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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Acadêmicos amestrados

Por Idelber Avelar

[Quarta-Feira, 2 de Dezembro de 2009 às 16:26hs]

Se um marciano aterrissasse hoje no Brasil e se informasse pela Rede Globo e pelos três jornalões, seria difícil que nosso extra-terrestre escapasse da conclusão de que o maior filósofo brasileiro se chama Roberto Romano; que nosso grande cientista político é Bolívar Lamounier; que Marco Antonio Villa é o cume da historiografia nacional; que nossa maior antropóloga é Yvonne Maggie, e que o maior especialista em relações raciais é Demétrio Magnoli. Trata-se de outro monólogo que a mídia nos impõe com graus inauditos de desfaçatez: a mitologia do especialista convocado para validar as posições da própria mídia. Curiosamente, são sempre os mesmos.

Se você for acadêmico e quiser espaço na mídia brasileira, o processo é simples. Basta lançar-se numa cruzada contra as cotas raciais, escrever platitudes demonstrando que o racismo no Brasil não existe, construir sofismas que concluam que a política externa do Itamaraty é um desastre, armar gráficos pseudocientíficos provando que o Bolsa Família inibe a geração de empregos. Estará garantido o espaço, ainda que, como acadêmico, o seu histórico na disciplina seja bastante modesto.

Mesmo pessoas bem informadas pensaram, durante os anos 90, que o elogio ao neoliberalismo, à contenção do gasto público e à sanha privatizadora era uma unanimidade entre os economistas. Na economia, ao contrário das outras disciplinas, a mídia possuía um leque mais amplo de especialistas para avalizar sua ideologia. A força da voz dos especialistas foi considerável e criou um efeito de manada. Eles falavam em nome da racionalidade, da verdade científica, da inexorável matemática. A verdade, evidentemente, é que essa unanimidade jamais existiu. De Maria da Conceição Tavares a Joseph Stiglitz, uma série de economistas com obra reconhecida no mundo apontou o beco sem saída das políticas de liquidação do patrimônio público. Chris Harman, economista britânico de formação marxista, previu o atual colapso do mercado financeiro na época em que os especialistas da mídia repetiam a mesma fórmula neoliberal e pontificavam sobre a “morte de Marx”. Foi ridicularizado como dinossauro e até hoje não ouviu qualquer pedido de desculpas dos papagaios da cantilena do FMI.

Há uma razão pela qual não uso aspas na palavra especialistas ou nos títulos dos acadêmicos amestrados da mídia. Villa é historiador mesmo, Maggie é antropóloga de verdade, o título de filósofo de Roberto Romano foi conquistado com méritos. Não acho válido usar com eles a desqualificação que eles usam com os demais. No entanto, o fato indiscutível é que eles não são, nem de longe, os cumes das suas respectivas disciplinas no Brasil. Sua visibilidade foi conquistada a partir da própria mídia. Não é um reflexo de reconhecimento conquistado antes na universidade, a partir do qual os meios de comunicação os teriam buscado para opinar como autoridades. É um uso desonesto, feito pela mídia, da autoridade do diploma, convocado para validar uma opinião definida a priori. É lamentável que um acadêmico, cujo primeiro compromisso deveria ser com a busca da verdade, se preste a esse jogo. O prêmio é a visibilidade que a mídia pode emprestar – cada vez menor, diga-se de passagem. O preço é altíssimo: a perda da credibilidade.

O Brasil possui filósofos reconhecidos mundialmente, mas Roberto Romano não é um deles. Visite, em qualquer país, um colóquio sobre a obra de Espinosa, pensador singular do século XVII. É impensável que alguém ali não conheça Marilena Chauí, saudada nos quatro cantos do planeta pelo seu A Nervura do Real, obra de 941 páginas, acompanhada de outras 240 páginas de notas, que revoluciona a compreensão de Espinosa como filósofo da potência e da liberdade. Uma vez, num congresso, apresentei a um filósofo holandês uma seleção das coisas ditas sobre Marilena na mídia brasileira, especialmente na revista Veja. Tive que mostrar arquivos pdf para que o colega não me acusasse de mentiroso. Ele não conseguia entender como uma especialista desse quilate, admirada em todo o mundo, pudesse ser chamada de “vagabunda” pela revista semanal de maior circulação no seu próprio país.

Enquanto isso, Roberto Romano é apresentado como “o filósofo” pelo jornal O Globo, ao qual dá entrevistas em que acusa o blog da Petrobras de “terrorismo de Estado”. Terrorismo de Estado! Um blog! Está lá: O Globo, 10 de junho de 2009. Na época, matutei cá com meus botões: o que pensará uma vítima de terrorismo de Estado real – por exemplo, uma família palestina expulsa de seu lar, com o filho espancado por soldados israelenses – se lhe disséssemos que um filósofo qualifica como “terrorismo de Estado” a inauguração de um blog em que uma empresa pública reproduz as entrevistas com ela feitas pela mídia? É a esse triste papel que se prestam os acadêmicos amestrados, em troca de algumas migalhas de visibilidade.

A lambança mais patética aconteceu recentemente. Em artigo na Folha de São Paulo, Marco Antonio Villa qualificava a política externa do Itamaraty de “trapalhadas” e chamava Celso Amorim de “líder estudantil” e “cavalo de troia de bufões latino-americanos”. Poucos dias depois, a respeitadíssima revista Foreign Policy – que não tem nada de esquerdista – apresentava o que era, segundo ela, a chave do sucesso da política externa do governo Lula: Celso Amorim, o “melhor chanceler do mundo”, nas palavras da própria revista. Nenhum contraponto a Villa jamais foi publicado pela Folha.

Poucos países possuem um acervo acadêmico tão qualificado sobre relações raciais como o Brasil. Na mídia, os “especialistas” sobre isso – agora sim, com aspas – são Yvonne Maggie, antropóloga que depois de um único livro decidiu fazer uma carreira baseada exclusivamente no combate às cotas, e Demétrio Magnoli, o inacreditável geógrafo que, a partir da inexistência biológica das raças, conclui que o racismo deve ser algum tipo de miragem que só existe na cabeça dos negros e dos petistas.

Por isso, caro leitor, ao ver algum veículo de mídia apresentar um especialista, não deixe de fazer as perguntas indispensáveis: quem é ele? Qual é o seu cacife na disciplina? Por que está ali? Quais serão os outros pontos de vista existentes na mesma disciplina? Quantas vezes esses pontos de vista foram contemplados pelo mesmo veículo? No caso da mídia brasileira, as respostas a essas perguntas são verdadeiras vergonhas nacionais.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum de novembro. Nas bancas.

Idelber Avelar

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Telejornalismo Record chega à África

A partir de segunda-feira (15/12/2008) a Record torna-se a primeira emissora brasileira a ter um correspondente internacional sediado no continente africano, inicialmente em Joahnnesburgo, África do Sul.

A idéia é fazer uma cobertura jornalista sem estereótipos e com perspectiva histórica,. A rede Record teve o cuidado até mesmo na escolha do correspondente: Luis Fara Monteiro, um dos poucos jornalistas negros da tv brasileira.

Vejam a chamada para a matéria aqui

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Apocalipse das mídias

Há cerca de 10 anos o Le Monde Diplomatique problematizava as relações promíscuas entre a mídia e a política partidária que de lá pra cá se aprofundaram. Mas o que mais chamou-me a atenção neste texto foram os dados: em 1999 havia no mundo todo 80 milhões de celulares, hoje esse é um número próximo de assinantes somente no Brasil!
É impressionante como a tecnologia se democratizou, ao menos os celulares.
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Ignacio Ramonet
Durante muito tempo a comunicação libertou, porque significava difusão do saber, do conhecimento e da razão contra as superstições e obscurantismos. Agora, impondo-se como obrigação absoluta, inundando todos os aspectos da vida social, política, econômica e cultural, ela exerce uma espécie de tirania. E tende a tornar-se uma das grandes superstições de nosso tempo

Em todas as primeiras páginas, com letras enormes, um único título: "The Sun backs Blair" (The Sun apóia Blair). Tiragem diária de 4 milhões de exemplares, público leitor de 10 milhões, defensor fanático das teses de Margaret Thatcher, o Sun de Londres anunciava, assim, em 18 de março de 97, sua espetacular decisão de apoiar abertamente, nas legislativas britânicas de 1º de maio, o candidato trabalhista Tony Blair, "dirigente dotado de visão, de objetivos e de coragem". E de deixar de apoiar o governo de John Major, ele próprio qualificado em abril de 1992, durante as eleições precedentes de "dirigente visionário, corajoso e determinado"...

Àqueles que se perguntavam sobre as razões de uma tão repentina virada, Trevor Kavanagh, editorialista político do Sun explicou: "Penso que o jornal não modificou sua linha, foram os trabalhistas que mudaram".

Que lições tirar dessa anedota aflitiva ? Ao menos duas. A primeira, política, é que certos partidos social-democratas se converteram a tal ponto ao neoliberalismo que se tornaram, aos olhos de numerosos eleitores, intercambiáveis com a direita conservadora clássica. A segunda, mediática, é que a informação continua a exercer sobre os espíritos uma considerável influência na hora das escolhas eleitorais, e que esta influência, às vezes, se negocia.

Relações políticas suspeitas

O Partido Trabalhista comprou o apoio do Sun? É certo que Tony Blair encontrou-se várias vezes, durante os últimos meses, com Rupert Murdoch, patrão do grupo News Corporation, proprietário do Sun. O apoio deste seria o resultado destes encontros, segundo o jornal francês Libération.

"Deixem-me ser claro", defendeu-se Tony Blair, "nós nunca fizemos acordo com Rupert Murdoch em troca do apoio de seus jornais." Mas, curiosamente, numa outra declaração, publicada no Correspondance de la Presse, Blair admitiu que ele não modificaria "as normas que regem a propriedade cruzada dos jornais e do audiovisual", confirmando assim que, se ganhasse as eleições, ele não tocaria no império mediático de Murdoch, contrariamente aos compromissos assumidos por seu partido...

Magnata da Austrália (possui uma centena de jornais, assim como muitos canais de rádio e de televisão), Rupert Murdoch se tornou célebre em meados dos anos 80 quando quebrou, com o firme apoio do governo de Margaret Tatcher, o sindicato dos operários da imprensa, ligados ao Partido Trabalhista. Controla atualmente um terço da tiragem dos quotidianos britânicos — notadamente com o Sun e o prestigioso Times, e as suas versões dominicais News of the World e Sunday Times. Isto representa uma pequena parte do império News Corporation (10 bilhões de dólares de faturamento) que, no Reino Unido, controla igualmente British Sky Broadcasting (BSkyB), rede de televisão paga por satélite e por cabo (6 milhões de assinantes, uma das sociedades mais rentáveis da Bolsa de Londres), sem concorrente local. E que se preparava, na época das eleições inglesas, para lançar o primeiro serviço de televisão digital por satélite na Grã-Bretanha. Sem dúvida, o projeto não era estranho à decisão do Sun de apoiar Tony Blair, provável futuro primeiro ministro...

News Corporation, da qual Rupert Murdoch possui 30% das ações, é o exemplo tipo do grande grupo multimídia contemporâneo. Nos Estados Unidos, ele controla as edições Harpercollins (550 milhões de dólares de lucro em 1995) [1]; o quotidiano New York Post ; muitas revistas, entre elas TV Guide; a sociedade de produção Twentieth Century Fox (que entre outras, produz a série televisiva "Arquivo X"); a rede de televisão Fox Network, um canal popular (FX); um canal de informação contínua, Fox News Channel (que rivaliza com a CNN, do grupo Time Warner, e com MSNBC, criada pela Microsoft e o canal NBC, da General Electric); uma empresa de marketing e promoção, Heritage Media; assim como uns vinte sites na Internet. No domínio do digital, Murdoch acaba de investir 1 bilhão de dólares para propor, em aliança com Echostar e a companhia telefônica MCI, um serviço de mais de 200 canais aos telespectadores americanos.

Em parceria com as sociedades japonesas Sony e softbank, Murdoch realizou igualmente o projeto de televisão por satélite Japan Sky Broadcasting (J Sky B). Seu grupo já possui um canal de televisão por satélite, Star TV, difundindo muitas dezenas de programas no Japão, na China, na Índia, no sudeste asiático e no leste africano.

Essa profusão de alianças sem fronteiras, de fusões e de concentrações — das quais Rupert Murdoch é um arquiteto exemplar — caracteriza o universo atual das mídias.

Teia de aranha do tamanho do planeta

Na hora da globalização da economia, da cultura global (world culture) e da "civilização única" se coloca em vigência aquilo que alguns chamam de a "sociedade de informação global" (global information society). Esta se desenvolve na medida em que se acelera a expansão das tecnologias da informação que tendem a invadir todos os domínios da atividade humana e a estimular o crescimento dos principais setores econômicos. Uma infraestrutura da informação global (global information infrastructure.) espalha-se como uma teia de aranha com o tamanho do planeta, aproveitando-se dos progressos em matéria de digitalização e favorecendo a interconectividade de todos os serviços ligados à comunicação. Ela estimula em particular a imbricação dos três setores tecnológicos — informática, telefonia e televisão — que convergem e se fundem na multimídia e na Internet.

Há no mundo 1,26 bilhão de televisores (dos quais mais de 200 milhões por cabo e cerca de 60 milhões ligados à um serviço digital), 690 milhões de assinantes de telefones (cerca de 80 milhões de celulares) e cerca de 200 milhões de computadores (30 milhões conectados à Internet). Estima-se que em 2001, o poder da rede Internet ultrapassará o do telefone, que o número de usuários da rede oscilará entre 600 milhões e 1 bilhão e que a World Wide Web contará com mais de 10 mil sites comerciais [2]. O faturamento das indústrias da comunicação, que era de 1 trilhäo de dólares em 1995, poderia elevar-se, segundo La Repubblica, de Roma a 2 trilhões, ou seja, 10 % da economia mundial.

Os gigantes da informática, da telefonia e da televisão sabem que os lucros do futuro encontram-se nesses novos filões que abrem, diante de seus olhos fascinados e cobiçosos, a tecnologia digital. Eles não ignoram que, de agora em diante, seu território não está mais protegido e que os mastodontes dos setores vizinhos os vigiam com instintos carnívoros. A guerra no campo da comunicação é sem dó nem piedade. Quem se ocupava de telefone quer fazer a televisão, e vice-versa; todas as empresas, em particular os possuidores de uma rede física de distribuição (eletricidade, telefonia, água, gás, estradas de ferro, sociedades de auto estradas, etc) aspiram controlar uma parte do novo eldorado, a multimídia.

Os novos senhores do mundo

De uma ponta a outra do planeta, os combatentes são os mesmos, as firmas gigantes que se tornaram os novos senhores do mundo: AT&T (que domina a telefonia planetária), o duo formado pela MCI (segunda rede telefônica americana) e BT (ex- British Telecom), Sprint (terceiro operador americano de longa distância), Cable & Wireless (que controla notadamente Hong Kong Telecom), Bell Atlantic, Nynex, US west, TCI (o mais importante distribuidor de televisão por cabo), NTT (primeiro grupo japonês de telefonia), Disney (que comprou a rede de televisão ABC), Time Warner (que possui CNN), News Corp, IBM, Microsoft (que domina o mercado de programas para computador), Netscape, Intel, etc.

Na Europa, todas as batalhas vêem a disputa entre grupos cujos interesses cruzados e as participações acionárias recíprocas são múltiplas: News Corp., Pearson, (The Financial Times, Penguin Books, BBC Prime), Betelsmann (primeiro grupo de comunicação alemão), Leo Kirch, CLT (RTL), Deutsche Telekom, Stet (primeiro grupo de telefonia alemã), Telefonica, Prisa (primeiro grupo de comunicação espanhol), France Télécom, Bouygues, Lyonnaise des Eaux, Générale des Eaux (que domina atualmente Canal Plus e Havas), etc. As mudanças de controle e as fusões se multiplicam; somente para o ano de 1993, teria havido na Europa, ainda segundo La Repubblica 895 fusões de sociedades de comunicação...

A lógica dominante nessa mutação do capitalismo não é a aliança, mas a absorção para tirar proveito do savoir-faire dos melhores colocados, num mercado que flutua ao sabor de imprevisíveis acelerações tecnológicas ou de surpreendentes "modas" dos consumidores, como o boom da Internet. No coração da nova situação, o fluxo crescente e incessante dos dados: conversações, informações, transações financeiras, imagens, sinais de toda ordem, etc. Isso diz respeito, por um lado, às mídias que produzem estes dados (edição, agências de imprensa, jornais, cinema, rádio, televisão, sites na rede, etc.) e, por outro lado, ao universo das telecomunicações e dos computadores que os transportam, que os tratam, que os elaboram. O objetivo de cada um dos titãs da comunicação é se tornar o único interlocutor do cidadão. Ele quer poder fornecer-lhe simultaneamente as manchetes, as diversões, a cultura, os serviços profissionais, as informações financeiras e econômicas; e colocá-lo em situação de interconectividade através de todos os meios de comunicação disponíveis.

A informação reduzida a mercadoria

Para que essas infraestruturas tenham uma utilidade, é preciso que as comunicações possam circular sem entraves através do planeta, como o vento sobre a superfície dos oceanos. É por isso que, em favor da globalização da economia, os Estados Unidos (primeiros produtores de tecnologias novas e sede das principais firmas) jogaram todo seu peso na batalha da desregulamentação para abrir as fronteiras do maior número de países ao "livre fluxo da informação", isto é, aos mastodontes americanos das indústrias da comunicação e dos divertimentos [3].

Quatro conferências internacionais — Genebra, 1992; Buenos Aires, 1994; Bruxelas, 1995; e Johannesburgo, 1996 — permitiram ao presidente norte-americano Bill Clinton e sobretudo ao vice-presidente Albert Gore, popularizar junto aos dirigentes políticos mundiais suas teses sobre a "sociedade de informação global". Por outra parte, durante os debates que fecharam a Rodada do Uruguai do GATT, em 1994, Washington fez avançar a idéia de que a comunicação deve ser considerada como um simples "serviço" e, por este motivo, regida pela lei geral do comércio.

As telecomunicações de base representam um mercado de 525 milhões de dólares, com um crescimento de 8 a 12% ao ano, e constituem um dos domínios mais rentáveis do comércio mundial. Em 1985, o tempo consagrado pelos usuários, no mundo, às telecomunicações (para falar, passar fax ou transmitir dados) era de 15 bilhões de minutos; em 1995, ele atingia 60 bilhões de minutos ; e, no ano 2000, ele ultrapassaria, segundo a revista Time os 95 bilhões de minutos. Esses números, melhor que qualquer outra argumentação, explicam o jogo formidável da liberalização das comunicações. Em novembro de 1996, os Estados Unidos enfim obtiveram em Manila, durante a 4ª reunião de cúpula da APEC (Associação para Cooperação Econômica na Ásia e Pacífico), a abertura dos mercados dos países desta região às tecnologias da informação para o ano 2000. No mesmo espírito, em Singapura, em dezembro de 1996, a reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) recomendava "uma inteira liberalização do conjunto dos serviços de telecomunicações, sem nenhuma restrição geral. " E em Genebra, no dia 15 de fevereiro de 97, ainda sob a influência da OMC, um acordo sobre as telecomunicações assinado por 68 países abriu, notadamente aos grandes operadores americanos, europeus e japoneses, os mercados nacionais de dezenas de países.

Jaula dos animais selvagens

A União Européia decidiu, por seu lado, a inteira liberalização dos mercados do telefone (sem distinção entre os diferentes suportes: cabo, rádio ou satélite), a partir de 1º de janeiro de 1998. Nesta perspectiva, em previsão de concorrências ferozes no interior de cada mercado nacional, os monopólios são pouco a pouco desmantelados, e os operadores públicos, privatizados. A British Telecom, que se tornou BT, assim como a Telefonica, da Espanha, já foram privatizadas. A France Télécom, que colocou no mercado uma primeira fatia do seu capital a partir de 6 de maio de 97, reforça a sua parceria com o operador público alemão Deutche Telekom, que será privatizado depois do ano 2 000. Os dois operadores, aliás, aliaram-se ao americano Sprint (dos quais cada um possui 10% do capital) e poderiam aproximar-se do britânico Cable & Wireless, que pensa adquirir 80% do capital da Sprint. Desse modo, no momento em que se desfazem os monopólios nacionais, aceleram-se a corrida ao tamanho crítico, para sobreviver num mercado planetário, e a procura de diversificação em todos os setores da comunicação. Tudo isso num clima de competição carnívora, onde todos os golpes são permitidos: "Cada vez que discuto com os grandes do telefone", constata Louis Gallois, presidente da Sociedade Nacional das Estradas de Ferro francesas (SNCF), "tenho a impressão de entrar na jaula dos animais selvagens."

Nesse sentido, podemos efetivamente constatar estes últimos meses como a chegada de grupos de concorrentes de televisão digital provocou violentas confrontações em todo o campo da comunicação. Na Espanha, isso levou a um enfrentamento brutal e direto entre o governo conservador de José Maria Aznar, que para se manter no poder deseja constituir um grupo multimídia influente, e o principal grupo de comunicação, Prisa (El Pais, Radio SER), aliado ao Canal Plus.

Na França, uma guerra total opõe os partidários da televisão por satélite (TPS) e os de CanalSatellite. Entre estes últimos, o movimento mais espetacular viu, em 6 de fevereiro de 97, a transferência de controle da Havas e do Canal Plus l para a Générale des Eaux com o objetivo de "reunir no interior de um único grupo de comunicação todas as competências necessárias ao seu desenvolvimento, notadamente internacional" e de criar "um grupo integrado de comunicação de tamanho mundial". A Générale, por outro lado, confirmou o seu segundo lugar na telefonia francesa ao tornar-se, em 12 de fevereiro, parceira da SNCF, de quem comprou, em parte através da sua filial Cégétel (aliada da British Télécom), a rede de 26 mil quilômetros de linhas telefônicas (dos quais 8,6 mil em fibras óticas).

Um mês antes, Jean Marie Messier, presidente da Générale des Eaux, não pensava de jeito nenhum numa aproximação com a Havas. Por que mudou de idéia tão repentinamente ? "Eu tinha subestimado", respondeu ele ao jornal Le Monde, "a rapidez da convergência entre as indústrias de telecoms e aquelas da comunicação. Logo haverá um único ponto de entrada, nas casas, para a imagem, a voz, a multimídia e o acesso Internet.. Esta evolução já está à caminho: dentro de 12 a 18 meses ela será uma realidade comercial. Esta aceleração me levou a concluir que é preciso ser capaz, para conservar as margens (de lucro), de controlar toda a cadeia: conteúdo, produção, difusão e elo com o assinante".

Ao invés da qualidade, quantidade



"Controlar toda a rede" é a ambição dos colossos da informação. Para consegui-lo, continuam a multiplicar as aquisições e as concentrações. Para eles, a comunicação é, antes de tudo, uma mercadoria que é preciso produzir em enorme volume, a quantidade prevalecendo sobre a qualidade. Em 30 anos, o mundo produziu mais informação que no curso dos 5 mil anos precedentes...Um único exemplar da edição dominical do New York Times contém mais informação do que poderia obter, durante toda a sua vida, um europeu do século 17. A cada dia cerca de 20 milhões de palavras de informação técnica são impressas sobre diversos suportes (revistas, livros, relatórios, disquetes, CDs). Um leitor capaz de ler mil palavras por minuto, durante 8 horas por dia, precisaria de um mês e meio para ler a produção de um único dia; e, ao final deste período, ele teria acumulado um atraso de cinco anos e meio de leitura...

O projeto humanista de ler tudo, de tudo saber, tornou-se ilusório e vão. Um novo Pico de la Mirandola [4] morreria asfixiado sob o peso das informações disponíveis. Durante muito tempo rara e onerosa, a informação tornou-se farta e comum. Junto com o ar e a água, ela é hoje o elemento mais abundante do planeta. Está cada vez menos cara, à medida em que sua oferta aumenta, mas (como a ar e a água...) cada vez mais poluída e contaminada.

Libertação ou tirania?

Podemos mesmo nos perguntar se a comunicação não acabou de ultrapassar seu estado ótimo, seu zênite, para entrar numa fase onde todas as suas qualidades se transformam em deficiências, todas as suas virtudes em vícios. Porque a nova ideologia do tudo comunicação, este imperialismo comunicacional, exerce há algum tempo uma autêntica opressão sobre os cidadãos.

Durante muito tempo a comunicação libertou, porque ela significava (desde a invenção da escrita e a da imprensa) difusão do saber, do conhecimento, das leis e das luzes da razão contra as superstições e os obscurantismos de todo tipo. Agora, impondo-se como obrigação absoluta, inundando todos os aspectos da vida social, política, econômica e cultural, ela exerce uma espécie de tirania. E tende a tornar-se uma das grandes superstições de nosso tempo.

É esta mudança qualitativa capital que sentem claramente os cidadãos, cuja decepção em relação às mídias cresce, como provam todas as pesquisas recentes. Nos Estados Unidos, 55% da população estimam que os órgãos de imprensa publicam informações "seguidamente inexatas". A porcentagem era de apenas 34% em 1985, segundo o Le Monde. Os norte-americanos afastam-se igualmente dos jornais televisivos e são apenas 42% a segui-los regularmente (contra 63% em 1993). No Velho Continente, se 87% dos europeus informam-se principalmente pelos jornais televisivos, a desconfiança continua grande.

A reclamação central é contra a espetacularização, a busca do sensacional a qualquer preço, que pode conduzir a aberrações (como vimos no caso de Timisoara, ou durante a guerra do Golfo) e a "falsificações." Na França, "o exemplo mais célebre foi o da reportagem proposta por Jean Bertolino na revista "52 na primeira página", onde Denis Vicentini filmou figurantes numa pedreira de Meudon, fingindo que fossem notívagos povoando as catacumbas de Paris (...) O mesmo tipo de polêmica voltou em janeiro de 1992, com a reportagem em que Régis Faucon e Patrick Poivre d’Arvor fingiam entrevistar Fidel Castro, gravando extratos de uma entrevista coletiva onde o líder cubano respondia a outras questões, de outros colegas" [5].

O exemplo mais recente, ocorrido na Alemanha, terminou com a condenação de um jornalista, Michel Born, 38 anos, a 4 anos de prisão, considerado culpado de falsificar parcial ou totalmente 32 reportagens. Esse falsificador, sabendo que os canais pedem imagens sensacionais, tinha filmado, com a ajuda de atores e de cúmplices, curta-metragens "documentários" sobre uma pretensa seção alemã da Klu Klux Klan, sobre traficantes de cocaína, sobre neonazistas autores de cartas-bombas, sobre trabalho infantil explorado no terceiro mundo, sobre os passadores de imigrantes clandestinos árabes... Comprados por canais inescrupulosos, em particular por Stern TV (televisão filial de semanário Stern que publicou os pseudo diários íntimos de Adolf Hitler...), essas falsas reportagens, que não raro incitam ao ódio, foram vistas por mais de 4 milhões de telespectadores e propiciaram importantes receitas publicitárias.

Sob pressão da publicidade

Publicitários e anunciantes exercem, além disso uma indiscutível influência perversa sobre o próprio conteúdo da informação. Isso pôde ser constatado em 1995 nos Estados Unidos, quando os produtores do programa de informação "60 minutos", considerado o mais sério da rede CBS, realizaram um documentário para denunciar as companhias de tabaco. Essas, foi demonstrado, mentiam, ao informar, nos maços de cigarro, a taxa de nicotina do produto. Provocavam, desse modo, uma maior dependência. A rede CBS censurou o programa. E devíamos descobrir que o fez por duas razões: primeiro, para não entrar num processo que teria baixado suas ações na Bolsa na véspera da sua fusão com o grupo Westinghouse; além disso, porque uma de suas filiais, Loews Corporation, possuia uma sociedade, Lorillard, ela própria produtora de cigarros... Nos dois casos, os interesses do capital e da empresa foram colocados acima da preocupação com a saúde do público [6].

Três meses antes, a rede ABC conheceu uma desventura semelhante. Tendo acusado a Philip Morris de manipular as taxas de nicotina, no programa "Day One", a rede foi ameaçada pelo fabricante de tabaco de um processo e de um pedido de pagamento de perdas e danos de 15 bilhões de dólares. ABC estava, naquele momento, à beira de ser adquirida pela Disney, e o processo teria levado a uma sensível baixa do seu valor na Bolsa. A rede preferiu, então, fazer uma retificação pública que, insultando a verdade, livrava o fabricante de toda suspeita.

Enquanto as passarelas, as ramificações e as fusões entre os grandes grupos de comunicação se multiplicam numa atmosfera de canibalismo feroz, como estar seguro de que a informação fornecida por uma mídia não visará, direta ou indiretamente, a defesa dos interesses de seu grupo em vez dos do cidadão? Num mundo cada vez mais pilotado por empresas colossais que obedecem a uma lógica comercial fixada pela Organização Mundial do Comércio (OMC), e onde os governos parecem bastante ultrapassados pelas mutações em curso, como estar certo de que a democracia será preservada ou ampliada? Num tal contexto de guerra mediática acirrada, onde se enfrentam gigantes pesando bilhões de dólares, como pode sobreviver uma imprensa independente?

Publicado em abril de 97. Traduzido por Maria Regina Pilla.



[1] Ler o dossiê "The Crushing Power of Big Publishing", The Nation, Nova York, 17/3/97

[2] Correspondance de la presse, Paris, 27 de fevereiro e 11 de março de 1997. Ler também Dan Schiller, "Les marchands à l’assaut de l’Internet, Le Monde Diplomatique, março de 1997.

[3] A lógica dominante nessa mutação do capitalismo não é a aliança, mas a absorção para tirar proveito do savoir-faire dos melhores colocados, num mercado que flutua ao sabor de imprevisíveis acelerações tecnológicas ou de surpreendentes "modas" dos consumidores, como o boom da Internet. No coração da nova situação, o fluxo crescente e incessante dos dados: conversações, informações, transações financeiras, imagens, sinais de toda ordem, etc. Isso diz respeito, por um lado, às mídias que produzem estes dados (edição, agências de imprensa, jornais, cinema, rádio, televisão, sites na rede, etc.) e, por outro lado, ao universo das telecomunicações e dos computadores que os transportam, que os tratam, que os elaboram. O objetivo de cada um dos titãs da comunicação é se tornar o único interlocutor do cidadão. Ele quer poder fornecer-lhe simultaneamente as manchetes, as diversões, a cultura, os serviços profissionais, as informações financeiras e econômicas; e colocá-lo em situação de interconectividade através de todos os meios de comunicação disponíveis. A informação reduzida a mercadoria

Para que essas infraestruturas tenham uma utilidade, é preciso que as comunicações possam circular sem entraves através do planeta, como o vento sobre a superfície dos oceanos. É por isso que, em favor da globalização da economia, os Estados Unidos (primeiros produtores de tecnologias novas e sede das principais firmas) jogaram todo seu peso na batalha da desregulamentação para abrir as fronteiras do maior número de países ao " livre fluxo da informação", isto é, aos mastodontes americanos das indústrias da comunicação e dos divertimentos [[Ler Armand Mattelart, "Les nouveaux scénarios de la communication mondiale", Le Monde Diplomatique, agosto 1996 e La Mondialisation de la communication, PUF, coleção Que sais-je? , Paris, dezembro 1996.

[4] Pico de la Mirandola (1463-1494), sábio italiano do Renascimento que se distinguiu pela extensão dos seus conhecimentos.

[5] Trecho extraído do livro Le journal télévisé: Politique de l’information et information politique, de Arnaud Mercier. Editado pela imprensa da Fondation nationale des sciences politiques, Paris, 1997, p. 13.

[6] Ler Serge Halimi, "Industriels solidaires", Le Monde Diplomatique, novembro 1995.

Fonte: Le Monde Diplomatique, dez/1999

terça-feira, 26 de agosto de 2008

A revista Veja e a educação como mercadoria


Os meios de comunicação em geral têm dado uma contribuição relevante ao debate sobre o processo de melhoria da qualidade do ensino. Ao apontar falhas e mazelas no sistema de ensino e mostrar o que resultou de positivo nas mudanças que têm sido introduzidas nos últimos tempos, eles participam, de algum modo, do mutirão nacional que empolga a todos.

À onda de boas notícias parece à primeira vista ter-se juntado também a revista Veja, que dedica uma matéria de capa ao tema (edição de 20/08/2008), a pretexto de chamar atenção para os “primeiros sinais de inflexão para cima na curva da qualidade”. Na verdade, o objetivo da matéria é denunciar, com base em pesquisa realizada pela CNT/Sensus, “a mediocridade que se perpetua”, mediocridade que a revista vai identificar na orientação pedagógica atual, de que estaria imbuída a maioria dos professores, e em alguns textos de livros didáticos, de reconhecida inadequação.

A matéria de Veja não mereceria nossa atenção não fosse o fato de que ela não se inscreve na linha de melhoria da qualidade que tem orientado os analistas da educação. A revista Veja não pretende melhorar o que está aí. Muito longe disso, o que pretende é demolir em seus fundamentos o sistema de educação brasileiro, ao agredir frontalmente o conceito de educação pública, nos termos em que esta é concebida na Constituição Federal, assim como nos inúmeros documentos da UNESCO, sem falar das várias declarações sobre direitos humanos firmadas ao longo das décadas pelo conjunto das nações. Veja vai ainda mais longe: investe contra o conceito de educação que acompanha a história humana desde os primórdios civilizatórios até aos mais recentes documentos da ONU, a saber, a educação como capacitação para a vida em sociedade.

De forma oportunista, a matéria não investe diretamente contra os resultados educacionais obtidos no governo Lula, amplamente aprovados pelos pais. Ela visa, na empreitada de sua desqualificação, a fulminar o conceito de educação como tal, ou seja, educação como construção da cidadania e como escola da democracia - conceitos que se constituem em fundamento de todos os sistemas defendidos pelos grandes pensadores da Educação - de Platão a Rousseau, de John Dewey a Pestalozzi, de Rudolf Steiner a Paulo Freire.

Inspirada na proposta educacional do economista Milton Friedman - cujas idéias estão na base do pensamento neoliberal e do projeto tucano de educação para o Brasil, assim como praticado no governo FHC - a revista Veja, desta vez, parece ter conseguido superar-se a si mesma no desserviço que tem prestado aos leitores brasileiros, ao se alinhar à mais tosca, individualista e perniciosa proposta de organização da sociedade, se é que à “educação para o mercado” corresponde algo dotado dos atributos da “educação”, “organização” ou “sociedade”.

Em lugar de escola para a construção da cidadania, Veja propõe a educação como mercadoria, que exigiria como ambiente para a realização das transações apenas o mercado, a única ‘disciplina social” reconhecida. Nada além disso. Somente o mercado seria capaz de assegurar a liberdade, para o desempenho individual e profissional dos indivíduos, além de se apresentar como única medida da eficiência e garantia da eficácia.

Nenhuma referência à sociedade, instituição desprovida de sentido, no dizer de Margaret Thatcher, ex-primeira ministra da Grã-Bretanha e prócer do oportunismo neoliberal. A referência à sociedade, como princípio e diretriz do ensino, segundo sugere a matéria de Veja presta-se apenas a desviar a atenção dos alunos do essencial (que seria o acúmulo quantitativo de conhecimento e a submissão à ordem instituída), doutriná-los com ideologias retrógradas e tornar a escola dependente do Estado, instituição inimiga da liberdade individual.

Por isso, o Estado precisa ser reduzido à impotência, como condição para que possam florescer - em lugar das virtudes cívicas, inúteis e prejudiciais ao curriculum produtivista - as virtudes mercantis de compradores e vendedores. Assim, a revista Veja sonha com alunos desprovidos da mais leve nesga de consciência social, dispostos a aprender somente português e matemática, deixando-se aos cuidados dos proprietários da revista - e, por extensão, dos demais proprietários dos meios de produção em geral - a questão de dispor sobre o que fazer deles. O aluno como objeto, ou como produto, eis o ideal de Veja para a educação. Ou, como mostrava o diálogo entre pai e filho numa charge de jornal: O pai pergunta: “Filho, o que você vai ser quando crescer?” O filho responde: “O que a televisão quiser”.

A revista Veja ignora que, divorciada da referência à sociedade, a escola deixaria de existir, ao sucumbir sob os efeitos devastadores do mercado, que tem como única referência a vitória sobre o concorrente numa disputa encarniçada, desprovida de qualquer consideração moral. Nisso, a publicação peca por falta de originalidade. Joseph Townsend, um político inglês do século dezoito, ao argumentar contra a Lei dos Pobres, apontava como exemplo a ser seguido pela sociedade humana (que identificava com o mercado) o “equilíbrio natural” resultante da luta pela sobrevivência entre espécies animais. Por “equilíbrio natural”, Townsend entendia o espetáculo de carnificina universal oferecido por hienas contra zebras, cães contra ovelhas, chacais contra antílopes e cascavéis contra ratos e assim por diante.

É dizer que o ideal de educação pelo mercado preconizado por Veja faz-nos recuar para aquém do Humanismo Renascentista ou do Iluminismo, atirando-nos a todos numa nova idade das trevas, da qual se tenham abolido - em nome do individualismo autista do “homo oeconomicus”, - as regras da convivência humana, tão penosamente construídas ao longo de milênios. Lança-nos a todos num estado de primitivismo que não é próprio sequer dos animais. Como afirma o grande educador norte-americano John Dewey, “mesmo os cães e os cavalos têm o seu comportamento modificado em contato com seres humanos”. Por que, então, não fazer da educação um instrumento de mudança social? - sugere Dewey.

É nesse contexto que precisa ser compreendida a investida contra Paulo Freire, educador de renome internacional, reduzido por Veja ao “autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização”. Veja desrespeita a inteligência do leitor, ao fazer questão de ignorar que Paulo Freire, ao lado de Josué de Castro e de Milton Santos encontra-se entre os brasileiros acadêmicos mais conhecidos no exterior. O sistema de busca do Google registra 1,65 milhão de ocorrências de Paulo Freire, número somente comparável, entre os grandes nomes de educação no Ocidente, a John Dewey, com 1,63 milhão; Pestalozzi, com 1,75 milhão; e Rudolf Steiner, com 2,52 milhões.

Na Wikipédia, Paulo Freire recebe o mesmo tratamento. É considerado “um dos pensadores mais notáveis na história da pedagogia mundial”, segundo informa a versão em espanhol da enciclopédia eletrônica; ou como “um dos mais influentes pensadores da educação do século vinte”, segundo a versão em inglês. Aí pode ler-se que a Pedagogia Crítica de Paulo Freire inspirou a criação de dois institutos de educação na América do Norte: um no departamento de Educação na Universidade da Califórnia, um dos mais prestigiados no ranking da revista US News & World Report, e outro na Universidade McGill no Canadá. O verbete Paulo Freire ocorre no Wikipédia nas versões francesa, italiana, inglesa e espanhola entre outras, destacando-se a extensão de sua ocorrência na versão alemã, que lhe reserva um artigo de 21.400 caracteres, o dobro destinado ao cientista e político norte-americano Benjamin Franklin.

A Paulo Freire atribui-se o mérito - universalmente reconhecido pelos vários prêmios internacionais que recebeu, entre os quais o de Educação para a Paz, da UNESCO - de avançar no pensamento educacional, ao promover uma síntese das idéias de seus predecessores, como John Dewey. Para todos eles, o aluno está longe de ser um recipiente passivo no qual os professores depositam o seu estoque de conhecimento. Os alunos são os sujeitos ativos da educação - e o que deles se espera é que comecem por fazer as perguntas, que certamente lhes ocorrem da experiência de sua imersão no ambiente familiar e social. As respostas serão procuradas num exercício de imersão social semelhante, exercício praticado pela humanidade desde que se constitui em sociedade organizada, responsável pelas conquistas da cultura e civilização.

Isso significa dizer que a pedagogia de Paulo Freire - ou de Dewey, a quem Veja covardemente não ousa desqualificar - define a educação como o lugar onde indivíduo e sociedade se constroem, capacitando-se mutuamente para a mudança social, nos termos também definidos no “Relatório da UNESCO sobre Educação para o Século XXI” (1996), onde se assinala que a educação não somente deve promover as competências básicas tradicionais, mas também proporcionar os elementos necessários para se exercer plenamente a cidadania, contribuir para uma cultura de paz e para a transformação da sociedade, para o que se propõem quatro pilares para a aprendizagem: “aprender a conhecer, a fazer, a ser e a viver juntos”.

A escola não pode reduzir-se a um adestramento para a conversão do aluno em mercadoria. O desenvolvimento humano não é sinônimo de mercado nem de crescimento econômico. O mercado ou o crescimento, por si só, não promovem a equidade nem reduzem a pobreza. Desenvolvimento implica eqüidade como resultado do exercício dos direitos sociais - e a promoção da eqüidade é uma tarefa pública, por excelência. Não é possível promover a equidade sem a democracia - e a democracia, longe de ser apenas um método de eleger os governantes, é o modo de se construir e exercitar a vida em comum, em proveito recíproco, a despeito das diferenças. Por isso, como dizia Paulo Freire, “estudar não é um ato de consumir idéias”. A democracia exige cidadãos capazes de criá-las e recriá-las.

Rui Falcão, jornalista e advogado, é deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores. Foi deputado federal, presidente do PT e secretário de governo na gestão Marta Suplicy.

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sexta-feira, 22 de agosto de 2008

A tecnocracia desvairada de Veja

É um fato deplorável, mas real, que os professores, em sua maioria, são mal preparados, e regurgitam em suas aulas os mesmos chavões que ouviram um dia (apenas ouviram, já que, como seus alunos, pouco lêem).

Mas será verdade que devemos nos curvar às formas de capitalismo neoliberal da atualidade? Será que as chocadeiras robotizadas são a solução para as angústias que a população mundial - ricos ou pobres, capitalistas ou socialistas - vivem?

Parece que a Veja quer nos impedir de discutir como o trabalhador deve usar a máquina a seu favor. Quer desclassificar aulas brilhantes como a do Colégio Dom Bosco de Goiânia, conduzidas por professores ativos como Marcos Santos, com os alunos democraticamente colocados em roda, experimentando ares diferentes das quatro paredes de uma sala de aula, e ilustradas por músicas emblemáticas como a dos Titãs. Quer que nos curvemos à tecnologia como o único deus verdadeiro, e que aceitemos, conformados, nossa posição na sociedade, gratos por poder comer um frango de R$ 5,00.

Mas será que a produção agropecuária enormemente acrescida pelo deus-tecnologia está servindo ao propósito básico de manter a humanidade alimentada? Será que essa divindade nos tornou mais fraternos? Não é o que vemos nos noticiários, sob as pontes ou nos faróis.

Veja se lamenta pela derrota de Einstein imposta por Freire. Eu regozijo! Não vamos falar do absurdo da comparação infantil, nem dos erros crassos em livros didáticos, confundidos por Veja com manipulação ideológica, mas por que a estranheza? Claro, a suposta superioridade das Exatas sobre as Humanas (note-se: ambas, ciências). Esse lamento traz o ranço dos anos do pós-guerra, quando se acreditou que a tecnologia faria a humanidade mais feliz e igualitária. Será que conseguimos?

Conheci tão poucos pais que ficaram satisfeitos com a opção de um filho pela pedagogia, no lugar da engenharia que sequer apareceriam numa estatística. Nenhuma escola que tenha equiparado a carga horária de Arte à de Matemática. O número de aulas de que dispõem os professores de geografia e história tão covardemente atacados pela Veja é tão ínfimo que certamente não seria capaz de abalar os alicerces do capitalismo (se assim o quisessem). Ao contrário, as aulas de Exatas, preparadas para manter a ciência em seu status de suprema sabedoria (através da linguagem inacessível e distância do cotidiano que muitos professores insistem em manter, para segurança de sua própria incompetência) e exaltar a sociedade tecnocrata, abarrotam a grade horária, para desespero dos alunos. Não é de se espantar que livros de Exatas, com todos os seus preconceitos, não tenham sido alvo dos ataques de Veja. Em tempo: este que vos escreve é um convicto professor de química.

Convenhamos: certamente preferimos o estereótipo do "velho descabelado" inspirado em Einstein do que o do "velho barbudo", como tão desrespeitosamente Marx é referido na reportagem.

Veja diz que ensinamos para um mundo que acabou. Digo que ainda não conseguimos fazer esse mundo sequer acontecer. Nunca, em mais de dez anos nas salas de aula, consegui me despir das coisas em que acredito. Muitas vezes estava errado (muitas vezes cheguei ao certo pelos meus alunos), mas isso é o que nos faz humanos.

A ciência não é isenta! Não foi a luta da suposta democracia contra o nazismo que criou a bomba atômica? Einstein nem teria tido participação nisso se seu colega Szilard, tão politicamente engajado, não o tivesse convencido a apor sua renomada assinatura na famosa carta entregue a Roosevelt. Foi também a disputa entre capitalismo e socialismo pela hegemonia que lançou homens ao espaço. É nossa obrigação, professores, discutir isso! A neutralidade é tão perigosa quando a ditadura ideológica.

A Veja, citando Arendt, diz que a figura adulta do professor impõe sua ideologia. Se esquece que, passados 50 anos, gradativamente estamos conseguindo que o professor deixe seu pedestal de mestre e conviva como parceiro dos educandos. O mesmo vem acontecendo, timidamente, com outros profissionais, mas muito pouco ainda com os cientistas, os deuses da nossa sociedade capenga. Importante notar que a maioria dos cientistas não quer esse papel: nós é que os entronizamos.

É verdade, os professores pouco sabem a respeito de Marx, Guevara e Freire. Eu mesmo, dos dois primeiros, nada li. Mas também nada sabem sobre Einstein, criando uma visão unilateral e falsa do trabalho dos cientistas: a de que seu único objetivo é o bem da humanidade. É mais fácil para mim acreditar que a única finalidade de Che era libertar os oprimidos da miséria. Não temos que nos perguntar sobre como esses objetivos pretendem ser atingidos, ou o fim justificará os meios?

O desemprego não é alto em "países com baixa inserção tecnológica" pela falta de robôs, mas sim pela falta de qualificação profissional. Daí o importante papel da educação básica, que deve envolver toda a sociedade. Mas a maioria está ausente desse processo, bem como os pais - talvez trabalhando nas chocadeiras robotizadas que garantem nosso frango a R$ 5,00.

Eu gostava de discutir com meus alunos, nas primeiras aulas, que não há uma verdade, mas várias, que dependem das experiências pessoais de cada ser humano. Do ser humano, e não da tecnologia. Esta deve ser mantida em seu lugar, como ferramenta. E a "verdade científica" passa a ser a grande mentira.

Marcelo Dias Pulido
Editor Assistente - Editorial Didáticos Ática
Ciências, Biologia e Química
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segunda-feira, 18 de agosto de 2008

E quem nos livrará do jornalismo das trevas de Veja?

Esta semana Veja reedita a cruzada iniciada por Kamel em setembro de 2007 contra os autores de livros didáticos de História. Desta vez, a revista símbolo dos neocons tupiniquins inclui em seus processos inquisitoriais travestidos de reportagens os professores de História e Geografia concluindo que são todos uns 'incompetentes', passadistas ultrapassados e maus-caráteres por 'incutir ideologias anacrônicas e preconceitos esquerdistas nos alunos'.

Não há nada de novo na matéria de Veja que Kamel já não tenha feito e seus asseclas dado continuidade em matérias publicadas na Época, Estadão, Folha e afins em 2007.

Na reedição de Veja estão presentes as mesmas estratégias que buscam validar o antiesquerdismo doentio de seus editores neocons travestidas de 'verdades científicas'; 'jornalismo de isenção' e outras inverdades que a grande mídia neoconservadora deseja incutir na mente dos leitores.

Pergunto-me como o professor Romano, Villa e Schwartzman ainda se prestam a falar para Veja. Não está suficientemente claro para esses intelectuais que esta revista símbolo do anti-jornalismo buscará encaixar as opiniões acadêmicas (sempre retirando-as de seus contextos) para legitimar a caçada de Veja
contra tudo o que se opõe ao seu projeto ‘arremedo de liberalismo’?

Dentre tantas bobagens, repletas de juízos de valor, tão ideologizadas quanto a crítica que Veja pretende fazer a seus opositores, destaco um trecho no qual a revista acusa os professores brasileiros de idolatrarem figuras que, segundo ela, não trouxeram nenhuma contribuição significativa ao país e/ou humanidade:

"Ou idolatram personagens arcanos sem contribuição efetiva à civilização ocidental, como o educador Paulo Freire, autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização. Entre os professores brasileiros ouvidos na pesquisa, Freire goleia o físico teórico alemão Albert Einstein, talvez o maior gênio da história da humanidade. Paulo Freire 29 x 6 Einstein. Só isso já seria evidência suficiente de que se está diante de uma distorção gigantesca das prioridades educacionais dos senhores docentes, de uma deformação no espaço-tempo tão poderosa que talvez ajude a explicar o fato de eles viverem no passado."

Como levar a sério uma revista que tem a pretensão de qualificar pejorativamente de 'arcano' um dos pensadores mais significativos do século XX , cujas contribuições para a filosofia da educação são reconhecidas entre seus pares no mundo todo?

Como levar a sério um periódico que obriga seus leitores a escolherem (sob pena de serem taxados de ultrapassados e equivocados) entre um educador e um físico teórico e que, excetuando o que a revista denomina de 'civilização ocidental', não reconhece humanidade no resto do planeta?

Como levar a sério uma revista que sequer se dá ao trabalho de conhecer a vasta produção de Paulo Freire e a reduz a 'um método de doutrinação esquerdista'?

Freire afirma que a pedagogia do oprimido, como pedagogia humanista e libertadora é feita de dois momentos distintos: o primeiro, 'em que os oprimidos vão desvelando o mundo da opressão e vão comprometendo-se na práxis, com a sua transformação; o segundo, em que, transformada a realidade opressora, esta pedagogia deixa de ser do oprimido e passa a ser a pedagogia dos homens em processo de permanente libertação'. E o pensador complementava que em qualquer um destes momentos, fosse nos trabalhos educativos como parte do processo de organização dos oprimidos ou na educação sistemática como projeto político educacional de uma sociedade revolucionária, 'será sempre a ação profunda, através da qual se enfrentará, culturalmente, a cultura da dominação". (FREIRE, 1968: 44)

Não podemos afirmar que uma revista tão desinformada e capaz de subverter tanto os fatos e valores é um representante genuíno da ‘cultura de dominação’ da qual falava Freire e diante da qual os educadores comprometidos com a transformação da realidade opressora deveriam se opor. Veja não pode ser associada à cultura de espécie alguma, nem mesmo à dominante, pois o que esta revista produz é lixo cultural.

Veja sequer tem um pensador conservador à altura capaz de debater com um pensamento de esquerda do naipe da produção de Paulo Freire. Esse arremedo de revista nem é original em suas acusações a Freire: repete as mesmas falas dos ditadores e censores do período militar dirigidas ao educador libertário, reproduz a mesma ladainha preconceituosa contra a pedagogia freiriana que recentemente alguns procuradores ultraconservadores do MP-gaúcho que desejavam criminalizar o MST produziram. Veja só se dá ao trabalho de papagaiar tudo que existe de mais retrógrado no país, incluindo aí o jornalismo kameliano.

Não há debate no mundo de Veja, não há conflitos de interesses e projetos políticos que se opõem. Em Veja existe o dicotômico e tedioso mundo do ‘bem contra o mal’, do ‘liberalismo estereotipado versus o esquerdismo estereotipado’, do Brasil ‘ame ou deixe-o’, dos ‘cristãos versus os infiéis’. O mundo de Veja é um binômio irreal, sem graça e sem importância no qual somos obrigados a escolher entre a filosofia da educação de Paulo Freire e teoria da relatividade de Albert Einstein. Não podemos buscar conhecer as diferentes contribuições destes dois importantes homens do século XX.

Talvez seja por isso que ao comemorar 40 anos, Pedagogia do Oprimido segue viva e original estimulando historiadores e educadores a refletirem sobre as contribuições e os limites da extensa e rica produção freiriana e Veja (que também faz quarenta anos) no máximo servirá aos historiadores interessados em pesquisar a capacidade de degradação de um veículo de comunicação: ao longo de quatro décadas quais diferenças existem entre a época áurea sob direção de Mino Carta e a era dos bobos da corte feito os Reinaldos e Mainardis, arremedos mal feitos dos neocons? Quem tiver paciência que faça a análise.

O que é patente aos leitores críticos que Paulo Freire ajudou a formar é que na atualidade Veja não faz jornalismo, ela arroga a si o direito de julgar produções, personalidades, projetos, políticas públicas e insiste em nos enfiar goela abaixo a sua visão pobre e restrita e deturpada do mundo.

Veja tal qual os velhos senhores feudais encastelados que dominavam o governo, o poder de legislar e o poder de Justiça em suas possessões, sequer chegou ao século XIX onde ela julga estarem estagnados os professores que critica. A revista parou na Idade das Trevas seja qual for esse tempo-espaço (façam suas escolhas, qualquer um serve, desde que tenha sido uma era de truculência, intolerância e sectarismo bem ao estilo Veja - inquisição moderna, o terror, a ditadura, o fascismo, o nazismo, o macarthismo ou a era Bush de Guantânamo e Abugrai).

O que Veja ainda não descobriu é que os professores, proprietários de escolas e pais cada dia mais sabem distinguir o jornalismo medieval do estilo Veja do bom jornalismo produzido por profissionais menos subservientes e ignorantes. Veja precisa entender que quarenta anos de Pedagogia do Oprimido fez diferença positiva em nosso país, que grande parte da população pouco a pouco briga por sua cidadania, pelo direito de pensar, opinar, refletir e se recusa a permanecer na Idade das Trevas sob a batuta do tribunal arrogante de Veja. Pais e professores cada vez mais abrem mão, de bom grado, do jornalismo medieval produzido por Veja.

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Fonte: Revista Veja

Educação Ideologia
Prontos para o século XIX

Muitos professores e seus compêndios enxergam o mundo de hoje como ele era no tempo dos tílburis. Com a justificativa de "incentivar a cidadania", incutem ideologias anacrônicas e preconceitos esquerdistas nos alunos


Monica Weinberg e Camila Pereira

VEJA TAMBÉM

Tema para reflexão: vale a pena usar chocadeiras artificiais para acelerar a produção de frango? Deu-se com isso o início de uma das aulas de geografia no Colégio Ateneu Salesiano Dom Bosco, de Goiânia, escola particular que aparece entre as melhores do país em rankings oficiais. Da platéia, formada por alunos às vésperas do vestibular, alguém diz: "Com as chocadeiras, o homem altera o ritmo da vida pelo lucro". O professor Márcio Santos vibra. "Você disse tudo! O homem se perdeu na necessidade de fazer negócio, ter lucro, exportar." E põe-se a cantar freneticamente Homem Primata / Capitalismo Selvagem / Ôôô (dos Titãs), no que é acompanhado por um enérgico coro de estudantes. Cena muito parecida teve lugar em uma classe do Colégio Anchieta, de Porto Alegre, outro que figura entre os melhores do país. Lá, a aula de história era animada por um jogral. No comando, o professor Paulo Fiovaranti. Ele pergunta: "Quem provoca o desemprego dos trabalhadores, gurizada?". Respondem os alunos: "A máquina". Indaga, mais uma vez, o professor: "Quem são os donos das máquinas?" E os estudantes: "Os empresários!". É a deixa para Fiovaranti encerrar com a lição de casa: "Então, quem tem pai empresário aqui deve questionar se ele está fazendo isso". Fim de aula.

Os dois episódios, ambos presenciados por VEJA, não são raridade nas escolas brasileiras. Ao contrário. Eles exemplificam uma tendência prevalente entre os professores brasileiros de esquerdizar a cabeça das crianças. Parece bobagem, uma curiosidade até pitoresca num mundo em que a empregabilidade e o sucesso na vida profissional dependem cada vez mais do desempenho técnico, do rigor intelectual, da atualização do pensamento e do conhecimento. Não é bobagem. A doutrinação esquerdista é predominante em todo o sistema escolar privado e particular. É algo que os professores levam mais a sério do que o ensino das matérias em classe, conforme revela a pesquisa CNT/Sensus encomendada por VEJA. Pobres alunos.

Divulgação

"Capitalismo selvagem"
Colégio Dom Bosco, de Goiânia: Titãs e crítica às chocadeiras artificiais na aula de geografia

Eles estão sendo preparados para viver no fim do século XIX, quando o marxismo surgiu como uma ideologia modernizante, capaz não apenas de explicar mas de mudar o mundo para melhor, acelerando a marcha da história rumo a uma sociedade sem classes. Bem, estamos no século XXI, o comunismo destruiu a si próprio em miséria, assassinatos e injustiças durante suas experiências reais no século passado. É embaraçoso que o marxismo-leninismo sobreviva apenas em Cuba, na Coréia do Norte e nas salas de aula de escolas brasileiras. As chocadeiras produzem os frangos vendidos a menos de 5 reais nos supermercados brasileiros, e isso propicia a dose mínima de proteína a famílias que, de outra forma, estariam mal nutridas. A realidade não interessa nas aulas como a do professor Márcio Santos. O que interessa? Passar a idéia de que as máquinas tiram empregos. Elas tiram? Tiraram no começo dos processos de robotização e automação de fábricas nos anos 90. Hoje, sem robôs e máquinas, os empregos nem sequer seriam criados. Mas dizer isso pode desagradar ao espírito do velho barbudo enterrado no novo Cemitério de Highgate, em Londres. Os professores esquerdistas veneram muito aquele senhor que viveu à custa de um amigo industrial, fez um filho na empregada da casa e, atacado pela furunculose, sofreu como um mártir boa parte da existência. Gostam muito dele, fariam tudo por ele, menos, é claro, lê-lo – pois Karl Marx é um autor rigoroso, complexo, profundo que, mesmo tendo apenas uma de suas idéias ainda levada a sério hoje – a Teoria da Alienação –, exige muito esforço para ser compreendido. "A salada ideológica resulta da leitura de resumos dos grandes pensadores", diz o filósofo Roberto Romano. Gente que vê maldade em chocadeiras e mal em empresários que usam máquinas em suas fábricas no século XXI não pode ter lido Karl Marx. É de supor que não tenham lido muito, quase nada. Mas são esses senhores que ensinam nossos filhos nas melhores escolas brasileiras – sem, diga-se, que os pais se incomodem com isso.

Mirian Fichtner

Lição de casa
Colégio Anchieta, em Porto Alegre: o professor pede aos alunos que questionem os "pais empresários"

A pesquisa CNT/Sensus ouviu 3 000 pessoas de 24 estados brasileiros, entre pais, alunos e professores de escolas públicas e particulares. Sua conclusão nesse particular é espantosa. Os pais (61%) sabem que os professores fazem discursos politicamente engajados em sala de aula e acham isso normal. Os professores, em maior proporção, reconhecem que doutrinam mesmo as crianças e acham que isso é sua missão principal – algo muito mais vital do que ensinar a interpretar um texto ou ser um bamba em matemática. Para 78% dos professores, o discurso engajado faz sentido, uma vez que atribuem à escola, antes de tudo, a função de "formar cidadãos" – à frente de "ensinar a matéria" ou "preparar as crianças para o futuro". Muito bonito se não estivessem nesse processo preparando os alunos para um mundo que acabou e diminuindo suas chances de enfrentar a realidade da vida depois que saírem do ambiente escolar. Para atacar um problema, o primeiro passo é reconhecer sua existência. Esse é o mérito da pesquisa CNT/Sensus.

Divulgação

Ódio às máquina
Na sala de aula e nos livros, a tecnologia recebe a culpa pelo aumento do desemprego no mundo

Adversária do exercício intelectual, a ideologização do ensino pode ser resultado em parte também do despreparo dos professores para o desempenho da função. No ensino básico, 52% lecionam matérias para as quais não receberam formação específica – 22% deles nunca freqüentaram faculdade. Para esses, os chavões de esquerda servem como uma espécie de muleta, um recurso a que se recorre na falta de informação. "Repetir meia dúzia de slogans é muito mais fácil do que estudar e ler grandes obras. Por isso, a ideologização é mais comum onde impera a ignorância", diz o historiador Marco Antonio Villa. A questão não é exatamente nova na educação. Meio século atrás, a filósofa alemã Hannah Arendt já alertava para o equívoco de fazer das aulas um lugar para a doutrinação ideológica, qualquer que fosse o matiz. Em A Crise na Educação, ela dizia: "Em vez de (o professor) juntar-se a seus iguais, assumindo o esforço da persuasão e correndo o risco do fracasso, há a intervenção ditatorial, baseada na absoluta superioridade do adulto". Ao refletirem sobre o atual cenário, os especialistas concordam com a idéia central da filósofa. Está claro, e a própria experiência mostra isso, que o viés político retira da escola aquilo que deveria, afinal, ser seu atributo número 1: ensinar a pensar – verbo cuja origem, do latim, significa justamente pesar. Diz o sociólogo Simon Schwartzman: "O verdadeiro exercício intelectual se faz ao colocar as idéias e os juízos numa balança, algo que só é possível com uma ampla liberdade de investigação e de crítica".

Alexandre Battibugli

Consumo, esse vilão
Na cartilha, as sociedades de consumo se prestam a estimular a futilidade e poluir o ambiente

Não é o caso na maioria das salas de aula. Muitos professores brasileiros se encantam com personagens que em classe mereceriam um tratamento mais crítico, como o guerrilheiro argentino Che Guevara, que na pesquisa aparece com 86% de citações positivas, 14% de neutras e zero, nenhum ponto negativo. Ou idolatram personagens arcanos sem contribuição efetiva à civilização ocidental, como o educador Paulo Freire, autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização. Entre os professores brasileiros ouvidos na pesquisa, Freire goleia o físico teórico alemão Albert Einstein, talvez o maior gênio da história da humanidade. Paulo Freire 29 x 6 Einstein. Só isso já seria evidência suficiente de que se está diante de uma distorção gigantesca das prioridades educacionais dos senhores docentes, de uma deformação no espaço-tempo tão poderosa que talvez ajude a explicar o fato de eles viverem no passado.

Entre as figuras históricas e da atualidade mais citadas em classe está, como não poderia deixar de ser, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As referências a Lula são contidas. O presidente brasileiro obtém aprovação menor entre os professores, segundo relatam os estudantes, do que aquela com que a sociedade brasileira em geral o brinda. Ele tem 70% de avaliação positiva dos brasileiros, mas na boca dos professores esse índice cai para 30% – com 27% de citações negativas e 43% de neutras. Ressalte-se aqui que é um ponto louvável para os mestres o fato de, como mostram os números relativos a Lula, eles não fazerem proselitismo eleitoral em classe – mesmo que seja preciso relevar o fato de o ditador venezuelano Hugo Chávez ter merecido 51% de citações positivas. A neutralidade e o comedimento em relação a Lula desautorizam a interpretação de que os professores tentam direcionar o voto dos alunos, o que seria desastroso. É sinal de que sua pregação, mesmo equivocada, se mantém no nível das idéias – o que é excelente.

Joedson Alves

Contrários à doutrinação
O advogado Miguel Nagib (sentado) fundou a ONG Escola Sem Partido, junto com outros pais: todos acharam na cartilha dos filhos exemplos de ideologia

"Eu e todos os meus colegas professores temos, sim, uma visão de esquerda – e seria impossível isso não aparecer em nossos livros. Faço esforço para mostrar o outro lado", diz a geógrafa Sonia Castellar, que há vinte anos dá aulas na faculdade de pedagogia da Universidade de São Paulo (USP) e escreveu Geografia, um dos best-sellers nas escolas particulares (livro que tem dois de seus trechos comentados por VEJA na reportagem seguinte). "Reconheço o viés esquerdista nos livros e apostilas, fruto da formação marxista dos professores. Mas não temos nenhuma intenção de formar uma geração de jovens socialistas", diz Miguel Cerezo, responsável pelo conteúdo publicado nas apostilas do COC (de onde foram extraídos quatro trechos comentados pela revista). À luz de outra pesquisa em profundidade feita pelo Ibope em colaboração com a revista Nova Escola, editada pela Fundação Victor Civita, os professores da rede pública revelam que, para eles, o principal problema da sala de aula é, de longe (77%), a ausência dos pais no processo educativo. Repousam na colaboração entre pais e professores a correção dos rumos do ensino no país e a aceleração da curva de melhora de desempenho que começa a se desenhar. A questão do excesso de ideologização é um desses problemas que podem ser abordados em conjunto por pais e professores. Demanda para o diálogo existe. O advogado Miguel Nagib fundou, há quatro anos, em Brasília, a ONG Escola Sem Partido, com o objetivo de chamar atenção para a ideologização do ensino na sala de aula. Nagib se incomodou com os sinais do problema na escola particular de sua filha, então com 15 anos, onde o professor de história gostava de comparar Che Guevara a São Francisco de Assis. Foi ao colégio reclamar. Diz Nagib: "As escolas precisam ficar sabendo que muitos pais não concordam com essa visão".

Com reportagem de Camila Antunes e Marcos Todeschini

Para saber mais:

Não deixe de acessar: Veja e a mercantilização do ensino

Dossiê da Revista NovaE sobre Veja e seu anti-jornalismo

Dossiê do Nassif e o Caso de Veja