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quarta-feira, 8 de julho de 2009

América Latina: aprofundamento ou restauração?

04/07/2009

Por Emir Sader

Três acontecimentos simultâneos refletem, em direções distintas, os dilemas latinoamericanos atuais: o golpe em Honduras, a derrota eleitoral dos Kirchner na Argentina e a escolha dos candidatos a presidente para as eleições uruguaias. Os três apontam para o tema da continuidade e aprofundamento dos processos de transformação que estão vivendo grande parte dos países latinoamericanos ou a restauração conservadora, com o retorno da direita aos governos da região.

O golpe em Honduras – que tem possibilidade de ser revertido pela rejeição internacional e pelas mobilizações populares internas – aponta para a tentativa do presidente Zelaya de obter um segundo mandato via referendo, para dar continuidade ao processo recém iniciado de transformações internas na contracorrente do neoliberalismo até então vigente no país. O golpe, por sua vez, dado pela cúpula do Judiciário, das FFAA e do Congresso, expressa a inércia das forças conservadoras que sempre dirigiram a Honduras. Zelaya, filho desgarrado do Partido Liberal que, em rodízio com o Partido Conservador, dirigiram por décadas ao país, de forma praticamente harmônica.

Como sinal dos tempos e da perda de influência norteamericana, especialmente durante o governo Bush, a onda de novos governos no continente chegou à América Central, através da Nicarágua, de Honduras e, mais recentemente, de El Salvador. A direita, comandada pela imprensa oligárquica – similar à que se estende a praticamente todo continente -, se precipitou e pode pagar um preço caro por isso. Zelaya termina seu mandato no fim do ano, já havia afirmado que a consulta informal, caso levasse à introdução da reeleição, não afetaria seu mandato, que terminaria em janeiro de 2010.

Confirmando que se pode tudo com as baionetas, o golpe dificilmente viabilizará o governo que pretende se instalar. Resta saber se Zelaya retornará enfraquecido, cumprindo o final do mandato seu capacidade de iniciativas, abandonando o referendo. Ou se sentirá fortalecido, retomando a consulta e punindo pelo menos alguns dos golpistas. Caso ocorra esta segunda hipótese, o tiro terá saído pela culatra para a direita e Zelaya poderá dar continuidade ao processo de transformações recém iniciado em Honduras. Se a ofensiva fracassa, como havia acontecido com as aquelas contra Hugo Chavez, contra Lula, contra Evo Morales e contra os Kirchner, se consolida a idéia de que o contexto continental impede novos golpes militares, notícia importante para os governos progressistas e, na área, para o recém começado governo de Mauricio Funes em El Salvador, em particular.

A derrota eleitoral do governo Kirchner se dá no marco da contraofensiva da direita, iniciada com a mobilização do campo contra a elevação de impostos, no cenário dos ganhos monstruosos que, especialmente a exportação de soja, permitiu nos últimos anos na Argentina. Aproveitando-se do erro do governo de taxar a grandes, médios e pequenos proprietários de maneira indiferenciada, favorecendo a unificação do campo sob a direção dos grandes exportadores sojeros, a direita conseguiu articular aliança desses setores com a classe média branca de Buenos Aires, colocando o governo na defensiva. As eleições refletem essa mudança na relação de forças entre governo e oposição, com o governo perdendo maioria no Parlamento e condenando a Cristina Kirchner a difíceis 2 anos e meio, alem de alentar a direita para a possibilidade de conseguir derrubar o primeiro dos governos progressistas eleitos na região.

No Uruguai, o candidato que mais diretamente expressa a possibilidade de aprofundamento da superação do modelo herdado por Tabaré Vasquez, é seu ex-ministro da agricultura, Pepe Mujica, ex-dirigente tupamaro, que derrotou o candidato da preferência de Tabaré, o moderado Danilo Astori, ex-ministro da economia. Aqui, sendo favorito para ganhas as presidenciais, Mujica aponta para o aprofundamento das transformações começadas no Uruguai, enquanto na Argentina se aponta para o risco de uma restauração conservadora e em Honduras, depende do desenlace da crise. Trata-se dos mesmos dilemas do Brasil nas eleições presidenciais de 2010.

Fonte: Agência Carta Maior

EDUARDO GALEANO: Desculpem a moléstia


Segundo a revista Foreign Policy, a Somália é o lugar mais perigoso do mundo. Mas quem são os piratas? Os mortos de fome que assaltam navios ou os especuladores de Wall Street, que há anos assaltam o mundo e agora recebem multimilionárias recompensas por suas atividades? Por que o mundo premia os que o saqueiam? Por que a justiça é cega de um único olho? Wal Mart, a empresa mais poderosa de todas, proíbe os sindicatos. McDonald’s, também. Por que estas empresa violam, com delinqüente impunidade, a lei internacional? Eduardo Galeano

Quero compartilhar com vocês algumas perguntas, moscas que zumbem na minha cabeça:

O sapatista do Iraque, o que jogou os sapatos contra Bush, foi condenado a três anos de prisão. Não merecia, na verdade, uma condecoração?

Quem é o terrorista? O sapatista ou o sapateado? Não é culpado de terrorismo o serial killer que, mentindo, inventou a guerra do Iraque, assassinou a um montão de gente, legalizou a tortura e mandou aplicá-la?

São culpados os habitantes de Atenco, no México, ou os indígenas mapuches do Chile, ou os kekchies da Guatemala, ou os camponeses sem terra do Brasil, todos acusados de terrorismo por defenderem seu direito à terra? Se sagrada é a terra, mesmo se a lei não o diga, não são sagrados também os que a defendem?

Segundo a revista Foreign Policy, a Somália é o lugar mais perigoso do mundo. Mas quem são os piratas? Os mortos de fome que assaltam navios ou os especuladores de Wall Street, que há anos assaltam o mundo e agora recebem multimilionárias recompensas por suas atividades?

Porque o mundo premia os que o saqueiam?

Por que a justiça é cega de um único olho? Wal Mart, a empresa mais poderosa de todas, proíbe os sindicatos. McDonald’s, também. Por que estas empresa violam, com delinqüente impunidade, a lei internacional? Será que é por que no mundo do nosso tempo o trabalho vale menos do que o lixo e valem menos ainda os direitos dos trabalhadores?

Quem são os justos e quem são os injustos? Se a justiça internacional realmente existe, por que não julga nunca aos poderosos? Não são presos os autores dos mais ferozes massacres? Será que é porque são eles que têm as chaves das prisões?

Por que são intocáveis as cinco potências que tem direito de veto nas Nações Unidas? Esse direito tem origem divina? Velam pela paz os que fazem o negócio da guerra? É justo que a paz mundial esteja a cargo das cinco potências que são as cinco principais produtoras de armas? Sem desprezar os narcotraficantes, este também não é um caso de “crime organizado”?

Mas não demandam castigo contra os senhores do mundo os clamores dos que exigem, em todos os lugares, a pena de morte. Só faltava isso. Os clamores clamam contra os assassinos que usam navalhas, não contra os que usam mísseis.

E a gente se pergunta: já que esses justiceiros estão tão loucos de vontade de matar, por que não exigem a pena de morte contra a injustiça social? É justo um mundo em que a cada minuto destina três milhões de dólares aos gastos militares, enquanto a cada minuto morrem quinze crianças por fome ou doença curável? Contra quem se arma, até os dentes, a chamada comunidade internacional? Contra a pobreza ou contra os pobres?

Por que os adeptos fervorosos da pena de morte não exigem a pena de morte contra os valores da sociedade de consumo, que cotidianamente atentam contra a segurança pública? Ou por acaso não convida ao crime o bombardeio de publicidade que aturde a milhões e milhões de jovens desempregados ou mal pagos, repetindo para eles dia e noite que ser é ter, ter um automóvel, ter sapatos de marca, ter, ter, e que, quem não tem, não é?

E por que não se implanta a pena de morte contra a pena de morte? O mundo está organizado a serviço da morte. Ou não fabrica a morte a industria militar, que devora a maior parte dos nossos recursos e boa parte das nossas energias? Os senhores do mundo só condenam a violência quando são outros os que a exercem. E este monopólio da violência se traduz em um fato inexplicável para os extraterrestres e também insuportável para os terrestres que ainda queremos, contra toda evidência, sobreviver: os humanos somos os únicos especializados no extermínio mútuo e desenvolvemos uma tecnologia da destruição que está aniquilando, de passagem, ao planeta e a todos os seus habitantes.

Esta tecnologia se alimenta do medo. É o medo que fabrica os inimigos que justificam o desperdício militar e policial. E em vias de implantar a pena de morte, que tal se condenamos à morte o medo? Não seria saudável acabar com essa ditadura universal dos assustadores profissionais? Os semeadores de pânico nos condenam à solidão, nos proíbem a solidariedade: salve-se quem puder, destruam-se uns aos outros, o próximo é sempre um perigo que se aproxima, olho, cuidado, esse cara vai te roubar, aquele vai te violar, este carrinho de nenê esconde bomba muçulmana e se essa mulher te olha, essa vizinha de aspecto inocente, certamente vai te contagiar com a gripe suína.

No mundo de cabeça para baixo, dão medo até os mais elementares atos de justiça e de bom senso. Quando o presidente Evo Morales começou a refundação da Bolívia, para que esse país de maioria indígena, deixasse de ter vergonha de olhar no espelho, provocou pânico. Este desafio era catastrófico do ponto de vista da ordem racista tradicional, que dizia que era a unida ordem possível. Evo era, trazia o caos e a violência e por sua culpa a unidade nacional ia explodir em pedaços. E quando o presidente equatoriano Rafael Correa anunciou que se negava a pagar as dívidas não legítimas, a noticia produziu terror no mundo financeiro e o Equador foi ameaçado com terríveis castigos, por estar dando um tão mau exemplo. Se as ditaduras militares e os políticos ladrões foram sempre mimados pelos bancos internacionais, não nos acostumamos já a aceitar como fatalidade do destino que o povo pague o garrote que o golpeia e a cobiça que o saqueia?

Mas será que se divorciaram para sempre o bom senso e a justiça? Não nasceram para andar juntos, bem pegadinhos, o bom senso e a justiça?
Não é de bom senso, e também de justiça, esse lema das feministas que dizem que se nós, os machos, ficássemos grávidos, o aborto seria livre? Por que não se legaliza o direito ao aborto? Será por que então deixaria de ser o privilegio das mulheres que podem pagá-lo e dos médicos que podem cobrá-lo?

O mesmo acontece com outro escandaloso caso de negação da justiça e do bom senso: por que não se legalizam as drogas? Por acaso não se trata, como no caso do aborto, uma questão de saúde publica? E o país que tem mais drogados, que autoridade moral tem, que autoridade moral tem para condenar os que abastecem sua demanda? E por que os grandes meios de comunicação, tão consagrados à guerra contra o flagelo da droga, não dizem nunca que provém do Afeganistão quase toda a heroína que se consome no mundo? Quem manda no Afeganistão? Não é esse um país ocupado militarmente pelo pais messiânico que se atribui a missão de salvar a todos nós?

Por que não se legalizam as drogas pura e simplesmente? Não será por que elas dão o melhor pretexto para as invasões militares, além de brindar os mais suculentos lucros aos bancos que de noite trabalham como lavanderias?

Agora o mundo está triste porque se vendem menos carros. Uma das conseqüências da crise mundial é a queda da próspera indústria automobilística. Se tivéssemos algum resto de bom senso e um pouquinho de sentido de justiça, não teríamos que celebrar essa boa noticia? Ou por acaso a diminuição de automóveis não é uma boa noticia, do ponto de vista da natureza, que estará um pouquinho menos envenenada e dos pedestres, que morrerão um pouco menos?

Segundo Lewis Carroll, a Rainha explicou a Alice como funciona a justiça no país das maravilhas:

- Ai você tem – disse a Rainha. Está presa cumprindo sua condenação, mas o processo só vai começar na segunda-feira. E, claro, o crime será cometido no final.

Em El Salvador, o arcebispo Oscar Arnulfo Romero comprovou que a justiça, como a serpente, só morde os descalços. Ele morreu baleado, por denunciar que no seu país os descalços nasciam condenados de antemão, pelo delito de nascimento.

O resultado das recentes eleições em El Salvador não é de alguma forma uma homenagem? Uma homenagem ao arcebispo Romero e aos milhares que como ele morreram lutando por uma justiça justa no reino da injustiça?
Às vezes acabam mal as historias da História, mas ela, a História, não acaba. Quando diz adeus, está dizendo até logo.

Tradução: Emir Sader, 10/05/2009 Agência Carta Maior

Racismo e preconceitos de toda a ordem é o que não falta à elite econômica latinoamericana.


Manifestação em 5 de julho de 2009 em Tegucigalpa, Honduras, em apoio ao presidente Manuel Zelaya que tentou retornar ao país, após ter sido deposto por um golpe militar.

Manifestação em 5 de julho de 2009 em Tegucigalpa, Honduras, em apoio ao presidente Manuel Zelaya que tentou retornar ao país, após ter sido deposto por um golpe militar.

Recentemente tivemos o exemplo da turma da Média Luna, Santa Cruz, Bolívia, que não engole ver um presidente de origem indígena governar o país e fazer reforma agrária. O mesmo podemos dizer da elite Venezuelana que se apodera dos meios de comunicação e parece um partido de oposição a bradar todo tipo de agressividade contra Chavez.

No Brasil, não é preciso muito esforço para ver o Willian Bonner, a Fátima Bernardes, o Willian Wack, o Boris Casoy bradarem seus ódios e preconceitos ao presidente nordestino e ex-torneiro mecânico. Na imprensa escrita há tantos exemplos, mas fiquemos com a Folha ditabranda e a incansável Eliane Cantanhede que não suportavam o presidente ‘populista’ da bolsa família, do luz para todos, do Pac e que inventam uma crise por mês para tentar derrubá-lo.

Agora, os golpistas de Honduras aposentaram os pijamas e foram às ruas, depuseram o presidente, passaram fogo na multidão e diante da condenação mundial posam feito pistoleiros.

Domingo Sangrento: 5 de julho de 2009, Tegucigalpa, Honduras. Presidente Manuel Zelaya tenta retomar seu posto e exército golpista atira contra a população.

Domingo Sangrento: 5 de julho de 2009, Tegucigalpa, Honduras. Presidente Manuel Zelaya tenta retomar seu posto e exército golpista atira contra a população.

Destaco a seguir uma nota do jornal chileno El Clarin sobre os absurdos dito pelo títere que ora ocupa o poder salvaguardado por militares que não honram sua farda e são capazes de atirar contra seu próprio povo:

Ese negrito que no sabe nada
Hace unos días, en la televisión nacional, Ortez se despachó en grande, armado de una ironía sin igual, contra los mandatarios que han condenado el golpe: Zapatero a tus zapatos, le dijo al presidente español. Del vecino país El Salvador dijo que ni siquiera valía la pena hablar: Es tan pequeño que ni siquiera se puede jugar futbol porque se sale la pelota. Y, siguiendo los pasos de Vicente Fox, Ortez dijo que Barack Obama es ese negrito que no sabe nada de nada.
Dispuesto a darle lecciones de democracia a Estados Unidos, Ortez siguió de largo: Ellos permiten lo que sea. Ya Estados Unidos no es el defensor de la democracia. En primer lugar, el presidente de la República, que lo respeto, el negrito, no conoce dónde queda Tegucigalpa. Nosotros somos los que conocemos dónde está Washington y somos los obligados como país pequeño, un pigmeo democrático, a aclararles las concepciones y a leerle, tal vez en su idioma, lo que está pasando.

Atirando para matar. Manisfestantes hondurenhos mostram as capsulas de metralhadoras do exército encontradas na região do aeroporto quando as forças armadas golpistas abriram fogo contra a população que esperava o retorno de seu presidente legitimamente eleito Zelaya.

Atirando para matar. Manisfestantes hondurenhos mostram as capsulas de metralhadoras do exército encontradas na região do aeroporto quando as forças armadas golpistas abriram fogo contra a população que esperava o retorno de seu presidente legitimamente eleito Zelaya.

La nueva diplomacia hondureña: “Obama, ese negrito que no sabe nada”

Por Arturo Cano, 07/07/2009

Tegucigalpa.- La condena a los golpistas hondureños ha sido unánime. Presidentes, organismos internacionales, medios de todas partes, han insistido en lo inadmisible del golpe de Estado, entre otras cosas porque significa un retroceso de décadas, la vuelta a un pasado que América Latina daba por enterrado, algo que huele a viejo.

Tan viejo como el avión Electra, pieza de museo que la Fuerza Aérea de Honduras coloca en la pista del aeropuerto de Toncontín para evitar que a Manuel Zelaya se le ocurra tratar de aterrizar de nuevo en esta tierra. Hacia la Segunda Guerra Mundial, el bimotor ya había comenzado a entrar en desuso debido a su escasa capacidad de carga. Los golpistas hondureños le han encontrado una nueva utilidad.

El avión Electra es colocado en la pista, cerca de donde el domingo murió un joven, al tiempo que el gobierno de facto informa que el aeropuerto permanece cerrado dos días más, por razones de seguridad, como se estila en estos casos. Cerrado a la aviación comercial, el aeropuerto se abre para que despegue un jet con seis pasajeros rumbo a Washington, la comisión de buena fe del gobierno golpista para tratar de negociar con la Organización de Estados Americanos y el gobierno estadunidense. Según la prensa local, viajan el ex fiscal general Leónidas Rosa Bautista, el ex canciller Guillermo Pérez-Cadalso y el candidato presidencial del partido Demócrata Cristiano, Felícito Ávila. Quitan el Electra en vano, porque un vocero del Departamento de Estado anuncia que no serán recibidos por nadie (lo que no significa que Estados Unidos no busque contactos informales con los golpistas). Según los medios locales, desde hace unos días se encuentra en Washington Carlos Flores Facussé, ex presidente de la República y acaudalado empresario.

Las horas contadas
A pesar de los temores aeronáuticos del gobierno de facto, Zelaya anda con otros planes que, hasta pasado el mediodía, ni sus seguidores aquí conocen exactamente. Más tarde se enteran de que viajará a Washington y que el martes se encontrará con la secretaria de Estado, Hillary Clinton.
En la víspera de ese viaje, Zelaya concede una entrevista a la cadena CNN: Este régimen tiene las horas contadas, dice, al anunciar que volverá a Honduras en las próximas horas, tras elaborar un plan que garantice que no será asesinado por el gobierno y que los golpistas no volverán a frustrar su intento de ingresar a territorio hondureño.

Ya entrada la noche, dirigentes de la resistencia informan que este martes su marcha de protesta será encabezada por Xiomara Castro, esposa del presidente Zelaya, y otros de sus familiares.

El pajarraco Electra resulta tan vetusto como el lenguaje de Enrique Ortez, canciller del gobierno golpista, quien reconoce que el domingo hubo dos muertos, aunque, sin investigación de por medio, niega que la policía o los militares hayan disparado. No hay ninguna responsabilidad de las fuerzas de seguridad. Claro, se dispararon entre ellos.

A pesar de lo dicho por el canciller, la fiscal de Derechos Humanos del Ministerio Público, Sandra Ponce, dice a la prensa que no hay una segunda víctima fatal confirmada, como se aseguró el domingo, en medio de la confusión. Los dirigentes de la resistencia tampoco confirman un segundo fallecimiento.

Los tropiezos verbales del diplomático de carrera Ortez son antológicos y la comidilla de los antigolpistas. Será por eso que el personaje no forma parte de la comitiva oficiosa que parte a Washington con la idea de explicar al necio mundo la receta para que un golpe asestado por miliares no sea un golpe militar.

Ese negrito que no sabe nada
Hace unos días, en la televisión nacional, Ortez se despachó en grande, armado de una ironía sin igual, contra los mandatarios que han condenado el golpe: Zapatero a tus zapatos, le dijo al presidente español. Del vecino país El Salvador dijo que ni siquiera valía la pena hablar: Es tan pequeño que ni siquiera se puede jugar futbol porque se sale la pelota. Y, siguiendo los pasos de Vicente Fox, Ortez dijo que Barack Obama es ese negrito que no sabe nada de nada.
Dispuesto a darle lecciones de democracia a Estados Unidos, Ortez siguió de largo: Ellos permiten lo que sea. Ya Estados Unidos no es el defensor de la democracia. En primer lugar, el presidente de la República, que lo respeto, el negrito, no conoce dónde queda Tegucigalpa. Nosotros somos los que conocemos dónde está Washington y somos los obligados como país pequeño, un pigmeo democrático, a aclararles las concepciones y a leerle, tal vez en su idioma, lo que está pasando.

07 de julho de 2009: Manifestantes apologistas do golpe que apóiam o presidente títere Roberto Micheletti durante comício em Tegucigalpa, capital de Honduras.

07 de julho de 2009: Manifestantes apologistas do golpe que apóiam o presidente títere Roberto Micheletti durante comício em Tegucigalpa, capital de Honduras.

A los apologistas del golpe, en cambio, se les agota el humor. El Heraldo, diario que los zelayistas consideran vocero del golpe, trata de desmarcarse, en un editorial, de Roberto Micheletti y sus funcionarios. Los llama quienes optaron por la fuerza para poner fin a una crisis política interna, además de reprocharles que la situación ha empeorado de forma exponencial y llamarlos, ante perspectivas tan sombrías, a buscar una salida negociada.

Sin lucha, heredaremos harapos a nuestros hijos
Tras un fin de semana lleno de tensión, la capital de Honduras vive un lunes en calma aparente. Todo mundo está preocupado, pero los centros comerciales lucen llenos de clientes y no es evidente ningún desabasto.
Entre la tarde del domingo y la madrugada del lunes son detenidas más de 800 personas, sólo en Tegucigalpa y zonas aledañas, luego de que el gobierno golpista adelantó el toque de queda debido a los disturbios en el aeropuerto.

07 de julho de 2009, Marcha em Tegugigalpa, capital de Honduras em apoio ao presidente deposto por um golpe militar, Manuel Zelaya,

07 de julho de 2009, Marcha em Tegugigalpa, capital de Honduras em apoio ao presidente deposto por um golpe militar, Manuel Zelaya.

Para fortalecer la vuelta a la normalidad, el presidente Micheletti anunció el domingo la reanudación de clases, suspendidas todas la semana anterior. Pero los sindicatos magisteriales se hallan divididos sobre si volver a laborar o continuar el paro indefinido.

Manifestante pró- Zelaya

Manifestante pró- Zelaya

La Universidad Nacional, por su parte, reinicia labores pero hacia el mediodía los estudiantes antigolpistas la han cerrado de nuevo.

De mañana, sale rumbo a su pueblo el cadáver de Isy Obed Murillo, el joven de 19 años caído el domingo en el aeropuerto. Isy Obed era originario de Santa Cruz de Guayape, en el departamento de Olancho, de donde procede también el presidente Zelaya. Su padre es David Murillo, un pastor evangélico de 57 años, quien al ser entrevistado por la radio nacional dijo que su hijo fue asesinado por un francotirador, y que luego de enterrarlo volverá a la batalla: Si abandonamos la lucha, heredaremos a nuestros hijos sólo harapos.

Domingo Sangrento (05/07/2009) em Tegucigalpa, capital Hondurenha. Jovem é morto a tiros pelo exército golpista que assegura à força o governo títere ,
Domingo Sangrento (05/07/2009) em Tegucigalpa, capital Hondurenha. Isy Obed Murillo é morto a tiros pelo exército golpista que assegura à força o governo títere que tomou o lugar do presidente Zelaya, legitimamente eleito.

Han matado un olanchano, no saben con quién se han metido, dice un hombre en el mitin del día, cerca de la casa presidencial, donde existe una intersección cuya única peculiaridad es que en cada esquina hay un restaurante de comida rápida. Se ha vuelto el lugar de reunión habitual de los antigolpistas, que hoy brindan un minuto de aplausos al joven asesinado por los militares.

, dice un hombre en el mitin del día, cerca de la casa presidencial, donde existe una intersección cuya única peculiaridad es que en cada esquina hay un restaurante de comida rápida. Se ha vuelto el lugar de reunión habitual de los antigolpistas, que hoy brindan un minuto de aplausos al joven asesinado por los militares.Los que mueren por la vida no pueden llamarse muertos, dice al micrófono Salvador Zuniga, dirigente del Consejo Cívico de Organizaciones Populares e Indígenas de Honduras (Copih).

, dice al micrófono Salvador Zuniga, dirigente del Consejo Cívico de Organizaciones Populares e Indígenas de Honduras (Copih).Zuniga hace ver la paradoja de que la oligarquía más atrasada del continente se convierta en la vanguardia de los sectores dispuestos a rechazar, incluso con el poder de las armas, el avance de los gobiernos de izquierda en el continente.

Es un grupo atrasadísimo. ¿A poco no lo muestra que su canciller racista diga que Barack Obama es un negrito del batey?

Fonte das fotos, que aconselho visita: benedictedesrus

domingo, 5 de julho de 2009

E tome banho de lógica! O malabarismo da Folha Ditabranda pra explicar que golpe não é golpe

Extraído do Blog do Luis Nassif
05/07/2009 - 09:54

Da série “ombudsman da Folha sofre (muuuuuito)”

Sobre o golpe em Honduras

Análise

Há uma semana, Honduras tem dois presidentes. Manuel Zelaya está sendo recebido com honras de Estado por todos os países e organismos por onde passa, mas corre o sério risco de ser preso e de provocar uma onda de violência se pisar no seu país. Já Roberto Micheletti é reconhecido por todas as principais instituições hondurenhas, mas é rotulado de golpista fora de suas fronteiras.

O erro imperdoável da deposição de Zelaya é seu formato.

(…) Esse é o paradoxo da deposição, pois interrompeu, de forma atabalhoada, o continuísmo previsto na cartilha de Hugo Chávez, já implantada na Bolívia e no Equador. Consiste em convocar uma Constituinte, introduzir a reeleição, convocar eleições e, claro, ficar no poder além do mandato inicial. Sempre num ambiente polarizado, apoiado no fácil discurso de ricos contra pobres.

A iniciativa, deflagrada nos últimos meses de seu governo, foi considerada ilegal pela Corte Suprema, pelo Ministério Público e pelo Congresso. A Constituição hondurenha, no artigo 374, deixa claro que o período presidencial é um dos artigos que não podem ser modificados. Mas a Carta falha ao não prever um processo de impeachment, o que contribuiu para a atual crise política.

Clique aqui para as matérias.

Comentário do Luis Nassif

Ou seja, o golpe é constitucional, apesar de todos os organismos internacionais o virem como um golpe.

O golpe visou democraticamente - já que com o apoio das instituições - evitar que o presidente deposto atropelasse a Constituição com uma manobra ilegal (o plebiscito do continuismo). Por “democraticamente” se entenda, seguindo o que manda a Constituição. Mas a Constituição não manda depor o presidente. Mas isso se deve a uma falha da Constituição.

E tome banho de lógica.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Honduras: Golpe é golpe, mas a imprensa brasileira quer reiventar a história

Reproduzo aqui um post que fiz hoje pela manhã no Maria_Fro, por pura falta de tempo em reescrever um novo. Mas ressalto que os professores devem trabalhar com todo o cuidado a maneira cínica que a imprensa brasileira está cobrindo o golpe militar ocorrido ontem em Honduras.
Espero que o material selecionado aqui ajudem vocês a trabalhar o evento em sala de aula.
Com mais tempo vou postar aos poucos minhas impressões e projetos depois de ter o prazer de visitar Moçambique e a África do Sul.
Abraços
Conceição Oliveira
********************

O que mais me espantou na cobertura do golpe militar ocorrido ontem em Honduras foi o eufemismo da imprensa brasileira, até ‘eleição de novo presidente’ foi mencionada.

Eu sei que não deveria me espantar já que quando sofremos um golpe militar em 1964 toda a imprensa brasileira louvou a ação dos militares. Sei ainda que esta imprensa é tão inútil, retrógrada e sem nenhuma função social em relação ao jornalismo e à informação que até hoje dá ares de seu autoritarismo referindo-se à violência de um Estado de exceção, que fez uso de torturas, como ”ditabranda”.

Mas mesmo assim me espanto. O mundo todo condenou o golpe em Honduras, até mesmo o governo dos EUA- que sempre teve uma ação dúbia na política latino-americana- conenou o golpe:

“(…) a condenação (ao golpe militar em Honduras) não se circunscreve à esquerda latino-americana, da qual Zelaya se aproximou em busca de mudanças de fundo em seu país. A União Europeia (UE), dominada por conservadores, já condenou o golpe militar. Comunicado divulgado pelos 27 chanceleres da UE classificou a deposição de ”inaceitável violação da ordem constitucional em Honduras”. A UE exigiu ainda a imediata libertação de Zelaya e ”a volta à normalidade constitucional”.
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, também se declarou “profundamente consternado com os informes que chegam de Honduras sobre a detenção e expulsão do presidente Zelaya”. Obama disse que as disputas no país “devem ser resolvidas pacificamente através de diálogo livre de qualquer interferência externa”. (Revista Fórum).

Para ler algo decente sobre o golpe militar visite:

Vermelho. org

Vi o mundo

Biscoito Fino

Telesur

Habla Honduras

Habla Honduras (fotos)

SOA Watch

Al Jazeera (em inglês)

E para não restar dúvidas sobre o que realmente está acontecendo em Honduras, seleciono algumas imagens do dia de ontem:

Fonte Vermelho.org

Fonte Vermelho.org

Miguel Yuste, El Pais. Fonte SOA Watch

Miguel Yuste, El Pais. Fonte SOA Watch

Miguel Yuste, El Pais. Fonte SOA Watch

Miguel Yuste, El Pais. Fonte SOA Watch

Miguel Yuste, El Pais. Fonte SOA Watch.

Miguel Yuste, El Pais. Fonte SOA Watch.

Miguel Yuste, El Pais. Fonte SOA Watch.

Miguel Yuste, El Pais. Fonte SOA Watch.

Miguel Yuste, El Pais. Fonte SOA Watch.

Miguel Yuste, El Pais. Fonte SOA Watch.

Miguel Yuste, El Pais. Fonte SOA Watch.

Miguel Yuste, El Pais. Fonte SOA Watch.

Miguel Yuste, El Pais. Fonte SOA Watch.

Miguel Yuste, El Pais. Fonte SOA Watch.

Fonte: Al Jazeera

Fonte: Al Jazeera

Fonte: Al Jazeera: Bastão de basebol versus tanque.

Fonte: Al Jazeera: Bastão de basebol versus tanque.

Fonte; Al Jazeera

Fonte: Al Jazeera

Vídeo da Al Jazeera (em inglês)





Em relação ao vídeo da BBC, apesar do atenuamento do golpe, reproduzo-o, porque acho que as imagens falam mais que o texto eufêmico da matéria.




quarta-feira, 10 de junho de 2009

No ápice do tráfico, Brasil recebeu 775 mil crianças escravas



Imagem publicada no Illustrated London News em 20 de junho de 1857 - Cortesia da New York Public Library
Crianças escravas aparecem em imagem de 1857 (Cortesia New York Public Library)

Pelo menos 775 mil crianças africanas foram escravizadas e levadas para o Brasil nos primeiros cinqüenta anos do século 19, em um período em que o tráfico negreiro atingiu o ápice de sua sofisticação, indicam dados cruzados a partir de novas informações sobre a era da escravidão.

Crianças foram ganhando a preferência dos traficantes porque, entre outros aspectos, eram mais "maleáveis" que adultos, indicam novas pesquisas publicadas duzentos anos após a lei britânica que proibiu o comércio de escravos.

No fim da era escravagista, um em cada três africanos escravizados era criança, nas estimativas do historiador David Eltis, da Universidade de Emory, em Atlanta, um dos maiores especialistas mundiais no tema.

Segundo Eltis, cerca de 12,5 milhões de escravos deixaram a costa da África entre 1500 e 1867, quando se tem registro do último carregamento. Em torno de 10 milhões chegaram aos seus destinos nas Américas.

Nos cálculos do pesquisador, dos 5,5 milhões de pessoas que tinham como destino o Brasil, apenas 4,9 milhões desembarcaram em portos brasileiros.

'Maleáveis'

Os dados de Eltis indicam que quase 2,3 milhões de escravos foram enviados ao Brasil entre 1800 e 1850 – destes, ele acredita que 775 mil eram crianças.

A alta proporção de menores de 15 anos entre os escravos já era conhecida dos pesquisadores – há estimativas que a colocam em até metade do total –, mas novos dados oferecem novas explicações para este fato.

Um estudo de caso publicado na última edição do Journal of Economic History pelos pesquisadores David Richardson, da Universidade britânica de Hull, e Simon Hogerzeil, do Centro Psicomédico Parnassia holandês, mostrou que crianças reagiam melhor à travessia que os adultos.

Richardson disse à BBC Brasil que, além disso, "no fim da era escrava havia uma percepção geral, por parte dos mercadores, de que as crianças eram mais maleáveis que os adultos, que poderiam ser treinadas em habilidades específicas".

Analisando 49 viagens de navios negreiros holandeses entre 1751 e 1797, os pesquisadores observaram que crianças eram compradas antes, porque reagiam melhor à experiência traumática.

Comparada à de um adulto, sua taxa de mortalidade era a metade, calcularam os pesquisadores.

Rugendas retratou o sofrimento dos negros em Nègres à Fond de Cale - Cortesia da New York Public Library
No fim da era escrava havia uma percepção geral, por parte dos mercadores, de que as crianças eram mais maleáveis que os adultos, que poderiam ser treinadas em habilidades específicas.
David Richardson, historiador

Assim, uma criança tinha mais chance que um adulto de passar longos períodos – até um ano, no caso estudado – dentro de um navio negreiro, entre todas as fases do tráfico.

Antes que o navio zarpasse para a viagem transatlântica propriamente dita, uma criança passava em média quatro meses dentro da embarcação – um prazo mais de 40 dias superior ao passado por homens.

"Em outras palavras, as estratégias de compra dos mercadores expunham crianças a riscos por mais longos períodos de tempo que os adultos", disse Richardson.

Em uma viagem típica, os navios da Middelburgsche Commercie Compagnie, que operava no oeste africano, zarpariam com 253 escravos, perderiam 33 ao longo do trajeto e venderiam 220 nas Américas.

Sobrevivência

As observações dos pesquisadores não eliminam a validade de explicações levantadas anteriormente, que atribuíam a forte escravização de crianças à escassez de adultos em determinadas áreas da África.

Outra razão, levantada em entrevista à BBC Brasil pelo historiador Manolo Florentino, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, destaca que senhores brasileiros podem ter sentido necessidade de "importar" mais mulheres e crianças para garantir mão-de-obra futura caso o tráfico negreiro fosse proibido.

Richardson e Hogerzeil destacaram, no entanto, que as condições de aprisionamento dos homens adultos podem estar relacionadas às taxas de mortalidade menores de crianças.

Os homens, comprados aos poucos durante a "fase de carregamento" do navio, entravam em grande quantidade no final da etapa, a menos de um mês ou até a menos de uma semana da partida, verificaram os pesquisadores.

"As condições dos escravos no momento da embarcação é criticamente importante para determinar por que eles sucumbiam mais durante a travessia", diz o estudo.

"Isto pode estar associado a pressões sobre os capitães para levar homens adultos para satisfazer as expectativas dos compradores, o que os encorajava a ser menos rigorosos na seleção."

"Os homens também eram tipicamente vistos como instigadores de rebeliões dentro dos navios, e sofriam mais fatalidades durante esses incidentes."

"Além disso", justificam os pesquisadores, "os homens eram normalmente encarcerados em celas separadas de mulheres e crianças, e normalmente ficavam presos por ferros, sobretudo quando o navio ainda estava próximo da África".

* BBC- Colaborou Sílvia Salek, de Londres.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Obama sobre Israel-Palestina

Sexta, 5 de junho de 2009, 15h18 Atualizada às 15h26

Noam Chomsky*
Dos Estados Undios

Uma manchete da CNN sobre os planos de Obama para seu discurso no Cairo diz: "Obama quer tocar a alma do mundo muçulmano". Talvez a frase capture sua intenção, mas mais significativo é o conteúdo que a postura retórica oculta - ou, mais precisamente, omite.

No caso Israel-Palestina - o discurso não ofereceu nada relevante sobre outros tópicos - Obama incentivou árabes e israelenses a não "apontar dedos" um para o outro e a não "ver este conflito apenas de um lado ou do outro".

O terceiro lado, no entanto, são os Estados Unidos, que têm tido um papel decisivo na manutenção do conflito. Obama não indicou que o papel dos EUA deva mudar ou mesmo ser reavaliado.

Mais uma vez, Obama elogiou a Iniciativa Árabe de Paz, dizendo que os árabes deveriam considerá-la "um começo importante, mas não um fim para suas responsabilidades". Como a administração de Obama deve ver isso?

Obama e seus conselheiros estão cientes de que a Iniciativa reitera o consenso internacional, de longa data, que demanda o acordo com a criação de dois países na fronteira internacional (antes de junho de 1967), talvez com "pequenas e mútuas modificações", para tomar emprestada a linguagem usada pelo governo dos Estados Unidos. A Iniciativa Árabe de Paz convoca os países árabes a normalizarem as relações com Israel no contexto do consenso internacional.

Obama pediu que os países árabes prossigam com a normalização, ignorando cuidadosamente o crucial acordo político, que é sua pré-condição. A Iniciativa não pode ser um "começo" se os EUA continuarem recusando-se a aceitar seus princípios fundamentais, ou mesmo a reconhecê-los.

O que Israel fará em retribuição ao esforço dos países árabes para normalizar as relações? Até agora, a posição mais enérgica enunciada pela administração Obama é a de que Israel deve cumprir a Fase I do Road Map 2003: "Israel deve paralisar todas as atividades de assentamento (inclusive o crescimento natural de assentamentos)".

Foi desprezado no debate sobre os assentamentos o fato de que mesmo se Israel aceitasse a Fase I, isso deixaria no lugar todo o projeto de assentamento que já foi desenvolvido, com apoio-chave dos EUA. Os assentamentos garantem que Israel tomará a terra de valor dentro do "muro de separação" ilegal (incluindo as fontes primárias de água da região), assim como o Vale do Jordão, aprisionando, assim, os palestinos dentro de um território limitado que, além disso, está sendo dividido em cantões pela invasão de assentamentos/infraestrutura que se estendem muito a leste.

Também não foi mencionado que Israel está tomando a Grande Jerusalém, o local de seus principais programas de desenvolvimento atuais, deslocando muitos árabes, de forma que aquilo que restar aos palestinos será separado do centro de sua vida cultural, econômica e sociopolítica.

E esta atividade de assentamento viola a legislação internacional.

Vale lembrar que houve uma quebra no apoio EUA-Israelense que bloqueou o consenso internacional. O Presidente Clinton reconheceu que os termos que havia oferecido nas reuniões fracassadas em Camp David, em 2000, não eram aceitáveis para nenhum palestino e, em dezembro, ele propôs seus "parâmetros," que avançaram em direção a um possível acordo. Ele então anunciou que ambos os lados tinham aceitado os parâmetros, embora com suas reservas.

Os negociadores israelenses e palestinos se reuniram em Taba, no Egito, para resolver as diferenças, e fizeram um progresso considerável. Em sua última coletiva à imprensa, eles anunciaram que uma resolução total poderia ser alcançada em poucos dias. Contudo, Israel cancelou prematuramente as negociações, que não foram formalmente retomadas.

Esta única exceção indica que se um presidente americano tiver a intenção de tolerar um acordo diplomático significativo, é provável que este seja alcançado.

A administração Bush I foi um pouco além das palavras na objeção a projetos israelenses de assentamentos ilegais, a saber, ao negar-lhes apoio econômico dos EUA. Em contraste, as autoridades da administração Obama afirmaram que tais medidas "não estão sob discussão" e que quaisquer pressões sobre Israel para que cumpra os termos do Road Map serão, "em grande parte, simbólicas", como noticiou o New York Times.

Nos bastidores da viagem ao Oriente Médio está a meta da administração Obama, claramente enunciada pelo Senador John Kerry, Presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado, de forjar uma aliança entre Israel e os países árabes "moderados" contra o Irã. Tal aliança serviria como uma salvaguarda para a dominação dos EUA sobre as regiões vitais de produção de energia.

(O termo "moderado", aliás, nada tem a ver com o caráter do país, mas mostra sua intenção de cumprir as demandas dos EUA).

Os serviços sem paralelo que Israel oferece às agências de inteligência e militares dos EUA, assim como à indústria de alta tecnologia, permitem certa liberdade para desafiar as ordens vindas de Washington - embora com o risco de ofender seu patrocinador. O extremismo do atual governo israelense tem sido controlado por elementos mais sérios.

Caso Israel vá muito longe, na verdade isso poderia irromper uma confrontação da política entre EUA e Israel do tipo que muitos comentadores percebem hoje - até agora, com pouca base factual, no discurso do Cairo ou em outro lugar. A previsão para a política dos EUA na área Israel-Palestina provavelmente apresentará mais do mesmo.


Noam Chomsky é professor emérito de lingüística e filosofia no Instituto de Tecnologia de Massachusetts em Cambridge, Massachusetts. Artigo distribuído pelo The New York Times Syndicate. O texto traduzido foi publicado no portal Terra

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Entenda a riqueza do pré-sal e a importância de garanti-lo para mantermos a soberania nacional

Entrevista com os engenheiros Fernando Siqueira (presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobras- AEPET) e Fernando Metri (ex-ANP e Conselheiro do Clube de Engenharia do Rio de Janeiro). O vídeo é muito didático. Atentem para o artigo 26 da lei de 1997 votada durante o governo do presidente FHC e que entra em choque com a Constituição Brasileira.

Não deixem também de conhecer o twitter
blogpetrobras e o novo blog da Petrobras.

Agradeço a indicação deste vídeo ao meu amigo @direitodopovo.




domingo, 7 de junho de 2009

Uma outra visão sobre o discurso de Obama no Cairo

Mas... e fazemos o quê, do discurso dele?

7/6/2009
por Paul Craig Roberts*

O que fazemos, do discurso de Obama na Universidade do Cairo, no Egito?

Obama disse "Vim ao Cairo em busca de um recomeço, entre os EUA e os muçulmanos de todo o mundo; recomeço baseado em interesse mútuo e mútuo respeito."

Cairo é a capital do Egito, Estado-fantoche dos EUA, cujo governo reprime todas as aspirações dos muçulmanos egípcios e coopera com Israel no bloqueio de Gaza. Ao contrário da Universidade Islâmica de Al-Azhar, a Universidade do Cairo foi criada como universidade laica. A plateia que ouviu Obama na Universidade do Cairo foi plateia secular.

Seja como for, Obama disse palavras surpreendentes que soaram como palavras de esperança para muitos muçulmanos. Disse que o colonialismo e a Guerra Fria negaram direitos e oportunidades aos muçulmanos e resultaram em Estados muçulmanos serem tratados como fantoches, sem atenção às suas aspirações. Disso surgiram "extremistas violentos" que semearam medo e desconfiança entre os mundos ocidental e muçulmano. Falou do Corão, lembrou seu segundo nome e falou de conexões familiares com o Islam. Elogiou as contribuições do Islam para a civilização.

Também declarou sua "responsabilidade como presidente dos EUA, de lutar contra os estereótipos negativos do Islam, onde quer que apareçam.” Reconheceu a "responsabilidade que temos uns com os outros como seres humanos." Reconheceu o direito do Iran "de construir capacidade nuclear para fins pacíficos". Declarou que "nenhum sistema de governo pode ou deve ser imposto por uma nação a outra".

As palavras mais explosivas tiveram a ver com Israel e Palestina: "Os israelenses têm de reconhecer que, assim como não se pode negar o direito à existência de Israel, tampouco se pode negar o direito dos palestinos. Os EUA não aceitam a legitimidade da continuada construção de colônias israelenses."

Obama declarou que "a única solução possível para atender às aspirações dos dois lados é criarem-se dois Estados, nos quais israelenses e palestinos possam viver em paz e em segurança. Atende aos interesses de Israel e atende aos interesses dos palestinos; atende aos interesses dos EUA e atende aos interesses do mundo. Por isso me aplicarei pessoalmente para chegar a esse resultado, com a paciência que a tarefa exige. Os deveres acordados pelas duas partes no "Mapa do Caminho" são claros. Para que se faça a paz, é tempo de eles – e todos nós – fazermos o que é de nossa responsabilidade."

Para que se faça o que Obama se aplicará pessoalmente para que seja feito, Israel terá de devolver a terra roubada na Cisjordânia, derrubar o muro, aceitar o direito de retorno dos refugiados palestinos e libertar o 1,5 milhão de palestinos que vivem confinados no Ghetto de Gaza. Dado que essa é uma coleção de eventos todos altamente improváveis, a "Solução dos Dois Estados" que Obama endossa é solução que teremos de esperar para saber se algum dia acontecerá.

Depois que amainar a atenção eufórica à retórica idealista, Obama será criticado pelas palavras extravagantes que criam expectativas inalcançáveis.

Mas as palavras extravagantes terão sido alguma coisa além de um primeiro ato para engambelar os muçulmanos, para aquietar a Fraternidade Muçulmana no Egito, Estado-fantoche dos EUA, e para fazê-los engolir sem reclamar a agressão dos EUA ao Iraque, ao Afeganistão e ao Paquistão?

Obama prega mudança, mas continua a praticar o que diz que muda; invoca direitos humanos para ganhar a simpatia dos árabes seculares. Admite que o Iraque foi "guerra escolhida", mas que o 11/9 converteu o Afeganistão em guerra necessária.

Obama disse que "os eventos do 11/9" e a responsabilidade da Al Qaeda, não o desejo dos EUA de ter bases militares e de ser hegemônicos, são as razões pelas quais não diminuirá o empenho com que os EUA combatem o extremismo violento no Afeganistão.

Será que os muçulmanos não verão o quanto há de hipocrisia na defesa que Obama fez do extremismo violento dos EUA no Afeganistão e, agora, também no Paquistão?

Al Qaeda, diz Obama, "escolheu matar cruelmente" cerca de 3.000 pessoas no 11/9 "e mesmo hoje reafirma sua determinação para matar em escala massiva." Essas mortes são uma gota, no mar de sangue que as invasões norte-americanas criaram no mundo muçulmano. Mais: a esmagadora maioria dos muçulmanos que os EUA massacraram são civis, como são civis, também, os palestinos massacrados pelos israelenses que massacram com armas norte-americanas.

Contra a Al Qaeda, cujas "ações são irreconciliáveis com os direitos dos seres humanos", Obama invoca a proibição, no Corão, de matar um único inocente.

Obama não vê que as escrituras aplicam-se também aos EUA e à sua "coalizão de 46 países" em armas?

Todas as guerras dos EUA são guerras escolhidas. O mais de um milhão de mortos no Iraque não foram mortos pela Al Qaeda. Nem os quatro milhões de refugiados iraqueanos são refugiados por obra da Al Qaeda. Pois, para Obama, os iraqueanos estão em melhor situação hoje, com o país reduzido a ruínas e um quinto da população extraviada ou morta, porque se livraram de Saddam Hussein, governo secular.

Ninguém conhece o número exato dos mortos e refugiados produzidos pelos EUA no Afeganistão. Apesar disso, disse Obama, "a situação no Afeganistão comprova os objetivos dos EUA e a necessidade de trabalharmos juntos".

Nos 100 primeiros dias de governo, Obama já criou um milhão de refugiados paquistaneses. Israel precisou de 60 anos para criar 3,5 milhões de refugiados palestinos.

O que Obama realmente fez com seu discurso foi aceitar a responsabilidade por implantar a agenda dos neoconservadores, de ampliar a hegemonia ocidental mediante o extermínio dos "extremistas muçulmanos", quer dizer, muçulmanos que querem governar-se eles mesmos, seguindo o Islam como o entendem, não como alguma espécie secularizada e ocidentalizada de falso Islam.

Muçulmanos extremistas são criaturas criadas por décadas de colonização e secularização ocidentalizantes que criaram uma elite que só é muçulmana no nome, para governar povos religiosos e suprimir os saberes islâmicos. Todos os especialistas sabem disso, e a maioria deles saúda o projeto como meio para levar progresso e desenvolvimento ao mundo muçulmano.

Obama disse que "o progresso humano não pode ser negado", mas "não precisa haver contradição entre desenvolvimento e tradição.” Mas é o ocidente quem define desenvolvimento e educação. Essas palavras significam o que nelas lemos, só no ocidente. As mesmas palavras, para os muçulmanos extremistas, significam ameaça de extermínio do Islam.

De modo tipicamente norte-americano, Obama ofereceu dinheiro aos muçulmanos, "desenvolvimento tecnológico" e "centros de excelência científica".

Basta que os muçulmanos cooperem com os EUA e sejam pacíficos... e, então... os EUA respeitarão "a dignidade de todos os seres humanos".


Paul Craig Roberts* foi Secretário-assistente do Tesouro no governo Reagan.
É coautor de The Tyranny of Good Intentions. Recebe e-mails em PaulCraigRoberts@yahoo.com
Texto originalmente publicado em Counterpunch

"E enquanto Obama proclama o nascimento do século 21… o governo de Israel está voltando ao século 19."

Discurso de Obama: o tom e a música*

Por Uri Avnery
6/6/2009

Um homem falou ao mundo, e o mundo ouviu.

Subiu ao palco no Cairo, só, sem quem o recebesse e sem assessores, e pregou um sermão a uma platéia de bilhões. Egípcios e norte-americanos, israelenses e palestinos, judeus e árabes, sunitas e xiitas, coptas e maronitas – e todos o ouviram atentamente.

Desdobrou à frente de todos o mapa de um novo mundo, mundo diferente, sobre cujos valores e leis falou fala simples e clara – uma mistura de idealismo e política prática, visão e pragmatismo.

Barack Hussein Obama – como cuidou de dar-se nome, ele mesmo – é o homem de mais poder em toda a Terra. Cada palavra que diga é um fato político.

“Um discurso histórico", declararam comentadores, em uma centena de idiomas. Prefiro outro adjetivo.

O discurso foi correto.

Cada palavra em seu lugar, cada sentença, precisa; todos os tons em harmonia. A obra-prima de um homem trazendo nova mensagem ao mundo.

Desde a primeira palavra, todos os presentes na Universidade do Cairo e o resto do mundo sentiram a honestidade do homem; que coração e fala estavam em harmonia; que não é político à moda antiga – hipócrita, solene, calculista. A linguagem corporal e suas expressões faciais falavam claras.

Por isso o discurso foi tão importante. Uma nova integridade moral e um novo senso de honestidade aumentaram o impacto do conteúdo revolucionário. E não há dúvidas de que foi discurso revolucionário.

Em 55 minutos, não só varreu os oito anos de George W. Bush, mas também varreu boa parte de décadas anteriores, desde a II Guerra Mundial.

A nave norte-americana mudou de rota – não com o peso e a lentidão que se espera de um cargueiro, mas ágil como lancha a motor.

Isso implica muito mais que uma mudança política. Chega às raízes da consciência nacional norte-americana. O presidente falou a centenas de milhões de cidadãos norte-americanos, tanto quanto a um bilhão de muçulmanos.

A cultura norte-americana carrega o mito do Oeste Selvagem, com seus 'mocinhos' e seus 'bandidos', com justiça pela violência e duelos ao sol do meio-dia. Dado que a nação norte-americana é feita de imigrantes de todo o mundo, sua unidade parece sempre exigir um inimigo ameaçador que venha do mundo exterior – como os nazistas, os japoneses ou os comunistas. Depois do colapso do império soviético, o Islam assumiu o papel.

Cruel, fanático, sedento de sangue, aquele Islam; Islam como religião de morte e destruição; um Islam que quer o sangue de mulheres e crianças. Esse inimigo capturou a imaginação das massas e ofereceu material para a televisão e o cinema. Ofereceu temas para conferências e palestras de professores e letrados e inspiração renovada para autores mais populares. A Casa Branca foi ocupada por um néscio que declarou uma "Guerra ao Terror" em todo o planeta.

Agora, quando Obama destroi pela raiz esse mito, revoluciona a cultura norte-americana. Varre para o lixo o quadro do inimigo único, sem inventar outro inimigo que o substitua. Prega contra a própria atitude de adversário violento e trabalha para substituí-lo por uma cultura de parceria entre nações, civilizações e religiões.

Vejo Obama como o primeiro grande mensageiro do século 21. Filho de uma nova era, na qual a economia é global e toda a humanidade enfrenta risco de não sobreviver no planeta Terra. Uma era na qual a Internet conecta um rapaz na Nova Zelândia e uma moça na Namíbia, em tempo real; quando uma doença que surja numa vila mexicana espalha-se para todo o mundo em poucos dias.

Esse mundo exige uma lei mundial, uma ordem mundial, uma democracia mundial. Por isso o discurso foi realmente histórico: Obama traçou os contornos básicos de uma constituição mundial.

E enquanto Obama proclama o nascimento do século 21… o governo de Israel está voltando ao século 19.

O século 19 foi o século em que os nacionalismos mais estreitos, autocêntricos, agressivos, enraizaram-se em muitos países. Século que santificou a nação beligerante que oprime minorias e subjuga vizinhos. Século que fez nascer o moderno antissemitismo e a reação a ele: o moderno sionismo.

A visão de Obama não é antinacional. Ele fala com orgulho, da sua nação norte-americana. Mas o nacionalismo de Obama é de outro tipo: é nacionalismo inclusivo, multicultural e não-sexista; inclui todos os cidadãos de um país e respeita os demais países.

Esse é o nacionalismo do século 21, que inexoravelmente buscará estruturas supranacionais, regionais e mundiais.

Comparado a isso, como é miserável o mundo mental da direita israelense! Como é miserável o mundo violento, religioso-fanático dos colonizadores dos "assentamentos" – que são "colônias", não são "assentamentos" –, o ghetto chovinista de Netanyahu, Lieberman e Barak, o mundo racista-fascista fechado nele mesmo, de seus aliados Kahanistas!

É preciso entender a dimensão moral e espiritual do discurso de Obama, antes de considerar suas implicações políticas. Obama e Netanyahu estão em rota de colisão, sim, mas não só na esfera política. A colisão que está em processo é colisão entre dois mundos mentais, tão diferentes um do outro como o sol e a lua.

No mundo mental de Obama, não há lugar para a direita israelense, nem para seus equivalentes em outras partes do mundo. Nem para a terminologia da direita, nem para os "valores" da direita, nem, muito menos, para as ações da direita israelense.

Na esfera política, também, há uma ravina aberta a separar os governos de Israel e dos EUA.

Durante os últimos anos, sucessivos governos israelenses surfaram a onda da islamofobia que se espalhou pelo ocidente. O mundo islâmico foi posto como inimigo mortal, os EUA galopavam sombriamente rumo ao Choque de Civilizações; em cada muçulmano viu-se um terrorista potencial.

Os líderes da direita em Israel rejubilaram. Afinal, os palestinos são árabes; os árabes são muçulmanos; os muçulmanos são terroristas – e assim Israel garantia lugar de protagonista na guerra entre os Filhos da Luz contra os Filhos das Sombras.

Foi o Jardim do Éden dos demagogos racistas. Avigdor Lieberman pôde defender a expulsão dos árabes, de Israel; Ellie Yishai pôde propor leis para revogar a cidadania dos não-judeus. Membros obscuros do Parlamento chegaram às manchetes dos jornais, com leis que pareciam paridas em Nuremberg.

Esse Jardim do Éden acabou. As implicações disso apareçam logo, ou demorem mais para aparecer – têm direção óbvia. Se insistir no caminho em que está, Israel será convertida em colônia de leprosos.

O tom faz a música – o que se aplica também às palavras do presidente sobre Israel e Palestina. Falou longamente sobre o Holocausto – palavras sinceras e corajosas, cheias de empatia e compaixão, recebidas em silêncio pelos egípcios, mas com respeito. Destacou o direito de Israel à existência. E, sem pausa, falou sobre o sofrimento dos refugiados palestinos, a situação intolerável em que vivem os palestinos em Gaza, as aspirações dos palestinos, por um Estado deles.

Falou com respeito sobre o Hamás. Não mais uma "organização terrorista", mas parte do povo palestino. Exigiu que reconheçam Israel e parem a violência, mas também deixou claro que considerará bem-vindo um governo palestino de unidade nacional.

A mensagem política foi clara e inequívoca: a Solução dos Dois Estados tem de ser implantada. Obama pessoalmente se empenhará para que aconteça. A construção nas colônias tem de parar. Diferente dos antecessores, Obama não calou e pronunciou a palavra decisiva: "Palestina", nome de um território e de um Estado.

E não menos importante: a guerra do Iran foi excluída da agenda. O diálogo com Teeran, parte do novo mundo, não tem limite de tempo. De agora em diante, que ninguém, nem em sonho, espere algum "OK" dos EUA, para que Israel ataque o Iran.

COMO o governo de Israel respondeu? Primeiro, a reação foi de negação: "foi discurso sem importância". "Nada de novidade". Os comentaristas do establishment israelense selecionaram algumas poucas frases pró-Israel e ignoraram as demais. Afinal, "são só palavras. Ele fala. Nada acontecerá, de diferente."

Isso é nonsense. Palavras do presidente dos EUA jamais são "só palavras". São fatos políticos. Fazem mudar as percepções de centenas de milhões. O público muçulmano ouviu-as atentamente. O público norte-americano, também. É possível que a mensagem precise de algum tempo para reverberar.

Mas, depois desse discurso, o lobby pró-Israel jamais será o que foi antes do discurso. A era dos “foile shtik” (hídiche, "truques sujos") acabou. A desonestidade matreira de um Shimon Peres, o fingimento traiçoeiro de um Ehud Olmert, a conversa falsa de um Bibi Netanyahu – tudo isso é passado.

O povo de Israel, agora, tem de decidir: ou segue o governo de direita até a inevitável colisão com Washington – como os judeus fizeram há 1940 anos, quando seguiram os zelotes em guerra suicida contra Roma –, ou juntam-se à marcha de Obama rumo a um novo mundo.

* URI AVNERY, 6/6/2009, originalmente publicado em "The Tone and the Music", Gush Shalom [Grupo da Paz], Telavive.