caso dos países árabes), no islamismo o termo se refere à diáspora do mundo muçulmano.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Três idéias simples para acabar com ao apoio político aos crimes israelenses

por Jean Bricmont*
16/Jan/09

Enquanto Israel dá sequência aos bombardeios contra a população palestina e os paramilitares do general Mohamed Dahlan esperam na fronteira egípcia a ordem de entrar em Gaza para massacrar as células do Hamas, a opinião pública européia se sente totalmente impotente. Apesar de sua amplitude, as manifestações contrárias à ofensiva sucedem-se umas às outras sem impacto sobre os responsáveis políticos pelo ataque a Gaza, ou sobre aqueles que poderiam intervir no conflito. O professor Jean Bricmont propõe uma estratégia simples para mudar as relações de força na Europa, e, por fim, abalar as bases de sustentação política em que se ampara o regime de apartheid israelense.

Nós somos provavelmente milhões a assistir, revoltados e impotentes, à destruição de Gaza, ao mesmo tempo em que temos de nos resignar a um discurso mediático que enfoca a ofensiva em Gaza sob o ângulo de "resposta ao terrorismo" e "direito de defesa israelense". Porém, como ressaltou o jornalista inglês Robert Fisk, aqueles que lançam foguetes no sul de Israel são muitas vezes descendentes dos habitantes dessa região que foram expulsos em 1948 [1] . Enquanto esta realidade fundamental não for reconhecida e esta injustiça reparada, nada de sério terá sido feito ou dito em favor da paz.

Mas o que fazer? Organizar novos diálogos entre judeus progressistas e muçulmanos moderados? Esperar por uma nova iniciativa de paz, ou por novas declarações de ministros de países europeus?

Será que todas essas comédias já não duraram o bastante? Aqueles que querem fazer algo se atêm muito frequentemente a exigências irrealistas, como, por exemplo, requerer a criação de um tribunal internacional para julgar os crimes de guerra israelenses, ou uma intervenção eficaz da ONU ou da União Européia no conflito. Todos sabem muito bem que nada disso ocorrerá, porque os tribunais internacionais simplesmente refletem as relações de força no mundo, que estão no momento em favor de Israel. São estas relações de força que é preciso mudar, e isso só pode ser feito de pouco em pouco. É verdade que há urgência quanto a Gaza, mas do mesmo modo é verdade que nada pode ser feito hoje, justamente porque o demorado processo de mudança em vista do qual deveríamos ter agido no passado nunca foi consumado.

Entre as propostas feitas a seguir, duas se situam no plano ideológico e uma no plano prático.

1. Desfazer-se da ilusão segundo a qual Israel é "útil"

Muitas pessoas, sobretudo de esquerda, continuam a pensar que Israel não é senão um peão em uma estratégia norte-americana capitalista ou imperialista de controle do Oriente Médio. Nada poderia ser mais equivocado. Israel não serve praticamente a ninguém, salvo aos seus próprios fantasmas de dominação. Não há petróleo em Israel nem no Líbano. As guerras ditas pelo petróleo, de 1991 e de 2003, foram conduzidas pelos Estados Unidos sem nenhuma ajuda israelense, e, em 1991, com o pedido explícito de que Israel não interviesse, para não pôr em risco a aliança estabelecida com alguns países árabes na formação de uma coalizão contra o Iraque. Como "aliado estratégico", pode-se, por assim dizer, encontrar coisa melhor. Não há dúvida de que as petro-monarquias pró-ocidentais e os regimes árabes "moderados" estão em choque diante do fato de que Israel ocupa incessantemente as terras palestinas e torna assim mais radical e extremista uma boa parte de suas populações. Israel, com suas políticas absurdas, provocou a um só tempo a criação do Hezbollah e do Hamas, e é, em larga medida, indiretamente responsável pelo recrudescimento do "islamismo radical".

É preciso também compreender que os capitalistas, tomados em seu conjunto (que abrange mais do que simplesmente os negociantes de armas...), ganham muito mais com a paz do que com a guerra: basta ver as fortunas obtidas pelos capitalistas ocidentais na China e no Vietnã desde que a paz foi acertada com esses países, em oposição à época de Mao e da guerra do Vietnã. Os capitalistas não estão preocupados em saber de que "povo" Jerusalém é a "eterna capital", e, se a paz aí reinasse, eles se precipitariam sobre a Cisjordânia e Gaza para explorar uma mão de obra qualificada e sem muitos outros meios de sobreviver.

Finalmente, qualquer norte-americano preocupado com a influência de seu país no mundo vê bem que alienar-se de mil milhões de muçulmanos para satisfazer a todos os caprichos de Israel não é exatamente um investimento racional no futuro. [2]

São frequentemente os que se consideram marxistas que não querem ver no apoio a Israel senão uma simples manifestação de fenômenos gerais como o capitalismo ou o imperialismo (mesmo Marx via com mais nuances a questão do reducionismo econômico). Porém, manter tais posições não ajuda o povo palestino - com efeito, o sistema capitalista, que se o ame ou não, é um sistema muito robusto para depender de modo significativo da ocupação da Cisjordânia; esse sistema aliás parece ir bem na África do Sul desde o desmantelamento do apartheid.

2. Liberar a palavra não-judia sobre a Palestina

Se o apoio a Israel não se explica principalmente por interesses econômicos ou estratégicos, por que este silêncio e esta cumplicidade? Poder-se-ia invocar a indiferença com relação ao que se passa "longe de nós". Isso pode ser verdade para a maioria da população, mas não para o meio intelectual dominante, o qual se excede em críticas a Venezuela, Cuba, Sudão, Irã, Hezbollah, Hamas, Síria, Islã, Sérvia, Rússia e China. E, quanto a todos esses assuntos, mesmo os mais grosseiros exageros são correntes e aceitáveis.

Uma outra explicação para a indulgência com relação a Israel é a "culpabilidade" ocidental quanto às perseguições anti-semitas no passado, particularmente os horrores da Segunda Guerra Mundial. A esse respeito, afirma-se vez por outra que os Palestinos não são em nada culpados desses horrores e não devem pagar pelos crimes de outros. Isso é verdade, mas o que não é quase nunca dito e que no entanto é evidente, é que hoje a imensa maioria dos franceses, dos alemães ou dos padres católicos são tão inocentes quanto os palestinos pelo que se passou durante a guerra, devido à simples razão de que eles nasceram depois disso ou eram crianças na época. A noção de culpabilidade coletiva já era muito discutível em 1945, mas a idéia de transmitir essa culpabilidade aos descendentes é quase religiosa.

É aliás curioso que, à época em que a Igreja abandonava a idéia de povo deicida [3] , a da responsabilidade quase universal quanto ao judeocídio começava a se impor. Mas esta "culpabilidade" legitima uma enorme hipocrisia. Supõe-se que todos devemos nos sentir culpados pelos crimes do passado, quanto aos quais, por definição, não se pode nada fazer, mas quase ninguém diz que devemos nos sentir culpados pelos crimes de nossos aliados políticos (Estados Unidos e Israel) que se desenrolam hoje, diante de nossos olhos - crimes com os quais, no mínimo, poderíamos romper claramente qualquer ligação de solidariedade. E, por mais que seja todo o tempo afirmado que a lembrança do holocausto não deve justificar a política israelense, é evidente que é no seio das populações mais culpabilizadas por esta lembrança (alemães, franceses e católicos) que o silêncio é maior (por oposição aos negros, aos árabes e aos britânicos).

O que precede é uma banalidade, mas uma banalidade difícil de se dizer - entretanto, cumpre repeti-la até que ela seja reconhecida como tal caso se queira que os não-judeus cheguem a se exprimir livremente sobre a Palestina. Talvez o melhor slogan para as manifestações contra a ofensiva israelense não seja "Somos todos Palestinos" - slogan bem intencionado, mas que não reflete a realidade da nossa situação e a deles -, mas antes: "Nós não somos culpados do holocausto". Nesse ponto, nós certamente compartilhamos alguma coisa com os palestinos.

Porém, a principal razão do silêncio não pode ser unicamente a culpabilidade, precisamente porque esta é bem artificial, mas o medo. Medo da maledicência, da difamação, ou de processos, nos quais o único ato de acusação é sempre o mesmo: o anti-semitismo. Se isso não é convincente o bastante, podemos tomar o exemplo de um jornalista, um homem político ou um editor: fechemo-nos com ele em um lugar onde se pode verificar que não há câmera nem microfone, e perguntemos-lhe se ele diz publicamente tudo o que realmente pensa sobre Israel, e, se não o diz (em minha opinião, a resposta mais provável), por que se cala? Teme arruinar os interesses dos capitalistas na Cisjordânia? Enfraquecer o imperialismo norte-americano? Ou ainda, afetar o fluxo do petróleo? Ou, ao contrário, tem medo das organizações sionistas, de suas perseguições e de suas calúnias?

Parece-me evidente, após muitas discussões com pessoas de origem não-judia, que a boa resposta é a última. As pessoas calam o que pensam do auto-proclamado "Estado judeu" por medo de serem tratadas como anti-semitas. Esse sentimento é ainda reforçado pelo fato de que a maioria das pessoas que se vêem chocadas pela política israelense têm realmente horror do que se passou na Segunda Guerra Mundial e são realmente hostis ao anti-semitismo. Por causa disso, quase todos interiorizaram a idéia de que o discurso sobre Israel, e, mais ainda, sobre as organizações sionistas, continua um tabu que não se deve violar, e desse modo permanece um clima de medo generalizado. Pode-se mesmo notar que, em geral, são os que dão, em particular, "conselhos de amigo" (preste atenção, não ponha no mesmo saco todos os seus antagonistas políticos, não cometa exageros: islamismo..., extrema-direita..., Dieudonné [4] ) os primeiros a declarar em público que não temem nada e que as pressões não existem. Evidentemente, reconhecer o medo seria o melhor meio de começar a livrar-se dele.

Consequentemente, a primeira coisa a fazer é combater esse medo. Nem sempre os militantes da causa palestina compreendem tal necessidade, já que, através de suas ações, eles demonstram não temer nada. São frequentemente pessoas muito devotadas e que não aspiram a nenhuma posição de poder na sociedade. Entretanto, deveriam imaginar-se no lugar daqueles que ocupam ou esperam ocupar tais posições (e que, portanto, têm mais meios de afetar as decisões políticas) e que são, precisamente por causa de suas ambições, vulneráveis à intimidação. O único modo de proceder é criar um clima de "desintimidação", de foma que se apoie cada homem político, cada jornalista, cada escritor que ousar escrever uma frase, uma palavra, uma vírgula que critique Israel. É preciso fazê-lo em todas as direções, sem limitar tal apoio a pessoas que têm posições "corretas" sobre outros assuntos (segundo o eixo esquerda-direita), ou que têm posições "perfeitas" sobre o conflito.

Finalmente, antes de se falar em "apoio" à causa palestina, como muitas organizações o fazem, apoio que não obterá jamais, por mais lamentável que o seja, a adesão da maioria das pessoas dos países europeus, dever-se-ia apresentar a questão palestina sob o ângulo dos interesses da Europa. Com efeito, a Europa não tem nenhuma razão para se alienar do mundo árabe-muçulmano ou para ver aumentar a raiva contra o Ocidente, e é catastrófico para os países europeus criar um conflito a mais com a parte da população "saída da imigração" que, frequentemente, se simpatiza com os palestinos. Notemos, com relação a isso, que não foi por preconizar um apoio indefectível a Israel que os sionistas venceram, mas antes por um lento trabalho de identificação entre a defesa do Ocidente (em matéria de provisão petrolífera ou de luta contra o islamismo) e a de Israel (é aliás lamentável que muitos discursos de esquerda sobre a utilidade de Israel para o controle do petróleo, assim como discursos laicos sobre o Islã, reforcem esta identificação).

3. As iniciativas práticas possíveis resumem-se a três letras: BDS (Boicotes, desinvestimentos, sanções)

As organizações pró-palestinas continuam a exigir sanções [5] a Israel, mas como tal tipo de medida é prerrogativa dos Estados, todos sabem que isso não ocorrerá a curto prazo. Quanto às medidas de desinvestimento, ou são tomadas por organizações que têm dinheiro para investir (sindicatos, Igrejas) e tal decisão depende de seus membros, ou por empresas que estabeleceram uma colaboração estreita com Israel e que não mudarão de política se não sofrerem ações de boicote, o que nos leva, por fim, a esta forma de ação, que visa não somente os produtos israelenses, mas também as instituições culturais e acadêmicas deste Estado [6] .

Notemos que esta tática foi utilizada contra a África do Sul e que as duas situações são parecidas: o regime de apartheid e Israel são (ou eram) as "legs" [7] do colonialismo europeu, e têm muita dificuldade em aceitar (contrariamente à maior parte da opinião pública na Europa) o fato de que esta forma de dominação deve acabar. As ideologias racistas que servem de base aos dois projetos os tornam insuportáveis aos olhos da maioria da humanidade e criam ódios e conflitos sem fim. Poder-se-ia mesmo dizer que Israel não é senão uma outra África do Sul, mas, desta vez, com o acréscimo do holocausto.

No caso do boicote cultural e acadêmico, levanta-se às vezes a objeção segundo a qual uma tal prática atinge pessoas inocentes, bem intencionadas, que querem a paz, etc., argumento já utilizado, aliás, na época da África do Sul (e o mesmo argumento poderia ser aduzido no caso das pessoas que trabalham em empresas vítimas de boicote econômico). No entanto, embora o Estado de Israel reconheça que há vítimas inocentes em Gaza, isso não o impede de matá-las. Nós não propomos matar ninguém. A ação de boicote é perfeitamente cidadã e não-violenta; entretanto, mesmo uma tal ação pode provocar danos colaterais - vitimaria também os artistas e cientistas bem intencionados.

Este tipo de ação é comparável à objeção de consciência quando do alistamento militar [8] ou às ações de desobediência civil - o Estado de Israel não respeita nenhuma das resoluções da ONU que lhe concernem, e os governantes europeus, longe de contribuir para que tais medidas se cumpram, não fazem senão reforçar suas ligações com Israel -; nós temos o direito, enquanto cidadãos (cuja opinião, embora inaudível, é provavelmente majoritária e o seria certamente se um debate aberto pudesse ocorrer), de dizer NÃO.

O importante nas sanções, particularmente no nível cultural, é precisamente sua função simbólica (e não puramente econômica). Trata-se de dizer a nossos governantes que não aceitaremos sua política de colaboração e, in fine, dizer a Israel que o país é o que escolheu ser, um Estado fora-da-lei internacional.

Um outro argumento frequente contra o boicote assenta-se no fato de que ele é rejeitado por israelenses progressistas e por certo número de palestinos "moderados" (embora seja sustentado pela maioria da sociedade civil palestina). Contudo, mais do que saber o que eles querem, importa saber que política externa nós queremos para nossos próprios países. O conflito árabe-israelense ultrapassa em muito o âmbito local e já tomou proporções mundiais; além disso, levanta a questão fundamental do respeito ao direito internacional. Nós, ocidentais, podemos perfeitamente querer nos integrar ao resto do mundo que rejeita a barbárie israelense, e isso é já uma razão suficiente para encorajar o boicote.


[1] "Remettre dans son contexte le tir de représailles sur Najd (Sderot)" , por Um Khalil, The International Solidarity Movement, 15 de novembro de 2006.
[2] Para uma discussão mais detalhada sobre as verdadeiras razões da ajuda norte-americana a Israel, ver John J. Mearsheimer, Stephen M. Walt, "Le lobby pro-israélien et la politique étrangère américaine", La Découverte, 2007.
[3] Deicida é aquele que matou Deus; os cristãos podem empregar essa palavra como epíteto para judeu. [N. do T.]
[4] Dieudonné M'bala M'bala, humorista francês cujos discursos acerca dos judeus provocaram inúmeras reações, perseguições judiciais e condenações por anti-semitismo. [N. do T.]
[5] "Cessons de tergiverser : il faut boycotter Israël, tout de suite!", por Virginia Tilley; "Aucun État n'a le droit d'exister comme État raciste" , entrevista com Omar Barghouti; Réseau Voltaire, 6 de setembro de 2006 ; 6 de dezembro de 2007.
[6] Para uma boa resposta às principais objeções levantadas contra essa tática, ver Naomi Klein, "Israel : Boycott, Divest, Sanction" (The Nation, 26 de janeiro de 2009).
[7] Pernas. Em inglês no original. [N. do T.]
[8] A expressão objeção de consciência aplica-se à situação em que o indivíduo reclama o direito de não se alistar nas Forças Armadas alegando que o serviço militar fere seus princípios religiosos, morais ou éticos. [N. do T.]


[*] Professor de física teórica na Universidade de Louvaina (Bélgica). Publicou recentemente Impérialisme humanitaire: droits de l'homme, droit d'ingérence, droit du plus fort?
Tradução: Fernanda Correia de Oliveira

O original encontra-se em Voltaire Net
Este artigo encontra-se Resistir Info

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

SEMENTES DO PODER


Livro que denuncia Monsanto será lançado hoje em em São Paulo


Autora estará no dia 8 de dezembro próximo, em São Paulo, para a exibição de documentário sobre a transnacional e o lançamento da edição brasileira do livro.


por Hideyo Saito


Contrabando de sementes transgênicas para sua introdução clandestina no Brasil. Manipulação de dados científicos em seu proveito. Propostas de suborno a entidades sanitárias reguladoras.


Esses são alguns dos fatos narrados no livro "O mundo segundo a Monsanto", da jornalista francesa Marie-Monique Robin, cuja edição brasileira será lançada na próxima segunda-feira, 8 de dezembro, a partir das 18h, no Anfiteatro de Geografia, na USP, com a presença da autora. A obra é resultado de três anos de pesquisas e entrevistas em diversos países, entre os quais o Brasil, que permitiram à autora traçar as atividades da Monsanto, empresa estadunidense fabricante de organismos geneticamente modificados (OGM), atribuindo-lhe responsabilidade por iniciativas como as mencionadas no início desta nota.

A autora: Marie-Monique Robin


A jornalista produziu primeiro um documentário com o mesmo título, que chocou o público europeu ao ser exibido pela TV Arte (franco-alemã), no início deste ano. A versão em livro, preparada em seguida, tornou-se best-seller na França, com mais de 80 mil exemplares vendidos até o momento e direitos de tradução negociados para mais de 10 idiomas e países da Europa, Américas e Ásia.


A edição brasileira tem prefácio da ex-ministra Marina Silva. O lançamento na capital paulista terá a exibição do documentário e, em seguida, um debate com a jornalista francesa moderado pela professora Larissa Mies Bombardi, da Faculdade de Geografia. No dia seguinte, a autora do livro participará de novos atos de lançamento, na Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiroz (Esalq), de Piracicaba, e em um acampamento do Movimento dos Sem-Terra, no interior paulista. Nos demais dias da semana, estará no Rio de Janeiro, em Brasília, onde falará para deputados e senadores no Congresso Nacional, e em Curitiba, para uma audiência com o governador Roberto Requião.

Agente laranja


"O mundo segundo a Monsanto" conta a participação da empresa, sediada em Saint Louis (Missouri, EUA), no Projeto Manhattan, que deu origem à bomba atômica, na produção do agente laranja, desfolhante utilizado na Guerra do Vietnã, e nos atuais organismos geneticamente modificados, que procura apresentar como arma no combate à fome mundial.

Fotos: cenas do documentário de Marie-Monique Robin


A julgar por esse respeitável currículo, é bom que fiquemos sempre de sobreaviso quanto às atividades da transnacional. Basta relembrar o caso do agente laranja, utilizado maciçamente no período de 1962 a 1970 sobre as florestas vietnamitas. O objetivo era desfolhar as árvores, para dificultar o uso das matas como esconderijo pelos guerrilheiros vietcongues. Ocorre que esse produto contém uma variação da dioxina chamada TCCD, que é um potentíssimo veneno. Além de secar as árvores, o veneno acabou contaminando a terra e a cadeia alimentar. As denúncias que apontavam esse efeito na época não surtiram efeito e os Estados Unidos continuaram a despejar toneladas do veneno em solo vietnamita.

O resultado é que, quase 35 anos após o fim da guerra, ainda existem 150 mil "bebês de agente laranja", que nasceram com pés e mãos deformados, dificuldades de fala e cérebros severamente afetados. Mas o total das vítimas vivas com sérias seqüelas ultrapassa a casa do milhão. Segundo a Cruz Vermelha do Vietnã, é fácil rastrear a origem desses problemas e chegar ao agente laranja. A Monsanto é uma das oito empresas apontadas como co-responsáveis por esse crime contra a humanidade.


Fotos: cenas do documentário de Marie-Monique Robin


Semente contrabandeada no Brasil


O Brasil é contemplado no livro, de forma especial, no capítulo "Paraguai, Brasil, Argentina: a República Unida da Soja", em que a autora relata a introdução clandestina de sementes transgênicas no país. Quando as autoridades brasileiras acordaram para o fato, havia dezenas de milhares de agricultores utilizando a semente geneticamente modificada de forma ilegal. Foi uma política de fato consumado que obrigou o governo Lula a, enfrentando protestos de ambientalistas, legalizar centenas de hectares plantados com grãos contrabandeados.


O livro mostra ainda os perigos do crescimento das plantações de transgênicos no mundo. Ainda mais porque a Monsanto detém 90% das propriedades genéticas das sementes OGM e costuma utilizar seu poderio para obter aval de cientistas, cumplicidade de autoridades reguladoras e silêncio da mídia para não ser atrapalhada em sua trajetória. A denúncia da jornalista francesa recoloca a transnacional no centro do debate sobre os benefícios e os riscos do uso de grãos geneticamente modificados. Marie-Monique Robin conta no livro que tentou ouvir a versão da Monsanto sobre as acusações, mas a empresa preferiu não respondê-las.


Sobre a autora

Marie-Monique Robin, jornalista investigativa e independente, é autora de livros como Voleurs d'organes, enquête sur un trafic (Bayard, 1996), Escadrons de la mort, l'école française (La Découverte, Paris, 2004) e L'école du soupçon. Les dérives de la lutte contre la pédophilie (La Découverte, Paris, 2006). Além de diretora de documentários premiados internacionalmente, como "Esquadrões da Morte: A Escola Francesa", que trata da Operação Condor, para o qual entrevistou alguns dos maiores repressores das ditaduras militares dos anos 70.


Ficha técnica

Título: O Mundo segundo a Monsanto – da dioxina aos transgênicos, uma multinacional que quer o seu bem

Autora: Marie-Monique Robin

Editora: Radical Livros

SITE OFICIAL DO DOCUMENTÁRIO LE MONDE SELON MONSANTO

Em março deste ano a Carta Capital publicou a este respeito a seguinte matéria:


20/03/2008

A Monsanto produz 90% dos transgênicos plantados no mundo e é líder no mercado de sementes. Tal hegemonia coloca a multinacional norte-americana no centro do debate sobre os benefícios e os riscos do uso de grãos geneticamente modificados. Para os defensores da manipulação dos genes, a Monsanto representa o futuro promissor da “revolução verde”. Para ecologistas e movimentos sociais ligados a pequenos agricultores, a empresa é a encarnação do mal.

Esse último grupo acaba de ganhar um reforço a seus argumentos. Resultados de um trabalho de três anos de investigação da jornalista francesa Marie-Monique Robin, o livro Le Monde Selon Monsanto (O Mundo Segundo a Monsanto) e o documentário homônimo são um libelo contra os produtos e o lobby da multinacional.

Fotos: cenas do documentário de Marie-Monique


O trabalho cataloga ações da Monsanto para divulgar estudos científicos duvidosos de apoio às suas pesquisas e produtos, a exemplo do que fez por muitos anos a indústria do tabaco, relaciona a expansão dos grãos da empresa com suicídios de agricultores na Índia, rememora casos de contaminação pelo produto químico PCB e detalha as relações políticas da companhia que permitiram a liberação do plantio de transgênicos nos Estados Unidos. Em 2007, havia mais de 100 milhões de hectares plantados com sementes geneticamente modificadas, metade nos EUA e o restante em países emergentes como a Argentina, a China e o Brasil.

Marie-Monique Robin, renomada jornalista investigativa com 25 anos de experiência, traz depoimentos inéditos de cientistas, políticos e advogados. A obra esmiúça as relações políticas da multinacional com o governo democrata de Bill Clinton (1993-2001), e com o gabinete do ex-premier britânico Tony Blair. Entre as fontes estão ex-integrantes da Food and Drug Administration (FDA), a agência responsável pela liberação de alimentos e medicamentos nos EUA.

A repórter, filha de agricultores, viajou à Grã-Bretanha, Índia, México, Paraguai, Vietnã, Noruega e Itália para fazer as entrevistas. Antes, fez um profundo levantamento na internet e baseou sua investigação em documentos on-line para evitar possíveis processos movidos pela Monsanto. A empresa não deu entrevista à jornalista, mas, há poucas semanas, durante uma apresentação em Paris de outro documentário de Robin, uma funcionária da multinacional apareceu e avisou que a companhia seguia seus passos. Detalhe: a sede da Monsanto fica em Lyon, distante 465 quilômetros da capital francesa

Procurada por CartaCapital, a Monsanto recusou-se a comentar as acusações no livro. Uma assessora sugeriu uma visita ao site da Associação Francesa de Informação Científica, onde há artigos de cientistas com críticas ao livro de Robin. A revista, devidamente autorizada pelo autor, reproduz na página 11 trechos do artigo de um desses cientistas, Marcel Kuntz, diretor do Centro Nacional de Pesquisa Científica de Grenoble.

Não é de hoje, mostra o livro, que herbicidas da Monsanto causam problemas ambientais e sociais. Robin narra a história de um processo movido por moradores da pequena Anniston, no Sul dos EUA, contra a multinacional, dona de uma fábrica de PCB fechada em 1971. Conhecida no Brasil como Ascarel, a substância tóxica era usada na fabricação de transformadores e entrava na composição da tinta usada na pintura dos cascos das embarcações. Aqui foi proibida em 1981.

A Monsanto, relata a repórter, sabia dos efeitos perversos do produto desde 1937. Mas manteve a fábrica em funcionamento por mais 34 anos. Em 2002, após sete anos de briga, os moradores de Anniston ganharam uma indenização de 700 milhões de dólares. Na cidade, com menos de 20 mil habitantes, foram registrados 450 casos de crianças com uma doença motora cerebral, além de dezenas de mortes provocadas pela contaminação com o PCB. Há 42 anos, a própria Monsanto realizou um estudo com a água de Anniston: os peixes morreram em três minutos cuspindo sangue.

Robin alerta que os tentáculos da Monsanto atingem até a Casa Branca. A influência remonta aos tempos da Segunda Guerra Mundial e ao período da chamada Guerra Fria. Donald Rumsfeld, ex-secretário de Defesa do governo Bush júnior, dirigiu a divisão farmacêutica da companhia. A multinacional manteve ainda uma parceria com os militares. Em 1942, o diretor Charles Thomas e a empresa ingressaram no Projeto Manhattan, que resultou na produção da bomba atômica. O executivo encerrou a carreira na presidência da Monsanto (1951-1960).

Fotos: cenas do documentário de Marie-Monique


Na Guerra do Vietnã (1959-1975), a empresa fornecia o agente laranja, cujos efeitos duram até hoje. A jornalista visitou o Museu dos Horrores da Dioxina, em Ho Chi Minh (antiga Saigon), onde se podem ver os efeitos do produto sobre fetos e recém-nascidos.

Alan Gibson, vice-presidente da associação dos veteranos norte-americanos da Guerra do Vietnã, falou à autora dos efeitos do agente laranja: “Um dia, estava lavando os pés e um pedaço de osso ficou na minha mão”.

Boa parte do trabalho de Robin é dedicada a narrar as pressões sofridas por pesquisadores e funcionários de órgãos públicos que decidiram denunciar os efeitos dos produtos da empresa. É o exemplo de Cate Jenkis, química da EPA, a agência ambiental dos Estados Unidos.

Em 1990, Jenkis fez um relatório sobre os efeitos da dioxina, o que lhe valeu a transferência para um posto burocrático. Graças à denúncia da pesquisadora, a lei americana mudou e passou a conceder auxílio a ex-combatentes do Vietnã. Após longa batalha judicial, Jenkis foi reintegrada ao antigo posto.

Há também o relato de Richard Burroughs, funcionário da FDA encarregado de avaliar o hormônio de crescimento bovino da Monsanto. Burroughs diz ter comprovado os efeitos nocivos do hormônio para a saúde de homens e animais e constatou que, com o gado debilitado, os pecuaristas usavam altas doses de antibióticos. Resultado: o leite acabava contaminado. Burroughs, conta a jornalista, foi demitido. Mas um estudo recente revela que a taxa de câncer no seio entre as norte-americanas com mais de 50 anos cresceu 55,3% entre 1994, ano do lançamento do hormônio nos Estados Unidos, e 2002.

Segundo Robin, a liberação das sementes transgênicas nos Estados Unidos foi resultado do forte lobby da empresa na Casa Branca, principalmente durante o governo Clinton. Uma das “coincidências”: quem elaborou, na FDA, a regulamentação dos grãos geneticamente modificados foi Michael Taylor, que nos anos 90 fora um dos vice-presidentes da Monsanto.

A repórter se detém sobre o “princípio da equivalência em substância”, conceito fundamental para regulamentação dos transgênicos em todo o mundo. A fórmula estabelece que os componentes dos alimentos de uma planta transgênica serão os mesmos ou similares aos encontrados nos alimentos “convencionais”.

Robin encontrou-se com Dan Glickman, que foi secretário de Estado da Agricultura do governo Clinton, responsável pela autorização dos transgênicos nos EUA. Glickman confessou, em 2006, ter mudado de posição e admitiu ter sido pressionado após sugerir que as companhias realizassem testes suplementares sobre os transgênicos. As críticas vieram dos colegas da área de comércio exterior.

Houve pressões, segundo o livro, também no Reino Unido. O cientista Arpad Pusztai, funcionário do Instituto Rowett, um dos mais renomados da Grã-Bretanha, teria sido punido após divulgar resultados controversos sobre alimentos transgênicos. Em 1998, Pusztai deu uma entrevista à rede de tevê BBC. Perguntado se comeria batatas transgênicas, disparou: “Não. Como um cientista que trabalha ativamente neste setor, considero que não é justo tomar os cidadãos britânicos por cobaias”. Após a entrevista, o contrato de Pusztai foi suspenso, sua equipe dissolvida, os documentos e computadores confiscados. Pusztai também foi proibido de falar com a imprensa. No artigo reproduzido à página 11, Kuntz afirma que o cientista perdeu o emprego por não apresentar resultados consistentes que embasassem as declarações à imprensa.

Pusztai afirma que só compreendeu a situação, em 1999, ao saber que assessores do governo britânico haviam ligado para a direção do instituto no dia da sua demissão. Em 2003, Robert Orsko, ex-integrante do Instituto Rowett, teria confirmado que a “Monsanto tinha ligado para Bill Clinton, que, em seguida, ligou para Tony Blair”. E assim o cientista perdeu o emprego.

Nas viagens por países emergentes, Robin colheu histórias de falta de controle no plantio de transgênicos e prejuízos a pequenos agricultores. No México, na Argentina e no Brasil, plantações de soja e milho convencionais acabaram contaminadas por transgênicos, o que forçou, como no caso brasileiro, a liberação do uso das sementes da Monsanto (que fatura com os royalties).

De acordo com a jornalista, o uso da soja Roundup Ready (RR), muito utilizada no Brasil e na Argentina, acrescenta outro ganho à Monsanto, ao provocar o aumento do uso do herbicida Roundup. Na era pré-RR, a Argentina consumia 1 milhão de litros de glifosato, volume que saltou para 150 milhões em 2005. De lá para cá, a empresa suprimiu os descontos na comercialização do pesticida, aumentando seus lucros.

Um dos ícones do drama social dos transgênicos, diz o livro, é a Índia. Entre junho de 2005 (data da introdução do algodão transgênico Bt no estado indiano de Maharashtra) e dezembro de 2006, 1.280 agricultores se mataram. Um suicídio a cada oito horas. A maioria por não conseguir bancar os custos com o plantio de grãos geneticamente modificados.

Robin relata a tragédia desses agricultores, que, durante séculos, semearam seus campos e agora se vêm às voltas com a compra de sementes, adubos e pesticidas, num círculo vicioso que termina em muitos casos na ingestão de um frasco de Roundup.

A jornalista descreve ainda o que diz ser o poder da Monsanto sobre a mídia internacional. Cita, entre outros, os casos dos jornalistas norte-americanos Jane Akre e Steve Wilson, duramente sancionados por terem realizado, em 1996, um documentário sobre o hormônio do crescimento. No país da democracia, a dupla se transformou em símbolo da censura.

Os cientistas, conta o livro, são frequentemente “cooptados” pela gigante norte-americana. Entre os “vendidos” está o renomado cancerologista Richard Doll, reconhecido por trabalhos que auxiliaram no combate à indústria do tabaco. Doll faleceu em 2005. No ano seguinte, o jornal britânico The Guardian revelou que durante 20 anos o pesquisador trabalhou para a Monsanto. Sua tarefa, com remuneração diária de 1,5 mil dólares, era a de redigir artigos provando que o meio ambiente tem uma função limitada na progressão das doenças. Foi um intenso arquiteto do “mundo mágico” da Monsanto.