Bem-vindo/a ao blog da coleção de História nota 10 no PNLD-2008 e Prêmio Jabuti 2008.

Bem-vindos, professores!
Este é o nosso espaço para promover o diálogo entre as autoras da coleção HISTÓRIA EM PROJETOS e os professores que apostam no nosso trabalho.
É também um espaço reservado para a expressão dos professores que desejam publicizar suas produções e projetos desenvolvidos em sala de aula.
Clique aqui, conheça nossos objetivos e saiba como contribuir.
Mostrando postagens com marcador Hamás. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Hamás. Mostrar todas as postagens

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Israel contra Gaza: guerra injusta. 'Autodefesa' contra a paz.

MICHAEL MANDEL, Counterpunch, 5/2/2009



A autodefesa justifica a guerra de Israel contra Gaza?

Levantaram-se objeções a essa alegação, baseadas na necessidade e na proporcionalidade. Matar mais de 1.000 palestinos em três semanas, centenas dos quais crianças, e ferir outros milhares, sob o objetivo alegado de conter a ameaça dos foguetes Qassams que não mataram nem feriram ninguém em Israel durante os seis meses da trégua declarada pelos dois lados, nem antes de Israel ter atacado Gaza dia 27/12, é desproporcional e intolerável em qualquer sistema ético que reconheça que a vida dos palestinos vale o mesmo que a vida dos israelenses.


É tão desproporcional, que não se pode crer que a defesa contra aqueles foguetes tenha sido o verdadeiro motivo da guerra. Ignorar as muitas vias diplomáticas possíveis para deter os mesmos foguetes, por pequena ameaça que sejam – por exemplo: levantar o bloqueio que sufocou Gaza por 18 meses – sugere a mesma interpretação.


Mas há objeção mais fundamental: o princípio auto-evidente, princípio legal e moral, de que o agressor não pode alegar autodefesa para justificar violência contra a resistência provocada pelo seu próprio ato de agredir. Esse princípio está bem claramente manifesto nas sentenças dos tribunais de Nuremberg.

Por exemplo, no que escreveu um dos juízes, em Nuremberg:

"Um dos fenômenos mais espantosos desse caso, ao qual não faltam traços espantosos, é o modo como a guerra de agressão que a Alemanha fez à Rússia foi tratada pela defesa como se tudo tivesse acontecido ao contrário do que aconteceu. (...) Se se assumir que algumas das unidades da resistência russa ou membros da população cometeram atos que são ilegais face as leis de guerra, ainda faltaria demonstrar que esses atos não foram atos de legítima defesa contra ataques lançados contra eles pelo exército invasor. Nos termos da Lei Internacional, como nos termos da lei comum, não há revide ao revide. O agressor agredido por sua vítima não a pode chacinar e, em seguida, alegar legítima defesa" ("Julgamento de Otto Ohlendorf & outros", Tribunal Militar, II-A, 8/4/1948).


Então, quem agrediu quem?

Já não haveria qualquer dúvida sobre quem foi o agressor, tampouco, se o ataque tivesse acontecido antes da retirada de Israel da Faixa de Gaza em 2005. Até ali, Israel já praticava agressão continuada contra Gaza por 38 anos, em ocupação violenta e ilegal, também de outras áreas do território palestino, inclusive de Jerusalém Leste, desde 1967.


Em 2005, a ocupação israelense já havia sido condenada – declarada ilegal –, pelos mais altos órgãos jurisdicionais da lei internacional, especificadamente pela Corte Internacional de Justiça, em sentença de 2004, sobre o muro de separação. Já havia sentença de ilegalidade da ocupação e das colônias de israelenses, as quais violam a lei contra a colonização, e que são elementos-chave na ocupação. Os 15 juízes da Corte Internacional foram unânimes na opinião de que as colônias eram então ilegais; e 13 dos 15 consideraram ilegal também o muro, sob o argumento de que o muro protege as colônias, não a própria Israel, e, portanto, são se qualifica como instrumento de autodefesa.


Os foguetes começaram, de Gaza, em 2001; a primeira vítima israelense é de 2004. Desde então, houve 14 vítimas israelenses, antes da atual guerra. Trágico, sim, mas evidentemente sem importância alguma, se comparadas aos 1.700 palestinos mortos em Gaza no mesmo período. Uma morte é uma tragédia, mas muitas mortes não são só "uma estatística", como pensava Stalin; são a tragédia multiplicada muitas vezes.


Considerada a ocupação por Israel, agressiva e violenta, antes da retirada de 2005, os foguetes de Gaza têm de ser considerados, esses sim, como autodefesa proporcional e necessária ou como revide à agressão pelos israelenses.


A retirada de Israel, de Gaza, em 2005, altera a situação?

Argumentou-se por boa razão, que o bloqueio de 18 meses contra Gaza, principal razão pela qual o Hamás recusou-se a renovar a trégua, é, ele mesmo, o ato de agressão que gerou o direito de autodefesa dos palestinos.


Mas ainda mais importante, embora quase sempre esquecida, é a ocupação continuada, ilegal e agressiva, por Israel, da Cisjordânia e de Jerusalém Leste, e que continuou depois da retirada de Gaza, em 2005. De fato, a retirada de Gaza foi feita com o objetivo de fortalecer a posição israelense nos outros territórios e foi acompanhada de aumento no número de colonos, nas outras áreas, em relação aos que foram removidos de Gaza.


A ocupação da Cisjordânia e de Jerusalém Leste também foi condenada, como a ocupação de Gaza, nas sentenças da Corte Internacional e nas resoluções do Conselho de Segurança. Além disso, pelos Acordos de Oslo, Israel e Palestina acordaram que "as duas partes consideram que a Cisjordânia e a Faixa de Gaza compõem uma única unidade territorial, cujos integridade e status serão preservados no período intermédio."


De fato, quando o Hamás venceu as eleições em 2006, eleições declaradas impecavelmente claras e legais e perfeitas por todos os observadores internacionais, o Hamás ganhou poder legítimo sobre toda a Autoridade Palestina, incluída, é claro, a Cisjordânia (e foi impedido, por Israel, de fazer campanha eleitoral em Jerusalém Leste). Há vários advogados e juristas da Cisjordânia filiados ao Hamás, hoje, presos em prisões israelenses.


O fato básico é que os palestinos da Cisjordânia e de Gaza são um único corpo eleitoral, embora separados por muros, cercas e pontos de controle de fronteira. A retirada unilateral de Israel de uma parte desse único território não torna agressores os habitantes dessa parte do território quando resistam contra a ocupação ilegal do restante do território.


A autodefesa não justifica o ataque nem o bloqueio-sítio que o precedeu. Por que justificaria? Porque o Hamás seria "organização terrorista"? Mas o terrorismo define-se por matar deliberadamente civis para objetivos políticos ilegais e, nessa empreitada, Israel pratica terrorismo muitas vezes mais claro e comprovável, que o Hamás. Porque o Hamás não reconhece a Israel "o direito de existir"? Mas o Hamás ofereceu muitas vezes trégua de longo prazo a Israel, nos termos das fronteiras legais internacionalmente reconhecidas –, que são fronteiras de direito, e é direito do Hamás defender o próprio direito.


Israel diz que isso não basta; que, antes, o Hamás teria de reconhecer a legitimidade de Israel; em outras palavras, que teria de conceder a legitimidade do Estado judeu e tudo o que isso significou para os palestinos. Em outras palavras, como disse, com ironia, um jornalista israelense: Israel insiste em que o Hamás abrace o sionismo, como condição para iniciar conversações de paz.


Nada justifica a violência, nessa ou em qualquer escala. A verdade é que a razão mais plausível pela qual Israel combate o Hamás (e, antes, combateu a OLP) é: autodefesa, até, pode-se dizer que seja; mas não contra foguetes Qassams e, sim, contra o dever de Israel de fazer a paz com os palestinos, nos limites das fronteiras de antes de 1967 – exatamente como exige a lei internacional.


Michael Mandel é Professor na Faculdade de Direito Osgoode Hall da Universidade de York, em Toronto, onde leciona Direito de Guerra. É autor de How America Gets Away with Murder.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

"Já vi montanhas de cadáveres demais em nome desta civilização [judaico-cristã] esclarecida"

O verdadeiro alvo


*Vladimir Safatle


Afinal de contas, quem exatamente o governo de Israel quer atacar?


“Gostaria de terminar este artigo dizendo que, se o verdadeiro alvo desta invasão é o bloco pacifista e esquerdista judaico que um dia teve peso real na constituição da agenda política da região e que poderia começar a desatar o nó entre política e teologia que parece querer colonizar os dois lados, então cabe a todos realmente interessados na paz lutar por construir uma alternativa política real com forte poder de transformação social. Diria que esta alternativa já havia sido sintetizada de maneira decisiva por um intelectual cuja grandeza faz falta em um momento com este: Edward Said. Sua luta incansável por um Estado bi-nacional entre judeus e palestinos deve nos servir de guia.”


Não há hoje assunto, ao mesmo tempo, mais urgente e mais bloqueado do que o conflito palestino. Mais urgente porque ele há muito deixou de ser um problema regional. Seus desdobramentos influenciam de maneira decisiva a relação entre os árabes e o que convencionamos chamar de ocidente. Esta é uma peça maior não apenas da pauta da política externa mundial. Levando em conta que os árabes e turcos compõem atualmente o conjunto mais expressivo de trabalhadores pobres em países europeus, além de parcela significativa da classe média de países sul-americanos, não é difícil compreender como a "questão árabe" tornou-se ou pode tornar-se, em muitos países, um assunto de política interna.


No entanto, a urgência do assunto só não é maior que seu bloqueio. De fato, encontramos todos os dias textos e mais textos sobre o problema. Mas a grande maioria está bloqueada pela profusão infindável de preconceitos toscos, assim como amálgamas intelectualmente desonestos e apressados produzidos por ambos os lados. Isto quando não se entra no mais raso psicologismo. Assim, os palestinos são muitas vezes apresentados como crianças que não sabem escolher (já que votaram no Hamas nas eleições legislativas de 2006 "contra seus próprios interesses"). Os israelenses por sua vez seriam arrogantes e egoístas.


Não se vai muito longe com análises deste calibre. Muito menos com análises que não cansam de repetir o mantra do "terrorismo islâmico" ou do "Estado assassino". Na verdade, não precisamos de julgamentos sumários nem pregações morais, mas de análises que demonstrem onde falham certos discursos oficiais hegemônicos que tentam definir a interpretação do conflito, onde a argumentação precisa parar a fim de que procedimentos de estigmatização possam começar. Talvez isto nos ajude a compreender como, em pouco mais de dez anos, conseguimos passar de uma situação de paz à vista a uma sucessão de ações militares cada vez mais chocantes.


O argumento do direito de auto-defesa é consistente?


Nos últimos dias, o governo de Israel tem patrocinado uma larga operação militar para, segundo Shimon Perez, "dar uma lição no Hamas". Até agora, o resultado são mais de 700[1] mortos, sendo 257 crianças. Contra críticas internacionais, o governo de Israel afirma ter o direito de agir em defesa de sua integridade territorial e da segurança de seus cidadãos. Tal segurança teria sido colocada em cheque devido a ataques com foguetes arcaicos operados pelo Hamas após uma longa trégua. Que tais ataques não tenham produzido vítimas, isto não significa que o governo de Israel não deveria lutar para evitar vítimas futuras. E, neste caso, lutar consistiria em "quebrar definitivamente a capacidade de ataque do Hamas", como disse o próprio governo.


O raciocínio todo é correto desde que aceitemos que o direito de defesa se aplica à relação entre Israel e Palestina. No entanto, este direito não pode ser aplicado quando se trata de ações referentes à gestão de um território ocupado ilegalmente. Ou seja, não posso alegar direito de defesa quando reajo a ataques vindos de um território que invadi ilegalmente.


Infelizmente, esta é claramente a situação em que Israel se encontra em relação à Palestina (composta, de maneira indissociável, da faixa de Gaza e da Cisjordânia).


O direito internacional, representado pela ONU (diga-se de passagem, a mesma instituição que criou o Estado de Israel, o que lhe dá toda a legitimidade para enunciar uma lei sobre a situação), reconhece à Palestina o estatuto jurídico de "território ocupado", ocupação considerada totalmente ilegal pelas resoluções 242 e 338 há mais de quarenta anos. A decisão é tão claramente aceita por instâncias internacionais que, por exemplo, o Supremo Tribunal Federal brasileiro deverá indeferir o pedido israelense de deportação de um fanático que cometeu crimes na Cisjordânia e que veio a esconder-se em nosso território, já que a jurisdição de Israel sobre os territórios ocupados não é reconhecida. Ou seja, uma situação ilegal anula a possibilidade de fazer apelo a um direito internacionalmente reconhecido.


Mas é claro que virá a pergunta: não teriam os israelenses a obrigação de assegurar seus cidadãos contra ações de um grupo vergonhosamente anti-semita que assassina civis e prega claramente a destruição do Estado de Israel ao invés de pregar apenas a defesa dos palestinos contra a ocupação? Afinal, a luta dos povos árabes contra o Estado de Israel não é uma invenção paranóica. As guerras de 1967 e de 1973 são prova maior de que toda vigilância é necessária. Ainda mais com o crescimento do caráter beligerante do dito fundamentalismo islâmico, representado na região pelo Hamas. Não estaríamos aí diante de uma situação de exceção, onde os critérios tradicionais de direito e justiça devem ser suspensos?


Aqui, vale a pena fazer duas colocações. Primeiro, o estado contínuo de guerra contra Israel desde sua fundação, em 1948, nunca foi o resultado de algum pretenso ódio milenar irracional entre árabes e judeus provocado por fanatismos religiosos, como muitas vezes se procura vender, mas de um clássico conflito territorial derivado do mais catastrófico processo de descolonização do século XX. Povos que ainda nos anos 20 viam-se como irmãos semitas foram jogados em um conflito fraticida devido a uma descolonização, operada sobretudo pela Grã-Bretanha, que prometia reiteradamente a ambos o direito sobre as mesmas terras.

De qualquer forma, esta situação há muito perdeu força, principalmente depois da antiga OLP de Yasser Arafat reconhecer as fronteiras de 1967. O único país que ainda está em estado de beligerância com Israel é a Síria devido a invasão israelense das Colinas de Golã.


Um histórico processo de negociação iria começar agora, graças a mediação da Turquia, no qual Israel devolveria o território ocupado em troca da normalização das relações. Algo nos moldes do que ocorreu com o Egito e a Península do Sinai. Mas a invasão da faixa de Gaza jogou uma verdadeira pá de cal em tudo isto.


Por outro lado, se a questão gira em torno da implementação de políticas sólidas de segurança nacional, só podemos repetir uma pergunta de Daniel Baremboin, alguém cuja grandeza de espírito só é comparável à sua inteligência musical impar: "Esta é, afinal, a maneira mais eficaz de defender-se?". A resposta é simplesmente: não. Na verdade, não haveria maneira mais eficaz de defesa do que fazer aquilo que disse o Prêmio Nobel da Paz e ex-presidente norte-americano, Jimmy Carter: "negociar diretamente com o Hamas" e suspender o bloqueio a Gaza, que além de ser mais uma afronta ao direito internacional, alimenta o desespero e humilhação dos palestinos: solo fértil para o crescimento do apoio ao grupo islâmico.


Da mesma forma, não haveria atualmente as deploráveis bravatas anti-semitas de Ahmadinejad e o perigo real do Irã transformar-se em potência nuclear descontrolada se a política mundial não tivesse enveredado pelo caminho brutal da administração Bush.


Lembremos que o Irã estava em um claro movimento de abertura de seu regime e normalização de relações internacionais, primeiro com Rafsanjani e depois com o reformista Kathami. Este movimento foi quebrado em 2005 como uma das consequências do recrudescimento das tensões produzidas pela invasão no vizinho Afeganistão. O desejo iraniano de transformação em potência nuclear foi resultado de um cálculo simples: os EUA invadiram o Iraque mesmo sem mandato da ONU e não invadiram a Coréia do Norte (com suas ameaças à "ordem mundial") porque o primeiro não tinha armas nucleares e o segundo tinha. Logo, esta é a condição para a sobrevivência.


Gênese do fundamentalismo islâmico popular Mas voltemos à idéia de que a melhor política de segurança teria sido negociar diretamente com o Hamas. De fato, ele deu claros sinais, desde que venceu as eleições legislativas de 2006, que sentaria à mesa de negociações. O Hamas aceitou longas tréguas, como esta que terminou em 19 de dezembro. Alguns de seus líderes, como o chefe do conselho político Kahled Mechaal, chegaram mesmo a afirmar: "queremos um Estado nas fronteiras de 1967". Outro chegou a propor uma "trégua de cem anos". Ou seja, havia indícios de que poderia acontecer com o Hamas o que aconteceu com o IRA, na Irlanda do Norte: a transformação de um grupo armado em ator político.

De qualquer forma, é oportuno contextualizar um dos dispositivos maiores que fundamentam a recusa do governo de Israel em negociar com o Hamas: "Não é possível negociar com alguém que não reconhece seu direito de existência". Sim, é verdade. Por isto, é muito difícil avançar enquanto existir, em Israel, partidos importantes como o Likud (atualmente na frente nas pesquisas eleitorais) cuja carta programática simplesmente não reconhece o direito à existência de um estado palestino. Ou seja, os palestinos também não têm seu direito a um estado reconhecido por todos os principais atores políticos israelenses.


No entanto, durante o governo do likudista Netanyahu, Arafat negociou com um partido que, em sua carta, não reconhecia o direito a um estado palestino a oeste do Rio Jordão. Se Arafat fez, os políticos israelenses também podem fazer. Diga-se de passagem, mesmo aquilo que o atual partido governista Kadima propõe aos palestinos, além de ignorar frontalmente todas as resoluções da ONU a respeito dos territórios ocupados, dificilmente pode ser chamado de "estado" pois não leva em conta princípios fundamentais de autonomia e auto-determinação.

Mas podemos ainda dizer, juntamente com o atual governo de Israel: "Não negociamos com terroristas". Em uma ironia maior da história, ele repete as mesmas palavras usadas pela administração colonial britânica na Palestina, referindo-se a grupos judaicos de luta armada atuantes nos anos 40, como o Irgun e o grupo Stern. Isto sem falar que foi com o adjetivo de "terrorista" que Albert Einstein e Hannah Arendt trataram o futuro primeiro ministro de Israel, Menachen Begin (carta ao #ew York Times, 4 de dezembro de 1948), líder do futuro Likud do qual saiu o atual primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert. Mas se há algo que a história das lutas de ocupação (Argélia, Vietnã, Irlanda etc.) nos ensina é: chega uma hora em que você terá que negociar com os "terroristas". Por sinal, foi este o destino das relações entre o governo de Israel e os "terroristas" da OLP de Arafat[2].


Pode-se contra-argumentar, no entanto, que entre o Hamas e a antiga OLP há uma diferença maior. Arafat não queria criar um estado islâmico às portas de Israel. Seu grupo era laico. Sim, é verdade mas isto, por si só, não justifica que o conflito palestino seja visto como uma situação de exceção. Pois a pergunta que deve ser respondida é: como um grupo como o Hamas, com um programa minoritário no início dos anos 90, transformou-se hoje no partido mais popular da Palestina? Uma popularidade que irá aumentar significativamente após este conflito, tal como aconteceu com o Hizbollah. Cada palestino morto significa a consolidação de um sentimento de humilhação e descrença em relação à negociação política. E o que é expulso do campo simbólico da política retorna sob a forma de violência real. Por sinal, esta foi a equação que sempre alimentou o Hamas e que continuará a alimentá-lo. Pois não se destrói um grupo armado aumentando seu apoio popular. Quem duvida do aumento do apoio ao Hamas, convido que veja a versão inglesa do canal de TV mais assistido no mundo árabe (Al-Jazeera) e analise a maneira com que seus militantes são retratados. Tudo isto demonstra que o ataque a Gaza não era justificado nem do ponto de vista do direito de defesa, nem sequer do ponto de vista da eficácia de medidas de segurança.


Neste ponto, gostaria de esclarecer minha posição. Robert Kurz, em um artigo profundamente confuso (Folha de São Paulo, 11/01/2008), critica o que ele chama de "esquerda pós-moderna (?)" que estaria disposta a "identificar-se com a administração autoritária da crise mundial [do capitalismo] aceitando como inevitável a guerra islâmica contra os judeus, como se ela fosse um mero flanqueamento ideológico". Como se esta tal esquerda pós-moderna defendesse o Hamas por confundi-lo com uma força dos antigos "movimentos anti-imperialistas" e misturasse isto com tendências culturalistas e relativistas.


Juntar-se-ia a isto um velho neoestatismo [o fantasma clássico a assombrar a vida de Robert Kurz] que crê valer a pena pacificar as massas por meios autoritários de um estado forte, nem que seja um estado islâmico. Contra isto, diz Kurz, deveríamos insistir na necessidade de "aniquilamento" do Hamas e do Hizbollah.


Há tempos não se via uma análise tão fora de esquadro, pois esta esquerda pós moderna que apóia o Hamas e flerta com neoestatismo simplesmente não existe. Talvez Kurz pense em Foucault com seu fascínio inicial equivocado pela revolução iraniana e acredite que os críticos atuais da invasão a Gaza partilhem um erro simétrico. No entanto, se este for de fato o esquema na mente de Kurz, só podemos dizer que ele é delirante. Ninguém está procurando defender um grupo claramente racista e reacionário. Trata-se simplesmente de constatar que todas as tentativas de "aniquilá-lo" militarmente só aumentaram sua força pois tais ações militares criaram o quadro narrativo ideal para que o Hamas aparecesse, aos olhos dos palestinos, como representante legítimo da resistência à ocupação. Basta lembrar que, em 1994, na época dos acordos de Oslo, a popularidade do grupo não passava de 15%.


Hoje, ela é assustadoramente alta. Quer dizer, só há uma maneira de "aniquilar" o Hamas e esta maneira não passa pela vitória militar, seja lá o que isto possa significar[3]. Ninguém está aqui fazendo "vistas grossas" para os perigos do fundamentalismo islâmico, mas procurando a melhor maneira de desativar a bomba que ele representa.


Não esqueçamos que esta recrudescência do sentimento religioso no Oriente Médio é o resultado direto de um longo bloqueio, patrocinado pelo ocidente, de modificações políticas nos países árabes. Desde os anos 50, o ocidente vem sistematicamente minando todos os movimentos políticos árabes de auto-determinação e independência. O caso da conspiração contra o líder nacionalista iraniano Mossadegh é aqui paradigmático. Por outro lado, os regimes mais corruptos e totalitários da região são apoiados de maneira irrestrita pelo ocidente (Paquistão, Arábia Saudita, Jordânia, Tunísia, Egito - cujo "presidente" Hosni Mubarak está no poder há meros 37 anos). Ou seja, a experiência cotidiana de um árabe em relação aos valores modernizadores e democráticos ocidentais é que eles servem apenas para justificar o contrário do que pregam. Os árabes fizeram a prova do caráter formalista e "flexível" dos valores ocidentais. Neste ambiente de cinismo e bloqueio do campo político, o retorno à tradição religiosa com suas promessas de revitalização moral é sempre uma tendência. Foi isto o que aconteceu. Ou seja, não se trata aqui de traço arcaizante algum típico de civilizações refratárias ao nosso "choque civilizatório". Trata-se de um sintoma recente de bloqueio do potencial transformador do campo político. Por isto, os movimentos islâmicos não são apenas, com diz Kurz, "uma ideologia culturalista pós-moderna da crise de uma parte das elites há muito tempo ocidentalizadas nos países islâmicos". Eles são movimentos de forte apoio popular e este é o caráter verdadeiramente dramático da situação. Desmontar este apoio popular só é possível criando alternativas políticas reais e com forte potencial de transformação social. Só que todas as vezes que tais alternativas foram tentadas, elas logo foram abortadas pelo ocidente. O que nos permite acreditar que apenas a construção do campo político no mundo árabe irá, a médio termo, instaurar uma situação na qual o apelo à religião não terá mais ressonância social. Elas podem voltar a ser sociedades indiferentes à religião.


Por outro lado, basta ver a Arábia Saudita para perceber que a criação de um estado islâmico nunca foi realmente problema a tirar o sono do ocidente.


O sócio do Hamas


Mas voltemos à questão principal. Se os ataques não são justificáveis do ponto de vista do direito de defesa, nem são úteis como medidas de segurança, afinal para que eles servem?


Algumas pessoas mal-intencionadas dizem que se trata de estratégia eleitoral para vitaminar os combalidos candidatos da coalização no poder. Tanto a direitista Tizpi Livni quanto o trabalhista Ehud Barak, membros do consórcio governista, estavam predestinados a perder a eleições de fevereiro. O Partido trabalhista de Barak estava condenado a ter uma das participações mais humilhantes de sua história. Como em um passe de mágica, tudo isto mudou. Mas, não. Não é possível que alguém íntegro como o primeiro-ministro Ehud Olmert possa ter tramado isto. É verdade que nenhum governante na história de Israel foi alvo de tantos processos judiciais por corrupção, teve índices tão baixos de popularidade (3% de aprovação em 2007) e foi tão acusado de incompetência como Olmert. Mas isto é certamente uma intriga da oposição.


Ao invés de usar este argumento. que é circunstancial, gostaria, no entanto, de usar um argumento "estrutural". Na verdade, esta incrível ascensão do Hamas só foi possível porque eles têm um sócio poderoso e sempre pronto a fortalecê-lo. Não, este sócio não é o Irã. Este sócio é a direita israelense que está ininterruptamente no poder desde a época de Benjamin Netanyahu (como gostaria de mostrar, o governo do trabalhista Ehud Barak não foi uma exceção) e que nunca acreditou nos acordos de Oslo. A direita israelense é o grande sócio do Hamas porque, graças a ele, ela consegue atingir seu verdadeiro alvo: os judeus esquerdistas, anti-comunitaristas e pacifistas de Israel e do mundo que sempre criticaram duramente e com os melhores argumentos a situação nos territórios ocupados, chegando mesmo às heróicas ações dos refuseniks (israelenses que se recusavam a servir o exército na Cisjordânia e na faixa de Gaza). Tais proposições podem parecer gratuitas e profundamente arbitrárias, fruto de alguma espécie de delírio esquerdista diversionista. No entanto, elas não o são.


Voltemos, por exemplo, à época dos acordos de Oslo. Naquele momento em que a paz parecia possível, um fenômeno extrememante relevante mostrou toda sua amplitude.


Enquanto os governos de Rabin e Arafat tentavam implementar o plano, uma oposição que tudo fazia para minar os acordos foi mostrando sua verdadeira face. No caso do governo de Israel, víamos não apenas colonos judeus que afrontavam o exército israelense em processos de desocupação da assentamentos e discursos incendários de rabinos conservadores contra o próprio governo israelense. Muitos hão de se lembrar, por exemplo, destas inacreditáveis campanhas publicitárias feitas por organizações judaicas fundamentalistas que conclamavam os judeus do mundo, com armas em punho, a impedirem a entrega de terras aos palestinos. O final deste processo foi o chocante assassinato de Rabin por um colono judeu.


Nunca na história de Israel seu povo se mostrou tão dividido. O que levou alguns a acreditar que a unidade do povo israelense poderia ser seriamente ameaçada com o avanço do processo de paz. Pois há uma ambiguidade maior no cerne da concepção israelense de nação.


Por um lado, ela é assentada na criação de um estado moderno e laico onde haveria espaço inclusive para os árabes (mesmo que em número limitado), mas de outro, ela é assombrada por fantasmas religiosos e comunitaristas no interior dos quais um messianismo redentor se mistura perigosamente com a tentativa de criar vínculos orgânicos entre nação, estado e povo.


Poderíamos mesmo dizer que um espectro ronda o Estado de Israel: o espectro do teológicopolítico. Foi ele que ganhou encarnação trágica com o assassinato de Rabin por um colono.


Do lado de Israel, ficou claro que o avanço do processo de paz só seria possível através de uma confrontação corajosa com este núcleo teológico-político que sempre serviu de alimento para uma parte de seu imaginário como nação. No entanto, isto seria simplesmente a morte da direita israelense com seu comunitarismo indisfarçável e seus partidos religiosos que visam colonizar o campo social com narrativas mítico-religiosas. Por isto, para ela, tratava-se no fundo de adiar o processo de paz ad infinitum e retirar qualquer força de pressão social dos grupos pacificistas esquerdistas. E a melhor maneira para isto era alimentando a popularidade de um grupo de fanáticos islâmicos através de uma escalada de provocações, ações militares e humilhações ao governo da Autoridade Palestina. Foi assim que a direita israelense e o Hamas cresceram juntos a partir do final do governo Rabin. Um precisa do outro para existir. Foi assim também que os grupos judaicos pela paz, espalhados pelo mundo, foram impiedosamente esvaziados.


Mas pode-se dizer que o argumento aqui apresentado é falho. Afinal, e o que dizer do Partido Trabalhista, que governou Israel com Ehud Barak e que está atualmente na coalização governista que comanda a invasão? Trata-se também de um membro da direita israelense?


Hoje, certamente sim. O que vemos é um partido que, como seus congêneres sociaisdemocratas na Europa, não tem mais criatividade política alguma nem força suficiente para escapar de uma agenda securitária que foi posta em circulação pela direita e pela extremadireita.


Tanto que hoje ele não passa de um sócio indistinguível do Kadima. Este destino havia ficado muito claro com o governo Barak. Mas não foi Barak que propôs em Camp Davis o melhor plano de paz para os palestinos, com garantias de um estado com 92% da Cisjordânia e a divisão de Jerusalém? Sim, e, diga-se de passagem, foi um erro crasso de Arafat não o ter aceitado. O argumento da recusa é que o acordo não tratava do direito de retorno dos mais de 900.000 refugiados palestinos a Israel, tal como garantido pela resolução 194 da ONU. Em nome de um direito estruturalmente semelhante, a OTAN havia invadido o Kosovo. Mesmo que Arafat tivesse legalmente razão, era hora de pegar o que estava sendo oferecido.


No entanto, vale a pena aqui também uma contextualização. O governo Barak nunca conseguiu escapar de uma agenda securitária e de retaliação militar contínua já então dominante, até porque sua coalização era muito heteróclita para tanto e, de fato, porque talvez ele não tivesse nada mais a oferecer. Pois hoje temos relatos de membros do gabinete Clinton (então mediador do processo) a respeito das negociações de Camp Davies que deixam sérias dúvidas sobre as reais intenções de Barak. Já a situação guardava algo de surreal: uma negociação daquela envergadura sendo feita por um presidente e um primeiro-ministro que iriam sair do cargo meses depois e que por isto, em última instância, não poderiam garantir a implementação do que seria acordado. Na verdade, temos todo o direito de perguntar por que Barak esperou os últimos dias de seu governo para apresentar tal plano.


Dois povos, um estado


Gostaria de terminar este artigo dizendo que, se o verdadeiro alvo desta invasão é o bloco pacifista e esquerdista judaico que um dia teve peso real na constituição da agenda política da região e que poderia começar a desatar o nó entre política e teologia que parece querer colonizar os dois lados, então cabe a todos realmente interessados na paz lutar por construir uma alternativa política real com forte poder de transformação social. Diria que esta alternativa já havia sido sintetizada de maneira decisiva por um intelectual cuja grandeza faz falta em um momento com este: Edward Said. Sua luta incansável por um Estado bi-nacional entre judeus e palestinos deve nos servir de guia.


De fato, os defensores da criação de um estado palestino esquecem de um dado simples: ele não seria viável economicamente e serviria apenas de dormitório para mão-de-obra barata e sem direitos trabalhistas a ser explorada por seus vizinhos. Gaza é uma faixa de terra árida com 11 km de extensão e 44 km de largura. A Cisjordânia é do tamanho do Distrito Federal. Não se constrói um estado com tão pouco.


Mas, para além deste "detalhe" pragmático há uma questão maior. Um Estado binacional criaria uma dinâmica sócio-política realmente transformadora com poder irradiador para toda a região. Muitos rechaçam a idéia dizendo: "No fundo, isto significa dizer que o povo judeu (ou o povo palestino) não tem direito a ter um estado". Bem, neste caso, devemos dizer claramente: nenhum povo tem direito a ter um estado pois o ímpeto fundamental do Estado moderno é a dissociação radical entre estado, nação e povo. O Estado moderno deve ser uma construção que permita aos sujeitos serem reconhecidos para além de suas etnias, religiões e culturas enquanto cidadãos indiferentes a suas diferenças. Por acreditarmos no caráter emancipador desta indiferença, devemos rejeitar radicalmente todo o qualquer nacionalismo com seus motivos de conservação de hábitos e tradições enquanto guia de conduta, assim como devemos rejeitar as armadilhas que procuram nos aprisionar em identidades sociais construídas no bojo de tradições religiosas. Lutemos pois por uma época em que as nações sejam peças políticas do passado.


É verdade que nosso tempo parece particularmente triste para defesas desta natureza.


Pois vivemos em uma era onde belgas se digladiam a fim de se separarem, onde franceses criam Ministérios da identidade nacional, onde estruturas como a Comunidade européia são, na verdade, federações comerciais que só conseguem estabelecer algum acordo político quando é questão de correr atrás de imigrantes. Mas talvez estes sejam sintomas de uma época esgotada que teima em não morrer. Acelerar seu desabamento é nossa tarefa.


Por isto, contra aqueles que vêem no conflito palestino o último capítulo da luta milenar na defesa dos valores da civilização judaico-cristã, devemos afirmar, com um sorriso:


"Então parem o carro porque eu quero descer. Já vi montanhas de cadáveres demais em nome desta civilização esclarecida". Sejamos fiéis à grandeza dos críticos de nossa própria tradição e digamos, junto com eles: a civilização judaico-cristã só foi grande quando teve a força de suspeitar de seus próprios valores, de se auto-criticar impiedosamente, de esquecer suas raízes religiosas. Então ela aprendeu, como disse Nietzsche, a força dos que sabem que é necessário se perder para poder encontrar seu verdadeiro destino. Talvez a criação de um Estado binacional nesta região carregada de tanto simbolismo como é o "oeste do Rio Jordão" seria o começo necessário para esta perda que emancipa. Cabe a estes dois povos igualmente vítimas do exílio, do desterro, da perseguição e da humilhação a tarefa de ser fiel a essa experiência histórica comum e transformá-la na mola mestra de um novo momento de criatividade política. Com a inteligência que transforma sofrimento em criação, diremos: o exílio é nossa verdadeira força.


*Vladimir Safatle, Professor de filosofia da Universidade de São Paulo e autor de, entre outros, Cinismo e falência da crítica (Boitempo, 2008), Lacan (Publifolha, 2007) e A paixão do negativo: Lacan e a dialética (Unesp, 2006)



[1] (nota da autora deste blog] Antes do cessar-fogo israelense, ao final de janeiro, o número já havia passado de 1300 mortes sendo 410 crianças.


[2] Bush Júnior, quando perguntado sobre a possibilidade de negociar com o Hamas, disse a frase: "Você acredita que venceríamos Hitler com diálogo e diplomacia?". Que este amálgama tenha saído da boca de Bush Júnior, bem, isto não impressiona ninguém, mas que intelectuais inteligentes operem com ele, eis algo de inaceitável.

Primeiro, deveríamos parar de vez com esta tendência nefasta, presente em ambos os lados do conflito, de comparar o opositor aos nazistas. Assim, o Hamas é igual a Hitler e o "estado sionista" age como o "estado nazista". Francamente, esta é uma maneira de simplesmente não querer discutir o problema. E se for para apoiar-se nas infames declarações racistas dos radicais palestinos, deveríamos lembrar da profusão de racismo que ultimamente sai da boca de políticos israelenses influentes, alguns comparando os árabes a "vermes" e "povo que tem a mentira no sangue". Melhor seria assumir o conflito por aquilo que ele é: não um conflito de civilizações, uma reedição das cruzadas ou uma luta do bem contra o mal radical, mas um conflito territorial que assumiu proporções que nunca deveria ter assumido.


[3] Diga-se de passagem, é assustador ver o vocabulário do "aniquilamento" sair da boca de um pretenso leitor da Escola de Frankfurt, mesmo relacionando-se com fanáticos religiosos. Rezemos para que este seja apenas um erro de tradução. Pois, se não for este o caso, poderíamos dizer: sendo a ordem "aniquilar o Hamas" de nada adianta desmantelá-lo como se fez inúmeras vezes com o ETA ou o IRA. Como nestes dois casos, logo ele se recomporá. Melhor seria eliminar fisicamente seus membros, já que eles não se deixam prender facilmente. Mas também de nada adianta eliminar apenas os membros. Tenho todo o direito de acreditar que os filhos e irmãos dos membros alimentarão o ódio contra o inimigo e pegarão em armas na primeira oportunidade. Devemos ter a responsabilidade preventiva de eliminar também os filhos e irmãos. Mas o que dizer também dos vizinhos que cresceram juntos com estes "eliminados" e que podem se ver na obrigação moral de continuar a batalha? Talvez devêssemos também cuidar dos vizinhos. Ou seja, como dizia o "neoestatista" Hegel, as piores catástrofes são normalmente feitas com as melhores razões.

domingo, 25 de janeiro de 2009

A complexidade em Gaza

Primeiro inquérito sobre os horrores da guerra em Gaza

A sociedade israelense, como que saindo de uma catarse, já começou um acerto de contas com a sua consciência. A maioria esmagadora apoiou a operação, depois de tantos meses de foguetes sobre o seu território. Por outro lado, nada se explica se não se levar em conta a luta interna entre o Hamas e o El Fatah pela liderança da causa palestina.

Nos ataques israelenses na faixa de Gaza morreram mais de 400 crianças e jovens de até 16 anos e mais de 300 mulheres e idosos. Somadas, essas vítimas são mais da metade do total de mortos, por sua vez também muito grande: 1.300.

A culpa é dos generais israelenses, que atacaram sem piedade, acusou o líder do Hamas, Khaled Meshal, quando proclamou de Damasco a vitória do Hamas. A culpa é do próprio Hamas, por não renovar a trégua com Israel, apesar dos apelos da Autoridade Nacional Palestina, acusou seu presidente Mahmoud Abbas, na Al Jazeera.

Certamente a culpa não é das crianças e suas mães.

A sociedade israelense, como que saindo de uma catarse, já começou um acerto de contas com a sua consciência. A maioria esmagadora apoiou a operação, depois de tantos meses de foguetes sobre o seu território causando pânico e o êxodo de mais de 20 mil pessoas para o Norte, mas a morte de tantas crianças é um peso que mesmo os corações mais endurecidos não conseguem suportar.

O sentimento de culpa coletiva pode explicar a avalanche de adesões à campanha da estudante Hadas Balas, que emitiu emails pedindo suprimentos para lotar dois caminhões para o povo da Gaza, e em poucos dias lotou dez caminhões. A ajuda veio de todos os cantos, desde uma Igreja Católica de Haifa até o movimento juvenil sionista Hashomer Hatzair.

Ainda antes de encerrada a operação, a Associação Pelos Direitos Civis de Israel já havia ocupado uma página inteira no Haaretz com obituários de crianças mortas em Gaza. No centro do anúncio, um quadro negro com a palavra “dai!”(basta!). Nesse mesmo dia, Ari Shavit, um dos principais analistas do Haaretz acusou a operação “cast lead” de ter ultrapassado todos os limites: ”O que era para ser uma operação militar calculada virou um assalto descontrolado sobre uma área populosa.”

Embora ainda em minoria, mais e mais vozes vão expondo perplexidades. “Como é possível que um povo que se dizia o único civilizado na selva do Oriente Médio tenha se tornado mais uma fera nessa selva? pergunta no jornal Iediot Aharonot o diretor do grupo pacifista “Iniciativa Genebra”, Gadi Blatiansky.

“Quando os canhões se silenciarem por completo e a escala das mortes e da destruição se tornar totalmente conhecida, ao ponto de mesmo os mais sofisticados mecanismos de auto-defesa da psique israelense caírem, talvez alguma lição se imprima nas nossas mentes”, diz no Haaretz o escritor David Grossman.

Expressivas, por sua singeleza, são as explicações dadas ao jornal Yediot Aharonot por militares que se recusaram a lutar: ”Israel explorou todas as possibilidades antes de recorrer à violência? A resposta é não. Israel está bombardeando uma das áreas mais densamente povoadas no mundo e matando mulheres e crianças ao mesmo tempo em que dificulta sua evacuação,” disse o tenente reservista do corpo de engenharia Noam Livneh. Não trata de pacifistas clássicos, que se recusam a matar por princípio. Esses também existem em Israel. Trata-se de cidadãos comuns, reservistas que já lutaram nas guerras anteriores, e não aceitam como única saída para lidar com o Hamas o tipo de operação concebida pelos generais ou o tipo de política determinada pelo governo. “Não sou pacifista, sei que é importante ter um bom exército, mas um exército para nos defender, não para atacar e conquistar!” diz o sargento reservista Bem Muha.

Oito grupos de defesa dos direitos humanos juntaram-se numa ação junto ao Procurador Geral do Estado de Israel exigindo que uma comissão independente investigue os ataques a civis durante a operação “cast lead”. O Exército impôs sigilo sobre os nomes dos comandantes das operações, para impedir que sejam identificados em processos por crimes de guerra. Ao mesmo tempo, abriu seu próprio inquérito sobre o uso de armas com fósforo, talvez para esvaziar um eventual inquérito internacional. Também criou um grupo de trabalho para reunir antecipadamente elementos de defesa. Por exemplo, provas de que atiradores disparavam de prédios residenciais.

As duas principais acusações até agora, formuladas pela Anistia Internacional e por Marc Garlasco, observador da Humans Rights Watch, são o recurso a bombas de fumaça com fósforo branco e o uso de força desproporcional. Garlasco, que está tentando entrar em Gaza, é o mesmo que acusou o Hamas de crimes de guerras por disparar foguetes à esmo contra populações civis em Israel. Só em 2008 caíram no Sul de Israel 3258 morteiros e foguetes, inclusive Katyushas. Já o observador da ONU Richard Falk, embora ainda sem ter estado em Gaza, diz que os indícios de que Israel atacou uma área densamente povoada sem facilitar a fuga dos civis são suficientes para abrir um inquérito.

A munição com fósforo branco em si não é ilegal, mas seu uso deve ser evitado em áreas de população densa. Os dados preliminares do inquérito do exército israelense indicam que isso aconteceu em uma operação na qual 20 projéteis com fósforo branco foram disparos em área densamente povoada em Beit Labyia. Outros 180 disparos teriam sido dados em áreas de campo aberto.

A ONU, segundo a Al Jazeera, acusa Israel de ter atacado 52 de suas instalações na faixa de Gaza, inclusive 37 escolas, três das quais serviam de abrigo a civis. Como isso foi possível, se Ehud Barak disse que a operação foi cuidadosamente planejada durante seis meses? Como isso foi possível, se além desse preparo operacional, foram utilizadas, segundo Amira Hass, três novas munições especialmente desenvolvidas para aumentar ao máximo a precisão do tiro e reduzir ao mínimo os efeitos ao seu redor, ou seja em populações civis?

O que deu errado?

A hipótese mais provável é a de que os generais israelenses, como acontece tantas vezes nas guerras, estavam lutando a batalha anterior, a batalha que perderam no Líbano há dois anos. Naquela desastrada operação, como mostrou depois o inquérito Vinograd, tudo deu errado, desde o processo decisório precário, falta de clareza na definição dos objetivos, até o colapso total da logística, ao ponto de nem o rancho ter chegado aos soldados do front. Exército e governo se desmoralizaram.

Por essa hipótese, embora a operação cast lead tivesse objetivos militares e políticos próprios, não foi escolhida a tática que minimizasse o número de baixas civis, e sim a que minimizasse as baixas militares entre os israelenses e que mostrasse competência logística e operacional. Restaurar a moral das forças armadas e do governo.

O reduzido número de baixas entre soldados israelenses, apenas 13, e dois informes da mídia corroboram essa hipótese: primeiro, as bombas de fumaça com fósforo, que segundo Marc Galasco, tem a finalidade de criar uma cortina de proteção ao avanço dos tanques. Uma lição da guerra do Líbano na qual Israel perdeu muitos tanques. Segundo, o relaxamento, pelos juristas do exército, de algumas regras de engajamento em combates em que há civis. Por exemplo, a diretiva: ”Sempre que possível a população civil na área alvo deve ser alertada”, foi atenuada com o adendo “a menos que isso ponha em perigo a operação ou os combatentes.”

Apesar das armas de maior precisão, esse relaxamento combinou-se de modo perverso com o tipo de guerra adotado pelo Hamas, levando ao número inaceitável - sob qualquer padrão de julgamento - de mortes de civis. O especialista Paul Beaver, ex-editor do Janes Defence Weeekly, com 30 anos de cancha em guerras no Oriente Médio , em longo artigo na Al Jazeera diz que o Hamas inventou um novo tipo de guerra, muito difícil de ser enfrentada que ele conceitua como “guerra no seio do povo”.

Não se trata da conhecida guerra popular prolongada, concebida pelos chineses, na qual o povo se organiza em exército marchando para o front ou desfechando ataques de guerrilha. É uma guerra trazida para dentro do próprio povo (“war amongst the people”, é a expressão que ele usa), uma guerra na qual disparos são feitos de casas e quintais, soldados e civis se misturam e alguns dos protagonistas não são Estados nacionais, embora possam ter sido legitimados por alguma eleição. “É uma guerra que se caracteriza também pelo uso intenso da mídia, declarações exageradas de ganhos militares, uso de foguetes sem direcionamento.” Para Beaver, tudo isso e mais a ameaça árabe, pela primeira vez, de atacar as instalações nucleares israelenses, “mudou a correlação de forças e o espaço para manobras” .

Durante todo o desenrolar da operação, Ehud Barak definiu vagamente que seu objetivo era “modificar substancialmente e de modo definitivo o cenário na região“, subentendendo-se que isso implicava por fim à capacidade do Hamas de lançar os foguetes Qassam e Katyusha sobre a população israelense. O fato do Hamas lançar foguetes mais poderosos, os Katyusha 110, com alcance de até 40 kilômetros, podendo atingir seis cidades grandes de Israel, indica que para alcançar esse objetivo era preciso também acabar com o contrabando dos foguetes enviados pelo Irã, daí o ataque aos túneis ao longo da fronteira de Gaza com o Egito, chamada linha Filadélfia. Daí o protocolo firmado com os Estado Unidos em plena operação comprometendo o governo americano num mecanismo de combate à entrada de mísseis em Gaza.

Mas o especialista da Universidade de Haifa, Dan Shiftan, define os objetivos da operação em termos mais amplos: “impedir que consolidasse entre a percepção de que os lançamentos de foguetes (contra a população civil de Israel) conjugados com o fervor islâmico era a arma definitiva contra a qual Israel não conseguiria lidar.” E a solução estratégica para isso foi “o ataque desproporcional aos centros vitais do Hamas, para transtornar sua percepção da relação custo-benefício nos lançamentos de foguetes".

Havia também o objetivo político de derrubar o Hamas? Muitos analistas, dizem que poderia chegar até esse resultado. Esse era o objetivo principal, diz Khaled Abu Toameh, analista do Jerusalém Post: “derrubar o regime do Hamas e devolver o controle da faixa de Gaza às forças leais à Autoridade Nacional Palestina do presidente Mahmoud Abbas.”

Por isso a operação teria contado com algum grau de aquiescência da Autoridade Nacional Palestina e dos governos do Egito e dos Estados Unidos, interessados em restabelecer a unidade política nos territórios palestinos em torno de uma liderança moderada e disposta a negociar um acordo de paz. O Hamas rejeita esse caminho. Sua carta de princípios propõe o estabelecimento de um Estado Fundamentalista Islâmico através do jihad – a luta armada como dever de todo muçulmano.

Nada se explica nessa guerra, se não se levar em conta a luta interna entre o Hamas e o El Fatah pela liderança da causa palestina. As prisões, assassinatos e mutilação de militantes do Fatah, durante a operação e depois da retirada, corroboram a centralidade do conflito e da luta pelo poder e pela representação da causa palestina entre Hamas e El Fatah. Obviamente o Hamas não esperava derrotar o poderoso exército israelense. Seu objetivo lançando foguetes diariamente contra Israel por meses e anos a fio ao mesmo tempo em que estigmatizavam o El Fatah como conciliadores que traíram a causa palestina só podia ser o da demarcação em relação a ANP de Mahmoud Abbas, que reconhece a existência do Estado de Israel e negocia as condições para a proclamação de um Estado Palestino.

Os líderes do Hamas acusam abertamente o El Fatah de traição. Salah Bardaweel , jurista ligado ao Hamas diz que espiões do El Fatah conduziram o ataque israelense que matou Said Siam, o ministro do interior do Hamas. Siam era tido como um dos maiores inimigos do El Fatah, responsável por dezenas de fuzilamentos de membros do El Fatah, quando o Hamas deu o golpe de força em Gaza, pouco tempo depois de vencer a eleição.

Provocar um levante pró-Hamas na Cisjordânia é hoje o objetivo mais ambicioso que o Hamas poderia alcançar. E mais fácil, depois do ataque israelense a Gaza. Lideres do próprio Fatah admitem que Abbas se enfraqueceu: todas as demonstrações em Jerusalém e na Cisjordânia contra o ataque foram organizadas por ativistas das bases, sem nenhuma liderança ou apoio das lideranças do Fatah, diz Hatem Abdel Qader, membro do Fatah. E mais: ”O Hamas obteve legitimidade e simpatia internacional, e suas forças ainda controlam a faixa de Gaza”, diz Aluf Benn, um dos principais analistas do Haaretz. Na El Jazeera, Mouin Rabbani, um articulista do Middle East Report, diz que a inércia de Abbas frente ao que aconteceu vai agravar as críticas que ele já vinha sofrendo de que todas as suas estratégias e cada uma delas fracassou desde que ele assumiu a presidência da ANP em 2004. Abbas pode não sobreviver, ele diz.

O El Fatah culpa o Hamas pela tragédia: “Com os foguetes eles deram a Israel um pretexto para a guerra”, disse ao Der Spiegel o ex-chefe do El Fatah, Muhamed Dahlan. “O Hamas é uma das piores organizações da região. As pessoas têm medo dos extremistas islâmicos e ninguém em Gaza ousa fazer qualquer crítica”, caso o façam correm o risco de prisão e até mesmo de morte”, ele diz.” O Hamas usa slogans e explora o sangue derramado em Gaza para encobrir seus projetos separatistas”, acusou o dirigente do Fatah Yasser Abed Rabbo, numa coletiva à imprensa. Ele disse que a Autoridade Nacional Palestina não permitirá que o Hamas faça de Gaza uma entidade separatista.

Já começou a luta entre Hamas e Fatah pelo controle das gigantescas somas de dinheiro a serem canalizadas para a reconstrução de Gaza. De Damasco, onde ficou a salvo das bombas israelenses, o líder do Hamas Khaled Meshal vangloriou-se do que chamou de “inequívoca vitória do Hamas”, reafirmou o objetivo de libertar todos os territórios palestinos e impôs como condição para a reconciliação com o Fatah de Mahmoud Abbas, a libertação de militantes do Hamas presos pela Autoridade Nacional Palestina. Outro dirigente do Hamas, Sami Khater disse que o Fatah não é confiável e que as donativos internacionais e de países árabes para reconstrução de Gaza não podem passar pelas mãos do Fatah.

Se o Hamas derrotar o Fatah, conquistando a liderança da representação palestina, não precisará mais do diferencial do jihad, e poderá mudar sua Carta, como fez a OLP. A pergunta é se ao provocar a “fera” israelense, com o único objetivo de se afirmar, mesmo às custas de 700 crianças mulheres e idosos mortos, o Hamas também não tem um balanço de consciência pendente.

Bernardo Kucinski, jornalista e professor da Universidade de São Paulo, é colaborador da Carta Maior e autor, entre outros, de “A síndrome da antena parabólica: ética no jornalismo brasileiro” (1996) e “As Cartas Ácidas da campanha de Lula de 1998” (2000).