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sábado, 19 de abril de 2014

SEGUNDA GUERRA MUNDIAL VITÓRIA NO PACÍFICO

Lançamento para os professores.

O livro é  indicado ao ensino médio ou para o público não especialista que tem interesse no tema da Segunda Guerra Mundial.
Ele aborda aspectos dessa temática que não costuma ser muito detalhado nos livros didáticos.


Do Ataque a Pearl Harbor à Vitória em Okinawa 



O lançamento da M.books deste mês conta como a tentativa de conquista japonesa foi frustrada e como os Aliados lutaram por toda a Birmânia, ilha por ilha, rumo à vitória final no Oriente.
Em 7 de dezembro de 1941, a marinha japonesa atacou Pearl Harbor. Simultaneamente, o exército japonês lançou ataques maciços na Malásia, Hong Kong e nas Filipinas.
A esfera de influência dos japoneses se espalhou num ritmo fenomenal. À medida que as nações da Ásia caíam uma a uma e as tropas britânicas e americanas na região eram rapidamente subjugadas, parecia que o sonho do império japonês estava para se tornar realidade.
Da luta selvagem pelas ilhas do Pacífico à reconquista da Birmânia, contra todas as chances, pelo “esquecido” 14º Exército, Vitória no Pacífico conta toda a história de como a guerra contra os japoneses no Extremo Oriente foi finalmente vencida.
SOBRE A AUTORA: Karen Farrington - é escritora e ex-jornalista do Fleet Street, que se especializou no estudo de conflitos ao longo do século XX.
Ela marcou o 50º aniversário do final da Segunda Guerra Mundial com a publicação de Eyewitness to World War II, compilado de várias entrevistas com veteranos ao redor do mundo, sendo que muitos deles contribuíram para a Vitória no Pacífico.
Onde adquirir:
M. Books do Brasil Editora Ltda.
 Atendimento ao Cliente: 11 3645-0409 / 0410 - Fax: 11 3832-0335 Emails:
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sexta-feira, 10 de julho de 2009

NARRADORES DE 32 - bibliografia paulista de uma revolução -

Luis Fernando Cerri *

" On est saisi d’une sort de stupéfaction; on serait tenté de croire que ces hommes appartenaient à une race de géants. "

Auguste de Saint-Hilaire

RESUMO

O objetivo deste texto é retomar, após 70 anos, a produção bibliográfica sobre a Revolução Constitucionalista de 1932, vinda a público logo após o movimento, majoritariamente por simpatizantes da causa. O texto procura destacar, nessa produção, intelectuais – combatentes que estabeleceram referenciais para a narrativa posterior do movimento e os termos de sua retomada no ensino da história regional em São Paulo.

PALAVRAS – CHAVE:

ABSTRACT

The objective of this text is to review, after 70 years, the bibliographic production about the Revolução Constitucionalista de 1932, that arrived to the public just after the movement, mainly wroten by sympathisers of the cause. The text tries to point, at this production, combatant intelectuals that established the references to the later narrative of the movement and the therms of its revival at the teaching of regional history at São Paulo state.

Este texto pretende ser um momento de retomada de pesquisa desenvolvida anteriormente, retomada essa oportuna pela aproximação dos 70 anos do movimento constitucionalista. Pretende também colaborar com a discussão sobre a Memória /História Tradicional criada pelos envolvidos no movimento constitucionalista, que é distinta da História Oficial / Tradicional de outras regiões e do nível federal sobre o mesmo processo, trazendo elementos para ajudar a compreender a relação entre os termos da complexa equação que é a década de 30 e sua construção historiográfica, equação da qual alguns termos são REGIÃO e REGIONALISMO, VENCEDORES E VENCIDOS (respeitando a complexidade dos termos e sua inter-relação), MEMÓRIA, HISTÓRIA TRADICIONAL E HISTÓRIA OFICIAL, ESTADO, HEGEMONIA e suas agências (principalmente a escola pública). Esses termos não são fechados; são apenas um esforço por equacionar um problema, a construção da história pela " ideologia da paulistanidade", que nos levará a um outro tema correlacionado com a Revolução Constitucionalista de 1932, o bandeirismo.

O bandeirante é feito, pelo discurso tradicional paulista, em elemento especular, mito de origem e genitor, na história, da Revolução e da "Raça de Gigantes" que a levou às trincheiras na defesa do estado e de um ideal, que edificou o estado mais rico e organizado da federação. Abordamos, com isso, algumas obras que não versam diretamente sobre a Revolução Constitucionalista de 1932, mas relacionam-se ao tema na medida em que procuram construir a história de São Paulo, que conduziria naturalmente para os atos de bravura e civismo registrados pelos constitucionalistas em seus livros. Vale lembrar que uma das primeiras bibliografias sobre a Revolução Constitucionalista de 1932 foi montada por Aureliano Leite, um dos intelectuais dessa ideologia da paulistanidade, por ocasião dos festejos 4º Centenário da fundação da cidade de São Paulo, em edição comemorativa de "A Gazeta", em 10 de julho de 1954, num caderno especial sobre a comemoração do 9 de julho daquele ano, no qual dois grandes marcos da paulistanidade estão se cruzando.

Podemos classificar e comentar as obras da Revolução Constitucionalista de 1932 a partir de vários viéses. Preferimos formar esses grupos pelas preocupações dos autores e características gerais de cada obra. Não que as obras tenham uma definição unívoca de suas preocupações; pelo contrário, cada uma delas procura transmitir uma variedade de informações e cumprir uma pluralidade de objetivos. Mas nesta pluralidade de sentidos dessas publicações, geralmente sobressai-se um aspecto central em torno do qual os outros aspectos organizam-se, e é esse aspecto central de cada obra que procuro identificar para classificá-las e viabilizar um comentário panorâmico sobre essa base documental.

Sendo assim, um primeiro grupo de obras é o das que se caracterizam pelo seu aspecto de narrativa, de exposição do testemunho de quem viveu aqueles tumultuados momentos, no campo de batalha ou em outros espaços de organização e/ou propaganda, igualmente vibrantes, febris. São os relatos, geralmente de grande vendagem, produzidos em sua maioria nos primeiros instantes (ou ainda durante, no caso dos diários) após o encerramento das hostilidades. A tendência era a do esgotamento rápido das obras, consumidas por um voraz interesse da população. É o caso, por exemplo, de A Guerra Paulista, do organizador e divulgador da Semana de Arte Moderna de 22, Menotti del Picchia, datado de 1932, que teve quatro edições em apenas um mês, o que mostra que após um certo momento as casas editoriais (e as livrarias) estão operando novamente em pleno vapor. E deve-se asseverar o fato de que esta obra tem um caráter de descrição dos bastidores do poder no decorrer da guerra civil, uma vez que seu autor narra os acontecimentos do seu ponto de vista, de secretário de gabinete de Pedro de Toledo, governador de São Paulo aclamado no início da revolta. É um relato de fora do calor das trincheiras, mas que mesmo assim excita a curiosidade do mercado consumidor de informações sobre o movimento. Outras obras de caráter narrativo e de testemunho, por exemplo, são, Santistas nas Barrancas do Paranapanema (1932), de Santos AMORIN , São Paulo Venceu (1933), de Arnon de MELLO, A Columna Romão Gomes (1933), de Herbert V. LEVY, Irradiações: Campanha Constitucionalista (1933), de J. B. de. CARVALHO, Palmo a Palmo (a lucta no setor sul) (1933), de J. J. ALVES BASTOS, Renda-se, Paulista (1932), de Luiz V. de MELLO, M.M.D.C. (1933), de Benjamin OLIVEIRA Fº, Diário de um Combatente Desarmado (1934), de Sertório CASTRO, A Sala da Capela (1933) e Accuso! (1933) de Vivaldo de V. COARACY, Tudo pelo Brasil (1932), de Armando BRUSSULO, Itararé, Itararé ... (1933), de Honório de SYLOS, A epopéa de São Paulo em 1932 (1932), de Amílcar S. SANTOS, Capacetes de Aço (1932), de Samuel BACCARAT, Palmares pelo Avesso, de Paulo DUARTE (escrito em 1933 mas publicado apenas em 1947, nos 15 anos da Revolução). A lista poderia continuar, mas creio que os exemplos são suficientes como amostra desse grupo de obras, em que mesclam-se intelectuais das artes e ciências humanas, militares, políticos, radialistas e voluntários em geral.

Num mundo em que as mudanças são tão intensas que nada deixam inalterado, um mundo em que a experiência comunicável decai como fonte pura para os narradores, segundo Walter Benjamin (1994), e a arte de narrar caminha para o fim, os relatos que elencamos acima estão quase com os dois pés no campo da informação: digo quase porque ainda há um resquício de trazer para o leitor (não mais o ouvinte, como na narrativa considerada por Benjamin) o relato das coisas distantes. No caso, trazem o cotidiano da guerra para as pessoas comuns, contando o que acontecia nas linhas de combate e nas organizações da retaguarda; a base é, portanto, a experimentação daquele que vai, não daquele que fica (o distante não é necessariamente o que está longe, mas o que foge ao alcance da experiência daquele para quem se narra), porém os formatos de contar a história caracterizam mais a informação que a narrativa: os que escutam são uma platéia impessoal e distante, não um grupo próximo ligado numa relação de oralidade com o narrador, o qual se preocupa em dar conselhos, ou seja, dar à sua narrativa a função eminentemente prática de compartilhar sua experiência como contribuição para a vida das pessoas que o cercam no momento de contar a história.

A narrativa primitiva era a arte de comunicar a experiência como conselho. Não é assim com a bibliografia em questão. O caráter confesso de todas as obras que narram, em sentido amplo, a Revolução Constitucionalista de 1932, é o de uma tentativa historicização da experiência, a procupação em conduzir a própria memória aos "lugares da história", procurando alinhavar os eventos vividos com a perspectiva da maior, da revolução regional e da história nacional. Essa base documental possibilita, portanto, verificar um momento privilegiado em que as pessoas, legitimadas pela experiência, participam do processo de caracterização do passado e de definição dos seus sentidos. Os autores, em maior ou menor grau, estão preocupados com o registro dos fatos para que não se percam no esquecimento, para que sejam lembrados com a interpretação que se deseja, e / ou para que fiquem de exemplo para as próximas gerações (e há aqui um resquício do "conselho" do narrador benjaminiano); muitos reivindicarão a imparcialidade, apresentada como requisito e bilhete de passagem da memória para a história, e no final das contas é esse mesmo o objetivo desses livros: fazer a experiência dos seus autores passar do campo da memória para os anais da história. Vejamos uma pequena seleção de exemplos:

"Limitamo-nos a ser uma passiva machina photographica. E nossa objectiva tratou de focalizar e fixar episódios interessantes e que viessem a servir de subsídios á história que, no futuro, se escreverá sobre o movimento constitucionalista esposado por São Paulo e Matto Grosso. Nada Mais." (BRUSSULO, 1932: 12)

"Não tive outra mira, ao publicar o presente opúsculo, senão o de prestar meu testemunho pessoal á maravilhosa epopéa bandeirante, concorrendo para que melhor seja memorada, num futuro próximo, a campanha constitucionalista que abalou a pátria até o imo cerne." (KARAM, 1933: I)

" [um livro] vasado sem paixão nem parcialidade" (MOURA, 1933: 16)

É notória a presença do paradigma de uma historiografia metódica (na noção da objetividade no trabalho com os fatos) que a história tem para esses narradores, que acompanham a sua época. É interessante perceber o caminho de mão dupla que essa produção significa: se por um lado os autores querem participar do processo de atribuição de significado e importância aos eventos de 1932, por outro o acesso que tiveram à história ensinada nas escolas significou um canal de transmissão das concepções historiográficas vigentes e um condicionador da participação deles nesse debate.

Do ponto de vista do estilo e do uso da informação, esses escritores estão mais próximos do romancista (pela situação solitária da produção da narrativa) ou do jornalista (por ser o narrador das coisas próximas, dando o ponto de apoio da informação ao público leitor) que do narrador, e deste também se distanciam pela necessidade imperiosa de rechear a história de explicações. Até porque, sem as mesmas, perde força o projeto dos autores de, participando da construção da história, participar da definição do seu significado.

Enfim, o narrador de Benjamin produz sua história como artesão, e os contadores da Revolução de 1932 produzem suas histórias dentro da técnica industrial, para a leitura no isolamento típico dos indivíduos componentes das grandes massas urbanas, e não na comunidade dissipante dos que escutam. A pluralidade de títulos, tiragens, edições dessas obras dos revolucionários de 1932 vem confirmar a progressiva perda da habilidade de ouvir e de contar, e o incremento da atividade de informar. Não que ela não ocorra: ela não é mais suficiente, em termos de tempo e de abrangência, para a sociedade em que ocorre. Todavia, ao contrário do que afirma Benjamin, o caminho desses romances da informação não se esgota na novidade, e aí está o seu caráter estratégico: o destino final é cavar um espaço na carne da história a fim de caminhar com ela e com ela identificar-se, tentando garantir a perpetuação da narrativa dos fatos, e da experiência dos que se envolveram intensamente nas agitações de 1932. Em momentos de extrema tensão e conflito armado na vida política nacional, dá-se o ambiente propício para a "escrita da paixão", o relato em primeira pessoa, testemunho pessoal que valoriza-se perante as análises mais detidas. Esses relatos que compõem a crônica do vivido, com pretensões de imparcialidade e análise dos fatos, tornam-se um grande filão comercial que a indústria editorial paulista imediatamente percebe e capitaliza, tornando realidade a multiplicidade de títulos no assunto.

Esses livros saem à procura da constituição coletiva de uma epopéia, o levante uníssono de um estado habitado pela "Raça de Gigantes". A necessidade de narrar algo que seja uma epopéia transformará em cenas épicas as sucessivas retiradas das forças paulistas. talvez seja uma das primeiras vezes em que as derrotas sejam a base da narrativa dos feitos heróicos, mas esta era a única argila que estava à mão desses oleiros. Reverter a negatividade deste fato, mostrando a organização, a racionalidade e a tranqüilidade nas retiradas, é a tarefa a que se propõem essas obras, e nesse sentido podemos apreendê-las como uma continuidade da propaganda de guerra, que até o último momento insiste em manter o moral da população e da frente de luta elevado, através do rádio e dos jornais, principalmente, mas também através da propaganda visual, dos inúmeros cartazes e panfletos aos desfiles dos galhardos batalhões infantis (!).

E essa propaganda é de uma eficiência tal que, segundo alguns desses relatos, a derrota militar é recebida como um grande choque, como algo que rompesse um cotidiano linear, e não a culminação do avanço das tropas inimigas, ou, usando a imagem já gasta, mas ainda boa, como um raio que caísse de céu azul; daí, também, muitos terem achado uma traição a rendição dos contingentes da Força Pública de São Paulo e os entendimentos para o armistício por parte do General Klinger. Há contudo, livros que dissonam da propaganda e conseguem debater com ela, e na minha opinião um dos mais instigantes entre eles é o do médico Luiz Vieira de Melo, Renda-se, Paulista, que critica os líderes (com o já fétido manto da alcunha de "políticos") que jogaram o povo na enrascada dos combates sangrentos, sendo porém covardes e oportunistas o suficiente para não irem aos campos de batalha nem para lá mandarem os seus filhos. Vieira de Melo desdenha a propaganda constitucionalista, a irresponsabilidade de afirmar "Sustentae o fogo que a vitoria é nossa", quando se jogou irresponsavelmente e sem preparação os voluntários numa aventura guerreira sem antes ter previsto as condições mínimas para as batalhas, e critica os "heróis da retaguarda", os mocinhos de boa família que desfilavam pela cidade mas não esquentavam lugar nas trincheiras. É de espantar que os ideais da "paulistanidade" e os interesses maiores de "São Paulo", uvas da mesma vinha, sobrevivam à crítica do autor, que louva o ideal da Lei e os sinceros combatentes constitucionalistas, enquanto desanca os "políticos" e suas armações; em poucas palavras, o criador é infernal, mas a criatura revolucionária é angelical. É um grande exemplo de uma indivíduo que percebe algo das "artimanhas da dominação" (cf. a expressão – título da tese de Bezerra, 1981), mas restringe-se apenas à ladainha anti-político que já vem da década de 20, embarcando na criação de uma expressiva parcela da elite sem percebê-la como tal. Essa é a limitação das obras que, de dentro do movimento, procuram fazer a sua crítica: esta é incompleta, desarticulada e presa aos aspectos mais aparentes, gritantes, da trama toda; e estranho seria se não fosse assim. Podemos observar a hegemonia em ação, pois o autor, mesmo criticando assistematicamente alguns aspectos da realidade, permanece preso ao ideário fundamental, à visão de mundo gestada pela oligarquia paulista.

Este trabalho de Luis V. de Melo tem uma série de semelhanças com o Palmares pelo Avesso, do escritor Paulo Duarte cuja publicação que ocorre em clima mais ameno, em 1947, com o autor alegando uma das máximas da historiografia de inspiração metódica: a de que o distanciamento temporal do objeto de análise favorece a objetividade do estudo. Desse modo, sente-se à vontade este grande intelectual da manutenção da ideologia do regionalismo paulista para desfiar as misérias dos combates de 32, sem em momento algum criticar o seu ideal, procurando manter inalteradas as posições políticas e ideológicas deixadas pelo movimento, num orgulho de exibir as cicatrizes sulcadas pela dedicação ao movimento e à manutenção de sua memória.

Fica claro em muitos trechos um desânimo com a situação instalada no front paulista: batalhões que recuam apavorados, sem sequer haver pressão dos inimigos, a falta de fibra da fina flor da mocidade paulistana (que tanto é louvada em outras obras) que deixa a desejar comparada aos antepassados bandeirantes, a criação artificial de heróis da retaguarda pela imprensa, que despreza os soldados valorosos que morreram nas trincheiras. Das obras que li, esta é a que apresenta mais pontos em comum com o desencanto de Nada de Novo no Front, de Erich Maria Remarque, um dos mais notórios livros de memórias da 1ª Guerra Mundial, evento que secreta também uma grande bibliografia de narrativas de participantes das batalhas da conflagração. Essas obras cruzam-se, mas logo seguem caminhos diferentes, e por isso a comparação é meramente ilustrativa: enquanto o alemão expõe as mazelas do conflito procurando convencer para a paz acima de tudo, Duarte não tem escrúpulos em desmistificar as sagradas trincheiras de 32 com crueza, mas apenas deplora que os paulistas não tenham podido ser melhores combatentes pelo ideal que, mesmo sob esse novo fogo cruzado, escapa ileso. O escritor nos fornece um exemplo da possibilidade de uma crítica que não passa do verniz, mas que ocupa o espaço da crítica aprofundada.

É importante destacar também dois romances que expõem as pequenas misérias e divisões internas aos constitucionalistas, procurando contradizer sua retórica. Trata-se do pouco conhecido Iago Joe (pseudônimo de David Antunes) em seu Incenso e Pólvora (1937) e do clássico de Oswald de Andrade, Marco Zero I, A Revolução Melancólica (1943).

Um outro grupo de obras é o que tem seu acento mais forte no ufanismo, que canta "São Paulo" em suas qualidades, grandezas de toda ordem, heroísmos, propondo o estado de São Paulo como uma realidade à parte, homogênea, padrão e condutor da nacionalidade ou embrião de uma nação própria. São Paulo, aliás, aparece como animizado, encarnado o sujeito coletivo da revolução, um ser homogêneo composto da vontade dos paulistas:

"Ao grito de alarme, ao toque de reunir, ao vibrar de um clarim, todo S. Paulo, num salto veloz, postou-se de pé. E um bloco gigante, indestrutível, impetuoso, rolou sobre as terras de Piratininga, rumo à vitória. Era a mais bela, mais portentosa, a mais numerosa e potente bandeira de quantas já se organizaram desde os longínquos, imortais bandeirantes na gloriosa campanha de afastar horizontes e ampliar as fronteiras do nosso querido, amado Brasil. Era S. Paulo pela constituição, feito cruzada do Brasil pela lei." (ALVES SOBRINHO, 1932: 49)

O patriotismo paulista é um dos elementos que mora dentro da ideologia da paulistanidade, que é uma tradição mais longa, que vem desde o final do século XIX, no Império, expressando-se em obras como A Pátria Paulista, do parlamentar republicano Alberto Sales, que procura valer-se do cientificismo do seu tempo para propor o separatismo como alternativa lógica para São Paulo, e São Paulo na Federação, de T. de Souza Lobo, onde procura-se defender o estado das acusações dos demais brasileiros, nos primeiros momentos da crise da hegemonia paulista na Primeira República. Essa ideologia incrementa-se com a Revolução Constitucionalista de 1932 e continua adiante, encontrando expressão em dois livros abordados que fogem das características cronológicas desta lista inicial, de obras da década de 30: o álbum fotográfico da Melhoramentos, Isto é São Paulo (1952), e Terra Bandeirante, do mineiro Célio Conde Leite (1943), este preocupado em demonstrar a ausência de bairrismo e de espírito nacionalista-separatista de São Paulo, isso em pleno Estado Novo centralizador e desejoso de consolidar a idéia de nação brasileira. Essas obras participam de um movimento descordenado, porém contínuo e eficiente de construção do sentimento e das características da paulistanidade, juntamente com outro grupo de obras, as históricas, que vão cavoucar na história pretensas raízes dessa paulistanidade, construindo-lhe as tradições, projetando-as no passado (HOBSBAWN e RANGER, 1997). É o caso de O Despertar de São Paulo, de Menotti del Picchia (1933), publicado ainda sob o bafo quente da batalha recém-encerrada, num propício momento para oferecer aos paulistas elementos tradicionais e históricos de unidade com os quais se identificar.

É possível, então, destacar um grupo de autores que se pode classificar como a "intelectualidade orgânica" da classe dominante paulista que ao mesmo tempo participa da Revolução Constitucionalista de 1932 ativamente, como organizadores ou combatentes, e realizam trabalho de historiador, tanto da revolução quanto do objeto "São Paulo". Sua produção é uma espécie de matriz para a temática da paulistanidade comentadas na produção bibliográfica, e mesmo nos discursos políticos e preconceitos populares. São responsáveis por sistematizar um núcleo de imagens e idéias anteriores e contemporâneas à Revolução Constitucionalista de 1932, alinhavando-as com a história tradicional paulista. Procuram dar coerência à relação entre a mitologia bandeirante e o caráter do paulista, produzindo imagens que depois espalham-se nos hinos, discursos, conversas da população, enfim, todo o clima de idéias e sentimentos que marca as páginas da bibliografia que estamos analisando, possibilitando-lhe ter tantos traços comuns.

1932 é o momento de maior capacidade da oligarquia paulista de reproduzir hegemonicamente o seu consenso dentro do estado, e ao mesmo tempo é o primeiro instante da crise dessa hegemonia, que chega a ampla erosão com o Estado Novo. Nesse período de erosão, primeiro nacionalmente e depois dentro do próprio estado de São Paulo, podemos qualificar os seus intelectuais como tradicionais, primeiro por estarem ligados a uma classe em vias de desaparição (como classe dominante regional, para amalgamar-se e perder essa identidade, num processo que não controla totalmente, compondo-se enquanto parcela de uma classe dominante nacional), e depois por terem numa tradição (construída) o esteio para seus discursos.

Selecionamos, como representativos Alfredo Ellis Jr., professor de História na USP nas décadas de 30 e 40, e o historiador e político Aureliano Leite, ambos com ligações políticas com os partidos dominantes de São Paulo em 1932 /34, ambos criadores de paulistanidade através de ensaios históricos, ambos comentadores da Revolução Constitucionalista de 1932 por um viés mais amplo e analítico que o testemunho. Estes autores, têm importância matricial no pensamento, teorização e promoção da ideologia da paulistanidade. Encontram-se inseridos num universo um pouco maior, formado também por pessoas como Affonso de Escragnole Taunay, Paulo Duarte, Washington Luís, Júlio Mesquita, Menotti del Pichia, Guilherme de Almeida, enfim, a intelectualidade ligada à elite paulista. Mas selecionamos estes dois por sua ativa participação na Revolução Constitucionalista de 1932, como combatentes efetivos (e que portanto também produzem livros "narrativos", ainda que uma preocupação maior com a imparcialidade da história faça-os desaparecer enquanto testemunhas e imprima às obras um tom que pretende ser mais analítico), e também por tornarem-se historiadores tradicionais que passam a produzir sistematicamente o conhecimento tendo por tema a história regional de São Paulo. Eles podem ser tomados como produtores de imagens, tradições, matrizes de pensamento, concepções de história e de sociedade da oligarquia que reproduzir-se-ão entre divulgadores, educadores, e no senso comum (Ellis Jr., após carreira jurídica e política, torna-se titular da cadeira de História da Civilização Brasileira na USP; Leite tem intensa atuação jornalística e político-partidária, e torna-se membro atuante no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo). Ambos terão sua formação intelectual baseada na Faculdade de Direito de São Paulo, e serão ambos membros do IHGSP e da Academia Paulista de Letras. Suas obras de história juntas ultrapassam duas dezenas, e o significado dessa produção intelectual é a seleção de fatos do passado paulista para a montagem de um subsídio historiográfico para a tradição inventada que estrutura-se na coerência entre os feitos dos bandeirantes, a pujança da lavoura cafeeira e da economia paulista, a Revolução de 1932 e um pretenso caráter paulista, padrão para a nacionalidade brasileira, que teria surgido a partir daquele, sobretudo.

O Partido Democrático, do qual Leite foi fundador, pela sua própria intitulação, vinha a exigir mais democracia na arrumação oligárquica da política estadual. Entretanto, na citação abaixo, temos um indício importante da concepção de democracia da elite paulista, revelada peli autor ao comentar a adesão de parte da massa popular à revolta de 1924:

" - Compreenda-se o povo - disse-nos um falso observador - há dois meses apenas carregava êle próprio para a casa do govêrno, numa manifestação régia, como igual não há memória em nossa terra, o Presidente Carlos de Campos; hoje, o mesmo povo apoia incondicionalmente subversivos acontecimentos (...) A confusão era quási um crime, ou o falso observador errara grosseiramente. (...)O povo, com interesses enraizados a proteger, famílias a zelar, princípios a defender, prêso ao grilhão dos deveres, com direitos a fruir, não poderia ser revoltoso, não poderia atentar em mero lance aventureiro, sem motivos de grande fôrça, contra os poderes constituídos. O povo não foi revoltoso, a canalha da rua sim" (LEITE, 1924: 76-7 e 80)

Se considerarmos as apreciações heróicas do bandeirante comungadas por Aureliano Leite em sua obra, a derrota militar em 1932 constitui-se em uma grande contradição, em uma nota dissonante na harmonia da tradição paulista. Com efeito, se os ancestrais foram capazes de feitos de armas sob as mais áridas condições, como explicar que os descendentes, em 1932, tenham caído perante forças muitas vezes compostas por soldados de raças que nem sequer chegavam aos pés dos descendentes dos bandeirantes? Há um precedente histórico, um único momento em que aparecem os bandeirantes derrotados, na Guerra dos Emboabas, no episódio do "Capão da Traição": apenas a traição pode explicar a derrota dos paulistas:

"S. Paulo não se rendeu; uma parte daqueles a quem êle confiou sua a sua defeza logrou amarrar-lhe de braços e pernas e entregá-lo ao inimigo, a troco de bem magro prêço. Se foi pago o custo, escreveria Vivaldo Coaraci em ‘Sala da Capela’, sabem os que mercadejaram a transação infame" (LEITE, 1934: 372)

Ellis Jr. é talvez o principal formulador da idéia de paulistanidade no século XX, dando-lhe o nome e, posteriormente, militando por sua penetração no meio acadêmico e por conseqüência no meio escolar. O termo nasce no estudo dos bandeirantes, tema ao qual Alfredo Ellis Jr. dedica toda a sua vida de historiador. Antes, porém, Ellis Jr. dedicará os primeiros anos de sua atividade a obras de comentário da conjuntura política envolvendo São Paulo, nas quais são gestados com firmeza os conceitos regionalistas que embasarão sua obra historiográfica posterior. Nesse sentido são fundamentais "A Nossa Guerra" e "Confederação ou Separação", em que há pouca preocupação em negar o separatismo paulista. Em Alfredo Ellis Jr. o desejo de autonomia e a noção de identidade paulista é mais marcante que em qualquer outro intelectual orgânico da elite paulista que tenha se debruçado sobre o tema, seus pudores são menores e sua influência sobre o setor educacional é bastante considerável.

Um elemento inicial da obra de Ellis, e que é matriz para a grande maioria dos paulistas que escrevem sobre a Revolução de 1932, como foi possível constatar em outro ponto desse texto, é a concepção de história como um corpo neutro de conhecimentos, destinado a estabelecer a "verdade", mesmo em uma obra passional como "A Nossa Guerra", em que o autor pretende, como expressa no prefácio, não acusar ninguém, mas também não deixar de dizer o que é preciso que as novas gerações saibam sobre a grande epopéia bélica dos paulistas no século XX, para que com esta não ocorra a mesma perda dos dados da memória que se deu com o bandeirismo. A mesma intenção de constituir-se como monumento perpetuador da memória de uma revolução pelo ponto de vista de seus protagonistas é colocada para o autor como a busca da verdade, em contraposição às versões da ditadura de Vargas sobre 1932.

Inicia-se "A Nossa Guerra" pela exposição da obra política, social e econômica do PRP no estado de São Paulo, que, segundo o autor, teria sido destruída pela demagógica oposição sistemática do PD, incapaz de perceber a dimensão da paulistanidade na política perrepista na Primeira República. Isso teria se expressado no não-apoio do PD à candidatura paulista de Júlio Prestes à presidência da República e conseqüente adesão à Aliança Liberal, de Getúlio vargas e João Pessoa:

"Levado, talvez, pela sua obstinada oposição systhematica, o Partido Democrático , procedeu brasileiramente,como se o Brasil fosse um país unitário, ao envez de agir paulistamente, tendo a visão geral das cousas, isto é que, o Brasil não é senão um agrupamento de paizes, tendo cada um deles interesses antagonicos e chocantes." (ELLIS JR., 1933b: 26)

A grande causa da Revolução de 1932, para o autor, é a inabilidade do Governo Provisório ao tratar o altivo estado de São Paulo, através de sua política para o café e de interventores, como se fosse uma presa de guerra, desprezando seu poder e sua pujança, dando até aos relutantes a certeza de que a Revolução de 1930 não tinha sido dirigida contra um velho regime, mas contra o estado de São Paulo como um todo:

" Os revolucionários de 30 se encarniçaram em quebrar os liames de lyrismo que prendiam São Paulo à brasilidade. Elles eram os melhores obreiros do separatismo. Cortavam o último laço que prendia S. Paulo ao Brasil, o laço do sentimentalismo." (ELLIS JR., 1933b: 42)

Alfredo Ellis Jr. pretende fazer crer que a paulistanidade, nas dimensões que alcançou após a Revolução de 1932, não é algo natural do paulista mas sim um sentimento que só ganha um desabalado crescimento com o tratamento dado pelo Governo Provisório ao estado, principalmente nas atrocidades da guerra que move contra o paulista. Todavia, perante a situação pós-30, perante a impossibilidade de autonomia, ganha força a perspectiva da pátria paulista:

"O ambiente, ainda não estava sufficientemente preparado para a separação. (...) Não eram todos, que a desejavam; não eram todos, que a comprehendiam; não eram todos que, com facilidade, podiam se despegar do espírito em que haviam sido criados. Ainda um lyrismo pyégas, encobria como um véu, a verdadeira situação de S. Paulo no Brasil. (...) Era um anseio inenarrável pela autonomia, apenas, a qual lhe fora tirada desde Outubro de 1930. O meio de reconquistal-a seria a volta do paiz ao regimen legal." (ELLIS JR., 1933a: 146)

Ainda em 1933, Ellis oferece ao público duas edições, rapidamente esgotadas, de "Confederação ou Separação", onde desenvolve o seguinte raciocínio: o Brasil é um país de imensas diferenças regionais, cujos laços de união necessários à constituição de um Nação estão decompostos e frágeis, notadamente o interesse econômico, que é diverso; a imensa pluralidade das raças só agrava o quadro, não contribuindo para a existência de uma identidade nacional (aqui, vai na contramão dos intelectuais da cultura brasileira, baseado nas teorias raciais do século XIX); há uma grande diversidade de tradições históricas; a sentimentalidade brasileira desaparece aos poucos, perante as dificuldades de se manter o orgulho em pertencer ao Brasil, pelo agravamento de seus problemas; a saída, portanto, é descentralizar, como no regime federativo da Primeira República, pois na impossibilidade disto, a decorrência é a separação. Neste raciocínio aparecerão os argumentos que se enraízam na mentalidade paulista, como por exemplo o fato de São Paulo, por seus tributos, sustentar o Brasil, ou a injustiça da representação parlamentar do estado no nível federal. Para Ellis Jr., as centenas de referências à brasilidade de 32, como o uso das bandeiras verde-amarelas, a efígie de figuras nacionais nos bônus de guerra (em vez dos bandeirantes), o brasão do "Pro-Brasilia Fiant Eximia", são preocupações dos dirigentes da revolução com seus argumentos para justificá-la frente a opinião pública do resto do Brasil e também do mundo; tal preocupação, narra Ellis, não era tão marcante entre o povo, onde o desejo de separação encontrou ressonância com facilidade.

Em 2002, o movimento constitucionalista estará completando 70 anos. Nos aniversários anteriores, muito se falou e escreveu, sendo que em 1997 a grande marca foi a retomada do 9 de Julho como feriado oficial em São Paulo, perante uma população "bestializada", para a qual a data já tinha perdido o significado. Este texto pretende contribuir em dois sentidos: para que esse significado seja relembrado, e para que as visões oficiais e tradicionais continuem perdendo sua onipresença.

Referências Bilbiográficas

  1. ALVES SOBRINHO, Rufino. São Paulo triunfante. Depoimento e subsídio para a história. São Paulo, Edição do autor, 1932.
  2. BENJAMIN, Walter. O narrador, Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 7. ed. São Paulo, Brasiliense, 1994.
  3. BEZERRA, Holien Gonçalves. As artimanhas da dominação: São Paulo, São Paulo, Tese de Doutorado - FFLCH-USP, 1981 (mimeo).
  4. BRUSSULO, Armando. Tudo pelo Brasil. São Paulo, Editorial Paulista, 1932.
  5. ELLIS JR., Alfredo. Confederação ou separação. São Paulo, Piratininga, 1933(a).
  6. ELLIS JR., Alfredo. A nossa guerra. São Paulo, Piratininga, 1933(b).
  7. HOBSBAWN, Eric J. e RANGER, Terence (orgs.). A Invenção das Tradições. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1984.
  8. KARAM, Elias. Um paranaense nas trincheiras da lei. Curitiba, A Cruzada, 1933.
  9. LEITE, Aureliano. Dias de pavor. Figuras e scenas da revolta de São Paulo. São Paulo, s.c.p., 1924.
  10. LEITE, Aureliano. Martírio e glória de São Paulo. São Paulo, s.c.p., 1934.
  11. LEITE, Dante Moreira. O Caráter Nacional Brasileiro - História de uma Ideologia. 4ª ed., São Paulo, Pioneira, 1983.
  12. MOURA, Jair Pinto de. A fogueira constitucionalista. São Paulo, Paulista, 1933.

Fonte: Narradores de 1932: bibliografia paulista de uma revolução. Revista Resgate (Centro de Memória da UNICAMP), Campinas, SP, v. 10, p. 23-38, 2001

REGIONALISMO E ENSINO DE HISTÓRIA

Luis Fernando Cerri **

RESUMO: A historicidade das regiões e a ideologia regionalista utilizada pelas classes dominantes são o assunto deste texto. A intenção é discutir as conseqüências dessa situação sobre o ensino de história, bem como propor mudanças de atitude coerentes com uma renovação tanto metodológica quanto política em relação a esses problemas.


" O interesse fabricou carimbos,
O ódio à toa levantou paredes,
A baioneta desenhou fronteiras,
A estupidez nos separou em bandeiras. "

( Fruto do Suor - Tony Osanah/ Enrique Bergen)

Primeiramente, gostaria de afirmar que o presente artigo não tem um caráter conclusivo e fechado, pois trata-se de um texto surgido a partir de algumas reflexões oriundas da atividade de pesquisa de meu mestrado, intitulada "A Ideologia da Paulistanidade e o Ensino de História", em fase final. Em linhas gerais, a pesquisa desenvolvida parte da minha vivência, no ensino público paulista da década de 80, de rituais cívicos que tinham um caráter regional, ligados que estavam à memória construída em torno da Revolução Constitucionalista de 1932 : era uma memória que contrastava com a interpretação federal do mesmo fato, como ficou evidenciado ao pesquisar fontes primárias e material de vulgarização paulista e não-paulista (1). Dois modos de construir e ensinar a história estão colocados, o que significa uma oportunidade de refletir sobre questões como a "invenção das tradições" (2) , relatividade e a interpenetração entre os vencedores e os vencidos na construção da história e os problemas e limitações em se tratar de história oficial e tradicional e os relacionamentos entre esses termos. Partindo do estudo do material didático e auxiliares, procuramos identificar os lugares da memória de 1932 no ensino de história em sala e nos rituais, nas "pesquisas" e nos monumentos, nas marcas impressas no processo escolar de memorização. Procuramos entender os mecanismos de sistematização e transmissão de uma ideologia regionalista, para a qual utilizamos a denominação de paulistanidade (3), significando tanto uma valorização da condição de "filho" São Paulo quanto uma ideologia que procura definir a identidade e o patriotismo paulista.

É pacífico entre nós que a história - estudo é uma construção vinculada a uma série de fatores determinantes relacionados ao local de produção desse conhecimento. A história estudada - e ensinada - é uma construção, e os critérios de sua periodização, conseqüentemente, também têm sua historicidade; daí estarmos ainda vinculados, mesmo em nossos cursos universitários, à estrutura Antiga/ Medieval/ Moderna/ Contemporânea, periodização da história européia estendida a todos, ou às unidades geograficamente apresentadas: História da América, História do Brasil, História do Paraná; a conseqüência é o reforço à noção da regiões como categorias dadas, prontas, naturais e decorrentes de uma lógica física, o que efetivamente não é verdade. A condição básica de toda e qualquer ideologia, para que possa existir como tal, e sustentar a hegemonia de uma classe sobre outras, é passar-se por natural, normal, necessária. O processo de desmontagem dessa hegemonia, trabalho gigantesco, passa também por nos perguntarmos sobre a historicidade das divisões que nos são dadas para trabalharmos com o ensino da história em todos os graus, setorizações da história que acabam reproduzindo a hegemonia, mesmo quando pretendemos um ensino crítico e renovado.

A revisão bibliográfica de Paulo H. N. Martins (4) aponta para tendências que procuram superar as apresentações positivistas da região como produto isolado da relação entre os homens e um determinado meio, e as neopositivistas, que apresentam a região como sistema, a partir de modelos matemáticos sobre a categoria espaço, deixando de lado a participação das relações humanas na construção do espaço pensado socialmente. Essas tendências, ligadas à tradição marxista, discutem preferencialmente o papel do espaço na reprodução das relações sociais de produção, ou os processos sociais que se manifestam no espaço. Enfim, trata-se de verificar que, bem como a história e a periodização, a região é uma construção antes de tudo humana, e portanto submetida a uma determinada historicidade. Estamos tratando de região em seu sentido moderno: a nação brasileira, por exemplo, é uma idéia que tem seu surgimento num período específico, ligado ao desenvolvimento do liberalismo na Europa, juntamente com o Iluminismo e as primeiras grandes mudanças políticas de caráter burguês. A nação atual é uma criação da burguesia a partir do seu longo processo de afirmação no decorrer do século XIX, e o ensino da história surge neste contexto, também no Brasil do início da República, como "pedagogia central do cidadão" (5) . Precisamos deixar claro que entende-se esta criação não como algo deliberada e conscientemente planejado pela burguesia com o claro intuito de falsificar e enganar, o que nos atiraria a uma visão maniqueísta, mas sim como conseqüência do processo de produção do consenso hegemônico da classe dominante nacional.

O estabelecimento de uma região como objeto de estudos é sempre algo delicado, pois implica em afirmar um mínimo de homogeneidade no recorte que se estabelece, sempre "para fins didáticos", quando sabemos que a multiplicidade e riqueza inerentes ao real passam ao largo dessa homogeneização. Em se tratando, porém, do discurso ideológico (que sustenta um de seus pés na história), procura-se estabelecer uma homogeneidade ainda mais distante da realidade, na medida em que apresenta uma identidade, interesses comuns definidos pelo "pertencimento" a uma determinada região. Era assim, por exemplo, na Revolução Constitucionalista de 1932 , em que "São Paulo" aparecia como sujeito coletivo encarnando um só interesse regional, deixando de levar em conta os "acordes dissonantes". É o que vivemos, por exemplo, nas campanhas políticas proporcionais em que se costuma pedir o voto a alguém da cidade. Há a ilusão de que um candidato possa representar os interesses de todos os setores sociais da cidade, interesses muitas vezes conflitantes. O conceito de classe precisa ser obliterado no discurso regionalista, para que este possa funcionar. É assim, ainda, quando nos falam de interesses nacionais e exigem que torçamos pelo Brasil.

O regionalismo é um problema político, não por ameaçar, no extremo, a unidade nacional, mas por ser um elemento que, além de propiciar o desenvolvimento de preconceitos regionais, baseia sua análise da realidade a partir do fator geográfico, ou seja, ideologiza a discussão dos problemas sociais contribuindo para elidir a compreensão das questões de classe e de gênero, desviando a atenção dos verdadeiros focos dos problemas. Maria Arminda do Nascimento Arruda (6) faz uma excelente revisão da bibliografia sobre o regionalismo no Brasil, que através de diferentes enfoques (a partir da elite política, a partir do conceito de oligarquia e a partir do conceito de relações capitalistas como redefinidoras da região) estabelecem a discussão do tema.

Se de fato estamos preocupados com um ensino crítico da história, é preciso compreender que a crítica não é uma metralhadora giratória descalibrada: só há crítica conseqüente se existe um ponto de partida, e daí podemos perceber que existem críticas e críticas. Com a queda do muro de Berlim e eventos correlatos, construiu-se um novo muro, o da ideologia do fim da história e da falência das interpretações totalizantes da realidade. Se subirmos nos ombros dos que combatem há várias décadas, poderemos olhar por sobre esse novo muro e vislumbrar algum horizonte, de maneira que não seja ridículo, pelo menos para nós, manter grandes ideais; um ensino que seja crítico até a raiz não pode perder de vista a perspectiva da transformação da sociedade em que vivemos. Além disso, uma história coerente com sua cientificidade (respeitando os processos da lógica histórica, consciente de suas determinações e historicidade) tem o dever de discutir o ensino de história colocado em termos de nação como uma ideologia, e isso vem ocorrendo já há algum tempo, com a apresentação de alternativas de trabalho com os conteúdos da disciplina. Até porque o ensino de história colocado em termos de região tem uma necessidade muito grande de elementos constitutivos do que a Escola dos Annales chamava de história tradicional (o que não inclui necessariamente a conotação política que o termo pode ter): os fatos, heróis, as grandes batalhas e as grandes datas. Escrevo essas reflexões na noite de um 7 de setembro, momento em que fica clara a interdependência entre a história nacional, os rituais cívicos das grandes datas, a memória das batalhas, tratados e heróis que delimitam o lugar do conhecimento do passado; é um momento que faz evocar o Marx do 18 Brumário, quando mostra a figura patética de Luis Bonaparte aproveitando-se da conjuntura para atingir o poder e celebrizar-se. Uma das nossas figuras da história nacional, da estirpe dos personagens como Luis Bonaparte, é eternizada cada vez que se produzem os desfiles, comemorações, jograis e discursos da data.

Procurando esquadrinhar o momento em que, no Estado de São Paulo, procura-se construir (inventar ?) uma tradição regional e constituir um patriotismo paulista, nos momentos imediatamente posteriores à derrota da revolução de 1932 , podemos verificar que a região, mais que uma fração da nacionalidade, é também uma construção da classe dominante em caráter regional, em um momento de crise econômica e política: estados e regiões não são apenas divisões administrativas da nacionalidade, mas espaços de exercício diferenciado e especializado da construção de pequenos consensos hegemônicos. No caso de São Paulo, a construção de um patriotismo regional está ligada ao desenvolvimetno da cafeicultura e à formação de uma elite modernizante, que construiu uma tradição ligada aos bandeirantes, estabelecendo com eles uma continuidade psicológica. A relação desses regionalismos com a idéia nacional está sempre em aberto, em constante diálogo, nem sempre cordial, escorregando inclusive para o separatismo e um difuso, mas grave, preconceito racial/ regional, em casos extremos. Enfim , o que procuro afirmar é que não estamos em melhor situação se procuramos identificar a renovação da história com a sua regionalização, contrapondo-a a uma perspectiva nacional. Ao nos preocuparmos em buscar uma identidade a partir da região, corremos o sério risco de desconsiderar que inexistem identidades puras, verdadeiras ou estáticas, já que as identidades são construídas pelas classes sociais (e devemos lembrar que existem classes com maior poder de determinação de uma identidade a generalizar) em diferentes momentos históricos (7) . De qualquer uma dessas maneiras a crítica nos escorrega das mãos, permanecemos nos debatendo dentro das malhas da hegemonia das classes dominantes, a partir dos seus discursos, das suas construções, alimentando o nacionalismo e / ou os regionalismos, contribuindo para forjar identidades (8) e tradições inventadas que julga-se perdidas e com necessidade de serem resgatadas, pensando que é preciso garantir a formação cívica do aluno e sua responsabilidade patriótica para que o país permaneça na sua senda de Ordem e Progresso, e que todos, dessa maneira, ganhem.

Analisando as festas cívicas da paulistanidade que ocorrem no 23 de maio e no 9 de julho com suas tradicionais poesias, canções e discursos, estudando os materiais didáticos sobre o tema utilizados na sala de aula e na biblioteca, e verificando a preparação de multiplicadores da ideologia da paulistanidade para as comemorações do cinqüentenário da Revolução Constitucionalista de 1932, patrocinada pela Secretaria da Educação, somos levados a algumas reflexões sobre a formação dos alunos. Que tipo de valores embasam o ensino de história e as práticas cívicas em torno do movimento constitucionalista? O primeiro objetivo dos que promovem as comemorações e o ensino desse episódio é agir contra a influência dissipadora do esquecimento e garantir que seja transmitida a memória regionalista; mas, além desse objetivo primordial, a intenção é oferecer para a infância e a juventude um tipo de comportamento individual e coletivo a ser seguido. No fundo, o que está acontecendo é a justificativa da violência, da ação belicista para a resolução dos problemas políticos, desde que tenha-se por trás um "grande ideal" - a ação pessoal incentivada seria a coragem cega de doar a vida pela abstração São Paulo, ou pela abstração Brasil, por trás das quais ocultam-se classes dirigentes e seus interesses. É a permanência do "Morrer pela Pátria", analisada historicamente por Phillipe Contamine (9) , ao que Geraldo Vandré secundaria : "e viver sem razão ..."

Que tipo de civismo está sendo formado, por esta linha tradicional de ensino de história? Como se entende aí a cidadania? Certamente, não dentro dos valores de tolerância, valorização das instituições democráticas, pacifismo, não-violência ativa, razão. Quando pensamos nos objetivos do ensino de história, que é a fundamentação de toda metodologia, e convencemo-nos de que visamos contribuir para a formação da cidadania consciente, que valores nos inspiram e conduzem na atividade docente?

Para encerrar, não tenho a pretensão de oferecer todas as respostas e soluções. Quero apontar algumas possibilidades e caminhos para discussão. Creio que temos a necessidade antropofágica de deglutir o civismo como está colocado hoje, ligado à ideologia da nação e/ou da região, metabolizá-lo pela preocupação em desenvolver uma Educação Histórica, algo talvez mais amplo que Ensino de História, no qual possamos procurar uma nova base que escape à história "territorial", ou seja, que organiza os interesses sociais em torno das geografias, e não das relações sociais. Precisamos de uma determinação em responder que não devemos amor ao chão em que nascemos ou vivemos, na medida em que este nos daria de comer: quem me dá de comer é o meu relacionamento social, a minha interação com as pessoas que estão comigo numa comunidade que só permanece porque estabeleceu vínculos com diversas outras comunidades, às quais, indiretamente, pertenço. Quem sustenta a minha vida não é São Paulo, o Paraná ou o Brasil, mas a humanidade e seu trabalho. Como dizer que há uma grande identidade entre quem nasce em Itararé e quem nasce em Ribeirão Preto, e que essa identidade não existe entre os moradores de Itararé que tomam chimarrão como os paranaenses do sul, e dizer que não há identidade entre os nativos de Ribeirão Preto e os mineiros do Triângulo? A identidade de "paulista" é abstrata, da mesma forma que a identidade de "brasileiro" é abstrata. "Existe é homem humano", já dizia o Riobaldo de Guimarães Rosa em "Grande Sertão: Veredas", como Dante Moreira Leite cita, muito brilhantemente.

O esforço em pensar a história como propiciadora da consciência de cidadania (no forte sentido que essa palavra tem adquirido no Brasil nos últimos dois anos, ganhando uma conotação mais social, além da política, que já existia) já é um passo importante nessa direção. O que importa, mais do que novas técnicas, novos conteúdos, é o trabalho de todos esses "novos" a partir de novos princípios, novos pontos de partida para a discussão: em vez do ponto de partida geográfico / regional / nacional (espacial), um ponto de partida social. Como um possível ponto humanista de chegada, a compreensão da responsabilidade pessoal com os demais e com o ambiente em que todos vivem, a vida como valor máximo, e aí a compreensão clara da defesa dos direitos humanos, a democracia como valor universal, o pacifismo. Ensinar a pensar e a agir na história, autonomizar para possibilitar a convivência em bases melhores. Se a baioneta desenhou as fronteiras, não será papel também da história, nesse momento, de apagar essas linhas, de arrancar - em vez de alimentar - o que divide?

ABSTRACT: The historicity of the regions and the regionalist ideology putted to use by the dominant classes are the subject of this text. The purpose is discuss the results of this situations over the history teaching, and propose attitude changes that have coerence with a methodological and political renovation, relationed to this problems.

KEYWORDS: Regionalismo - history teaching - civism and citizenchip - identities.

NOTAS

* Comunicação apresentada no II Encontro "Perspectivas do Ensino de História", ocorrido na Faculdade de Educação da USP em 13 de fevereiro de 1996. Posteriormente publicada em: Revista de História Regional, Vol. 1. - nº 1 - Inverno 1996

** Professor do Departamento de Métodos e Técnicas de Ensino da U.E.P.G. e Mestrando em Metodologia do Ensino - Unicamp.

(1) Refiro-me, por exemplo, à farta bibliografia que é produzida e consumida em São Paulo nos anos imediatamente posteriores à derrota de 1932, textos em grande parte voltados à narração das experiências pessoais de vários agentes do movimento; trabalhamos também os escritos de intelectuais orgânicos da elite paulista que tiveram participação direta nos combates ou em sua organização, materiais elaborados nas comemorações de 1932, em âmbito oficial ou não, enciclopédias, fascículos comemorativos, descrições de rituais cívicos a partir de entrevistas com educadores e velhos alunos das escolas oficiais paulistas. A historiografia sobre 1932 é também um bom expoente dessa relação entre duas interpretações.

(2) Ver HOBSBAWN, Eric J. e RANGER, Terence (org.) A Invenção das tradições. Prefiro, entretanto, pensar esse tema em termos de construção das tradições, uma vez que o termo de Hobsbawn parece indicar que existem tradições verdadeiras e fictícias, ao passo em que todas as tradições são construídas a partir de uma seleção de episódios históricos.

(3) Atribuo o termo a Alfredo Ellis Jr., político, historiador e professor de História da Civilização Brasileira na USP, um dos maiores entusiastas e formuladores do regionalismo paulista.

(4) MARTINS, Paulo H.N. Estado, Espaço e Região: Novos Elementos Teóricos.

(5) Para a caso específico da constituição da disciplina no Brasil, ver Elza NADAI, "O Ensino de História e a Pedagogia do Cidadão" in Jaime PINSKY, O Ensino de História e a Criação do Fato, e também Circe BITTENCOURT, "As 'Tradições Nacionais 'e o Ritual das Festas Cívicas", na mesma coletânea.

(6) ARRUDA, Maria A. do Nascimento. Mitologia da Mineiridade.

(7) Ver ORTIZ, Renato. Cultura Brasileira e Identidade Nacional, e também MOTA, Carlos Guilherme. Ideologia da Cultura Brasileira.

(8) Sobre a identidade do brasileiro e algumas identidade regionais, permanece sempre válido o clássico LEITE, Dante Moreira O Caráter Nacional Brasileiro. São Paulo, Pioneira, 1983 (4ª ed.)

(9) Na coletânea Les Lieux de Mémoire II - La Nation, organizada por Pierre NORA, pp. 13-46.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. ARRUDA, Maria A. do Nascimento. Mitologia da Mineiridade. São Paulo, Brasiliense, 1990.

2. BITTENCOURT, Circe. As 'Tradições Nacionais' e o Ritual das Festas Cívicas, In PINSKY, Jaime. O Ensino de História e a Criação do Fato. São Paulo, Contexto, 1988, pp. 43-72.

3. CONTAMINE, Phillipe. Mourir Pour La Patrie. In: NORA, Pierre (org.). Les Lieux de La Mémoire II - La Nation. Paris, Gallimard, s.d., pp. 11-43

4. FURET, François. A Oficina da História. Lisboa, Gradiva, s.d.

5. HOBSBAWN, Eric J. e RANGER, Terence (org.) A Invenção das tradições. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1984.

6. LEITE, Dante Moreira. O Caráter Nacional Brasileiro. São Paulo, Pioneira, 1983 (4ª ed.).

7. MARTINS, Paulo H.N. Estado, Espaço e Região: Novos Elementos Teóricos. In: GEBARA, Ademir et. al. História Regional: Uma Discussão. Campinas, Editora da Unicamp, 1987, pp. 23-56.

8. MOTA, Carlos Guilherme. Ideologia da Cultura Brasileira. São Paulo, Ática, 1980 (4ª ed.).

9. NADAI, O Ensino de História e a Pedagogia do Cidadão In Jaime PINSKY, O Ensino de História e a Criação do Fato. São Paulo, Contexto, 1988, pp. 23-30.

10. ORTIZ, Renato. Cultura Brasileira e Identidade Nacional. São Paulo, Brasiliense, 1985.

fonte: Universidade Federal de Ponta Grossa/Professor Cerri

Consulte também: Luis Fernando Cerri: 1932: águas redivididas

sábado, 31 de maio de 2008

Cursos relacionados à lei 10639/03 e ao ensino de história

Atualizado em 11/07/2008

Para os professores da cidade de São Paulo ou que para cá podem se deslocar:


VIII CURSO DE DIFUSÃO CULTURAL CEA/USP:
ASPECTOS DA CULTURA E DA HISTÓRIA DO NEGRO NO BRASIL

(curso de difusão - 45h, com nota)


PERÍODO DO CURSO E HORÁRIO:
05.08 a 25.11.2008, exceto nos dias 09.09 e 28.10.2008.
3ª feira: das 19 às 22h

PÚBLICO-ALVO:

- Professores de Ensino Fundamental e Médio das Redes Públicas e Particulares.

- Interessados em geral.

VAGAS: 100, com mínimo de 60 participantes.


INSCRIÇÕES: de 15 a 22.07.2008, enquanto houver vaga.

PARA EFETUAR A MATRÍCULA, DEVERÁ APRESENTAR:
- documento atualizado que comprove pertencer ao público-alvo (holerite);
- RG (com data de expedição) e CPF;
- endereço e telefone.

LOCAL DA MATRÍCULA, VALORES E OUTRAS INFORMAÇÕES:

www.fflch.usp.br/sce/cursos/VIII_cea_aspecto.htm

OBSERVAÇÃO:
1. Não efetuaremos matrículas fora do prazo estipulado;
2. As matrículas serão feitas por ordem de chegada.

PROGRAMA E MINISTRANTES

1ª Aula - 05/08/2008 - Prof. Kabengele Munanga
1.Introdução
Apresentação do curso: objetivos, conteúdo do programa, bibliografia básica.
Origens geográficas dos africanos escravizados no Brasil.
Existe uma história do negro no Brasil? E por onde ela começa?

2ª Aula - 12/08/2008 - Profª Marina Pereira Almeida Mello
2. O negro no território brasileiro e o regime escravista: adaptação e resistência;
2.1. Resistências individuais;
2.2. Resistências coletivas: rebeliões nas senzalas, quilombos, Revolta dos Malês;
2.3. Atuação do negro na abolição.

3ª Aula - 19/08/2008 - Profª Marina Pereira Almeida Mello
3. O negro após a abolição e novas formas de resistência:
3.1. A revolta da Chibata;
3.2. A Frente Negra Brasileira - imprensa negra em São Paulo;
3.3. O movimento negro contemporâneo.

4ª e 5ª Aulas - 26/08 e 02/09/2008 - Profs. Juarez Tadeu de Paula Xavier e Antonia Ap. Quintão dos Santos Cezerilo
4. Culturas negras no Brasil:
4.1. Leis e repressões contra as culturas negras no Brasil - estratégias e formas de resistência:
4.1.1. Resistências religiosas: irmandades, candomblé, umbanda, etc.

6ª e 7ª Aulas - 16 e 23/09/2008 - Profas. Lígia Ferreira e Maria Cecília Félix Calaça
4.1.2. Resistências artísticas: culinária, música, dança, artes visuais, literatura, arte do corpo (capoeira), arquitetura, etc.

8ª e 9ª Aulas - 30/09 e 07/10/2008 - Profs. Kabengele Munanga e Antonio Carlos Arruda da Silva
5. Negro e discriminação racial no Brasil:
5.1. Conceitos básicos: preconceito, raça, racismo e etnicidade no Brasil;
5.2. Características do racismo à brasileira;
5.3. Direitos Humanos e a questão racial.

10ª e 11ª Aulas - 14 e 21/10/2008 - Profas. Luciene Cecília Barbosa e Eliana de Oliveira
5.4. Formas de exclusão do negro no Brasil:
5.4.1. O negro na mídia e no mercado de trabalho;
5.4.2. O negro na educação (ensino fundamental, médio e superior).

12ª e 13ª Aulas - 04 e 11/11/2008 - Profª Roseli de Oliveira
5.4.3. O negro na saúde: a legislação;
5.4.4. Questões específicas da saúde da população negra.

14ª Aula - 18/11/2008 - Prof. Dr. Kabengele Munanga
6. Multiculturalismo e a Ação Afirmativa no Brasil:
6.1. Políticas de reconhecimento da Identidade Negra no Brasil, exemplos das Leis. 10.639/03 e 11.645/08
6.2. O Debate sobre as cotas raciais.

15ª Aula - 25/11/2008 - Prof. Dr. Kabengele Munanga
Encerramento do Curso.
Avaliação (Por escrito).

OUTRAS INFORMAÇÕES

OBJETIVO: Capacitação dos professores das redes públicas e particular de ensino no aprendizado dos aspectos da cultura e da história do negro no Brasil; propiciando acesso ao material de apoio e didático para ser utilizado em sala de aula, embasados nos conhecimentos apreendidos em cada temática que certamente, serão de utilidade prática.

COORDENAÇÃO: Prof. Dr. Kabengele Munanga, da FFLCH/USP.

PROMOÇÃO: Centro de Estudos Africanos (CEA), da FFLCH/USP.

CERTIFICADO: Para fazer jus ao certificado de extensão o aluno precisa ter o mínimo de 85% de presença e nota mínima 5.

LOCAL DO CURSO: Prédio de Filosofia e Ciências Sociais, Av. Prof. Luciano Gualberto, 315. Sala a confirmar.

Fonte: Serviço de Cultura e Extensão Universitária - FFLCH-USP.

*******************

VIII Encontro Nacional dos Pesquisadores do Ensino de História

De 28 a 31 de julho de 2008

Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo

Av. da Universidade, 308 - Cidade Universitária - São Paulo - SP

Inscrições: www.fafe.org.br/inscricao/ (até 25 jul. 2008)

Mais informações: www.fafe.org.br/8enpeh/index.htm

Programação


2ª feira - 28/07/08


9h: Credenciamento e Recepção aos congressistas

10h: Abertura

11h: Conferência de Abertura

A pesquisa em Didática da História

Prof. Dr. Ivo Mattozzi - Universitá di Bologna - Itália

14h: Reunião dos Grupos de Trabalhos (GTs)

17h: Conferência II

A pesquisa em ensino de História: metodologia e novos horizontes

Profª Dra. Nicole Tutiaux-Guillon. Université de Lille - França



3ª feira - 29/07/08



9h: Mesa 1. Formação de professores

Profª Dra. Ana Maria Monteiro - UFRJ - RJ

Profª Dra. Flavia Eloísa Caimi - UPF - RS

Profª Dra. Selva Guimarães Fonseca - UFU-MG



Mesa 2. Livro Didático

Profª Dra. Circe Maria F. Bittencourt - PUC-SP

Prof. Dr. Décio Gatti Jr. - UFU - MG

Profª Dra. Tânia Maria F. Braga Garcia - UFPR - PR



11h: Mesa 3. Memória e Ensino de História

Profª Dra. Helenice Ciampi PUC - SP

Profª Dra. Maria Carolina B. Galzerani UNICAMP -SP

Profª Dra. Sônia Regina Miranda - UFJF - MG



Mesa 4. Ensino de História e narrativas

Profª Dra. Cristiani Bereta da Silva - UDESC - SC

Profª Dra. Dislane Zerbinatti Moraes - FEUSP - SP

Profª Dra. Juçara Luzia Leite - UFES - ES

14h: Reunião dos Grupos de Trabalhos (GTs)

16h30: Lançamento de Livros

17h30: Conferência III

A pesquisa em ensino de História: metodologia e novos horizontes

Profª Dra. Isabel Barca -Universidade do Minho - Portugal



4ª feira - 30/07/08



9h: Mesa 5. Conhecimento escolar: linhas de investigação

Profª Dra. Lana Mara Siman de Castro - PUC- MG

Profª Drª Marli André - PUC - SP

Profª Dra. Sandra Regina Ferreira de Oliveira - UNIOESTE - PR



Mesa 6. Educação Histórica

Profª Dra. Isabel Barca - Universidade do Minho - Portugal

Profª Dra. Maria Auxiliadora Schmidt - UFPR - PR

Profª Dra. Marlene Cainelli - UEL - PR



11h: Mesa 7. História e Historiografia do Ensino de História

Profª Dra. Arlette Medeiros Gasparello - UFF - RJ

Profª Dra. Maria de Fátima Sabino Dias- UFSC - SC

Profª Dra. Margarida Maria Dias de Oliveira - UFRN - RN



Mesa 8. Ensino de História, Museus e Patrimônio Histórico

Profª Dra. Júnia Sales Pereira - UFMG - MG

Prof. Dr. Francisco Régis Lopes Ramos - UFCE/Museu do Ceará

Prof. Dr. Paulo Knauss - UFF/Arquivo do Estado do Rio de Janeiro

14h: Reunião dos Grupos de Trabalhos (GTs)



17h: Conferência IV

A pesquisa em ensino de História: metodologia e novos horizontes

Profª Dra. Silvia Finocchio - UBA - Argentina



5ª feira - 31/07/08



9h: Mesa 9. História e Ensino de História: Interfaces Metodológicas

Prof. Dr. Marcos Antonio da Silva - FFLCH - USP - SP

Profª Dra. Raquel Glezer - FFLCH - USP - SP

Profª Dra. Katia Maria Abud - FEUSP - SP



11h: Mesa 10. Horizontes da pesquisa de Ensino de História

Prof. Dr. Ivo Mattozzi - Universidade de Bologna - Itália

Profª Dra. Nicole Tutiau-Guillon - Université de Lille - França

Profª Dra. Silvia Finocchio - Universidad de Buenos Aires - Argentina

14h: Apresentação - Relatórios dos GTs

Assembléia da ABEH


17h: Conferência de Encerramento

A pesquisa em ensino de História: metodologia e novos horizontes

Profª Dra. Ernesta Zamboni - FE - UNICAMP - SP

19h: Atividade Cultural e Encerramento


Fonte: Comissão Organizadora.

Professores mineiros e cariocas, não percam essas oportunidades de cursos de formação:

No Rio: Centro Cultural José Bonifácio
tel.: 21-2233-7754 / ccjbonifacio@pcrj.rj.gov.br

Curso Gratuito: O Refluxo da Diáspora – A saga dos libertos no Brasil que voltaram para a África no século XIX

com: Milton Guran – antropólogo, jornalista e fotógrafo

de: 11 de junho a 23 de julho de 2008 – às quartas-feiras – das 19h às 21h 30m


Em Minas Gerais, no município de Cataguases:
II ENCONTRO DE CULTURA AFRO-BRASILEIRA E HISTÓRIA DA ÁFRICA

Dia 03/06 – das 08h00min às 11h00min
CONFERÊNCIA DE ABERTURA: Professora e escritora Rosa Margarida de Carvalho Rocha (Pedagoga – PUC Minas, vinculada à Editora Mazza).
Dia 03/06 – das 14h00min às 17h00min
MESA 1 – FÉ SINGULAR, RELIGIOSIDADES MÚLTIPLAS.
A proposta dessa mesa é estender, ao máximo, as possibilidades de reflexão acerca dos diálogos, interfaces e construções pautadas por elementos que remetem à africanidade e o modo como esses processos reverberam nas instituições educacionais e religiosas e na sociedade brasileira de maneira geral.
Dia 04/06 – das 08h00min às 11h00min
MESA 2 – A DIVERSIDADE CULTURAL E ÉTNICA E AS PRÁTICAS ESCOLARES.
A proposta dessa mesa é apresentar experiências que dêem conta da dinâmica dos elementos africanos nos mais variados níveis do processo educacional. Para tal, participarão professores, pedagogos, gestores etc., que desenvolveram/desenvolvem experiências instigantes nessa seara.
Dia 04/06 – das 14h00min às 16h00min
CONFERÊNCIA DE ENCERRAMENTO: Professor Manuel Jauará (Sociólogo - USP).

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Imprensa, análise de discursos e o olhar crítico da História

Publicada em 29/02/2008; Atualizado em 01/03/2008 e 14/03/2008
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Nos últimos posts publicamos um artigo muito interessante do escritor Eduardo Galeano e dois do jornalista L. C. Azenha. Também comentamos sobre a publicação do relatório da ONU e os direitos humanos no Brasil, como não havia expressivas diferenças entre as abordagens dos jornais O Estado e Folha de São Paulo.

O professor Daniel Trevisan mandou-nos o seguinte projeto e pediu-nos sugestão:

Projeto: A Mídia em sala de aula

professor: Daniel Trevisan


Justificativa:

Ao longo do tempo, a mídia adquiriu grande importância dentro de nossa sociedade. Em diversos momentos de nossa história contemporânea, o papel exercido por ela foi de grande destaque, seja pelas denúncias trazidas à tona por jornalistas comprometidos com a ética e a seriedade, seja pela manipulação de fatos, visando beneficiar determinados grupos em detrimento de qualquer comprometimento com os verdadeiros valores do jornalismo.

Atualmente o papel exercido pela grande mídia torna-se preocupante. Notícias vinculadas sem prova alguma, sem nada que corrobore sua autenticidade, são tomadas como verdade apenas por terem sido publicadas por determinado veículo de informação. Ao ser publicado em algum meio jornalístico, o fato adquire credibilidade e veracidade, sendo tomado posteriormente como prova de um ato ou um delito. Boa parte da população não faz uma leitura crítica das notícias, acreditando estarem sendo bem informadas ao lerem um determinado jornal ou revista, ou simplesmente assistindo a um telejornal no conforto de sua casa. Não se afirma aqui, todavia, que tudo aquilo que sai na mídia seja inverossímil, ou que todas as notícias sejam manipuladas, num jogo de interesses maniqueísta. O que se pretende afirmar, é que a mídia jamais é imparcial, como ela própria gosta de se intitular.

Como empresa jornalística e de propriedade de grupos ou mesmo famílias, esses veículos colocam sempre suas opiniões a respeito de determinado assunto. A mídia seria uma forma de elevar há uma alta potência os interesses de seus proprietários. Dessa forma fica claro o caráter parcial da mídia, que se posiciona, segundo seus interesses, a respeito dos fatos, principalmente os de caráter social e político. Assim, a mídia pode exercer grande influência no meio social, tornando públicas suas opiniões, quando não muito, publicando falsas notícias.


Objetivo Geral:

O que se pretende com esse projeto, é tornar os alunos mais críticos quanto a atuação da mídia, demonstrando-lhes o caráter parcial e subjetivo de muitos veículos de informação, principalmente aqueles que são tomados na atualidade como a grande mídia, que se apresentam como neutros. Porém, impõe um modelo para se perceber a realidade. Outro ponto que deve ser destacado, é a existência de uma mídia independente, não ligada aos grandes grupos financeiros e que nos mostra um outro lado do jornalismo. Essa mídia independente, através de revistas, jornais e principalmente “blogs” na internet, tem exposto as contradições dos tradicionais veículos de informação, demonstrando que a grande mídia não visa apenas trazer a notícia como ela realmente aconteceu, mas muitas vezes distorcer os fatos segundo seus interesses.

A utilização da mídia em sala de aula pode tornar os alunos mais críticos a respeitos dos problemas da sociedade, bem como a não receberem as notícias como verdade apenas por terem sido publicadas em determinado veículo de comunicação.

Além de tornarem-se cidadãos com conhecimento da realidade, tal projeto destina-se também a incentivar à leitura, deixada de lado muitas vezes, demonstrando a sua importância para uma melhor escrita, para a interpretação de textos e para a argumentação.

Objetivos específicos:

Incentivar a leitura e comparação de diversos veículos de informação.

Proporcionar o contato com os fatos da realidade, vistos por diferentes pontos de vista;

Incentivar a leitura em sala de aula e em casa.

Colaborar para o aperfeiçoamento da escrita e interpretação de textos.

Propiciar um melhor entendimento da realidade que cerca os jovens.

Incentivar os alunos a cidadania no meio social.

Buscar conhecer a história dos meios de comunicação e sua participação histórica na sociedade.

Metodologia:

Leitura de jornais, revistas e blogs na internet de alguns jornalistas.

Comparação de diferentes pontos de vista de um mesmo fato.

Discussão em sala desses pontos de vista e exposição da opinião pessoal dos alunos.


Durante algumas trocas de mensagens sugeri ao professor Daniel a inclusão de alguns blogs e foco para algumas temáticas. Nessas últimas semanas o 'caso' dos cartões corporativos, cujas despesas podem ser acompanhadas via rede, e a suposta epidemia de febre amarela foram assuntos bastante tratados tanto na mídia institucional como na desenvolvida pelos blogueiros do movimento Sem-mídia e do Sivuca. São dois assuntos importantes, relacionados aos gastos públicos e à saúde pública. A distância como a mídia institucional e os sem mídia trataram a questão merece estudo.

Segue algumas indicações de sites interessantes para se discutir a atuação da mídia corporativa no país:
Direito à comunicação
Palanque do Blakão
Congresso em Foco
Global Voice
Observatório da Imprensa
Afropress

Veja também nossa relação de links 'Blogs e portais de notícias
'

Indico também a leitura da entrevista do professor Bernardo Kucinski, originalmente publicada na revista Sesc- TV

“Melhor o jornalismo, melhor a democracia”
Bernardo Kucinski - Por Livia Chede Almendary. 27.02.2008


Bernardo Kucinski, jornalista e professor da USP, é conhecido pela contundência e acidez com que critica mídia e política. Na entrevista concedida ao SESCTV, sua crítica aparece como fruto de uma extensa experiência jornalística, sempre associada à reflexão e à pesquisa.

*

Qual a relação entre jornalismo e democracia?
Não há democracia sem a livre circulação de opiniões, sem o debate público e você não consegue fazer isso sem ter uma imprensa livre e diversificada. Quanto melhor o jornalismo, melhor a democracia. Do lado oposto, a primeira coisa que precisa ser suprimida para acabar com a democracia é a liberdade de informação. Então as coisas estão muito ligadas.


Você faz muitas críticas à mídia de forma geral. Mas, até que ponto a imprensa define a opinião do leitor/espectador?
O jornalismo vive uma contradição porque ele é um direito inerente às pessoas, à democracia, mas, é também uma indústria. E os grandes jornais, as grandes revistas e as grandes cadeias de televisão são empresas que querem lucro, e têm interesses políticos. O espaço público é um espaço de disputa permanente de grupos de interesse e também um campo de divergências ideológicas naturais, legítimas. Então, uma certa dose de manipulação é praticamente intrínseca ao jornalismo, que por sua vez é uma atividade muito subjetiva: não existe uma verdade sobre os fatos, existem maneiras de vê-los. Por isso, sempre prego, do ponto de vista do jornalismo, a necessidade da honestidade. Você pode tratar o fato como quiser, desde que seja honesto, não distorça a informação. No caso brasileiro, o que acontece hoje é que a imprensa está fazendo tantas jogadas – desonestas – que ela se descolou completamente da realidade. Nas notícias atuais, tudo aparece como negativo, enquanto a vida do povo está melhorando. Nesses casos, quando as informações veiculadas na mídia estão muito descoladas da realidade, a mensagem não é aceita, e a mídia destrói sua própria influência porque exagerou na manipulação. Foi isso que eu acho que aconteceu na reeleição do Lula, que venceu mesmo com a campanha negativa sobre sua re-candidatura.


E você atribui essa má qualidade a quê?
São vários fatores. Praticamente metade do que é publicado nos jornais são matérias de denúncias que muitas vezes não são nem comprovadas, mas tudo é colocado em suspensão. A mídia está moralista, denuncista, anti-governo, e apressadinha. Por exemplo, vi uma notícia de que tantos por cento dos eleitores são analfabetos e não têm nem mesmo o ensino fundamental completo. Então, um crítico da mídia foi lá pesquisar os dados e não era nada disso. O dado se referia a um momento passado em que as pessoas se inscreveram para obter o título de eleitor e declararam o grau de escolaridade. Mas não é o grau de escolaridade que têm hoje, porque muitos eleitores se inscrevem com 18 anos, 16 anos.


Qual o papel da televisão na percepção e na definição do espaço público?
Todos dizem que a televisão tem um papel dominante justamente por estar presente em praticamente todos os lares brasileiros. Mas eu acredito que este papel está se modificando hoje, porque há uma grande fragmentação da televisão, e há uma maior diversidade de mensagens. Acho também que a influência do rádio é muito minimizada. O que está em todo lugar hoje não é bem a televisão. É, na verdade, a imagem televisiva. Você entra no elevador, no ônibus, no metrô e tem uma telinha. É como se ela fizesse parte do meio ambiente. O homem moderno se forma no ambiente midiático. Hoje, a criança de seis ou sete anos já sabe operar um computador. A mídia não apenas informa, ela forma a pessoa. Ela é o próprio espaço público.


Mas é um espaço público dentro de um sistema de interesses privados...
Essa confusão entre público e privado sempre existiu. Por exemplo, fala-se muito da vida privada de um político – que está com câncer, que tem uma amante. Mas é de interesse público ou privado? Esse conflito é clássico no jornalismo e é resolvido caso a caso. Mas o que acontece atualmente é uma coisa diferente, mais profunda. Houve quase que a destruição da demarcação entre público e privado com a internet. Porque na internet – e correlatos, como, celulares, palm top etc. – não há um protocolo que defina o que é correspondência privada e o que é pública. É tudo misturado no mesmo meio, usando os mesmo recursos. Um email pode transmitir um manifesto político, mas também pode ser uma mensagem privada. Ninguém pede licença para te mandar nada, invadem sua caixa postal. Houve uma destruição de várias demarcações e o que a internet fez nesse sentido é uma verdadeira revolução: dissolução entre público e privado, entre quem é jornalista e quem não é, entre leitor e escritor. Precisamos recriar a demarcação entre público e privado.


Como você avalia a chegada da TV pública?
É muito importante que ela seja construída, implementada. É uma coisa que está na Constituição: criar um sistema público de rádio e de televisão. Mas, na minha opinião, está muito na defensiva, envergonhada, com medo de errar, de ser criticada, e está sendo operada dentro de uma mesma visão que rege a TV privada. Torço para que dê certo, mas estou cético quanto ao seu sucesso.


O Brasil ainda vai assistir à democratização da mídia?
Acho essa expressão equivocada. Você não democratiza a mídia. A mídia são os veículos. É preciso, sim, democratizar o mercado: não se pode permitir o monopólio, o oligopólio, o cartel, o acúmulo de propriedade de concessões, que a lei proíbe. Isso é o que tem que ser feito. O resto é por conta da sociedade civil. E nesse aspecto, a sociedade civil avançou muito. Se você for a uma banca de jornal, você vê a enorme quantidade de publicações. Por trás dos jornalões, das grandes emissoras, existe uma explosão de mídias. A imprensa hoje é muito heterogênea. Você tem revista de filosofia, de esporte, de turismo, de moda, várias de história, de ciência, de tudo o que você possa imaginar. Tem a internet. E isso é mídia, muito mais diversa do que há dez anos. Além disso, há um pouco mais de massa crítica. Sempre houve esse movimento, como a Frente Nacional pela Democratização da Comunicação. Mas, agora temos o movimento das rádios comunitárias, observatórios de mídia, ongs. E foi nesse contexto que o governo conseguiu criar a lei da TV pública.

Agora para refletir:

Esta capa esteve nas bancas. O texto escrito pelo diretor de arte da revista "Época" e publicado no site da revista é auto-explicativo:

"Capa da semana

Para fazer a capa desta semana foi feita uma pesquisa de imagem muito específica.
O presidente da Venezuela Hugo Chávez teria que estar com cara ameaçadora.
Foi muito difícil, ele tem uma cara gorda e simpática, não dá medo em ninguém.
A imagem que mais chegou próximo do objetivo foi a que ele está de boina vermelha olhando para o lado esquerdo. Para deixar a imagem ainda mais forte, o nosso ilustrador Nilson Cardoso fez um trabalho de manipulação na imagem original, até chegar a este resultado final.
O que acham? Façam seus comentários.

Marcos Marques - diretor de arte"

Extraído de Viomundo

PROFESSOR COELHO: "INTENÇÃO FOI DEMONIZAR A PARCERIA"

Os alunos de uma disciplina do programa de pós-graduação da Escola de Comunicações e Artes entrevistaram, em 1997, o jornalista Fernando Salgado, que na época era o responsável pelo jornal “O Metalúrgico” do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. Os pós-graduandos ficaram surpresos com a honestidade e veemência do editor do mencionado periódico sindical. Ele classificou a sua atividade como marketing ideológico e não como jornalismo, porque só lhe interessava o lado dos trabalhadores.

Essa lembrança vem a propósito da matéria de Henrique Costa, publicada no sitio da ONG Direito à Comunicação, Presença de empresas de mídia no curso de jornalismo da USP gera reação dos alunos. Os desdobramentos que podem ser extraídos do conteúdo e da edição dessa matéria são tão ricos quanto a posição clara e ética de Fernando Salgado e de sua obra sindical, apesar da oposição de comportamento dos dois profissionais.

Pela abertura do citado comentário, termo que aqui se usa na acepção dos estudos de gênero de Manuel Chaparro, é possível verificar que a pauta da referida matéria não foi pesquisada e que havia uma clara intenção de demonizar a “parceria” que foi explorada no texto.

Uma das acusações que consta da costura dos argumentos é que as mídias alternativas não estão presentes na estrutura do curso de Jornalismo da ECA.

Para demonstrar que não houve cuidado em contextualizar o tema, é preciso citar, como exemplo de que esse tipo de afirmação não é sustentável, a entrevista com o próprio Salgado. Ela faz parte do livro “Edição no Jornalismo Impresso” (Edicon/ECA-USP/NJC, 1998). Faltou, também, constar da matéria as tentativas feita pelo Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA, nos últimos cinco anos, para reativar discussões importantes para a formação dos jornalistas, que teve em seu currículo, até meados da década de 80, disciplinas como “Jornalismo Sindical”, “Jornalismo Comunitário” e “Folkcomunicação”.

Estudo de Caso

Atualmente a estrutura curricular do curso de Jornalismo da ECA optou por discutir Jornalismo e não Mídia, o que justifica a existência das disciplinas de Estudos de Caso (Jornalismo Televisionado, a Imprensa Diária, Jornalismo Radiofônico, Jornalismo Social, Jornalismo e Políticas Públicas, Imprensa Semanal).

Este detalhe, ponto fundamental na construção do currículo, não foi discutido na matéria, contrariando a prática jornalística que recomenda a apresentação de contextos claros e precisos para fornecer aos leitores a perspectiva que deu origem ao fato jornalístico. Pelo menos é isso que pregam os manuais e livros dedicados à argumentação.

A matéria, além de sonegar as origens históricas da colaboração das empresas e organizações (Folha de S. Paulo, Editora Globo, Abril, TV Globo, Andi e Anjos), dá às disciplinas uma dimensão que elas não têm na grade curricular.

Historicamente, a primeira experiência da relação empresa/escola, na ECA, aconteceu em 1987, quando a Folha cedeu o jornalista Cláudio Abramo para ministrar um curso que tratou de edição jornalística. Portanto, não se confirma a afirmação de crise de identidade alardeada pela matéria. Essa experiência, que já conta mais de 20 anos, está sendo aprimorada e é uma identidade da estrutura.

O projeto que teve o menor tempo de planejamento foi o de Jornalismo Social, que começou a ser discutido no dia 04.08.2004 e foi ministrado pela primeira vez no segundo semestre de 2007, como curso de extensão gratuito e será disciplina optativa no segundo semestre de 2008.

Onde mora o problema?

Outro ponto não contemplado na matéria foi a informação de que as disciplinas optativas livres não fazem parte do núcleo duro da formação do aluno de jornalismo. A consulta à grade curricular, mesmo que feita superficialmente, demonstrará que esse tipo de disciplina corresponde a 11,22% do total da carga horária. As disciplinas mencionadas na matéria, são complementares e concorrem com mais de uma centena de disciplinas optativas da área de ciências humanas oferecidas aos alunos da Universidade .

O cerne da construção do saber na área está na articulação de conteúdos das disciplinas obrigatórias, dispostas em um desenho curricular elaborado e fundamentado de acordo com parâmetros científicos. Atentando para princípios recomendados por César Coll, há um esforço para que esse desenho curricular se transforme em verdadeiro instrumento de trabalho e de indagação, que se consubstancia na oportunidade de os alunos criarem, exercitarem e exercerem a crítica em relação ao mercado e ao que lhes é ensinado. Em outras palavras, o aluno está em sintonia com a sua formação crítica e tem nas disciplinas optativas o campo de verificação das teorias e, no feedback dessa verificação, as indagações que dão vida à teoria. Não se trata, pois, de uma via de mão única.

Este desenho significa que o currículo de Jornalismo da ECA não trabalha com a perspectiva de adestramento. Não tem fórmulas prontas porque não considera estático o mercado, na sua acepção ampla. E não entende o Jornalismo como mera mídia, mas como uma manifestação do direito fundamental do cidadão que será alimentada pelos seus egressos. Talvez esteja aí a grande diferença entre a formação proporcionada pelo curso de Jornalismo da ECA e algumas escolas cuja administração está voltada ao atendimento exclusivo das necessidades do mercado ou subordinada a princípios ideológicos reducionistas.

Uma organização curricular aberta e participativa, como a que foi brevemente descrita, só pode ser mantida quando o corpo docente rechaça a visão de ensino como forma de moldar mentes para a aceitação de conceitos com propósitos determinados. Os estudantes que contam com estruturas similares são incentivados a aprimorar a visão crítica da sociedade, do mercado e do capital, sem os filtros ideológicos que castram a capacidade de questionamento dos fatos.

Outro equívoco que deve ser apontado na matéria é a imprecisão do acordo entre a instituição e as empresas e organizações. Não há uma parceria, no sentido amplo do termo. O que se faz é um convite onde a receptora (ECA) se mantém fiel à sua meta de formar jornalistas e a outra parte (empresas e organizações) concorda em ceder parte de sua capacidade produtiva para que os propósitos de ensino projetados sejam alcançados. É possível que existam dificuldades administrativas para a implementação de similar estrutura em cursos privados. As relações de lucro entre as duas entidades poderiam tornar a oferta de disciplinas optativas onerosa, e poderiam contrariar os projetos acadêmico e pedagógico criados para atender principalmente às metas econômico-financeiras impostas pela instituição bancária que garante a manutenção da instituição de ensino.

Teoria da conspiração

A matéria contamina o leitor levando-o a acreditar na existência de uma conspiração que tem o curso de jornalismo da ECA como “parceiro” das grandes instituições de comunicação. Seria desgastante apresentar os fatos da história recente do país em que alunos e professores do curso de Jornalismo da ECA constam como atores na luta contra a ditadura e a favor das liberdades de informação e opinião, justamente porque faz parte do DNA dessa instituição a defesa intransigente da democracia e da pluralidade de opiniões.

Na angulação do tema, o autor da matéria poderia ter usado os instrumentos da própria USP para requerer o fechamento do curso, como foi sugerido em duas ocasiões do texto. É possível que a cruzada, encetada pelo autor, tivesse maior êxito se, por exemplo, recorresse ao “Código de Ética” que, no preâmbulo, afirma que a “USP adota os princípios indissociáveis aprovados pela Associação Internacional de Universidades, convocada pela Unesco em 1950 e em 1998, a saber:

1) o direito de buscar conhecimento por si mesmo e de persegui-lo até onde a procura da verdade possa conduzir;

2) a tolerância em relação a opiniões divergentes e a liberdade em face de qualquer interferência política;

3) a obrigação, enquanto instituição social, de promover, mediante o ensino e a pesquisa, os princípios de liberdade e justiça, dignidade humana e solidariedade, e de desenvolver ajuda mútua, material e moral, em nível internacional.”

Para não ferir o mencionado Código de Ética, outras ilações constantes do texto publicado não serão comentadas. Com sabedoria, a Universidade de São Paulo recomenda que “a relação com os demais profissionais da área deve basear-se no respeito mútuo e na independência profissional de cada um, buscando sempre o interesse profissional” (Art. 18)


Prof. José Coelho Sobrinho
Do curso de Jornalismo da ECA/USP

Extraído de Vi o mundo