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sábado, 5 de junho de 2010

Hari: Quando mãos além-oceano são amarradas

Por Johann Hari

4/6/2010

Será que todos temos de nos calar contra agressões aos direitos humanos porque acontecem longe de nós, contra gente que não conhecemos, de cor diferente, cultura ou credo diferentes? Há movimento que diz que sim, crescendo no mundo; que qualquer torrente de solidariedade deveria ser cauterizada nas fronteiras nacionais.

O mundo é partilhado por diferentes culturas e uma não deveria olhar ou comentar criticamente a outra. Em vez disso, todos deveríamos “respeitar as diferenças”. Poderíamos criticar os nossos iguais, não o diferente, o estrangeiro, porque seria incomparavelmente diferente de nós. É o que se ouve hoje, de uma estranha associação de diferentes, tão diferentes entre si quanto o governo de Israel, ditadores e alguns multiculturalistas ocidentais – e todos trabalham hoje para tornar lei esse impedimento de criticar.

Consideremos por um momento como essas ideias se estão impondo em dois locais do mundo em que trabalhei como repórter: na Palestina/Israel e em Honduras.

Todo o mundo já sabe, sem dúvida possível, que a marinha de guerra de Israel cometeu um massacre, a tiros de metralhadora com mira a laser, em navio civil que navegava em águas internacionais e levava produtos de ajuda humanitária ao povo bloqueado por Israel em Gaza – dos quais autoridades israelenses disseram, jocosamente, que não estariam passando fome; Israel apenas os pusera “sob dieta rigorosa”. O barco que tentava chegar a Gaza levava filhos de sobreviventes do Holocausto, uma laureada com o Prêmio Nobel da Paz, além de comida, remédios, cimento para reconstruir casas destruídas na Operação Chumbo Derretido, de Israel contra Gaza, em 2008-9.

Alguns homens que viajavam nos barcos, ao perceberem que estavam sob mira de metralhadoras israelenses, pegaram o que encontraram, para defender-se e defender o barco, barras de metal, pedaços de pau. Um iemenita tirou da cintura sua faca jambarya que todos os iemenitas levam à cintura, de fato, desde crianças. E os comandos israelenses invadiram o barco, já atirando. O exército israelense divulgou fotos para “provar” que havia outras armas a bordo – fotos que todos já vimos pela internet incontáveis vezes, exatamente as mesmas, exibidas inúmeras vezes, sempre pra provar, as mesmas fotos, que “havia armas” num ou noutro lugar atacado por Israel. Em algumas das fotos exibidas ontem, se via até a datação eletrônica: 2003.

Mas quantos sabem que o governo israelense vem silenciosa e continuamente obstruindo a ação de organizações de direitos humanos dentro de Israel? Em todos os casos, são organizações de judeus que lutam para levar o país onde vivem para caminho menos doentio, mais seguro e mais saudável?

Israel abriga vários dos mais formidáveis movimentos pela paz que há no mundo – gente que aprendeu da história dos judeus e luta incansavelmente contra todos os abusos contra os direitos humanos que se cometem em seu país. Esses militantes pacifistas israelenses – como informa Daniel Sokatch, diretor do grupo pró-paz New Israel Fund – “enfrentam hoje violenta e persistente campanha para promover a discórdia e calar toda a comunidade dos direitos humanos dentro de Israel”.

Os ataques começaram em 2008. O governo de Israel e os militares recusaram-se a cooperar com as investigações da ONU sobre o ataque a Gaza no Natal e início do ano. Mas os grupos israelenses de defesa de direitos humanos insistiram em cooperar com os investigadores da ONU e cooperaram. Quando o Relatório Goldstone foi afinal publicado, assinado por juiz judeu, comprovou-se que a investigação acontecera, meticulosa a acurada, com farta documentação do que realmente acontecera; e também condenava o Hamás, pelos foguetes antiquados, que lançavam sem alvo, contra território israelense e várias vezes atingiram civis. Mas, em ver de dispor-se a examinar o que os governantes israelenses haviam feito, muitos cidadãos israelenses passaram a atacar o relatório e o autor; ouviu-se de várias fontes que o relatório seria obra de uma “5ª coluna”, jornalistas e colunistas de jornal que haviam “colaborado” com a ONU.

Os ataques – em que grupos de defesa dos direitos humanos foram pintados como demônios traidores infiltrados, ou corrompidos pelo Hamás – focaram-se num detalhe: aqueles grupos eram patrocinados ou recebiam ajuda financeira de governos europeus.

Esse ano, o governo israelense anunciou que esses patrocínios ou a ajuda financeira a esses grupos indicaria “inaceitável intromissão na autonomia de Israel”. Em audiência no Parlamento, um dos deputados que mais furiosamente criticara a ação dos grupos pacifistas perguntou: “Que direito têm eles de criticar o governo israelense?”

Aquele Parlamento israelense acaba de aprovar lei que impede todos os grupos não-governamentais de direitos humanos de receber um shekel, que seja, de governos estrangeiros, sob pena de perderem o status de isentos de impostos; e exige, sob penas legais, que se apresentem como agentes pagos por governos estrangeiros, cada vez que fizerem declarações públicas. Vários líderes desses movimentos foram presos e detidos incontáveis vezes. E há políticos em Israel hoje que querem limitar ainda mais a atuação dos grupos de direitos humanos em território israelense. Há aqui, claro, um ridículo, cômico paradoxo: Israel não existiria nem sobreviveria sem o dinheiro que chove lá, dos EUA. E ninguém cogita de proibir a entrada daquele dinheiro, sob o (mesmo) argumento de que implica inaceitável intromissão na soberania de Israel. (…)

No outro extremo do mundo, em Honduras, o mesmo argumento – gente de fora não pode criticar os “nacionais” – apareceu também. Há um ano, o presidente Manuel Zelaya foi sequestrado e expulso do país por claque de militares da extrema-direita, depois de cometer o imperdoável pecado de pensar em redistribuir, legalmente, uma pequena parte da riqueza da elite, para os mais pobres. Forjaram-se então eleições absolutamente ilegais, boicotadas por mais da metade dos eleitores. Hoje, os membros da organização pacifista não-armada Frente Nacional de Resistência Popular, estão sendo misteriosamente assassinados por todo o país, e também são assassinados os jornalistas que tentam denunciar os crimes.

São pessoas como Claudia Brizuela, jornalista, que mantinha um programa de tendência oposicionista, de esquerda, no rádio, assassinada com um tiro no rosto à frente dos dois filhos, de dois e oito anos. Porta-voz do governo hondurenho riu, ao ser perguntado sobre esse assassinato e disse que “a Resistência” mata seus membros, “para causar tumulto”. Críticos desses novos esquadrões da morte são descritos como “agentes de Hugo Chávez e Evo Morales”, governos estrangeiros que “não têm direito” de falar sobre Honduras.

Os mesmos argumentos pipocam nos lugares mais inesperados. Se escrevo em apoio aos direitos das mulheres muçulmanas em contextos de opressão, ou em apoio aos gays africanos, ou aos sindicalistas no Irã, logo vem o gás pimenta dos críticos, a clamar que eu não passaria de mais um “imperialista inglês”. Que nada sei da “nossa [deles] cultura”. Ele “não é muçulmano” nem “africano” nem “iraniano”. Há de tudo. Todos defendendo seus iguais contra os diferentes. São argumentos que, quase sempre, vêm de gente que se considera progressista, e que ficariam boquiabertos se descobrissem que estão usando argumentos idênticos aos da extrema-direita israelense e da ‘junta’ de generais hondurenhos.

Esse tipo de posição exagera ao absurdo as diferenças culturais.

Quando delegados de todo o mundo reuniram-se, imediatamente depois do Holocausto, para escrever a Declaração Universal dos Direitos do Homem, temiam que houvesse terrível dificuldade para definir os tais “direitos do homem”. Não houve dificuldade alguma.

Como logo se viu, as pessoas, em todos os cantos do mundo, aspiram a alguns direitos básicos – que em todas as culturas têm de ser defendidos contra um conjunto parecido de pessoas e interesses que se opõem à realização daqueles direitos, de fato, universais.

As diferenças culturais são muito menos importantes do que tantos ainda supõem. Nenhum ser humano quer ser torturado. Nenhum ser humano quer morrer de fome. Nenhum ser humano quer ser encarcerado sem julgamento e sem motivo. Mesmo em culturas em que esses atos são tornados ‘normais’ por alguns, as vítimas continuam a gritar e lutam. No momento em que a tortura começa, ou quando se fecha a porta da cela, todas as diferenças culturais desaparecem e só resta, da humanidade dos homens e mulheres, o desejo de recuperar a dignidade e a segurança roubadas. Isso é universal. Não há “cultura” na vítima de tortura, que a faça querer que a tortura prossiga.

Quem somos nós, então, para criticar governos de Israel ou Honduras? Somos pessoas que podemos – e devemos – nos opor aos crimes que aqueles governos cometem contra gente inocente. A isso se chama solidariedade.

É das poucas forças que ainda podem ajudar o povo de Gaza ou os dissidentes de Honduras, hoje. Em vez de nos fechar em nós mesmos, dentro de limites culturais e nacionais, temos, isso sim, de encher mais barcos e partir, levando comida, remédios e esperança a estranhos, completos estranhos, que sofrem.

Para ler o original, clique aqui: Johann Hari: When hands across the sea are tied

The Independent, UK

Tradução: Caia Fittipaldi

sábado, 29 de maio de 2010

Obama e o fracasso da política externa dos EUA

A política sem rumo de Obama e uma superpotência evanescente

Por: Dilip Hiro*

27/5/2010

Façam a política que fizerem, todos os políticos dos quais mais se deva desconfiar do que confiar apresentam, todos, um traço comum: todos são indiferentes ao dano que causam, em muitos casos, ao mundo. George W. Bush é bom exemplo; Tony Blair, ex-primeiro-ministro britânico, outro exemplo. No que tenha a ver com política externa, vemos acontecer a mesma coisa hoje, na Casa Branca de Obama.

O padrão-Obama de governar é claro: escolha alguém, no ‘mundo exterior’, e pressione. Ameace. Diga que você fará e acontecerá se ele não se curvar aos desejos de Washington. Quando ‘o inimigo’ não se render e, pior, se responder e falar grosso, retroceda correndo, trate de supercompensar o fracasso com vitórias em alguma outra área e entre em modo ‘reparar danos’.

Em seu pouco mais de um ano de governo, Barack Obama já deu vários exemplos de como governar à sua moda. O presidente dos EUA absolutamente é incapaz de avaliar o peso das cartas de um ou outro dos adversários que escolha atormentar, nem sabe avaliar a determinação de jogar aplicadamente com as cartas que cada um tenha.

Obama tende à retirada, ao primeiro sinal de resistência; o que mostra que não é homem nem de coragem nem de convicções, dois ingredientes cuja presença ou ausência definem os políticos profissionais e os estadistas. Insistindo numa política externa sem rumo, rateando sempre que tem de enfrentar desejos diferentes dos seus, Obama, sem querer, ajuda a dar razão aos que dizem que os EUA já não são nem superpotência nem poder emergente: são poder evanescente – e que a evanescência da ex-única-superpotência é irreversível.

Dentre os que se recusaram a ceder ante a tática linha-dura das ameaças iniciais de Obama (e ante o impacto do poder dos EUA) estão hoje, não só os presidentes de China (megapotência, das grandes) e do Brasil, potência mediana, mas também os líderes israelenses, poder apenas local e visceralmente dependente de Washington para a própria sobrevivência, e até o Afeganistão, estado-cliente. Até aí, ainda sem mencionar a junta militar de Honduras, entidade desimportante, mas que enfrentou as ordens de Obama como se fosse o Politburo da ex-URSS.

Em Honduras, Obama rateou

Quando derrubaram o governo civil e eleito do presidente Manuel Zelaya em junho de 2009, os generais hondurenhos passaram a fazer jus à vergonhosa distinção de serem os primeiros autores de golpe na América Central, da era pós-Guerra Fria. Por que o golpe? O fator decisivo foi o presidente Zelaya ter optado por um Referendum (só consultivo, que nada decidiria), para que a população se manifestasse sobre alterações a serem introduzidas na Constituição. As alterações, se houvesse, seriam feitas pelo Parlamento, votadas, aprovadas ou rejeitadas.

Ao denunciar o golpe como “terrível precedente” na região, e exigir a volta ao Estado de Direito em Honduras, o presidente Obama começou por dizer e repetir que “não queremos voltar àqueles dias negros do passado. Somos e estamos do lado da democracia.”

Para dar peso às palavras, Obama precisaria ter retirado seu embaixador de Tegucigalpa (como fizeram Bolívia, Brasil, Cuba, Equador, Nicarágua e Venezuela) e suspenso imediatamente a ajuda dos EUA, da qual Honduras depende. Nada disso. Em vez dessas atitudes, o que se viu foi a secretária de Estado Hillary Clinton, que declarou que o governo Obama não classificaria formalmente o golpe como golpe… “por hora” – e mesmo depois de a ONU, a OEA e a União Europeia já o terem feito.

Dado que os EUA recuaram, os generais golpistas encheram-se de coragem. Com eles, encorajaram-se também os seus apoiadores no Congresso. O governo imposto de Roberto Micheletti, testa-de-ferro dos militares golpistas contratou uma renomada empresa de “Relações Públicas” em Washington, e puseram-se a trabalhar.

Bastou isso, para enfraquecer toda a “decisão” democrática do presidente dos EUA, homem de belos discursos, mas sem qualquer convicção política no que tenha a ver com política exterior. Foi quando a secretária de Estado Clinton pos-se a tagarelar sobre reconciliar o presidente deposto e o governo golpista de Micheletti, tratando-os ambos os grupos, um governo legítimo e um governo ilegítimo, como se fossem irmãos gêmeos.

Os generais hondurenhos logo viram que a tática de fingir que Washington não pia estava dando bons resultados; e empinaram o peito. Só quando Clinton disse e repetiu que o Departamento de Estado não reconheceria o resultado da eleição presidencial de novembro, porque haveria dúvidas quanto à transparência e lisura das eleições, os generais aceitaram conversar, um mês antes das eleições. Concordariam com a volta de Zelaya ao palácio, para levar o mandato até o término.

Foi quando o senador Republicano linha-dura de direita Jim DeMint, fanático apoiador dos generais hondurenhos, entrou em ação. O governo Obama só receberia aprovação para seus indicados para postos-chave na América Latina, se a secretária Clinton reconhecesse o resultado das eleições, e pouco importava o que fosse feito de Zelaya. Clinton capitulou.

Como resultado, Obama passou a ser o segundo presidente – o outro foi o presidente do Panamá – dos 34 países-membros da OEA, a apoiar a nova “eleição” presidencial em Honduras. O que talvez pareça negociação rotineira na política doméstica do Capitólio foi vista na comunidade internacional que interessa como humilhante retirada do governo Obama, ao ser desafiado por um punhado de generais hondurenhos. Vários políticos e grupos políticos, é claro, tomaram nota.

Retirada ainda mais dramática, seria imposta a Obama, quando trançou chifres com o primeiro ministro de Israel Benjamin Netanyahu.

O esperto Netanyahu levou a melhor

Ao assumir Obama, a Casa Branca anunciou com muita fanfarra que começaria imediatamente a cuidar da difícil questão Israel-palestinos. Examinando então o ‘Mapa do Caminho’ de 2003, de uma paz apoiada pela ONU, por EUA, Rússia e União Europeia, descobriram que Israel, um dia, prometera cessar completamente a construção nas colônias exclusivas para judeus, eufemisticamente chamadas pela Casa Branca e sua mídia, de “assentamentos”.

Na primeira reunião com Netanyahu em meados de maio de 2009, Obama exigiu a suspensão imediata de qualquer construção nas colônias na Cisjordânia e na parte ocupada de Jerusalém Leste, onde já vivem cerca de meio milhão de judeus. Disse que ali estaria o principal obstáculo ao estabelecimento de um Estado palestino independente. Netanyahu rugiu – e jogou a carta iraniana: que o programa nuclear iraniano seria ameaça existencial a Israel.

Obama caiu como patinho na armadilha de Netanhyahu. Em conferência conjunta de imprensa, Obama aproximou as duas questões: as conversações de paz entre israelenses e palestinos e a ameaça que o Irã representaria para a sobrevivência de Israel. Em seguida, para deleite de Netanyahu, Obama deu prazo – “até o final do ano” – a Teerã, para responder aos seus acenos diplomáticos. Assim, o astuto primeiro-ministro de Israel levou o presidente dos EUA a apertar o nó que, dali em diante, manteria atadas uma à outra as duas questões, as quais antes, sempre existiram desconectadas uma da outra. E Netanhyahu sequer precisou oferecer alguma coisa em troca do serviço que Obama prestou-lhe.

Depois, Netanyahu introduziria nova diferença entre a expansão das colônias exclusivas para judeus já existentes e a construção de novas colônias; e a nada se comprometeu, em relação às já existentes. Ainda mais, separou completamente a Cisjordânia e Jerusalém Leste, a qual, como jamais parou de repetir, seria parte integral e inseparável e “capital eterna de Israel” e, portanto, não sujeita a qualquer restrição que se definisse sobre construção nas novas (e também nas velhas) colônias exclusivas para judeus.

No mesmo estilo cenográfico de todo o governo Obama, Clinton respondeu com o que parecia ser firmeza: “Não haverá exceções no congelamento dos assentamentos”. Logo depois, se viu que não passavam de palavras ocas, que nada mudaram na questão real.

Quando Netanyahu rejeitou publicamente as exigências de Obama, de que pusesse fim a construções nas colônias na Cisjordânia, Obama subiu o cacife: sugeriu que a intransigência dos israelenses aumentaria os riscos para a segurança dos EUA.

Dia 15/10, depois de muito vai-e-vem de coxias entre os dois governos, Netanyahu anunciou que dera por encerrada a discussão com Washington sobre “os assentamentos”. Em seguida, em reunião posterior com Clinton, disse que reduziria algumas construções em algumas colônias. A jogada valeu-lhe agradecimentos efusivos da secretária Clinton, que apresentou o gesto como “concessão sem precedentes”, sinal evidente de que, sim, sim, seria possível retomar sem condições as conversações de paz entre palestinos e israelenses.

Os palestinos enfureceram-se com os EUA virarem-lhe tão acintosamente as costas. “Supus que os EUA fossem contrários à expansão das colônias ilegais”, disse um furioso porta-voz do governo palestino, Ghassan Khatib. “Precisamos de negociações para acabar com a ocupação, não de novas colônias para aprofundar a ocupação.”

Em dezembro, Netanyahu aceitou uma moratória de dez meses na construção nas colônias, mas só depois de o Estado ter autorizado a construção de mais 3.000 apartamentos na Cisjordânia ocupada. Firmes na posição assumida, os palestinos rejeitaram qualquer simulacro de conversações de paz, até que a construção de novos prédios nas colônias exclusivas para judeus venha a ser realmente paralisada.

Dia 9/3/2010, exatamente quando o vice-presidente Joe Biden chegava a Jerusalém, como parte da campanha de Washington para iniciar o “processo de paz”, as autoridades do governo de Israel divulgaram a aprovação para que se construam mais 1.600 novas casas exclusivas para judeus em Jerusalém Leste. Movimento violento e arrogante, aprofundou o desafio à autoridade de Obama e enfureceu Biden (além de Obama).

Com sua proposta de reforma da Saúde em disputa por aprovação na Câmara de Deputados, dia 24 de março, quando recebeu Netanyahu em Washington, Obama estava numa roda viva. Ao que se sabe, apresentou três condições para dar por encerrada a crise com Biden: estender o congelamento de novas construções nas colônias, para até depois de setembro de 2010; fim de qualquer novo projeto de construção em colônias em Jerusalém Leste; e retirada dos soldados de Israel para trás das linhas existentes antes da Segunda Intifada. E Obama deixou Netanyahu em reunião com assessores na Casa Branca, para só voltarem a reunir-se quando “houver alguma novidade”. Mais uma vez, como no caso dos golpistas de Honduras, a fala de Obama não passou disso: fala.

O objetivo de toda essa atividade foi conseguir que os palestinos voltassem à mesa das conversações de paz com Israel, conversações muito justificadamente suspensas pelos palestinos quando Israel atacou a Faixa de Gaza em dezembro de 2008. Netanyahu aceitaria novas conversações, desde que “sem qualquer precondição” imposta pelos palestinos.

Ao final, Netanyahu obteve praticamente tudo que queria: nem teve de aceitar precondições do governo Obama, nem teve de aceitar precondições dos palestinos. Em resumo, Obama curvou-se aos desejos de Netanyahu. O cachorro sacudiu o rabo.

Os infelizes representantes da Autoridade Palestina entenderam a mensagem. Depois de alguns protestos apenas rituais, aceitaram participar de “conversações indiretas” com o governo Netanyahu, com George Mitchell, enviado de Washington ao Oriente Médio, levando as conversas de um lado ao outro. ‘Isso’, chamado “conversações indiretas”, começou dia 9/5/2010. Ao longo dos próximos quatro meses, a dura missão de Mitchell será tentar diminuir as diferenças (cada dia maiores) entre o que Israel e os palestinos entendem por “Estado palestino” – sendo que, agora, os dois lados sabem que o governo Obama meterá o rabo entre as pernas e não pressionará Israel, aconteça o que acontecer.

Escaramuças com a China e, de repente, aquecimento

Os problemas de Obama com a República Popular da China começaram em novembro de 2009 quando, para grande desapontamento de Obama, o governo chinês não lhe deu tratamento de Alteza Real em sua primeira visita à China.

As relações Washington-Pequim esfriaram ainda mais quando o governo Obama autorizou venda no valor de 6,4 bilhões de dólares de armamento avançado a Taiwan, inclusive mísseis antimísseis, e Obama recebeu o Dalai Lama, líder espiritual do Tibete, na Casa Branca (embora num salão secundário). A República Popular da China considera Taiwan província separatista e o Tibete como parte da República chinesa, o que faz do Dalai Lama chefe de grupo separatista, aos olhos de Pequim.

Altos funcionários dos EUA qualificaram seus movimentos como “um troco” que Obama estaria dando à China, a qual estaria apostando mais alto do que podia. Com esses movimentos, prosseguiu, incansável, a pressão para que Pequim valorizasse sua moeda, o yuan. O governo de Obama serviu-se de uma lei que exige que o Departamento do Tesouro notifique, duas vezes ao ano, casos de país que manipule a taxa de câmbio entre sua moeda e o dólar americano em busca de ganhos extra no comércio internacional. A data para o próximo relatório desse tipo – antessala para possíveis sanções –, 15 de abril, foi repetida ad nauseam por funcionários do Tesouro e do governo dos EUA.

Em meados de abril, Obama estava preparando um encontro sobre segurança nuclear internacional em Washington. Queria reunir o maior número possível de presidentes. No mínimo, queria reunir os líderes dos quatro países nucleares com poder de veto no Conselho de Segurança – Grã-Bretanha, França, Rússia e China.

Era o que esperava o presidente chinês Hu Jintao, sobre cuja cabeça pendia a espada obamiana, que ameaçava denunciar a China pelo crime de manipular a moeda contra o dólar. Hu declarou que não compareceria à reunião ‘nuclear’ de Obama. Obama piscou. Adiou a data para divulgação do parecer do Departamento do Tesouro, sine die. Em troca, Hu viajou a Washington e encontrou-se com Obama no Salão Oval, na Casa Branca.

Pequim – o coletivo de dirigentes muito realistas e muito experientes – não foi surpreendida por tensões montantes entre China e EUA. A atitude deles apareceu manifesta em editorial do China Daily, pouco depois da posse de Obama. “Os líderes dos EUA jamais se mostraram contidos, ao falar das suas ambições nacionais”, lia-se lá. “Para eles, está-lhes garantida a glória por direito divino, independente do que pensem os demais países.” E o editorial previa que “Obama, que defenderá os interesses dos EUA, acabará inevitavelmente em confronto com os interesses dos demais países.” Exatamente o que se vê acontecer hoje, repetidas vezes.

Esse realismo contrasta vivamente com o estado de espírito da Casa Branca, onde se crê, simploriamente, que alguns poucos discursos enunciados em capitais por todo o mundo, por um eloquente novo presidente, bastariam para restaurar o prestígio dos EUA que as políticas de George W. Bush deixou em ruínas. O que o presidente e sua entourage parecem não ver, contudo, apareceu em pesquisa do importante Pew Research Center. Mostrava-se ali que, depois da campanha pública da diplomacia de Obama, enquanto a imagem dos EUA realmente melhorara consideravelmente na Europa, México e Brasil, a melhora foi menos significativa na Índia e na China; foi apenas marginal no Oriente Médio árabe; e igual a zero na Rússia, Paquistão e Turquia .

Paralisado num modo autocongratulatório, a equipe de Obama não deu atenção à ampla gama de opções de jogo que ainda há em mãos de outras potências, para retaliar contra a pressão dos EUA. Por exemplo, não previram que Pequim ameaça impor sanções contra grandes empresas norte-americanas fornecedoras de armas a Taiwan; tampouco previram a dura resistência da República Popular da China, que não considerou, até agora, sequer a possibilidade de desvalorizar o yuan.

Há quem atribua o comportamento dos chineses a um crescente nacionalismo e ao medo, nos líderes, de que, se cederem a pressão de “estrangeiros”, abalarão a própria imagem “interna”. Mas a verdadeira razão pela qual os chineses resistem tem mais a ver com as durezas da economia, do que com qualquer preocupação com emoções populares. Nos dias iniciais da Grande Recessão de 2008-09, simbolizada pelo colapso do gigantesco banco de investimentos Lehman Brothers, a China logo farejou movimentos tectônicos em andamento no próprio equilíbrio do poder econômico internacional – com desgaste importante à, até então, “única superpotência”.

Enquanto se contraíam as economias de EUA e Europa, Pequim rapidamente adotou políticas que visavam a estimular a demanda interna e os investimentos em infraestrutura. Daí nasceu crescimento impressionante: 9% no PIB em 2009, com 12% já previstos para 2010. Com isso, até os analistas do Goldman Sachs já preveem que a China será a primeira potência econômica mundial, já a partir de 2050.

Pela primeira vez desde a II Guerra Mundial, não são os EUA que arrancam o resto do mundo das garras do crescimento negativo: é a China. Os EUA emergiram da carnificina financeira como a nação mais endividada do planeta, sendo a China o principal credor, com impressionantes – e sem precedentes – reservas de $2,4 trilhões em moeda estrangeira.

Suas ricas corporações endinheiradas estão comprando empresas e recursos naturais futuros da Austrália ao Peru, do Canadá ao Afeganistão onde, ano passado, o Congjiang Copper (cobre) Group, corporação chinesa, ofereceu $3,4 bilhões – um bilhão de dólares a mais que a mais alta proposta das metalúrgicas ocidentais – para assegurar-se o direito de minerar cobre de um dos mais ricos depósitos do planeta.

Karzai, o Perigo, torna-se Karzai, o Indispensável

Ao assumir a presidência, Obama não fez segredo do desagrado que lhe inspirava o presidente afegão, Hamid Karzai. Para dispensar-se de enfrentar a viciosa corrupção que contamina todo o governo afegão, altos funcionários e militares dos EUA inventaram a ideia de negociar diretamente com os governadores das províncias e distritos afegãos. Na eleição presidencial de agosto de 2009, escolheram apoiar Abdullah Abdullah, principal e importante adversário de Karzai, como todos sabiam.

Quando Karzai manipulou pesadamente as eleições para garantir a reeleição, e fez-se de surdo aos clamores de Washington para que ‘limpasse’ o governo, Obama decidiu servir-se do porrete para disciplinar mais esse regime-cliente. Em gesto dramático, embarcou para viagem de 26 horas – de Washington a Cabul –, no último fim-de-semana de março, para dar lições pessoais a Karzai sobre sua (de Karzai) incompetência para governar e combater a corrupção. Karzai, sem alternativas, deixou que Obama falasse e nada disse.

Quando, porém, Karzai soube, pelos jornais, que um militar norte-americano não identificado havia sugerido que seu meio irmão mais jovem, Ahmed Wali, principal representante do governo Karzai na província de Candahar, no sul, deveria ter seu nome incluído na lista do Pentágono de barões da droga a serem assassinados ou presos, a paciência de Karzai esgotou-se, de vez.

O presidente afegão indignado respondeu com declarações de que os EUA obravam deliberadamente para intensificar e aprofundar a guerra no Afeganistão, para conseguir permanecer na região; não para pacificá-la, mas para controlá-la. Disse também que, se Washington insistisse nessa tática suja, aliar-se-ia aos Talibã. (Karzai, de fato, foi importante arrecadador de fundos para financiar os Talibã, depois que capturaram Cabul, em setembro de 1996.)

Obama reagiu como sempre, em iguais circunstâncias: se desafiado, retrocede. De porreteador maluco, transformou-se instantaneamente em distribuidor de cenouras durante a visita de Karzai a Washington no início de maio (a qual, em março, a equipe de Obama ameaçava adiar indefinidamente).

O ponto alto do movimento de bajular Karzai – digno de ser incluído em versão contemporânea de Alice no País das Maravilhas – foi um jantar oferecido a ele pelo vice-presidente Joe Biden, em sua mansão. Karzai, além de sentir-se vingado, deve ter rido muito. Em fevereiro, Biden protagonizara movimento de ofensa operística, ao levantar-se e sair de jantar com Karzai no palácio presidencial, depois de Karzai ter desmentido que seu governo fosse corrupto e dito que, mesmo que houvesse corrupção, o grande corruptor jamais foram nem ele nem sua família.

Apesar do tratamento “tapete vermelho”, e das táticas de “ofensiva de charme” e “poder soft”, Karzai foi cristalmente objetivo e claro na entrevista coletiva; ao lado de Obama, declarou que “o Irã é nação amiga do Afeganistão, nossa nação-irmã”.

Sentimentos semelhantes foram pouco depois expressos também por outro presidente – no Brasil.

O presidente Lula do Brasil e Obama

Desde que assumiu a presidência no Brasil, em 2003, Luiz Inacio Lula da Silva, sempre que necessário, trilhou caminho diferente do prescrito por Washington. Na Rodada de Doha, a questão foi o comércio mundial. E o mesmo se tem visto nas questões de aquecimento global e das sanções contra Cuba.

Em dezembro de 2008, o presidente do Brasil presidiu reunião de 31 países latino-americanos e do Caribe, excluídos os EUA, num centro turístico em território brasileiro, Sauípe. Mês seguinte, em vez de ir ao Fórum Econômico Mundial em Davos, Suíça, da Silva compareceu ao 8º Fórum Social Mundial em Belém, cidade à beira do rio Amazonas.

Criticou o modo como Obama desconsiderara a via democrática em Honduras e, apesar do desagrado manifesto do governo Obama e da oposição no Brasil, convidou o presidente do Irã Mahmoud Ahmadinejad a visitar Brasília em novembro de 2009 para conversações sobre o programa nuclear iraniano – primeiro movimento importante da diplomacia brasileira sob seu governo. (Uma semana adiante, da Silva recebera calorosamente o presidente Shimon Peres de Israel, em Brasília.) Seis semanas depois, da Silva estava em Teerã – e fez história, para desconsolo patético de Washington.

Atuando em conjunto com o primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan, da Silva reviveu uma proposta de acordo nuclear de outubro de 2009 e, contra todas as expectativas, conseguiu definir um acordo nuclear com Ahmadinejad.

Surpreendido, de fato aturdido, com o sucesso de Brasil e Turquia, e com a pouca importância que haviam dado à ‘desaprovação’ de Washington, o governo Obama desconsiderou toda a própria política até ali e passou a exigir que o Irã cancelasse seu programa de enriquecimento de combustível nuclear. E pôs-se freneticamente a tentar impor ao Conselho de Segurança da ONU uma resolução para mais sanções contra o Irã, como se o acordo costurado por Brasil e Turquia não existisse.

A dificuldade para ver a realidade é miopia, para dizer o mínimo. A incapacidade para avaliar, do presidente dos EUA e de sua secretária de Estado, ignora todos os movimentos relevantes que agitam o mundo (real), hoje. A influência das potências ‘medianas’ no cenário mundial está aumentando. Todos os governos, no mundo, sentem – com razão – que não precisam render-se ‘preventivamente’ às exigências de Washington. Nada mais estimulante, hoje, do que esse movimento.

Esse é o caminho pelo qual essas potências ‘medianas’ (ditas “emergentes”, mas, de fato, já plenamente “emergidas”), começam a conseguir reunir-se e atuar nas questões internacionais, tomando iniciativas diplomáticas com boa chance de serem bem-sucedidas.

Hoje, em todo o mundo, do Afeganistão a Honduras, do Brasil à China, líderes globais, dos maiores aos menores, pressentem que o governo Obama mais late que morde. É evidência de que, por mais que os EUA ainda sejam potência mundial, já não são nem a única nem a determinante. Esse desgraçado “século dos EUA” está irreversivelmente a caminho do fim.

* Dilip Hiro

Fonte do artigo original, em inglês: Tom Dispatch

Tradução: Caia Fittipaldi



domingo, 10 de janeiro de 2010

Uri Avnery: O americano tranquilo

Por:Uri Avnery,
9/1/2010, Gush Shalom [Grupo da Paz], Israel
Tradudão: Caia.Fittipaldi



O AMERICANO TRANQUILO é o heroi do romance de Graham Greene sobre a primeira guerra do Vietnã, na qual os franceses foram derrotados.

Era um norte-americano jovem e ingênuo, filho de um professor, que fora bem educado em Harvard, um idealista com todas as melhores intenções. Quando chega como soldado ao Vietnã, queria ajudar os nativos a superar os dois principais males que via lá: o colonialismo francês e o comunismo. Sem saber coisa alguma sobre o país no qual estava, provocou um desastre. O romance termina num massacre – resultado dos esforços desorientados do “americano tranqüilo”. Comprovou-se a velha máxima: “A estrada para o inferno é pavimentada de boas intenções”.

Já se passaram 54 anos depois que esse livro foi escrito, mas parece que o americano tranquilo não mudou. Ainda é idealista (pelo menos, ele acredita que seja idealista), ainda deseja levar a redenção a povos estrangeiros distantes sobre os quais nada sabe; e ainda provoca desastres terríveis: aconteceu no Iraque, no Afeganistão e agora, parece, no Iêmen.

O exemplo do Iraque é o mais simples de todos.

Os soldados norte-americanos foram mandados ao Iraque para derrubar o regime tirano de Saddam Hussein. Havia, é claro, outros objetivos menos altruístas, como assumir o controle do petróleo iraquiano e instalar o exército dos EUA no coração da região petroleira do Oriente Médio. Mas a aventura foi apresentada ao público norte-americano como empreitada idealista contra um ditador sanguinário que ameaçava o mundo com bombas nucleares.

Isso, há seis anos, e a guerra prossegue. Barack Obama, que se opôs à guerra desde o início, prometeu tirar os norte-americanos de lá. Apesar de muita conversa, não há fim à vista.

Por quê? Porque os que realmente tomam decisões em Washington não têm nem ideia do que é o país que querem libertar e ajudar a viver feliz para sempre.

Desde o início, o Iraque foi Estado artificial. Os britânicos costuraram umas às outras várias províncias otomanas, considerando os seus, dos britânicos, interesses coloniais. Coroaram um árabe sunita como rei dos curdos, que não são árabes, e dos xiitas, que não são sunitas. Só uma sucessão de ditadores, cada um mais brutal que o antecessor, impediu que o Estado se esfacelasse.

Os planejadores em Washington não têm qualquer interesse na história, na demografia nem na geografia do país que invadiram com força brutal. O caso, olhado de Washington, pareceu bem simples: alguém teria de derrubar o tirano, estabelecer instituições democráticas à maneira dos EUA, fazer eleições livres... e tudo o mais entraria ‘naturalmente’ nos eixos.

Ao contrário das expectativas, os norte-americanos não foram recebidos com flores. Não encontrou-se lá a terrível bomba atômica de Saddam. Como o elefante na loja de porcelana do provérbio, quebraram tudo, destruíram o país e acabaram presos num pântano.

Depois de anos de operações militares sangrentas que levaram a parte alguma, encontraram afinal uma panaceia. Para o inferno o idealismo; para o inferno os altos ideais; para o inferno todas as doutrinas militares. – Hoje, os EUA não fazem outra coisa além de subornar os chefes tribais que, sim, são a realidade do Iraque.

O americano tranquilo não sabe como se safar de lá. Sabe que, se sair agora, há risco de o país se autodesintegrar em matança geral.

Dois anos antes de invadir o Iraque, os norte-americanos invadiram o Afeganistão.

Por quê? Porque uma organização chamada al-Qaeda (“a base”) declarara-se autora da destruição das Torres Gêmeas em New York. Os chefes da Al-Qaeda estavam no Afeganistão, lá estavam seus campos de treinamento. Para os norte-americanos, tudo pareceu simples – ninguém precisou pensar outra vez (de fato, parece, ninguém tampouco pensara antes).

Se os EUA conhecessem o país que decidiram invadir, talvez tivessem hesitado. O Afeganistão é um histórico cemitério de exércitos invasores. Grandes impérios saíram de lá escafedidos, com o rabo entre as pernas. Diferente do Iraque, que é plano, o Afeganistão é país montanhoso, um paraíso para a guerra de guerrilhas. Além de ser lar de vários povos e de incontáveis tribos, cada povo e cada tribo é furiosamente zeloso da própria independência.

Os estrategistas em Washington não tomaram conhecimento de nada disso. Para eles, parece, todos os países são idênticos, todas as sociedades são iguais. No Afeganistão, também, bastaria estabelecer uma democracia livre à moda dos EUA, com eleições à moda dos EUA e viva! – tudo daria certo e para sempre.

O elefante entrou na loja de porcelanas sem pedir licença e obteve vitória estrondosa. A Força Aérea ‘bombou’, o exército não encontrou obstáculos, a al-Qaeda sumiu como fantasma, os Talibã (“estudantes religiosos”) fugiram como coelhos. As mulheres poderiam voltar a andar pela rua sem véus, as meninas encheriam as escolas, os campos de ópio voltariam a florescer – e também floresceriam sem obstáculos os amigos de Washington em Cabul.

Contudo… a guerra prossegue, ano após ano, o número de norte-americanos mortos sobe inexoravelmente. Para quê? Ninguém sabe. É como se a guerra tivesse adquirido vida própria, sem quê nem por quê, sem objetivo, sem razão. Norte-americano que esteja no Afeganistão e olhe em volta, tem de perguntar-se: o que, diabos, estamos fazendo aqui?

O objetivo imediato, a expulsão da al-Qaeda do Afeganistão, foi ostensivamente alcançado. A al-Qaeda já não está lá – supondo-se que algum dia tenha estado.

Escrevi certa vez que a al-Qaeda é invenção dos EUA e que Osama Bin-Laden foi descoberto pela central de seleção de atores de Hollywood e mandado para fazer aquele papel. Osama Bin-Laden é perfeito demais para ser autêntico.

Claro, estou exagerando um pouco. Mas só um pouco. Os EUA vivem precisando de um inimigo universal. No passado, foi o Comunismo Internacional, cujos agentes eram vistos atrás de cada árvore, por baixo de cada tábua do assoalho. Infelizmente, já não há União Soviética, há falta de inimigo, alguém teria de preencher o papel. Foi quando acharam a jihad planetária, encarnada na al-Qaeda. Esmagar o “Terrorismo Universal” passou a ser a razão de ser de tudo que os EUA fazem.

Essa razão de ser não é razão; como objetivo, é irracional. O terrorismo é arma, instrumento de guerra. As mais diferentes organizações fazem uso do terror, há terror dos dois lados em luta nos mais diferentes países, cada lado com seu objetivo diferente e muitas vezes oposto a todos os demais; há terroristas de todos os lados. Fazer guerra universal contra “o terror internacional” é como fazer guerra a alguma “artilharia internacional” ou a alguma “marinha internacional”.

Não há, no planeta, nenhum movimento terrorista universal liderado por Osama Bin-Laden. Graças aos EUA, “al-Qaeda” tornou-se griffe prestigiada no mercado da guerrilha, assim como “McDonald” e “Armani”, no mundo do fast-food e da moda. Cada militante de organização islâmica pode hoje se apropriar da griffe, mesmo sem pagar royalties a Bin-Laden.

Os governos controlados pelos EUA, que sempre rotularam de “comunistas” os seus inimigos locais, para obter ajuda dos patrões norte-americanos, hoje rotulam os seus inimigos locais de “terroristas da al-Qaeda”.

Ninguém sabe onde está Bin-Laden – nem se existe ou está vivo. Ninguém sabe, sequer, se está no Afeganistão. Há quem diga que se mudou para o vizinho Paquistão. E mesmo que lá esteja: que fundamento há em alguém fazer guerra e matar milhares de homens, mulheres e crianças... para caçar um único homem?

Há os que dizem: OK, Bin-Laden não existe. Mas é preciso impedir a volta dos Talibã ao governo do Afeganistão. Por que, santo deus?! Quem são os norte-americanos que mandam no Afeganistão? Querem o quê? Pode-se ter todos os argumentos do mundo contra todos os fanáticos religiosos do mundo, e contra os Talibã especificamente e, mesmo assim... seria motivo para essa guerra interminável?

Se os afegãos preferem ser governados pelos Talibã, em vez dos mercadores de ópio que hoje estão no poder em Cabul... o problema é deles! E parece que, sim, que preferem os Talibã, dado que, como antes e até hoje, os Talibã outra vez controlam praticamente todo o país, ou quase isso. Nada justifica uma guerra como a do Vietnã, no Afeganistão. OK, mas... e como é que os EUA sairão de lá? Obama não sabe.

Durante a campanha eleitoral, Obama prometeu, com entusiasmo febril de candidato, que aprofundaria a guerra no Afeganistão, como uma espécie de ‘compensação’ pela retirada do Iraque. Hoje, está atolado no Iraque e no Afeganistão. Pior: está prestes a atolar-se, também, numa terceira guerra.

Durante os últimos dias, o nome do Iêmen está em todas as manchetes. Iêmen – um segundo Afeganistão, um terceiro Vietnã. O elefante está pronto para entrar em outra loja de porcelanas. Dessa vez, tampouco está preocupado com a porcelana.

Sei pouco sobre o Iêmen, mas sei o suficiente para entender que só doido teria qualquer interesse em deixar-se enredar lá. É mais um Estado artificial, composto de metades incompatíveis – o país de Sanaa no norte e o sul (ex-britânico). A maior parte do país é montanhoso, controlado por tribos belicosas que defendem todas, a própria independência. Como o Afeganistão, é um paraíso para especialistas locais em guerra de guerrilhas.

Lá também há um grupo que adotou a griffe “Al-Qaeda”: é a “Al-Qaeda da Península Arábica” (depois que os militantes iemenitas uniram-se aos irmãos sauditas). Mas seus chefes interessam-se muito menos pela revolução mundial do que pelas intrigas e batalhas das tribos entre elas e o governo ‘central’ – uma realidade com história de milhares de anos. Só doido absoluto poria a própria cabeça nesse travesseiro.

O nome Iêmen significa “a terra à direita”. (Se se olha para Mecca a partir do Oeste, o Iêmen fica à direita, com a Síria à esquerda.) A direita também conota felicidade; e o nome Iêmen é associado a al-Yamana, palavra em árabe para “estar feliz”. Os romanos chamavam aquela terra de Arabia Felix (“Arábia Feliz”), porque era terra próspera, que enriqueceu no comércio de especiarias.

(Aliás, por falar nisso, talvez interesse a Obama saber que outro líder de superpotência, César Augusto, tentou uma vez invadir o Iêmen e foi rechaçado.)

Se o americano tranquilo, na sua mistura de idealismo e ignorância, resolver levar para lá a democracia e as quinquilharias de sempre, porá fim a qualquer felicidade que lá ainda haja. Os EUA afundarão em outro pântano, dezenas de milhares de pessoas serão mortas. Tudo terminará em desastre.

É possível que o problema tenha raízes – inter alia – na arquitetura de Washington DC.

A cidade é tomada por prédios enormes, de ministérios e escritórios e serviços oficiais da única superpotência que há no mundo. As pessoas que trabalham lá sentem o poder tremendo daquele império. Olham para os chefes tribais do Afeganistão e do Iêmen como um rinoceronte olha as formigas que correm entre suas patas. O rinoceronte caminha sem ver por cima das formigas. Mas alguma formiga sempre sobrevive.

Além do mais, o americano tranquilo faz pensar também no Mefistófeles do Fausto, de Goethe, que se autodefine como a força que “sempre quer o mau e sempre cria o bom”. Só que ao contrário.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Israel: “O mundo inteiro está contra nós. Não importa.”

Por Michael Warschawski, Alternative Information Center (AIC)

16/3/2009

Resultado de recentes eleições nacionais em Israel, os partidos Likud, de Benjamin Netanyahu e Israel Beitaynu, de Avigdor Lieberman, constituíram uma frente de governo de extrema direita. Há um mês, milhões tomaram as ruas para manifestar-se contra o ataque militar a Gaza, e em todos os continentes ouviu-se um mesmo protesto contra a matança de palestinos.

A maioria, em Israel, esquerda e direita, respondeu: "Lutamos pela nossa existência e pouco importa o que pensem os não-judeus. O mundo, afinal, sempre foi anti-semita." Daí em diante, prevaleceu o apoio – ou, pelo menos, a omissão ou as evasivas de sempre – de EUA, Europa e dos Estados árabes, dentre os quais, sobretudo, o Egito.

O governo eleito em Israel consagra a indiferença à lei e às regras do mundo civilizado, aceita e prega comportamento bárbaro, e o Ocidente calou-se. Assim Israel afasta-se deliberadamente de todos, isola-se. Isso exatamente, na semana passada, também EUA e Egito constataram, pela via mais difícil.

O chefe da Inteligência do Egito, General Omar Suleiman, trabalhou muito para construir o caminho para constituir um governo palestino de unidade nacional. Conseguiu fazer parar os foguetes contra o sul de Israel, mas, sobretudo, conseguiu salvar o governo do Fatah na Cisjordânia. Também trabalhou muito para obter a libertação do soldado Gilad Shalit, prisioneiro de guerra, preso pelos palestinos. Pois em Israel, onde todos – de Olmert a Livni –, só pensavam em inventar algum 'novo' governo, ignorou-se completamente o trabalho de Suleiman, o destino de Gilad Shalit e até, de fato, o destino de Máhmude Abbas.

E até para a Turquia, seu mais importante aliado na Região, os líderes israelenses conseguiram criar problemas. Como se o único discurso de Israel fosse "pouco importa o que pensem nossos amigos e nossos inimigos. Fizemos e faremos as coisas à nossa maneira. Quem não gostar... lembre Gaza e o que somos capazes de fazer, quando resolvemos 'enlouquecer' e desrespeitar todas as leis!”

Que ninguém se engane: está em andamento uma política insana, que só atrairá desastre para Israel, e em futuro próximo.

Quando se implanta numa sociedade a ideia de que o mundo está contra ela, e que seu único meio de defesa é o exército e o ataque sem limites, quando nem a oposição em Israel tem forças para dizer "parem imediatamente essa loucura, que disso só nascerá guerra e mais guerra e será o fracasso de anos de tentativas para construir a paz para todos, aqui e em todo o mundo”, pode-se dizer que a contagem regressiva já começou.

É insanidade. É loucura. A loucura do poder parece ter tomado toda a sociedade israelense, e não só a dupla Liberman-Netanyahu, na qual é muito fácil projetar todos os nossos medos.

Se todos os israelenses fossem imbecis, seria o caso de sugerir que lessem sobre o destino dos impérios que acreditaram cegamente na própria capacidade de ser indiferente ao mundo, de sonhar com estabelecer reinos de mil anos, com manter para sempre colônias por ocupação militar. Quem lembra do império francês na África, além dos filhos dos mortos? Quem lembra do império britânico no sul da Ásia? Quem lembra da Indochina francesa?

Rir da Turquia, desmoralizar os serviços de inteligência do Egito, enfurecer o enviado dos EUA por causa de um carregamento de massa (de macarrão. Aconteceu exatamente isso!) para Gaza – todos esses são sinais de que a loucura implantou-se. Os três grandes partidos israelenses (se o Labor Party ainda puder ser dito 'grande partido') são parceiros nessa loucura — e isso, ainda sem considerar que esses partidos receberam a maioria dos votos.

O que mais assusta é haver consenso nacional de apoio à loucura bélica direitista em Israel. Poucas vozes reagiram. E, mesmo essas, só fazem falar sobre "outra Israel", como tantos já fizeram em 1982, na guerra do Líbano e na primeira Intifada.

É claro que há outros israelenses, mas desgraçadamente não há outra Israel, só há uma. E essa Israel é um Estado constituído por governo de criminosos de guerra e pela sociedade que lhe dá apoio e o elege.

Traduzido e enviado via mail por Caia Fittipaldi, o artigo original, em inglês, pode ser encontrado aqui


sexta-feira, 13 de março de 2009

Lobby de Israel detonou Freeman

Do Vi o Mundo

Lobby de Israel-EUA detonou Freeman, indicado por Obama (e carta de Freeman)

Robert Dreyfuss, 13/3/2009, The Nation


A renúncia de Chas Freeman, do cargo de chefe do Conselho Nacional de Inteligência [National Intelligence Council], depois de duas semanas de ataques violentíssimos contra ele, pelo coro do lobby sionista norte-americano é uma ferida aberta no governo de Obama.

Como escrevi semana passada, quando começou a campanha contra Freeman, se Barack Obama não consegue manter-se em pé à frente de gente como Marty Peretz, Jonathan Chait, Steve Rosen e outros assemelhados, e se a Casa Branca não consegue defender um nome indicado em área crucial da inteligência, quando seu indicado é selvagemente atacado pelos tubarões republicanos que farejaram sangue na água, não sei como esperar que Obama mantenha-se em pé frente a Bibi Netanyahu e Avigdor Lieberman, ainda mais radical, quando discordarem de Obama em assuntos de políticas para o Oriente Médio.

É triste e preocupante.

Espere-se muito júbilo nas páginas de The New Republic, National Review, The Weekly Standard, no canal Fox News, nos corredores do American Enterprise Institute, no AIPAC, em toda a direita e nos blogs dos neocons.

Unidos no esquartejamento de Freeman estiveram (não sejamos hipócritas) os judeus linha-dura do Congresso Democrático, entre os quais o senador Charles Schumer de New York, o deputado Steve Israel (é, o nome dele é "Israel") de New York e, é claro, aquele ex-Democrata, Joe Lieberman – todos na fila do gargarejo para aplaudir o esquartejamento, ao lado do AIPAC.

O The Post, hoje cedo, comentando a oposição ao nome de Freeman manifestada por sete membros Republicanos da Comissão do Senado para Assuntos de Inteligência, citou Freeman, em 2007: "A brutal opressão dos palestinos pela ocupação israelense parece não ter fim. (...) A identificação dos EUA com Israel tornou-se total."

Aparentemente, todos devem saber só disso – e de mais nada.

Há cerca de quatro anos, entrevistei Freeman sobre a desastrosa indicação de Porter Goss para o cargo de diretor da CIA, ali posto pelo ex-presidente Bush como leão de chácara político numa agência da qual se deve esperar que informe ao poder a verdade dos fatos. Goss, Freeman disse-me então, foi mandado a Langley para "impor um modo de ver a CIA que os analistas e agentes da CIA simplesmente rejeitam, por não ter qualquer base na realidade." E Freeman prosseguiu. "É um ditador. Acabaremos por fazer da CIA uma agência ainda mais direitista, ainda mais conservadora e ainda mais incapaz de formar especialistas capazes de ter idéias novas, com competência para discordar e propor soluções originais."

Acho que agora todos estamos vendo que tampouco há lugar, hoje, para quem tenha competência para discordar e propor ideias novas, também na comunidade de inteligência.

No fim da tarde de 3ª-feira, Freeman distribuiu à imprensa a seguinte carta:

"A todos que me apoiaram e dirigiram-me palavras de encorajamento durante a discussão das duas últimas semanas, dedico-lhes minha gratidão e o meu respeito.

Agora, já terão tomado conhecimento, pelo Diretor dos Serviços Nacionais de Inteligência dos EUA, Dennis Blair, que desisti de aceitar o cargo para o qual havia sido indicado e que já aceitara, de chefe do Conselho Nacional de Inteligência dos EUA.

Cheguei à conclusão que a guerra de distorções criminosas sobre eventos do meu passado não cessaria nem depois de eu estar empossado. A decisão de me agredir e destruir minha reputação e credibilidade continuaria, talvez ainda mais feroz. Não me parece que o Conselho Nacional de Inteligência possa funcionar com eficácia, se o titular estiver ininterruptamente sob ataque de gente inescrupulosa, obcecadamente associada às ideias de uma facção política de uma nação estrangeira. Aceitei o convite para chefiar o Conselho Nacional de Inteligência dos EUA para fortalecê-lo e preservá-lo contra a politização, não para pô-lo a serviço de um grupo de interesses, determinado a controlá-lo mediante os recursos e formulações de uma campanha sórdida de difamação.

Como sabem todos os que me conhecem, tenho desfrutado muito bem a vida desde que me aposentei das funções de governo. Nada estava mais longe dos meus planos do que voltar ao serviço público.

Quando o Almirante Blair convidou-me a chefiar o Conselho Nacional de Inteligência, respondi que "entendia que eu estava sendo convidado a oferecer minha liberdade de falar, meu lazer, a maior parte dos meus ganhos, que me teria de submeter à colonoscopia mental de um detector de mentiras, que teria de aceitar voltar a sair para trabalhar horas incontáveis; e que teria de aceitar uma ração diária de desaforos políticos". Acrescentei que, isso dito, provavelmente ainda simplificara muito as dificuldades da missão para a qual estava sendo convidado.

Sei que ninguém é indispensável e não sou exceção. Precisei de semanas de reflexão para concluir que, dadas as circunstâncias sem precedentes, espantosamente difíceis, que nosso país enfrenta em casa e em terras distantes, não me restava alternativa senão aceitar a convocação de voltar ao serviço público. Agora, me retiro novamente de todas as posições e atividades nas quais então me engajei. Considero agora a possibilidade auspiciosa de voltar a vida privada, livre das obrigações que assumira.

Não sou tão pouco modesto a ponto de crer que essa polêmica tenha a ver comigo, mais do que com questões de política pública. Essas questões têm pouco a ver com o Conselho Nacional de Segurança e nada têm a ver com o que supus que pudesse oferecer, como contribuição, à qualidade das análises a serem apresentadas ao presidente Obama e ao seu governo.

Mesmo assim, entristece-me que a polêmica e o modo como o vitríolo usado pelos que se dedicam a manter a polêmica mostrem tão claramente o triste estado em que sobrevive hoje a sociedade civil norte-americana.

É evidente que nós, americanos, já não somos capazes de manter uma discussão pública a sério, nem podemos exercitar qualquer juízo independente sobre temas importantes para nosso país e para nossos aliados e amigos.

As calúnias que se publicaram contra mim e a trilha de e-mails facilmente rastreável mostram conclusivamente que há um poderoso lobby em atividade, determinado a evitar que se ventile qualquer opinião diferente da sua – sobretudo se tiver algo a ver com tendências e eventos no Oriente Médio.

As táticas do lobby de Israel atingem o fundo da falta de decência e de honra, e incluem a tentativa de assassinar minha reputação, citações de frases distorcidas, deliberada fraude em informações sobre meu currículo, mentiras, informações inventadas, em todos os casos sem qualquer respeito à verdade.

O lobby de Israel visa a controlar todo o processo político, mediante o controle do exercício de veto à indicação de servidores do governo dos EUA cujas opiniões não coincidam com os interesses do lobby; a substituir a correção política por opiniões parciais; e a cancelar toda e qualquer possibilidade de os norte-americanos e o governo dos EUA decidirem o que não interesse ao lobby.

Há especial ironia em eu ter sido acusado de manifestar viés de opinião, em relação a opiniões de governos e sociedades estrangeiras, por um grupo tão claramente decidido a impor aos EUA que aceite as políticas de um governo estrangeiro – nesse caso, do governo de Israel.

Creio que a incapacidade do público norte-americano para discutir – e do governo, para considerar – qualquer política alternativa para o Oriente Médio, e que se oponha ao grupo reinante hoje na política de Israel, deixa livre o terreno para que aquele mesmo grupo adote e defenda políticas que, de fato, ameaçam até a existência do Estado de Israel.

É proibido, nos EUA, para seja quem for, declarar isso. E não poder declará-lo não é tragédia apenas para os israelenses e seus vizinhos no Oriente Médio. Esse impedimento causa dano crescente à segurança nacional dos EUA.

A agitação inadmissível que se seguiu ao vazamento da notícia de que eu fora convidado levará a pensar que o governo Obama não consegue tomar decisões autônomas sobre o Oriente Médio e questões correlatas. Lamento que minha disposição de servir ao governo Obama tenha terminado por lançar dúvidas sobre a habilidade do próprio governo dos EUA considerar – e nem falo da capacidade para decidir – as políticas que mais bem atendam aos interesses dos EUA, do que atendam aos interesses de um lobby dedicado a impor aos EUA o desejo e os interesses de um governo estrangeiro.

No julgamento da opinião pública, diferente das cortes legais, o acusado é culpado até que prove a própria inocência. Os meus discursos dos quais se extraíram, distorcidos, os trechos que o lobby israelense fez publicar estão disponíveis para leitura dos que se interessem por conhecer a verdade. A injustiça das acusações feitas contra mim foi óbvia para os que tenham mente aberta. Os que trabalharam para me desmoralizar não estão interessados em qualquer tipo de discussão ou contra-argumentação que eu ou qualquer outro possamos oferecer.

Insisto, para os registros: Jamais procurei ou aceitei pagamento de qualquer governo estrangeiro, incluídos Arábia Saudita ou China, por qualquer tipo de serviço, nem jamais falei em defesa dos interesses de algum governo estrangeiro, em seu nome ou em nome de suas políticas. Jamais servi como lobbyista de qualquer grupo do governo dos EUA, nem em causas externas nem em causas domésticas. Sou homem que se defende só e, voltando agora à vida privada – com muito prazer – volto a ser completamente senhor de mim mesmo. Continuarei a falar como me pareça de deva falar, sobre questões que tenham a ver comigo e com os demais cidadãos dos EUA.

Mantenho integrais respeito e confiança no presidente Obama e no Diretor Blair. Nosso país enfrenta desafios terríveis em casa e em terras distantes. Como todos os norte-americanos patriotas, continuarei a pedir a Deus que nosso presidente consiga nos levar a superar todos esses desafios."

Tradução de Caia Fittipaldi

sábado, 17 de janeiro de 2009

Notas de viagem: Gaza, hoje

Fawaz A. Gerges, The Nation, 16/1/2009,

Fawaz A. Gerges é professor de Estudos do Oriente Médio e Relações Internacionais no Sarah Lawrence College.
Seus livros mais recentes são Journey of the Jihadist: Inside Muslim Militancy e The Far Enemy: Why Jihad Went Global.

Acabo de voltar do Oriente Médio e vi o quanto a agressão de Israel a Gaza está radicalizando a opinião dominante, no mundo muçulmano. Mostradas repetidamente em todas as redes de televisão árabes e muçulmanas, as cenas da matança de civis está incendiando o ódio contra EUA e Israel, vistos numa relação de dependência. Isso, entre as vozes moderadas, nos grupos dominantes, que, antes, acreditavam na possibilidade de coexistência com o Estado judeu. Hoje, também essas vozes já questionam as próprias posições e levantam dúvidas quanto a ainda haver possibilidade de alguma futura integração pacífica de Israel na Região.

Muito acadêmicos, sejam ou muçulmanos árabes, que eram muito críticos das ações do Hamás, soam hoje mais amargos com o que descrevem como "conduta bárbara" dos israelenses contra palestinenses civis desarmados, mulheres e crianças.

Ninguém, com quem eu tenha falado, acredita na narrativa de propaganda de Israel, de que a guerra seria contra o Hamás, não contra os palestinenses. Há consenso praticamente absoluto entre árabes e muçulmanos, de que Israel massacra os palestinenses como plano para levá-los a levantarem-se contra o Hamás, como Israel tentou fazer no Líbano, para levantar a população contra o Hizbóllah no verão de 2006. O Hizbóllah soube esperar que a tempestade israelense passasse e reapareceu já vacinado, para converter-se na mais poderosa instituição política que há hoje no Líbano. Assim, o Hizbóllah desconstituiu o poder "de contenção" de Israel, minou nas bases o projeto político dos EUA no Oriente Médio e expandiu o campo de influência do Iran, principal esteio do Hizbóllah na Região.

Nas minhas viagens recentes, tem-me chamado a atenção o quanto está disseminado, nas bases e movimentos populares, o apoio ao Hamás – de colegas universitários a lojistas, operários de construção, mecânicos, e muitos intelectuais. Poucos se atrevem a criticar o Hamás e muitos dizem-se assombrados pela capacidade de luta e de resistência dos combatentes armados. A resistência que ainda houvesse, ao Hamás, foi efetivamente silenciada, agora, depois do massacre de Gaza, que também legitima politicamente o movimento de resistência armada, aos olhos dos muitos palestinenses e muçulmanos, antes céticos ou desesperançados.

Independente de como essa guerra termine, o Hamás, muito provavelmente, emergirá como poderosa força política, ainda mais do que antes; e deslocará o Fatah, apesar do aparelho administrativo de Máhmude Abbas, presidente da Autoridade Palestinense.

"Ninguém mais se atreverá, daqui por diante, a contestar o direito democrático que o Hamás tem, como manifestação de uma opção política, eleitoral, dos palestinenses" –, disse-me um professor da American University, em Beirute, 30 anos, militante de esquerda. Perguntei por quê. "Porque a resistência islâmica conquistou, por sua luta de resistência à barbárie, o direito de sentar à mesa das negociações políticas", respondeu ele.

O que o exército israelense e seus aliados norte-americanos não admitem é que o Hamás não seja uma 'simples' milícia armada; que seja um legítimo movimento social, com ampla base de apoio popular, profundamente enraizado na sociedade da Palestina. Não é possível arrasar o Hamás sem, ao mesmo tempo, massacrar milhões de eleitores. Se Israel conseguir matar os líderes políticos, outros aparecerão, provavelmente mais radicais do que os que há hoje, e os substituirão. O Hamás é um fato da vida. Não há como apagá-lo e eles não se renderão em nenhum caso, por maior que seja o número de combatentes mortos.

Ainda mais claramente do que já se viu acontecer na guerra contra o Hizbóllah, o assalto israelense em curso, contra Gaza, já minou qualquer legitimidade eleitoral e qualquer representatividade pró-ocidental dos regimes governantes no Egito, na Jordânia e na Arábia Saudita, aos olhos dos cidadãos eleitores. Têm sido consistentemente acusados de colusão com o inimigo, contra companheiros de mesma fé. O Egito, que tem uma fronteira com Gaza, está recebendo toda a fúria dos muçulmanos, em todo o mundo. Há protestos contra embaixadas do Egito em vários países; em todos os casos, exigem que Hosni Mubarak abra a fronteira de Gaza, para aliviar o sofrimento dos palestinenses cercados e bombardeados.

Muitos egípcios falam em "ultraje", pela posição de Mubarak. Dizem que o maior país do mundo árabe está convertido em caldeirão, com a população em ebulição: que o conflito em Gaza deixou à vista o cânion que separa o governo egípcio e a população – o que é mais grave, se considerarmos que as condições sócio-econômicas pioram dia a dia –, e que tudo isso pode ter repercussões internas graves e levar a instabilidade política. Embora não se possa ver qualquer risco de revolta social no Egito, os militares são enigma absoluto; ninguém sabe o que sente a jovem oficialidade egípcia, considerada a aversão que a atitude de Mubarak, na chacina de Gaza, despertou na população.

Basta dizer, para que se possa avaliar o quadro, que os Estados árabes considerados "moderados" estão também na defensiva, e que a frente de resistência liderada por Iran e Síria é, hoje, a principal beneficiária dessa situação. Mais uma vez, Israel e o governo Bush facilitaram a vida de Ahmadinejad e ofereceram-lhe uma doce vitória.

Osama bin Laden, da Al Qaeda, tentou instilar ainda mais medo na Região, conclamando os muçulmanos a lançar uma jihad contra Israel e condenando os líderes árabes pró-ocidente, como colaboracionistas, em conluio com o Estado Judeu. Em fita distribuída com a clara intenção de aproveitar o ataque à Palestina, bin Laden ameaçou que sua organização abriria "novas frentes" contra os EUA e seus parceiros, Iraque e Afeganistão.

Ele sabe que a questão da Palestina ecoa muito mais fortemente e amplamente entre os árabes e os muçulmanos, que os conflitos nos outros dois países.

Os líderes israelenses insistem em investir na idéia, já desacreditada, de que possa haver solução militar para o dilema da segurança israelense. Embora o Estado judeu seja militarmente superior aos seus vizinhos árabes, não conseguiu nem quebrar a espinha dorsal política dos seus adversários nem conseguiu criar condições estáveis de paz e estabilidade de longo prazo.

De fato, a agressão brutal e desproporcional contra o Líbano em 2006 e, agora, em Gaza, mostra claramente o fracasso do poder de contenção de Israel na Região e implica dano muito grave ao lugar moral que Israel aspira a ocupar na comunidade internacional. A matança indiscriminada de número imenso de palestinenses e árabes não fará aumentar a segurança de Israel e aprofundará o perigoso ódio que cerca Israel, seja vindo dos árabes seja, mesmo, vindo dos cristãos árabes e dos muçulmanos, em todo o mundo. Se não for contido, o ataque a Gaza minará quaisquer possibilidades de sucesso da Solução dos Dois Estados, por melhores que sejam as intenções políticas.

Obama avalia que o tempo é fator crucial. Depois de ter-se mantido à distância do ataque israelense, deu sinais de 'exigir' paz no Oriente Médio; e já disse que fará contato com o Iran, em busca de outro tipo de política. Disse que está montando uma equipe de modo que "no primeiro dia ["on day one"] teremos reunido a melhor equipe possível para nos engajar imediatamente no processo de paz no Oriente Médio como um todo ["in the Middle East peace process as a whole"]". A equipe "estará em contato com todos os atores" [team would "be engaging with all of the actors there"], para que ambos os lados, israelenses e palestinenses, consigam o que aspiram a conseguir [so that "both Israelis and Palestinians can meet their aspirations"], disse Obama.

Isso implica conseguir que o Hamás detenha os Qassam, para segurança de Israel, o que, por sua vez, implica contato diplomático e político com o Hamás; e implica o fim da ocupação, por Israel, da Cisjordânia e de Gaza, e a criação de um Estado da Palestina, estado completamente independente, com capital em Jerusalém Leste.


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