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sábado, 13 de setembro de 2008

"Sicko - $O$ Saúde", documentário de Michael Moore

"Sicko - $O$ Saúde" escrito, produzido e dirigido por Michael Moore, diretor de "Tiros em Columbine" e "Fahrenheit 11 de Setembro".

Inicialmente anunciado como um documentário sobre a indústria farmacêutica, várias empresas desta área prontamente tomaram medidas para evitar o acesso de Michael Moore a quaisquer informações comprometedoras e aconselharam os seus funcionários a não dialogar com o cineasta.

Irreverente e incisivo como é habitualmente, Moore surpreendeu de novo, produzindo um documentário sobre o lucrativo sistema de saúde norte-americano.

Mostrando sem qualquer censura as conseqüências da inexistência de um sistema de saúde pública nos E.U.A. o documentário é uma crítica afiada aos interesses corporativos e estatais que lucram com a doença dos cidadãos.

Em "Sicko - $O$ Saúde", Michael Moore utiliza mais uma vez seu cáustico humor para mexer com a ideologia de mercado e pôr em cheque o discurso do 'american dream'

Após a exibição do filme em Cannes, o diretor disse: "Nós recebemos também a informação de que as indústrias farmacêutica e médica estão empenhadas na luta contra 'Sicko'. Nós recebemos muitas cartas com grande denúncias dos empregados dessas companhias enquanto fazíamos o filme. Nós gostaríamos de ouvi-los outra vez vez! Mande-nos os memorandos internos e todas os outros planos que vocês cruzarem por acaso na máquina de copiar da companhia ou no servidor de Internet. Nos ajudará a permanecermos cientes do que eles tramam, e nos dará também a oportunidade de um pouco de divertimento às custas destas indústrias".
Reproduzo abaixo as 12 partes do documentário legendado:

PARTE 1


PARTE 2


PARTE 3


PARTE 4


PARTE 5


PARTE 6


PARTE 7


PARTE 8


PARTE 9


PARTE 10


PARTE 11


PARTE 12

domingo, 20 de julho de 2008

Os interesses da OMC, segundo o presidente boliviano, Evo Morales

A propósito da ronda de negociações da OMC

Evo Morales Ayma *

"O comércio internacional pode desempenhar uma função de importância na promoção do desenvolvimento econômico e no alívio da pobreza. Reconhecemos a necessidade de que nossos povos se beneficiem com o aumento das oportunidades e com os avanços do bem-estar que o sistema multilateral de comércio gera. A maioria dos Membros da Organização Mundial do Comércio (OMC) é de países em desenvolvimento. Pretendemos por suas necessidades e interesses no centro do programa de Trabalho adotado na presente Declaração". Declaração Ministerial de Doha da Organização Mundial do Comércio, 14 de novembro de 2001.


Com essas palavras começou a ronda de negociações da OMC há sete anos. Realmente, o desenvolvimento econômico, o alívio da pobreza, as necessidades de todos os nossos povos, o aumento de oportunidades para os países em desenvolvimento estão no centro das atuais negociações na OMC?

O primeiro a dizer é que se assim fosse, os 153 países membros e, sobretudo, a ampla maioria dos países em desenvolvimento, deveria ser os atores principais das negociações da OMC. Porém, o que estamos vendo é que um punhado de 35 países é convidado pelo Diretor Geral a reuniões informais para que avancem substancialmente na negociação e preparem os acordos desta "Ronda para o Desenvolvimento" da OMC.

As negociações na OMC têm-se convertido em uma briga dos países desenvolvidos para abrir o mercado dos países em desenvolvimento a favor de suas grandes empresas.

Os subsídios agrícolas do Norte, que vão, principalmente, para as mãos das companhias agro-alimentícias dos Estados unidos e da Europa, não somente continuarão, mas serão incrementados como o demonstra a Lei Agrícola ou "Farm Bill 2008" (1) dos Estados Unidos. Os países em desenvolvimento rebaixarão os impostos a seus produtos agrícolas, enquanto os subsídios reais (2) aplicados pelos EUA ou pela UE a seus produtos agrícolas não diminuirão.

Sobre os produtos industriais nas negociações da OMC, busca-se que os países em desenvolvimento realizem recortes nos impostos de cerca de 40% a 60%, enquanto que os países desenvolvidos diminuirão em média seus impostos entre os 25% e 33%.

Para países como Bolívia, a erosão das preferências nos impostos pela diminuição generalizada de impostos terá efeitos negativos na competitividade de nossas exportações.

O reconhecimento de assimetrias e o tratamento especial e diferenciado real e efetivo a favor dos países em desenvolvimento é limitado e obstaculizado em sua implementação pelos países desenvolvidos.

Nas negociações, empurra-se para que novos setores de serviços sejam liberalizados pelos países quando o que teria que fazer é excluir definitivamente os serviços básicos de educação, saúde, água, energia e telecomunicações do texto do Acordo Geral do Comércio de Serviços da OMC. Esses serviços são direitos humanos que não podem ser objeto de negócio privado e de regras de liberalização que levam à privatização.

A desregulação e privatização dos serviços financeiros, entre outros, são a causa da atual crise financeira mundial. Maior liberalização dos serviços não trará maior desenvolvimento, mas maiores possibilidades de crise e de especulação em temas vitais como o dos alimentos.

O regime de propriedade intelectual estabelecido pela OMC tem beneficiado, sobretudo, as transnacionais que monopolizam as patentes, encarecendo o preço dos medicamentos e de outros produtos essenciais; incentivando a privatização e a mercantilização da vida, como provam as várias patentes sobre plantas, animais e, inclusive, genes humanos.

Os países mais pobres serão os principais perdedores. As projeções econômicas de um potencial acordo da OMC, efetuadas, inclusive, pelo Banco Mundial (BM) (3), indicam que os custos acumulados pela perda de empregos, pelas restrições à definição de políticas nacionais e à perda de ingressos aduaneiros serão maiores do que os "benefícios" da "Ronda para o Desenvolvimento".

Depois de sete anos, a ronda da OMC está ancorada no passado e desatualizada dos fenômenos mais importantes que estamos vivendo: a crise alimentar, a crise energética, a mudança climática e a eliminação da diversidade cultural. Querem que o mundo acredite que se necessita de um acordo para resolver uma agenda mundial e esse acordo não representa essa realidade. Suas bases não são adequadas para resistir a essa nova agenda mundial.

Estudos da FAO assinalam que, com as atuais forças de produção agrícola, é possível alimentar a 12.000 bilhões de seres humanos; isto é, quase o dobro da população mundial atual. No entanto, há uma crise alimentar porque não se produz para o bem-estar humano, mas em função do mercado, da especulação e da rentabilidade das grandes produtoras e comercializadoras de alimentos. Para enfrentar a crise alimentar, é necessário fortalecer a agricultura familiar, camponesa e comunitária. Os países em desenvolvimento temos que recuperar o direito de regular (4) nossas importações e exportações para garantir a alimentação de nossa população.

Temos que acabar com o consumismo, com o desperdício e com o luxo. Na parte mais pobre do planeta, morrem milhões de seres humanos de fome a cada ano. Na parte mais rica do planeta, gastam-se milhões de dólares para combater a obesidade. Consumimos em excesso; desperdiçamos os recursos naturais e produzimos o lixo que contamina a Mãe Terra.

Os países devemos priorizar o consumo do que produzimos localmente. Um produto que percorre a metade do mundo para cegar ao seu destino pode ser mais barato do que outro que é produzido nacionalmente; porém, se levarmos em consideração os custos ambientais do transporte de dita mercadoria, o consumo de energia e a quantidade de emissões de carbono que gera, então, podemos chegar à conclusão de que é mais saudável para o planeta e para a humanidade priorizar o consumo do que se produz localmente.

O comércio exterior deve ser um complemento da produção local. De nenhuma maneira podemos privilegiar o mercado externo às custas da produção nacional.

O capitalismo quer nos uniformizar para que nos tornemos simples consumidores. Para o Norte, há somente um modelo de desenvolvimento, o seu. Os modelos únicos em nível econômico vêm acompanhados de processos de aculturação generalizada para nos impor uma só cultura, uma só moda, uma só forma de pensar e de ver as coisas. Destruir uma cultura, atentar contra a identidade de um povo, é o mais grave dano que se pode fazer à humanidade.

O respeito e a complementaridade pacífica e harmônica das diversas culturas e economias é essencial para salvar o planeta, a humanidade e a vida.

Para que esta seja uma ronda de negociações efetivamente do desenvolvimento e ancorada no presente e no futuro da humanidade e do planeta, deveria:

• Garantir a participação dos países em desenvolvimento em todas as reuniões da OMC, colocando fim às reuniões exclusivas da "sala verde" (5).

• Implementar verdadeiras negociações simétricas a favor dos países em desenvolvimento nas quais os países desenvolvidos outorguem concessões efetivas.

• Respeitar os interesses dos países em desenvolvimento, não limitando sua capacidade de definição e implementação de políticas nacionais no âmbito agrícola, industrial e de serviços.

• Reduzir efetivamente as medidas protecionistas e os subsídios dos países desenvolvidos. (6)

• Assegurar o direito dos países em desenvolvimento de proteger pelo tempo que seja necessário suas indústrias nascentes da mesma forma que o fizeram no passado os países industrializados.

• Garantir o direito dos países em desenvolvimento a regular suas políticas em matéria de serviços, excluindo de maneira expressa os serviços básicos do Acordo Geral de Comércio de Serviços da OMC.

• Limitar os monopólios das grandes empresas sobre a propriedade intelectual, promover a transferência de tecnologia e proibir a patente de toda forma de vida.

• Garantir a soberania alimentar dos países, eliminando qualquer limitação à capacidade dos Estados a regular as exportações e importações de alimentos.

• Assumir medidas que contribuam a limitar o consumismo, o desperdício de recursos naturais, a eliminação de gases de efeito estufa e a geração de lixo, que prejudica a Mãe Terra.

No século XXI, uma "Ronda para o desenvolvimento" já não pode ser de "livre comércio", mas tem que promover um comércio que contribua para o equilíbrio entre os países, as regiões e com a mãe natureza, estabelecendo indicadores que permitam avaliar e corrigir as regras de comércio em função do desenvolvimento sustentável.

Os governos temos uma enorme responsabilidade para com nossos povos. Acordos como os da OMC têm que ser amplamente conhecidos e debatidos por todos os cidadãos e não somente por ministros, empresários e "expertos". Os povos do mundo temos que deixar de ser vítimas passivas dessas negociações e nos convertermos em protagonistas de nosso presente e de nosso futuro.

Evo Morales Ayma
Presidente da Bolívia


Notas:

(1) O "Farm Bill 2008" foi aprovado em 22 de Maio pelo Congresso dos Estados Unidos. Autoriza a realizar gastos que incluem subsídios à agricultura de até 307.000 milhões de dólares, em 5 anos. Desses, aproximadamente 208.000 milhões de dólares poderão ser gastos em programas de alimentação.
(2) O texto atual de agricultura propõe rebaixar os subsídios dos EUA em um patamar entre 13 e 16.4 bilhões de dólares anuais. No entanto, os subsídios reais que atualmente são aplicados pelos EUA são de aproximadamente 7 bilhões de dólares anuais. Por outro lado, a União Européia está oferecendo nas negociações da OMC a reforma que realizou em 2003 a sua Política Agrícola Comum (PAC), sem propor maiores aberturas.
(3) Os países em desenvolvimento pouco têm a ganhar na Ronda de Doha: os ganhos projetados serão de 0,2% para ditos países, a redução da pobreza mundial será de 2,5 milhões (menos de 1% dos pobres no mundo) e as perdas por impostos não cobrados serão de pelo menos 63.000 bilhões de dólares. (Anderson, Martin, and van der Mensbrugghe, "Market and Welfare Implications of Doha Reform Scenarios," in Agricultural Trade Reform and the Doha Development Agenda, Anderson and Martin, World Bank/ / Back to the Drawing Board: No Basis for Concluding the Doha Round of Negotiations" by Kevin P. Gallagher and Timothy A. Wise, RIS Policy Brief #36).
(4) Esta regulação deve incluir o direito a implementar impostos às exportações, baixar impostos para favorecer importações, proibir exportações, subsidiar produções locais, estabelecer faixas de preços, enfim, toda medida que, Segundo a realidade de cada país, melhor sirva ao propósito de garantir a alimentação da população.
(5) "Green room meeting" ou "reuniões na sala verde" é o nome das reuniões informais de negociação na OMC das quais participa um grupo de 35 países eleitos pelo Diretor Geral.
(6) Um recorte real dos subsídios dos EUA deveria ser menor que 7.000 bilhões de dólares ao ano.

Difusão da Campanha Continental contra a ALCA:

"Sim à vida, Não a ALCA. Outra América é possível"

[Tradução: ADITAL, 18/07/2008]

* Presidente da Bolívia

quarta-feira, 30 de abril de 2008

DOSSIÊ Bolívia: raça e classe podem dividir o país no referendo de 04 de maio

Leia neste blog outras postagens relacionadas à história da América Latina:
América Latina em nossa Biblioteca Virtual
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Intolerância nos EUA contra latinos-americanos
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Informação resiste ao choque
Fome mundial, latifúndios, deserto verde e biocombustíveis
Memória e história: ditadura militar
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Farcs

Raramente vemos imagens positivas como esta do presidente indígena da Bolívia Evo Morales, filho de pai Aymara e mãe quechua. De modo geral a imprensa nacional, estrangeira e até mesmo boliviano o representa como um 'populista' caricato e não raramente com cores preconceituosas em referência ao seu pertencimento étnico.

O que de fato sabemos sobre a história de vida e política desse presidente indígena em um dos países mais pobres da América Latina apesar da riqueza do gás natural para além dos estereótipos reproduzidos na imprensa e em alguns livros didáticos?

Para começar este dossiê, reproduzo dois vídeos de representações sobre o mesmo presidente profundamente diferentes.

O primeiro de um olhar estrangeiro e pró-estadunidense do jornalista espanhol Jorge Ramos que mostra um Evo Morales autoritário, defensor da coca e representante de outros defeitos inomináveis. Embora Evo enfrente algumas das perguntas com bastante segurança e propriedade, é impressionante ver como certos jornalistas têm uma visão pré-concebida sobre seus entrevistados, sobre a cultura que representam, independente do quanto seus prejulgamentos sejam reflexos da realidade ou não.

Do blog partidário da união boliviana reproduzo um vídeo que é uma voz dissonante nas representações que costumeiramente vemos por aqui. O vídeo conta um pouco da vida do presidente indígena que nasceu
na estância Isayavi, no povoado Orinoca, departamento de Oruro, pobre como os muitos presentes na Bolívia, sem água potável, sem eletricidade, sem assistência médica:


Infelizmente a imprensa corporativa brasileira dá pouquíssima atenção para o que ocorre nos países pobres latino-americanos e temos grandes dificuldades para entender questões centrais de nossos vizinhos da América Latina.


Na Bolívia da atualidade não apenas questões classistas, mas também o preconceito étnico e racial impulsionam uma minoria branca com apoio de uma parcela cabocla a reagir de forma violenta e ilegal às reformas sociais de Evo Morales, especialmente, à reforma agrária com a criação de assentamentos indígenas.


No próximo domingo dia 04/05/2008, o departamento de Santa Cruz de modo ilegal, pois o referendo passa por cima da Constituição boliviana, sem o reconhecimento do Mercosul ou da União Européia, mas com apoio de agências estadunidenses como a USAID (com longa história de intervenção imperialista e promoção de golpes em países latino-americanos) e sob a coordenação de uma elite econômica com práticas e discursos racistas tentará se separar do restante da Bolívia.


Reproduzo um dossiê elaborado a partir da seleção de artigos de opinião de jornalistas e blogueiros da mídia independente, de matérias, reportagens televisivas e um documentário publicados em outros países latino-americanos sobre a questão separatista boliviana para auxiliar os professores a avaliar esse conflito
profundamente polarizado e discuti-lo em sala de aula.

Na Bolívia 'se joga o futuro'
(Luiz Carlos Azenha)

WASHINGTON - A situação na Bolívia está ficando cada vez mais polarizada. No próximo domingo vai realizar-se o referendo que trata da autonomia do departamento de Santa Cruz, o mais rico do país. Não se trata, apenas, da fratura entre ricos e pobres. É o rompimento da planície com o planalto, da elite branca e mestiça com os índigenas do altiplano, do projeto político dos grandes industriais e latifundiários com o do indígena que pretende representar os movimentos sociais.

Philip Goldberg, o embaixador dos Estados Unidos em La Paz, foi o chefe da missão americana em Pristina, Kosovo, entre 2004 e 2006. Tem experiência na partilha de países. Através da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e do National Endownment for Democracy (NED) Washington financia grupos da "sociedade civil" bolivianos, alguns deles voltados para a resolução de conflitos.

O governo de Evo Morales demoniza o embaixador, a quem acusa de interferir nos assuntos internos da Bolívia e a quem pediu que se posicionasse publicamente em relação à autonomia de Santa Cruz. O embaixador respondeu que cabia aos bolivianos decidir. Os Estados Unidos apontam para a Bolívia como um exemplo da interferência indevida da Venezuela na vizinhança.

Os dois países têm as grandes reservas de petróleo e gás natural do continente.

Nem o Mercosul, nem a União Européia vão reconhecer o resultado do referendo do próximo domingo - que era a pretensão dos líderes de Santa Cruz.

Os "poncho rojos", um grupo de apoio a Evo Morales, anunciaram a formação de um exército indígena para defender a unidade da Bolívia.
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NA BOLÍVIA SE JOGA O FUTURO

por Luis Bilbao, na Bolpress (tradução- Luiz Carlos Azenha)

Toda pessoa consciente deveria preocupar-se com o que ocorre na Bolívia. Os Estados Unidos estão a ponto de deflagrar ali uma guerra que sacudiria a região e que logo levaria um estado de comoção e beligerância a toda a América do Sul.

A desculpa é a autonomia de quatro departamentos (Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija); o instrumento, a oligarquia; a mídia, corpo mercenário financiado, treinado e comandado pelo Departamento de Estado através da CIA e outras agências; o objetivo, fragmentar a Bolívia, deter o processo revolucionário encabeçado por Evo Morales, introduzir uma cunha de fogo no Cone Sul e criar as condições para atacar a Venezuela e o Equador. Desde domingo passado, o Paraguai também está ameaçado. Os Estados Unidos necessitam a guerra.

A economia capitalista já não pode respirar sem ela. Eram os que crêem que o pântano do Iraque impede outras fontes de combate. É o inverso: só resta a eles seguir adiante. Mas buscam fazê-lo na diagonal, espelhando a linha de ação no Oriente Médio: abrir fissuras objetivas nas formações econômicas, sociais, étnicas e religiosas; aguçar conflitos latentes; desatar a guerra entre facções, colocar-se acima delas e cavalgar sobre a destruição mútua dos povos.

A diferença com aquela zona devastada pela invasão, as lutas intestinas e o constante alimento da guerra (os candidatos a suceder George W. Bush já anunciaram sua disposição de "arrasar o Irã"), é que na América Latina existe um germe de um centro político continental.

Os governos de Cuba, Venezuela, Nicarágua e Bolívia assumiram a necessidade de enfrentar o imperialismo nas condições do mundo contemporâneo, ou seja, atacando a raiz do capitalismo. A reunião de emergência realizado na madrugada do último dia 23 por Hugo Chávez, Evo Morales, Daniel Ortega e Carlos Lage como representante de Raúl Castro, e as decisões adotadas nela, são indicativas de que esse bloco começa a atuar como direção política internacional.

Mas não é o suficiente. Os partidos e organizações com os que contam estes quatro governos são a vanguarda revolucionária do continente, mas não alcançam reunir o conjunto do ativo de trabalhadores, camponeses, jovens e dos povos desde o rio Bravo até a Patagônia. Essa é uma tarefa pendente.

A única via para atingí-la é que essas vanguardas, em toda a sua diversidade, encontrem o caminho das grandes maiorias e consigam explicar e persuadir a milhões do que está ao mesmo tempo claro mas às vezes tão obscuro: o imperialismo e as oligarquias que se subordinam a ele e as posições dos que vacilam em plantar-se diante da Casa Branca estão nos levando ao abismo da guerra.

É preciso detê-los. É preciso somar vontades, no mais amplo espectro possível, a partir da simples compreensão da ameaça. Não se poderá impedir a violência pedindo a Evo, como faz a OEA, que negocie com os cães de guerra atiçados por Washington. Trata-se de defender incondicionalmente ao legítimo governo indígena da Bolívia. E por todos os meios necessários.

Urge convocar reuniões em cada cidade da América Latina para explicar e debater esta conjuntura dramática. Dessas milhares de assembléia deverão surgir ações de mobilização e formas de união nacional e regional. E estar prontos para enviar delegações a La Paz, fazer atos, concertos, encontros de todo tipo, em todas as partes, com todos e todas que entendam a gravidade do momento e com o único objetivo de amarrar as mãos assassinas do imperialismo.

*Luis Bilbao é diretor do América XXI

Do Blog do Mello reproduzo os artigos e vídeos a seguir:

Documentos comprovam envolvimento dos EUA na tentativa de desestabilização da Bolívia

Veja esta entrevista em que a advogada venezuelana-americana Eva Gollinger denuncia, no programa La Hojilla, da emissora venezuelana VTV, o envolvimento direto dos Estados Unidos na vida política boliviana, com o objetivo de fomentar movimentos oposicionistas ao governo de Evo Morales.

Gollinger exibe documentos oficiais do governo americano que comprovam a remessa de milhões de dólares para o patrocínio de movimentos separatistas e golpistas da chamada Media Luna boliviana.

Na entrevista, a advogada apresenta um dossiê sobre o embaixador americano, Philip Goldberd, que serviu como embaixador no episódio separatista do Kosovo, e assumiu o cargo na Bolívia logo após a posse de Evo Morales.

Entre os documentos apresentados por ela há um que mostra que o governo americano paga a jornalistas para escreverem matérias e artigos favoráveis às diretrizes traçadas por Washington.

Nada disso é novidade. É a mesma estratégia aplicada em outros países, desde o Chile de Allende, em 1973, passando pela Venezuela e agora a Bolívia.

Fico pensando quando teremos uma Eva Gollinger brasileira, que denuncie o esquema no Brasil e aponte jornalistas que recebem para desestabilizar o governo Lula.

Leia e veja também:

» Assista ‘Guerreros del Arcoiris’: Documentário mostra preparação de golpe de Estado na Bolívia


Não deixe de assistir a este documentário, Guerreros del Arcoiris, que foi exibido pela primeira vez na noite de ontem, sábado, 26 de abril, às 22h30 de Brasília, pelo canal Vive TV, da Venezuela.

Assistindo-o, você vai ter um panorama geral do que está acontecendo neste momento na Bolívia, onde um grupo separatista, racista e violento, patrocinado pelos Estados Unidos, quer declarar sua independência da Bolívia, dividindo o país para não ter que compartilhá-lo com os demais povos que formam a nação boliviana.

Logo após a eleição de Evo Morales, os Estados Unidos deslocaram para a Bolívia seu embaixador que estava na Sérvia, portanto, um especialista em fomentar ambições separatistas.

O documentário mostra como os EUA investem milhões de dólares patrocinando movimentos separatistas da chamada Media Luna, que reúne quatro departamentos da Bolívia, entre eles o de Santa Cruz, que agora, no próximo dia 4 de maio, vai votar um referendo ilegal, convocado à margem do Estado Boliviano, pela aprovação de sua autonomia.

Já falei dos “cruceños” aqui. Nos links abaixo você pai poder ver, ou rever, a agressão covarde que praticam contra um homem desarmado e indefeso e como não se deram nem ao trabalho de criar um estatuto próprio, copiando o da Catalunha.

Ao referendo do próximo dia 4, nem a OEA, nem a Comunidade Européia, nem a ONU enviarão representantes, porque reconhecem sua ilegalidade. Apenas um país vai apoiar e respaldar o referendo, os Estados Unidos.

Há um golpe em marcha na Bolívia, com data marcada. É isso o que mostra Guerreros del Arcoiris.

»Vídeo: Racistas bolivianos agridem covardemente um ‘índio de mierda’

» Golpistas bolivianos plagiam projeto de Estatuto da Catalunha

» Racistas bolivianos agridem camponeses

» Dois anos de governo Evo Morales. O que você nunca leu

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Do blog do jornalista Pedro Ayres (Crônicas e Críticas da América Latina), especializado em discutir as questões latino-americanas, reproduzo textos e vídeo seguintes:

Imprensa e Justiça debatem o ilegal referendo

O jornalista Remberto Cárdenas, presidente da Confederação dos Trabalhadores da Imprensa da Bolívia e Wilfredo Chávez, Viceministro da Justiça e Direitos da República da Bolívia, ontem, no programa nacional, Cabildeo, debateram a situação do País e os problemas que podem advir com o ostensivo comportamento sedicioso dos departamentos da Meia Lua. Este é o sentido do presente vídeo.


Separatistas não querem nenhum diálogo
(Terça-feira, 29 de Abril de 2008)


Dante Caputo, diplomata argentino e Secretário para Assuntos Políticos da OEA, à espera de uma reunião que não houve


Diálogo de Prefectos y Gobierno con Caputo quedó postergado

La reunión que se tenía prevista para las primeras horas de la mañana entre el presidente de la república y el representante de la Organización de los Estados Americanos (OEA), Dante Caputo, se postergó de manera obligatoria. Así mismo, el secretario de la OEA, le reclamó al prefecto de Santa Cruz, Rubén Costas, porque no hubo ningún acuerdo preciso, es decir sin fecha fija para entablar una reunión entre el Gobierno y los Prefectos de la denominada ‘media luna ampliada’, además, declaró que la autoridad departamental no le quiso contestar el teléfono, para coordinar un posible encuentro en la capital cruceña.

Al respecto, el secretario general de la Prefectura, Rolando Aguilera, le explicó al representante de la OEA que el prefecto de Santa Cruz no podía contestarle sus llamadas, puesto que se encontraba en una zona donde la señal no alcanza, siendo estas las localidades de Cuevo y Boyuibe, provincia Cordillera.

La participación de Caputo en Bolivia, es con la intención de acercar al Gobierno del presidente Evo Morales y los prefectos de Santa Cruz y otros departamentos, en la disputa política que amenaza con la supuesta división del país, el mismo que conllevará a enfrentamientos en el proceso electoral convocado para este domingo 4 de mayo. El secretario general de la OEA, José Miguel Insulza, encomendó a Caputo que viaje de nuevo a Bolivia para intentar un acercamiento entre ambas partes. Así mismo, Insulza reclamó que se encuentra insatisfecho con las declaraciones del prefecto Costas, en torno al fracaso del diálogo.

Los prefectos de la denominada media luna ampliada, enviaron una carta a la OEA con la intención de realizar un encuentro con el Gobierno, pero el organismo internacional, cuestionó que en la misiva no existía fecha fija para el diálogo, esta acción fue criticada por los gobernantes, los mismos que también realizaron el mismo pedido a la OEA para que busque una mesa de diálogo con la oposición, en los días previos al Referéndum del 4 de mayo, donde varios departamentos liderados por Santa Cruz deciden dejar el centralismo.



Quiroga no cree en la participación de la OEA por falta de neutralidad

El jefe nacional de Poder Democrático y Social (Podemos), Jorge ‘Tuto’ Quiroga, señaló que el establecimiento de un diálogo entre el Gobierno y la oposición para superar la actual crisis política que atraviesa el país será posible con la mediación de la Iglesia Católica y con el acompañamiento de países amigos, como son Argentina, Brasil Colombia y México.

"Diálogo con la mediación de la Iglesia y con el acompañamiento de los países amigos, Unión Europea, gente neutra, confiable y creíble que no estén bajo la influencia del rey del ALBA, el señor Chávez", señaló ‘Tuto’.

Por otro lado, el jefe de Podemos dijo que el informe de la Organización de Estados Americanos (OEA) respecto a la situación política en Bolivia no merece ninguna confianza por su falta de neutralidad y credibilidad.

"El Secretario General y la misión que envía con el señor Enrique Correa, que es el operador político chileno del señor Insulza, que es el que redacta los informes, no nos merece ninguna confianza; es hasta una falta de tacto y de sensibilidad… el señor Insulza, que se auto descalificó por su paralización y falta de neutralidad y credibilidad… nos llenan de insultos y de injurias y la OEA no dice nada ni ha dicho sobre las violaciones al Tribunal Constitucional, ataques a medios de comunicación, cómo se ha golpeado a diputadas, cómo se ha acuartelado la Asamblea, cómo se la ha llevado a la UTO en Oruro para causar hechos de violencia", resaltó el jefe de Podemos.

Bolivia denunciará ante comunidad internacional plan de limpieza étnica en Santa Cruz

El Gobierno boliviano denunciará a la comunidad internacional el plan de "limpieza étnica" que la Unión Juvenil Cruceñista amenazó con aplicar luego del 4 de mayo en cumplimiento del proyecto de estatuto autonómico.

Así lo indicó este martes el director General de Justicia Comunitaria, Petronilo Flores, quien dijo que "el plan de limpieza étnica es sinónimo de discriminación y racismo contra los residentes paceños, orureños, potosinos y de todo el occidente en Santa Cruz".

Apuntó que desde el Viceministerio de Justicia Comunitaria impulsarán una denuncia formal ante las Naciones Unidas (ONU), la Organización de Estados Americanos (OEA), el Alto Comisionado de los Derechos Humanos sobre las formas de discriminación a partir del estatuto autonómico ilegal e inconstitucional que intenta ser legitimado el 4 de mayo por la oposición derechista al Gobierno de Evo Morales.

Lamentó que uno de los artículos del proyecto de estatuto señala que "el pueblo cruceño es racialmente mayoritaria y mestiza", en una franca actitud racista en pleno siglo XXI, indicó la Agencia Boliviana de Información (Abi).

Según Flores, a partir de esta expresión o de la redacción de las formas de discriminación, la Unión Juvenil Cruceñista, grupo de choque del Comité Cívico, está hoy en la tarea de intimidar, amedrentar con la amenaza de que después del 4 de mayo se iniciará la llamada "limpieza étnica".

Flores manifestó que no es posible que en pleno siglo XXI "estemos viviendo estas formas de discriminación racial, donde hay principios constitucionales, democráticos y las personas son iguales".

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Do blog do Eduardo Guimarães reproduzo o texto abaixo:

BOLÍVIA: A batalha da 'Media Luna"

No próximo dia 17, farei nova viagem ao exterior, depois da impressionante experiência que tive em Angola durante o mês de fevereiro deste ano, quando conheci uma realidade que chega a parecer fictícia em pleno século XXI. Meu próximo destino é a Bolívia, país que, apesar da omissão da mídia brasileira, que pouco ou nada vem noticiando sobre ele, está atravessando uma crise política e institucional extremamente grave.

No próximo domingo, dia 4 de maio, será realizado um plebiscito convocado pelo governo de Santa Cruz de la Sierra. A consulta popular será realizada à revelia do governo central da Bolívia, presidido pelo índio Evo Morales, e constitui, a rigor, uma proposta separatista engendrada pela oposição boliviana.

Especula-se que pode haver violência, pois a convocação do plebiscito e seu teor são inconstitucionais, constituindo um verdadeiro ato de sedição. É como se Rio, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul pretendessem se separar do Norte, do Nordeste e do Centro-Oeste do Brasil. No entanto, a mídia brasileira praticamente ignora a possibilidade de um grave confronto no país vizinho, a possibilidade de haver uma guerra civil na região boliviana conhecida como "Media Luna".

Como conhecedor da realidade boliviana, cumpre-me suprir a carência do noticiário nacional escrevendo este texto. O que você lerá a seguir sobre a realidade política, social e institucional da Bolívia, não me foi contado por ninguém, é fruto de constatações que fiz nas viagens de negócios que venho empreendendo àquele país - pelo menos duas por ano - desde 1996.

A elite, a mídia e o grande empresariado bolivianos estão tentando reproduzir o que seus congêneres venezuelanos vêm fazendo há anos na Venezuela, ou seja, estão tentando derrubar ou, na melhor das hipóteses, paralisar um governo democraticamente eleito e que apenas tenta pôr fim à miséria de dar dó em que vivem índios que constituem a quase totalidade da população boliviana.

Eis, a seguir, os fatos sobre a Bolívia que é preciso conhecer para bem entender sua realidade política, social, econômica e institucional.

A Bolívia é o país mais pobre da América do Sul. Os índios quéchuas, aymarás e outros, mais uma boa parcela de mestiços, constituem cerca de 90% da população. Destes, outros 90% vivem, em grande parte, na pobreza, e a maior parte, na miséria. Um contingente expressivo dos índios bolivianos ganha cerca de um dólar por dia.

A maior parte dos índios não tem rede de esgoto, educação minimamente aceitável e padece de doenças que desapareceram na maioria dos países de civilização média.

A maioria indígena está concentrada em regiões contíguas à Cordilheira dos Andes, ou seja, La Paz, Sucre, Cochabamba, Oruro, Potosi.

Os habitantes indígenas das cidades do Altiplano (da Cordilheira) são conhecidos como “collas”, e os da planície, da região conhecida como “Media Luna” (constituída por Santa Cruz de la Sierra, Pando, Tarija e Beni), são conhecidos como “cambas”.

Há uma rivalidade crescente e explosiva entre “collas” e “cambas”. Eles se odeiam, ainda que muitos indígenas vivam na região da “Media Luna” segregados, sem direitos, oprimidos e odiados.

Os “cambas” dividem-se entre uma minoria branca e rica, majoritariamente descendente dos conquistadores espanhóis que não se miscigenaram com os quéchuas, aymarás e outros, e os índios (“collas”) submissos, que formam um enorme exército de serviçais dos ricos da região de Santa Cruz.

Os “cambas” índios e mestiços, em grande parte, votam e emulam os discursos de seus patrões, mas, muitas vezes, da boca para fora, como mostram os resultados das eleições mais recentes, nas quais os “cambas” índios e pobres dividiram-se no apoio a Evo Morales, perdendo por pouco para a elite.

A grande mídia boliviana da "Media Luna" é formada pelos grandes canais de TV e pelo principal jornal da direita branca e rica. São as TVs Unitel, do grupo agropecuário Monastérios, Red Uno, do grupo de supermercados Kuljis, Sitel, da cervejaria dos Fernandez, Pat, do grupo dos Daher (distribuidores Sony na Bolívia) e o jornal El Dia.

O fato é que a América Latina está submetida toda ao mesmo processo, no qual as elites dos países da região - todos transbordando de pobreza e desigualdade - tentam, valendo-se do controle que exercem sobre os meios de comunicação, impedir que as grandes massas mestiças, negras e índias, mantidas na ignorância, na pobreza extrema e vivendo em condições indignas, votem em causa própria, elegendo governos comprometidos com a promoção de distribuição de renda e de oportunidades.

O que vemos fazer a mídia brasileira não chega a um décimo do que fazem as mídias de países nos quais foram eleitos governos dispostos a enfrentar as elites e suas mídias com maior decisão. São países como Bolívia, Venezuela, Equador etc, os quais venho visitando há mais de uma década.

Porém, assim mesmo, posso garantir que o Brasil está trilhando o mesmo caminho que eles. Só que, devido a ser um país muito mais complexo e devido ao fato de que Lula parece ter optado por uma transformação mais lenta e contemporizadora, a mídia brasileira, por incrível que possa parecer, porta-se com maior comedimento do que suas congêneres de outros países latino-americanos.

De volta à Bolívia. Quem chega a Santa Cruz e começa a assistir as grandes TVs locais, chega a ficar com medo. Nos programas em que os brancos ricos vertem sua baba reacionária contra Evo Morales, só se fala em “guerra civil”, “desobediência civil” e “autonomia”. O discurso que predomina na mídia dos “cambas” brancos e ricos dá a impressão de que o que ocorreu na Venezuela, por exemplo, ocorrerá na Bolívia em pouco tempo. O ódio da elite “cruceña”, no entanto, não nasceu com a chegada do índio Evo Morales ao poder.

Os “cambas” brancos e ricos – que não passam de um punhado que não dá dez por cento dos bolivianos – odeiam os “collas” desde sempre. Horrorizam-se com seus trajes típicos – por exemplo, das mulheres gordinhas, baixinhas, de pele escura, que usam xales com motivos indígenas, saias compridas e rodadas e chapéus-coco -, com suas bocas desdentadas, com seus narizes aduncos... Enfim, gente “feia”, para os brancos ricos da região da rica “Media Luna”.

Os "cambas" horrorizam-se ao ver o ministério de Evo Morales, majoritariamente composto por “collas despreparados”, no dizer da elite. O ódio deles tem raízes racistas. A chegada de um dos objetos de sua execração ao poder apenas exacerbou um ódio que já existia, porém embebido em mero desprezo.

Mas há outros fatores para o ódio dos “cambas” brancos e ricos. Como alguns já devem ter adivinhado, é o dinheiro.
Evo seguiu o exemplo de Hugo Chávez, que passou a canalizar o dinheiro do petróleo que abunda em seu país para lograr feitos como extinguir o analfabetismo na Venezuela depois de décadas em que a elite branca de lá chegava a usar esse dinheiro até para importar água mineral de Miami, ou o exemplo de Lula, que despertou o ódio da elite brasileira ao adotar medidas que estão levando negros e índios às universidades e permitindo que famílias pobres se alimentem, vistam-se e vivam melhor graças a programas como o Bolsa Família.

A elite boliviana já fez um plebiscito em dezembro de 2006 tentando uma certa “autonomia departamental”, que pedia autonomia econômica e administrativa de cada um dos nove Estados do país. Esse referendo foi proposto pelo presidente anterior a Morales, Carlos Mesa. A tal “autonomia” visava manter em Santa Cruz os recursos que Evo vem “torrando” com os “collas” em programas sociais. Os "collas" que, diga-se de passagem, somam, "apenas", três quartos da população da Bolívia.

O resultado do primeiro plebiscito sobre "autonomia departamental", que foi realizado em toda Bolívia em dezembro de 2006, foi o de que a “autonomia” perdeu no cômputo geral dos votos da maioria dos bolivianos, mas venceu nas regiões da “Media Luna”.

No ano passado, a Bolívia instituiu uma Assembléia Nacional Constituinte na capital do país, que, ao contrário do que se pensa, não é La Paz e, sim, Sucre. La Paz é apenas a sede do governo boliviano. Essa assembléia tratou da questão da autonomia derrotada em plebiscito no ano anterior, coibindo absurdos como o de permitir que cada departamento (estado) tivesse uma espécie de “ministério de relações exteriores”.
Os “cambas” brancos e ricos da região da "Media Luna" não aceitaram o resultado do plebiscito de dezembro de 2006 nem a regulamentação da "autonomia departamental" pela assembléia constituinte.. Começaram a falar, ensandecidos, em “guerra civil” e em “desobediência civil”, o que seja, os governos da “Media Luna” não repassarem impostos ao governo central e desobedecerem suas determinações.
Para que se tenha uma idéia do surto alucinado que tomou conta dessa gente, os insurrectos da "Media Luna" chegaram a ir aos EUA para tentar falar com George Bush. Obviamente que não foram recebidos, pois não representavam o estado boliviano. Depois, foram à ONU, e também deram com a cara na porta. Contudo, o governo de Evo Morales diz que o embaixador americano na Bolívia tem se envolvido em conversas com os golpistas "cruceños" e que dinheiro americano tem aportado nos cofres da oposição.

A tal “guerra civil” que pretendem os “cambas” brancos e ricos, no entanto, não passa de balela. A elite da "Media Luna" é amplamente minoritária.
Aliás, se conseguissem provocar a tal guerra civil, seriam trucidados. As forças armadas bolivianas são compostas, obviamente, pelos odiados “collas” e não estão nem aí para os chiliques das madames “cambas”, como as que se congregaram em grupos parecidos com o do natimorto movimento "Cansei", no Brasil. O "Cansei" boliviano se intitulou com nomes heróicos como “Mujeres de Septiembre”, que, a exemplo de seu congênere brasileiro, realizou manifestações de meia dúzia de gatos pingados contra o governo.

Quando eu chegar à conflagrada região da "Media Luna" no próximo dia 17, o plebiscito do próximo domingo já terá ocorrido e a Bolívia estará vivendo seus efeitos. Existe até a possibilidade de ter que adiar essa viagem, caso a situação política se agrave por lá.
Espero, no entanto, que o bom senso prevaleça, apesar de que conheço muito bem a realidade daquele país e sei que a elite boliviana, tal como a venezuelana, a argentina ou a brasileira, entre outras, não conhece limites em sua irracionalidade egoísta e golpista.

Quando a guerra a fome o luxo e o consumismo se encontram

A artista plástica dinamarquesa Nadia Plesler teve uma idéia excelente, usar a sua criatividade, explorando símbolos de consumo para criar um campanha de combate aos horrores da fome e da guerra em Darfur, um dos maiores campos de refugiados do planeta.

Observe as contradições que ela aponta na arte criada em camisetas e posters cuja renda das vendas é revertida para a população de Darfur:
Uma criança acuada, subnutrida, desprotegida e desnuda que carrega os símbolos de consumo identitário das 'patricinhas' de Nova York e de Bervely Hills, cuja personalidade mais representativa é a socialite e atriz Paris Hilton. Trata-se da escandalosamente cara bolsa da marca francesa Louis Vuitton e o cachorrinho chihuahua de aparência duvidosa como o Tinkerbell de Paris Hilton.

O nome da campanha Simple living (vida simples) também alude a um programa do estilo reality show, protagonizado por Paris Hilton, o modelo mais bem acabado do consumismo como identidade pessoal.

Plesler não é a primeira artista a se incomodar com o fato de cerca de 2.500.000 de pessoas terem de viver refugiadas e cerca de 400.000 terem sido vitimadas pelo conflito e as péssimas condições de vida nos campos de refugiados.

O músico Brian Shaheen no ano passado fez um concerto no Carnegie Hall 'Requiem for Darfur' e reverteu a renda para as campanhas humanitárias que prestam socorro à região.



Das dezenas de vídeos que encontrei no youtube sobre a questão, selecionei Darfur: A Modern Day Genocide pelo fato de que ele foi feito por uma adolescente canadense de 15 anos, idade aproximada de nossos alunos na 8ª série/9º ano.

Ao final de seu contundente curta ela dá um depoimento sobre o que a motivou a fazer esse filme: insatisfeita com a falta de ação, de atitude em relação ao genocídio que ocorre na região sudanesa de Darfur, ela espera que ações como as de pessoas jovens como ela façam a diferença para aumentar a sensibilização no mundo adulto - lideranças mundiais e a sociedade civil planetária - para que ajam e ponham fim ao conflito e ao sofrimento de milhões de pessoas.

Voltemos à artista dinamarquesa Plesler e a marca francesa Louis Vuitton: a primeira está sendo processada pela Louis Vuitton por 'por infringir os direitos de propriedade intelectual da grife'.

Dada a recusa de Plesler de retirar de suas camisetas e cartazes a referência à bolsa da marca francesa, se a artista perder o processo terá de arcar com: 'cinco mil euros a cada novo dia de venda de produtos, mais cinco mil euros a cada dia que a carta de Plesrer permanecer publicada no site e outros cinco mil euros a cada dia que o site usar a palavra 'Louis Vuitton'.

A resposta de Plesler a Louis Vuitton é bastante ilustrativa de sua crítica ao consumismo desumano e a incapacidade de uma elite global olhar para os seus semelhantes. Segundo ela a ilustração foi inspirada pela constante cobertura na imprensa de "coisas sem sentido". "Já que não fazer nada, fora usar bolsas de grife e pequenos cachorros feios é suficiente para colocar gente em capas de revistas, então vale uma tentativa para aqueles que realmente precisam de atenção". Leia mais em Nadia Plesler


A artista franco-brasileira Marie Ange Bordas conviveu durante três anos com refugiados em Johannesburg (África do Sul) e no Campo de Refugiados de Kakuma (norte do Quênia). Por meio da realização de oficinas de fotografia, vídeo e som, do resgate de relatos orais e da criação de exposições dentro e fora das comunidades nasceu "Deslocamentos", um projeto artístico com e sobre pessoas vivendo a experiência de um deslocamento forçado.

O material que ela criou com as crianças e adultos destes também gigantescos campos de refugiados entre fotografias, vídeos, esculturas e outras instalações já circulou o país em uma das exposições mais contundentes que pude ver. Deslocamentos ao mesmo tempo em que mostra as viagens forçadas de populações inteiras premidas pelas guerras, fome e concentração de renda e terras, desloca a nós mesmos de nosso comodismo diante dessas tragédias que não poupam sequer as crianças.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

INFORMAÇÃO RESISTE AO CHOQUE: INFORME-SE!

Um novo livro, da ativista Naomi Klein, 'A doutrina do choque', estabelece uma conexão entre o uso de choques elétricos em indivíduos e a teoria dos "choques" econômicos.
(Fonte do vídeo com legendas- TV vi o mundo, Luiz Carlos Azenha)


Para saber mais sobre a shockdoctrine consulte o site de Naomi Klein e o do Guardian shockdoctrine.


E se quiser ler ser seus dois livros anteriores acesse nossa biblioteca virtual

Sem logo (A tirania das marcas em um planeta vendido)
e
Cercas e janelas


'A doutrina do choque'. O tema do novo livro da ativista Naomi Klein
Por Naomi Klein
30 de setembro de 2007
Reproduzimos entrevista com Naomi Klein, que lançou um livro interessante. Pretende unir vários acontecimentos do século XX com mudanças econômicas, tais como as propagadas por figuras como Milton Friedman e Friedrich Hayek. Daí o título das mudanças econômicas associadas a outros acontecimentos: "A doutrina do choque" (com esse vídeo de divulgação). Lá vai (Fonte: Unisinus, dica do Desobediente):

O golpe de Pinochet no Chile. O massacre da Praça de Tiananmen. O Colapso da União Soviética. O 11 de setembro de 2001. A guerra contra o Iraque. O tsunami asiático e o furacão Katrina. O que todos esses acontecimentos têm em comum? É o que a ativista canadense antiglobalização Naomi Klein explica em seu novo livro The Shock Doctrine: The Rise of Disaster Capitalism [A doutrina do choque: O auge do capitalismo do desastre] – ainda sem tradução para o português. Naomi Klein em uma longa entrevista para o sítio La Haine, 27-09-2007, afirma que a história do livre-mercado contemporâneo foi escrita em choques e que os eventos catastróficos são extremamente benéficos para as corporações. Ao mesmo tempo a autora revela que os grandes nomes da economia liberal, como Milton Friedman, defendem o ‘capitalismo do desastre’. A tradução é do Cepat.
O que é exatamente a doutrina do choque?

A doutrina do choque como todas as doutrinas é uma filosofia de poder. É uma filosofia sobre como conseguir seus próprios objetivos políticos e econômicos. É uma filosofia que sustenta que a melhor maneira, a melhor oportunidade para impor as idéias radicais do livre-mercado é no período subseqüente ao de um grande choque. Esse choque poder ser uma catástrofe econômica. Pode ser um desastre natural. Pode ser um ataque terrorista. Pode ser uma guerra. Mas, a idéia é que essas crises, esses desastres, esses choques abrandam a sociedades inteiras. Deslocam-nas. Desorientam as pessoas. E abre-se uma ‘janela’ e a partir dessa janela se pode introduzir o que os economistas chamam de ‘terapia do choque econômico’.

É uma espécie de extrema cirurgia de países inteiros. E tudo de uma vez. Não se trata de um reforma aqui, outra por ali, mas sim uma mudança de caráter radical como o que vimos acontecer na Rússia nos anos noventa, o que Paul Bremer procurou impor no Iraque depois da invasão. De modo que é isso a doutrina do choque. E não significa que apenas os direitistas em determinada época tenham sido os únicos que exploraram essa oportunidade com as crises, porque essa idéia de explorar uma crise não é exclusividade de uma ideologia em particular. Os fascistas também se aproveitaram disso, os comunistas também o fizeram.

Explique quem é Milton Friedman, a quem ataca energicamente nesse livro?

Bem, ataco Milton Friedman porque é o símbolo da história que estou abordando. Milton Friedman morreu no ano passado. Morreu em 2006. E quando morreu, vimos como o descreveram em tributos pomposos como se fosse provavelmente o intelectual mais importante do período pós-guerra. Não apenas o economista mais importante, mas o intelectual mais importante. E é verdade que se pode construir um argumento contundente nesse sentido. Foi conselheiro de Thatcher, de Nixon, de Reagan, do atual governo Bush. Deu aulas a Donald Rumsfeld no início de sua carreira. Assessorou Pinochet nos anos setenta. Também assessorou o Partido Comunista da China no período chave da reforma ao final dos anos oitenta.
Sendo assim, teve uma influência enorme. Falei outro dia com alguém que o descreveu como o Karl Marx do capitalismo. E acredito que não é uma comparação ruim, mesmo que esteja segura de que Marx não gostaria nem um pouco. Mas foi realmente um popularizador dessas idéias.

Tinha uma visão de sociedade na qual o único papel aceitável para o Estado era o de implementar contratos e proteger fronteiras. Tudo o demais deve ser entregue por completo ao mercado, seja a educação, os parques nacionais, os correios, tudo o que poderia produzir algum lucro. E realmente viu, suponho, que as compras – a compra e a venda – constituem a forma mais elevada de democracia, a forma mais elevada de liberdade. O seu livro mais conhecido é Capitalism and Freedom [Capitalismo e liberdade].

Quando da sua morte no ano passado, percebemos o como essas idéias radicais de livre mercado chegaram a dominar o mundo, de como varreram a antiga União Soviética, a América Latina, a África, de como essas idéias triunfaram durante os últimos trinta e cinco anos. E isso me impressionou muito, porque já estava escrevendo esse livro. Nessas idéias - que tanto se falou quando da morte de Friedman -, nunca ouvimos falar de violência, nunca ouvimos falar de crises e nunca ouvimos falar de choques. Ou seja, a história oficial é de que estas idéias triunfaram porque desejávamos que assim o fosse, que o Muro de Berlim caiu porque as pessoas exigiram ter seus Big Macs junto com a sua democracia. E a história oficial do auge dessa ideologia passa por Margaret Thatcher dizendo: “Não há alternativa”, à Francis Fukuyama afirmando que “a história terminou, o capitalismo e a liberdade caminham juntos”.

Portanto, o que procuro fazer nesse livro é contar a mesma história, a conjuntura crucial nos qual essa ideologia entrou com força, mas re-introduzo a violência, re-introduzo os choques e, digo que existe uma relação entre os massacres, entre as crises, entre os grandes choques e os duros golpes contra vários países e a capacidade de imposição de políticas que são rejeitadas pela grande maioria das pessoas desse planeta.

Você fala de Milton Friedman. Qual a relação com a ‘Escola de Chicago’?

A influência de Milton Friedman provém do seu papel como o popularizador real do que é conhecido como a ‘Escola de Chicago’. Ele foi professor na Universidade de Chicago. Estudou na Universidade de Chicago e na seqüência foi professor nessa instituição. O seu mentor foi um dos economistas mais radicais do livre mercado da nossa época, Friedrich Von Hayek que foi professor na Universidade de Chicago.

A Escola de economia de Chicago representa essa contra-revolução contra o Estado de bem estar social. Nos anos cinqüenta, Harvard e Yale e as oito escolas mais prestigiadas dos EUA estavam dominadas por economistas keynesianos, pessoas como John Kenneth Galbraith, que acreditava que depois da grande depressão, era crucial que a economia funcionasse com uma força moderadora do mercado. E foi a partir daí que nasceu um ‘novo contrato’, a do Estado de bem estar social e tudo isso que faz com que o mercado seja menos brutal e se tenha uma espécie de sistema público de saúde, seguro desemprego, assistência social, etc.

A importância do Departamento de Economia da Universidade de Chicago é que realmente ele foi um instrumento de Wall Street, que financiou muito, muito consideravelmente a Universidade de Chicago. Walter Wriston, o chefe do Citibank era muito amigo de Milton Friedman e a Universidade de Chicago se converteu em uma espécie de ponto de partida da contra-revolução contra o keynesianismo e o novo contrato social com o objetivo de desmanchá-lo.

Qual a relação da Escola de Chicago com o Chile?

Depois da eleição de Salvador Allende, a eleição de um socialista democrático, em 1970, houve um complô para derrubá-lo. Nixon disse genialmente: “Que a economia grite”. E o complô teve numerosos elementos, embargos, etc e finalmente o apoio para o golpe de Pinochet em setembro de 1973. Escutamos muito falar nos ‘Chicago Boys’ no Chile, mas não sabemos detalhes sobre o que foram na realidade.

O que faço no livro é contar esse capítulo da história. (...) Em 11 de setembro de 1973, enquanto os tanques rodavam pelas ruas de Santiago e o palácio presidencial ardia e Salvador Allende era morto, um grupo dos assim chamados ‘Chicagos Boys’, assumia o controle da economia. Economistas chilenos que haviam sido levados para a Universidade de Chicago para estudar com bolsas do governo dos EUA como parte de uma estratégia deliberada para orientar a direita latino-americana.

Tratou-se de um programa ideológico financiado pelo governo dos EUA, parte do que o ex-ministro do exterior chama de “um projeto de transferência ideológica deliberada”, ou seja, levar esses estudantes a uma escola distante, na Universidade de Chicago e doutriná-los num tipo de economia que era marginal nos EUA na época e enviá-los de volta para casa como guerreiros ideológicos.

Falemos do choque no sentido da tortura...

Começo o livro estudando dois laboratórios para a doutrina do choque. Como disse anteriormente, considero que há diferentes formas de choque. Um deles é o choque econômico e o outro o choque corporal, os choques nas pessoas. E nem sempre acontecem juntos, mas estiveram presentes em conjunturas cruciais. Assim que um dos laboratórios para essa doutrina foi a Universidade de Chicago nos anos cinqüenta, quando todos esses economistas latino-americanos foram treinados para se converter em terapeutas do choque econômico. Outro – e não se trata de uma espécie de grandiosa conspiração – foi a Universidade McGill nos anos cinqüenta.

A Universidade McGill foi o ponto de partida para os experimentos que a CIA financiou para aprender sobre tortura. Quero dizer, foi chamado ‘controle da mente’ na época ou ‘lavagem cerebral’. Agora compreendemos, graças ao trabalho de gente como Alfred McCoy, que consta em seu programa que o que realmente pesquisavam nos anos cinqüentas sob o programa MK-ULTRA, foram experimentos de eletrochoques extremos, LSD, PCP, extrema privação sensorial, sobrecarga sensorial, tudo isso que vemos hoje utilizados em Guantánamo e Abu Ghraib. Um manual para desfazer personalidades, para a regressão total de personalidades. (...) McGill realizou parte dos seus experimentos fora dos EUA, porque assim considerava melhor a CIA.

Em Montreal?

Sim. McGill em Montreal. Na época então, o chefe de psiquiatria era um individuo chamado Ewen Cameron. Na realidade se tratava de um cidadão estadunidense. Foi anteriormente chefe da Associação de Psiquiatria Estadunidense. Foi para McGill para ser chefe de psiquiatria e para dirigir um hospital chamado de Allan Memorial Hospital, que era um hospital psiquiátrico. Recebeu financiamento da CIA e transformou o Allan Memorial Hospital em um laboratório extraordinário para o que agora consideramos técnicas alternativas de interrogatório. Dopava os seus pacientes com estranhos coquetéis de drogas, como LSD e PCP. Os fazia dormir, uma espécie de estado de coma durante um mês. Colocou alguns dos seus pacientes em uma situação de privação sensorial extrema e a intenção era que perdessem a idéia de espaço e tempo. Ewen Cameron dizia acreditar que a doença mental poderia ser tratada tomando pacientes adultos e reduzindo-os ao estado infantil. (...) Foi esta a idéia que atraiu a atenção da CIA, a de induzir deliberadamente uma regressão extrema.

Você falou do Chile, falemos do Iraque da privatização da guerra no Iraque - O governo iraquiano anulou a licença da companhia de segurança estadunidense Blackwater.

Esta é uma notícia extraordinária. Quero dizer, é a primeira vez que uma dessas firmas mercenárias é realmente considerada responsável. Como escreveu Jeremy Scahill em seu incrível livro ‘Blackwater: The Rise of the [Word´s] Most Powerful Mercenary Army’, o verdadeiro problema é que nunca houve processos. Essas companhias trabalham em uma ‘zona cinzenta’, ou são boy scouts e nada lhes acontecia. (...) Isso significa que se o governo iraquiano realmente expulsar Blackwater do Iraque, poderia ser um fato e tanto para submeter essas companhias à lei e questionar toda premissa de porque até agora se permitiu que se tivesse lugar este nível de privatização e de ilegalidade.

(...) Algo em que eu penso pela pesquisa que eu fiz para o livro No Logo se entrecruza com esta etapa do capitalismo do desastre em que estamos metidos agora. Rumsfeld [ex-Secretário de Defesa de Bush] aproveitou a revolução de percepção das marcas dos anos noventa, na qual a projeção de marcas corporativas – no sentido do que descrevo em No Logo – em que essas companhias deixaram de produzir produtos e anunciaram que já não produziam produtos, mas produziam marcas, produziam imagens e deixam que outros, terceirizados, façam o trabalho sujo de fabricar as coisas. E essa foi a espécie de revolução na sub-contratação e esse foi o paradigma da corporação ‘vazia’.

Rumsfeld se encaixa nessa tradição. E quando se tornou Secretário de Defesa, agiu como age um novo executivo da nova economia que se viu na tarefa de reestruturações radicais. Mas, o que fez foi adotar essa filosofia da revolução no mundo corporativo e aplicá-la à forças-armadas. (...) essencialmente o papel do exército é criar a percepção de marca, é comercializar, é projetar a imagem de força e dominação no globo – porém sub-contratando cada função, da atenção à saúde – administrando a atenção de saúde aos soldados – à construção de bases militares, que já estava acontecendo durante o governo de Clinton, ao papel que Blackwater desempenha e companhias como DynCorp, que como se sabe, destacou Jeremy, participam realmente em combates.

Comente a destruição do Iraque, do ‘Choque e Pavor’, da terapia econômica do choque de Paul Bremer, o choque da tortura, assim como a junção de todas essas coisas no Iraque.

Como já disse, no Chile, vimos esta fórmula do triplo choque. E eu penso que vemos a mesma fórmula do triplo choque no Iraque. Primeiro foi a invasão, a invasão militar de ‘choque e pavor’ – muitas pessoas pensam no tema apenas como se tratasse de um montão de bombas, um montão de mísseis, mas é realmente uma doutrina psicológica que em si é um crime de guerra, porque se diz que na primeira Guerra do Golfo, o objetivo foi atacar a infraestrutura de Sadam, mas sob uma campanha de ‘choque e pavor’, o objetivo é a sociedade em escala maior. È um princípio da doutrina ‘choque e pavor’.

Agora, o ataque de sociedades em escala maior é castigo coletivo, o que constitui crime de guerra. Não é permitido que os exércitos ataquem às sociedades em escala maior, apenas é permitido que ataquem os exércitos. A doutrina é verdadeiramente surpreendente, porque fala de privação sensorial em escala massiva. Fala de cegar, de cortar os sentidos de toda uma população. E o que vimos durante a invasão, o apagão de luzes, o corte de toda a comunicação, o emudecimento dos telefones e logos os saques, que não acredito que façam parte da estratégia, mas imagino que não fazer nada faz parte da estratégia, porque sabemos que houve uma série de advertências que falava em proteger os museus, as bibliotecas e nada se fez. E depois temos a famosa declaração de Donald Rumsfeld quando foi confrontado com este fato: “Essas coisas passam”.

(...) O objetivo, usando a famosa frase do colunista do New York Times, Thomas Friedman, não é o de construir a nação, mas sim “criar a nação”, que é uma idéia extraordinariamente violenta.

Nova Órleans?

Nova Órleans é um exemplo clássico do que eu chamo de doutrina do choque do capitalismo do desastre porque houve um primeiro choque que foi o alagamento da cidade. E como se sabe, não foi um desastre natural. E a grande ironia do caso é que realmente foi um desastre dessa mesma ideologia de que estávamos falando, o abandono sistemático da esfera pública. Eu penso que cada vez mais vamos ver acontecimentos assim. Quando se têm vinte e cinco anos de contínuo abandono da infra-estrutura pública e do esqueleto do Estado – o sistema de transporte, as estradas, os diques. A sociedade de engenheiros civis estadunidense calculou que colocar em condições o esqueleto do Estado custaria 1,5 bilhões de dólares. Portanto, o que temos é uma espécie de tormenta perfeita, na qual o debilitado Estado frágil se entrecruza com um clima cada vez pior, que diria que também faz parte desse mesmo frenesi ideológico em busca de benefícios a curto prazo e crescimento a curto prazo. E quando estes dois entram em coalizão, vem um desastre. É o que ocorreu em Nova Órleans.

O que a mais horrorizou ao pesquisar a doutrina do choque?

Horrorizou-me o fato que se tem por aí muita literatura que eu não sabia que existia e que os economistas a admitem. Uma quantidade de citações de propugnadores da economia de livre-mercado, todos desde Milton Friedman a John Williamson, que é o homem que cunhou a frase ‘Consenso de Washington’, admitindo entre eles, não em público, mas sim entre eles, como em documentos tecnocráticos, que nunca conseguiram impor uma cirurgia radical do livre-mercado se não acontece uma crise em grande escala, ou seja, as mesmas pessoas que propugnam que o mito central da nossa época, que a democracia e o capitalismo caminho juntos, sabe que se trata de uma mentira e o admitem por escrito.


Naomi Klein defende "nova forma de poder"

SYLVIA COLOMBO
da Folha de S.Paulo, em Porto Alegre (01/02/2002 - 09h43)

A ativista canadense Naomi Klein, 31, uma das "estrelas" do Fórum Social Mundial, chegou a Porto Alegre disposta a escutar idéias. "Vim ouvir alternativas. Estou atrás de inspiração", disse.

Com ela, desembarca também a versão em português de seu livro "No Logo" (99), que virou uma espécie de bíblia dos manifestantes antiglobalização. Para compensar o atraso de quase três anos, "Sem Logo - A Tirania das Marcas em um Planeta Vendido" (título em português) chega com um posfácio dedicado ao Brasil.

Klein se diz cansada de responder às mesmas perguntas e diz não ter um manual sobre como quem se opõem à globalização neoliberal deve agir. "É preciso elaborar uma nova concepção de poder". Leia abaixo os principais trechos da entrevista à Folha.

Folha - O que espera encontrar em Porto Alegre neste ano?
Naomi Klein - Inspiração. Se fosse resumir em uma palavra, diria isso. Não busco nenhum tipo de visão unificadora. Acho que Porto Alegre se transformou em um lugar aonde as pessoas vêm para escutar boas idéias que poderiam aplicar em suas casas.

Folha - Desde que lançou "No Logo", a sra. tem defendido que o que se convencionou chamar de "movimento antiglobalização" tem de apontar para soluções fragmentadas. A sra. não acredita que, em algum momento, propostas objetivas tenham de ser apresentadas?
Klein - Sim, temos um paradoxo aqui. Sempre haverá pessoas que querem liderar e, principalmente, pessoas que querem ser lideradas. Acho que os movimentos antiglobalização devem rejeitar a centralização do poder, precisam elaborar uma nova concepção de poder. Daí serem fragmentados. É paradoxal, mas com isso não estou dizendo que não devemos focalizar objetivos; a democratização, uma maior participação da sociedade nas decisões dos governos é um ponto a ser defendido.

Folha - Que lugares do mundo de hoje se aproximam da sua idéia de sociedade ideal?
Klein - Não consigo pensar em países, mas em lugares e situações que estão buscando alternativas. Apontaria Porto Alegre, assim como alguns pontos da Escandinávia. Diria que Veneza também, mas não Itália como um todo. Também não me sinto à vontade para indicar Cuba, apesar de reconhecer que várias boas lições possam ser tiradas de seu exemplo.

Folha - A sra. pensa em escrever "No Logo - Parte 2"? Como seria?
Klein - Não, não quero fazer uma sequência. Mas, se fizesse, não seria algo na linha "isso é o que faremos agora". Gostaria de escrever sobre experiências que vejo pelo mundo, seria o resultado do aprendizado com as alternativas concretas que vejo em viagens.

Folha - Acha que a crise argentina é um exemplo de como o neoliberalismo pode ser prejudicial se levado às últimas consequências?
Klein - Claro. A experiência argentina provou algo que já sabíamos, que até então estava apenas no plano do discurso, mas podia ser pressentido. O terrível é que as pessoas não tenham sido poupadas. Acho que a questão da Argentina precisa ser discutida aqui.

Folha - O que os atentados de 11 de setembro representam para os movimentos antiglobalização?
Klein - É difícil ser descentralizadora de idéias hoje, pois o discurso de defesa da centralização do poder ganhou uma força tremenda após isso. Mas é preciso continuar lutando pela descentralização. Creio que as consequências estão sendo bem negativas e contraditórias. A economia dos EUA depende da liberação de fronteiras, mas o que há é uma crescente militarização dessas fronteiras, por razões de segurança.

Folha - A sra. e Noam Chomsky são as "estrelas" deste evento. Qual sua opinião sobre suas idéias?
Klein - Não concordo com tudo o que ele diz, mas o admiro. O principal é que ele defenda essas idéias no seu país. Deve ser difícil ser Chomsky nos EUA, a batalha dele certamente é dura e solitária.