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domingo, 18 de janeiro de 2009

Dois artigos contrastantes sobre a invasão e ataques israelense à Gaza

Gaza é um caso clássico de exploração colonial
Por José Arbex Jr.

Israel é uma potência militar que há quatro décadas mantém a ocupação ilegal da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, contra todas as determinações da ONU. É um estado neocolonialista. O povo palestino, incluindo o Hamas, tem o pleno direito de reagir às humilhações, às agressões, à segregação cultural, étnica e religiosa.

Alguém poderá dizer que o quadro descrito acima é exagerado. Muito bem. Vamos aos fatos.

“Em Gaza, os colonizadores judeus eram apenas 8 mil em 2005, comparados com 1,4 milhão de residentes. Ainda assim, controlavam 25% do território e 40% da terra arável. A maioria da população vivia em pobreza abjeta e miséria inimaginável. Oitenta por cento deles ainda subsiste com menos de 2 dólares por dia.”

Os dados são fornecidos pelo judeu israelense Avi Shlaim, “alguém que serviu lealmente ao Exército de Israel na metade dos anos 60 e nunca questionou a legitimidade do Estado de Israel dentro das fronteiras pré-1967”. Apóio-me, portanto, nas afirmações de alguém que jamais poderá ser acusado de “anti-semita” ou qualquer estupidez semelhante (estupidez sempre muito conveniente, aliás).

“Quatro décadas de controle israelense causaram danos incalculáveis à economia da Faixa de Gaza”, continua Shlaim. “Gaza, no entanto, não é apenas um caso de subdesenvolvimento, mas um caso unicamente cruel de ‘des-desenvolvimento’ deliberado. Para usar uma frase bíblica, Israel transformou o povo de Gaza em hewers of wood and drawers of water, em fonte de trabalho barato e um mercado cativo para os bens de Israel. O desenvolvimento da indústria local foi ativamente impedido para tornar impossível aos palestinos acabar com sua subordinação a Israel e estabelecer as bases essenciais para uma independência política real. Gaza é um caso clássico de exploração colonial na era pós-colonial.”

Em agosto de 2005, o então primeiro-ministro Ariel Sharon retirou 8 mil colonos de Gaza, mas ao mesmo tempo promoveu o assentamento de 12 mil novos colonos na Cisjordânia. Cercada pelo terceiro ou quarto exército mais poderoso do mundo (às custas do contribuinte estadunidense), Gaza tornou-se uma imensa prisão a céu aberto. A retirada dos colonos não correspondeu a um movimento pela paz, mas sim a uma tentativa de desenhar as fronteiras do Estado israelense, à revelia dos palestinos. Não é possível ao povo palestino constituir um Estado viável tendo como base a Faixa de Gaza e os retalhos de uma Cisjordânia entrecortada pelo ilegal “muro da vergonha”.

Resta o argumento de que os foguetes do Hamas atingem israelenses inocentes e os terroristas do Hamas usam civis como escudos. Sim, é verdade. Mas as torcidas do Corinthians e do Flamengo sabem que Israel estimulou o surgimento do Hamas (para fazer oposição a Yasser Arafat). E se tem alguém que chantageia, oprime, assassina, ataca, humilha e esmaga a população civil palestina é Israel. A invasão de Gaza só agrava o quadro.

O caminho para a paz não passa pela invasão de Gaza, mas pela retirada de Israel de todos os territórios ocupados. Israel deve abandonar sua condição de Estado pirata.

José Arbex Jr. é doutor em História pela USP e diretor de Relações Internacionais do Icarabe (Instituto de Cultura Árabe).


Nenhuma nação se estabeleceu sem passar por uma guerra

Por José Luiz Goldfarb

Pode uma guerra ser justificada? A guerra sempre diminui nossa dimensão humana. Nela, o ser humano é menos ser humano: tem que matar semelhantes e seguir em frente na batalha sem poder se sentir abalado pelo ato realizado, e assim tem sua condição humana necessariamente diminuída. Se quisermos uma sociedade realmente humana, a guerra não pode ser justificada. Isto posto, como posso responder positivamente à questão aqui colocada? Não há uma contradição explícita?

Creio que não, e vejamos por quê. O moderno Estado de Israel é uma resposta do povo judeu a milhares de anos de vida no exílio sem possuir objetivamente um defensor efetivo contra sangrentas perseguições empreendidas por movimentos anti-semitas ao longo da história. Após o Holocausto nazista, ficou claro para os judeus que viver sem pátria, espalhados pelo mundo, tornara-se uma situação insustentável, um risco permanente.

A modernidade tornara-se um mundo de nações, e os judeus estavam ficando fora das normas do mundo moderno. Assim, a conquista de um pequeno pedaço de terra onde seus antepassados viveram e estabeleceram as bases de sua cultura milenar tornara-se uma questão de sobrevivência.

Infelizmente, não há nenhuma nação humana, no presente ou no passado, que tenha se estabelecido sem passar por uma situação bélica. Apenas para lembrar o caso das Américas, as nações indígenas foram exterminadas para que os países hoje existentes fossem estabelecidos. Cada pedacinho de terra que hoje pertence a esta ou aquela nação pelo planeta afora tem sua história sangrenta, foi marcado por uma guerra em sua constituição. Obviamente, cada povo espera que após estabelecer sua nação, possa entender-se com seus vizinhos e com aqueles que habitavam a terra que conquistaram para viver em paz.

Ainda hoje estamos nós brasileiros, por exemplo, acertando a situação dos povos indígenas – e com bastante dificuldade. A Europa viveu séculos de batalhas intermináveis e sangrentas até chegar ao século XX e provocar duas guerras mundiais, para finalmente iniciar um processo de entendimento que hoje parece consolidar-se, permitindo a convivência pacífica.

Infelizmente Israel, que em seus apenas 60 anos de existência, pode desenvolver uma fantástica cultura artística, científica, estabelecer uma nação avançada, não conseguiu estabelecer o diálogo com a totalidade de seus vizinhos árabes e equacionar a convivência pacífica com os palestinos, de modo que estes também estabeleçam sua nação independente.

Assim, com muito pesar, nós judeus temos ainda de estar prontos para enfrentar a situação terrível que diminui nossa condição humana e enfrentar conflitos armados com árabes e palestinos. A iniciativa do grupo Hamas, atacando o sul de Israel com foguetes e mísseis, não poderia ficar indefinidamente impune. É o caminho de nosso povo para estabelecer sua nação livre, soberana, garantindo a sobrevivência de seus habitantes.

Como todas as nações na Terra, negar este direito aos judeus é agir como os anti-semitas de todos os tempos, que de uma forma ou outra encontram argumentos para a eliminação dos judeus. Espero que o internauta atento faça uma reflexão séria frente a toda a maré de ataques (armados ou não) ao povo judeu e possa formar um juízo mais objetivo sobre a defesa de Israel aos ataques do Hamas. Shalom (paz).

José Luiz Goldfarb é professor de História da Ciência na PUC-SP e diretor cultural do Clube Hebraica.

O comandante-em-chefe enlouqueceu

por Uri Avnery*
17/1/2009

169 anos antes da guerra de Gaza, Heinrich Heine escreveu 12 versos premonitórios, sob o título de "An Edom" [para Edom]. O poeta judeu-alemão falava da Alemanha ou, talvez de todas as nações da Europa cristã. Escreveu o seguinte (aqui, em tradução precária[1]):

"Por mil anos e mais / vivemos um pacto / Você me deixou respirar / Eu deixei sua loucura crescer // Às vezes, quando os dias são mais escuros / Você é tomado de desejos estranhos / E pinta as garras / Com o sangue da vida das minhas veias // Hoje nossa amizade é firme / Cada dia mais forte, dia a dia / Porque sua loucura já ruge em mim / Eu, cada dia mais, à sua imagem."

O sionismo, que surgiu cerca de 50 anos depois de esses versos terem sido escritos, realizou plenamente essa profecia. Os israelenses nos tornamos nação idêntica a outras, e a memória do Holocausto, de tempos em tempos, nos faz agir como as piores nações. Poucos israelenses conhecem esses versos de Heine, mas Israel, como país, é encarnação deles.

Nessa guerra, políticos e generais têm repetido que "o dono da barraca enlouqueceu", como gritam os feirantes, no sentido de "o dono da barraca enlouqueceu e está distribuindo tomates de graça." Mas ao longo do tempo algo foi acontecendo e converteu-se em doutrina mortal que muito seguidamente aparece no discurso público, em Israel: para deter os inimigos de Israel, Israel terá de agir como louco, sem limite, matar e destruir o mais possível, sem limite, sem piedade.

Nessa guerra, a loucura tornou-se dogma político e militar: só se Israel matar a maior quantidade possível de "eles", mil "eles" para cada dez "dos nossos", então "eles" entenderão que não vale a pena meter-se "com Israel". "Tem de entrar na consciência deles..." - é frase que se ouve muito, hoje em Israel. Daqui em diante, "eles" pensarão duas vezes antes de agredir Israel com Qassams, mesmo que em reação... ao que Israel faça a "eles", seja lá o que for.

É impossível avaliar o quanto há de vicioso nessa guerra, sem pensar no contexto histórico: o sentimento de vitimismo, depois de tudo que os judeus sofreram ao longo dos anos, e a convicção de que, depois do Holocausto, os judeus teriam algum direito de fazer qualquer coisa, qualquer coisa, absolutamente qualquer coisa, para defenderem-se, sem peias, sem limites nem legais nem morais.

Quando estava no auge a matança e a destruição em Gaza, aconteceu algo, nos distantes EUA, que nada teve a ver diretamente com a guerra, mas, ao mesmo tempo, é muito intimamente conectado com ela.

O filme israelense "Waltz with Bashir"[2] recebeu um importante prêmio internacional. Os jornais, em Israel, festejaram o prêmio com orgulho, tanto quanto atentamente não ofereceram nenhuma informação sobre o filme. Só até aí, já foi fenômeno interessante: saudou-se o sucesso de um filme, tanto quanto não se informou sobre o tema do filme.

"Waltz with Bashir" é um importante filme-documentário-animação sobre um dos capítulos mais negros da história de Israel: o massacre de Sabra e Chatila. Durante a I Guerra do Líbano, uma milícia de libaneses cristãos, sob os auspícios do exército de Israel, massacrou centenas de refugiados palestinenses, encurralados num campo de refugiados, homens, mulheres, crianças e velhos. O filme narra essa atrocidade com acuidade meticulosa, sem omitir a participação de israelenses.

Nada disso se leu nos jornais de Israel, no noticiário sobre o prêmio. Na cerimônia de premiação o diretor do filme protestou contra o massacre de Gaza. Não se sabe exatamente quantas mulheres e crianças estavam sendo assassinadas no momento em que acontecia a cerimônia - mas não há dúvidas de que o massacre em Gaza foi ainda mais terrível que o de 1982. Naquela ocasião, 400 mil israelenses saíram de casa e protestaram, nas ruas, em protesto espontâneo, que ninguém convocou, em Telavive. Hoje, apenas 10 mil israelenses têm ido às ruas, quase diariamente, para protestar contra a matança em Gaza.

A comissão oficial de investigação do governo israelense que investigou os eventos do massacre de Sabra declarou que "Israel foi indiretamente responsável" pela atrocidade. Vários altos funcionários e oficiais foram suspensos. Entre eles, um comandante-de-divisão, Amos Yaron. Nenhum dos demais indiciados, do ministro da Defesa, Ariel Sharon, ao chefe do estado-maior, Rafael Eitan, jamais manifestou uma palavra de arrependimento, mas Yaron expressou algum remorso, em discurso aos seus comandados, e admitiu: "nossa sensibilidade estava obnubilada".

Muitas sensibilidades continuam muito evidentemente obnubiladas, na guerra de Gaza.

A primeira guerra do Líbano durou quase 18 anos[3] e morreram mais de 500 soldados israelenses. Os arquitetos da segunda guerra do Líbano decidiram que a guerra seria mais curta, com menos israelenses mortos. Inventaram o princípio do "comandante louco": destruir tudo, vilas, cidades, devastação total, destruir, até reduzir a ruínas a chamada "infra-estrutura". Em 33 dias de guerra, já havia 1.000 libaneses mortos, praticamente todos civis - recorde que já foi batido em Gaza, no 17º dia.

Mesmo assim, houve muitas baixas, no exército de Israel, nos combates diretos; e a opinião pública que, então, de início, apoiara a segunda guerra tanto quanto apoiara a primeira, rapidamente mudou de direção.

Dessa vez, pairam sobre a guerra de Gaza os fumos da segunda guerra do Líbano. Em Israel, todos juraram que haviam aprendido as lições daquela guerra. Mas a principal lição que a segunda guerra do Líbano ensinou a Israel foi: não arriscar a vida de nenhum soldado. Uma guerra sem israelenses mortos. Como fazer? Usar um descomunal poder de fogo para pulverizar o que quer que haja, matar tudo que se mova, no campo de visão de... qualquer um. Matar. Matar os combatentes adversários e, também todos os seres humanos que haja à vista e que representem qualquer tipo de ameaça - mesmo que esteja identificado como médico ou como enfermeiro, mesmo que esteja dirigindo uma ambulância, mesmo que seja motorista de um caminhão que carrega comida. Destruir todos os prédios de dentro dos quais alguém possa, presumivelmente, atacar algum soldado israelense - mesmo que seja uma escola cheia de refugiados, doentes e feridos. Bombardear, com canhões e granadas todos os prédios, casas, mesquitas, escolas, comboios da ONU, até ruínas de túmulos onde tenham sido enterrados os mortos de ontem.

A mídia israelense devotou horas de atenção a um foguete Qassam que caiu sobre uma casa em Ashkelon, cujos três moradores levaram um susto, e alguns segundos às 40 mulheres e crianças assassinadas numa escola da ONU. As sobreviventes declararam que "atiraram contra nós a queima-roupa" - frase que a mídia em Israel imediatamente desqualificou como "evidente mentira".

O poder de fogo foi usado para semear o terror - bombardear tudo, de um hospital a um armazém da ONU em que se guardava comida para distribuição e mesquitas. O pretexto? O de sempre: "os soldados israelenses foram atacados".

Nada disso aconteceria, se toda a Israel já não estivesse com "a sensibilidade obnubilada". Os israelenses já não se chocam ante a imagem de um bebê mutilado, ou ao saber que crianças passaram dias ao lado do cadáver da mãe, porque soldados israelenses impediam que saíssem das ruínas de sua casa. Ninguém se importa: nem os soldados, nem os pilotos, nem os jornalistas, nem os políticos, nem os generais.

A insanidade moral contaminou todos os israelenses. O principal agente da contaminação, expoente nacional da insanidade moral em Israel, é Ehud Barak. De fato, já está sendo derrotado, em quociente de insanidade moral por Tzipi Livni, que sorriu, na televisão, ao falar desses eventos horripilantes. Nem Heinrich Heine poderia ter imaginado tudo isso.

Os últimos dias foram dominados pelo "efeito Obama".

Estamos num avião e, de repente, aparece à frente uma enorme montanha, num vazio entre as nuvens. Na cabine, pânico: como evitar a colisão?

Quem planejou a guerra escolheu cuidadosamente o timing: nos feriados de fim de ano, todos fora de suas bases, e Bush ainda por aí. Parecem tem esquecido que, dia 20/1, Obama assumirá a Casa Branca.

Essa data, agora, lança uma sombra de pressa sobre todos. O Barak israelense sabe que, se o Barak norte-americano se zangar, é desastre na certa. Conclusão: os horrores em Gaza têm de cessar antes da posse de Obama. Essa semana, esse é o único fato a ser considerado em todas as decisões políticas e militares. Esqueçam "os foguetes", esqueçam "a vitória", esqueçam "quebrar o Hamás".

Com o cessar-fogo, surgirá a questão de decidir quem ganhou, quem perdeu.

Em Israel, só se fala sobre "o quadro da vitória" - não sobre alguma vitória; só se fala sobre "o quadro". A metáfora é essencialmente importante, para convencer a opinião pública israelense de que foi bom negócio. Nesse momento, todos, milhares de jornalistas, até o menor deles, estão mobilizados para a missão de pintar o tal "quadro".

Os líderes israelenses rugirão a propósito de duas "realizações": o fim dos foguetes e o fechamento da fronteira Gaza-Egito (também chamado "corredor Filadelfo"). Os foguetes poderiam ter sido controlados sem essa guerra assassina, se o governo de Israel tivesse concordado em negociar com o Hamás, depois de o partido ter sido eleito na Palestina. Os túneis nem teriam sido escavados, antes de tudo, se o governo israelense não tivesse imposto o bloqueio mortal, na Faixa de Gaza.

Mas o principal sucesso de que se vangloriarão os senhores-da-guerra em Israel é, ao mesmo tempo, o 'sucesso' da selvageria e da barbárie impressas no próprio projeto de guerra: as atrocidades, do ponto de vista deles, terão "efeito de contenção"; e esse efeito, crêem eles, perdurará por muito tempo.

O Hamás dirá que obteve imensa vitória; que a evidência de que sobreviveram em luta contra a gigante Israel e sua máquina de guerra é, só ela, vitória; um pequeno Davi contra o gigante Golias. É vitória. Nos termos das definições clássicas, exército vencedor é o que continua no campo de batalha, depois da batalha. O Hamás lá está. O governo do Hamás continua vivo na Faixa de Gaza, contra toda a guerra que foi feita para eliminá-lo. É feito significativo.

O Hamás dirá também que o exército de Israel não ocupou facilmente as cidades da Palestina onde havia combatentes do Hamás. É verdade. O exército já informou o governo de que tomar a cidade de Gaza custará a vida de cerca de 200 soldados; ninguém aceitará pagar esse preço, às vésperas das eleições.

Evidente verdade é, também, que uma força de guerrilheiros, alguns milhares de combatentes armados só com armas leves, lutou durante longas semanas contra um dos mais poderosos exércitos do mundo e que, em vários sentidos, conseguiu, sim, deter-lhe o avanço. Isso será visto por milhões de palestinenses e por todos os árabes e muçulmanos - e não só por esses - como vitória importantíssima.

No final, haverá alguma espécie de acordo, que incluirá os termos óbvios. Nenhum país admitiria que seus cidadãos vivam expostos a foguetes disparados de fora das fronteiras. Nenhuma população admitiria viver para sempre sob bloqueio desumano. Então, (1) o Hamás terá de desistir dos foguetes; (2) Israel terá de abrir os pontos de passagem entre a Faixa de Gaza e o resto do mundo; e (3) terá fim a entrada de armas para a Faixa (na medida do possível), como Israel pede. Chegar-se-ia ao mesmo resultado, sem guerra, se o governo de Israel não tivesse boicotado o Hamás.

Seja como for, os piores resultados dessa guerra já são visíveis e continuarão visíveis por muitos anos: Israel imprimiu terrível imagem dela própria na consciência do mundo.

Bilhões de pessoas viram os israelenses como bestas-feras, de dentes pingando sangue. Nunca mais voltarão a ver Israel como Estado que busca paz, progresso e justiça. A Declaração de Independência norte-americana fala com aprovação e recomenda "respeito decente às opiniões da humanidade". É sábio princípio.

Ainda pior é o impacto sobre as centenas de milhões de árabes que cercam Israel nessa parte do mundo: verão os combatentes do Hamás como heróis da nação árabe e, além disso, também verão seus próprios governos nacionais em plena nudez, como são: criminosos, venais, corruptos e traiçoeiros.

A derrota dos árabes na guerra de 1948 determinou, quase como consequência imediata, a queda dos regimes árabes de então e a ascensão de uma nova geração de líderes nacionalistas. De Gamal Abd-al-Nasser, por exemplo. A guerra de 2009 pode determinar a queda da atual safra de governantes árabes e a ascensão de uma nova geração de líderes - e podem ser fundamentalistas islâmicos que odeiam Israel e o ocidente.

Nos próximos anos, todos verão com clareza a absoluta loucura que foi a guerra de Gaza. O comandante-em-chefe enlouqueceu - no sentido literal das palavras.

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[1] Em tradução de John Paine (em Old Poetry), do alemão para o inglês: "WITH each other, brother fashion, / Have we borne this many an age. / Thou hast borne with my existence, / And I borne have with thy rage. / Many a time, in days of darkness, / Wonder-strange hath been thy mood, / And thy dear and pious talons / Hast thou reddened in my blood. // Now our friendship groweth closer; / Nay, it waxeth daily now: / I myself begin to bluster / And am nigh as mad as thou."

[2] Sobre o filme-documentário-animação, há informação em Cinematograficamente Falando

[3] Oficialmente, durou de 1975 a 1990, com períodos de trégua. Sobre isso, ver: Icias

* URI AVNERY, 17/1/2009, "The Boss Has Gone Mad", em Gush Shalom [Grupo da Paz]. Tradução de Caia Fittipaldi, autorizada pelo autor.



terça-feira, 6 de janeiro de 2009

O povo judeu é uma invenção?

 "Não sou um escritor, sou historiador. E este não é simplesmente um livro de história, mas um livro que desconstrói a história. Tinha medo de publicar, mas sei que vivo numa sociedade muito liberal e pluralista. Na verdade, a maior parte das evidências e provas no livro já é conhecida. Eu não descobri nada novo, só organizei de forma diferente o conhecimento já produzido sobre as origens de Israel."

Entrevista: Shlomo Sand
Historiador da Universidade de Tel Aviv. Nascido na Áustria, filho de judeus poloneses sobreviventes do Holocausto, é doutor em ciência política e especialista em teorias do nacionalismo

Por: Glória Paiva
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Para historiador de Tel Aviv, reinos de Davi e Salomão não existiram e origem étnica é diversa

Há 20 semanas, um livro de história supera romances e obras de auto-ajuda, figurando entre os mais vendidos nas livrarias israelenses. Seu autor, Shlomo Sand, não esperava tamanho sucesso e tampouco a tradução de seu trabalho para seis línguas. "When and how was the Jewish People Invented?" (Como e quando o povo de Israel foi inventado?, ainda sem tradução para o português) trouxe uma brisa de ar fresco aos empoeirados tratados sobre a história de Israel, além de uma boa dose de polêmica.


A obra de Sand reúne evidências arqueológicas, notas geográficas e históricas e os mais diversos registros para embasar sua teoria: de que a história de Israel como a conhecemos é uma invenção do século XIX. Para Sand, não existe um povo judeu com origens, língua e passado em comum, mas uma profusão, em diferentes épocas e países, de conversões ao judaísmo e migrações proselitistas.


O autor nega a existência dos dois exílios judaicos (no século V a.C. e em 70 d.C.), atestando que os romanos jamais exilaram um povo, e alega que não há provas sobre os reinos de Davi e Salomão. "O sionismo mudou a idéia de Jerusalém. Antes, os lugares sagrados só serviam para serem adorados, e não para viver neles. Por 2.000 anos, os judeus ficaram longe de Jerusalém não porque os romanos os impediam, mas porque sua religião proibia isso até a vinda do messias."


Sand também critica a ausência de menções, na historiografia judaica, ao reino dos cazares, povo turcomano que ocupou a atual Rússia entre os séculos VII e X e se converteu massivamente ao judaísmo. O historiador explica que esta foi a gênese de uma grande população judaica falante de iídiche da Europa central e oriental. A controvérsia se completa quando Sand atesta que os palestinos da atual Cisjordânia são descendentes diretos dos judeus daquela região, convertidos ao islamismo na ocupação muçulmana. Abaixo, confira aa entrevista concedida por Sand ao jornal O TEMPO.

O TEMPO - Você se surpreendeu que seu livro esteve por 19 semanas entre os best-sellers de Israel?


Shlomo Sand - Na França o livro também virou best-seller. Foram vendidos 8.000 exemplares. Em Israel, fiquei surpreso sim, porque sei que não se trata de um livro fácil. Infelizmente não sou um escritor, mas um historiador. E este não é simplesmente um livro de história, mas um livro que desconstrói a história, em sua estrutura e em seu tema. Tinha medo de publicar, para ser sincero, porque em Israel nunca vimos um livro assim. Mas sei que vivo numa sociedade que possui uma cultura muito liberal, tolerante e pluralista - apesar de não ser uma democracia. Digo isso porque - e é justamente o cerne do meu livro - o nacionalismo de Israel não é religioso, como muitos pensam, mas etnocêntrico. Acho que as pessoas que constru­ram o Estado de Israel estavam muito distantes da religião. A religião foi instrumentalizada para que as fronteiras e a nação em si fossem criadas. Depois, não conseguiram se libertar das definições religiosas. Uma democracia não pode ser construí­da dessa maneira.



Quem você acredita serem seus leitores?

Acho que os jovens estão bem interessados no meu trabalho. Israel é composto de muitos grupos. Jerusalém é completamente diferente de Tel Aviv. Acho que a maior parte dos meus leitores está em Tel Aviv, que é um lugar menos etnocêntrico, mais aberto ao futuro.



Você se sente solitário em sua tese? Foi o primeiro ou único a defendê-la?

Não gosto da palavra complicado, mas sei que o livro não é fácil, como já disse. Mas a maior parte das evidências e provas no livro já é conhecida e os historiadores profissionais sabem disso. Eu não descobri nada novo, só organizei de forma diferente o conhecimento que já foi produzido até aqui, sobre as origens de Israel. Acho que foi uma evolução, porém, organizar essas provas históricas de uma nova maneira. Eu coloquei isso na capa. Em nosso pa­ís, a educação histórica da sociedade é usada pelo poder, para criar o conceito de nação de Israel. A organização do conhecimento é uma ferramenta.



Como foi seu trabalho de pesquisa?

Eu peguei evidências de 15 anos de pesquisas. É um novo livro, mas uma história antiga. Em alguns pontos, joguei uma nova luz. Como historiador, fui muito solitário, porque antes de mim apenas cientistas pol­ticos trataram o tema da origem de Israel dessa maneira, não historiadores. Os historiadores são muito conservadores por aqui. Utilizei obras de geógrafos, cientistas pol­ticos, arqueólogos. Eles estão mais abertos a essa teoria. Para você ter uma idéia, nas universidades de Israel temos um departamento de história e um departamento de história judaica. Eles dividiram essas áreas, e eu pertenço ao departamento generalista. Isso está errado, você percebe? Na sociologia, por exemplo, não existe essa divisão.



Onde você achou provas para a sua teoria?

Em livros de história antiga, no Talmude, livros latinos, historiadores árabes. Em muita coisa do século XI. Também busquei estudos de acadêmicos da área de sociologia e ciência pol­tica, e eles me ajudaram em muitos pontos. Na arqueologia encontrei algumas novidades, todas descobertas dos últimos 20 anos. Tirei delas muitas conclusões e, sem elas, não teria coragem de escrever o livro.



Você diz que a interpretação da história judaica conhecida atualmente vem de historiadores do século XIX. Existiu um processo de criação dessa história?

Na segunda metade do século XIX, eles começaram a pensar em Israel como nação. Na primeira metade, não se pensava nisso ainda. Foi uma invenção, sim. E eles - os antigos historiadores - tiveram êxito em criar uma história para a nação. Eles foram obrigados a criar um passado comum que unisse o povo judeu. Processos semelhantes acontecem em todo o mundo, no Brasil, inclusive. Uma das condições ao se criar uma nação é inventar uma história linear. É uma forma de ser coerente, porque geralmente a origem de um povo é plural. A idéia de nacionalismo implica criar algo coerente para as pessoas pensarem que têm a mesma origem. Mas ninguém queria tocar na questão judaica. As pessoas têm medo, mas é meu dever dizer o que considero verdade. Eu mesmo sou israelense e quero saber dessa verdade.



Como o sr. disse, o processo de criação na história é comum em muitas nações. O que houve de peculiar no caso de Israel?

A peculiaridade é que precisávamos crer que estávamos lá há muito mais tempo que os palestinos. Os ideais nacionalistas de Israel precisavam criar uma idéia de que lá era um refúgio, um lugar para onde os judeus pudessem voltar. A visão do passado histórico judeu precisava se conectar com a história bí­blica. O passado era importante para justificar a colonização dessa terra. Foi preciso brigar para colonizar a Palestina. Mais que em outros pa­íses, talvez.



Você acha que houve um esforço coletivo para encobrir a história judaica verdadeira?

Vamos colocar dessa maneira: o judaí­smo é uma religião. Essa presença da religião foi importante, mas isso não significa que o povo judeu existe como um povo, que descende do mesmo etnos. Existiu, no passado. Uma nação é uma nação quando tem em comum a lí­ngua, o passado, os hábitos culturais. Os judeus não têm isso. A única coisa em comum é a religião. Por isso me pergunto porquê o nosso povo se chama de nação. A origem de um grupo judeu que veio da Ucrânia é completamente diferente de uma famí­lia judaica que tem origem no Marrocos. Isso é tão claro. Muitos judeus querem acreditar que são especiais, mas não são. O conceito de nacionalismo aqui está errado: Israel é tido como um Estado de judeus, e não de israelenses. E eu ainda acho que essa definição vai destruir Israel. Um Estado que se baseia no etnos, e não no demos, tende a desaparecer. Israel não pode continuar sendo um Estado de refugiados judeus que sofrem por serem judeus. Tenho alunos judeus e palestinos que falam hebraico melhor que eu. Assim deveria ser pensado o Estado de Israel.



Você defende a tese de que o povo judeu não viveu os dois êxodos e não tem a mesma origem étnica. Isso é uma teoria nova?

A maioria dos historiadores aqui, mesmo os sionistas em sua visão de mundo, sabe disso - que os dois ex­lios não existiram. Não há livros sobre o êxodo. Nenhum. Mas há uma tese, dos anos 1920, de Yitzhak Ben Zvi, que seria presidente de Israel, que diz que os camponeses palestinos de hoje são descendentes dos antigos judeus que habitavam a região chamada Judáia. Por isso lhe digo: o livro não é simples. Mas posso te garantir uma coisa: ele é contra o anti-semitismo e contra o racismo.



Você defende a solução dos dois Estados para o conflito da região?

Sim. Eu não sou contra a existência de Israel. Sou contra a existência de um Israel etnocêntrico. Temos que ter dois Estados: um dos israelenses e outro dos palestinos. Não de judeus e muçulmanos. Eu me defino, politicamente, como um liberal.



Como você sentiu a reação ao seu livro, entre colegas israelenses?

Acredito que muitos ficaram chocados. Porque quebrei todos os limites da história judaica contada até hoje. Fui atacado por alguns historiadores, mas não me lembro de ter visto uma oposição verdadeira, com argumentos, à minha tese. As pessoas adoraram e odiaram, recebi milhares de cartas.

Bizarrice

"Não há nada de novo", afirma crítico de Sand

O mais impressionante, sobre o fenômeno de vendas literárias Shlomo Sand, foi o silêncio sepulcral sobre a sua obra - com exceção de um único historiador israelense, Israel Bartal, PhD e autor de vários livros sobre o tema, da Universidade Hebraica de Jerusalém.


"Não vi, no livro de Sand, nada de novo. Minha resposta a Sand é que nenhum historiador judaico jamais acreditou que a origem dos judeus é étnica e biologicamente pura. Ele nega a existência de posições centrais entre os historiadores judeus", ataca.

Segundo o crítico, nenhum especialista em história judaica "tentou esconder o impacto das conversões ao judaísmo no período antigo e no início da Idade Média." "Apesar de o mito do exílio existir na cultura popular, discussões sérias entre os historiadores não o levam em conta", observa.

De acordo com Bartal, os argumentos de Sand sobre a lacuna, na historiografia oficial, de informações acerca do reino dos cazares, são infundados. "O desejo de Sand de que Israel se torne um Estado que represente todos os cidadãos é válido, mas a maneira pela qual ele tenta conectar a plataforma política atual com a história do povo de Israel é bizarra e incoerente." (GP)

Publicado originalmente em: O tempo
A formatação é da Tita, de onde reproduzi o post

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Rumo a uma nova Nakba? O gueto de Gaza contado por aqueles que estão presos nele


A carta que publicamos aqui - datada o 22 de janeiro de 2008 – permite conhecer desde dentro a situação de desamparo em que se encontrava a população de Gaza presa nesta angustiosa prisão «cuja chave Israel jogou no mar» (*), quando ainda não tinha caído o muro da vergonha de Rafah.

31 de Janeiro de 2008

« Nos têm asfixiados e sofremos atrozmente. Três mil mulheres e crianças foram hoje até a fronteira egípcia a suplicar aos guardiãos que deixem os doentes passar pro Egito. Os militares egípcios os atacaram, bateram neles com os cacetetes, os rociaram com água e gases lacrimogêneos.

Como você sabe, Gaza está completamente presa. É uma situação indescritível. Há doentes e feridos que morrem por falta de medicinas. Não há gasolina nem diesel. As provisões que Israel autorizou em 21 de janeiro são insuficientes; não dá para fazer voltar a funcionar a bomba da central elétrica.

Precisamos de ajuda urgentemente. Não temos comida nem medicinas nem reservas de água. As lojas de alimentação estão vazias. Cortaram a eletricidade. Estamos economizando o gás que resta no botijão.

Tudo depende da eletricidade e, por tanto, do diesel. A água só sai da torneira com eletricidade. Como Israel nos priva de diesel, não há eletricidade nem água potável.

Desde faz muito tempo já não funciona o abastecimento de água nem a evacuação de águas residuais, que dependem da rede elétrica. Se as coisas não mudarem, de hoje para amanhã, vamos afundar. Acabou a reserva de água. Iremos à casa do vizinho e o vizinho estará na mesma situação que nós.

Sem diesel para que funcionem os geradores, todas as estações de filtrado estão mortas. Desde que Israel a bombardeou em 2006, a central elétrica só funciona com o mínimo de sua capacidade. Mas agora estamos secos. Se nada acontecer nas próximas horas vamos morrer de sede.

Refugiados palestinos, Líbano 1948 (UNRWA)

Acreditamos que Israel tem um plano preciso, que faz tudo isto para que derrubemos as portas, para ver como fugimos para o Egito. É sua maneira de se desfazer de nós.

Agora somos absolutamente conscientes que cortando a nossa água e os víveres Israel quer é nos estrangular. Como não pode nos massacrar a todos de golpe, nos corta os víveres e a água. Assim, eles acreditam que acabaremos por fugir em massa empurrados pela fome e a sede. A isso é que os israelenses chamam de transferência.

Tem jovens que pensam em ir embora para sempre se abrirem a fronteira. Ir onde for para fugir deste inferno.

Eu não irei embora. Fugir para encontrar-nos estacionados eternamente em lixões, como nossos irmãos que desde faz 60 anos estão estacionados nos campos de refugiados do Líbano? Não! Olhe os refugiados no Líbano e a Jordânia! O que se faz para tirá-los de onde estão presos?

Aqui ainda nos sentimos em casa, inclusive sob as bombas. Este é um sentimento essencial. Porque embora aqui, em Gaza, vivamos no inferno, ainda temos conseguido salvaguardar a nossa dignidade.

Pedimos aos jornalistas que vêm a Gaza que se comportem como seres humanos, que parem de ocultar a verdade ao mundo, quanto Israel nos faz sofrer.

Aqui há um povo que está morrendo de fome, de sede, de doenças, de miséria. Este povo pede pouco: que se reconheça o sofrimento e a injustiça que sofre, que se diga a verdade mostrando as imagens atrozes que falam por si mesmas. Senão, quem acreditará no que dizemos?

Somos seres humanos, não somos «terroristas».

Temos os mesmos direitos que os cidadãos de seus países. Pedimos aos meios de comunicação que parem de ocultar à opinião pública o fato de que Israel endurece cada vez mais seus castigos e de que nos esteja matando de fome e de sede porque votamos em Hamas em vez de Al Fatah.

Estamos estrangulados pelo bloqueio, economicamente; estamos estrangulados humanamente; estamos estrangulados em todos os sentidos pelos israelenses. Mas façam o que fizerem e por mais que nos esmaguem e nos encerrem, o único que conseguirão é fazer com que a nossa resistência aumente.

Agindo dessa forma cruel, os israelenses não conseguirão nunca que cesse o lançamento de foguetes. Cada uma das ações punitivas de Israel provocará uma reação da nossa parte.

Quando se acurrala um gato, ele se converte em leão.

O bloqueio que estamos sofrendo não começou em 17 de janeiro como dizem os meios de comunicação. Sofremos o bloqueio israelense desde faz dos anos. Nossa situação ficou ainda mais difícil porque também estamos submetidos ás sanções econômicas da União Européia.

O que piorou a nossa sorte é que agora estamos presos hermeticamente. Esperamos um milagre.

Sempre estamos divididos entre a esperança e o desespero. Às vezes nos desespera a idéia de que Israel nunca se verá obrigado a nos devolver a nossa liberdade; às vezes temos a esperança de ver que as portas se abrem.

Neste momento vemos que nossos vizinhos árabes começaram a se manifestar e fazer chamamentos a seus governos para que reajam. Ao mesmo tempo, sabemos que os dirigentes árabes só farão declarações para salvar a cara.

Como você sabe, Mubarak se associou com Israel para manter fechado o passo a Egito. Que podemos esperar de um Mubarak que, hoje, enviou soldados de reforços para que disparem contra as mães que foram [à fronteira] a pedir que deixem sair os doentes e feridos, que não se podem curar em Gaza e a quem espera uma morte segura?

Êxodo de palestinos de Gazaa para o Egito, 23/01/2008

Israel quer nos fazer desaparecer. Mas não o conseguirá nunca. Nunca. Embora consiga matar-nos a todos nos privando de água e comida, outros palestinos da Cisjordânia e do mundo lutarão para que Gaza siga existindo.

Creio que os vier depois de nós se vingarão destes colonizadores israelenses que nos acurralam em nossa terra. Façam o que fizerem nunca conseguirão se desfazer de nós, os palestinos nativos.»

Post scriptum.

Este relato, sóbrio embora preciso, é capital. Quando foi escrito seu autor ignorava que os palestinos estavam abrindo no muro uma brecha que permitiria a toda esta população cativa e faminta procurar provisões como último recurso no Egito. Mas era plenamente consciente de este espantoso dado, ou seja, de que lhes cortando a água e os víveres, Israel queria levá-los ao pior: o êxodo. Ou seja, acabar a «transferência».

Os palestinos sempre lembram como depois de ter massacrado os habitantes do povo de Deir Yassin em 1948 os grupos terroristas judaicos provocaram um pânico geral que teve como conseqüência o desarraigo de 900.000 palestinos aterrorizados que fugiram para salvar a vida, o que permitiu aos colonos israelitas instalar-se nas terras árabes e criar nelas o estado de Israel.

Foi uma expulsão planejada metodicamente, uma «limpeza étnica», à que Israel chamou de «transferência» voluntária. E para encanar melhor ao mundo, fingiu que foram os dirigentes árabes os que deram a ordem para que os palestinos fugissem.

Hoje se repete o mesmo cenário. Como em 1948, a propaganda das autoridades israelenses, repetida por muitos cronistas no mundo, deixa entender que foram os dirigentes palestinos (de Hamas) os que organizaram um «golpe de força» que fez o muro cair [em Rafah] e que saísse uma maré humana para o Egito; em outras palavras, voltam a atribuir a dirigentes palestinos a responsabilidade de um êxodo que, na realidade, foi provocado por umas condições intoleráveis impostas por Israel [1].

Desde finais de novembro de 2007 as forças de ocupação militar israelenses multiplicaram os atos de terror contra a população de Gaza, por terra, mar e are, que deixaram quase a diário uns cinqüenta feridos e dezenas de mortos. Este terror se incrementou mais ainda pela proibição de entrada tanto de abastecimento como dos caminhões que transportam medicinas, e a proibição de deixar sair os feridos graves para que recebam tratamento no Egito.

Para a população de Gaza não existe a menor dúvida de que, como em 1948, se trata de um processo deliberado e calculado destinado a empurrar as pessoas à loucura; e de que Israel está executando a mesma política que em 1948; de que se trata fazê-los morrer de fome, de usar a força militar e técnicas de guerra psicológica para criar um forte sentimento de medo, esperando que sob o efeito do pânico e do estrês, à menor apertura, as pessoas se precipitariam para fora de Gaza.

Israel fez o que fez e agora vai manipular as coisas para lavar-se as mãos. Altos cargos israelenses já declararam que abastecer Gaza é assunto do Egito.

O objetivo das estratégias israelenses é conseguir que uma vez que se empurre ao Egito aos nativos de Gaza, já não sejam considerados palestinos e que os refugiados que têm direito a retornar a suas terras das foram expulsos por primeira vez em 1948 se estabeleçam também no Egito e se somem aos milhões de refugiados que apodrecem nos campos de refugiados da Jordânia, a Síria e o Líbano.

Existem importantes motivos para crer que o calvário de Gaza só está começando.

[1] Para os comentaristas que apóiam a postura do ocupante israelense, se trata de deixar entender que são os dirigentes de Hamas os que empurraram os habitantes de Gaza a partir, como o ilustram estas palavras:

«A idéia brilhante que encontraram os dirigentes de Hamas em Gaza foi a de se fazer levar até a fronteira egípcia para fraternizar aí com o exército, para abrir a fronteira e para dar assim a sensação de que a liberação vinha do sul. Esta operação se efetuou da mão do amo; obviamente, dadas as restrições às que estava submetida, a população se emprestou a isso com entusiasmo; mas se tratava de uma operação mandada, organizada pela a direção do partido [Hamas]».


E este comentário demonstra que Israel tem interesse no êxodo de Gaza:

« … Por temor a uma fraternização total entre o exército egípcio e os manifestantes palestinos, o governo de Cairo cedeu, abriu sua fronteira; talvez se abrirá de forma permanente o que fará que pese sobre o Egito a responsabilidade de abastecer o enclave; em última instância, os israelenses o desejariam… ».
Para ler toda a argumentação deste propagandista, acesse aqui.

Silvia Cattori

(*) «Gaza é uma prisão» em que Israel encerrou os palestinos e depois «jogou a chave no mar» é uma imagem utilizada por John Dugard, professor de direito.

Traduzido do francês para espanhol por Beatriz Morales Bastos.

Versão em português: Tali Feld Gleiser de América Latina Palavra Viva.

O artigo original (francês) encontra-se aqui.

Esta versão aqui publicada foi reproduzida do blog da jornalista suiça


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E aqui um relato do dia 04/01/2009



Rami Almeghari*, da Faixa de Gaza ocupada, Palestina, 4/1/2009


Prossegue pelo oitavo dia o incansável bombardeio de Israel na Faixa de Gaza. Pelo Skype, Rami Almeghari, correspondente da Electronic Intifada, conta como segue a vida, no início da noite de domingo, em Gaza:

Minha família é da vila de Karatiya, a poucos quilômetros da Faixa de Gaza, em território hoje ocupado por Israel. Karatiya é uma das 450 cidades da Palestina história que sofreu limpeza étnica das milícias sionistas em 1948. Minha família, como centenas de milhares de outras famílias palestinenses, perdeu tudo.

Moro hoje no campo de refugiados de Maghazi, na Faixa de Gaza, que nesse momento está sob bombardeio dos tanques de Israel, na linha da fronteira, pelos F-16s fabricados nos EUA, pelo ar, e pelo mar. Ontem, o exército de Israel entrou na Faixa de Gaza e há combates na parte norte da Faixa e a leste da cidade de Gaza.

Acabo de ligar o computador, porque agora há eletricidade aqui. Passamos sem luz quase todo o dia. Tento usar o gerador, mas o combustível está no fim. Logo sairei do ar; é terrível, para uma jornalista não ter meios para escrever.

Onde estou não ouço sinal de combates, pelo menos até agora. Os jornalistas não conseguem obter informação, porque é perigoso demais e tudo é proibido.

Há notícias de muitos mortos e feridos no norte da Faixa. A imprensa israelense comunicou a morte de um soldado. Há resistência, mais do que se diz que os israelenses esperavam. O governo do Hamás, afinal, vive sob ataque há já quase dois anos e meio.

Na região leste de Gaza houve combates em Shajaiyeh, a leste da cidade de Gaza. O exército parece ter mesmo dividido a cidade em duas áreas, como testemunhas confirmaram. Os tanques avançaram mais rapidamente hoje, que ontem, e parece que há tantes na colônia israelense de Netzarim, ao sul. Cai a noite e a luta continua. (...)

Uma casa foi destruída no ataque dos aviões em al-Tuffah, perto da cidade de Gaza. Hoje, Israel bombardeou o mercado popular de Firaz, perto do prédio da prefeitura da cidade de Gaza.

Há notícias de que os israelenses estariam usando armas ou munição radioativa. Os médicos e os paramédicos falam de queimaduras, abrasões e fraturas nos feridos e nos mortos que são condizentes com esse tipo de munição cujo uso é expressamente proibido pelas leis e convenções internacionais.

Saí um pouco hoje cedo, para tentar comprar alguma coisa e falar com alguém – o mesmo que todos estão tentando fazer por aqui. As estradas principais estão quase completamente desertas, nem carros nem pessoas. Todos ficam em casa, assustados. Só se sai, mesmo, em caso de emergência.

Meus vizinhos estão calmos. De fato, não há para onde ir nem o que fazer. Mas não vejo sinais de pânico nem de desespero. O que se ouve é que ninguém pensa em fugir ou em abandonar as casas, e que ficaremos onde estamos, mesmo que Israel chegue e destrua tudo. As pessoas que moram aqui são refugiados que perderam suas casas há 60 anos e estão passando por uma experiência que conhecem bem. Sabem que Israel preferiria que eles não existissem, e que espera que todos se mudem espontaneamente para o Egito ou para a Jordânia. Os refugiados sabem disso e já aprenderam que ficar onde estão é um modo de resistir.

Uma das minhas vizinhas disse que mesmo que Gaza seja destruída completamente, há milhões de palestinenses que continuarão a lutar contra a ocupação. Não digo isso para parecer emocional ou sentimental. Ouço isso por toda parte. Todos estão assustados, têm medo de morrer, mas pensam também como grupo, como povo. Parece mentira, mas é verdade.

Muitos tiveram notícias de que há manifestações em todo o mundo. Que se fala mais da Palestina hoje, do que das outras vezes. Todos confiam em que haja luz no fim desse túnel. Ao mesmo tempo, todos falam mal dos políticos e dos governantes que ouvem falar na televisão. Sentem-se ofendidos.

*Rami Almeghari colabora para a Electronic Intifada, IMEMC.org, para a Free Speech Radio News e é professora adjunta de Mídia e Tradução Política na Universidade Islâmica em Gaza.

Foi tradutora-chefe de inglês e editora-chefe do Centro Internacional de Imprensa do Serviço Palestinense de Informações, em Gaza.

Recebe e-mails em rami_almeghari@hotmail.com .

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

“Ferimos terrivelmente esta gente”, grita o Ocidente para o Oriente. “Será que vocês podem tomar conta deles, por nós?”

A carta abaixo, escrita em 1947, antes da fundação do Estado de Israel, pelo rei Rei Abdállah I, retrata de um ponto de vista árabe a criação do Estado de Israel. Retrata também como foi deliniado o projeto sionista na criação desse Estado e como os árabes na década de 1940 já eram representados de modo profundamente estereotipado no mundo ocidental.

Vale a leitura, ela é didática, recheada de dados comparativos e nos permite ter um distanciamento do quadro atual na questão Israel-Palestina e ao mesmo tempo entender como foi possível que este quadro atual chegasse onde chegou.

À época, o rei autor da carta mostrava como um território pobre e minúsculo como a Palestina já havia recebido cerca de 1/3 de sua população nativa de refugiados judeus e convocava os EUA e outras nações ocidentais a recebê-los também.


O projeto árabe foi derrotado com a criação do Estado de Israel e embora o rei não pudesse prever a barbárie que a política sionista provocaria na Faixa de Gaza, podemos ter clareza de que a história poderia ter outros desdobramentos.


Como os árabes vêem os judeus

S.M., Rei Abdállah I, 1947*

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É prazer especial dirigir-me ao público norte-americano, porque o trágico problema da Palestina não será jamais resolvido sem a simpatia dos norte-americanos, sem seu apoio, sem que compreendam.

Já se escreveram contudo tantas palavras sobre a Palestina – é talvez o assunto sobre o qual mais se escreveu em toda a história –, que hesito. Mas tenho de falar, porque acabei por concluir que o mundo em geral, e os EUA em especial, sabem praticamente nada sobre a causa pela qual os árabes realmente lutam.

Nós, árabes, acompanhamos a imprensa dos EUA, talvez muito mais do que os senhores pensem. E nos perturba muito constatar que, para cada palavra impressa a favor dos árabes, imprimem-se mil a favor dos sionistas. Há muitas razões para que isto aconteça.

Vivem nos EUA milhões de cidadãos judeus interessados nesta questão. Eles têm vozes fortes, falam muito e conhecem bem os recursos da divulgação de notícias. E há poucos cidadãos árabes nos EUA, e ainda não conhecemos bem as técnicas da propaganda moderna.

Os resultados disto têm sido alarmantes. Vemos na imprensa dos senhores uma horrível caricatura de nós mesmos e lemos que aquele seria nosso verdadeiro retrato. Para que haja justiça, não podemos deixar que esta caricatura seja tomada por nosso retrato verdadeiro.

Nosso argumento é bem simples: por quase 2.000 anos, a Palestina foi quase 100% árabe. Ainda é preponderantemente árabe, apesar do enorme número de judeus imigrantes. Mas se continuar a imigração em massa, em pouco tempo seremos minoria em nossa própria casa.

A Palestina é país pequeno e muito pobre, quase do tamanho do estado de Vermont. A população árabe é de apenas 1,2 milhão de pessoas. E fomos obrigados a receber, contra nossa vontade, cerca de 600 mil judeus sionistas. E nos ameaçam com muitos mais centenas de milhares.


(Clique na imagem para ampliar o mapa. Fonte: blog da Tita)

Nossa posição é tão simples e natural, que surpreende que tenha sido questionada. É exatamente a mesma posição que os EUA adotaram em relação aos infelizes judeus europeus. Os senhores lamentam que eles sofram o que sofrem hoje, mas não os querem em seu país.

Tampouco nós os queremos em nosso país. Não porque sejam judeus, mas porque são estrangeiros. Não queremos centenas de milhares de estrangeiros em nosso país, sejam ingleses, noruegueses, brasileiros, o que sejam.

Pensem um pouco: nos últimos 25 anos, fomos obrigados a receber população equivalente a um terço do total de habitantes nativos. Nos EUA, seria o mesmo que o país ser obrigado a receber 45 milhões de estrangeiros, contra a vontade dos norte-americanos, desde 1921. Como os senhores reagiriam a isto?

Por nossa reação perfeitamente natural, contra sermos convertidos em minoria em nossa terra, somos chamados de nacionalistas cegos e anti-semitas impiedosos. A acusação seria cômica, se não fosse tão perigosa.

Nenhum povo da Terra jamais foi menos anti-semita que os árabes. Os judeus sempre foram perseguidos quase exclusivamente por nações ocidentais e cristãs. Os próprios judeus têm de admitir que nunca, desde a Grande Diáspora, os judeus desenvolveram-se com tanta liberdade e alcançaram tanta importância quanto na Espanha enquanto a Espanha foi possessão árabe. Com pequenas exceções, os judeus viveram durante séculos no Oriente Médio, em completa paz e amizade com seus vizinhos árabes.

Damasco, Bághdade, Beirute e outros centros árabes sempre incluíram grandes e prósperas comunidades de judeus. Até o início da invasão sionista na Palestina, estes judeus receberam tratamento mais generoso – muito, muito mais generoso - do que o que receberam na Europa cristã. Hoje, infelizmente, pela primeira vez na história, aqueles judeus começam a sentir os efeitos da resistência árabe ao assalto sionista. Muitos judeus estão tão ansiosos quanto os árabes e querem o fim do conflito. Muitos destes judeus que encontram lar acolhedor entre nós ressentem-se, como nós, com a chegada de tantos estrangeiros.

Por muito tempo intrigou-me muito a estranha crença, que aparentemente persiste nos EUA, segundo a qual a Palestina sempre teria sido, de algum modo, “terra dos judeus”. Recentemente, conversando com um norte-americano, desfez-se o mistério. Disse-me ele que a maioria dos norte-americanos só sabem, sobre a Palestina, o que lêem na Bíblia. Dado que havia uma terra dos judeus no tempo de que a Bíblia fala, pensam eles, concluem que nada tenha mudado desde então.

Nada poderia ser mais distante da verdade. E, perdoem-me, é absurdo recorrer ao alvorecer da história, para concluir sobre quem ‘mereceria’ ser dono da Palestina de hoje. Contudo, os judeus fazem exatamente isto, e tenho de responder a este “clamor histórico”. Pergunto-me se algum dia houve no mundo fenômeno mais estranho do que um grupo de pessoas pretenderem, seriamente, reclamar direitos sobre uma terra, sob a alegação de que seus ancestrais ali teriam vivido há 2.000 anos!

Se lhes parecer que argumento em causa própria, convido-os a ler a história documentada do período e verificar os fatos.

Registros fragmentados, que são os que há, indicam que os judeus viviam como nômades e chegaram do sul do Iraque ao sul da Palestina, onde permaneceram por pouco tempo; e então moveram-se para o Egito, onde permaneceram por cerca de 400 anos. À altura do ano 1300 a.C. (pelo calendário ocidental), deixaram o Egito e gradualmente dominaram alguns – mas não todos – os habitantes da Palestina.

É significativo que os Filistinos – não os judeus – tenham dado nome ao país. “Palestina” é, simplesmente, a forma grega equivalente a “Philistia”.

Só uma vez, durante o império de David e Salomão, os judeus chegaram a controlar quase toda – mas não toda – a terra que hoje corresponde à Palestina. Este império durou apenas 70 anos e terminou em 926 a.C. Apenas 250 anos depois, o Reino de Judá já estava reduzido a uma pequena província em torno de Jerusalém, com território equivalente a 1/4 da Palestina de hoje.

Em 63 a.C., os judeus foram conquistados pelo romano Pompeu, e nunca mais voltaram a ter nem vestígio de independência. O imperador Adriano, romano, finalmente os subjugou em circa 135 d.C. Adriano destruiu Jerusalém, reconstruiu-a sob outro nome e, por centenas de anos, nenhum judeu foi autorizado a entrar na cidade. Poucos judeus permaneceram na Palestina; a enorme maioria deles foram assassinados ou fugiram para outros países, na Diáspora, ou Grande Dispersão. Desde então, a Palestina deixou de ser terra dos judeus, por qualquer critério racional admissível.

Isto aconteceu há 1.815 anos. E os judeus ainda aspiram solenemente à propriedade da Palestina! Se se admitir este tipo de fantasia, far-se-á dançar o mapa do mundo!

Os italianos reclamarão a propriedade da Inglaterra, que os romanos dominaram por tanto tempo. A Inglaterra poderá reclamar a propriedade da França, “pátria” dos normandos conquistadores. Os normandos franceses poderão reclamar a propriedade da Noruega, “pátria” de seus ancestrais. Os árabes, além disto, poderemos reclamar a propriedade da Espanha, que dominamos por 700 anos.

Muitos mexicanos reclamarão a propriedade da Espanha, “pátria” de seus pais ancestrais. Poderão exigir a propriedade também do Texas, que pertenceu aos mexicanos até há 100 anos. E imaginem se os índios norte-americanos reclamarem a propriedade da terra da qual foram os únicos, nativos, ancestrais donos, até há apenas 450 anos!

Nada há de caricato, aí. Todas estas aspirações e demandas são tão válidas e justas – ou tão fantasiosas – quanto a “ligação histórica” que os judeus alegam ter com a Palestina. Muitas outras ligações históricas são muito mais válidas do que esta.

De qualquer modo, a grande expansão muçulmana, dos anos 650 d.C., definiu tudo e dominou completamente a Palestina. Daquele tempo em diante, a Palestina tornou-se completamente árabe, em termos de população, de língua e de religião. Quando os exércitos britânicos chegaram à Palestina, durante a última guerra, encontraram 500 mil árabes e apenas 65 mil judeus.

Se uma sólida e ininterrupta ocupação árabe, por 1.300 anos, não torna árabe um país... o que mais seria preciso?

Os judeus dizem, com razão, que a Palestina é a terra de sua religião. Parece ser o berço da cristandade. Mas, que outra nação cristã faz semelhante reivindicação? Quanto a isto, permitam-me lembrar que os cristãos árabes – e há muitas centenas de milhares de cristãos árabes no mundo árabe – concordam absolutamente com todos os árabes, e opõem-se, também, à invasão sionista da Palestina.

Permitam-me acrescentar também que Jerusalém, depois de Meca e Medina, é a cidade mais sagrada no Islam. De fato, nos primórdios de nossa religião, os muçulmanos rezávamos voltados para Jerusalém, não para Meca.

As “exigências religiosas” que os judeus fazem, em relação à Palestina, são tão absurdas quanto as “exigências históricas”. Os Lugares Santos, sagrados, para três grandes religiões, devem ser abertos a todos, não monopólio de qualquer delas. E não confundamos religião e política.

Tomam-nos por desumanos e sem coração, porque não aceitamos de braços abertos talvez 200 mil judeus europeus, que sofreram tão terrivelmente a crueldade nazista e que ainda hoje – quase três anos depois do fim da guerra – ainda definham em campos gelados, deprimentes. Permitam-me destacar alguns fatos.

A inimaginável perseguição aos judeus não foi obra dos árabes: foi obra de uma nação cristã e ocidental. A guerra que arruinou a Europa e tornou impossível que estes judeus se recuperassem foi guerreada exclusivamente entre nações cristãs e ocidentais. As mais ricas e mais vazias porções do planeta pertencem, não aos árabes, mas a nações cristãs e ocidentais.

Mesmo assim, para acalmar a consciência, estas nações cristãs e ocidentais pedem à Palestina – país muçulmano e oriental muito pequeno e muito pobre – que aceite toda a carga. “Ferimos terrivelmente esta gente”, grita o Ocidente para o Oriente. “Será que vocês podem tomar conta deles, por nós?” Não vemos aí nem lógica nem justiça. Não somos, os árabes, “nacionalistas cruéis e sem coração”?

Os árabes somos povo generoso: nos orgulhamos de “a hospitalidade árabe” ser expressão conhecida em todo o mundo. Somos solidários: a ninguém chocou mais o terror hitlerista do que aos árabes. Ninguém lastima mais do que os árabes o suplício pelo qual passam hoje os judeus europeus.

Mas a Palestina já acolheu 600 mil refugiados. Entendemos que ninguém pode esperar mais de nós – nem poderia esperar tanto. Entendemos que é chegada a vez de o resto do mundo acolher refugiados, alguns deles, pelo menos.

Serei completamente franco. Há algo que o mundo árabe simplesmente não entende. Dentre todos os países, os EUA são os que mais pedem que se faça algo pelos judeus europeus sofredores. Este pedido honra a humanidade pela qual os EUA são famosos e honra a gloriosa inscrição que se lê na Estátua da Liberdade.

Contudo, os mesmos EUA – a nação mais rica, maior, mais poderosa que o mundo jamais conheceu – recusa-se a receber mais do que um pequeníssimo grupo daqueles mesmos judeus!

Espero que os senhores não vejam amargura no que digo. Tentei arduamente entender este misterioso paradoxo. Mas confesso que não entendo. Nem eu nem nenhum árabe.

Talvez tenham ouvido dizer que “os judeus europeus querem ir para a Palestina e nenhum outro lugar lhes interessa.”

Este mito é um dos maiores triunfos de propaganda, da Agência Judaica para a Palestina, a organização que promove com zelo fanático a emigração para a Palestina. É sutil meia-verdade; portanto, é duplamente perigosa.

A estarrecedora verdade é que ninguém no mundo realmente sabe para onde estes infelizes judeus realmente querem ir!

Imaginar-se-ia que, tratando-se de questão tão grave, os americanos, ingleses e demais autoridades responsáveis pelos judeus europeus teriam pesquisado acurada e cuidadosamente – talvez por votos –, para saber para onde cada judeu realmente deseja ir. Surpreendentemente, jamais se fez qualquer levantamento ou pesquisa! A Agência Judaica para a Palestina impediu-o.

Há pouco tempo, numa conferência de imprensa, alguém perguntou ao Comandante Militar norte-americano na Alemanha o que lhe dava tanta certeza de que todos os judeus quisessem ir para a Palestina. Sua resposta foi simples: "Fui informado por meus assessores judeus.” Admitiu que não houvera qualquer votação ou levantamento. Houve preparativos para uma pesquisa, mas a Agência Judaica para a Palestina fez parar tudo.

A verdade é que os judeus, nos campos de concentração alemães, estão hoje sob intensa pressão de uma campanha sionista, por métodos aprendidos do terror nazista. É perigoso, para qualquer judeu, declarar que prefere outro destino que não seja a Palestina. Estas vozes dissonantes têm sofrido espancamentos severos e castigos ainda piores.

Também há pouco tempo, na Palestina, cerca de 1.000 judeus austríacos informaram à organização internacional de refugiados que gostariam de voltar à Áustria e já se planejava o seu repatriamento. Mas a Agência Judaica para a Palestina soube destes planos e aplicou forte pressão política para que o repatriamento não acontecesse. Seria má propaganda, contrária aos interesses sionistas, que houvesse judeus interessados em deixar a Palestina. Os cerca de 1.000 austríacos ainda estão lá, contra a vontade deles.

O fato é que a maioria dos judeus europeus são ocidentais, em termos de cultura e práticas de vida, com experiência e hábitos urbanos. Não são pessoas das quais se deva esperar que assumam o trabalho de pioneiros, na terra dura, seca, árida da Palestina.

Mas é verdade, sim, pelo menos um fato. Como estão postas hoje as opções, a maioria dos judeus europeus refugiados, sim, votarão por serem mandados para a Palestina, simplesmente porque sabem que nenhum outro país os acolherá.

Se os senhores ou eu tivermos de escolher o campo de prisioneiros mais próximo, para ali vivermos a vida que nos reste, ou a Palestina, sem dúvida também escolheríamos a Palestina.

Mas dêem alternativas aos judeus, qualquer outra possibilidade, e vejam o que acontece!

Contudo, nenhuma pesquisa ou escolha terá alguma utilidade, se as nações do mundo não se mostrarem dispostas a abrir suas portas – um pouco, que seja – aos judeus. Em outras palavras, se, consultado, algum judeu disser que deseja viver na Suécia, a Suécia deverá estar disposta a recebê-lo. Se escolher os EUA, os senhores terão de permitir que venha para cá.

Qualquer outro tipo de consulta ou pesquisa será farsa. Para os judeus desesperados, não se trata de pesquisa de opinião: para eles, é questão de vida ou morte. A menos que tenham certeza de que sua escolha significará alguma coisa, os judeus continuarão a escolher a Palestina, para não arriscarem o único pássaro que já têm em mãos, por tantos que voam tão longe.

Seja como for, a Palestina já não pode aceitar mais judeus. Os 65 mil que havia na Palestina em 1918, saltaram hoje para 600 mil. Nós árabes também crescemos, em número, e não por imigração. Os judeus eram apenas 11% da população, naquele território. Hoje, são um terço.

A taxa de crescimento tem sido assustadora. Em poucos anos – a menos que o crescimento seja detido agora – haverá mais judeus que árabes, e seremos significativa minoria em nossa própria terra.

Não há dúvida de que o planeta é rico e generoso o bastante para alocar 200 mil judeus – menos de um terço da população que a Palestina, minúscula e pobre – já abriga. Para o resto do mundo, serão mais alguns. Para nós, será suicídio nacional.

Dizem-nos, às vezes, que o padrão de vida árabe melhorou, depois de os judeus chegarem à Palestina. É questão complicada, dificílima de avaliar.

Mas, apenas para argumentar, assumamos que seja verdade. Neste caso, talvez fôssemos um pouco mais pobres, mas seríamos donos de nossa casa. Não é anormal preferirmos que assim seja.

A triste história da chamada Declaração de Balfour, que deu início à imigração dos sionistas para a Palestina, é complicada demais para repeti-la aqui, em detalhes. Baseia-se em promessas feitas aos árabes e não cumpridas – promessas feitas por escrito e que não se podem cancelar.

Declaramos que aquela declaração não é válida. Declaradamente negamos o direito que teria a Grã-Bretanha de ceder terra árabe para ser “lar nacional” de um povo que nos é completamente estranho.

Nem a sanção da Liga das Nações altera nossa posição. Àquela altura, nenhum país árabe era membro da Liga. Não pudemos dizer sequer uma palavra em nossa defesa.

Devo dizer – e, repito, em termos de franqueza fraterna –, que os EUA são quase tão responsáveis quanto a Grã-Bretanha, por esta Declaração de Balfour. O presidente Wilson aprovou o texto antes de ser dado a público, e o Congresso dos EUA aprovou-o, palavra por palavra, numa resolução conjunta de 30 de junho de 1922.

Nos anos 1920, os árabes foram perturbados e insultados pela imigração dos sionistas, mas ela não nos alarmou. Era constante, mas limitada, como até os sionistas pensavam que continuaria a ser. De fato, durante alguns anos, mais judeus deixaram a Palestina, do que chegaram – em 1927, os que partiram foram o dobro dos que chegaram.

Mas dois novos fatores, que nem os britânicos nem a Liga nem os EUA e nem o mais fervoroso sionista considerou, começaram a pesar neste movimento, no início dos anos 30, e fizeram a imigração subir a patamares jamais imaginados. Um, foi a Grande Depressão mundial; o outro, a ascensão de Hitler.

Em 1932, um ano antes de Hitler tomar o poder, só 9.500 judeus chegaram à Palestina. Não os consideramos bem-vindos, mas não tememos que, àquele ritmo, ameaçassem nossa sólida maioria árabe. Mas no ano seguinte – o ano de Hitler –, o número saltou para 30 mil. Em 1934, foram 42 mil! Em 1935, 61 mil!

Já não era a chegada ordeira de idealistas sionistas. Em vez disto, a Europa jorrava sobre nós levas de judeus assustados. Então, sim, afinal, nos preocupamos. Sabíamos que, a menos que se detivesse aquele fluxo gigantesco, seria a catástrofe para nós, os árabes, em nossa pátria palestina. Ainda pensamos assim.

Parece-me que muitos norte-americanos crêem que os problemas da Palestina são remotos, que estão muito distantes deles, que os EUA nada têm a ver com o que lá acontece, que o único interesse dos EUA é oferecer apoio humanitário.

Creio que os norte-americanos ainda não viram o quanto, como nação, são responsáveis em geral por todo o movimento sionista e, especificamente, pelo terrorismo de hoje. Chamo-lhes a atenção para isto, porque tenho certeza de que, se se aperceberem da responsabilidade que lhes cabe, agirão com justiça e saberão admiti-la e assumi-la.

Sem o apoio oficial dos EUA ao Lar Nacional preconizado por Lorde Balfour, as colônias sionistas seriam impossíveis na Palestina, como seria impossível qualquer empreitada deste tipo e nesta escala, sem o dinheiro norte-americano. Este dinheiro é resultado da contribuição dos judeus norte-americanos, num esforço pleno de ideais, para ajudar outros judeus.

O motivo foi digno: o resultado foi desastroso. As contribuições foram oferecidas por indivíduos, entidades privadas, mas foram praticamente, na totalidade, contribuições de norte-americanos, e, como nação, só os EUA podem responder por elas.

A catástrofe que estamos vivendo pode ser deposta inteira, ou quase inteira, à porta de suas casas. Só o governo norte-americano, voz quase única em todo o mundo, insiste que a Palestina admita mais 100 mil judeus – depois dos quais incontáveis outros virão. Isto terá as mais gravíssimas conseqüências e gerará caos e sangue como jamais houve na Palestina.

Quem clama por esta catástrofe – voz quase única no mundo – são a imprensa dos EUA e os líderes políticos dos EUA. É o dinheiro dos EUA, quase exclusivamente, que aluga ou compra os “navios de refugiados” que zarpam ilegalmente para a Palestina: as tripulações são pagas com dinheiro dos EUA. A imigração ilegal da Europa é montada pela Agência Judeus Americanos, que é mantida quase exclusivamente por fundos norte-americanos. São dólares norte-americanos que mantêm os terroristas, que compram as balas e as pistolas que matam soldados ingleses – aliados dos EUA – e cidadãos árabes – amigos dos EUA.

Surpreendeu-nos muito, no mundo árabe, saber que os norte-americanos admitem que se publiquem abertamente nos jornais anúncios à procura de dinheiro para financiar aqueles terroristas, para armá-los aberta e deliberadamente para assassinarem árabes. Não acreditamos que realmente estivesse acontecendo no mundo moderno. Agora, somos obrigados a acreditar: já vimos estes anúncios com nossos próprios olhos.

Falo sobre tudo isto, porque só a franqueza mais completa pode ser-nos útil. A crise é grave demais para que nos deixemos deter por alguma polidez vaga, que nada significa.

Tenho a mais completa confiança na integridade de consciência e na generosidade do povo norte-americano. Nós, árabes, não lhes pedimos qualquer favor. Pedimos apenas que ouçam, para conhecer a verdade inteira, não apenas metade dela. Pedimos apenas que, ao julgarem a questão palestina, ponham-se, todos, no lugar em que estamos, nós, os palestinos.

Que resposta dariam os norte-americanos, se alguma agência estrangeira lhes dissesse que teriam de aceitar nos EUA muitos milhões de estrangeiros – em número bastante para dominar seu país – meramente porque eles insistem em vir para os EUA e porque seus ancestrais viveram aqui há 2.000 anos?

Nossa resposta é a mesma.

E o que farão os norte-americanos se, apesar de terem-se recusado a receber esta invasão, uma agência estrangeira começar a empurrá-los para dentro dos EUA?

Nossa resposta será a mesma.

*REI ABDÁLLAH I - "As the Arabs see the Jews". The American Magazine, novembro, 1947. E na internet, em http://politics.propeller.com/story/2006/08/03/as-the-arabs-see-the-jews/, em inglês, com a seguinte introdução: “Esse fascinante ensaio, escrito pelo avô do rei Hussein, Rei Abdállah I, foi publicado nos EUA seis meses antes do início da Guerra de 1948, entre israelenses e palestinenses". Tradução
Caia Fittipaldi, para finalidades acadêmicas, sem valor comercial. (Leitura sugerida pelo Embaixador Arnaldo Carrilho, em palestra em São Paulo, em 2007).



Reproduzida do site Vi o mundo