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terça-feira, 6 de janeiro de 2009

O povo judeu é uma invenção?

 "Não sou um escritor, sou historiador. E este não é simplesmente um livro de história, mas um livro que desconstrói a história. Tinha medo de publicar, mas sei que vivo numa sociedade muito liberal e pluralista. Na verdade, a maior parte das evidências e provas no livro já é conhecida. Eu não descobri nada novo, só organizei de forma diferente o conhecimento já produzido sobre as origens de Israel."

Entrevista: Shlomo Sand
Historiador da Universidade de Tel Aviv. Nascido na Áustria, filho de judeus poloneses sobreviventes do Holocausto, é doutor em ciência política e especialista em teorias do nacionalismo

Por: Glória Paiva
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Para historiador de Tel Aviv, reinos de Davi e Salomão não existiram e origem étnica é diversa

Há 20 semanas, um livro de história supera romances e obras de auto-ajuda, figurando entre os mais vendidos nas livrarias israelenses. Seu autor, Shlomo Sand, não esperava tamanho sucesso e tampouco a tradução de seu trabalho para seis línguas. "When and how was the Jewish People Invented?" (Como e quando o povo de Israel foi inventado?, ainda sem tradução para o português) trouxe uma brisa de ar fresco aos empoeirados tratados sobre a história de Israel, além de uma boa dose de polêmica.


A obra de Sand reúne evidências arqueológicas, notas geográficas e históricas e os mais diversos registros para embasar sua teoria: de que a história de Israel como a conhecemos é uma invenção do século XIX. Para Sand, não existe um povo judeu com origens, língua e passado em comum, mas uma profusão, em diferentes épocas e países, de conversões ao judaísmo e migrações proselitistas.


O autor nega a existência dos dois exílios judaicos (no século V a.C. e em 70 d.C.), atestando que os romanos jamais exilaram um povo, e alega que não há provas sobre os reinos de Davi e Salomão. "O sionismo mudou a idéia de Jerusalém. Antes, os lugares sagrados só serviam para serem adorados, e não para viver neles. Por 2.000 anos, os judeus ficaram longe de Jerusalém não porque os romanos os impediam, mas porque sua religião proibia isso até a vinda do messias."


Sand também critica a ausência de menções, na historiografia judaica, ao reino dos cazares, povo turcomano que ocupou a atual Rússia entre os séculos VII e X e se converteu massivamente ao judaísmo. O historiador explica que esta foi a gênese de uma grande população judaica falante de iídiche da Europa central e oriental. A controvérsia se completa quando Sand atesta que os palestinos da atual Cisjordânia são descendentes diretos dos judeus daquela região, convertidos ao islamismo na ocupação muçulmana. Abaixo, confira aa entrevista concedida por Sand ao jornal O TEMPO.

O TEMPO - Você se surpreendeu que seu livro esteve por 19 semanas entre os best-sellers de Israel?


Shlomo Sand - Na França o livro também virou best-seller. Foram vendidos 8.000 exemplares. Em Israel, fiquei surpreso sim, porque sei que não se trata de um livro fácil. Infelizmente não sou um escritor, mas um historiador. E este não é simplesmente um livro de história, mas um livro que desconstrói a história, em sua estrutura e em seu tema. Tinha medo de publicar, para ser sincero, porque em Israel nunca vimos um livro assim. Mas sei que vivo numa sociedade que possui uma cultura muito liberal, tolerante e pluralista - apesar de não ser uma democracia. Digo isso porque - e é justamente o cerne do meu livro - o nacionalismo de Israel não é religioso, como muitos pensam, mas etnocêntrico. Acho que as pessoas que constru­ram o Estado de Israel estavam muito distantes da religião. A religião foi instrumentalizada para que as fronteiras e a nação em si fossem criadas. Depois, não conseguiram se libertar das definições religiosas. Uma democracia não pode ser construí­da dessa maneira.



Quem você acredita serem seus leitores?

Acho que os jovens estão bem interessados no meu trabalho. Israel é composto de muitos grupos. Jerusalém é completamente diferente de Tel Aviv. Acho que a maior parte dos meus leitores está em Tel Aviv, que é um lugar menos etnocêntrico, mais aberto ao futuro.



Você se sente solitário em sua tese? Foi o primeiro ou único a defendê-la?

Não gosto da palavra complicado, mas sei que o livro não é fácil, como já disse. Mas a maior parte das evidências e provas no livro já é conhecida e os historiadores profissionais sabem disso. Eu não descobri nada novo, só organizei de forma diferente o conhecimento que já foi produzido até aqui, sobre as origens de Israel. Acho que foi uma evolução, porém, organizar essas provas históricas de uma nova maneira. Eu coloquei isso na capa. Em nosso pa­ís, a educação histórica da sociedade é usada pelo poder, para criar o conceito de nação de Israel. A organização do conhecimento é uma ferramenta.



Como foi seu trabalho de pesquisa?

Eu peguei evidências de 15 anos de pesquisas. É um novo livro, mas uma história antiga. Em alguns pontos, joguei uma nova luz. Como historiador, fui muito solitário, porque antes de mim apenas cientistas pol­ticos trataram o tema da origem de Israel dessa maneira, não historiadores. Os historiadores são muito conservadores por aqui. Utilizei obras de geógrafos, cientistas pol­ticos, arqueólogos. Eles estão mais abertos a essa teoria. Para você ter uma idéia, nas universidades de Israel temos um departamento de história e um departamento de história judaica. Eles dividiram essas áreas, e eu pertenço ao departamento generalista. Isso está errado, você percebe? Na sociologia, por exemplo, não existe essa divisão.



Onde você achou provas para a sua teoria?

Em livros de história antiga, no Talmude, livros latinos, historiadores árabes. Em muita coisa do século XI. Também busquei estudos de acadêmicos da área de sociologia e ciência pol­tica, e eles me ajudaram em muitos pontos. Na arqueologia encontrei algumas novidades, todas descobertas dos últimos 20 anos. Tirei delas muitas conclusões e, sem elas, não teria coragem de escrever o livro.



Você diz que a interpretação da história judaica conhecida atualmente vem de historiadores do século XIX. Existiu um processo de criação dessa história?

Na segunda metade do século XIX, eles começaram a pensar em Israel como nação. Na primeira metade, não se pensava nisso ainda. Foi uma invenção, sim. E eles - os antigos historiadores - tiveram êxito em criar uma história para a nação. Eles foram obrigados a criar um passado comum que unisse o povo judeu. Processos semelhantes acontecem em todo o mundo, no Brasil, inclusive. Uma das condições ao se criar uma nação é inventar uma história linear. É uma forma de ser coerente, porque geralmente a origem de um povo é plural. A idéia de nacionalismo implica criar algo coerente para as pessoas pensarem que têm a mesma origem. Mas ninguém queria tocar na questão judaica. As pessoas têm medo, mas é meu dever dizer o que considero verdade. Eu mesmo sou israelense e quero saber dessa verdade.



Como o sr. disse, o processo de criação na história é comum em muitas nações. O que houve de peculiar no caso de Israel?

A peculiaridade é que precisávamos crer que estávamos lá há muito mais tempo que os palestinos. Os ideais nacionalistas de Israel precisavam criar uma idéia de que lá era um refúgio, um lugar para onde os judeus pudessem voltar. A visão do passado histórico judeu precisava se conectar com a história bí­blica. O passado era importante para justificar a colonização dessa terra. Foi preciso brigar para colonizar a Palestina. Mais que em outros pa­íses, talvez.



Você acha que houve um esforço coletivo para encobrir a história judaica verdadeira?

Vamos colocar dessa maneira: o judaí­smo é uma religião. Essa presença da religião foi importante, mas isso não significa que o povo judeu existe como um povo, que descende do mesmo etnos. Existiu, no passado. Uma nação é uma nação quando tem em comum a lí­ngua, o passado, os hábitos culturais. Os judeus não têm isso. A única coisa em comum é a religião. Por isso me pergunto porquê o nosso povo se chama de nação. A origem de um grupo judeu que veio da Ucrânia é completamente diferente de uma famí­lia judaica que tem origem no Marrocos. Isso é tão claro. Muitos judeus querem acreditar que são especiais, mas não são. O conceito de nacionalismo aqui está errado: Israel é tido como um Estado de judeus, e não de israelenses. E eu ainda acho que essa definição vai destruir Israel. Um Estado que se baseia no etnos, e não no demos, tende a desaparecer. Israel não pode continuar sendo um Estado de refugiados judeus que sofrem por serem judeus. Tenho alunos judeus e palestinos que falam hebraico melhor que eu. Assim deveria ser pensado o Estado de Israel.



Você defende a tese de que o povo judeu não viveu os dois êxodos e não tem a mesma origem étnica. Isso é uma teoria nova?

A maioria dos historiadores aqui, mesmo os sionistas em sua visão de mundo, sabe disso - que os dois ex­lios não existiram. Não há livros sobre o êxodo. Nenhum. Mas há uma tese, dos anos 1920, de Yitzhak Ben Zvi, que seria presidente de Israel, que diz que os camponeses palestinos de hoje são descendentes dos antigos judeus que habitavam a região chamada Judáia. Por isso lhe digo: o livro não é simples. Mas posso te garantir uma coisa: ele é contra o anti-semitismo e contra o racismo.



Você defende a solução dos dois Estados para o conflito da região?

Sim. Eu não sou contra a existência de Israel. Sou contra a existência de um Israel etnocêntrico. Temos que ter dois Estados: um dos israelenses e outro dos palestinos. Não de judeus e muçulmanos. Eu me defino, politicamente, como um liberal.



Como você sentiu a reação ao seu livro, entre colegas israelenses?

Acredito que muitos ficaram chocados. Porque quebrei todos os limites da história judaica contada até hoje. Fui atacado por alguns historiadores, mas não me lembro de ter visto uma oposição verdadeira, com argumentos, à minha tese. As pessoas adoraram e odiaram, recebi milhares de cartas.

Bizarrice

"Não há nada de novo", afirma crítico de Sand

O mais impressionante, sobre o fenômeno de vendas literárias Shlomo Sand, foi o silêncio sepulcral sobre a sua obra - com exceção de um único historiador israelense, Israel Bartal, PhD e autor de vários livros sobre o tema, da Universidade Hebraica de Jerusalém.


"Não vi, no livro de Sand, nada de novo. Minha resposta a Sand é que nenhum historiador judaico jamais acreditou que a origem dos judeus é étnica e biologicamente pura. Ele nega a existência de posições centrais entre os historiadores judeus", ataca.

Segundo o crítico, nenhum especialista em história judaica "tentou esconder o impacto das conversões ao judaísmo no período antigo e no início da Idade Média." "Apesar de o mito do exílio existir na cultura popular, discussões sérias entre os historiadores não o levam em conta", observa.

De acordo com Bartal, os argumentos de Sand sobre a lacuna, na historiografia oficial, de informações acerca do reino dos cazares, são infundados. "O desejo de Sand de que Israel se torne um Estado que represente todos os cidadãos é válido, mas a maneira pela qual ele tenta conectar a plataforma política atual com a história do povo de Israel é bizarra e incoerente." (GP)

Publicado originalmente em: O tempo
A formatação é da Tita, de onde reproduzi o post

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Rumo a uma nova Nakba? O gueto de Gaza contado por aqueles que estão presos nele


A carta que publicamos aqui - datada o 22 de janeiro de 2008 – permite conhecer desde dentro a situação de desamparo em que se encontrava a população de Gaza presa nesta angustiosa prisão «cuja chave Israel jogou no mar» (*), quando ainda não tinha caído o muro da vergonha de Rafah.

31 de Janeiro de 2008

« Nos têm asfixiados e sofremos atrozmente. Três mil mulheres e crianças foram hoje até a fronteira egípcia a suplicar aos guardiãos que deixem os doentes passar pro Egito. Os militares egípcios os atacaram, bateram neles com os cacetetes, os rociaram com água e gases lacrimogêneos.

Como você sabe, Gaza está completamente presa. É uma situação indescritível. Há doentes e feridos que morrem por falta de medicinas. Não há gasolina nem diesel. As provisões que Israel autorizou em 21 de janeiro são insuficientes; não dá para fazer voltar a funcionar a bomba da central elétrica.

Precisamos de ajuda urgentemente. Não temos comida nem medicinas nem reservas de água. As lojas de alimentação estão vazias. Cortaram a eletricidade. Estamos economizando o gás que resta no botijão.

Tudo depende da eletricidade e, por tanto, do diesel. A água só sai da torneira com eletricidade. Como Israel nos priva de diesel, não há eletricidade nem água potável.

Desde faz muito tempo já não funciona o abastecimento de água nem a evacuação de águas residuais, que dependem da rede elétrica. Se as coisas não mudarem, de hoje para amanhã, vamos afundar. Acabou a reserva de água. Iremos à casa do vizinho e o vizinho estará na mesma situação que nós.

Sem diesel para que funcionem os geradores, todas as estações de filtrado estão mortas. Desde que Israel a bombardeou em 2006, a central elétrica só funciona com o mínimo de sua capacidade. Mas agora estamos secos. Se nada acontecer nas próximas horas vamos morrer de sede.

Refugiados palestinos, Líbano 1948 (UNRWA)

Acreditamos que Israel tem um plano preciso, que faz tudo isto para que derrubemos as portas, para ver como fugimos para o Egito. É sua maneira de se desfazer de nós.

Agora somos absolutamente conscientes que cortando a nossa água e os víveres Israel quer é nos estrangular. Como não pode nos massacrar a todos de golpe, nos corta os víveres e a água. Assim, eles acreditam que acabaremos por fugir em massa empurrados pela fome e a sede. A isso é que os israelenses chamam de transferência.

Tem jovens que pensam em ir embora para sempre se abrirem a fronteira. Ir onde for para fugir deste inferno.

Eu não irei embora. Fugir para encontrar-nos estacionados eternamente em lixões, como nossos irmãos que desde faz 60 anos estão estacionados nos campos de refugiados do Líbano? Não! Olhe os refugiados no Líbano e a Jordânia! O que se faz para tirá-los de onde estão presos?

Aqui ainda nos sentimos em casa, inclusive sob as bombas. Este é um sentimento essencial. Porque embora aqui, em Gaza, vivamos no inferno, ainda temos conseguido salvaguardar a nossa dignidade.

Pedimos aos jornalistas que vêm a Gaza que se comportem como seres humanos, que parem de ocultar a verdade ao mundo, quanto Israel nos faz sofrer.

Aqui há um povo que está morrendo de fome, de sede, de doenças, de miséria. Este povo pede pouco: que se reconheça o sofrimento e a injustiça que sofre, que se diga a verdade mostrando as imagens atrozes que falam por si mesmas. Senão, quem acreditará no que dizemos?

Somos seres humanos, não somos «terroristas».

Temos os mesmos direitos que os cidadãos de seus países. Pedimos aos meios de comunicação que parem de ocultar à opinião pública o fato de que Israel endurece cada vez mais seus castigos e de que nos esteja matando de fome e de sede porque votamos em Hamas em vez de Al Fatah.

Estamos estrangulados pelo bloqueio, economicamente; estamos estrangulados humanamente; estamos estrangulados em todos os sentidos pelos israelenses. Mas façam o que fizerem e por mais que nos esmaguem e nos encerrem, o único que conseguirão é fazer com que a nossa resistência aumente.

Agindo dessa forma cruel, os israelenses não conseguirão nunca que cesse o lançamento de foguetes. Cada uma das ações punitivas de Israel provocará uma reação da nossa parte.

Quando se acurrala um gato, ele se converte em leão.

O bloqueio que estamos sofrendo não começou em 17 de janeiro como dizem os meios de comunicação. Sofremos o bloqueio israelense desde faz dos anos. Nossa situação ficou ainda mais difícil porque também estamos submetidos ás sanções econômicas da União Européia.

O que piorou a nossa sorte é que agora estamos presos hermeticamente. Esperamos um milagre.

Sempre estamos divididos entre a esperança e o desespero. Às vezes nos desespera a idéia de que Israel nunca se verá obrigado a nos devolver a nossa liberdade; às vezes temos a esperança de ver que as portas se abrem.

Neste momento vemos que nossos vizinhos árabes começaram a se manifestar e fazer chamamentos a seus governos para que reajam. Ao mesmo tempo, sabemos que os dirigentes árabes só farão declarações para salvar a cara.

Como você sabe, Mubarak se associou com Israel para manter fechado o passo a Egito. Que podemos esperar de um Mubarak que, hoje, enviou soldados de reforços para que disparem contra as mães que foram [à fronteira] a pedir que deixem sair os doentes e feridos, que não se podem curar em Gaza e a quem espera uma morte segura?

Êxodo de palestinos de Gazaa para o Egito, 23/01/2008

Israel quer nos fazer desaparecer. Mas não o conseguirá nunca. Nunca. Embora consiga matar-nos a todos nos privando de água e comida, outros palestinos da Cisjordânia e do mundo lutarão para que Gaza siga existindo.

Creio que os vier depois de nós se vingarão destes colonizadores israelenses que nos acurralam em nossa terra. Façam o que fizerem nunca conseguirão se desfazer de nós, os palestinos nativos.»

Post scriptum.

Este relato, sóbrio embora preciso, é capital. Quando foi escrito seu autor ignorava que os palestinos estavam abrindo no muro uma brecha que permitiria a toda esta população cativa e faminta procurar provisões como último recurso no Egito. Mas era plenamente consciente de este espantoso dado, ou seja, de que lhes cortando a água e os víveres, Israel queria levá-los ao pior: o êxodo. Ou seja, acabar a «transferência».

Os palestinos sempre lembram como depois de ter massacrado os habitantes do povo de Deir Yassin em 1948 os grupos terroristas judaicos provocaram um pânico geral que teve como conseqüência o desarraigo de 900.000 palestinos aterrorizados que fugiram para salvar a vida, o que permitiu aos colonos israelitas instalar-se nas terras árabes e criar nelas o estado de Israel.

Foi uma expulsão planejada metodicamente, uma «limpeza étnica», à que Israel chamou de «transferência» voluntária. E para encanar melhor ao mundo, fingiu que foram os dirigentes árabes os que deram a ordem para que os palestinos fugissem.

Hoje se repete o mesmo cenário. Como em 1948, a propaganda das autoridades israelenses, repetida por muitos cronistas no mundo, deixa entender que foram os dirigentes palestinos (de Hamas) os que organizaram um «golpe de força» que fez o muro cair [em Rafah] e que saísse uma maré humana para o Egito; em outras palavras, voltam a atribuir a dirigentes palestinos a responsabilidade de um êxodo que, na realidade, foi provocado por umas condições intoleráveis impostas por Israel [1].

Desde finais de novembro de 2007 as forças de ocupação militar israelenses multiplicaram os atos de terror contra a população de Gaza, por terra, mar e are, que deixaram quase a diário uns cinqüenta feridos e dezenas de mortos. Este terror se incrementou mais ainda pela proibição de entrada tanto de abastecimento como dos caminhões que transportam medicinas, e a proibição de deixar sair os feridos graves para que recebam tratamento no Egito.

Para a população de Gaza não existe a menor dúvida de que, como em 1948, se trata de um processo deliberado e calculado destinado a empurrar as pessoas à loucura; e de que Israel está executando a mesma política que em 1948; de que se trata fazê-los morrer de fome, de usar a força militar e técnicas de guerra psicológica para criar um forte sentimento de medo, esperando que sob o efeito do pânico e do estrês, à menor apertura, as pessoas se precipitariam para fora de Gaza.

Israel fez o que fez e agora vai manipular as coisas para lavar-se as mãos. Altos cargos israelenses já declararam que abastecer Gaza é assunto do Egito.

O objetivo das estratégias israelenses é conseguir que uma vez que se empurre ao Egito aos nativos de Gaza, já não sejam considerados palestinos e que os refugiados que têm direito a retornar a suas terras das foram expulsos por primeira vez em 1948 se estabeleçam também no Egito e se somem aos milhões de refugiados que apodrecem nos campos de refugiados da Jordânia, a Síria e o Líbano.

Existem importantes motivos para crer que o calvário de Gaza só está começando.

[1] Para os comentaristas que apóiam a postura do ocupante israelense, se trata de deixar entender que são os dirigentes de Hamas os que empurraram os habitantes de Gaza a partir, como o ilustram estas palavras:

«A idéia brilhante que encontraram os dirigentes de Hamas em Gaza foi a de se fazer levar até a fronteira egípcia para fraternizar aí com o exército, para abrir a fronteira e para dar assim a sensação de que a liberação vinha do sul. Esta operação se efetuou da mão do amo; obviamente, dadas as restrições às que estava submetida, a população se emprestou a isso com entusiasmo; mas se tratava de uma operação mandada, organizada pela a direção do partido [Hamas]».


E este comentário demonstra que Israel tem interesse no êxodo de Gaza:

« … Por temor a uma fraternização total entre o exército egípcio e os manifestantes palestinos, o governo de Cairo cedeu, abriu sua fronteira; talvez se abrirá de forma permanente o que fará que pese sobre o Egito a responsabilidade de abastecer o enclave; em última instância, os israelenses o desejariam… ».
Para ler toda a argumentação deste propagandista, acesse aqui.

Silvia Cattori

(*) «Gaza é uma prisão» em que Israel encerrou os palestinos e depois «jogou a chave no mar» é uma imagem utilizada por John Dugard, professor de direito.

Traduzido do francês para espanhol por Beatriz Morales Bastos.

Versão em português: Tali Feld Gleiser de América Latina Palavra Viva.

O artigo original (francês) encontra-se aqui.

Esta versão aqui publicada foi reproduzida do blog da jornalista suiça


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E aqui um relato do dia 04/01/2009



Rami Almeghari*, da Faixa de Gaza ocupada, Palestina, 4/1/2009


Prossegue pelo oitavo dia o incansável bombardeio de Israel na Faixa de Gaza. Pelo Skype, Rami Almeghari, correspondente da Electronic Intifada, conta como segue a vida, no início da noite de domingo, em Gaza:

Minha família é da vila de Karatiya, a poucos quilômetros da Faixa de Gaza, em território hoje ocupado por Israel. Karatiya é uma das 450 cidades da Palestina história que sofreu limpeza étnica das milícias sionistas em 1948. Minha família, como centenas de milhares de outras famílias palestinenses, perdeu tudo.

Moro hoje no campo de refugiados de Maghazi, na Faixa de Gaza, que nesse momento está sob bombardeio dos tanques de Israel, na linha da fronteira, pelos F-16s fabricados nos EUA, pelo ar, e pelo mar. Ontem, o exército de Israel entrou na Faixa de Gaza e há combates na parte norte da Faixa e a leste da cidade de Gaza.

Acabo de ligar o computador, porque agora há eletricidade aqui. Passamos sem luz quase todo o dia. Tento usar o gerador, mas o combustível está no fim. Logo sairei do ar; é terrível, para uma jornalista não ter meios para escrever.

Onde estou não ouço sinal de combates, pelo menos até agora. Os jornalistas não conseguem obter informação, porque é perigoso demais e tudo é proibido.

Há notícias de muitos mortos e feridos no norte da Faixa. A imprensa israelense comunicou a morte de um soldado. Há resistência, mais do que se diz que os israelenses esperavam. O governo do Hamás, afinal, vive sob ataque há já quase dois anos e meio.

Na região leste de Gaza houve combates em Shajaiyeh, a leste da cidade de Gaza. O exército parece ter mesmo dividido a cidade em duas áreas, como testemunhas confirmaram. Os tanques avançaram mais rapidamente hoje, que ontem, e parece que há tantes na colônia israelense de Netzarim, ao sul. Cai a noite e a luta continua. (...)

Uma casa foi destruída no ataque dos aviões em al-Tuffah, perto da cidade de Gaza. Hoje, Israel bombardeou o mercado popular de Firaz, perto do prédio da prefeitura da cidade de Gaza.

Há notícias de que os israelenses estariam usando armas ou munição radioativa. Os médicos e os paramédicos falam de queimaduras, abrasões e fraturas nos feridos e nos mortos que são condizentes com esse tipo de munição cujo uso é expressamente proibido pelas leis e convenções internacionais.

Saí um pouco hoje cedo, para tentar comprar alguma coisa e falar com alguém – o mesmo que todos estão tentando fazer por aqui. As estradas principais estão quase completamente desertas, nem carros nem pessoas. Todos ficam em casa, assustados. Só se sai, mesmo, em caso de emergência.

Meus vizinhos estão calmos. De fato, não há para onde ir nem o que fazer. Mas não vejo sinais de pânico nem de desespero. O que se ouve é que ninguém pensa em fugir ou em abandonar as casas, e que ficaremos onde estamos, mesmo que Israel chegue e destrua tudo. As pessoas que moram aqui são refugiados que perderam suas casas há 60 anos e estão passando por uma experiência que conhecem bem. Sabem que Israel preferiria que eles não existissem, e que espera que todos se mudem espontaneamente para o Egito ou para a Jordânia. Os refugiados sabem disso e já aprenderam que ficar onde estão é um modo de resistir.

Uma das minhas vizinhas disse que mesmo que Gaza seja destruída completamente, há milhões de palestinenses que continuarão a lutar contra a ocupação. Não digo isso para parecer emocional ou sentimental. Ouço isso por toda parte. Todos estão assustados, têm medo de morrer, mas pensam também como grupo, como povo. Parece mentira, mas é verdade.

Muitos tiveram notícias de que há manifestações em todo o mundo. Que se fala mais da Palestina hoje, do que das outras vezes. Todos confiam em que haja luz no fim desse túnel. Ao mesmo tempo, todos falam mal dos políticos e dos governantes que ouvem falar na televisão. Sentem-se ofendidos.

*Rami Almeghari colabora para a Electronic Intifada, IMEMC.org, para a Free Speech Radio News e é professora adjunta de Mídia e Tradução Política na Universidade Islâmica em Gaza.

Foi tradutora-chefe de inglês e editora-chefe do Centro Internacional de Imprensa do Serviço Palestinense de Informações, em Gaza.

Recebe e-mails em rami_almeghari@hotmail.com .

domingo, 4 de janeiro de 2009

Cenas de protestos de judeus ortodoxos no mundo contra o Estado sionista de Israel

Repare bem, você tem visto cenas como esta na imprensa brasileira? Possivelmente não, mas no mundo todo os judeus não sionistas (como o resto da humanidade) condenam o Estado Sionista de Israel e ocupam as ruas para condenar e protestar contra o massacre em Gaza.

Em junho do ano passado eles também sairam às ruas para protestar contra as celebrações dos 60 anos do Estado de Israel. Para os judeus ortodoxos o Estado de Israel é ilegal e imoral, a Torá e o Talmud condenam a formação de um estado judeu, assim como reconhece o direito dos palestinos de viverem em sua própria terra.


As fotos a seguir mostram-nos (como inúmeros textos de lideranças judias que publicamos aqui), que a resistência dos judeus não sionistas no mundo todo contra as inúmeras violências de Israel também é cotidiana.


Observação: todas as imagens foram recolhidas de
Neturei Karta International: Judeus Unidos contra o sionismo


Judeus ortodoxos anti-sionistas de Jerusalém reúnem-se com lideranças árabes em protesto contra a demolição de lares palestinos, 28 de julho de 2008

O que será que a imprensa brasileira diria se um palestino ou qualquer outro que não fosse judeu portasse um cartaz com esta mensagem? Certamente seria acusado de anti-semita. Será que é por isso que não vemos essas demonstrações na imprensa? Jerusalém, 28 de julho de 2008. O cartaz prega o fim do Estado de Israel o fim da brutalidade sionista de árabes e judeus!

O cartaz convoca as organizações de direitos humanos para intervir imediatamente e socorrer os irmãos palestinos do cativeiro dos sionistas. Protesto com a demolição de lares palestinos em Jerusalém, 28 de julho de 2008.
O cartaz afirma: sionistas não são judeus!

22 de setembro em Nova York: apelo ao presidente iraniano que respeito o judaísmo e condene o sionismo.

Este cartaz radicaliza, segundo os judeus ortodoxos de Nova York a solução para a paz é o desmantelamento do Estado de Israel. Atentem que sempre usam Israel entre aspas, numa clara demonstração que este não é um Estado legítimo para os judeus.

Em Toronto, Canadá, os judeus ortodoxos condenam o Estado de Israel denominando-o de assassino e ladrão, que a formação deste estado é um desastre contra a humanidade; o outro cartaz afirma que o judaísmo rejeita o Estado Sionista de Israel e suas atrocidades.

Em Durban, África do Sul, rabino explica para uma platéia a diferença entre judaísmo e sionismo condenando o segundo e afirmando que os sionistas não são judeus.

O protesto em Durban foi ecumênico lideranças religiosas judias e muçulmanas discursaram conjuntamente mostrando que é uma falácia que essas religiões não podem conviver pacificamente.

Vários rabinos ortodoxos condenam o uso que os sionistas fazem do Holocausto para justificarem suas atrocidades contra os palestinos e acusarem todos que condenam as ações de Israel como anti-semitas. A manchete em espanhol afirma: O Estado de Israel explora o holocausto.


Dia 29 de dezembro 2008, na Trafalgar square, em Londres, judeus seguram a bandeira da Palestina e afirmam nos cartazes que Israel é um Estado de terror.

Londres: os judeus autênticos não celebram os 60 anos da criação do Estado de Israel ao contrário, para eles são 60 anos de ocupação/invasão sionista da terra sagrada.


Lembrem-se da vergonha de Israel: isolamento dos palestinos que tornam crianças inocentes prisoneiras, fazem de Gaza a maior prisão a céu aberto.

Nova York, 28 de dezembro de 2008: Israel não tem o direito de falar pelos judeus


Em Nova York, 28/12/2008, ao lado do mapa da Palestina (pintado com as cores da bandeira Palestina) hoje Estado de Israel, o cartaz afirma que judeus autênticos jamais reconhecem a legitimidade do Estado de Israel.

Também em Nova Iork o cartaz afirma: Judaimos e sionismos são extremos opostos.

Nova York: o cartaz afirma que é mandamento da Torá que os palestinos tenham direito a autodeterminação de seu povo, governo, terra e país.

Nova York: Estado de israel não representa o mundo judaico

Nova York: Nós somos contra o Estado de Israel, porque nós somos judeus

Nova York: Palestinos e judeus são povos irmãos

Manifestação em Washington DC: um dos cartazes diz: Leiam o Taldmud, segundo suas leis os judeus são proibidos de criarem um Estado próprio

Por que Israel faz guerra em Gaza? Ninguém sabe.

The Observer, domingo, 4/1/2009

por Chris McGreal, de Jerusalém

É uma guerra em dois fronts. Há meses, enquanto Israel começava a preparar-se para desencadear mais uma onda de desgraça sobre Gaza, o governo reconheceu que seu principal objetivo era destruir a "infra-estrutura do terror" do Hamás (o que incluiria postos de polícia, casas, escolas e mesquitas).

Ao mesmo tempo, Israel preparou também uma operação paralela, que considerou necessária para persuadir o mundo de que sua causa seria justa, mesmo que não conseguissem esconder as pilhas de cadáveres de mulheres e crianças palestinenses nos necrotérios e pelas ruas. A campanha de persuação seria indispensável para garantir que a guerra não fosse mostrada como guerra de ocupação, mas como alguma espécie de luta do ocidente contra o terror vindo do oriente – e como meio para intimidar o Iran.

Depois do fracasso de Israel, na tentativa de invadir o Líbano em 2006 – que não foi apenas fracasso militar, mas também foi fracasso político e militar –, o governo de Telavive trabalhou durante meses, em Israel e em todo o mundo, na preparação do assalto a Gaza. O lobby operou em silêncio mas muito ativamente: governos estrangeiros, diplomatas, todos foram mobilizados, sobretudo na Europa e em parte do mundo árabe.

Estabeleceu-se uma rígida pauta de temas para influenciar a mídia – operação que, como se vê foi bastante bem-sucedida. E quando o ataque começou, há uma semana, uma legião de diplomatas, grupos de lobby, blogueiros e outras organizações de apoio aos israelenses foi acionada para martelar a opinião pública. O objetivo era fazer os israelenses aparecerem como vítimas, mesmo depois de terem assassinado 430 palestinenses só na primeira semana de violência, um terço, no mínimo, dos quais civis ou policiais e agentes de segurança palestinenses.

O brutal assalto a Gaza, com um bombardeamento a cada 20 minutos, não fez parar a reação do Hamás, cujos foguetes de fabricação caseira já mataram quatro israelenses e já alcançam distâncias maiores do que antes no território de Israel, e têm feito fugir dezenas de milhares de pessoas. Ontem, Israel invadiu a fronteira de Gaza por terra. E a operação diplomática prossegue, para justificar a matança de inocentes – com sucesso quase certo.

Dan Gillerman, embaixador de Israel na ONU até há poucos meses, foi encarregado pelo ministério dos Negócios Estrangeiros da campanha de "Public Relations". Disse que o trabalho de campo, diplomático e político, está sendo organizado há meses.

"Tudo foi planejado com muita antecedência", disse ele. "Eu fui encarregado pela ministra dos Negócios Estrangeiros para coordenar os esforços de Israel e nunca vi estrutura tão complexa como essa (não se sabe se se referia ao ministério dos Negócios Estrangeiros, ao ministério da Defesa, ao gabinete do primeiro-ministro, à segurança interna ou ao exército israelenses) operar tão coordenadamente, de modo tão eficaz, para divulgar a nossa mensagem."

Em comunicados feitos simultaneamente em Jerusalém, em Londres, em Bruxelas e em Nova York, todos repetiram a mesma fala: que Israel não teve escolha senão responder com fogo ao fogo dos rojões do Hamás; que o ataque seguinte seria contra "a infra-estrutura do terror" em Gaza e visaria diretamente aos combatentes do Hamás; que havia risco de atingir civis mas, isso, porque o Hamás usa "escudos humanos" e os "terroristas e seus depósitos de armamento" são ocultados nas cidades, entre a população.

Assim, passo a passo, avançou a estratégia para apagar o tema da ocupação. Israel retirou-se oficialmente de Gaza em 2005, quando saíram colonos e soldados, disseram os israelenses. Ali estaria a oportunidade para implantar as bases de um Estado Palestino... mas os palestinenses optaram por atacar Israel.

Israel descreve o Hamás como parte do "eixo do mal" dos fundamentalistas islâmicos, com o Iran e o Hizbóllah. As ações do Hamás, dizem os israelenses, nada têm a ver com a ocupação da Cisjordânia, o bloqueio de Gaza, ou o assassinato, por Israel e grande número de palestinenses, mesmo depois da retirada. "Israel é parte do mundo livre e combate o extremismo e o terrorismo. O Hamás não." – nas palavras da ministra dos Negócios Estrangeiros e líder do partido Kadima, Tzipi Livni, ao chegar à França, em mais um movimento da estratégia de propaganda da semana passada.

Mais cedo, na mesma semana, Livni requentou a estratégia e a retórica da guerra ao terror de George W Bush: "quem não está conosco está contra nós. "Hoje, cada indivíduo na Região e no mundo tem de escolher um lado. E os lados mudaram. Hoje, já não se trata de Israel de um lado e os árabes de outro", disse ela. "Israel escolheu seu lado no dia em que o Estado foi fundado; o povo judeu escolheu seu lado ao longo de milhares de anos de história; e em todas as sinagogas do mundo reza-se pela paz, hoje."

É mensagem que visa diretamente aos governos árabes aliados de Israel, como o Egito e a Síria, que vêem com hostilidade o Hamás. "Parte significativa do mundo árabe e muçulmano sabe que o Hamás representa ameaça maior, contra todos, do que Israel. O extremismo, o fundamentalismo ameaçam todos nós", disse Gillerman. "Vimos o efeito disso em várias respostas, no que declararam oficialmente o presidente Mubarak (do Egito) e o presidente Abbas (da Palestina) e outras autoridades árabes. Essa solidariedade dos árabres a Israel é sem precedentes."

De fato, o ministro do Exterior do Egito, Ahmed Aboul Gheit, disse que seu governo sabia exatamente o que viria: "Há, pelo menos há três meses, sinais claros de que Israel atacaria as forças do Hamás em Gaza. Infelizmente, o Hamás errou e ofereceu, de bandeja, a chance que Israel esperava."

Seja tudo isso verdade ou mentira, também é crucialmente importante o que ninguém disse. Já há meses, sim, Livni vem falando de exterminar o Hamás, mas dizia que o Hamás não seria considerado justificativa suficiente, para que a comunidade internacional aceitasse o ataque e a invasão de Gaza. Por isso se fala tanto, hoje, sobre ter tentado o cessar-fogo, que o Hamás teria "desrespeitado". Vez ou outra, alguém, alguém vacila, e a verdade aparece. Há poucos dias, com o assalto a Gaza já em andamento, Gabriela Shalev, embaixadora de Israel na ONU, disse que "a ação prosseguirá, até o Hamás ter sido completamente destroçado". Furiosos, vários funcionários israelenses em Jerusalem fizeram-na saber que declarações como aquela poriam a perder todo o esforço diplomático.

Nas primeiras horas depois de iniciado o massacre, Israel repetiu sempre as mesmas mensagens para a "comunidade internacional". Livni e o ministro da Defesa, do partido Labour, Ehud Barak, foram vistos infinitas vezes, em praticamente todos os noticiários internacionais de televisão. O comando dos serviços de informação e jornalismo do governo isralense insistentemente chamou a atenção da mídia internacional para os 8.500 rojões disparados de Gaza contra Israel em oito anos e para os 20 israelenses civis mortos – muito mais do que para o bloqueio de castigo coletivo contra Gaza [que configura crime de guerra] e para os 1.700 palestinenses mortos nos ataques do exército de Israel desde que colonos judeus foram evacuados de Gaza há três anos.

Grupos de lobby ativos na mídia, como o Bicom (British Israel Communications and Research Centre, Centro de Comunicações e Pesquisa Britânico-Israelense) em Londres, e o IPA (Israel Project in America, Projeto Israel na América) foram mobilizados. Distribuíram briefings, organizaram conferências de imprensa e entrevistas. O exército de Israel distribuiu imagens de vídeo pelo YouTube. Em Nova York, diplomatas israelenses montaram uma "teleconferência entre cidadãos e jornalistas", de duas horas, no Twitter, e reuniram milhares de pessoas. Simultaneamente, sem qualquer divulgação, Israel fechou todas as vias de acesso para Gaza e Cisjordânia. De fato, nenhum jornalista independente, até hoje, conseguiu aproximar-se o suficiente para investigar os resultados da estratégia de propaganda de Israel.

Livni chegou a sugerir que a chacina seria boa para os palestinenses, porque os ajudaria a libertar-se das garras do Hamás. "Ela está tentando me convencer de que o que estou vendo aqui está sendo feito para o meu bem", disse Diana Buttu, advogada da OLP e negociadora que participou dos encontros que levaram à retiradas dos israelenses de Gaza, em 2005. "Ouvi o mesmo argumento, repetido por amigos israelenses: 'Vocês deveriam ser gratos, por nós estarmos destruindo o Hamás. O Hamás é problema também para vocês.' Disse a eles o mesmo que digo aqui: não preciso que Israel diga a mim o que é bom ou ruim para mim. E é claro que o massacre que todos vemos acontecer não pode ser bom para ninguém."

E quando o massacre começou, Israel rapidamente divulgou entrevistas e releases de imprensa, em que se dizia que a grande maioria dos mais de 400 mortos seriam combatentes do Hamás e que os prédios destruídos seriam parte da "infra-estrutura do terror". Fato é que um terço dos assassinados por Israel eram policiais. A força policial (guardas-de-trânsito, por exemplo) em Gaza é dirigida pelo Hamás, mas, disse Buttu, é evidentemente mentira que sejam terroristas ou que o Hamás seja organização terrorista.

"Há policiais em Gaza, como em qualquer lugar do mundo. Trabalham no controle da ordem interna, no combate ao tráfico de drogas e como guardas-de-trânsito. Claro que não são combatentes do Hamás. 70 policiais foram mortos no mesmo local: durante a cerimônia de formatura. Claro que não eram guerrilheiros. Israel está matando qualquer pessoa que trabalhe para o governo do Hamás, funcionários públicos, portanto. Não há limites, nessa loucura: estão matando pessoas pelo crime de terem votado nos candidatos do Hamás, em eleições legais e legítimas", concluiu.

Assim também, enquanto Israel acusa o Hamás por estar pondo em risco a vida de civis, porque esconderiam a infra-estrutura do poder em casas 'comuns', os mísseis estão destruindo prédios administrativos, estações policiais, uma universidade.

Israel diz que o Hamás abandonou as negociações para um cessar-fogo em junho, e que Telavive desejava que prosseguissem. "Israel é quem mais deseja o fim da violência. Não procuramos a violência. Mas não tivemos escolha. O Hamás violou o cessar-fogo", disse Livni.

Também não parece ser verdade. Muitos especialistas dizem que o cessar-fogo começou a ser desrespeitado em novembto, quando militares israelenses assassinaram seis combatentes do Hamás, em Gaza. Muitos observaram também que a ação aconteceu no dia das eleições nos EUA, quando praticamente ninguém, no mundo, soube do que acontecia em Gaza. O Hamás respondeu com uma onda de rojões. Mais seis palestinenses morreram na semana seguinte, nos ataques de retaliação dos israelenses.

"Jamais pararam de atacar Gaza militarmente, por terra e pelo ar, durante toda a vigência do cessar-fogo", disse Buttu. Nem suspenderam a matança de palestinenses. Durante os já quase três anos de governo legítimo do Hamás, e sem contar a chacina a que assistimos hoje, Israel matou mais de 1.300 pessoas em Gaza e na Cisjordânia. Embora muitos fossem ativistas do Hamás – e centenas de palestinenses também foram mortos por palestinenses, nas lutas entre o Hamás e o Fatah –, há um número inadmissível de assassinatos de civis.

O Centro Palestinense para Defesa e Promoção dos Direitos Humanos diz que uma, de cada quatro vítimas, tem menos de 18 anos. Entre junho de 2007 e junho de 2008, os ataques pelo exército de Israel mataram 68 crianças palestinenses em Gaza. Outras 12 foram mortas na Cisjordânia.

[...] Durante o cessar-fogo, morreram em Gaza, como resultado direto de ataques israelenses, 22 pessoas, entre as quais duas crianças e uma mulher.

Talvez o fator crucial para explicar o colapso do cessar-fogo sejam ideias diferentes sobre os objetivos do cessar-fogo. Para Israel, seria oferecer paz em troca de paz, sem alterar as demais condições vigentes na Região. Para o Hamás, o cessar-fogo deveria levar ao fim do bloqueio de Gaza, o qual, para Israel, seria medida de segurança contra os ataques com rojões Qassam.

Mas Israel não levantou o bloqueio que destruía a economia e implicava falta de alimentos, de combustível e de remédios. Em Gaza, todos concluíram que o bloqueio nada tinha a ver com os rojões caseiros do Hamás e que era, sim, um castigo coletivo que Israel aplicava a todos que votaram no Hamás.

Argumento central, sempre repetido, na mensagem dos israelenses é que, quando da retirada dos soldados e dos colonos judeus, há 3 anos, deram a Gaza a oportunidade para organizar-se e prosperar. "Para criar condições de esperança, retiramos nossos soldados e nossos colonos. Em vez de converter-se em núcelo de um Estado Palestino, o Hamás impôs lá um regime islâmico extremista", disse Livni. Os oficiais israelenses dizem o que Hamás, e, por extensão, seus eleitores, só estão interessados em assassinar e odiar judeus e que não lhe interessa construir seu país.

Os palestinos têm opinião diferente. Buttu diz que desde o dia em que Israel retirou-se de Gaza, tudo passou a ser feito para impedir qualquer progresso econômico. "Quando os israelenses se retiraram, esperávamos que pudéssemos ter algum tipo de vida, que pudéssemos, pelo menos, nos deslocar. Esperávamos que se abrissem as passagens de fronteira. Nunca imaginamos que, em seguida, estaríamos reduzidos a ter de implorar por comida", diz ela.

Buttu observa que mesmo antes de o Hamás ter sido eleito, há três anos, os israelenses já bloqueavam o acesso a Gaza e as saídas de Gaza. Os palestinenses tiveram de apelar à secretária-de-Estado dos EUA, Condoleezza Rice, e ao presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn, para que pressionassem Israel para que admitissem que alguns poucos caminhões com suprimentos entrassem diariamente em Gaza. Israel primeiro concordou, depois suspendeu tudo. "Tudo isso foi antes de o Hamás ser eleito. Tudo o que Israel diz é mentira. Se já não houvesse evidente política de bloqueio, porque teria sido preciso recorrer a Rice e Wolfensohn, para que os produtos chegassem a Gaza?" perguntou Buttu.

Yossi Alpher, ex-oficial do serviço secreto, Mossad, e ex-conselheiro assessor do então primeiro-ministro, Ehud Barak, nas conversações de paz, diz que o bloqueio de Gaza é estratégia fracassada e que mais contribuiu para fortalecer do que para abalar o Hamás. "Por mais difícil que seja provar que o bloqueio foi prejudicial aos interesses de Israel, não há dúvidas de que não ajudou em nada. Parece-me que trouxe mais danos que vantagens. O bloqueio é punição coletiva, provoca sofrimento imenso. Não induziu qualquer atitude favorável a Israel entre os palestinenses. Nada justifica o bloqueio. Por que mantê-lo?" pergunta. "Acho que houve quem pensasse que, se matássemos os palestinenses de fome, eles derrubariam o Hamás e poriam fim àqueles rojões. É insistir em repetir, eternamente, as mesmas políticas fracassadas."

Publicado em inglês em: The Guardian tradução de Caia Fittipaldi.

A DIFERENÇA ENTRE JUDAÍSMO E SIONISMO

O cartaz ao centro, ao usar o termo sovereignty, reconhece o direito exclusivo de todo palestino de controlar por ele mesmo o seu governo, o seu povo, a sua terra, o seu país.

Este texto é dedicado a todos aqueles que pensam, ingenuamente ou não, que as críticas a Israel são demonstrações de anti-semitismo. É uma primorosa tradução feita por Márcio Alves de Lima. Neste texto algumas das perguntas que muito se fazem têm as devidas respostas e serve para mostrar que o Estado de Israel não é um tema unânime entre os judeus. O seu autor G. Neuburger, é como ele mesmo confessa, um velho combatante da causa judia contra o sionismo.
Quando a Torá fala sobre a criação do primeiro ser humano, Rashi, conhecido comentarista, explica que a terra que formou Adão não foi tirada de um único lugar e sim de várias partes do planeta. Assim, a dignidade humana não depende do lugar onde se tenha nascido nem está limitada a uma única região.
(Pedro Ayres)

Por G. Neuburger (tradução de Márcio Alves de Lima) O original em inglês encontra no site Jews not Zionists.org

A grandeza e o mérito de uma pessoa não são medidos por sua aparência externa. Os judeus acreditam que Adão foi criado à imagem de Deus e que ele é o ancestral comum de toda a humanidade. Nesta etapa da história humana, não há espaço para povos privilegiados que possam agir em relação aos outros como bem entendem. A vida humana é sagrada e os direitos humanos não podem ser negados por aqueles que os distorcem em nome da "segurança nacional" ou de qualquer outra coisa. Ninguém sabe disso melhor do que os judeus, que, por tantas vezes e por tanto tempo, foram considerados cidadãos de segunda classe. No entanto, alguns sionistas divergem quanto a isso e é compreensível porque judaísmo e sionismo em hipótese alguma são a mesma coisa. Na verdade, eles são incompatíveis. Se uma pessoa é um bom judeu, não pode ser um sionista e se for um sionista não pode ser um bom judeu.

Por mais de 60 anos lutei contra o sionismo, assim como o fez meu pai antes de mim e, por essa razão, esta é uma questão bem familiar para mim. Para aqueles que acompanharam esta luta nos últimos 10 ou 20 anos, o que tenho a dizer pode parecer surpreendente ou mesmo chocante. No entanto, essas questões precisam ser discutidas clara e abertamente porque o sionismo é uma doença que só pode ser curada quando diagnosticada corretamente. A fim de reconhecermos o sionismo pelo que ele é, precisamos conhecer o judaísmo, o sionismo - o oposto e a negação do judaísmo - e a história judaica. Não pretendo discorrer sobre as ações dos sionistas, elas serão adequadamente tratadas pelos outros. Como judeu, pretendo discutir o sionismo, que é a revolta contra Deus e a traição do povo judeu.

Para começar, algumas definições. O que é um judeu? É qualquer pessoa que tenha a mãe judia ou que tenha se convertido ao judaísmo, de acordo com Halacha, a lei religiosa judaica. Esta definição, por si só, exclui o racismo. O judaísmo não procura os convertidos, mas aqueles que se convertem são aceitos com base na igualdade. Como é que isso se dá? Alguns dos mais eminentes e respeitados rabinos eram convertidos ao judaísmo. Os pais judeus em todo o mundo abençoam suas crianças todo Sabbath e feriados e o fazem da mesma forma há séculos. Se for menina, a bênção é "Que Deus a abençoe como Sara, Rebeca, Raquel e Léa." Nenhuma dessas matriarcas eram judias de nascimento, todas eram convertidas ao judaísmo. Se for menino, a bênção é "Que Deus o faça como Efraim e Menashe". A mãe desses dois era uma egípcia que se converteu ao judaísmo e se casou com José. O próprio Moisés, o maior judeu que já existiu, casou-se com uma medianita que se tornou judia. Finalmente, o Tenach, escritos sagrados dos judeus, contêm o livro de Ruth. Esta mulher não só não era judia de nascimento como era uma moabita, tribo tradicional inimiga do povo judeu. Este livro descreve a conversão de Ruth ao judaísmo e é lido anualmente no feriado que comemora a entrega da Torá, a "Lei", isto é, o Pentateuco. Por fim, o livro de Ruth segue a ascendência do rei David, o maior dos reis que os judeus já tiveram, até Ruth, sua bisavó.
28 de dezembro, 2008: Judeus ortodoxos anti-sionistas reuniram 1500 pessoas em Nova York para marchar em protesto contra o bombardeamento e o massacre em Gaza. Fonte: Anti-Zionist Orthodox Jews USA
Afora os sionistas, os únicos que consideraram os judeus como uma raça foram os nazistas. E isto só prova a estupidez e irracionalidade do racismo. Não havia meios de se provar que uma sra. Muller ou uma sra. Meyer eram judias ou arianas (termo nazista para os alemães não judeus). A única forma de definir se uma pessoa era judia era investigar a filiação religiosa de seus pais ou avós. Muito, para esse absurdo racial.

O orgulho racial foi a ruína daqueles judeus do passado que estavam enceguecidos por um estreito chauvinismo. Chegamos a uma segunda definição. Existe um povo judeu? Se afirmativo, qual é sua missão? Vamos esclarecer isto. A nação judaica nasceu no Monte Sinai, quando os judeus adotaram a Torá dada a eles por Deus para as gerações futuras, e não por obra de alguns políticos sionistas de uma geração anterior à atual. A afirmação "Hoje vocês se tornaram um povo", embora seja válida até hoje, foi dita há milhares de anos atrás.

De acordo com a tradição judaica, existem sete leis Noachide que se aplicam a todos os seres humanos. São os Dez Mandamentos que formam a regra básica de moralidade e conduta para os adeptos de todas as religiões monoteístas; além desses, existem 613 leis obrigatórias para os judeus e cada judeu tem que observar aquilo que se aplica a ele ou ela, de acordo com Halacha. É o cumprimento daqueles mandamentos que constitui a essência de ser judeu e, portanto, do povo judeu e de seu pacto com Deus.

De que forma os judeus são um "povo escolhido"? Todo judeu homem de qualquer lugar e de qualquer época quando chamado para ler a Torá diz "Quem nos escolheu de todos os povos e nos concedeu Sua Torá". Esta é a forma pela qual os judeus são escolhidos. O povo judeu foi escolhido não para dominar os outros, nem conquistar ou guerrear, mas pra servir a Deus e, por consequência, servir à humanidade. "E as mãos são as mãos de Esaú", tradicionalmente tem sido interpretado como significando que, enquanto "a voz é de Jacó", as mãos - simbolizando violência - são de Esaú" Assim, a violência física não é uma tradição ou valor dos judeus. A tarefa pela qual o povo judeu foi escolhido não é estabelecer um exemplo de superioridade militar ou de conquistas técnicas e sim buscar a perfeição no comportamento moral e na pureza espiritual. De todos os crimes do sionismo político, o pior e mais básico, e que explica todos os seus delitos, é que desde o seu começo o sionismo busca separar o povo judeu de seu Deus, tornando nulo e sem efeito o pacto divino e substituindo os elevados ideais do povo judeu por um estado "moderno" e uma soberania fradulenta.

Um meio de desencaminhar judeus e também os não judeus é o mau uso sionista dos nomes e símbolos sagrados do judaísmo. Eles usam o santo nome de Israel para seu estado sionista. Denominaram o seu fundo de aquisição de terra com um termo que tradicionalmente significa a recompensa pela piedade, boas ações e trabalho caritativo. Eles adotaram como um símbolo do estado o menorah (candelabro). Quanta hipocrisia, quanta perversão que é o exército israelense lutar sob um emblema, cujo significado é explicado no Tenach (por ocasião de um retorno anterior à Terra Santa) como "não pela força ou poder, mas em Meu Espírito diz o Senhor dos Exércitos."

Anti-sionistas

O infame fundador do sionismo político, que seu nome seja amaldiçoado, que só foi descobrir suas próprias origens judaicas por causa do anti-semitismo mostrado no julgamento do caso Dreyfus, na França, apresentou várias soluções para o que ele chamava de "problema judaico". De uma vez, ele propôs reassentar os judeus em Uganda. De outra ele propôs convertê-los ao catolicismo. Finalmente ele teve a idéia de um Judenstaat, um estado exclusivamente judeu. Assim, nos seus primórdios, o sionismo foi a consequência do anti-semitismo e, na verdade, é inteiramente compatível com esta idéia, porque os sionistas e anti-semitas tinham (e têm) uma meta comum. Trazer todos os judeus de seus lugares de origem para o estado sionista, extirpando as comunidades judaicas que existiam há centenas e até há milhares de anos. A lealdade ao estado sionista substituiu a lealdade a Deus e o estado foi transformado no moderno "bezerro de ouro".

Aos olhos do sionismo, a crença na Torá e o cumprimento das obrigações religiosas são questões privadas e não uma responsabilidade de cada judeu e do povo judeu. Os sionistas sujeitaram a lei divina ao partido ou votos parlamentares e estabeleceram seus próprios padrões de conduta e ética.

Nem o fundador do sionismo político nem qualquer dos primeiros-ministros do estado sionista acreditam na origem divina da Torá e nem mesmo na existência de Deus. Todos os primeiros-ministros foram membros de um partido que se opôs à religião em princípio e que considerava a Bíblia um documento do folclore antigo, destituído de qualquer sentido religioso. E, no entanto, estes mesmos sionistas fundamentam suas alegações sobre a Terra Santa nesta mesma Bíblia, cuja origem divina renegam. Ao mesmo tempo, convenientemente esquecem a prece judaica "e por causa de nossos pecados fomos exilados de nossa terra" e ignoram o fato de que o exílio atual do povo judeu tem origem divina e que o povo judeu não foi ordenado e nem teve permissão para conquistar ou governar a Terra Santa antes da chegada do Messias. O povo judeu, é claro, reconhece os laços espirituais com aquela terra que eles chamam Eretz Yisrael. Todas as manhãs, tardes e noites, em suas preces, eles mencionam isto e o Sion e Jerusalém, e na verdade, um judeu não se senta para comer sem agir assim. Para o judeu, o verdadeiro solo da Terra Santa é diferente de qualquer outro lugar neste planeta e onde quer que ele esteja, ele volta seu rosto em direção a Jerusalém durante as preces. Viver na Terra Santa ou ser enterrado lá foi sempre considerado de grande valor.

Este amor à terra e o anseio judeu pelo retorno a ela e pela chegada do Messias foram explorados inúmeras vezes nos últimos 2.000 anos. O sionismo teve muitos precursores e cada um deles foi uma maldição para os judeus. Os indivíduos que se proclamam o Messias e os movimentos messiânicos que se espalharam de tempos e tempos, desde os romanos até a Idade Média e até os sionistas modernos. Muitos desses pseudo-Messias apresentaram-se como rabinos ou líderes nacionais, embora alguns deles de certa forma professassem outras crenças; muitos temporariamente - alguns por períodos mais longos - conseguiram desviar judeus, rabinos e comunidades judaicas inteiras. Todos, no devido tempo, foram expostos e reconhecidos como fraudes e aqueles que depositaram sua fé nessas pessoas encontram apenas o desapontamento e muitas vezes o desastre.

Nas primeiras etapas do desenvolvimento do sionismo moderno, foi criado o Mizrachi, uma organização dos chamados sionistas religiosos, que tentou combinar a fé com o sionismo político. A tentativa trouxe conflito constante entre os ditames da lei divina e as exigências do nacionalismo judaico. A maior parte das vezes, o Mizrachi foi voto vencido nos congressos sionistas e serviu apenas para dar ao movimento sionista uma falsa aura religiosa. Sempre que uma expectativa qualquer exigia, estes viajantes sionistas "religiosos" eram usados pelo governo sionista para conciliar as reivindicações nacionais com a autoridade "religiosa". O Partido Religioso Nacional no estado sionista foi bem recompensado por sancionar as medidas e decretos nacionalistas, com prêmios de natureza financeira ou sob a forma de postos no governo ou no gabinete.

O chauvinismo desses sionistas religiosos frequentemente ultrapassa o de outros sionistas e sempre foi expresso em termos religiosos - um exemplo do mau uso da religião. A impostura desses sionistas "religiosos" foi demonstrada no ano passado, quando foi revelado que dois de seus líderes tinham cometido roubos da ordem de milhões de dólares.

Uma organização judaica mundial foi fundada em 1912, na fronteira germano-polonesa, com o objetivo específico de lutar contra o sionismo. Esta organização, Agudath Israel, "União de Israel", foi criada para representar o verdadeiro povo judeu no mundo e para desmascarar as injustas e injustificadas alegações sionistas. Rabinos de todos os lugares se juntaram ao Agudath Israel, assim como milhares de judeus. Congressos anti-sionistas foram realizados em Viena e em Marienbad. Em países como a Polônia, os "agudistas" tornaram-se membros do parlamento. Há mais de 50 anos, sob a liderança do Agudath, os judeus da Terra Santa se opuseram à permissão inglesa obtida pelos sionistas, o mandato na Palestina, para declarar por escrito que não desejavam ser representados pelos sionistas ou por qualquer de seus grupos, principalmente pelas organizações sionistas governamentais como a Va'ad Leumi, "Conselho Nacional".

Pouco depois, Jacob de Haan, um ex-diplomata holandês, então líder do Agudath Israel na Palestina, iniciou conversações com líderes árabes, com vistas a uma eventual criação de um estado no qual judeus e árabes teriam direitos iguais. Desta forma, ele esperava antecipar-se à criação de um estado sionista. Apesar das ameaças à sua vida, de Haan, plenamente consciente dos perigos de um estado sionista, continuou as negociações. Às vésperas de sua partida para a Inglaterra, em 1924, para um encontro com autoridades inglesas, ele foi assassinado pelo Haganah, uma força paramilitar sionista, no centro de Jerusalém, quando chegava para as preces da noite. Mais de meio século atrás, este judeu devotado e visionário deu sua vida na luta que ele considerava suprema, numa época em que o mundo, como um todo, estava cego e surdo aos problemas e dificuldades que um futuro estado sionista poderiam acarretar.

Como consequência desse terrorismo e a crescente pressão sionista, o Agudath Israel aos poucos foi-se enfraquecendo e começou a transigir. Durante o período nazista, ele entrou em acordo com os sionistas, apesar do fato de que sua meta principal tivesse sido o combate ao sionismo. Depois que o estado sionista foi criado, o Agudath Israel rompeu com o seu passado, participou do governo sionista a nível de gabinete e elegeu "agudistas" para o parlamento sionista. Ainda professando um anti-sionismo nominal, o Agudath estabeleceu uma rede de escolas "independentes" na Terra Santa, mas atualmente uma parte substancial do orçamento dessas escolas vem do governo sionista.

Em vista desses acontecimentos, aqueles judeus que queriam continuar a luta contra o sionismo deixaram o Agudath Israel e se constituíram no Neturei Karta, uma frase aramaica que significa "Guardiães da Cidade", ou seja, da cidade de Jerusalém. O Neturei Karta, por sua vez, tornou-se um movimento mundial, conhecido em alguns lugares como "Amigos de Jerusalém".

Amram Blau
(À esquerda o rabino Amram Blau)

A maior liderança do Neturei Karta foi o rabino Amram Blau, um líder inspirado e dedicado, cuja compaixão iguala-se à sua coragem. Não se calava frente a injustiça, imoralidade ou hipocrisia. Ele foi amado pelos judeus e respeitado por cristãos e muçulmanos. Nascido em Jerusalém, jamais deixou a Terra Santa em toda a sua vida. Em seus escritos, enfatizou muitas vezes que judeus e árabes tinham vivido em harmonia até o advento do sionismo político. Rabino Blau foi preso em Jerusalém, não pelas autoridades otomanas ou britânicas, ou pelos árabes, e sim pelos sionistas. Qual foi seu crime? Ele defendia com ardor e honestidade, sem olhar para a sua própria segurança, o caráter sagrado de Jerusalém contra as "inovações" e invasões dos sionistas. Ele lutou pela santidade do Sabbath e se opôs vivamente à indecência e imoralidade praticadas no regime sionista. Incessantemente denunciou a criação de um estado judeu antes da vinda do Messias como um ato de infâmia e blasfêmia. Sob sua liderança, o Neturei Karta declarou, ano após ano, que eles não reconheciam a legitimidade do estado sionista ou a validade de suas leis.

Durante o primeiro período de luta entre o estado sionista e os árabes, os rabinos do Neturei Karta foram para a frente de batalha carregando uma bandeira branca e declararam que não queriam tomar parte naquela guerra e que se opunham completamente à criação de um estado sionista. Em sua última proclamação, rabino Blau deplorou as ações dos sionistas contra os palestinos cristãos e muçulmanos e os graves danos praticados pelos sionistas contra o povo judeu, na tentativa de transformar "um reino de sacerdotes e uma nação sagrada" em um estado moderno, destituído de fundamentos religiosos, baseado no chauvinismo, construído através da conquista e da força militar. "O número de suas cidades constitui seus deuses" o profeta Jeremias teria imprecado contra o governo judeu chauvinista e idólatra dos dias atuais. Os sionistas agora estão criando um novo statu quo e expandindo suas posições ao criarem novos assentamentos nos territórios ocupados desde 1967.

Rabino Blau, em sua última declaração condenou vigorosamente a ONU por reconhecer e aceitar como membro o estado sionista, concedendo aos sionistas poder e prestígio sem precedentes. Sabe-se que nenhuma ação foi feita em relação à expulsão do estado sionista por causa do medo de que o apoio financeiro para a ONU pudesse ser retirado. Deixem aqueles estados, opôs-se o sionismo, que tornaram-se ricos na geração passada, mostrem que eles são o que dizem, oferecendo repor qualquer perda financeira que a ONU possa sofrer como consequência e deixe que os estados membros votem de acordo com suas consciências, sem medo e independente de qualquer intimidação.


Houve épocas na história judaica, conforme relatado na Bíblia, em que as massas foram desviadas e somente uma minoria de judeus abraçou a verdadeira missão do povo judeu. Uma dessas ocasiões foi a adoração do bezerro de ouro; hoje, infelizmente, assistimos à repetição disto, com o estado sionista agora sendo objeto de adoração. Até o surgimento e crescimento da influência do sionismo político, os líderes judeus eram escolhidos com base na piedade, decência, conhecimento e por seu amor à justiça e misericórdia. Hoje, os chamados líderes judeus, completamente desqualificados em relação à lei judaica e aos conceitos tradicionais, fazem pronunciamentos e tomam decisões em nome do povo judeu. Isto acontece particularmente nos Estados Unidos, onde existe a maior comunidade judaica de nossos dias. Não esqueço nunca a observação de uma mulher em Oklahoma: "O judaísmo hoje não é maravilhoso? Tudo que temos que fazer é dar dinheiro."

Até sua morte, rabino Blau refutou os sionistas que muitas vezes afirmaram que o Neturei Karta nada mais era do que uma seita insignificante de umas poucas almas. Contudo, quando, há dois anos atrás, numa manhã de sexta-feira, rabino Blau morreu em Jerusalém, em poucas horas mais de 22.000 homens acorreram ao seu funeral.

Em todas as ocasiões do passado, os desencaminhadores dos judeus cedo ou tarde ficaram pelo caminho e só triunfaram aqueles que defenderam a validade da Torá e do Talmud (a lei escrita e falada) e do Halachah. O Neturei Karta continua nesta tradição. Eles continuam a reprovar o sionismo e a falar para o verdadeiro povo judeu, aqueles que não foram desviados pelo sionismo.
Durante a conquista romana da Terra Santa, havia judeus que, com base no nacionalismo e no orgulho racial, estavam certos de que não perderiam a guerra. Como os sionistas de nossos dias, eles se opuseram a qualquer acordo e estavam determinados a lutar até o fim. Naquela época, no entanto, há quase dois mil anos atrás, rabinos como Yochanan ben Sakkai, escolheram um caminho diferente. Os embates militares impediram-no de deixar Jerusalém sitiada para ir negociar com os romanos, assim o próprio rabino saiu num caixão levado por seus discípulos até os quartéis romanos. Ele disse aos romanos que os judeus não necessitavam de exército ou armas e pediu permissão para criar uma yeshiva, uma escola religiosa judaica, emYavneh. Foi esta escola religiosa, e não os militares ou generais daquele tempo, que ajudaram a perpetuar o judaísmo e a identidade do povo judeu.

Deve ser dito explicitamente que, da mesma forma que nem todos os judeus são sionistas, nem todos os sionistas são judeus. Os motivos por que alguns desses sionistas não judeus, como por exemplo, Lord Balfour e o General Smuts, estão abertos à discussão. Desde o começo do movimento sionista, alguns dos mais articulados e ardorosos sionistas foram pastores cristãos, principalmente os "fundamentalistas", que saudaram o sionismo como um importante movimento "religioso" e o receberam como o cumprimento da profecia. Eles também, e de forma significativa, serviram à causa do sionismo.

Um dos objetivos básicos do sionismo é aliyah, a imigração de judeus de todas as partes do mundo para o estado sionista. Não obstante, há poucos anos atrás, centenas de milhares de israelenses se retiraram do paraíso sionista e os judeus americanos "votaram com os pés" e escolheram não se juntarem lá. Esses judeus reconhecem que o estado sionista nada mais é do que um imenso gueto.

Ao invés de prestarem assistência às comunidades judaicas de outros países, os judeus americanos mobilizaram-se para se concentrar na ajuda ao estado sionista, transformando os Estados Unidos na maior fonte de poder e influència dos sionistas. Os sionistas, fiéis à natureza de seu movimento, contam com superioridade técnica e poder militar - fornecidos em grande parte pelos Estados Unidos - para a sua segurança.

Nada poderia estar mais distante dos verdadeiros ideais do povo judeu. O povo judeu foi escolhido em primeiro lugar "porque vós sois os líderes de todas as nações". Conforme dizem os Salmos, " eles contam com veículos e cavalo-vapor, mas nós invocamos o nome do Eterno, nosso Deus."

Merece menção uma das questões mais importantes. Um ex-presidente da Organização Sionista Mundial declarou explicitamente que um sionista deve lealdade inapelável ao estado sionista e que, em caso de um conflito, a primeira lealdade de um sionista deve ser para com o estado sionista. De acordo com a lei judaica, no entanto, um judeu deve obediência e lealdade ao país do qual ele é um cidadão e, claro, nenhum judeu fiel deve lealdade ou obediência ao estado sionista que tenha sido condenado pelo mais ilustre dos rabinos de nossa época.

Não é meu propósito detalhar como o sionismo deve ser tratado. Quero declarar, no entanto, que atos isolados ou espontâneos contra indivíduos ou a simples adoção de resoluções da ONU ou quaisquer outras não produzem os meios efetivos para pôr um fim ao sionismo. Quero declarar também que a batalha contra o sionismo precisa ser feita primeiro, não no litoral do Mediterrâneo, mas no mais poderoso bastião do sionismo - nos Estados Unidos.

Como cidadão americano, deploro que nosso governo e nossos políticos tenham adotado uma atitude que está em total contradição com o conselho do pai de nosso país, George Washington. O governo de Washington abraçou o sionismo tão devotadamente que qualquer crítica ao estado sionista ou qualquer oposição ao sionismo político nos Estados Unidos tornou-se uma ofensa passível de punição. E a dócil mídia americana não ousa falar contra tal absurdo.

Infelizmente, a cada ano vemos os sionistas americanos ganharem mais influência. Este fato tornou possível eventos e progressos que seriam impensáveis há dez anos atrás. É preciso muita coragem para opor-se ao sionismo nos Estados Unidos hoje em dia. Também precisou muita coragem ser anti-fascista na Itália, ou anti-nazista na Alemanha, durante a II Guerra Mundial. No geral, o sionismo nada mais é do que uma aberração na longa história do povo judeu e do mundo.

Tenhamos fé e esperança na certeza de que finalmente o preconceito, o ódio e a injustiça desaparecerão e que a profecia tornar-se-á realidade, a de que todas as nações do mundo participarão da peregrinação a Jerusalém, "porque Minha casa será chamada de casa de oração por todas as nações."