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quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

A globalização dos protestos

Caros professores e demais leitores, desculpem-me pela ausência, tirei uma semana para descansar e estou com a edição da História em Projetos acumulada para a próxima inscrição no PNLD.

Tenho postado alguma coisa aqui e continuarei mobilizada enquanto esta guerra insana contra uma população civil, especialmente crianças não for cessada. Até agor, fontes médicas da Faixa de Gaza afirmam que 1.010 pessoas já morreram no território palestino desde o início da ação militar israelense, em 27 de dezembro. Segundo o Ministério da Saúde palestino, 315 são crianças entre os mortos. Outras 4,7 mil pessoas ficaram feridas, de acordo com as fontes palestinas. Israel afirma que 13 israelenses foram mortos desde o início do conflito, sendo 10 soldados e três civis.

Além do meu blog pessoal, gostaria de indicar mais dois blogs que estão sistematicamente discutindo a questão: Vi o mundo e O Biscoito fino e a massa

Abaixo seguem algumas fotos de protestos contra os ataques israelenses à Gaza, assim como a política de bloqueio e humilhação diária aos palestinos provocado pela política sionista israelense.



Crianças indianas muçulmanas na cidade de Hyderabad, Índia em 14 de janeiro de 2009 protestam nas ruas carregando bonecas enroladas em referência as imagens das crianças mortas palestinas e a maneira como são enterradas e cartazes que dizem: Nós condenamos o assassinato de palestinos inocentes.


Muçulmanos no Quênia protestam contra o Estado de Israel, queimando a bandeira israelense.


Berlim, 10 de janeiro de 2009. Os berlinenses pedem que parem o Massacre em Gaza, assim como o Bloqueio promovido por Israel.


Jordanianos agradecem a Chavez (o presidente venezuelano rompeu recentemente relações com o Estado de Israel, assim como hoje o presidente boliviano Evo Moralez também o fez). Este é um lado interessante da globalização: a esquerda latino-americana se irmana e é reconhecida pelo mundo árabe muçulmano. Jordânia, 09/01/2009.

Todas as fotos foram retiradas daqui

domingo, 4 de janeiro de 2009

Cenas de protestos de judeus ortodoxos no mundo contra o Estado sionista de Israel

Repare bem, você tem visto cenas como esta na imprensa brasileira? Possivelmente não, mas no mundo todo os judeus não sionistas (como o resto da humanidade) condenam o Estado Sionista de Israel e ocupam as ruas para condenar e protestar contra o massacre em Gaza.

Em junho do ano passado eles também sairam às ruas para protestar contra as celebrações dos 60 anos do Estado de Israel. Para os judeus ortodoxos o Estado de Israel é ilegal e imoral, a Torá e o Talmud condenam a formação de um estado judeu, assim como reconhece o direito dos palestinos de viverem em sua própria terra.


As fotos a seguir mostram-nos (como inúmeros textos de lideranças judias que publicamos aqui), que a resistência dos judeus não sionistas no mundo todo contra as inúmeras violências de Israel também é cotidiana.


Observação: todas as imagens foram recolhidas de
Neturei Karta International: Judeus Unidos contra o sionismo


Judeus ortodoxos anti-sionistas de Jerusalém reúnem-se com lideranças árabes em protesto contra a demolição de lares palestinos, 28 de julho de 2008

O que será que a imprensa brasileira diria se um palestino ou qualquer outro que não fosse judeu portasse um cartaz com esta mensagem? Certamente seria acusado de anti-semita. Será que é por isso que não vemos essas demonstrações na imprensa? Jerusalém, 28 de julho de 2008. O cartaz prega o fim do Estado de Israel o fim da brutalidade sionista de árabes e judeus!

O cartaz convoca as organizações de direitos humanos para intervir imediatamente e socorrer os irmãos palestinos do cativeiro dos sionistas. Protesto com a demolição de lares palestinos em Jerusalém, 28 de julho de 2008.
O cartaz afirma: sionistas não são judeus!

22 de setembro em Nova York: apelo ao presidente iraniano que respeito o judaísmo e condene o sionismo.

Este cartaz radicaliza, segundo os judeus ortodoxos de Nova York a solução para a paz é o desmantelamento do Estado de Israel. Atentem que sempre usam Israel entre aspas, numa clara demonstração que este não é um Estado legítimo para os judeus.

Em Toronto, Canadá, os judeus ortodoxos condenam o Estado de Israel denominando-o de assassino e ladrão, que a formação deste estado é um desastre contra a humanidade; o outro cartaz afirma que o judaísmo rejeita o Estado Sionista de Israel e suas atrocidades.

Em Durban, África do Sul, rabino explica para uma platéia a diferença entre judaísmo e sionismo condenando o segundo e afirmando que os sionistas não são judeus.

O protesto em Durban foi ecumênico lideranças religiosas judias e muçulmanas discursaram conjuntamente mostrando que é uma falácia que essas religiões não podem conviver pacificamente.

Vários rabinos ortodoxos condenam o uso que os sionistas fazem do Holocausto para justificarem suas atrocidades contra os palestinos e acusarem todos que condenam as ações de Israel como anti-semitas. A manchete em espanhol afirma: O Estado de Israel explora o holocausto.


Dia 29 de dezembro 2008, na Trafalgar square, em Londres, judeus seguram a bandeira da Palestina e afirmam nos cartazes que Israel é um Estado de terror.

Londres: os judeus autênticos não celebram os 60 anos da criação do Estado de Israel ao contrário, para eles são 60 anos de ocupação/invasão sionista da terra sagrada.


Lembrem-se da vergonha de Israel: isolamento dos palestinos que tornam crianças inocentes prisoneiras, fazem de Gaza a maior prisão a céu aberto.

Nova York, 28 de dezembro de 2008: Israel não tem o direito de falar pelos judeus


Em Nova York, 28/12/2008, ao lado do mapa da Palestina (pintado com as cores da bandeira Palestina) hoje Estado de Israel, o cartaz afirma que judeus autênticos jamais reconhecem a legitimidade do Estado de Israel.

Também em Nova Iork o cartaz afirma: Judaimos e sionismos são extremos opostos.

Nova York: o cartaz afirma que é mandamento da Torá que os palestinos tenham direito a autodeterminação de seu povo, governo, terra e país.

Nova York: Estado de israel não representa o mundo judaico

Nova York: Nós somos contra o Estado de Israel, porque nós somos judeus

Nova York: Palestinos e judeus são povos irmãos

Manifestação em Washington DC: um dos cartazes diz: Leiam o Taldmud, segundo suas leis os judeus são proibidos de criarem um Estado próprio

Por que Israel faz guerra em Gaza? Ninguém sabe.

The Observer, domingo, 4/1/2009

por Chris McGreal, de Jerusalém

É uma guerra em dois fronts. Há meses, enquanto Israel começava a preparar-se para desencadear mais uma onda de desgraça sobre Gaza, o governo reconheceu que seu principal objetivo era destruir a "infra-estrutura do terror" do Hamás (o que incluiria postos de polícia, casas, escolas e mesquitas).

Ao mesmo tempo, Israel preparou também uma operação paralela, que considerou necessária para persuadir o mundo de que sua causa seria justa, mesmo que não conseguissem esconder as pilhas de cadáveres de mulheres e crianças palestinenses nos necrotérios e pelas ruas. A campanha de persuação seria indispensável para garantir que a guerra não fosse mostrada como guerra de ocupação, mas como alguma espécie de luta do ocidente contra o terror vindo do oriente – e como meio para intimidar o Iran.

Depois do fracasso de Israel, na tentativa de invadir o Líbano em 2006 – que não foi apenas fracasso militar, mas também foi fracasso político e militar –, o governo de Telavive trabalhou durante meses, em Israel e em todo o mundo, na preparação do assalto a Gaza. O lobby operou em silêncio mas muito ativamente: governos estrangeiros, diplomatas, todos foram mobilizados, sobretudo na Europa e em parte do mundo árabe.

Estabeleceu-se uma rígida pauta de temas para influenciar a mídia – operação que, como se vê foi bastante bem-sucedida. E quando o ataque começou, há uma semana, uma legião de diplomatas, grupos de lobby, blogueiros e outras organizações de apoio aos israelenses foi acionada para martelar a opinião pública. O objetivo era fazer os israelenses aparecerem como vítimas, mesmo depois de terem assassinado 430 palestinenses só na primeira semana de violência, um terço, no mínimo, dos quais civis ou policiais e agentes de segurança palestinenses.

O brutal assalto a Gaza, com um bombardeamento a cada 20 minutos, não fez parar a reação do Hamás, cujos foguetes de fabricação caseira já mataram quatro israelenses e já alcançam distâncias maiores do que antes no território de Israel, e têm feito fugir dezenas de milhares de pessoas. Ontem, Israel invadiu a fronteira de Gaza por terra. E a operação diplomática prossegue, para justificar a matança de inocentes – com sucesso quase certo.

Dan Gillerman, embaixador de Israel na ONU até há poucos meses, foi encarregado pelo ministério dos Negócios Estrangeiros da campanha de "Public Relations". Disse que o trabalho de campo, diplomático e político, está sendo organizado há meses.

"Tudo foi planejado com muita antecedência", disse ele. "Eu fui encarregado pela ministra dos Negócios Estrangeiros para coordenar os esforços de Israel e nunca vi estrutura tão complexa como essa (não se sabe se se referia ao ministério dos Negócios Estrangeiros, ao ministério da Defesa, ao gabinete do primeiro-ministro, à segurança interna ou ao exército israelenses) operar tão coordenadamente, de modo tão eficaz, para divulgar a nossa mensagem."

Em comunicados feitos simultaneamente em Jerusalém, em Londres, em Bruxelas e em Nova York, todos repetiram a mesma fala: que Israel não teve escolha senão responder com fogo ao fogo dos rojões do Hamás; que o ataque seguinte seria contra "a infra-estrutura do terror" em Gaza e visaria diretamente aos combatentes do Hamás; que havia risco de atingir civis mas, isso, porque o Hamás usa "escudos humanos" e os "terroristas e seus depósitos de armamento" são ocultados nas cidades, entre a população.

Assim, passo a passo, avançou a estratégia para apagar o tema da ocupação. Israel retirou-se oficialmente de Gaza em 2005, quando saíram colonos e soldados, disseram os israelenses. Ali estaria a oportunidade para implantar as bases de um Estado Palestino... mas os palestinenses optaram por atacar Israel.

Israel descreve o Hamás como parte do "eixo do mal" dos fundamentalistas islâmicos, com o Iran e o Hizbóllah. As ações do Hamás, dizem os israelenses, nada têm a ver com a ocupação da Cisjordânia, o bloqueio de Gaza, ou o assassinato, por Israel e grande número de palestinenses, mesmo depois da retirada. "Israel é parte do mundo livre e combate o extremismo e o terrorismo. O Hamás não." – nas palavras da ministra dos Negócios Estrangeiros e líder do partido Kadima, Tzipi Livni, ao chegar à França, em mais um movimento da estratégia de propaganda da semana passada.

Mais cedo, na mesma semana, Livni requentou a estratégia e a retórica da guerra ao terror de George W Bush: "quem não está conosco está contra nós. "Hoje, cada indivíduo na Região e no mundo tem de escolher um lado. E os lados mudaram. Hoje, já não se trata de Israel de um lado e os árabes de outro", disse ela. "Israel escolheu seu lado no dia em que o Estado foi fundado; o povo judeu escolheu seu lado ao longo de milhares de anos de história; e em todas as sinagogas do mundo reza-se pela paz, hoje."

É mensagem que visa diretamente aos governos árabes aliados de Israel, como o Egito e a Síria, que vêem com hostilidade o Hamás. "Parte significativa do mundo árabe e muçulmano sabe que o Hamás representa ameaça maior, contra todos, do que Israel. O extremismo, o fundamentalismo ameaçam todos nós", disse Gillerman. "Vimos o efeito disso em várias respostas, no que declararam oficialmente o presidente Mubarak (do Egito) e o presidente Abbas (da Palestina) e outras autoridades árabes. Essa solidariedade dos árabres a Israel é sem precedentes."

De fato, o ministro do Exterior do Egito, Ahmed Aboul Gheit, disse que seu governo sabia exatamente o que viria: "Há, pelo menos há três meses, sinais claros de que Israel atacaria as forças do Hamás em Gaza. Infelizmente, o Hamás errou e ofereceu, de bandeja, a chance que Israel esperava."

Seja tudo isso verdade ou mentira, também é crucialmente importante o que ninguém disse. Já há meses, sim, Livni vem falando de exterminar o Hamás, mas dizia que o Hamás não seria considerado justificativa suficiente, para que a comunidade internacional aceitasse o ataque e a invasão de Gaza. Por isso se fala tanto, hoje, sobre ter tentado o cessar-fogo, que o Hamás teria "desrespeitado". Vez ou outra, alguém, alguém vacila, e a verdade aparece. Há poucos dias, com o assalto a Gaza já em andamento, Gabriela Shalev, embaixadora de Israel na ONU, disse que "a ação prosseguirá, até o Hamás ter sido completamente destroçado". Furiosos, vários funcionários israelenses em Jerusalem fizeram-na saber que declarações como aquela poriam a perder todo o esforço diplomático.

Nas primeiras horas depois de iniciado o massacre, Israel repetiu sempre as mesmas mensagens para a "comunidade internacional". Livni e o ministro da Defesa, do partido Labour, Ehud Barak, foram vistos infinitas vezes, em praticamente todos os noticiários internacionais de televisão. O comando dos serviços de informação e jornalismo do governo isralense insistentemente chamou a atenção da mídia internacional para os 8.500 rojões disparados de Gaza contra Israel em oito anos e para os 20 israelenses civis mortos – muito mais do que para o bloqueio de castigo coletivo contra Gaza [que configura crime de guerra] e para os 1.700 palestinenses mortos nos ataques do exército de Israel desde que colonos judeus foram evacuados de Gaza há três anos.

Grupos de lobby ativos na mídia, como o Bicom (British Israel Communications and Research Centre, Centro de Comunicações e Pesquisa Britânico-Israelense) em Londres, e o IPA (Israel Project in America, Projeto Israel na América) foram mobilizados. Distribuíram briefings, organizaram conferências de imprensa e entrevistas. O exército de Israel distribuiu imagens de vídeo pelo YouTube. Em Nova York, diplomatas israelenses montaram uma "teleconferência entre cidadãos e jornalistas", de duas horas, no Twitter, e reuniram milhares de pessoas. Simultaneamente, sem qualquer divulgação, Israel fechou todas as vias de acesso para Gaza e Cisjordânia. De fato, nenhum jornalista independente, até hoje, conseguiu aproximar-se o suficiente para investigar os resultados da estratégia de propaganda de Israel.

Livni chegou a sugerir que a chacina seria boa para os palestinenses, porque os ajudaria a libertar-se das garras do Hamás. "Ela está tentando me convencer de que o que estou vendo aqui está sendo feito para o meu bem", disse Diana Buttu, advogada da OLP e negociadora que participou dos encontros que levaram à retiradas dos israelenses de Gaza, em 2005. "Ouvi o mesmo argumento, repetido por amigos israelenses: 'Vocês deveriam ser gratos, por nós estarmos destruindo o Hamás. O Hamás é problema também para vocês.' Disse a eles o mesmo que digo aqui: não preciso que Israel diga a mim o que é bom ou ruim para mim. E é claro que o massacre que todos vemos acontecer não pode ser bom para ninguém."

E quando o massacre começou, Israel rapidamente divulgou entrevistas e releases de imprensa, em que se dizia que a grande maioria dos mais de 400 mortos seriam combatentes do Hamás e que os prédios destruídos seriam parte da "infra-estrutura do terror". Fato é que um terço dos assassinados por Israel eram policiais. A força policial (guardas-de-trânsito, por exemplo) em Gaza é dirigida pelo Hamás, mas, disse Buttu, é evidentemente mentira que sejam terroristas ou que o Hamás seja organização terrorista.

"Há policiais em Gaza, como em qualquer lugar do mundo. Trabalham no controle da ordem interna, no combate ao tráfico de drogas e como guardas-de-trânsito. Claro que não são combatentes do Hamás. 70 policiais foram mortos no mesmo local: durante a cerimônia de formatura. Claro que não eram guerrilheiros. Israel está matando qualquer pessoa que trabalhe para o governo do Hamás, funcionários públicos, portanto. Não há limites, nessa loucura: estão matando pessoas pelo crime de terem votado nos candidatos do Hamás, em eleições legais e legítimas", concluiu.

Assim também, enquanto Israel acusa o Hamás por estar pondo em risco a vida de civis, porque esconderiam a infra-estrutura do poder em casas 'comuns', os mísseis estão destruindo prédios administrativos, estações policiais, uma universidade.

Israel diz que o Hamás abandonou as negociações para um cessar-fogo em junho, e que Telavive desejava que prosseguissem. "Israel é quem mais deseja o fim da violência. Não procuramos a violência. Mas não tivemos escolha. O Hamás violou o cessar-fogo", disse Livni.

Também não parece ser verdade. Muitos especialistas dizem que o cessar-fogo começou a ser desrespeitado em novembto, quando militares israelenses assassinaram seis combatentes do Hamás, em Gaza. Muitos observaram também que a ação aconteceu no dia das eleições nos EUA, quando praticamente ninguém, no mundo, soube do que acontecia em Gaza. O Hamás respondeu com uma onda de rojões. Mais seis palestinenses morreram na semana seguinte, nos ataques de retaliação dos israelenses.

"Jamais pararam de atacar Gaza militarmente, por terra e pelo ar, durante toda a vigência do cessar-fogo", disse Buttu. Nem suspenderam a matança de palestinenses. Durante os já quase três anos de governo legítimo do Hamás, e sem contar a chacina a que assistimos hoje, Israel matou mais de 1.300 pessoas em Gaza e na Cisjordânia. Embora muitos fossem ativistas do Hamás – e centenas de palestinenses também foram mortos por palestinenses, nas lutas entre o Hamás e o Fatah –, há um número inadmissível de assassinatos de civis.

O Centro Palestinense para Defesa e Promoção dos Direitos Humanos diz que uma, de cada quatro vítimas, tem menos de 18 anos. Entre junho de 2007 e junho de 2008, os ataques pelo exército de Israel mataram 68 crianças palestinenses em Gaza. Outras 12 foram mortas na Cisjordânia.

[...] Durante o cessar-fogo, morreram em Gaza, como resultado direto de ataques israelenses, 22 pessoas, entre as quais duas crianças e uma mulher.

Talvez o fator crucial para explicar o colapso do cessar-fogo sejam ideias diferentes sobre os objetivos do cessar-fogo. Para Israel, seria oferecer paz em troca de paz, sem alterar as demais condições vigentes na Região. Para o Hamás, o cessar-fogo deveria levar ao fim do bloqueio de Gaza, o qual, para Israel, seria medida de segurança contra os ataques com rojões Qassam.

Mas Israel não levantou o bloqueio que destruía a economia e implicava falta de alimentos, de combustível e de remédios. Em Gaza, todos concluíram que o bloqueio nada tinha a ver com os rojões caseiros do Hamás e que era, sim, um castigo coletivo que Israel aplicava a todos que votaram no Hamás.

Argumento central, sempre repetido, na mensagem dos israelenses é que, quando da retirada dos soldados e dos colonos judeus, há 3 anos, deram a Gaza a oportunidade para organizar-se e prosperar. "Para criar condições de esperança, retiramos nossos soldados e nossos colonos. Em vez de converter-se em núcelo de um Estado Palestino, o Hamás impôs lá um regime islâmico extremista", disse Livni. Os oficiais israelenses dizem o que Hamás, e, por extensão, seus eleitores, só estão interessados em assassinar e odiar judeus e que não lhe interessa construir seu país.

Os palestinos têm opinião diferente. Buttu diz que desde o dia em que Israel retirou-se de Gaza, tudo passou a ser feito para impedir qualquer progresso econômico. "Quando os israelenses se retiraram, esperávamos que pudéssemos ter algum tipo de vida, que pudéssemos, pelo menos, nos deslocar. Esperávamos que se abrissem as passagens de fronteira. Nunca imaginamos que, em seguida, estaríamos reduzidos a ter de implorar por comida", diz ela.

Buttu observa que mesmo antes de o Hamás ter sido eleito, há três anos, os israelenses já bloqueavam o acesso a Gaza e as saídas de Gaza. Os palestinenses tiveram de apelar à secretária-de-Estado dos EUA, Condoleezza Rice, e ao presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn, para que pressionassem Israel para que admitissem que alguns poucos caminhões com suprimentos entrassem diariamente em Gaza. Israel primeiro concordou, depois suspendeu tudo. "Tudo isso foi antes de o Hamás ser eleito. Tudo o que Israel diz é mentira. Se já não houvesse evidente política de bloqueio, porque teria sido preciso recorrer a Rice e Wolfensohn, para que os produtos chegassem a Gaza?" perguntou Buttu.

Yossi Alpher, ex-oficial do serviço secreto, Mossad, e ex-conselheiro assessor do então primeiro-ministro, Ehud Barak, nas conversações de paz, diz que o bloqueio de Gaza é estratégia fracassada e que mais contribuiu para fortalecer do que para abalar o Hamás. "Por mais difícil que seja provar que o bloqueio foi prejudicial aos interesses de Israel, não há dúvidas de que não ajudou em nada. Parece-me que trouxe mais danos que vantagens. O bloqueio é punição coletiva, provoca sofrimento imenso. Não induziu qualquer atitude favorável a Israel entre os palestinenses. Nada justifica o bloqueio. Por que mantê-lo?" pergunta. "Acho que houve quem pensasse que, se matássemos os palestinenses de fome, eles derrubariam o Hamás e poriam fim àqueles rojões. É insistir em repetir, eternamente, as mesmas políticas fracassadas."

Publicado em inglês em: The Guardian tradução de Caia Fittipaldi.

A DIFERENÇA ENTRE JUDAÍSMO E SIONISMO

O cartaz ao centro, ao usar o termo sovereignty, reconhece o direito exclusivo de todo palestino de controlar por ele mesmo o seu governo, o seu povo, a sua terra, o seu país.

Este texto é dedicado a todos aqueles que pensam, ingenuamente ou não, que as críticas a Israel são demonstrações de anti-semitismo. É uma primorosa tradução feita por Márcio Alves de Lima. Neste texto algumas das perguntas que muito se fazem têm as devidas respostas e serve para mostrar que o Estado de Israel não é um tema unânime entre os judeus. O seu autor G. Neuburger, é como ele mesmo confessa, um velho combatante da causa judia contra o sionismo.
Quando a Torá fala sobre a criação do primeiro ser humano, Rashi, conhecido comentarista, explica que a terra que formou Adão não foi tirada de um único lugar e sim de várias partes do planeta. Assim, a dignidade humana não depende do lugar onde se tenha nascido nem está limitada a uma única região.
(Pedro Ayres)

Por G. Neuburger (tradução de Márcio Alves de Lima) O original em inglês encontra no site Jews not Zionists.org

A grandeza e o mérito de uma pessoa não são medidos por sua aparência externa. Os judeus acreditam que Adão foi criado à imagem de Deus e que ele é o ancestral comum de toda a humanidade. Nesta etapa da história humana, não há espaço para povos privilegiados que possam agir em relação aos outros como bem entendem. A vida humana é sagrada e os direitos humanos não podem ser negados por aqueles que os distorcem em nome da "segurança nacional" ou de qualquer outra coisa. Ninguém sabe disso melhor do que os judeus, que, por tantas vezes e por tanto tempo, foram considerados cidadãos de segunda classe. No entanto, alguns sionistas divergem quanto a isso e é compreensível porque judaísmo e sionismo em hipótese alguma são a mesma coisa. Na verdade, eles são incompatíveis. Se uma pessoa é um bom judeu, não pode ser um sionista e se for um sionista não pode ser um bom judeu.

Por mais de 60 anos lutei contra o sionismo, assim como o fez meu pai antes de mim e, por essa razão, esta é uma questão bem familiar para mim. Para aqueles que acompanharam esta luta nos últimos 10 ou 20 anos, o que tenho a dizer pode parecer surpreendente ou mesmo chocante. No entanto, essas questões precisam ser discutidas clara e abertamente porque o sionismo é uma doença que só pode ser curada quando diagnosticada corretamente. A fim de reconhecermos o sionismo pelo que ele é, precisamos conhecer o judaísmo, o sionismo - o oposto e a negação do judaísmo - e a história judaica. Não pretendo discorrer sobre as ações dos sionistas, elas serão adequadamente tratadas pelos outros. Como judeu, pretendo discutir o sionismo, que é a revolta contra Deus e a traição do povo judeu.

Para começar, algumas definições. O que é um judeu? É qualquer pessoa que tenha a mãe judia ou que tenha se convertido ao judaísmo, de acordo com Halacha, a lei religiosa judaica. Esta definição, por si só, exclui o racismo. O judaísmo não procura os convertidos, mas aqueles que se convertem são aceitos com base na igualdade. Como é que isso se dá? Alguns dos mais eminentes e respeitados rabinos eram convertidos ao judaísmo. Os pais judeus em todo o mundo abençoam suas crianças todo Sabbath e feriados e o fazem da mesma forma há séculos. Se for menina, a bênção é "Que Deus a abençoe como Sara, Rebeca, Raquel e Léa." Nenhuma dessas matriarcas eram judias de nascimento, todas eram convertidas ao judaísmo. Se for menino, a bênção é "Que Deus o faça como Efraim e Menashe". A mãe desses dois era uma egípcia que se converteu ao judaísmo e se casou com José. O próprio Moisés, o maior judeu que já existiu, casou-se com uma medianita que se tornou judia. Finalmente, o Tenach, escritos sagrados dos judeus, contêm o livro de Ruth. Esta mulher não só não era judia de nascimento como era uma moabita, tribo tradicional inimiga do povo judeu. Este livro descreve a conversão de Ruth ao judaísmo e é lido anualmente no feriado que comemora a entrega da Torá, a "Lei", isto é, o Pentateuco. Por fim, o livro de Ruth segue a ascendência do rei David, o maior dos reis que os judeus já tiveram, até Ruth, sua bisavó.
28 de dezembro, 2008: Judeus ortodoxos anti-sionistas reuniram 1500 pessoas em Nova York para marchar em protesto contra o bombardeamento e o massacre em Gaza. Fonte: Anti-Zionist Orthodox Jews USA
Afora os sionistas, os únicos que consideraram os judeus como uma raça foram os nazistas. E isto só prova a estupidez e irracionalidade do racismo. Não havia meios de se provar que uma sra. Muller ou uma sra. Meyer eram judias ou arianas (termo nazista para os alemães não judeus). A única forma de definir se uma pessoa era judia era investigar a filiação religiosa de seus pais ou avós. Muito, para esse absurdo racial.

O orgulho racial foi a ruína daqueles judeus do passado que estavam enceguecidos por um estreito chauvinismo. Chegamos a uma segunda definição. Existe um povo judeu? Se afirmativo, qual é sua missão? Vamos esclarecer isto. A nação judaica nasceu no Monte Sinai, quando os judeus adotaram a Torá dada a eles por Deus para as gerações futuras, e não por obra de alguns políticos sionistas de uma geração anterior à atual. A afirmação "Hoje vocês se tornaram um povo", embora seja válida até hoje, foi dita há milhares de anos atrás.

De acordo com a tradição judaica, existem sete leis Noachide que se aplicam a todos os seres humanos. São os Dez Mandamentos que formam a regra básica de moralidade e conduta para os adeptos de todas as religiões monoteístas; além desses, existem 613 leis obrigatórias para os judeus e cada judeu tem que observar aquilo que se aplica a ele ou ela, de acordo com Halacha. É o cumprimento daqueles mandamentos que constitui a essência de ser judeu e, portanto, do povo judeu e de seu pacto com Deus.

De que forma os judeus são um "povo escolhido"? Todo judeu homem de qualquer lugar e de qualquer época quando chamado para ler a Torá diz "Quem nos escolheu de todos os povos e nos concedeu Sua Torá". Esta é a forma pela qual os judeus são escolhidos. O povo judeu foi escolhido não para dominar os outros, nem conquistar ou guerrear, mas pra servir a Deus e, por consequência, servir à humanidade. "E as mãos são as mãos de Esaú", tradicionalmente tem sido interpretado como significando que, enquanto "a voz é de Jacó", as mãos - simbolizando violência - são de Esaú" Assim, a violência física não é uma tradição ou valor dos judeus. A tarefa pela qual o povo judeu foi escolhido não é estabelecer um exemplo de superioridade militar ou de conquistas técnicas e sim buscar a perfeição no comportamento moral e na pureza espiritual. De todos os crimes do sionismo político, o pior e mais básico, e que explica todos os seus delitos, é que desde o seu começo o sionismo busca separar o povo judeu de seu Deus, tornando nulo e sem efeito o pacto divino e substituindo os elevados ideais do povo judeu por um estado "moderno" e uma soberania fradulenta.

Um meio de desencaminhar judeus e também os não judeus é o mau uso sionista dos nomes e símbolos sagrados do judaísmo. Eles usam o santo nome de Israel para seu estado sionista. Denominaram o seu fundo de aquisição de terra com um termo que tradicionalmente significa a recompensa pela piedade, boas ações e trabalho caritativo. Eles adotaram como um símbolo do estado o menorah (candelabro). Quanta hipocrisia, quanta perversão que é o exército israelense lutar sob um emblema, cujo significado é explicado no Tenach (por ocasião de um retorno anterior à Terra Santa) como "não pela força ou poder, mas em Meu Espírito diz o Senhor dos Exércitos."

Anti-sionistas

O infame fundador do sionismo político, que seu nome seja amaldiçoado, que só foi descobrir suas próprias origens judaicas por causa do anti-semitismo mostrado no julgamento do caso Dreyfus, na França, apresentou várias soluções para o que ele chamava de "problema judaico". De uma vez, ele propôs reassentar os judeus em Uganda. De outra ele propôs convertê-los ao catolicismo. Finalmente ele teve a idéia de um Judenstaat, um estado exclusivamente judeu. Assim, nos seus primórdios, o sionismo foi a consequência do anti-semitismo e, na verdade, é inteiramente compatível com esta idéia, porque os sionistas e anti-semitas tinham (e têm) uma meta comum. Trazer todos os judeus de seus lugares de origem para o estado sionista, extirpando as comunidades judaicas que existiam há centenas e até há milhares de anos. A lealdade ao estado sionista substituiu a lealdade a Deus e o estado foi transformado no moderno "bezerro de ouro".

Aos olhos do sionismo, a crença na Torá e o cumprimento das obrigações religiosas são questões privadas e não uma responsabilidade de cada judeu e do povo judeu. Os sionistas sujeitaram a lei divina ao partido ou votos parlamentares e estabeleceram seus próprios padrões de conduta e ética.

Nem o fundador do sionismo político nem qualquer dos primeiros-ministros do estado sionista acreditam na origem divina da Torá e nem mesmo na existência de Deus. Todos os primeiros-ministros foram membros de um partido que se opôs à religião em princípio e que considerava a Bíblia um documento do folclore antigo, destituído de qualquer sentido religioso. E, no entanto, estes mesmos sionistas fundamentam suas alegações sobre a Terra Santa nesta mesma Bíblia, cuja origem divina renegam. Ao mesmo tempo, convenientemente esquecem a prece judaica "e por causa de nossos pecados fomos exilados de nossa terra" e ignoram o fato de que o exílio atual do povo judeu tem origem divina e que o povo judeu não foi ordenado e nem teve permissão para conquistar ou governar a Terra Santa antes da chegada do Messias. O povo judeu, é claro, reconhece os laços espirituais com aquela terra que eles chamam Eretz Yisrael. Todas as manhãs, tardes e noites, em suas preces, eles mencionam isto e o Sion e Jerusalém, e na verdade, um judeu não se senta para comer sem agir assim. Para o judeu, o verdadeiro solo da Terra Santa é diferente de qualquer outro lugar neste planeta e onde quer que ele esteja, ele volta seu rosto em direção a Jerusalém durante as preces. Viver na Terra Santa ou ser enterrado lá foi sempre considerado de grande valor.

Este amor à terra e o anseio judeu pelo retorno a ela e pela chegada do Messias foram explorados inúmeras vezes nos últimos 2.000 anos. O sionismo teve muitos precursores e cada um deles foi uma maldição para os judeus. Os indivíduos que se proclamam o Messias e os movimentos messiânicos que se espalharam de tempos e tempos, desde os romanos até a Idade Média e até os sionistas modernos. Muitos desses pseudo-Messias apresentaram-se como rabinos ou líderes nacionais, embora alguns deles de certa forma professassem outras crenças; muitos temporariamente - alguns por períodos mais longos - conseguiram desviar judeus, rabinos e comunidades judaicas inteiras. Todos, no devido tempo, foram expostos e reconhecidos como fraudes e aqueles que depositaram sua fé nessas pessoas encontram apenas o desapontamento e muitas vezes o desastre.

Nas primeiras etapas do desenvolvimento do sionismo moderno, foi criado o Mizrachi, uma organização dos chamados sionistas religiosos, que tentou combinar a fé com o sionismo político. A tentativa trouxe conflito constante entre os ditames da lei divina e as exigências do nacionalismo judaico. A maior parte das vezes, o Mizrachi foi voto vencido nos congressos sionistas e serviu apenas para dar ao movimento sionista uma falsa aura religiosa. Sempre que uma expectativa qualquer exigia, estes viajantes sionistas "religiosos" eram usados pelo governo sionista para conciliar as reivindicações nacionais com a autoridade "religiosa". O Partido Religioso Nacional no estado sionista foi bem recompensado por sancionar as medidas e decretos nacionalistas, com prêmios de natureza financeira ou sob a forma de postos no governo ou no gabinete.

O chauvinismo desses sionistas religiosos frequentemente ultrapassa o de outros sionistas e sempre foi expresso em termos religiosos - um exemplo do mau uso da religião. A impostura desses sionistas "religiosos" foi demonstrada no ano passado, quando foi revelado que dois de seus líderes tinham cometido roubos da ordem de milhões de dólares.

Uma organização judaica mundial foi fundada em 1912, na fronteira germano-polonesa, com o objetivo específico de lutar contra o sionismo. Esta organização, Agudath Israel, "União de Israel", foi criada para representar o verdadeiro povo judeu no mundo e para desmascarar as injustas e injustificadas alegações sionistas. Rabinos de todos os lugares se juntaram ao Agudath Israel, assim como milhares de judeus. Congressos anti-sionistas foram realizados em Viena e em Marienbad. Em países como a Polônia, os "agudistas" tornaram-se membros do parlamento. Há mais de 50 anos, sob a liderança do Agudath, os judeus da Terra Santa se opuseram à permissão inglesa obtida pelos sionistas, o mandato na Palestina, para declarar por escrito que não desejavam ser representados pelos sionistas ou por qualquer de seus grupos, principalmente pelas organizações sionistas governamentais como a Va'ad Leumi, "Conselho Nacional".

Pouco depois, Jacob de Haan, um ex-diplomata holandês, então líder do Agudath Israel na Palestina, iniciou conversações com líderes árabes, com vistas a uma eventual criação de um estado no qual judeus e árabes teriam direitos iguais. Desta forma, ele esperava antecipar-se à criação de um estado sionista. Apesar das ameaças à sua vida, de Haan, plenamente consciente dos perigos de um estado sionista, continuou as negociações. Às vésperas de sua partida para a Inglaterra, em 1924, para um encontro com autoridades inglesas, ele foi assassinado pelo Haganah, uma força paramilitar sionista, no centro de Jerusalém, quando chegava para as preces da noite. Mais de meio século atrás, este judeu devotado e visionário deu sua vida na luta que ele considerava suprema, numa época em que o mundo, como um todo, estava cego e surdo aos problemas e dificuldades que um futuro estado sionista poderiam acarretar.

Como consequência desse terrorismo e a crescente pressão sionista, o Agudath Israel aos poucos foi-se enfraquecendo e começou a transigir. Durante o período nazista, ele entrou em acordo com os sionistas, apesar do fato de que sua meta principal tivesse sido o combate ao sionismo. Depois que o estado sionista foi criado, o Agudath Israel rompeu com o seu passado, participou do governo sionista a nível de gabinete e elegeu "agudistas" para o parlamento sionista. Ainda professando um anti-sionismo nominal, o Agudath estabeleceu uma rede de escolas "independentes" na Terra Santa, mas atualmente uma parte substancial do orçamento dessas escolas vem do governo sionista.

Em vista desses acontecimentos, aqueles judeus que queriam continuar a luta contra o sionismo deixaram o Agudath Israel e se constituíram no Neturei Karta, uma frase aramaica que significa "Guardiães da Cidade", ou seja, da cidade de Jerusalém. O Neturei Karta, por sua vez, tornou-se um movimento mundial, conhecido em alguns lugares como "Amigos de Jerusalém".

Amram Blau
(À esquerda o rabino Amram Blau)

A maior liderança do Neturei Karta foi o rabino Amram Blau, um líder inspirado e dedicado, cuja compaixão iguala-se à sua coragem. Não se calava frente a injustiça, imoralidade ou hipocrisia. Ele foi amado pelos judeus e respeitado por cristãos e muçulmanos. Nascido em Jerusalém, jamais deixou a Terra Santa em toda a sua vida. Em seus escritos, enfatizou muitas vezes que judeus e árabes tinham vivido em harmonia até o advento do sionismo político. Rabino Blau foi preso em Jerusalém, não pelas autoridades otomanas ou britânicas, ou pelos árabes, e sim pelos sionistas. Qual foi seu crime? Ele defendia com ardor e honestidade, sem olhar para a sua própria segurança, o caráter sagrado de Jerusalém contra as "inovações" e invasões dos sionistas. Ele lutou pela santidade do Sabbath e se opôs vivamente à indecência e imoralidade praticadas no regime sionista. Incessantemente denunciou a criação de um estado judeu antes da vinda do Messias como um ato de infâmia e blasfêmia. Sob sua liderança, o Neturei Karta declarou, ano após ano, que eles não reconheciam a legitimidade do estado sionista ou a validade de suas leis.

Durante o primeiro período de luta entre o estado sionista e os árabes, os rabinos do Neturei Karta foram para a frente de batalha carregando uma bandeira branca e declararam que não queriam tomar parte naquela guerra e que se opunham completamente à criação de um estado sionista. Em sua última proclamação, rabino Blau deplorou as ações dos sionistas contra os palestinos cristãos e muçulmanos e os graves danos praticados pelos sionistas contra o povo judeu, na tentativa de transformar "um reino de sacerdotes e uma nação sagrada" em um estado moderno, destituído de fundamentos religiosos, baseado no chauvinismo, construído através da conquista e da força militar. "O número de suas cidades constitui seus deuses" o profeta Jeremias teria imprecado contra o governo judeu chauvinista e idólatra dos dias atuais. Os sionistas agora estão criando um novo statu quo e expandindo suas posições ao criarem novos assentamentos nos territórios ocupados desde 1967.

Rabino Blau, em sua última declaração condenou vigorosamente a ONU por reconhecer e aceitar como membro o estado sionista, concedendo aos sionistas poder e prestígio sem precedentes. Sabe-se que nenhuma ação foi feita em relação à expulsão do estado sionista por causa do medo de que o apoio financeiro para a ONU pudesse ser retirado. Deixem aqueles estados, opôs-se o sionismo, que tornaram-se ricos na geração passada, mostrem que eles são o que dizem, oferecendo repor qualquer perda financeira que a ONU possa sofrer como consequência e deixe que os estados membros votem de acordo com suas consciências, sem medo e independente de qualquer intimidação.


Houve épocas na história judaica, conforme relatado na Bíblia, em que as massas foram desviadas e somente uma minoria de judeus abraçou a verdadeira missão do povo judeu. Uma dessas ocasiões foi a adoração do bezerro de ouro; hoje, infelizmente, assistimos à repetição disto, com o estado sionista agora sendo objeto de adoração. Até o surgimento e crescimento da influência do sionismo político, os líderes judeus eram escolhidos com base na piedade, decência, conhecimento e por seu amor à justiça e misericórdia. Hoje, os chamados líderes judeus, completamente desqualificados em relação à lei judaica e aos conceitos tradicionais, fazem pronunciamentos e tomam decisões em nome do povo judeu. Isto acontece particularmente nos Estados Unidos, onde existe a maior comunidade judaica de nossos dias. Não esqueço nunca a observação de uma mulher em Oklahoma: "O judaísmo hoje não é maravilhoso? Tudo que temos que fazer é dar dinheiro."

Até sua morte, rabino Blau refutou os sionistas que muitas vezes afirmaram que o Neturei Karta nada mais era do que uma seita insignificante de umas poucas almas. Contudo, quando, há dois anos atrás, numa manhã de sexta-feira, rabino Blau morreu em Jerusalém, em poucas horas mais de 22.000 homens acorreram ao seu funeral.

Em todas as ocasiões do passado, os desencaminhadores dos judeus cedo ou tarde ficaram pelo caminho e só triunfaram aqueles que defenderam a validade da Torá e do Talmud (a lei escrita e falada) e do Halachah. O Neturei Karta continua nesta tradição. Eles continuam a reprovar o sionismo e a falar para o verdadeiro povo judeu, aqueles que não foram desviados pelo sionismo.
Durante a conquista romana da Terra Santa, havia judeus que, com base no nacionalismo e no orgulho racial, estavam certos de que não perderiam a guerra. Como os sionistas de nossos dias, eles se opuseram a qualquer acordo e estavam determinados a lutar até o fim. Naquela época, no entanto, há quase dois mil anos atrás, rabinos como Yochanan ben Sakkai, escolheram um caminho diferente. Os embates militares impediram-no de deixar Jerusalém sitiada para ir negociar com os romanos, assim o próprio rabino saiu num caixão levado por seus discípulos até os quartéis romanos. Ele disse aos romanos que os judeus não necessitavam de exército ou armas e pediu permissão para criar uma yeshiva, uma escola religiosa judaica, emYavneh. Foi esta escola religiosa, e não os militares ou generais daquele tempo, que ajudaram a perpetuar o judaísmo e a identidade do povo judeu.

Deve ser dito explicitamente que, da mesma forma que nem todos os judeus são sionistas, nem todos os sionistas são judeus. Os motivos por que alguns desses sionistas não judeus, como por exemplo, Lord Balfour e o General Smuts, estão abertos à discussão. Desde o começo do movimento sionista, alguns dos mais articulados e ardorosos sionistas foram pastores cristãos, principalmente os "fundamentalistas", que saudaram o sionismo como um importante movimento "religioso" e o receberam como o cumprimento da profecia. Eles também, e de forma significativa, serviram à causa do sionismo.

Um dos objetivos básicos do sionismo é aliyah, a imigração de judeus de todas as partes do mundo para o estado sionista. Não obstante, há poucos anos atrás, centenas de milhares de israelenses se retiraram do paraíso sionista e os judeus americanos "votaram com os pés" e escolheram não se juntarem lá. Esses judeus reconhecem que o estado sionista nada mais é do que um imenso gueto.

Ao invés de prestarem assistência às comunidades judaicas de outros países, os judeus americanos mobilizaram-se para se concentrar na ajuda ao estado sionista, transformando os Estados Unidos na maior fonte de poder e influència dos sionistas. Os sionistas, fiéis à natureza de seu movimento, contam com superioridade técnica e poder militar - fornecidos em grande parte pelos Estados Unidos - para a sua segurança.

Nada poderia estar mais distante dos verdadeiros ideais do povo judeu. O povo judeu foi escolhido em primeiro lugar "porque vós sois os líderes de todas as nações". Conforme dizem os Salmos, " eles contam com veículos e cavalo-vapor, mas nós invocamos o nome do Eterno, nosso Deus."

Merece menção uma das questões mais importantes. Um ex-presidente da Organização Sionista Mundial declarou explicitamente que um sionista deve lealdade inapelável ao estado sionista e que, em caso de um conflito, a primeira lealdade de um sionista deve ser para com o estado sionista. De acordo com a lei judaica, no entanto, um judeu deve obediência e lealdade ao país do qual ele é um cidadão e, claro, nenhum judeu fiel deve lealdade ou obediência ao estado sionista que tenha sido condenado pelo mais ilustre dos rabinos de nossa época.

Não é meu propósito detalhar como o sionismo deve ser tratado. Quero declarar, no entanto, que atos isolados ou espontâneos contra indivíduos ou a simples adoção de resoluções da ONU ou quaisquer outras não produzem os meios efetivos para pôr um fim ao sionismo. Quero declarar também que a batalha contra o sionismo precisa ser feita primeiro, não no litoral do Mediterrâneo, mas no mais poderoso bastião do sionismo - nos Estados Unidos.

Como cidadão americano, deploro que nosso governo e nossos políticos tenham adotado uma atitude que está em total contradição com o conselho do pai de nosso país, George Washington. O governo de Washington abraçou o sionismo tão devotadamente que qualquer crítica ao estado sionista ou qualquer oposição ao sionismo político nos Estados Unidos tornou-se uma ofensa passível de punição. E a dócil mídia americana não ousa falar contra tal absurdo.

Infelizmente, a cada ano vemos os sionistas americanos ganharem mais influência. Este fato tornou possível eventos e progressos que seriam impensáveis há dez anos atrás. É preciso muita coragem para opor-se ao sionismo nos Estados Unidos hoje em dia. Também precisou muita coragem ser anti-fascista na Itália, ou anti-nazista na Alemanha, durante a II Guerra Mundial. No geral, o sionismo nada mais é do que uma aberração na longa história do povo judeu e do mundo.

Tenhamos fé e esperança na certeza de que finalmente o preconceito, o ódio e a injustiça desaparecerão e que a profecia tornar-se-á realidade, a de que todas as nações do mundo participarão da peregrinação a Jerusalém, "porque Minha casa será chamada de casa de oração por todas as nações."

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

NAZISRAEL

"A destruição sistemática de lugares sagrados, de escolas, universidades e a matança de inocentes são crimes de guerra. Os criminosos serão julgados."


por José Arbex Jr.

"Quem deveria ser preso pelo assassinato de 120 paramédicos palestinos? Quem deveria ser condenado pela morte de mais de 1200 palestinos e pela punição coletiva imposta a 3 milhões de civis nos últimos dezoito meses? E quem deveria enfrentar a justiça internacional pela ocupação ilegal de terras palestinas e pela desobediência às resoluções da ONU por mais de 35 anos?"


O autor dessas perguntas, Lev Grinberg, é cientista político e diretor do Instituto Humphrey de Pesquisa Social da Universidade Ben Gurion, em Israel. Não é, portanto, nenhum "anti-semita", nenhum "islâmico fanático", nenhum "apoiador do holocausto", ninguém, em resumo, que possa ser enquadrado nos habituais e imbecis insultos destinados a qualquer um que critique o governo de Israel.

Grinberg continua: "Quero perguntar: quem prenderá Sharon, a pessoa diretamente responsável pelas ordens para assassinar os palestinos? Quando ele também será qualificado como terrorista? Por quanto tempo ainda o mundo pretende ignorar aquilo que dizem os palestinos – que eles apenas querem liberdade e independência? Quando vamos parar de ignorar o fato de que o objetivo do governo israelense não é a segurança, mas sim a permanente ocupação e dominação do povo palestino?"

O Relato de Mário Lill


A julgar pelas cenas de nazismo explícito praticado nas últimas semanas pelo exército de Israel contra o povo palestino, pessoas como o professor Grinberg ainda terão de esperar muito para aplacar sua angústia e indignação.

Vejamos o que relata Mário Lill, o brasileiro que ficou famoso ao entregar uma bandeira do MST a Yasser Arafat, durante um encontro mantido em seu escritório, na cidade sitiada de Ramallah. Lill fazia parte de uma comitiva internacional organizada pela Via Campesina, em solidariedade para com o povo palestino. A comitiva chegou em Ramallah no dia 28 de março, quase que no mesmo momento em que começou o pesadelo.

Em entrevistas diárias concedidas à rede de rádio CBN e em emails distribuídos pela Internet, Lill disse que "Sharon comanda um genocídio". Segundo ele, o exército israelense "está matando civis nas ruas e em suas casas, indiscriminadamente". E mais: "Os soldados também estão entrando nos hospitais, matando pessoas feridas e prendendo os médicos. As ambulâncias estão impedidas de circular e recolher os feridos. Até mesmo ambulâncias com organizações humanitárias estrangeiras estão sendo detidas".

Mentiras de um certo "jornalista"


Não é exatamente esse quadro que transparece na cobertura feita pela mídia internacional e brasileira. Thomas Friedman, o articulista do New York Times especializado em Oriente Médio, espécie de porta-voz daquele jornal, responsabiliza Yasser Arafat pela prática de terrorismo. Insiste na velha tecla de que Arafat poderia ter aceito o acordo de paz oferecido, em julho de 2000, por Bill Clinton e o então primeiro ministro israelense Ehud Barak, durante as negociações de Camp David. A ocupação israelense teria terminado, então, e estaria aberta a via para a formação do Estado Palestino. Arafat, ao recusar o acordo, teria estragado tudo. O único problema é que Friedman é cínico, mentiroso e parece acreditar que o mundo é povoado de imbecis.

A "tese" de Friedman – de resto, também defendida por um sem-número de papagaios sábios que , invariavelmente, adotam ares profundos de doutores para falar sobre o assunto – não resiste à menor análise.

Stephen Shalom, professor de ciências políticas na universidade William Paterson, de Nova Jersey, e articulista da revista eletrônica Z Net, lembra que um dos integrantes da equipe de negociadores de Bill Clinton, Robert Malley, lançou um livro definitivo sobre o assunto, no qual mostra que Arafat não poderia aceitar o acordo simplesmente porque não havia acordo algum (Camp David: The Tragedy of Errors, Robert Malley e Hussein Agha, New York Review of Books).

No livro, Malley nota que Barak, longe de ser o "democrata cordial" pintado pela mídia, multiplicou o número de assentamentos israelenses nos territórios palestinos ocupados durante o ano que durou o seu mandato. Em Camp David, diz Malley, Barak fez uma oferta indecente a Arafat, e ainda assim jamais escrita nem detalhada. Segundo Malley, "estritamente falando, nunca houve uma proposta israelense".

E qual foi a proposta que não houve? Para "resolver" o problema dos assentamentos israelenses, os palestinos receberiam uma área (não especificada, que Israel escolheria) equivalente a 1 por cento do total da Cisjordânia, em troca de 9 por cento da Cisjordânia onde já estavam formados assentamentos, que, na prática, dividem a Cisjordânia em regiões separadas. Isto é, a "proposta generosa" de Barak se resumia a criar bantustões palestinos.

Suicidas e terroristas


Stephen Shalon também nota que não há, nem pode haver, qualquer simetria entre o gesto desesperado dos palaestinos suicidas e a matança a sangue frio promovida pelos soldados israelenses. A razão é tão simples quanto trágica: "Muitos daqueles que aderem aos grupos terroristas enfrentam uma vida de desemprego e pobreza (...). Quando o desemprego atinge a margem dos 40 por cento e cerca de 45 por cento da população tem menos de 15 anos (como é o caso da Cisjordânia e Faixa de Gaza), as pessoas têm dificuldade em acreditar que seu futuro será brilhante". Essas considerações foram feitas a congressistas, dia 6 de fevereiro, pelo insuspeito Carl W. Ford Jr., secretário assistente de informação e pesquisa de Estado dos Estados Unidos.

Ninguém está dizendo, aqui, que a miséria justifica o terrorismo. Não justifica. Mas os números revelam a tragédia humana vivida pelos palestinos. Não há como comparar um jovem desesperado de 15 anos com soldados treinados para praticar o genocídio. Não há como dizer que Arafat é o responsável pelo presente caos, quando se sabe que Sharon é, reconhecidamente, um gorila truculento nazista, e que foi ele quem provocou a "nova Intifada" ao visitar, em setembro de 2000 – protegido por um exército de guarda-costas e abençoado pelo "democrata" Ehud Barak -, a Esplanada das Mesquitas, no coração da Velha Jerusalém, um lugar sagrado para os muçulmanos.

Novamente, essa percepção não é defendida por "islâmicos fanáticos" ou "anti-semitas", mas por gente digna e honesta, como os já citados Lev Grinberg e Stephen Shalom, e por muitos outros professores, ativistas, escritores e intelectuais israelenses, como Michael Warchawski, Uri Avneri e o filósofo Sergio Yahni (membro do Conselho Consultivo do Fórum Social Mundial), que aliás foi preso, no dia 19 de março, por ter se recusado a servir, como reservista no Exército facínora de Sharon.

Tolices da Mídia Brasileira


A mídia brasileira, finalmente, prossegue – com raras e honrosas exceções – a sua tradição e repetir as tolices, os preconceitos, as mentiras, os mitos e as falsificações propagados pela mídia americana. A frase "novo atentado suicida praticado por terrorista palestino" é repetida inúmeras vezes, em artigos, na televisão e no rádio, sem que jamais alguém pare para perguntar o que leva um jovem a se matar. Claro, existe até um resposta pronta, caso alguém faça uma pergunta tão estranha: os suicidas são islâmicos, ora, e portanto fanáticos, logo terroristas. E está tudo certo.

Mas como explicar, então, a brutalidade da "ocidental" e "democrática" sociedade israelense? Não faltam os "especialistas" de plantão para dizer, por exemplo, que a "dureza" dos soldados de Sharon é resultado da "perplexidade da sociedade israelense" face aos "atentados terroristas palestinos". Assim, a vítima é responsável por seu próprio flagelo! E os autores de teses tão sofisticados e brilhantes ocupam, não raro, postos importantes nos maiores e melhores centros universitários desta país. É amargamente risível.

O nazista Sharon promove um genocídio, eis tudo. Só que, com isso, ele está também destruindo a sociedade israelense. Não há como viver em um país cercado de inimigos. Pela primeira vez, começa a haver uma nova diáspora judaica de Israel. A "terra prometida", hoje, só promete a angústia. Sharon é a morte para judeus e palestinos.

Publicado em Abril de 2002 na Revista Caros Amigos