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quinta-feira, 19 de março de 2009

Só agora a Folha descobriu: Isarael cometeu CRIME DE GUERRA

Durante todo o período da ocupação denominada cinicamente por Israel de “soldadinho de chumbo” (Cast Lead) publiquei neste blog uma série de artigos de jornalistas, ativistas pela paz e estudiosos sobre a ocupação sionista na Palestina, mais conhecido como Estado de Israel.

Se você acabou de chegar por aqui, faça uma busca com palavras chaves como: ocupação palestina, sionismo, Israel, crime de guerra, crime contra a humanidade, genocídio e termos correlatos vc encontrará textos, fotografias, charges que problematizam historicamente a ocupação na Palestina, além de textos contundentes que denunciavam a barbárie levada a cabo nos quase 30 dias de ataques israelenses ao povo palestino de Gaza, sob olhar condenscendente dos líderes mundiais (com raras exceções como Hugo Chavez e Evo Morales que condenaram o massacre).

Hoje a Folha de São Paulo descobriu o Haaretz, jornal em que escreve Gideon Levy, autor que você encontrará por aqui.
Na matéria abaixo, membros do exército israelense relatam que asssasinaram civis, famílias inteiras ’só porque podiam’ fazer isso.


Israel já sofreu duas condenações internacionais. Espero que os chefes do Estado, Forças Armadas e todos envolvidos neste genocídio do povo palestino sejam punidos e que os líderes mundiais façam Israel cumprir os acordos assinados e desocupem a Palestina, ponham fim ao famigerado bloqueio à Gaza e que os palestinos da Cisjordânia, de Gaza e Israel Leste possam viver em paz e com autonomia.

Crédito das imagens

da Folha Online 19/03/2009 - 10h50 Atualizado às 11h31.

Soldados de Israel relatam assassinatos de crianças e vandalismo em Gaza


Os soldados israelenses que lutaram durante os 22 dias da recente ofensiva contra o movimento islâmico radical Hamas, na faixa de Gaza, admitiram que mataram civis [ao menos 900, segundo números do ministério palestino] que não representavam ameaça às tropas e destruíram intencionalmente suas propriedades, "simplesmente porque podiam". As declarações foram divulgadas em reportagem publicada nesta quinta-feira pelo jornal israelense "Haaretz".

As confissões chocam pela franqueza. "A atmosfera em geral, não sei como descrever. As vidas de palestinos, digamos que são menos importantes que as de nossos soldados", diz um dos trechos da declaração de um chefe de pelotão que atuou em Gaza, ao justificar a morte de uma palestina e seus dois filhos, mortos por um atirador de elite israelense. "Porque, depois de tudo, fez seu trabalho segundo as ordens que lhe foram dadas. [...] Assim, se eles estão preocupados, podem justificar desta forma", completa.

O jornal publicou trechos de declarações de militares que lutaram durante a operação em Gaza realizada entre 27 de dezembro e 18 de janeiro deste ano e que deixou ao menos 1.300 mortos, entre eles ao menos 900 civis, além de destruir milhares de casas e a infraestrutura do território palestino.
Os militares, entre eles pilotos de combate e soldados de infantaria, fazem as revelações em relatório do curso preparatório para soldados de Yitzhak Rabin. Seus testemunhos contradizem declaração oficial do Exército israelense sobre o rígido comportamento moral de suas forças durante a operação e confirmam em parte as acusações de organizações internacionais de direitos humanos que criticaram o excesso de violência na operação.

Falha de comunicação

Os testemunhos incluem a descrição de um líder de um pelotão de infantaria sobre um incidente no qual um atirador de elite disparou por engano contra uma mulher palestina e seus dois filhos. Segundo o militar, o comandante de outro pelotão deixou que a família saísse de um edifício no qual tinha ficado retida por soldados sob seu comando, para evitar que fosse confundida com militantes do Hamas.

"Disseram para que fossem pela direita. Uma mãe e os dois filhos não entenderam [o comandante] e foram à esquerda, mas esqueceram de dizer ao atirador de elite no telhado que deixasse eles irem, que tudo estava normal e que não devia atirar. E ele fez o que achava que devia fazer, cumpria ordens", disse.

Segundo o militar, "o atirador viu a mulher e os dois filhos se aproximando dele além das linhas que ninguém devia atravessar". "Atirou. Em qualquer caso, o que aconteceu é que os matou", resume.

O chefe de pelotão disse ainda não acreditar que o atirador se "sentisse mal a respeito", afinal, fazia apenas seu trabalho.

Não há lógica

Segundo o jornal, o chefe do pelotão conta ainda que foi conversar com seu comandante sobre as regras da operação que permitiam que os militares "checassem" as casas à procura de militantes palestinos com armas na mão e atirando sem nem ao menos avisar os moradores com antecedência.

Depois que as regras foram mudadas, afirma o jornal, o líder do pelotão reclamou que eles "deveriam matar todo mundo em Gaza". "Todo mundo é terrorista", explicou.

"Você não tem a impressão dos comandantes de que há qualquer lógica nisso, mas eles não dizem nada. Nós escrevíamos "morte aos árabes" nas paredes, pegávamos as fotos de família deles e cuspíamos nelas, apenas porque podíamos", conta o chefe do pelotão.

"Eu acho que este é o principal: Entender o quanto as Forças Armadas israelenses caíram no âmbito de ética. Isso é o que eu mais me lembrarei", disse o soldado.

O chefe do serviço jurídico do Exército israelense, Avichai Mendelblit, ordenou a abertura de uma investigação sobre as circunstâncias dos fatos relatados pelos soldados, que considera "errôneos" e "inaceitáveis" para as Forças Armadas de Israel.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Quando foi que paramos de nos incomodar com civis mortos em tempo de guerra?

Quando foi que paramos de nos incomodar com civis mortos em tempo de guerra?

Robert Fisk. 31/1/2009, The Independent, UK

Acho que estamos 'naturalizando' a guerra. Não é só porque Israel outra vez safou-se, depois da matança de centenas de crianças em Gaza.

E depois que a própria ministra de Negócios Estrangeiros de Israel disse que o exército israelense recebeu autorização para "enlouquecer" [ing. "go wild"] lá, tudo parece confirmar o que tenho dito, que a "Força de Defesa" israelense é exército tão vagabundo quanto os outros exércitos da Região.

Mas parece que perdemos o senso de imoralidade que se deve esperar que acompanhe todos os conflitos e todas as violências.

A recusa da BBC, de veicular um anúncio de pedido de ajuda para os palestinos é altamente instrutiva. Temos de pôr em discussão a "imparcialidade" da BBC. Em outras palavras, proteger uma instituição foi considerado mais importante que a vida de crianças. A guerra considerada esporte de massa, cujo atento monitoramento – como um jogo de futebol, por mais que o Oriente Médio seja escandalosa tragédia – ganha precedência sobre o sofrimento humano.

Não sei com certeza quando isso começou. Ninguém duvida que a II Guerra Mundial foi banho de sangue de proporções titânicas, mas, depois daquele conflito, implantamos vários tipos de leis para proteger os seres humanos. Os protocolos da Cruz Vermelha Internacional, a ONU – tanto o todo-poderoso Conselho de Segurança quanto a ridícula Assembléia Geral – e a União Européia foram criadas para pôr fim aos conflitos em larga escala. E sim, sei que houve a Coreia (sob bandeira da ONU) e depois foi o Vietnam, mas depois que os EUA retiraram-se de Saigon, criou-se um consenso de que "nós" já não guerreamos.

Estrangeiros, sim, cometem atrocidades em massa – pode-se pensar no Camboja – mas nós, ocidentais superiores, não. Não agimos assim. Guerra de baixa intensidade na Irlanda do Norte, talvez. E daríamos algum jeito no conflito Israel versus árabes. Mas havia um sentimento de que My Lai, nunca mais. Os civis voltaram a ser sagrados no Ocidente.

Não sei exatamente quando a mudança começou. Terá sido a desastrosa invasão israelense do Líbano, em 1982 e o massacre em Sabra e Chatila, pelos aliados de Israel, de 1.700 palestinos civis? (Gaza não bateu esse recorde.) Israel, como sempre, alegou estar lutando "nossa" "guerra contra o terror". Mas o exército de Israel não é o que se supõe que seja e os massacres (lembro do massacre de Cana, em 1996; e das crianças de Marwahine, em 2006) parecem estar associados a isso.

Além do mais, claro, há o assuntinho da guerra Iran-Iraque, de 1980 a 1988, que os ingleses apoiaram entusiasmados fornecendo armas aos dois lados, e o massacre, pelos sírios, de milhares de civis em Hama e...

Não, talvez tenha começado na Guerra do Golfo de 1991. Os rapazes e as moçoilas da televisão deitaram e rolaram – foi a primeira guerra que teve trilha sonora para acompanhar as imagens –, e os soldados dos EUA simplesmente queimaram vivos milhares de soldados iraquianos nas trincheiras, e só soubemos muito depois e nem demos muita bola; e quando os soldados dos EUA ignoraram as regras da Cruz Vermelha que mandam identificar e sinalizar valas comuns, safaram-se também desse crime. Havia cadáveres de mulheres em algumas dessas valas comuns – vi soldados ingleses enterrando cadáveres de mulheres. E lembro que viajei até Mutla, de carro, para mostrar a um delegado da Cruz Vermelha onde eu vira uma vala comum cavada pelos norte-americanos e ele viu uma papoula de plástico [é um broche, espécie de medalhinha distribuída para os que contribuíram para os fundos de apoio aos veteranos dos EUA] presumivelmente deixada ali por um norte-americano e disse: "Alguma coisa aconteceu."

O que ele disse foi que alguma coisa acontecera à lei internacional, às regras da guerra. Haviam sido violadas. Depois veio Kosovo – onde nosso caro Lord Blair pela primeira vez exercitou seus talentos de fazedor de guerra – e mais massacres. Claro, Milosevic era o bandido (embora muitos dos kosovares ainda estivessem em suas casas quando a guerra começou, o objetivo da guerra foi a volta deles, depois da brutal expulsão pelos sérvios). Mas aqui, outra vez, os ingleses violaram algumas regras a mais e safaram-se.

Lembrem o trem de passageiros que os ingleses bombardeamos na ponte Surdulica – e a famosa sequência em que o filme de Jamie Shea é acelerado, para mostrar que quem bombardeou não teria tido tempo para manter o fogo? (A verdade é que o piloto voltou para um segundo bombardeio depois de o trem já estar em chamas, mas essa parte foi cortada no filme.) Depois, o ataque à estação de rádio em Belgrado. E às estradas civis. Depois, o ataque a um hospital no interior. "Alvos militares", disse Jamie. Tinha razão. Havia soldados escondidos entre os pacientes, no hospital. Todos os soldados sobreviveram. Todos os pacientes morreram.

Depois foi o Afeganistão e todo aquele "dano colateral" e vilas inteiras varridas do mapa e depois foi o Iraque em 2003 e dezenas de milhares – ou meio milhão ou um milhão – de iraquianos civis mortos. Mais uma vez, no início, voltamos aos nossos truques ingleses de bombardear pontes e estações de rádio e pelo menos uma residência civil em Bagdá, onde "nós" imaginamos que Saddam estivesse escondido. Sabíamos que estava protegido por um escudo humano (de cristãos, aliás, por acaso), mas os americanos disseram que se tratava de operação "de alto risco" – e 22 civis foram mortos. Vi quando tiraram dos escombros o último cadáver, um bebê.

E não damos sinais de nos incomodar muito. Lutamos no Iraque, agora vamos voltar a lutar no Afeganistão, outra vez, e todos os direitos humanos e proteção devida à pessoa parecem ter evanescido mais uma vez. Arrasaremos vilas e cidades e descobriremos que os afegãos nos odeiam e formarão mais grupos de milícias criminosas – exatamente como fizemos acontecer no Iraque – para lutar contra nós. Os israelenses organizaram milícia semelhante em sua zona de ocupação no sul do Líbano, comandada por um major do exército libanês e fanático. Agora, os soldados ingleses é que "enlouquecerão". E a BBC está preocupada com sua "imparcialidade"?


Artigo original, em inglês em: The Independent


sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Olhe com olhos de ver, indigne-se e não permita que isso se repita



Há alguns dias eu recebi este link AQUI. Após chorar, revoltar-me e sentir raiva de tanta loucura, armazenei o endereço no Delicius.

Hesitei em publicá-lo, porque realmente eu não gostaria que outras pessoas sofressem tanto quanto eu ao ver o dossiê fotográfico que ele traz.

Hoje decidi publicá-lo e de lá reproduzir algumas imagens, pois avaliei que isso não é explorar a morte, isto é tentar fazer com que as pessoas busquem valorizar a vida não permitindo que loucos como os responsáveis por este genocídio fiquem impunes.

Eu não ganho um tostão com isso, não vendo jornais, este blog não tem um único anunciante sequer.

Avaliei que essas fotos são o registro mais cruel de um Estado cínico e criminoso de guerra que não pode continuar a praticar essas ações genocidas. Talvez as histórias registradas nestas imagens tire-nos, por um instante deste conformismo, desta banalização diante da morte e naturalização da violência, talvez ela nos indigne ao ponto de não aceitarmos mais que esse horror se repita.

O Estado sionista de Israel não pode isolar um povo, humilhá-lo, retirar sua humanidade, ceifar a vida que ainda está sendo gestada no ventre das mães palestinas e jogar a fatura no colo do Hamás. Se você ficou indignado, ASSINE A PETIÇÃO para que os crimes de Estado de Israel sejam julgados e seus criminosos recebam a devida punição.
(Caminho alternativo para aderir à campanha: clique AQUI e ao abrir o site escolha campanha, é a campanha 10)

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Sobre as fotos que destaquei a Cora Ronai provavelmente tratará com cinismo ímpar como o fez em seu último texto igualando no mesmo cadinho as estatísticas tão desiguais das baixas entre Gaza e Israel, entre civis e soldados e acusando os palestinos de exploram a morte.

Por isso, não falo para pessoas como a Cora Ronai, na verdade todas as fotos das vítimas de Gaza falam por si: a primeira mostra uma criança incinerada (Israel usou vários tipos de bombas proibidas como tungstênio e fósforo, veja aqui e aqui); a segunda foi a que mais me desumanizou: ver o rombo nas costas deste bebê que teve ceifado o seu direito de nascer, já que a bala atravessou a barriga de sua mãe, fez-me sentir envergonhada de pertencer a espécie humana, capaz de atrocidades como esta.




sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Hamas, Israel, Gaza e resistência violenta: A estrutura histórica e política da crise atual

As razões manifestadas por Israel para a sua declaração de guerra total contra a população de Gaza são a mais recente variação de um tema que pôs em circulação a seguir à vitória eleitoral de 2006 do Hamas em Gaza. Em Fevereiro daquele ano Israel emitiu um conjunto oficial de exigências. Israel exigia que o Hamas reconhecesse o direito permanente de Israel a existir, renegasse a violência e aceitasse a validade dos acordos anteriores israelenses-palestinos. Israel afirma que a incapacidade do Hamas em cumprir estas exigências explica e justifica seus ataques aéreos sobre o povo de Gaza.

Na realidade, a agressão de Israel tem pouco a ver com a resposta do Hamas a estas exigências, as quais são, como veremos, insinceras.

Argumenta Israel que a necessidade de derrotar o Hamas é a questão nuclear que motiva os seus actuais ataques aéreos. Esta afirmação é de avaliação especialmente difícil para os americanos. Os media dos EUA habitualmente reflectem a demonização oficial israelense dos objectivos e acções do Hamas.

O entendimento da história do Hamas e da sua actual posição sobre questões chave é essencial para apreciar o que está realmente em causa na escalada da crise em Israel e na Palestina.

O objectivo do que se segue é simplesmente situar o Hamas no contexto da ocupação e da resposta palestina à mesma. Vamos começar com as origens do Hamas e então examinar cada uma das exigências de Israel em 2006.

A emergência do Hamas em Israel

O Hamas descende directamente de um anterior movimento islâmico preocupado basicamente em assegurar educação, cuidados de saúde, ajuda alimentar e outros serviços sociais a palestinos que sofriam sob a ocupação israelense.

Este grupo foi financiado pelo monarca saudita e... o governo de Israel ! Este último proporcionou ao movimento terra, edifícios e não pouco encorajamento.

A lógica de Israel era simples: a Organização de Libertação da Palestina (OLP), naquele tempo a principal representante dos interesses palestinos, era abertamente política e secular, com uns poucos socialistas nos seus escalões mais altos. A organização tinha como objectivo organizar os palestinos numa força capaz de por fim à ocupação. A liderança israelense procurava mudar a lealdade palestina da OLP política e secular para a religiosa e não-política antecessora do Hamas.

Os israelenses imaginavam que ao dispor de extensos serviços sociais e religiosos os palestinos seriam despolitizados graças ao alívio do seu sofrimento e portanto menos propensos à resistência nacionalista e anti-ocupação.

Portanto, as autoridades israelenses de ocupação forçaram o exílio de activistas cristãos palestinos que encorajavam à resistência não violenta, mas permitiram que grupos islâmicos radicais fizessem reuniões, publicassem jornais e tivessem a sua própria estação de rádio não censurada.

Não surpreendentemente, os grupos religiosos de serviço social foram-se tornando cada vez mais politizados. Eles testemunhavam a escalada da brutalidade da ocupação e a ineficácia da actividade caritativa por si só em questionar o apartheid forçado. Continuaram as suas actividades de serviço social, mas aglutinaram-se em 1987 para formar o Hamas, um acrónimo para Harakat al-Muqawama al-Islamiya, O Movimento de Resistência Islâmica.

A nova auto-definição política do Hamas, como representando Resistência à ocupação, tanto selou o seu destino aos olhos dos israelenses como promoveu a sua atractividade para os palestinos.

Em 1992 Israel expulsou centenas de membros do Hamas. Muito poucos foram acusados de crimes violentos. O Conselho de Segurança da ONU declarou unanimemente que as expulsões constituíam uma violação do direito internacional e apelou ao retorno dos exilados. Mas a nova administração Clinton bloqueou a aplicação da resolução.

O resultado foi que os exilados tornaram-se heróis e a reputação do Hamas e a sua força política entre os palestinos cresceu significativamente. Mas em 1993 o Hamas tinha o apoio de apenas 15 por cento dos palestinos. Qual a razão para o crescimento do apoio palestino ao Hamas desde então?

Israel e a Autoridade Palestina matam as esperanças dos palestinos

Nos anos seguintes ao Acordo de Oslo, de 1993, entre a OLP e Israel ficou claro que nada estava a ser feito para avançar a formação de um estado palestino viável. O Hamas chamava a atenção para o facto de que o Acordo era, por intenção de Israel, aberto, em etapas, calculadamente vago e sem compromissos, sem garantias quanto a questões chave como assentamentos, terra e água, o status de Jerusalém e o retorno de refugiados.

Além disso, mesmo quando as negociações de Oslo prosseguiam, e continuando durante anos após as mesmas, Israel continuou a construir assentamentos a um ritmo acelerado. Os blocos de assentamento foram posicionados de modo a criar "factos no terreno" os quais tornavam impossível especificar uma área que pudesse constituir um estado palestino viável.

O professor de história da Universidade de Haifa Ilan Pappe, nascido em Israel, descreveu perfeitamente os Acordos de Oslo como um ardil para permitir a Israel continuar a construir assentamentos de modo a encurralar os palestinos em bantustões estilo sul-africano.

Tudo isto culminou em Camp David, em 2000, na "oferta generosa" de Barak, uma impressionante confirmação da acusação de Pappe: um "estado" palestino sem continuidade territorial, dividido por blocos de assentamento, cortado por estradas e barreiras em estradas, com o controle israelense de toda a fronteira. A área permitida aos palestinos incluiria 69 blocos de assentamento, alojando 85% de todos os colonos israelenses. Os palestinos teriam de viajar 50 milhas [80 km] para ir de uma cidade para outra, com muitos atrasos inúteis em pontos de controle e barreiras de estrada, a fim de atravessar uma distância real de 5 milhas [8 km].

E durante todo este processo Israel continuou a expandir a sua colonização da Cisjordânia, duplicando o número de colonos nos dez anos que se seguiram a assinatura dos Acordos.

Isto foi uma bofetada na cara do palestinos, que haviam concordado, através da OLP, em aceitar uns meros 22 por cento da terra que era sua antes de 1948. Conceder 78 por cento da terra foi um compromisso histórico palestino.

Desde as reuniões de Oslo e Camp David a condição dos palestinos continuou a deteriorar-se. Ficou cada vez mais claro que a OLP e sua sucessora, a Autoridade Palestina (AP), não fora simplesmente inepta na negociação, mas que a AP e o seu líder Yasir Arafat estavam afundados na corrupção, com grande parte dos fundos da Autoridade gasto com compadres enquanto Arafat passava grande parte do seu tempo a viver no luxo longe da Palestina. A última gota foi a decisão da AP de designar a sua polícia a que ajudasse as autoridades de ocupação na supressão da resistência palestina.

Em contraste, o Hamas era percebido pelos palestinos como honesto e genuinamente sensível aos seus interesses. O Hamas persistentemente criticou a inépcia e a corrupção da AP. Mas a sua abordagem não era meramente negativa: como veremos abaixo, o Hamas propunha políticas e pontos de negociação que eram construtivos, realistas e que não ameaçavam o direito de Israel a existir.

Estes desenvolvimentos foram o princípio do crescente apoio palestino ao Hamas.

Os media "de referência" tendem a retratar a escolha eleitoral de 2006 dos palestinos como uma mostra de apoio à violência política como meio de resolução do conflito Israel-Palestina. Na verdade, os media habitualmente equiparam o Hamas à violência estúpida ao serviço da destruição de Israel. Nenhuma destas alegações contra o Hamas e o povo palestino é verdadeira. Vamos examinar a questão geral da violência política do povo sem Estado, antes de passar a questões específicas da posição do Hamas em relação à actual crise em Gaza.

Questões preliminares: Condição de falta de Estado e violência legítima

O recurso palestino à violência não tem conexão com a questão do direito de Israel a existir. Que a resistência palestina à ocupação por vezes assuma formas violentas não indica um desejo de aniquilar Israel. No caso dos palestinos, o recurso à violência não pode ser entendido sem considerar o passivo peculiar da inexistência de Estado.

Os media "de referência" não fazem qualquer esforço para comunicar ao público geral os efeitos singularmente debilitantes da inexistência de Estado. A falta de Estado não é simplesmente estar privado de "uma terra de si próprio". A definição de Max Weber do Estado é que é mais relevante aqui: o Estado é a instituição que monopoliza o uso legítimo da violência.

O Estado pode legalmente empregar violência como um meio de corrigir injustiças feitas aos seus cidadãos. Se alguém mata o seu filho, você não pode aprisioná-lo no seu sótão como punição. Ao invés disso, você denuncia a injustiça sentida às autoridades do Estado, as quais então julgam a sua queixa através do sistema de justiça. Um momento de reflexão revela que o povo sem Estado é um povo ao qual faltam quaisquer meios legítimos de se defender da injustiça.

Um povo sem Estado está estruturalmente indefeso face à injustiça. Pois se a modernidade limita a resposta violenta à injustiça à intervenção do Estado, então a ausência de Estado obriga à passividade dos que dele não dispõem. Estes são transformados em pacifistas involuntários. O facto de não terem Estado retira aos palestinos a única espécie de resistência apropriada aos instrumentos de opressão que enfrentam, nomeadamente resistência forte e agressiva. Pois a entidade que oprime os palestinos é um Estado racista e colonialista que tornou claro, como veremos abaixo, que não negociará qualquer das reivindicações da sua população sujeita e que tem uma forte inclinação à utilização permanente e supérflua dos seus próprios instrumentos de destruição.

A amarga experiência ensinou aos palestinos que a resistência/desobediência não violenta ou civil é de facto ineficaz. Activistas da paz não violenta como Rachel Corrie (americana), Tom Hurndall (britânico) e Gil Nima'ati (israelense) encontraram a morte diante das forças de defesa israelenses (IDF), que sabiam exactamente o que estavam a fazer.

Apesar de tudo isto, a condição de ausência de Estado dos palestinos determina que eles não podem "tomar o assunto nas suas próprias mãos". Pois palestinos tomarem as medidas que normalmente seriam tomadas por um Estado cujos cidadãos são tratados por um poder inimigo tal como os palestinos são tratados por Israel é denominado "terrorismo". Faltando um Estado para proteger os seus interesses, os palestinos encontram-se na seguinte pouco invejável posição: seja o que for que lhes seja feito, as únicas respostas legítimas são a passividade ou a confiança na bondade de estranhos. E a resposta da "comunidade internacional" ao apuro dos palestinos torna claro que esta última é de facto estranha para eles, e de modo algum estranha de outra espécie. A resposta ilegítima, então, torna-se a única alternativa a abraçar a derrota.

Note-se a peculiaridade da utilização de "ilegítimo" neste contexto. Chamar a violência privada ou não estatal de "ilegítima" é implicar que a acção do Estado está disponível. Mas no caso notável de um povo oprimido sem um Estado, a distinção normal entre acção legítima e ilegítima não tem aplicação.

Enquanto a violência dos movimentos de resistência sem Estado é por definição ilegítima, isto é, não efectuada legalmente por um Estado, é uma questão aberta se tal violência é justificada. É claro para a maioria das populações do mundo que a resistência violenta ao apartheid israelense é tão justificada como foi a por vezes violenta resistência dos negros sul-africanos ao regime do apartheid dos seus opressores.

A questão para nós em ligação com a crise de Gaza é se o Hamas está preparado para renegar a violência na falta da eliminação do Estado de Israel. Por outras palavras: Estará o Hamas aberto a uma resolução não violenta do conflito Israel-Palestina? Veremos a seguir que o Hamas na verdade está aberto a uma tal solução.

Estará o Hamas comprometido com a destruição de Israel?

As primitivas declarações fundadoras do Hamas na verdade negavam a Israel o direito de existir. Como veremos, o Hamas abandonou esta posição absolutista. O apoio crescente da organização levou-o a assumir um senso renovado de responsabilidade para com aqueles que o levaram ao poder. A comunidade palestina era principalmente secular e nunca abraçou o absolutismo do fundamentalismo islâmico. Apesar do contínuo terror israelense continuou a endossar a solução dos dois Estados.

O Hamas tomou uma posição firme contra um apelo da al-Quaeda a realizar uma jihad violenta destinada a arrebatar toda a Palestina de Israel. O Hamas, em Março de 2006, respondeu que:

"A nossa batalha é contra a ocupação israelense e nossa única preocupação é restaurar nossos direitos e servir nosso povo".

Nas eleições que levaram o Hamas ao poder de Gaza, em 2006, os "pragmáticos" do Hamas prevaleceram sobre a minoria dos intransigentes, muitos dos quais transformaram-se em moderados. O Hamas foi sempre receptivo ao seu eleitorado. Ele sabe que a sua vitória eleitoral foi devida não ao extremismo religioso mas sim à plataforma do Hamas de governo honesto, eficaz e limpo e de serviços sociais melhorados.

Num inquérito pós-eleitoral apenas 1 por cento dos palestinos disse que o Hamas deveria impor a Lei Islâmica sobre a Palestina, ao passo que 73 por cento apoiava uma solução dois Estados como parte de um acordo de paz com Israel. O Hamas respondeu com uma reafirmação do seu próprio apoio a uma solução dois Estados.

A Henry Siegman, ex director executivo do American Jewish Congress ex director do Projecto Médio Oriente do Council of Foreign Relations, foi assegurado por um membro influente do Comité Político do Hamas que este não exclui o reconhecimento oficial de Israel mas que o Hamas não renunciará à sua crença de que a Palestina é uma dádiva religiosa indicada por Deus para os muçulmanos. Contudo, o responsável acrescentava que esta crença teológica não excluía acomodações a realidades temporais e ao direito internacional. Isto inclui, enfatizou, o reconhecimento da soberania de Israel.

Esta posição tem um paralelo preciso do lado de Israel. Judeus religiosos acreditam que Deus prometeu toda a Palestina para o povo judeu. Mas eles estão preparados para adiar a implementação desta reivindicação religiosa para o tempo que se seguirá à aparição do messias.

Por outras palavras, no mundo real as convicções religiosas tanto do Hamas como dos judeus religiosos estão em consonância com uma resolução prática e secular do seu conflito.

A liderança israelense está plenamente consciente de tudo isto. Sua objecção real ao Hamas é que a organização corporifica mais genuinamente do que qualquer anterior liderança palestina a resistência à ocupação e negociações inteligentes rumo a um Estado palestino independente.

Por que o Hamas não "reconheceu" Israel agora?

A questão do reconhecimento é para desviar atenções. Trata-se de Geopolítica elementar: o reconhecimento de Israel pelo Hamas significaria a sua aceitação do não-reconhecimento por Israel de um Estado palestino. O Hamas tornou claro que se Israel oferecesse uma genuína solução dois estados com um retorno às suas fronteiras de 1967, e isto fosse ratificado pela maioria dos palestinos, o Hamas consideraria isto aceitável. Isto levaria ao reconhecimento oficial de Israel.

O que importa é o reconhecimento oficial, o qual só pode ser feito por um Estado soberano. O Hamas não pode "reconhecer" Israel tal como o Likkud não pode reconhecer a Espanha. E, no caso de Israel, o que é que deve ser reconhecido? Israel recusa-se a declarar as suas fronteiras oficiais.

Estará o Hamas comprometido com a violência política?

Mesmo a imprensa israelense relatou que o Hamas oferecer a Israel, logo após a sua vitória eleitoral de 2006, um cessar fogo extenso e uma aceitação de facto dos dois Estados se apenas Israel retornasse às suas fronteiras de 1967.

Ao invés de agarrar esta oportunidade para testar a boa fé do Hamas, Israel preferiu punir toda a população de Gaza com um bloqueio a fim de pressionar o povo a renunciar aos resultados da eleição.

O Hamas de facto manteve reiteradamente vários cessar fogo, os quais Israel habitualmente violou. A conexão entre violações israelenses dos cessar fogo e bombismos suicidas é instrutiva. (Um tratamento completo desta questão foi feito por Steve Niva, académico do Médio Oriente, em dois importantes artigos em www.counterpunch.org/niva08272003.html e www.counterpunch.org/niva03242004.html

Há um indicador virtualmente infalível de um acto de bombismo suicida: um assassinato israelense de um comandante superior ou de um líder de um grupo militante. Este indicador é mais confiável quando os assassínios se verificam enquanto estes grupos estão a negociar uma trégua aos ataques aos israelenses, ou quando os assassínios rompem cessar-fogos duradouros de grupos palestinos.

Este padrão tornou-se mais frequente e previsível depois de Ariel Sharon se tornar primeiro-ministro, em Fevereiro de 2001. Ele intensificou a campanha de assassínios contra militantes palestinos destacados.

Sharon escolheu deliberadamente períodos durante os quais grupos anti-ocupação estavam ou a negociar ou realmente a manter cessar-fogos nos ataques a civis israelenses.

Aqui está apenas uma amostra dentre muitos exemplos:

– Dois meses depois do cessar-fogo do Hamas, Israel assassinou dois destacados comandantes do Hamas em 31 de Julho de 2001. Menos de duas semanas mais tarde houve um bombismo suicida numa pizzaria em Jerusalém.

– Enquanto o Hamas estava a cumprir um acordo de não atacar objectivos dentro de Israel a seguir aos ataques do 11/Setembro, Israel assassinou o alto dirigente do Hamas Mahmud Abu Hanoud, em 23 de Novembro de 2001. Uma semana depois houve bombismos suicidas em Jerusalém e Haifa.

– Em meio a um cessar-fogo declarado por todo os grupos militantes no fim de Dezembro, Israel assassinou o destacado dirigente do Hamas Raed Karmi, em 14 de Janeiro de 2002. Menos de duas semanas mais tarde houve um bombismo suicida como retaliação.

– Em Julho de 2002 houve relatos generalizados de que seria anunciado um cessar-fogo unilateral por parte do Hamas em 23 de Julho. Naquele dia, pouco antes do previsto anúncio de cessar-fogo, Israel assassinou o destacado dirigente militar do Hamas Salah Shehada através de um ataque aéreo a um apinhado bloco de apartamentos na Cidade de Gaza. Entre os feridos estavam 15 civis, 11 deles crianças. Menos de duas semanas depois o Hamas retaliou com um bombismo suicida.

– Em 22/Março/2004 Sharon conseguiu assassinar o fundador e líder espiritual do Hamas, Sheikh Yassin. Seguiu-se o que era previsível.

Jornalistas israelenses denunciam a cumplicidade de Israel nos bombismos suicidas

Alguns dos mais prestigiados comentadores políticos de Israel sugeriram que Israel é responsável por pelo menos alguma violência palestina. Esta posição não pode sequer ser formulada na linguagem padrão dos media dos EUA, os quais sistematicamente definem a violência israelense como "retaliação" e a violência palestina como "ataques".

Num artigo (25/Novembro/2001) no jornal de Israel com maior tiragem, Yediot Aharanot, Alex Fishman, o conservador comentador militar do jornal, observou que

"Quem quer que tenha decidido a liquidação de Abu Hanoud sabia antecipadamente que [um ataque terrorista dentro de Israel] seria o preço. O assunto foi amplamente discutido tanto ao nível militar como político de Israel, antes de ser decidido executar a liquidação".

Escrevendo no Haaretz (21/Janeiro/2002), o jornalista Danny Rubinstein destacou que

"Os assassínios de Israel hoje geram muito mais dano do que os benefícios que eles são supostos trazer ... pode-se dizer explicitamente neste momento que o assassínio de Karmi já custou directamente as vidas dos dezenas de israelenses que morreram na semana passada vítimas de ataques terroristas".

A utilização da palavra "directamente" por Rubinstein é uma afirmação de que Israel partilha alguma responsabilidade pelos bombismos suicidas.

Um editorial do Haaretz (02/Agosto/2002) a seguir ao assassínio de Shehada declarava que

"Em suma, qualquer criança de quatro anos que examinasse este padrão de acontecimentos concluiria que este governo, conscientemente ou não, simplesmente não está interessado na cessação dos ataques terroristas, pois eles constituem a sua raison d'etre".

O Hamas explicou em pormenor a arrepiante implicação de tudo isto imediatamente a seguir à morte de Yassin:

"Hoje Ariel Sharon ordenou a morte de centenas de sionistas em cada rua, cidade e centímetro das terras ocupadas".

Durante anos, insinceramente, Israel insistiu em que os ataques suicidas eram o principal obstáculo para negociações. Desde a trégua mais recente que começou no último Verão, o primeiro-ministro do Hamas, Ismael Haniyeh, removeu o obstáculo efectuando a completa cessação dos bombismos suicidas. Como era de esperar, isto não fez diferença para Israel, o qual respondeu recusando aos habitantes de Gaza energia eléctrica, remédios, equipamento médico e alimentos.

A questão, então, não é simplesmente se Israel tem um interesse directo em perpetuar ataques terroristas palestinos, mas se Israel tem qualquer intenção que seja de fazer a mais ligeira concessão aos palestinos na direcção do estabelecimento da solução dois Estados.

Intenções de Israel: Um acerto justo ou limpeza étnica?

Ephraim Halevy, o ex chefe da agência de inteligência Mossad, informou em 23 de Dezembro que o Hamas

"[está] pronto e desejoso de ver o estabelecimento de um estado palestino nas fronteiras temporárias de 1967... [O Hamas está preparado] a aceitar um caminho que poderia levá-lo para longe dos seus objectivos originais... Israel, por suas próprias razões, não quis transformar o cessar-fogo no início de um processo diplomático com o Hamas".

Halevy pode não se aperceber das "suas próprias razões" de Israel para sabotar negociações destinadas ao estabelecimento de um Estado palestino, mas não por falta de declarações francas da liderança israelense. Em 14 de Novembro de 1998, Ariel Sharon declarou que

"É dever dos líderes israelenses explicar à opinião pública, claramente e corajosamente, um certo número de factos que são esquecidos com o tempo. O primeiro destes é que não há sionismo, colonização ou Estado judeu sem a expulsão (eviction) dos árabes e a expropriação das suas terras".

Em 2005 Dov Weisglass, conselheiro sénior de Sharon, disse acerca da retirada de Israel de Gaza:

"A retirada é realmente formaldeído [NR] . Ela fornece a quantidade de formaldeído que é necessária, de modo que não haverá um processo político com os palestinos... todo este pacote chamado Estado palestino foi removido da nossa agenda indefinidamente".

A fim de que não se pensasse que esta posição era peculiar apenas do raivoso Sharon, eis o que Ehud Olmert disse num discurso numa Sessão Conjunta do Congresso dos EUA em 24 de Maio de 2006:

"Acreditava e ainda hoje acredito no direito eterno e histórico do nosso povo a toda esta terra".

Motivações reais de Israel

O que Israel teme não é o terrorismo e sim a independência palestina. Israel não permitirá que emerja um governo palestino soberano sobre a terra que pretende manter – e provavelmente expandir – como a sua própria. A Autoridade Palestina estava e está no bolso de Israel. O Hamas nunca será peão de Israel. Portanto, ele deve ser erradicado. Esta é a principal razão para a actual guerra relâmpago contra Gaza. Mas não é a única.

Aproximam-se as eleições israelenses, em Fevereiro. Antes do sítio o Likkud de Benjamin Netanyahu estava à frente nos inquéritos. A guerra relâmpago é uma demonstração de dureza, um gesto de que os políticos gostam de aproveitar-se em tempos de eleição. Tzipi Livni e Ehud Barak colocaram-se em evidência regozijando-se com o bombardeamento desde que os ataques começaram, esperando promover as fortunas eleitorais do Kadima e do Partido Trabalhista. E na verdade as sondagens do Partido Trabalhista estão 50 por cento mais altas nos últimos seis dias.

Finalmente, Israel nunca venceu uma guerra nos últimos 27 anos. Para agravar ainda mais as coisas, as Forças de Defesa de Israel sofreram uma humilhante derrota no Líbano, às mãos do Hezbollah, em 2006. Como disse segunda-feira Mark Heller, chefe de investigação associado no Instituto para Estudos de Segurança Nacional, da Universidade de Tel Aviv:

"Ninguém hoje tem medo de nós da mesma forma que antes... uma boa razão para esta operação [é] restaurar a credibilidade na capacidade de Israel para dissuadir inimigos".

A ironia, naturalmente, é que o actual sociocídio avolumará as fileiras do Hamas e dos seus simpatizantes, tal como o fiasco libanês de Israel reforçou o prestígio do Hezbollah. Mas só o activismo global em solidariedade com o povo palestino derrotará os desígnios colonialistas de Israel e a sua arrogância letal.

04/Janeiro/2009
[NR] Formaldeído: gás venenoso.

[*] Professor emérito de Política Económica em The Evergreen State College, Olympia, Wa, EUA. Seus artigos têm sido publicados em The Nation, Monthly Review, Commonweal, Common Dreams, Global Research e em publicações profissionais de ciências económicas, filosofia, direito e psicologia.

O original encontra-se em Global Research


Este artigo encontra-se em Resistir Info.

Gaza: o espelho quebrado

Como Israel se apresentará ao mundo, depois disso?

Gaza: o espelho quebrado

M. Shahid Alam*, 16/1/2009, The Daily Star, Daca, Bangladesh


No momento em que todos os palestinenses, homens, mulheres e crianças, encurralados no gueto de Gaza desde 1948, estão sendo bombardeados, diariamente, sem parar, por terra, mar e ar, é instrutivo e esclarecedor voltar os olhos para os pais fundadores do sionismo, e perguntar o que pensariam dessa obscena consequência de sua visão messiânica.

Nos escritos daqueles pais fundadores, só raramente os palestinenses ganham qualquer referência. Pode-se ler e reler uma das primeiras manifestações do credo sionista – "Roma e Jerusalém" , de Moses Hess (1812-1875) – e não se encontra nenhuma referência a 'muçulmanos' ou a 'árabes'. [Hess, 1862. Pode ser lido, na internet, em http://www.zionismontheweb.org/Moses_Hess_Rome_and_Jerusalem.htm -- atenção: tirem as crianças da sala]

Em Hess, a palavra "palestinense" aparece duas vezes: a primeira, relacionada à necessidade de treinar os judeus jovens para viver como "um agricultor palestinense"; a segunda, refere-se ao "Talmud Sanhedrin da Palestina". A Palestina sempre teria existido, inscrita em tábuas divinas, e pertenceria a Israel; mas não havia palestinenses na Palestina.

Se se pesquisa em "O Estado Judeu" (1896), de Theodore Herzl os resultados são igualmente minguados. Não há referência nem a muçulmanos, nem a árabes nem a palestinenses: não se fala, sequer, de beduínos. [Herzl, 1896, pode ser lido em http://www.zionismontheweb.org/Moses_Hess_Rome_and_Jerusalem.htm -- atenção, tirem as crianças da sala],

Por incrível que pareça, também não há a palavra "palestinenses", nem uma vez, em todo o livro de Arthur Hertzberg, "A Idéia Sionista" – uma antologia de textos de várias gerações de ideólogos do sionismo. Muçulmanos, árabes ou palestinenses não foram previstos nos planos para criar um Estado judeu. ["The sionist idea" está à venda hoje, pela Amazon Books, em http://www.amazon.com/s?ie=UTF8&search-type=ss&index=books&field-author=Arthur%20Hertzberg&page=1. Não se pode recomendar a leitura desse tipo de literatura, tanto quanto não se pode recomendar a leitura de "Mein Kampf", porque, sim, são livros, teorias e hipóteses assustadoramente idênticas. Mas é preciso saber de onde brotou a monstruosidade que, hoje, está aí, repetida em televisões e jornais, como se fosse algum "direito de defesa" de Israel.]

Para usar um termo de Lawrence Davidson, houve aí "uma despopulação perceptual" extrema: foi como se a Palestina não tivesse habitantes, quando foi ocupada.

Desde os primeiros momentos, os sionistas só pensaram em manifestar poder. A Palestina era objeto que se compra; o que não estivesse à venda, seria tomado à força.

Por duas vezes, Rabbi Kalischer exigiu que o patriarca da família Rothschild e Moses Montefiore comprassem a Palestina – ou, pelo menos, que comprassem Jerusalém – do sultão otomano. Mais de uma vez, Theodore Herzl ofereceu-se, ele mesmo, para comprar a Palestina, do sultão otomano. Ouviu, como resposta, que a Palestina não estava à venda.

Nada disso deteria o projeto sionista; poderiam convencer um ou mais Estados europeus a tomar a Palestina, para os judeus, pela força. Em 1818, Mordecai Noah, um dos primeiros sionistas norte-americanos, propôs que os judeus criassem seu próprio exército e eles mesmos tomassem a Palestina. Os demais sionistas pensaram mais pragmaticamente: resolveram deixar que os europeus tomassem a Palestina, para eles.

Nas palavras de Theodore Herzl, o plano para criar um Estado judeu foi simples: “Dêem aos judeus plena soberania sobre um pedaço do globo terrestre, suficientemente grande para satisfazer os direitos legítimos de uma nação; do resto, nós nos encarregaremos." Ocultada aí nesse simples "o resto" estava toda a população que habitava a Palestina. Bastariam duas organizações para levar a cabo o projeto: "The Society of Jews" e "The Jewish Company".

No plano arquitetado por Herzl, a "The Society of Jews tratará diretamente com os atuais proprietários da terra [os otomanos], colocando-se sob a proteção dos poderes europeus". Herzl acrescenta que "a criação do Estado Judeu beneficiará os Estados vizinhos (...)". Sobre os habitantes da Palestina, nem uma palavra.

Contudo, Herzl dedica cuidadosa atenção às questões que considera importantes, como "meios para livrar-se das bestas selvagens", na terra da qual os sionistas se apropriariam. Os métodos usados para colonizar a Palestina (ou a Argentina) teriam de ser modernos, usando a mais avançada tecnologia. “É tolice" – explica ele –, "voltar a estados ultrapassados da civilização, como alguns judeus gostariam de fazer."

Os sionistas deveriam trabalhar, Herzl explicou, como se "estivessem obrigados a limpar um país povoado por bestas selvagens"; "não podemos usar espada e lança" – enfatizou –, "e sair, desarmados, para caçar ursos; temos de organizar uma completa expedição de caça, reunir os animais num ponto só, e jogar sobre eles, ali, uma bomba de melinita [ing. melinite bomb. Herzl 1988: 93-4].”

É pouco provável que Herzl falasse – mesmo subconscientemente, garanto! – dos habitantes da Palestina, quando ensina os colonos judeus o melhor modo para limpar a nova colônia e livrá-la de "bestas selvagens", como, por exemplo, "ursos".

Seja como for, é quase impossível não ver paralelos espantosos entre os métodos que Herzl propôs, para livrar-se das "bestas feras" e "ursos", e a estratégia e as táticas que os colonos judeus têm adotado, desde 1948, para limpar a Palestina, dizimando a população autóctone.

Já nos anos 30s, o Yishuv[1] organizou "uma completa expedição de caça”, que recebeu o nome de Haganah[2] e que cresceria muito, depois de 1948, até converter-se numa das mais poderosas máquinas militares do planeta.

Em 1948, essa "completa expedição de caça" lançaria seu primeiro ataque massivo para "limpar" a Palestina de todas as "bestas selvagens" palestinenses. A "expedição de caça" tem operado, desde então, para garantir que as "bestas feras" palestinenses refugiadas jamais voltassem às próprias casas e às suas terras. E cada vez que as "bestas selvagens" palestinenses atreveram-se a usar seus recursos de refugiagos para tentar voltar ou exigir o direito de propriedade sobre suas casas e terras, a "completa expedição de caça" lá estava, a postos, para lançar "uma bomba de melinita" sobre suas cabeças.

Um segundo ataque, com o objetivo de limpar a área das "bestas selvagens" que por ali houvesse, na Palestina, foi lançado em 1967, quando uma "completa expedição de caça", já então muito ampliada, ocupou toda a Palestina.

Depois de 1967, a "completa expedição de caça" dos israelenses começou a implantar novo plano de limpeza étnica de toda a Cisjordânia e da Faixa de Gaza, sempre contra os "ursos" palestinenses. Dedicada a abrir espaço para mais colonos judeus, a "completa expedição de caça" passou a "reunir os animais num ponto só", reunir "as bestas selvagens" palestinenses em enclaves cada vez menores, dentro dos territórios então recentemente ocupados.

Em Gaza, os planos do governo israelenses começaram a encontrar dificuldades a partir da II Intifada, em 2000. O Hamás islâmico já se implantara e ganhava força nas áreas miseráveis e superpopulosas nas quais os palestinenses vinham sendo confinados desde 1948. Preparando-se para uma escalada nos planos de limpar a região de todas as "bestas selvagens", Israel então, em 2005, retirou a "expedição de caça" e os colonos judeus, os pôs em segurança, fora da linha de tiro, e imediatamente fechou o cerco sobre Gaza. Essa era condição 'de campo' indispensável para poder "jogar uma bomba de melinita" sobre a população cercada.

A monstruosa culminação dessa nova estratégia estamos vendo hoje, em Gaza, já há várias semanas.

Israel é o ápice da modernidade dos tempos correntes: é manifestação viva do incansável, racional, eficiente, crudelíssimo, 'científico' intento colonial de implantar-se como poder dominante sobre uma população autóctone; como sobre uma tribo autóctone de índios americanos ou de negros africanos.

O sucesso da empreitada colonial, como já aconteceu no passado, é pressuposto 'consequência' 'natural' do uso massivo de "bobas de melinita" contra populações comparativamente desarmadas, definidas como "bestas selvagens".

Outra vez, sempre nas palavras de Herzl, Israel está tentando, hoje, completar seu assalto colonial no Oriente Médio "em estilo mais definitivo, mais claro do que jamais foi tentado antes, porque [Israel] possui, hoje, meios de ataque que nenhum homem possuiu antes" (Theodore Herzl, "The Jewsish Question", 1897, em http://www.ismi.emory.edu/Articles/HerzlJewishQuestion.pdf).

Sim. Por mais de cem anos, desde o macabro nascimento do projeto sionista, os palestinenses (tratados como "bestas selvagens") jamais se deixaram derrotar. Por mais de 30 anos enfrentaram "a cortina de ferro das baionetas ingleses". E desde 1948 enfrentam, valentemente, a cada dia mais espessa "cortina de ferro das baionetas israelenses".

Os palestinenses sempre tiveram uma força que os sionistas nunca tiveram: a justiça sempre lutou pelos palestinenses e contra os sionistas.

Sim, nem sempre a justiça prevalece, onde tenha de enfrentar a força bruta. Há milhões de nativos mortos nos EUA, que o testemunham. Os israelenses ainda são arrastados pela convicção perversa de que possuem "meios de ataque que nenhum homem possuiu antes".

Talvez a consciência do mundo acorde ainda a tempo de convencer os sionistas de que não, não, nada pode ser vencido por esses meios sionistas. Talvez isso aconteça antes de que seja tarde demais, antes de que a maré da história vire decisivamente contra Israel.

Israel só se sustentou até hoje porque obteve repetidas vitórias militares contra populações árabes desarmadas – operações rápidas, vitórias arrasadoras, como em 1948, 1956, 1967 e 1982.

Isso, precisamente, começou a mudar, desde que Israel foi obrigada a retirar-se do Líbano, em 2000. Ali, pela primeira vez, fracassou a tentativa de massacre. Ali, Israel encontrou a resistência do Hizbóllah, em 2006. Agora, em Gaza, Israel encontrou a resistência do Hamás – dessa vez, já, um governo democraticamente eleito, embora, ao mesmo tempo, exército menos mortífero que o do Hizbóllah. Mas resistência de um governo eleito.

Como Israel se mostrará ao mundo, depois disso? Persistirão os atuais governantes de Israel, na tentativa de destruir os palestinenses, com novas gerações de "bombas de melinita" importadas dos EUA?

Ou, quem sabe, alternativa que ainda pode salvar Israel, as mães israelenses conseguirão educar filhos empenhados em conviver em paz com os palestinenses, numa sociedade – afinal! – não racista?

Esperemos, pelo menos, que os eleitores israelenses – eles, talvez, quem sabe, afinal?! – façam melhores escolhas.

[1] O termo designa, em hebraico, o conjunto dos judeus que vivem na Palestina. Sobre isso, ver http://en.wikipedia.org/wiki/Yishuv

[2] Palavra, em hebraico, para "defesa". Sobre o movimento que recebeu o nome de Hagana, ver http://en.wikipedia.org/wiki/Haganah


Texto reproduzido em Counterpunch, NY, EUA

*M. Shahid Alam é professor de economia na Northeastern University. É autor de Challenging the New Orientalism (2007).

Comentários para alqalam02760@yahoo.com .

Tradução Caia Fittipaldi

A invasão de Israel e os campos de gás no offshore de Gaza

Guerra e gás natural

A invasão militar da Faixa de Gaza pelas forças israelenses prende-se directamente com o controlo e propriedade das reservas estratégicas de gás natural na sua plataforma marítima.


Esta é uma guerra de conquista. Descobertas em 2000, são extensas as reservas de gás presentes ao longo do offshore de Gaza.


À Britsh Gas(BG Group) e ao seu parceiro Consolidated Contractors Company (CCC) com sede em Atenas, propriedade das famílias libanesas Sabbagh e Koury, foram dados os direitos de exploração de petróleo e gás num acordo de 25 anos assinado em Novembro de 1999 com a Autoridade Palestina.


Os direitos de exploração costeira das jazidas de gás são, respectivamente, da British Gas (60%); Consolidated Contractors (CCC) (30%); e o Fundo de Investimento da Autoridade Palestina (10%). ( Haaretz, 21/Outubro/2007).


O tratado AP-BG-CCC inclui o desenvolvimento da jazida e a construção de um gasoduto. ( Middle East Economic Digest, 05/Janeiro/2001).

A licença da BG cobre toda a zona marítima costeira de Gaza, que é contígua a várias instalações de gás marítimas de Israel (ver mapa abaixo). De ressalvar que 60 por cento das reservas de gás ao longo do litoral Gaza-Israel pertencem à Palestina.

O BG Group abriu dois furos em 2000: Gaza Marine-1 e Gaza Marine-2 . As reservas, segundo estimativa da British Gas, são da ordem dos 40 mil milhões de metros cúbicos [1,4 x 10 12 pés cúbicos], avaliados em aproximadamente 4 mil milhões de dólares. Estes são os números anunciados pela British Gas. A dimensão das reservas de gás da Palestina pode ser bastante maior.

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QUEM POSSUI OS CAMPOS DE GÁS
O tema da soberania sobre os campos de gás de Gaza é crucial. Do ponto de vista legal, as reservas pertencem à Palestina.

A morte de Yasser Arafat, a eleição do governo do Hamas e a ruína da Autoridade Palestiniana permitiram a Israel estabelecer um controlo de facto sobre as reservas de gás costeiras de Gaza.

A British Gas (BG Group) tem estado a negociar com o governo de Tel Aviv. Por sua vez, o governo do Hamas foi ignorado no que se refere à exploração e direitos de desenvolvimento das jazidas de gás.

A eleição do primeiro-ministro Ariel Sharon em 2001 foi um ponto de viragem. A soberania da Palestina sobre as reservas costeiras de gás foi desafiada no Supremo Tribunal de Israel. Sharon afirmou inequivocamente que "Israel nunca compraria gás à Palestina", insinuando ainda que as reservas costeiras de Gaza pertenciam a Israel.
Em 2003 Ariel Sharon vetou um acordo inicial que permitiria à British Gas fornecer a Israel gás natural vindo dos furos costeiros de Gaza. ( The Independent, 19/Agosto/2003)

A vitória do Hamas nas eleições de 2006 conduziu ao fim da Autoridade Palestiniana, que ficou confinada à Cisjordânia, sob o regime fantoche de Mahmoud Abbas.

Em 2006, a British Gas "esteve próxima de assinar um acordo para enviar o gás para o Egipto." ( Times, 23/Maio/2007). De acordo com o relatado, o primeiro-ministro britânico Tony Blair interveio em nome de Israel com o propósito de bloquear o acordo com o Egipto.

No ano seguinte, em Maio de 2007, o governo israelense aprovou a proposta do primeiro-ministro Ehud Olmert "para comprar gás à Autoridade Palestiniana". O contrato proposto foi de 4 mil milhões de dólares, com lucros na ordem dos 2 mil milhões de dólares, dos quais mil milhões iriam para os palestinianos.

Tel Aviv, no entanto, não tinha qualquer interesse em dividir os seus ganhos com a Palestina. Uma equipa de negociadores de Israel foi encarregada pelo governo de refazer o acordo com a BG Group, sem intervenção do governo do Hamas e da Autoridade Palestiniana:

"As autoridades militares israelenses querem que os palestinianos sejam pagos em bens e serviços e insistem que não haja qualquer dinheiro a ser entregue ao governo controlado pelo Hamas". (Ibid, ênfase acrescentada)
O objectivo era essencialmente anular o contrato assinado em 1999 entre o BG Group e a Autoridade Palestina sob Yasser Arafat.

Segundo o acordo proposto em 2007 à BG, o gás palestiniano dos poços costeiros de Gaza seria canalizado por um gasoduto marítimo para o porto israelense de Ashkelon, transferindo portanto o controlo da venda do gás natural para Israel.

O negócio falhou. As negociações foram suspensas:
"O chefe da Mossad, Meir Dagan, opôs-se à transacção por motivos de segurança, afirmando que o dinheiro serviria para financiar o terrorismo". (Gilad Erdan, deputado do Knesset, dirigiu-se à câmara, acerca da "Intenção do primeiro-ministro adjunto Ehud Olmert de comprar gás aos palestinianos quando o pagamento servirá o Hamas", 01/Março/2006, citado pelo general na reserva Moshe Yaalon em
Does the Prospective Purchase of British Gas from Gaza 's Coastal Waters Threaten Israel's National Security? Jerusalem Center for Public Affairs, Outubro 2007)
A intenção de Israel era impedir a possibilidade de o dinheiro ser recebido pelos palestinos. Em Dezembro de 2007 o BG Group retirou-se das negociações e em Janeiro de 2008 encerrou os seus escritórios em Israel. (sítio web da BG).

PLANO DE INVASÃO NA MESA DE PROJECTOS
O plano de invasão da Faixa de Gaza sob a "Operação Chumbo Fundido" foi iniciado em Junho de 2008, segundo fontes militares israelenses:

"Fontes militares afirmam que o ministro da Defesa Ehud Barak deu instruções às forças de defesa de Israel (IDF) para prepararem a operação há mais de seis meses (Junho ou antes de Junho), mesmo antes de Israel começar a negociar o acordo de cessar-fogo com o Hamas". (Barak Ravid, Operation "Cast Lead": Israeli Air Force strike followed months of planning [Operação "Chumbo Fundido": Ataque da Força Aérea Israelense após meses de planeamento), Haaretz, 27 de Dezembro de 2008)

Nesse mesmo mês as autoridades de Israel contactaram a British Gas, com vista a retomarem as negociações cruciais para recomeçar a compra do gás natural de Gaza:

"Tanto o director-geral do ministério das Finanças Yarom Ariav como o director-geral do ministério das Infraestruturas Nacionais Hezi Kugler concordaram em informar a BG do desejo de Israel em retomar as conversações.

As fontes informam ainda que a BG não respondeu oficialmente ao pedido de Israel, mas que executivos da empresa provavelmente virão ao país em poucas semanas para conversar com membros do governo." (Globes online- Israel's Business Arena, 23 de Junho, 2008)

A decisão de acelerar as negociações com a British Gas (BG Group) coincidiu cronologicamente com o planeamento da invasão de Gaza, iniciado em Junho. Parecia que Israel estava ansiosa para chegar a acordo com o BG Group antes da invasão, que estava já numa fase avançada do planeamento.

Mais ainda, as negociações com a British Gas foram conduzidas pelo governo de Ehud Olmert com o conhecimento de que a invasão militar estava na mesa de projectos e que um novo acordo politico-territorial para a Faixa de Gaza estava a ser contemplado por Israel.

De facto, as negociações entre a British Gas e os representantes israelenses ainda estavam a decorrer em Outubro de 2008, dois a três meses antes do início dos bombardeamentos a 27 de Dezembro.

Em Novembro de 2008, os ministérios israelenses das Finanças e das Infraestruturas Nacionais deram indicações à IEC (Israel Electric Corporation) para começar a compra de gás natural à concessão da BG em Gaza. (Globes, 13/Novembro/2008)

"O director-geral do ministério das Finanças, Yarom Ariav e o director-geral do ministério das Infraestruturas Nacionais, Hezi Kugler, escreveram recentemente ao presidente da IEC, Amos Lasker, informando-o da decisão do governo de permitir que negociações começassem, em consonância com o quadro de referência aprovado este ano.

A direcção da IEC, liderada pelo presidente Moti Friedman, aprovou os princípios da proposta do quadro de referência há poucas semanas. As conversações com o BG Group começarão assim que a direcção aprove a isenção de uma licitação". (Globes, 13 de Novembro, 2008)


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GAZA E GEOPOLÍTICA ENERGÉTICA

A ocupação militar de Gaza tem o objectivo de transferir a soberania dos campos de gás para Israel, em violação das leis internacionais.

O que se pode esperar em consequência da invasão?

Qual é a intenção de Israel em relação às reservas de gás natural da Palestina?

Um novo acordo territorial, com a instalação de Israel e/ou tropas de "manutenção da paz"?

A militarização de todo o litoral de Gaza, que é estratégico para Israel?

O confisco puro e simples dos campos de gás palestinos e a declaração unilateral da soberania israelense sobre as áreas marítimas de Gaza?

Se isto ocorresse, as jazidas de gás de Gaza seriam integradas nas instalações costeiras de Israel, que são contíguas às da Faixa de Gaza. (Ver Mapa 1 acima).

Estas várias instalações costeiras estão ligadas ao corredor de transporte energético que se estende do porto de Eilat, um terminal de oleodutos no Mar Vermelho para transporte marítimo, até ao terminal de Ashkelon e na direcção norte para Haifa, eventualmente ligando-se através de um projectado gasoduto israelo-turco com o porto turco de Ceyhan.

Ceyhan é o terminal das condutas Trans-Caspianas: Baku, Tblisi, Ceyhan (BTC). "O que está planeado é ligar as condutas BTC às condutas Trans-Israel Eilat-Ashkelon, também conhecida como a Tipline de Israel." (Ver MIchel Chossudovsky, The War on Lebanon and the Battle for Oil (A Guerra com o Líbano e a batalha pelo petróleo), Global Research, 23/Julho/2006)

Michel Chossudovsky

Global Research

Traduzido por João Camargo, publicado no Resistir Info.

Mensagem ao Oriente: "Nossas condições para aceitar o cessar-fogo"


Ismail Haniyeh, Primeiro-ministro, Gaza, Palestina


Escrevo essa mensagem para leitores e ouvintes em todo o Oriente, de todo o espectro social e político, enquanto a máquina de guerra de Israel continua a massacrar os palestinenses, em Gaza. Até aqui, temos 1.000 mortos, quase a metade dos quais são mulheres e crianças. Semana passada, no bombardeio contra a escola mantida pela Agência da ONU para Socorro Humanitário (UNRWA), no campo de refugiados de Jabalya, praticou-se crime horrendo. Centenas de civis saíram de suas casas e buscaram refúgio no prédio da ONU, onde foram chacinados sem piedade pelo exército de Israel. 46 crianças e mulheres mortas, muitas outras feridas, nesse ataque odioso.

Evidentemente, a retirada de Israel, em 2005, da Faixa de Gaza não marcou o fim da ocupação nem desobrigou Israel de cumprir seus deveres legais, de assistência às populações, em território em que Israel continua a ser potência ocupante. Israel continua a controlar e dominar as fronteiras da Palestina por terra, mar e ar. Como a ONU já confirmou, entre 2005 e 2008, o exército de Israel matou quase 1.250 palestinenses em Gaza, 222 dos quais eram crianças. Durante a maior parte desse periodo, os pontos de passagem de fronteira permaneceram efetivamente fechados e só foram autorizadas a passar para território palestinense quantidades limitadas de alimento, combustível industrial, ração animal e outros itens essenciais à sobrevivência.

Apesar dos esforços frenéticos para ocultar os fatos, o motivo que está na raiz desse ataque de Israel contra Gaza, crime de guerra, é o resultado que saiu das urnas nas eleições de janeiro de 2006 - vencidas pelo Hamás por significativa maioria.

Em seguida, Israel, os EUA e a União Européia uniram forças, numa tentativa de golpe contra o desejo democrático do povo palestinense. Decidiram cancelar a decisão democrática das urnas, obstruindo a formação de um governo nacional palestinense e, em seguida, converteram em inferno a vida dos eleitores, mediante violento processo de estrangulamento econômico. O escandaloso fracasso dessas maquinações levaram, por fim, a essa guerra obscena.

O objetivo do governo de Israel é silenciar todas as vozes que manifestam o desejo dos palestinenses; isso feito, o governo de Israel imporia seus próprios termos, para algum tipo de acordo, que privasse os palestinenses de qualquer direito sobre seu próprio território e sobre Jerusalém - capital, por direito legal de nosso futuro Estado da Palestina -, e que roubasse aos refugiados palestinenses o direito de voltar para suas casas e propriedades.

O violento bloqueio que Israel impôs contra Gaza, viola, manifestamente, a IV Convenção de Genebra, e impediu que medicamentos e equipamentos médicos básicos chegassem aos hospitais. Impediu o fornecimento de combustível e energia elétrica à população. E, além de todas essas violências, cometeu a desumanidade máxima de negar comida a população sitiada e o direito de locomoção, inclusive de doentes e feridos que procuravam socorro e assistência médica. O bloqueio contra Gaza provocou a morte de centenas de pacientes e fez subir dramaticamente os índices de desnutrição infantil.

Os palestinenses vêem, atônitos, que os países da União Européia não consideram esse bloqueio obsceno como uma forma de agressão. Apesar da muito clara evidência, aqueles Estados não se pejam de declarar que essa catástrofe seria obra do Hamás, por não ter renovado a trégua de cessar-fogo.

Esta fotografia, conhecida dos historiadores, mostra o porto de Haifa em 31 de janeiro de 1949, em que uma multidão se reuniu para dar as boas vindas a 1.500 refugiados judeus que chegavam. Esta foto foi retirada do monumental livro de Ilan Pappé, The Ethnic Cleansing of Palestine e reproduzida aqui do blog Biscoito Fino

Os países da União Européia, contudo, sabem que Israel não honrou os termos do acordo de cessar-fogo, mediado pelo Egito em junho. O cessar-fogo determinava o fim do bloqueio e o fim dos ataques israelenses à Cisjordânia e na Faixa de Gaza.

O Hamás cumpriu o que determinava o acordo de cessar-fogo e os israelenses continuaram a matar palestinenses em Gaza e na Cisjordânia durante o ano que passou a ser chamado de "o ano do acordo de paz de Annapolis".

Nenhuma das atrocidades cometidas contra nossas escolas, universidades, mesquitas, ministérios e instalações da infra-estrutura civil nos deterá, na luta pelos nossos direitos nacionais.

É verdade que Israel pode demolir todos os prédios da Faixa de Gaza, mas não deterá nossa firme determinação de viver com dignidade em território palestinense, nossa terra.

Se confinar civis num prédio e em seguida bombardear o prédio, ou usar bombas e mísseis de fósforo não configuram crime de guerra... o que, então, será um crime de guerra?

Quais e quantos outros tratados e convenções internacionais o governo sionista de Israel terá de agredir, antes de ser formalmente acusado e julgado por seus crimes?

Não há joje uma única capital do mundo na qual as pessoas livres e decentes não se sintam ultrajadas por essa violência e pela opressão brutal que cai sobre a Palestina.

Depois desses crimes, nem a Palestina nem o mundo, nunca mais voltarão a ser o que foram. Só há um caminho à frente. Só um.

As condições que impomos para aceitar o acordo de cessar-fogo são claras e simples. Israel tem de pôr fim a essa guerra criminosa e à chacina dos palestinenses; tem de levantar completamente, incondicionalmente, o bloqueio ilegal da Faixa de Gaza, abrir nossas fronteiras e retirar-se completamente de Gaza. Isso feito, consideraremos, depois, outras opções.

Os palestinenses são um povo em luta para livrar-se da ocupação e pelo estabelecimento de um Estado independente, que terá por capital Jerusalém, e ao qual poderão retornar os refugiados, de volta às vilas e aldeias das quais foram expulsos.

Custe o que custar, os massacres que Israel pratica na Palestina não farão fraquejar nem nossa vontade nem nossa aspiração por liberdade e independência.

[Ismail Haniyeh, Primeiro-ministro, Gaza, Palestina, 15/1/2009]
(transmitida pela TV Al-Aqsa, Gaza) - Publicada em The Independent, UK, 15/1/2009)
Tradução Caia Fittipaldi